Dra. Padula Anderson e Dr. Hanzelmann: sem o SUS é a barbárie?

Este texto importante, celebrando os 30 anos de existência oficial do Serviço Único de Saúde (SUS) foi elaborado em parceria  de Dra.Maria Inez Padula Anderson  o do  Dr.Ricardo Hanzelmann, ambos da diretoria da Sociedade Brasileiria de Medicina da Família e Comunidade- SBMFC. O contexto é um cenário de desmonte das políticas públicas e perdas de direitos sociais num dos países mais iniquos do mundo.Este texto representa um movimento em prol da reflexão e faz parte dos compromissos que nos levaram à Diretoria da SBMFC.

                                             Sem o SUS é a barbárie?

Há exatos 30 anos, no dia 19 de setembro de 1990, foi regulamentado através da Lei 8080, o Sistema Único de Saúde brasileiro, o SUS. Somente a partir de 1988, com a promulgação da Constituição Federal de 1988, a Saúde é considerada um dever do estado e um direito de Cidadania.

Antes do SUS, a oferta de serviços de saúde para a população brasileira era fragmentada, restrita, sem organicidade, uma vez que as unidades de saúde não se relacionavam e não havia perspectiva de integração. Milhões de brasileiros e brasileiras eram marginalizados e sempre dependentes de ações filantrópicas para ter direito a algum tipo de assistência que, na maioria das vezes, não cobria suas necessidades. Na época pré SUS, ter acesso a serviços de saúde podia ser considerado um privilégio para poucos, praticamente restrito à parcela da população urbana vinculada ao mercado formal de trabalho.

A lógica do sistema, como em outros países sub-desenvolvidos, era baseada no modelo e na oferta de serviços hospitalares, com foco na doença, que também direcionava a formação médica e das demais profissões da área da saúde. Esta lógica é incoerente com o fato de apenas cerca de 10% da população necessitar de cuidados intra-hospitalares durante um ano.

De fato, todas as pessoas necessitam ter acesso a serviços de diferentes tipos num Sistema de Saúde, mais frequentemente aos cuidados primários, que abrange a maioria das necessidades de saúde da população, ao longo de suas vidas. Estes serviços incluem consultas e tratamento para os problemas de saúde mais prevalentes, além de serviços preventivos, como a oferta de vacinas, passando pelas demandas de serviços de saúde mental, curativos, pequenas cirurgias ambulatoriais,  reabilitação física, entre tantos outros. Também necessitam de serviços mais especializados incluindo a hemodiálise e cirurgias. Enfim, a população necessita ter acesso a diferentes tipos de especialistas, mas, majoritariamente, àqueles que prestam cuidados abrangentes e longitudinais, como é o caso dos que atuam na Atenção Primária à Saúde. Mas, na era pré-SUS, mesmo os cuidados primários oferecidos nos Postos de Saúde, Unidades Básicas e Centros Municipais de Saúde eram fragmentados, baseados em linhas programáticas, e voltados apenas para algumas doenças infecciosas.

Ou seja, o SUS, pautado nos princípios da universalidade, integralidade e equidade, desde o seu nascimento, teve que disputar com o modelo hospitalocêntrico e focado nas doenças, como eixo central da prestação de serviços. Este modelo, interessa mais aos setores privados envolvidos na atenção médico-hospitalar, que têm a doença como parte de um ciclo de prestação de serviços lucrativos. Assim, para chegar até o SUS, foi também necessário um forte movimento em prol da luta contra as desigualdades sociais, o que só se tornou possível com a redemocratização do Brasil, após 21 anos da ditadura civil-militar.

Vale chamar a atenção para o fato de o SUS, desde o princípio, sofrer cronicamente com um orçamento inferior ao necessário para o desempenho das suas funções. Ao lado disso, observa-se ainda uma distribuição iníqua de seus recursos em benefício do setor hospitalar e da iniciativa privada, de tal modo que grande parte dos recursos da saúde no país acaba desviada para atender direta e/ou indiretamente os interesses dos prestadores privados de serviço. Isto quer dizer que a maior parte do dinheiro da Saúde que circula no Brasil vai para o setor privado (os planos de saúde): mais de 55% do total de recursos da Saúde se destina a atender 25% da população no setor privado.

