A páscoa numa sexta-feira santa prolongada

Como celebrar a páscoa, a vitória da vida sobre a morte, mais ainda, a irrupção do homem novo, no contexto de uma sexta-feira santa de paixão, dor e morte, que não sabemos quando acaba, sob o ataque do coronavírus, indistintamente, à toda a humanidade?

Pesarosos, mesmo dentro desta pandemia, cabe celebrar a páscoa com reservada alegria. Ela não é apenas uma festa cristã mas responde a uma das mais ancestrais utopias humanas: a irrupção do homem novo.

Sempre houve em todas as culturas conhecidas, desde a antiga epopeia mesopotâmica de Gilgamés, passando pelo mito grego de Pandora e chegando à utopia da Terra sem Males dos tupi-guarani, a percepção de que o ser humano assim como o conhecemos deve ser ser superado. Ele não está pronto. Ainda não acabou de nascer. O verdadeiro homem está latente dentro dos dinamismos da cosmogênese e da antropogênese. Comparece como um projeto infinito, portador de potencialidades incontáveis que forcejam por irromper. Intui que só será plenamente homem, então, o homem novo, quando tais potencialidades se realizarem em plenitude.

Todos os seus esforços, por maiores que sejam, esbarraram numa barreira intransponível: a morte. Mesmo o mais velho, chega o dia em que também vai morrer. Alcançar uma imortalidade biológica, conservadas as atuais condições espacio-temporais, como alguns propõem, seria um verdadeiro inferno: buscar realizar o infinito dentro de si e encontrar apenas finitos que nunca o saciam. Sempre está na espera. Talvez o espírito mataria o corpo para poder realizar o infinito de seu desejo.

Mas eis que um homem se levanta na Galileia, Jesus de Nazaré e proclama: “O tempo da espera se esgotou. Aproximou-se a nova ordem a se introduzida por Deus. Revolucionai-vos em vosso modo de pensar e de agir. Crede nessa alvissareira notícia”(cf. Mc 1,15: Mt 4,17).

Conhecemos a saga trágica do profético Pregador:”veio para o que era seu e os seus não o receberam”(Jo 1.11). Ele que “passou pelo mundo fazendo o bem”(At 10,39) foi rejeitado e acabou pregado na cruz.

Mas eis que três dias após, mulheres foram, bem de madrugada, ao sepulcro e ouviram uma voz:”Por que procurais entre os mortos, quem está vivo? Jesus não está aqui. Ressuscitou”(Lc 24,5;Mc 16,6).

Eis o fato novo e sempre esperado:a alvissareira notícia se realizou. De um morto emergiu um ressuscitado, um ser novo. É o sentido da páscoa, a festa central do Cristianismo. Seus seguidores logo entenderam que o Ressuscitado era a realização do sonho ancestral da humanidade: acabou a espera. Agora é o tempo da vida plena sem a morte. Liberto do espaço e do tempo e dos condicionamentos humanos o Ressuscitado aparece, desaparece, está presente com os andantes de Emaus,se apresenta na praia e come com os apóstolos e é reconhecido ao partir o pão.

Os Apóstolos não sabem como defini-lo. São Paulo, o maior gênio do pensamento cristão, escolheu a palavra certa: “Ele é o Adão novíssimo”(1 Cor 15,45). O Adão não mais submetido à morte mas aquele que deixou para trás o velho Adão mortal.

Como que zombando, provoca São Paulo:”Ó morte,onde está a tua vitória? Onde está o espantalho com o qual amedrontavas os homens? A morte foi tragada pela vitória de Cristo (1Cor 15,55). Define-o como sendo “um corpo espiritual” (1 Cor 15,44), vale dizer, é concreto e reconhecível como o corpo humano, mas de forma diferente, com as qualidades do espírito. O espírito possui uma dimensão cósmica. Está no corpo,mas também nas estrelas mais distantes e no coração de Deus. O espiritual é entendido também como a maneira de ser própria do Espírito Santo. Ele está em tudo,move todas as coisas e enche o universo.

Um texto antigo, dos anos 50, do evangelho de São Tomé, diz belamente:”levante a pedra e eu estou debaixo dela, rache a lenha e eu estou dentro dela, pois estarei convosco todos os dias até a plenitude dos tempos”. Levantar uma pedra exige força, cortar lenha demanda esforço. Mesmo ai, está o Ressuscitado, nas coisas mais comezinhas do cotidiano.

