Carta de Jessé de Souza a Lula:”o Sr. é luz nas trevas”

             Carta de Jessé de Souza a Lula

Jessé de Souza é um dos mais notáveis sociólogos da nova geração com formação em filosofia e psicologia, formado na famosa Universidade de Heidelberg por onde passaram  Hegel, Max Weber  e outros notáveis do pensamento alemão (e onde tive a honra de ser professor visitante em 2002). Estudou e deu nova nomenclatura às classes sociais à base de pesquisas empíricas. Vários são seus livros, um dos mais conhecidos é A tolice da inteligência brasileira: da escravidão ao Lava-Jato. Recentemente publicou A Classe Média no Espelho.  Faz uma crítica feroz a nossas elites econômicas tradicionais, descendentes da Casa Grande, que se mostram tão fortes que chegam a comprar as demais elites. Emerge como um dos mais contundentes opositores ao governo de Jair Bolsonaro pelo despreparo que apresenta e pelo reacionarismo atrasado, de extrema-direita que caracteriza seu ministério. É talvez hoje alguém que mais conhece a trajetória do nosso pais, ao longo dos séculos. Aprende-se muito ao ler Jessé de Souza pelos muitos dados novos que sustentam suas teses. LBoff

O professor e escritor Jessé de Souza, autor dos livros A Elite do Atraso e A Ralé Brasileira, escreveu uma carta ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso político há quase nove meses.

A farsa de Moro está cada vez mais evidente, só os tolos não percebem

No texto, Souza, que é um estudioso da desigualdade social no Brasil, reconhece o legado de Lula no combate à miséria e na busca por uma distribuição de renda mais igualitária.

“Em uma sociedade doente e cruel como a nossa, dominada pelo ódio covarde aos pobres, o senhor (referindo-se a Lula) é a luz nas trevas. O senhor é o líder popular mais importante dos 500 anos de história deste país e o único que se preocupou com os mais pobres e os mais marginalizados”, escreveu.

Souza destacou ainda que a perseguição judicial a Lula está cada vez mais clara e se materializa na parcialidade do agora ex-juiz Sérgio Moro.  

“A força moral do inimigo construída por mentiras já está caindo. A farsa de Sérgio Moro está cada vez mais evidente. Só um tolo não percebe isso”, afirmou a Lula.

 

Presidente Lula leu “A Classe Média no Espelho” livro de Jessé de Souza.

 Leia a íntegra:

Carta de Jesse de Souza ao Presidente Lula

 

Foto: Jessé Souza na vigília Lula Livre, em frente à Polícia Federal de Curitiba, 12/IV/2018 (Créditos: Joka Madruga/Ag. PT)

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https://lula.com.br/jesse-de-souza-a-farsa-de-moro-esta-cada-vez-mais-evidente-so-os-tolos-nao-percebem/embed/#?secret=9REdI1LvYc

Reflexões sobre um futuro governo enredado em suas contradições

 

Luiz Alberto Gómez de Souza é um cientista político com larga experiência no Brasil e no exterior. Suas análises se caracterizam pela ampla visão nacional e internacional, mas mais que tudo por sua sensatez. Procura distanciar-se das várias tendências partidárias, pois, junto com Betinho, fez uma clara opção pela sociedade civil. Há muito que propõe uma ampla frente ddemocrática de oposição, no sentido de salvaguardar a democracia que ainda temos, embora de baixa intensidade. Todos estamos interessados sobre como será o governo que saiu eleito das eleições deste ano. É uma incógnita, pois o projeto de Brasil não foi explicitado e está sendo montado com figuras discutíeveis e marcadas por algo grau de conservadorismo e de estranhas ideias sobre questões ecológicas e de política internacional. Vale ler este texto, pois poderá nos orientar face àqulo que ainda virá. LBoff

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Tanto no México com o novo presidente Obrador como aqui, os vencedores brandiam aparentemente as mesmas propostas: contra a corrupção e pela segurança. Elas correspondem a uma demanda real da sociedade e assumi-las tem uma forte resposta eleitoral. López Obrador soube captá-las e isso o levou à vitória. Aqui também a candidatura Bolsonaro partiu delas e isso o fez, em parte, crescer nas semanas que antecederam o primeiro turno. Por outro lado, a esquerda e o centro, do PT ao PSDB, não souberam avaliar sua importância, presos a uma posição negativa de defender-se da pecha de corruptos ou o primeiro a esgotar suas energias na liberdade de Lula. Ora, isso os colocou em desvantagem, frente a uma posição positiva e agressiva. Ficar na defensiva é já começar perdendo. Até agora eles não se põe de acordo em que fazer diante do novo governo. Uma parte do PSDB, com João Dória, tende a aderir; outra poderá criar outro partido, com pretensões social-democratas. PSB e PDT ainda não definiram uma estratégia ou como posicionar-se diante da óbvia exigência de formar uma frente opositora. Boulos, do PSOL, é quem acena sobre a necessária frente. O PT continua centrando suas forças na luta por Lula livre. E assim, nessas indefinições e posições limitadas, poderiam deixar caminho aberto para as propostas do futuro governo.