Para a Saúde Pública, temos menos da metade do total de recursos em saúde do país, para atender a todos os brasileiros. O orçamento para Saúde Pública brasileira é muito inferior do que boa parte dos chamados países desenvolvidos. São menos de R$ 50 (cinquenta reais) por pessoa por mês; menos de R$ 2 (dois reais por dia)! Países europeus investem 4 a 5 vezes mais em saúde pública. Por outro lado, um plano de saúde privado, que muitas vezes não oferta todos os serviços cobertos pelo SUS pode chegar a R$ 4.000,00 por mês por pessoa, dependendo da idade e do plano. Mesmo considerando os planos mais “econômicos” (que também oferecem serviços muito restritos) os valores médios são muito mais elevados.

Nestes 30 anos, período relativamente curto para um país de dimensões continentais, e apesar de todas as dificuldades, o SUS se tornou um sistema abrangente, capilar, constituído por um conjunto de ações e serviços de saúde, prestados por órgãos e instituições públicas federais, estaduais e municipais, bem como pelos serviços conveniados ao SUS.

O SUS é reconhecidamente um dos maiores Sistemas Públicos de Saúde do mundo. Sete em cada dez brasileiros dependem exclusivamente do SUS para receber assistência à saúde, são mais de 150 milhões de pessoas. No entanto, todos os brasileiros e brasileiras utilizam serviços do SUS, mesmo aqueles que têm planos privados de saúde.

O SUS abrange um universo amplo e diverso de serviços de saúde – envolvendo ações de promoção, educação, assistência e recuperação da saúde a prevenção de doenças para brasileiros e brasileiras de todas as idades, cores, etnias, faixas etárias, e nível socioeconômico. Atua no nível dos cuidados primários, secundários e terciários de saúde. Está presente em todo o território nacional. Oferta desde as ações de vigilância sanitária, análise da qualidade da água e dos alimentos que se consome, até a oferta do maior programa mundial de vacinação pública e de transplante de órgãos.

A cada ano, são em média 3, 8 bilhões de procedimentos ambulatoriais, 1,3 bilhões de consultas, cerca de 12 milhões de internações, 2 milhões de partos, 900 milhões de exames, 300 milhões de doses de vacinas e imunológicos distribuídos.

Temos serviços do SUS em todos os 5.570 municípios do país. Neste contexto, vale destacar a Estratégia Saúde da Família como um modelo de organizar a Atenção Primária à Saúde que é mundialmente reconhecida como um modelo exitoso e copiado em diversos países. Sessenta e quatro por cento da população brasileira é coberta por equipes da Estratégia Saúde da Família: são 130 milhões de brasileiros que têm acesso direto e facilitado a unidades de saúde próximas do local onde moram. Também vale destacar outros serviços prestados pelo SUS, e que são do reconhecimento nacional ou internacional, como o programa brasileiro de cuidado às pessoas vivendo com HIV e AIDS, o programa de transplante de órgãos, a maior parte das cirurgias cardíacas e o da oferta e distribuição de todos os tipos de medicamentos para praticamente a totalidade dos problemas de saúde que podem ser apresentados por uma pessoa.

Em plena Pandemia do Coronavírus é o SUS que garante as ações de vigilância epidemiológica e mantém um sistema online de notificação dos casos suspeitos para acesso de todos os serviços de saúde do país, sejam eles públicos ou privados. Essa mesma lógica é usada para que tenhamos um dos maiores sistemas de informação em saúde do mundo, que monitora a evolução de muitas doenças, a exemplo da dengue e do sarampo.

Naturalmente que temos desafios a superar, alguns mantidos ou criados pela própria disputa em relação à hegemonia do sistema, especialmente os relacionados à infra-estrutura das unidades de saúde, à valorização dos profissionais de saúde, o aumento da oferta e acesso a exames, entre outros. Na própria Atenção Primária à Saúde, das mais de 40.000 (quarenta mil) equipes, cerca de 5.000 (cinco mil) têm Médicas e Médicos de Família e Comunidade, os especialistas nesta área.

Em um país onde persiste o racismo estrutural e uma profunda desigualdade gênero, onde os atuais governantes manifestam e incentivam atitudes lgbtfóbicas e misóginas, é o SUS que busca atuar sistematicamente para reduzir as iniquidades, garantindo acesso a serviços de saúde para as populações historicamente negligenciadas. Em meio ao crescente processo de desigualdade social, o SUS importa muito para população negra, para as mulheres, para a população moradora das periferias das grandes cidades, para população LGBTQIA+. O SUS enquanto política de Estado, mesmo tão pouco financiado, vem evitando uma tragédia ainda maior nestes tempos de pandemia e de crise econômica e democrática em nosso país.