Em suas epístolas, especialmente aos Efésios e aos Colossenses, São Paulo desenvolve uma verdadeira cristologia cósmica. Ele “é tudo em todas as coisas”(Col 3,12); “a cabeça de todas as coisas” (Ef 1,10). O  mesmo dirá, no século XX, na linguagem da moderna cosmologia, o palentólogo e pensador Pierre Teilhard de Chardin.

Devemos compreender corretamente a ressurreição. Não se trata da reanimação de um cadáver, como aquele de Lázaro que voltou ao que era antes e acabou morrendo. Ressurreição é a realização plena de todas as potencialidades abscoditas dentro da realidade humana. A morte não possui nenhum domínio mais sobre ele. Efetivamente é o nascimento terminal do ser humano, como se ele tivesse chegado na culminância do processo evolutivo ou o tivesse antecipado. Na forte expressão de Teilhard de Chardin, o Ressuscitado explodiu e implodiu para dentro de Deus.

A páscoa é a inauguração do homem novo, plenamente realizado. Vale para todos os humanos. Portanto, tal evento bem-aventurado não é exclusivo de Jesus. São Paulo nos assegura que nós participamos desta ressurreição:”ele é as primícias (a antecipação) dos que morrem” (1Cor 5,20), “o primeiro entre muitos irmãos e irmãs”(Rom 8,29).

À luz desta festa pascal podemos dizer que a alternativa cristã é esta: ou a vida ou a ressurreição. Alegremente afirmamos e reafirmamos: não vivemos para morrer; morremos para ressuscitar

Leonardo Boff é teólogo e escreveu A ressurreição de Cristo e a nossa ressurreição na morte, Vozes,muitas edição 2012.

 

 

 

Viernes Santo: Jesús sigue crucificado en los crucificados de la historia

En este tiempo del coronavirus que está produciendo miedo y trayendo muerte a muchas personas en todo el mundo, la celebración del Viernes Santo adquiere un significado especial. Hay Alguien que también sufrió y, en medio de terribles dolores, fue crucificado, Jesús de Nazaret. Sabemos que entre todos los que sufren se establece un misterioso lazo de solidaridad. El Crucificado, aunque por la resurrección haya sido hecho el hombre nuevo y el Cristo cósmico, continúa, por eso mismo, sufriendo y siendo crucificado en solidaridad con todos los crucificados de la historia. Así será hoy y hasta el final de los tiempos.

Jesús no murió porque todos tenemos que morir. Fue asesinado como resultado de un doble proceso judicial, uno por la autoridad política romana y el otro por la autoridad religiosa judía. Su asesinato judicial se debió a su mensaje del Reino de Dios, que implicaba una revolución absoluta de todas las relaciones, a su nueva imagen de Dios, como “Papá” (Abba) lleno de misericordia, a la libertad que predicó y vivió frente a las doctrinas y tradiciones que pesaban sobre las espaldas del pueblo, a su amor incondicional, especialmente a los pobres y enfermos a quienes compadecía y curaba y, finalmente, por presentarse como el Hijo de Dios. Estas actitudes rompieron con el statu quo político-religioso de la época. Decidieron eliminarlo.

Tampoco murió simplemente porque Dios así lo quiso, lo cual sería contradictorio con la imagen amorosa de Dios que anunció. Lo que Dios quiso, esto sí, fue su fidelidad al mensaje del Reino y a Él, aunque eso implicase la muerte. La muerte fue el resultado de esta fidelidad de Jesús a su Padre y a su causa, el Reino, fidelidad que es uno de los mayores valores de una persona.

Los que lo crucificaron no podían definir el sentido de esta condena. El Crucificado mismo definió su sentido: una expresión de amor extremo y de entrega sin reservas para alcanzar la reconciliación y el perdón de todos los que lo crucificaron y de solidaridad con todos los crucificados en la historia, especialmente con aquellos que son crucificados inocentemente. Es el camino de la liberación y de la salvación humana y divina.

Para que esa muerte fuese realmente muerte, como última soledad humana, pasó por la tentación más terrible por la que alguien puede pasar: la tentación de la desesperación. Esto hace patente en su grito en la cruz. El choque ahora no es con las autoridades que lo condenaron. Es con su Padre.