Se esse fosse coerente, com um programa claro, poderia sair fortalecido nos próximos meses, atravessando tranquilo um 2019. O início de um mandato costuma ter boa aceitação na sociedade. Mas eis que, antes mesmo de chegar ao governo, Bolsonaro já se fragiliza diante de enormes contradições e tensões internas, além disso corroído nas entranhas por um implacável fogo amigo.

Uma contradição bem visível está entre a proposta neo-liberal pura de Paulo Guedes, com uma política acelerada de privatizações e, do outro lado, uma resistência de setores militares no tocante a empresas estatais estratégicas (Petrobras, Eletrobras, BB, Caixa…) e defesa da Amazônia, em nome da preservação da soberania. Pensando no passado, é como se tivéssemos lado a lado, juntos num governo esquizofrênico, Roberto Campos e Ernesto Geisel.

Além disso, para piorar ainda mais as coisas, nos encontramos com uma situação inédita no cenário político brasileiro: não chega apenas um novo mandatário, mas uma família se prepara para aboletar-se no governo, Bolsonaro e seus três filhos. Todos quatro tremendamente despreparados e o trio ávido de poder. Como uma família que recebera uma capitania a reger, ou uma grande fazenda a administrar.

O futuro presidente, graças a um atentado que terminou por favorecer-lhe enormemente, não teve necessidade de participar da campanha eleitoral, o que o teria obrigado a precisar suas intenções e propostas. Estas ficaram em intenções gerais e vagas, compensadas por algumas afirmações contundentes, na linha de uma extrema-direita desenhada lá fora por Steve Bannon, ex-assessor estratégico de Trump e por seu recém criado The Movement e alinhadas ideologicamente com os vídeos que o pseudo pensador Olavo de Carvalho envia de sua residência em Petersburg, na Virgínia.

Já os filhos, afoitamente, partiram para ocupar espaços. Assim, vejamos de perto a atuação de cada um deles.

Eduardo, o mais jovem (34 anos), capitão da reserva, deputado federal desde 2015 sem destaque, à sombra do pai, que sai desta eleição como o deputado mais votado da história. Isso lhe dá apetite para tomar posições em vários âmbitos, sem maior experiência. Assim, vai tentar ocupar um espaço ao nível internacional, como uma espécie de chanceler antecipado, deixando de lado o ministro escolhido para o cargo pelo pai. Viajou aos Estados Unidos, por fora do circuito tradicional do Itamarati, encontrando personagens de segundo e terceiro escalão, para prestar vassalagem a um Trump que não o recebeu, mas enfiando um gorro com o nome deste, numa ação absurda para o filho de futuro presidente de uma nação soberana. Foi festejar o aniversário de Bannon, considerado por ele, “ícone no combate ao marxismo cultural”(!). Organizou um encontro de políticos de extrema direita em Foz do Iguaçu, com relativamente baixa representatividade e sem maior impacto. Explicitou a intenção paterna de mudar a embaixada brasileira para Jerusalém, para espanto da futura equipe econômica, que avalia o resultado negativo diante dos clientes do mundo árabe. O próprio Bolsonaro indicou que era uma proposta ainda em estudo. Posicionou-se pela pena de morte, mas logo o pai assinalou que também era um tema em análise. Em declarações informais afirmou num despropósito que, para fechar o STF, bastariam um cabo e um soldado. Retratou-se depois, mas o mal tinha sido feito.

Carlos, o filho do meio (36 anos), vereador desde 2001, foi o mais próximo ao pai durante as eleições. Temperamento irascível, entrou em forte colisão pelo twitter com outros parlamentares do PSL e acabou deixando a equipe de transição. O pai o chama de “meu pitbull”.

O maior problema vem do mais velho, Flávio (37 anos), no quarto mandato na Assembleia Legislativa carioca (ALERJ) e que agora foi eleito senador. O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) acaba de denunciar um amplo sistema de empreguismo na ALERJ, com funcionários de seu gabinete repassando boa parte de seus salários a um assessor, Fabrício Queiroz, da polícia militar, que num ano movimentou mais de um milhão de reais, quantia incompatível com seus bens e entradas. De maneira muito amadorista, nos dias de pagamento, entravam em sua conta, em dinheiro vivo, enormes quantias. Há inclusive um cheque seu para a futura primeira dama. A COAF já tinha essa informação durante o período eleitoral, mas só deixa aparecer agora. Quem estaria interessado nesse vazamento? As organizações Globo e a Folha de São Paulo, no noticiário e por seus articulistas, estão dando um enorme destaque ao fato, que fragiliza Bolsonaro pai, um político que fizera campanha denunciando corrupção.