Não bastasse já o insuficiente investimento desde sua criação, o SUS vem perdendo recursos desde a Emenda Constitucional (EC) 95/2016, a chamada PEC da Morte que congelou recursos para a saúde e a educação desde 2016, apesar da população estar crescendo e ficando mais empobrecida desde então.

Agora, em 2020, o Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (PLDO) 2021 da União, enviado ao Congresso Nacional, segue a regra PEC da Morte, e pode significar a perda de R$ 35 bilhões em 2021.

Temos que garantir mais recursos para o SUS, mais recursos para a Estratégia Saúde da Família e Atenção Primária à Saúde, que são a porta de entrada do sistema e onde se acolhem e resolvem a grande maioria dos problemas de saúde da população, independentemente da idade, da cor da pele, ou da classe social. Garantir equipes completas com médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, agentes comunitários de saúde, com apoio de outros profissionais da saúde, é fundamental para termos uma saúde integral. Temos que ampliar as nossas ações de vigilância em saúde. Investir na garantia da oferta de serviços que garantam a integralidade do cuidado em saúde.

Para os empresários da doença, talvez continue interessando que o SUS não progrida, que não tenha financiamento adequado. O desmonte do SUS facilita o crescimento do setor privado que tem a saúde como negócio. Para a grande maioria da população brasileira, podemos dizer que, sim, sem o SUS é a barbárie.

O SUS é um patrimônio do Brasil e do povo brasileiro. Temos que mobilizar a todos para cuidar e nos responsabilizarmos por este patrimônio.

 

 

 

Oração à Terra ferida, nossa grande e generosa Mãe

Vivemos sob o Covid-19 tempos dramáticos que como um manto de sofrimento e de tristeza se estende sobre toda a humanidade. A doença e a morte quase foram naturalizadas em nosso país, dada a contaminação de milhões de pessoas e mais de 133 mil foram  já vitimadas, deixando famílias, parentes e amigos em profunda prostração por não poderem se despedir, fazer o ritual do velório e o viver o imprescindível luto.

Neste contexto temos que rezar à nossa boa e generosa Mãe Terra para  que tenha piedade de nós, seus filhos e filhas, apesar de todas as ofensas e agressões que por séculos lhe temos inflingido. Ela não é vingativa. Mas nos dá severas lições, como agora com o coronavírus, para aprendermos um outro modo de habitar a Casa Comum, para nos relacionarmos com cuidado,respeito e veneração para com ela, nossa Magna Mater, Grande Mãe, Pacha Mama e Gaia.

Nesse espírito de súplica humilde e com os olhos marejados de lágrimas que fiz esta oração:

 “Terra minha querida, Grande Mãe e Casa Comum!. Vieste nascendo lentamente, há milhões e milhões de anos, grávida de energias criadoras.

Teu corpo, feito de pó cósmico, era uma semente no ventre das grandes estrelas vermelhas que depois explodiram, te lançando pelo espaço ilimitado.

Vieste aninhar-te, como embrião, no seio de uma estrela ancestral, no interior da Via-Láctea, transformada depois em Super Nova. Ela também sucumbiu de tanto  esplendor. Era o primeiro Sol.

E vieste então parar no  seio acolhedor de uma  Nebulosa, onde já, menina crescida, perambulavas em busca de um lar. E a Nebulosa se adensou virando o nosso  Sol, esplêndido de luz e de calor.

Ele se enamorou de ti, te atraiu e te quis em sua casa, junto com Marte, Mercúrio, Venus e outros filhos e filhas, os planetas. E celebrou o esponsal contigo. De teu  matrimônio com o Sol, nasceram filhos e filhas, frutos de  tua ilimitada fecundidade, desde os mais pequenininhos, bactérias, vírus e fungos até os maiores e mais complexos seres vivos. E como expressão nobre da história da vida, nos geraste a nós, homens e mulheres com inteligência,  amorosidade, solidariedade,  veneração e cuidado.