El Padre con quien experimentó una profunda intimidad filial, el Padre que había anunciado como misericordioso y con la bondad de una Madre, el Padre, cuyo proyecto, el Reino, había proclamado y anticipado en su praxis liberadora, este Padre ahora, en el momento supremo de la cruz, parece haberlo abandonado. Jesús pasa por el infierno de la ausencia de Dios.

Hacia las tres de la tarde, momentos antes del desenlace final, Jesús grita con fuerte voz: “Eloí, Eloí, lemá sabachtani: Dios mío, Dios mío, ¿por qué me has abandonado?” Jesús está al borde de la desesperanza. Desde el vacío más abisal de su espíritu, surgen preguntas aterradoras que constituyen la tentación más terrible, peor que las tres de Satanás en el desierto.

¿Era absurda mi lealtad al Padre? La lucha sostenida por el Reino, la gran causa de Dios, ¿no tiene sentido? ¿Fueron en vano los peligros que corrí, las persecuciones que soporté, el degradante proceso capital que sufrí y la crucifixión que estoy padeciendo?

Jesús está desnudo, indefenso, totalmente vacío ante el Padre que calla. Este silencio revela todo su misterio. Jesús no tiene nada a lo que aferrarse.

Para los criterios humanos, él fracasó por completo. Su certeza interior se desvaneció. Pero aunque el suelo desaparece bajo sus pies, él continúa confiando en el Padre. Entonces grita con fuerte voz: “¡Dios mío, Dios mío!” En el auge de la desesperación, Jesús se entrega al Misterio verdaderamente sin nombre. Él será su única esperanza y seguridad. Ya no tiene ningún apoyo en sí mismo, solo en Dios. La esperanza absoluta de Jesús solo es comprensible asumiendo su absoluta desesperanza.

La grandeza de Jesús consistió en soportar y vencer esta terrible tentación. Pero esta tentación le proporcionó el despojamiento total de sí mismo, un estar desnudo y un vacío absoluto. Solo así la muerte es realmente completa, en palabras del Credo, un “descender a los infiernos” de la existencia, sin que nadie te pueda acompañar. De ahora en adelante, nadie estará solo en la muerte. Él estará con nosotros porque ha experimentado la soledad de este “infierno” del Credo.

Las últimas palabras de Jesús muestran su entrega, no resignada sino libre: “Padre, en tus manos entrego mi espíritu” (Lc 23,46). “Todo está consumado” (Jn 19,30) “Y dando un fuerte grito, Jesús expiró” (Mc 15,37).

Este vacío total es la condición previa para la plenitud total. El vacío reclama ser llenado. Eso ocurió mediante su resurrección.Es la respuesta del Padre a la fidelidad de su Hijo, a él que pasó por este mundo “haciendo el bien” (Hechos 10,39),curando  a unos y resucitando a otros. Esta resirrección no es la reanimación de un cadáver, como el de Lázaro, sino la irrupción del hombre nuevo (novissimus Adam: 2Cor 15,45), cuyas virtualidades latentes implosionaron y explosionaron en plena realización y floración.

Ahora el Crucificado es el Resucitado, presente en todas las cosas, el Cristo cósmico de las epístolas de San Pablo y de Teilhard de Chardin. Pero su resurrección aún no está completa. Mientras sus hermanos y hermanas permanecen crucificados, la plenitud de la resurrección está en proceso y todavía tiene futuro. Como enseña San Pablo, “él es el primero entre muchos hermanos y hermanas” (Rm 8,29; 2Cor 15,20). Por eso, con su presencia de Resucitado acompaña el viacrucis de dolores de sus hermanas y hermanos humillados y ofendidos.

Está siendo crucificado en los millones de personas que pasan hambre todos los días en las favelas, en los que están sujetos a condiciones inhumanas de vida y de trabajo. Crucificado en aquellos que en las UCI están luchando, sin aire, contra el coronavirus. Crucificado en los marginados de los campos y las ciudades, en los discriminados por ser negros, indígenas, quilombolas, pobres y de otra opción sexual.

Continúa crucificado en los perseguidos por la sed de justicia, en aquellos que se juegan la vida en defensa de la dignidad humana, especialmente la de los invisibles. Crucificado en todos los que luchan, sin éxito inmediato, contra los sistemas que extraen la sangre de los trabajadores, dilapidan la naturaleza y producen heridas profundas en el cuerpo de la Madre Tierra. No hay en esta vía dolorosa suficientes estaciones para retratar todas las formas por las que el Crucificado/Resucitado sigue siendo perseguido, encarcelado, torturado y condenado.

Pero ninguno de ellos está sólo. Jesús camina, sufre y resucita en todos estos compañeros suyos de tribulación y de esperanza. Cada victoria de la justicia, de la solidaridad y del amor son bienes del Reino que está ya realizándose en la historia, Reino, del cual ellos serán los primeros herederos.

*Leonardo Boff es teólogo y ha escrito: Pasión de Cristo – pasión del mundo, Vozes 2007, Trotta 2002.

Traducción de Mª José Gavito Milano

 

 

Sexta-feira Santa: Jesus continua crucificado nos sofredores e sofredoras de hoje.

Neste tempo de coronavírus que está produzindo medo e trazendo a morte a muita gente no mundo inteiro, a celebração da Sexta-feira Santa ganha um significado especial. Há Alguém que também sofreu e, em meio a dores terríveis, foi crucificado, Jesus de Nazaré. Sabemos que entre todos os sofredores se estabelece um misterioso laço de solidariedade. O Crucificado, embora pela ressurreição tenha sido feito o homem novo e o Cristo cósmico, continua, por isso mesmo, padecendo e sendo crucificado em solidariedade com todos os crucificados da história. E assim será hoje até o final dos tempos.

Jesus não morreu porque todos morrem. Ele foi assassinado em consequência de um duplo processo judicial, um pela autoridade política romana e outro pela autoridade religiosa judaica. Seu assassinato judicial se deveu à sua mensagem do Reino de Deus que implicava uma revolução absoluta de todas as relações, à imagem nova de Deus como “Paizinho”(Abba) cheio de misericórdia, à liberdade que pregou e viveu face às doutrinas e tradições que pesavam sobre as costas do povo, ao seu amor incondicional, especialmente aos pobres e doentes aos quais se compadecia e sanava e, finalmente, por se apresentar como o Filho de Deus. Essas atitudes rompiam com o status quo político-religioso da época. Decidiram eliminá-lo.

Ele morreu não simplesmente porque Deus assim quis, o que seria contraditório à sua imagem amorosa que anunciou. O que Deus quis, isto sim, foi sua fidelidade à mensagem do Reino e a Ele, mesmo que implicasse a morte. A morte resultou desta fidelidade de Jesus diante de seu Pai e de sua causa, o Reino, fidelidade que é um dos maiores valores de uma pessoa.

Aqueles que o crucificaram não podiam definir o sentido desta condenação. O Crucificado mesmo definiu o seu sentido: uma expressão de extremo amor e de entrega sem resto para alcançar a reconciliação e o perdão de  todos aqueles que o crucificaram e como solidariedade para com todos os crucificados da história, em especial pelos que são inocentemente crucificados. É o caminho da libertação e da salvação humana e divina.

Para que essa morte fosse realmente morte, como última solidão humana, ele passou pela tentação mais terrível que alguém pode passar: a tentação do desespero. Isso se deriva de seu grito na cruz. O embate agora não é com as autoridades que o condenaram. É com seu Pai.

O Pai que ele experimentou com profunda intimidade filial, o Pai que ele havia anunciado como misericordioso e cheio da bondade de uma Mãe, o Pai, cujo projeto, o Reino, que ele proclamara e antecipara em sua práxis libertadora, este Pai agora, no momento supremo da cruz, parece tê-lo abandonado. Jesus passa pelo inferno da ausência de Deus.

É por volta das três horas da tarde, momentos antes do desenlace final. Jesus grita com voz forte: “Eloí, Eloí, lemá sabachtani: Meu Deus, Meu Deus, por que me abandonaste”? Jesus está às raias da desesperança. Do vazio mais abissal de seu espírito, irrompem interrogações assustadoras que configuram a mais terrível tentação, pior do que aquelas três feitas por Satanás no deserto.