Através de nós, tu, Terra querida, sentes, pensas, amas, falas e veneras. E através de nossos olhos contemplas o céu estrelado onde estão tuas irmãs e teus irmãos. E  continuas crescendo, embora adulta, para dentro do universo rumo ao Grande Atrator que outro não é senão o Seio do Deus-Pai-e-Mãe de infinita ternura. Dele viemos e para ele retornamos com uma implenitude que só Ele pode preencher. Queremos, ó Deus, Pai e Mãe de bondade, mergulhar em Ti e estar em eterna comunhão de amor contigo para sempre junto com a Mãe Terra.

E agora, Terra querida, pensando em todos os sofredores do mundo afetados pelo Covid-19, realizo o gesto de Jesus na força de seu Espírito. Como ele, cheio de unção, te tomo em minhas mãos impuras, para pronunciar sobre ti a Palavra sagrada que o universo escondia e tu ansiavas por ouvir:

Hoc est corpus meum: Isto é o meu corpo. Hoc  est sanguis meus: Isto é o meu sangue”  E então senti: o que era Terra se transformou em Paraíso e o que era  vida humana se transfigurou em vida divina. O que era pão se fez corpo de Deus e o que era vinho se fez sangue sagrado.

Finalmente, Terra, com teus filhos e filhas chegaste em Deus. Te fizeste divina por participação. Enfim em casa.

“Fazei isso em minha memória“. Por isso, de tempos em tempos,especialmente neste momento em que todos teus filhos e filhas sofrem sob a ação perigosa do Covid-19, cumpro o mandato do Senhor. Pronuncio a palavra essencial sobre ti, Mãe querida, e sobre todo  o universo. E junto com ele e contigo nos sentimos o Corpo de Deus, no pleno esplendor de sua glória. Amém,amém,Alleluia”.

 

Leonardo Boff é ecoteólogo e escritor e escreveu: “O parto doloroso da Mãe Terra: a nova etapa da Terra e da Humanidade” a sair no final do ano pela Vozes e a sair em breve:O Covid-19:um contra-ataque da Terra à Humanidade”também pela Vozes.

 

 

David Quammen: o transbordamento (spillover) de um próximo vírus

Publicamos esta entrevista de um dos maiores pesquisadores de vírus do mundo: David Quammen dos Estados Unidos (Montana).Faz-nos compreender o atual Covid-19 e se não mudarmos nossa relação para com a natureza e o contacto com os animais poderemos ser assaltados por vírus ainda mais letais que poderão levar milhões de seres humanos. Ele continua fazendo alertas às autoridades políticas para estarem preparadas mas encontra ouvidos moucos. Não dão importância nem se preparam como ocorreu com o coronavírus que pegou os governos de surpresa e sem preparo de hospitais, respiradores, máscaras de outros insumos  e a  busca prévia de antivirais.Vale escutar o testemunho deste profundo conhecedor que nos pode ajudar a mudar nossa relação para com a natureza. Que futuro teremos? Ele já veio e temos que nos arranjar com essa nova situação criada pelo confinamento social, o distanciamento de conglomerações e o uso consciente de máscaras. Quando terminará? Ninguém pode dizer. Mas seguramente aprenderemos as lições do confinamento e seremos mais amigáveis para com a natureza e seus animais, portadores de vírus. LBoff

David Quammen: “Os humanos somos mais numerosos do que qualquer outro grande animal. Em algum momento haverá uma correção”

Divulgador científico e autor de ‘Spillover’ (transbordamento) explica por que os morcegos estão ligados à origem de tantos vírus, e o que faz o coronavírus tão bem-sucedido

Marc Bassets

Paris – 19 abr 2020 – 15:36 BRT

El Pais 19/04/2020

São cinco da tarde em Bozeman, pequena cidade de Montana (Estados Unidos), onde os espaços são vastos e o distanciamento social não precisa ser imposto à força, porque faz parte da paisagem desde tempos imemoriais.

David Quammen, de 72 anos, está cultivando seu jardim quando o telefone toca. “Passeamos com o cachorro pelo bairro, cumprimento os vizinhos da outra calçada e há três semanas não chego a menos de seis pés [dois metros] de outra pessoa além da minha esposa”, diz ao EL PAÍS o veterano repórter e divulgador científico que anos atrás viajou pelos quatro cantos do planeta perseguindo vírus zoonóticos, ou seja, que passam dos animais para os humanos.