Foi absurda a minha fidelidade ao Pai? Sem sentido a luta sustentada pelo Reino, a grande causa de Deus? Foram vãos os riscos que corri, as perseguições que suportei, o aviltante processo capital que sofri e a crucificação que estou padecendo?

Jesus encontra-se nu, impotente, totalmente vazio diante do Pai que se cala. Esse silêncio revela todo o seu Mistério. Jesus não tem nada a que se agarrar.

Pelos critérios humanos, ele fracassou completamente. A própria certeza interior se lhe esvaiu. Apesar de o chão desaparecer debaixo de seus pés, ele continua a confiar no Pai. Por isso grita com voz forte: “Meu Deus, meu Deus!” No auge do desespero, Jesus se entrega ao Mistério verdadeiramente sem nome. Ele lhe será a única esperança e segurança. Não possui mais nenhum apoio em si mesmo, somente em Deus. A absoluta esperança de Jesus só é compreensível no pressuposto de sua absoluta desesperança.

A grandeza de Jesus consistiu em suportar e vencer esta terrível tentação. Mas esta tentação lhe propiciou um despojamento total de si mesmo, um estar nu e um absoluto vazio. Só assim a morte é real completa, no dizer do Credo um “descer aos infernos” da existência, sem que ninguém que possa acompanhar. A partir de agora ninguém mais estará só na morte. Ele estará conosco porque  experimentou a  solidão deste “inferno” do Credo.

As últimas palavras de Jesus mostram a sua entrega, não resignada mas livre: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46). “Tudo está consumado” (Jo 19,30)! “E dando um forte brado, Jesus expirou (Mc 15,37).

Este total vazio é pré-condição para uma total plenitude. Ela veio por sua ressurreição. Esta não é a reanimação de um cadáver,como a de Lázaro, mas a irrupção do homem novo (novissimus Adam:2Cor 15,45), cujas virtualidades latentes implodiram e explodiram em plena realização e floração.

Agora o Crucificado é o Ressuscitado, presente em todas as coisas, o Cristo cósmico das epístolas de São Paulo e de Teilhard de Chardin. Mas sua ressurreição ainda não se completou. Enquanto seus irmãos e irmãs continuam crucificados, a plenitude da ressurreição está em processo e ainda tem futuro. Como ensina São Paulo, “ele é o primeiro entre muitos irmãos e irmãs” (Rm 8,29; 2Cor15,20).Por isso mesmo, com sua presença de Ressuscitado, ele acompanha a via-sacra de dores de seus irmãos e irmãos, humilhados e ofendidos.

Ele está sendo crucificado nos milhões que passam fome a cada dia nas favelas, naqueles submetidos a condições inumanas de vida e de trabalho. Crucificado naqueles que nas UTIs estão lutando, sem ar, contra o coronavírus. Crucificado nos marginalizados dos campos e das cidades, nos discriminados por serem negros, indígenas, qulombolas, pobres e por serem de outra opção sexual.

Continua crucificado nos perseguidos por causa da sede de justiça nos fundos de nosso país, nos que jogam suas vidas na defesa da dignidade humana, especialmente dos feitos invisíveis. Crucificado em todos os que lutam, sem sucesso imediato, contra sistemas que arrancam o sangue dos trabalhadores, delapidam a natureza e produzem profundas chagas no corpo da Mãe Terra. Não há estações suficientes nesta via dolorosa que possam retratar todas as formas pelas quais o Crucificado/Ressuscitado continua sendo perseguido, aprisionado, torturado e condenado.

Mas nenhum destes está só. Ele caminha, sofre e ressuscita em todos estes seus companheiros de tribulação e de esperança. Cada vitória da justiça, da solidariedade e do amor são bens do Reino que já está  se realizando na história, Reino, do qual eles serão os primeiros herdeiros.

Leonardo Boff é teólogo e escreveu: Paixão de Cristo- paixão do mundo, Vozes 2007.