O resultado foi Spillover: Animal Infections and the Next Human Pandemic (“transbordamento: infecções animais e a próxima pandemia humana” em tradução livre), ou Contagio, na tradução espanhola que a editora Debate publicará quinta-feira em ebook e em 14 de maio em papel na Espanha (o livro ainda não foi traduzido para o português). A obra fascina e assusta. Pelo que mostra: o mundo das infecções de origem animal. E pelo que prevê: uma pandemia humana muito parecida com a do vírus que causa a Covid-19. Hoje, é uma das obras de referência para entender o ente microscópico que paralisou o mundo.

Pergunta. O que está ocorrendo o surpreende?

Resposta. De modo nenhum. Tudo − o vírus procedente de um morcego que depois passa para os humanos, a conexão com um mercado na China, o fato de que se trate de um coronavírus − era previsível. É o que os especialistas que entrevistei para meu livro me diziam.

  1. Nada o surpreende?
  2. Sim, a falta de preparação dos Governos e dos sistemas públicos de saúde para enfrentar um vírus como este. Isso me surpreende e me decepciona. A ciência sabia que ia ocorrer. Os Governos sabiam que podia ocorrer, mas não se preocuparam em se preparar.
  3. Por quê?
  4. Os alertas diziam: pode ocorrer no próximo ano, em três anos, ou em oito. Os políticos diziam a si mesmos: não gastarei dinheiro por algo que pode não ocorrer durante meu mandato. É por isso que não se gastou dinheiro em mais leitos hospitalares, em unidades de terapia intensiva, em respiradores, em máscaras, em luvas.
  5. Sem essa falta de preparo, não estaríamos todos confinados?
  6. Exatamente. A ciência e a tecnologia adequadas para enfrentar o vírus existem. Mas não havia vontade política e, portanto, dinheiro, nem coordenação entre Governos locais e nacionais, e entre Governos no mundo. Também não há vontade para combater a mudança climática. A diferença entre isto e a mudança climática é que isto está matando mais rápido.
  7. Por que o morcego está ligado à origem de tantos vírus, do causador da SARS até o ebola, e também do SARS-CoV-2?
  8. Os morcegos parecem super-representados como hospedeiros naturais desses vírus perigosos. Por vários motivos. Primeiro, estão super-representados na diversidade dos mamíferos. Uma de cada quatro espécies de mamíferos é uma espécie de morcego.
  9. Isso significa que há muitos morcegos?
  10. Não se trata simplesmente de que haja muitos quanto ao número, e sim de que existe uma grande diversidade de morcegos. E é possível que cada espécie diferente de morcego tenha suas próprias espécies de vírus. Essa diversidade de espécies oferece uma ampla margem para a diversidade de vírus.
  11. Que outros motivos explicam que os morcegos sejam a origem de tantos vírus?
  12. Os morcegos vivem muito. Um do tamanho de um rato pode viver 18 ou 20 anos. Um rato vive um ou dois anos. Os morcegos aninham juntos em colônias enormes. Vi 60.000 em uma caverna, todos apertados. A longevidade e a massificação são circunstâncias ideais para que os vírus passem sem parar de um indivíduo para outro. E outra coisa: agora há indícios, embora não haja certeza absoluta, de que os morcegos têm sistemas de imunidade que evoluíram para ser mais hospitaleiros para corpos estranhos.
  13. E eles estão cada vez mais perto de áreas urbanas, não é?
  14. Sim. Principalmente os grandes morcegos dos trópicos e subtrópicos. Estamos destruindo seus habitats e eles procuram comida em áreas humanas onde haja hortas e árvores frutíferas nos parques. Tudo isto os aproxima dos humanos, o que, através de suas fezes e sua urina, aumenta as possibilidades de que os vírus se espalhem diretamente ou através dos animais domésticos.
  15. Devemos temer os morcegos?
  16. Não, não. São animais lindos, magníficos, necessários para a integridade dos ecossistemas. A solução não é nos livrarmos dos morcegos, e sim deixá-los em paz.
  17. Como?
  18. Esta pandemia é uma oportunidade para educar, para entender nossa relação com o mundo natural.
  19. Nós, humanos, somos os responsáveis pelo que está ocorrendo?