 

 

Maria Helena Machado:Os Profissionais de saúde em tempos de COVID19 – a realidade brasileira

Maria Helena Machado é socióloga e pesquisadora titular da ENSP-FIOCRUZ: machado@ensp.fiocruz.br

A pesquisadora da ENSP-FIOCRUZ faz neste artigo a apologia do SUS (Sistema Único de Saúde) até ha pouco tempo  vinha sendo combatido e ameaçado de privatização e agora se mostrando como o grande instrumento de assistência à saúde da maioria da população brasileira. Ele foi criado em 23 de setembro de 1988 no contexto da nova Constituição que garantia a saúde como um direito de todos e um dever do Estado. O artigo 196 é claro ao afirmar que o acesso ao SUS é universal, igualitário e gratuito. A autora mostra a realidade concreta seja da infra-estrutura hospitalar, do corpo médico, de enfermagem e dos centros de pesquisa.Os números são impressionantes, apesar de poderem ser ainda maiores para atender adequadamente toda a população.

Junco com esta parte objetiva e técnica é decisiva também a dimensão humanística dos que trabalham no SUS. A ética natural é o cuidado que se desdobra nas qualidades profundamente humanitárias da compaixão,da atenção afetiva, da assistência judiciosa quando o paciente perde sua autonomia, a preocupação por devolver-lhe a confiança na vida, ajudá-lo  a acolher sem amargura a condição humana sempre vulnerável e por fim acompanhá-lo no momento da grande travessia. Se for religioso poder sussurar-lhe ao ouvido as consoladores palavras das Escrituras judaico-cristãs:”se teu coração te censura, saiba que Deus é maior que teu coração e vá ao encontro dele”.

Nesses tempos de Corona-vírus é importante que tenhamos os cohecimentos fundamentais do que seja o SUS e o serviço que presta a milhões, enfatizando a competência, a generosidade e a total entrega de seus médicos/as e enfermeiros/as e demais servidores dos hospitais,das UPAS e de outros centros de saúde somando cerca de 3,5 milhões de operadores da saúde. Somos gratos a todos eles, particularmente nestes momentos em que eles, para servir os outros, correm riscos e os enfrentam com responsabilidade e de forma incansável.  Agradecemos à Dra.Maria Helena Machado por esta sua contribuição: Lboff

************************************

O Brasil tem dois patrimônios no âmbito 😮 SUS  e os mais de 3 milhões e meio de Profissionais de Saúde que nele atuam.

Fruto de um processo histórico de três décadas o SUS assegura pela Constituição Federal saúde à toda a população brasileira. Á época de sua criação na década de 1980, o país contava com pouco mais de 18 mil estabelecimentos de saúde, 570 mil empregos de saúde e uma equipe bipolarizada entre médicos e atendentes de enfermagem (nível elementar de escolaridade). Trinta anos depois, o SUS é hoje o maior patrimônio público com mais de 200 mil estabelecimentos de saúde – hospitalares e ambulatoriais, 3 milhões e 500 mil trabalhadores empregados, sendo boa parte de nível superior. A equipe de saúde passa a ser multiprofissional constituída de médicos, enfermeiros, farmacêuticos, odontólogos, nutricionistas, fisioterapeutas, psicólogos, além de técnicos e auxiliares de saúde (enfermagem e demais áreas) (CNES, 2017).

É fato incontestável que o SUS, operado na rede pública (federal, estadual e municipal) e na rede privada/filantrópica conveniada, é sustentado e movido por um enorme contingente de trabalhadores. É fato também que estes trabalhadores são considerados essenciais ao sistema de saúde e imprescindíveis ao processo civilizatório de nosso país.

Ser profissional da saúde significa antes de tudo ser um profissional com vocação e missão especiais. A crise sanitária que impõe o Coronavirus nos ínsita a reafirmar essa premissa: Profissional de Saúde é um Bem Público: um Patrimônio de 3.500.000 de pessoas qualificadas e a serviço desse bem universal chamado Saúde.

É fato também que a sociedade moderna é alicerçada em uma sociedade de profissões, visto que a maioria das atividades humanas evoca profissionalismo para sua execução. O que seja saúde, doença, sanidade ou insanidade ou até mesmo o que é ordem ou desordem, são definidos no construto teórico das corporações profissionais. A saúde é um caso exemplar desse profissionalismo levado a sério.

Utilizando o construto teórico da sociologia das profissões pode-se afirmar que um profissional é um indivíduo que tem controle e domínio sobre um campo do saber que, em nome da primazia da racionalidade cognitiva e orientado para a aplicação desse conhecimento na solução de problemas da realidade dada. O saber tem valor privilegiado e define condutas técnicas e áreas de aplicabilidade da base cognitiva. Esse conhecimento especializado permite a ele exercer a autoridade sobre o paciente, sobre a população. Suas recomendações são levadas a sério não só pelo paciente, como pela população e especialmente pelas autoridades governamentais que prezam pela integridade e o bem estar dos indivíduos.