  20. Sem dúvida. Todos os humanos, todas as nossas decisões: o que comemos, a roupa que vestimos, os produtos eletrônicos que possuímos, os filhos que queremos ter, o quanto viajamos, quanta energia queimamos. Todas essas decisões pressionam o mundo natural. E essas demandas do mundo natural tendem a aproximar de nós os vírus que vivem em animais selvagens.
  21. É a vingança da natureza?
  22. Eu não diria dessa forma, porque sou um materialista darwiniano. Não personalizo a natureza. Não acredito em uma natureza com N maiúsculo capaz de vingança ou de emoções. Os humanos são mais numerosos do que qualquer outro grande animal na história da Terra. E isso representa uma forma de desequilíbrio ecológico que não pode continuar para sempre. Em algum momento haverá uma correção natural. Ocorre com muitas espécies: quando são muito numerosos para os ecossistemas, acontece algo com elas. Ficam sem comida, ou novos predadores evoluem para devorá-las, ou pandemias virais as derrubam. Pandemias virais interrompem, por exemplo, explosões de populações de insetos que parasitam árvores. Aí existe uma analogia com os humanos.
  23. Somos como esses insetos?
  24. Não. Somos muito mais inteligentes do que os insetos da selva. Devemos ser capazes de ver o que está para nos atingir e transformar o choque em um reajustamento de nossa maneira de viver neste planeta.
  25. “Oferecemos mais oportunidades do que nunca para os vírus”, o senhor escreveu.
  26. Porque somos mais e porque estamos mais conectados entre nós. Quando entramos na selva e capturamos um animal selvagem − um roedor, um morcego, um pangolim, um chimpanzé −, e esse animal tem um vírus, e esse vírus salta para nós e descobre que pode se replicar dentro de nós, e que passar de um humano para outro… quando ocorre tudo isso, esse vírus ganhou na loteria. Ele entrou por uma porta que lhe oferece uma enorme oportunidade. Porque somos 7,7 bilhões de hospedeiros em potencial para ele e porque estamos hiperconectados: a peste bubônica matou talvez um terço da população europeia, mas no século XIV não podia passar para a América do Norte nem para a Austrália. O vírus que causa a Covid-19 é um dos mais bem-sucedidos do planeta, juntamente com a cepa pandêmica do HIV. E nós o convidamos a ser tão bem-sucedido.
  27. O que o senhor aprendeu nos últimos três meses sobre os vírus?
  28. Algo que me surpreende é que, até agora, este vírus não está evoluindo muito rápido. Alguns cientistas, como Trevor Bedford em Seattle, coletaram amostras de várias pessoas em diversos momentos e em diferentes partes do mundo e desenharam uma árvore genealógica do vírus. Descobriram que os genomas do vírus não variam muito no espaço e no tempo. O vírus não muda porque não precisa fazer isso. Está sendo tão bem-sucedido − passando de um humano para outro, em todos os países do planeta − que, do ponto de vista da evolução, não está submetido a nenhuma pressão para mudar: já se dá bem sendo como é.
  29. Durante quanto tempo ele pode se dar tão bem?
  30. Até que tenhamos uma vacina. Nesse momento, é possível que tente evoluir. Não é que realmente tente, porque não tem intenção, é apenas um vírus. Mas, por seleção natural, é possível que, acidentalmente, encontre maneiras de driblar a vacina. E então começará a corrida para encontrar vacinas novas e melhores. Mas é o que já fazemos com a gripe: precisamos de uma vacina nova todos os anos, porque muda constantemente.
  31. Enquanto isso, o distanciamento social e o confinamento têm um efeito no vírus?
  32. Sim. Quando nos confinamos, retiramos dele a oportunidade de se espalhar da forma tão ampla e intensa como fez até agora. Uma maneira de pensar sobre pandemias é a seguinte. Em toda população de vítimas potenciais, há pessoas suscetíveis ao vírus. Há pessoas infectadas pelo vírus. Há pessoas mortas. E há pessoas que se recuperaram. E, uma vez recuperadas, é mais difícil que sejam reinfectadas. De modo que se chega a um ponto no qual o número de mortos é alto, o número de recuperados é alto e o número de infectados ainda pode ser alto, mas o número de pessoas suscetíveis pode ser relativamente baixo e estar disperso. Nesse momento, o vírus que está nas pessoas infectadas não tem oportunidades de entrar em contato com as suscetíveis.
  33. E então?
  34. Nesse ponto, a pandemia tende a terminar.

 

Francisco de Asís, icono ecológico de una relación fraternal con cada ser de la naturaleza

La Covid-19 nos remite a un problema ecológico: la reacción de la Madre Tierra y de la naturaleza que, como entes vivos, han reaccionado contra la agresión sistemática que sufren desde hace siglos por parte del voraz proceso productivista que no respeta los límites de sostenibilidad y ha destruido los hábitats de los virus. Estos buscan en otros animales o en nosotros los humanos un nuevo hábitat, de cuyas células se alimentan. Es consecuencia del tipo de civilización científico-técnica que creamos a partir del siglo XVII que trataba a la Tierra y a la naturaleza sin propósito, y cuyo único valor era estar a disposición del uso de los seres humanos, para sacar ventajas de todo tipo, especialmente, económicas.

La visión secular de la Tierra como Magna Mater y Pachamama fue abandonada. Fué considerada como un baúl de recursos ilimitados en función de un proyecto de desarrollo tambien ilimitado, lo que es “una mentira” según la Laudato Si (n.106) por que un planeta pequeño y limitado no soporta un proyecto ilimitado .Sólo modernamente con la nueva cosmología y biología se ha recuperado la noción de la Tierra como un Super Ente vivo que se autoorganiza sistémicamente para mantenerse vivo y producir siempre vida, denominada Gaia.

Hoy, con la Covid-19, la concepción de la Tierra-Gaia y Pachamama de los pueblos andinos, ha adquirido relevancia. Nos muestra la urgencia de rehacer el contrato natural con ella, violado hace mucho, si queremos frenar su contraataque contra la humanidad. Ella ha enviado ya una gama de virus, entre ellos el actual coronavirus, que por primera vez está asolando a todo el planeta. Tales virus, junto al calentamiento global y otros eventos extremos son señales enviadas por la Madre Tierra para que reflexionemos y cambiemos nuestra forma da habitar en ella y nuestro modo destructivo de producción.

La lección que hay que sacar de estas señales es que debemos volver a sentirnos parte de la naturaleza y no sus dueños, y que nosotros los humanos somos la porción inteligente de la Tierra con la misión de cuidar de ella, como condición de nuestra propia supervivencia.

Para eso necesitamos figuras ejemplares que nos muestren que otra relación amigable y no destructiva para con la Madre Tierra y para con la naturaleza es posible. En verdad, es la única que se revela benéfica para ambas partes de este contrato natural.

En Occidente surgió un cristiano de excepcional calidad humana y religiosa que vivió una profunda fraternidad universal con todos los seres de la naturaleza: Francisco de Asís (1284-1226).

En su encíclica de ecología integral, Laudato Si: sobre el cuidado de la Casa Común, el Papa Francisco presenta a San Francisco «como el ejemplo por excelencia del cuidado de lo que es frágil, vivido con alegría y autenticidad. Es el patrono de todos los que estudian y trabajan en el campo de la ecología, amado también por muchos que no son cristianos» (n.10). Dice todavía más: «Corazón universal, para él cualquier criatura era una hermana, unida a ella por lazos de cariño; por eso se sentía llamado a cuidar de todo lo que existe… hasta de las hierbas silvestres que debían tener su lugar en el huerto» de cada convento de los frailes (n.11.12).

El historiador Lynn White Jr. en 1967 en su divulgado artículo “Las raíces históricas de nuestra crisis ecológica” acusaba al judeocristianismo, por causa de su visceral antropocentrismo, de ser el factor principal de la crisis que en los días actuales se ha transformado en un clamor. Por otro lado, reconocía que ese mismo cristianismo tenía un antídoto en la mística cósmica de San Francisco de Asís. Para reforzar la idea sugería que fuese proclamado “patrono de los ecologistas”, cosa que hizo el Papa Juan Pablo II  el día 29 de Noviembre de 1979.

Efectivamente, todos sus biógrafos como Tomas de Celano, San Buenaventura, la Leyenda Perusina y otras fuentes de la época, afirman «la amigable unión que Francisco establecía con todas las criaturas; se llenaba de gozo inefable todas las veces que miraba el sol, contemplaba la luna y dirigía su mirada a las estrellas y al firmamento».

Daba el dulce nombre de hermanos y hermanas a cada criatura, a las aves del cielo, a las  flores del campo y hasta al feroz lobo de Gubbio. Construía fraternidad con los más discriminados como los hansenianos (leprosos) y con todas las personas, como el sultán Melek el Kamel de Egipto con quien mantuvo largos diálogos y mutuamente se admiraban.