Em resumo, o saber profissional deve operar como uma espécie de caixa-preta que contém um conjunto de teorias e técnicas indecifráveis para leigos, mas ao mesmo tempo com suficiente visibilidade social para ser diferenciado dos vários saberes socialmente produzidos. O domínio e o monopólio deste saber constituem o fundamento da autonomia das profissões e do seu prestígio social. O conhecimento adquirido pelas profissões da saúde sobre a enfermidade e seu tratamento é no que se constitui a autoridade profissional, uma autoridade cultural que se manifesta pela construção de realidades.

Sendo então, por sua essencialidade e por serem doutos de sua habilidade cognitiva, detentores de saberes especializados e altamente treinados em escolas credenciadas, eles são inseridos no mercado de trabalho em postos de trabalho seja no setor público como no privado. Um mercado de trabalho complexo e altamente profissionalizado. Dados oficiais do IBGE, CNES, etc., atestam essa essencialidade quando registra, por exemplo, a presença de médicos e enfermeiros, mesmo com sinais de má distribuição regional ou até mesmo escassez nos 5.570 municípios, nas 27 unidades da Federação e nas 5 regiões geográficas do país, prestando assistência à população.

O enfrentamento da crise sanitária com o novo Coronavirus, em nosso país, tem sido possível por conta exatamente do SUS e de seus trabalhadores. Estamos falando de profissionais atuando na assistência direta à população nos hospitais e ambulatórios, na ciência e tecnologia produzindo e disponibilizando saberes, conhecimentos, tecnologia e insumos, na gestão pública, enfim, prestando serviços de alto valor social.

Contudo, sabemos das mazelas que o SUS vem enfrentando com crescimento da terceirização e da informalidade da inserção desses profissionais essenciais. As premissas preconizadas pela Organização Internacional do Trabalho no combate ao trabalho precário sendo aquele com contrato de trabalho desprotegido de amparo legal nunca foi tão atual e contemporâneo nesse mundo globalizado. A OIT elenca algumas dimensões inter-relacionadas de precariedade, contrapondo ao trabalho decente:

1) insegurança do mercado de trabalho pela ausência de oportunidades de trabalho;

2) insegurança do trabalho gerada pela proteção inadequada em caso de demissão;

3) insegurança de emprego gerada pela ausência de delimitações da atividade ou até mesma de qualificação de trabalho;

4) insegurança de integridade física e de saúde em razão das más condições das instalações e do ambiente de trabalho;

5) insegurança de renda, fruto da baixa remuneração e ausência de expectativa de melhorias salariais;

6) insegurança de representação quando o trabalhador não se sente protegido e representado por um sindicato.

Infelizmente, a realidade brasileira nos aproxima mais do trabalho precário, nos distanciando, inexoravelmente, do trabalho decente, preconizado pela OIT. Pesquisas recentes com categorias essenciais da saúde (médicos e enfermeiros, por exemplo) nos mostra que esses profissionais têm aumentado sua carga de trabalho diária, trabalhando interruptamente, com salários baixos e se comparados a realidades internacionais isso levaria a constrangimentos do “incomparável”. A adoção do multiemprego e o prolongamento da jornada de trabalho semanal, abdicando do descanso entre um trabalho e outro passa a ser realidade dada em todo o país, seja no setor público como no privado. O desgaste profissional, o estresse, o adoecimento, os acidentes de trabalho acabam assumindo dimensões insustentáveis.

Se estamos falando de um Bem Público é preciso voltar nossas atenções e refletir juntos a essencialidade do trabalho deles, representados aqui pelos Médicos e pela Enfermagem e todos os demais profissionais da saúde que compõem esse contingente de mais de 3 milhões e meio de trabalhadores, expressando nossa gratidão, nosso reconhecimento, nossa confiança e esperança que vencermos essa batalha sanitária.

Salve nosso SUS!
Salve nossos Trabalhadores da Saúde! Salve nossos Patrimônios nacionais!!