En el hombre de Asís todo viene rodeado de cuidado, simpatía y ternura.

El filósofo Max Scheler en su conocido estudio sobre “La esencia y las formas de simpatía” (1926) le dedica brillantes y profundas páginas. Afirma que «nunca en la historia de Occidente surgió una figura con tales fuerzas de simpatía y de emoción universal como encontramos en San Francisco. Nunca más se pudo conservar la unidad y la entereza de todos los elementos como en San Francisco, en el ámbito de la religión, de la erótica, de la actuación social, del arte y del conocimiento» (1926, p.110). Tal vez por esta razón Dante Alighieri lo llamó el “sol de Asís” (Paraíso XI, 50).

Esta experiencia cósmica adquirió una forma genial en su “Cántico al hermano Sol”. Ahí encontramos una síntesis acabada entre la ecología interior con la ecología exterior.

Como mostró el filósofo y teólogo francés, el franciscano Éloi Leclerc (+1977), superviviente de los campos de exterminio nazi, para él los elementos exteriores como el sol, la tierra, el fuego, el agua, el viento y otros no eran apenas realidades objetivas sino realidades simbólicas, emocionales, verdaderos arquetipos que dinamizan la psique en el sentido de una síntesis entre el exterior y el interior y una experiencia de unidad con el Todo.

Estos sentimientos, nacidos de la razón sensible y de la inteligencia cordial, son urgentes hoy si queremos rehacer la alianza de sinergia y de benevolencia con la Tierra y sus ecosistemas.

El gran historiador inglés Arnold Toynbee reflexionó acertadamente: «Para mantener la biosfera habitable durante otros dos mil años, nosotros y nuestros descendientes tenemos que olvidarnos del ejemplo de Pedro Bernardone (padre de San Francisco), gran empresario de tejidos del siglo XIII, y de su bienestar material, y empezar a seguir el modelo de su hijo, Francisco, el más grande de todos los hombres que hayan vivido en Occidente. El ejemplo que nos da San Francisco es que los occidentales debemos imitarlo con todo nuestro corazón, porque es el único occidental que puede salvar la Tierra» (El País, 1972, p. 10-11).

Hoy San Francisco se ha convertido en el hermano universal que está más allá de las confesiones y culturas. La humanidad puede enorgullecerse de haber tenido un hijo con tanto amor, con tanta ternura y con tanto cuidado por todos los seres, por pequeños que parecieran.

Él es una referencia espontánea de una actitud ecológica que confraterniza con todos los seres, convive amorosamente con ellos, los protege contra las amenazas y los cuida como hermanos y hermanas. Él supo descubrir a Dios en las cosas. Acogió con jovialidad las enfermedades y las contradicciones de la vida. Llegó a llamar hermana a la propia muerte. Estableció una alianza con las raíces más profundas de la Tierra y con gran humildad se unía a todos los seres para cantar loores con ellos y no solo a través de ellos, como dice en su Cántico, a la belleza y a la integridad de la creación.

Como arquetipo, Francisco penetró en el inconsciente colectivo de la humanidad, en Occidente y en Oriente y desde allí anima las energías bienhechoras que se abren a la relación amorosa con todas las criaturas, como si estuviésemos aún en el paraíso terrenal (cf.L.Boff, Francisco de Assis: saudade do paraíso, Vozes 1986).

Él nos muestra que no estamos condenados a ser los agresores pertinaces de la naturaleza sino su ángel bueno que protege, cuida y transforma la Tierra en una Casa Común de todos, la comunidad humana y terrenal. Él suscita en nosotros la saudade de una integración que perdimos por causa de la ruptura que establecimos con la naturaleza y por ende con el Creador. Con él nos convencemos de que, por todos los lados, hay todavía señales del paraíso terrestre que nunca se perdió totalmente.

El espíritu de San Francisco, el hermano universal, podemos recrearlo dentro de nuestro interior e irradiarlo hacia el exterior, como lección aprendida del confinamiento social forzado.

*Leonardo Boff es ecoteólogo, filósofo y ha escrito: Francisco de Assis: ternura e vigor, 12 edição, Vozes 2009. San Francisco de Asís, ternura y vigor, 8ª edición, Sal Terrae 2009.

Traducción de Mª José Gavito Milano