Assim, temos a futura “família real” exposta à crítica violenta. Numa atitude defensiva, Olavo de Carvalho propõe um forte ataque aos meios de comunicação, retirando patrocínios em retaliação. Isso é desconhecer, lá do seu retiro nos States, o poder da mídia, quarto poder, só piorando a situação do futuro presidente, exposto ainda mais negativamente diante da opinião pública.

Em momentos idênticos, no desprestígio de Jânio e de Collor, eleitos também com sua vassoura moralista e a luta contra os marajás, o caminho ficara aberto aos vices, Jango e Itamar, de opções diferentes. E neste caso? Vemos o vice, general Mourão, tomar cuidadosamente distância.

Como essas contradições irão enfraquecer um governo que chega vítima de tantas confusões? Assim, Bolsonaro se esvai antes mesmo de assumir o governo. Seus problemas não advêm de atos de uma oposição, mas de suas próprias fragilidades. Como agirá quando terá de tomar decisões? Dá a impressão de que até bem pouco atrás não imaginava ganhar e que não teve tempo para treinar de ser presidente.

Esse futuro governo se manterá em 2019, ou poderá ter uma crise terminal durante os próximos meses? Para permanecer, provavelmente terá que entrar em acordo com os setores dominantes e as velhas raposas políticas, que procurarão assessorá-lo e que poderão deixá-lo sob tutela.

Na hipótese de não se sustentar no poder, fica a pergunta: quem viria depois? Mourão não é Jango nem Itamar, opções diferentes dos presidentes. Ou se o vice cair junto, qual seria a alternativa “legal” aberta, para um golpe semicamuflado? Uma certa legalidade formal deveria ser preservada, nascendo porém com uma ilegitimidade de origem. Vimos isso no impeachment de Dilma e na condenação preventiva de Lula.

Nesse último caso, não pareceria surgir no horizonte um golpe militar clássico, mas, uma vez mais, um sinuoso golpe de aparências legais, como tentaram depois da queda de Jânio, enfrentado na ocasião pelo movimento da legalidade de Brizola. Talvez pudessem pensar num governo provisório. Daí a importância da eleição para presidentes da Câmara e do Senado, na linha sucessória. Pelas primeiras sondagens, Rodrigo Maia e Renan Calheiros tem boas possibilidades de manter-se nos postos, apesar da forte oposição de Bolsonaro a Calheiros. O vice já se mostrou favorável a Rodrigo Maia. Numa forte crise de poder, o sistema talvez apostasse num destes políticos tradicionais, experientes em manobras nas sombras.

E depois, no caso de um possível interinato? Não há no horizonte, do lado do sistema, alguém sendo preparado para o que viria adiante? Ou melhor, haveria talvez um, o juiz Sérgio Moro, indicado para a pasta da justiça. Ele sempre esteve pronto a cumprir papéis que lhe têm sido designados. Teria o apoio do mercado e dos Estados Unidos, onde teve sua obediente formação.

E num caso destes, qual seria a força das oposições? Infelizmente parecem, até o momento, à margem.

Tenho insistido na necessidade de uma frente ampla nacional, democrata e popular. Entretanto estas eleições deixaram muitas feridas. Uma frente destas seria impossível sem o PT, que saiu das eleições com a maior bancada na Câmara e poder em alguns estados e no nordeste. Mas um dos maiores empecilhos seria o mesmo PT, avesso a alianças em pé de igualdade, com a tendência de se autodeclarar a força opositora hegemônica. A hegemonia não se proclama, se conquista no processo. Ou melhor ainda, uma frente deveria apagar hegemonias e aceitar o pluralismo. A “geringonça” portuguesa nos trás lições interessantes.

Se Bolsonaro se mantiver, veremos a implementação de medidas antinacionais, autoritárias e antidemocráticas. Se cair, haverá o esforço do sistema dominante para preservar seus privilégios.

Tudo indica que uma alternativa ao sistema deveria construir-se, pacientemente, num processo mais ou menos longo, a partir da sociedade civil e de suas forças sociais mais dinâmicas. Isso exigiria saber escutar o país e suas demandas. As forças populares saberão entrar em sintonia profunda com o país real? Para isso teriam de pôr de lado posições tradicionais e isoladas ou superar bandeiras parciais e colocar-se na escuta no amplo espaço de uma sociedade com dinamismos latentes e enormes carências.

O que acontece neste momento com os jilet jaunes na França traz alguns ensinamentos que merecem uma análise séria.

Luiz Alberto Gómez de Souza é cientista político e ocupou vários pontos em organismos internacionais da ONU como na FAO e em outros.

A emergência planetária e a irresponsabilidadeo do Governo Bolsonaro

Em dezembro de 2108 realizou-se na cidade de Katowice, na Polôniaa a COP 24 da ONU sobre as Mudanças Climáticas (COP24). O Brasil por causa de suas florestas úmidas, especialmente da Amazônia, por ser a potência mundial de água doce (12% do total) e pela maior biodiversiade do planeta e por outras qualidades ecológicas é decisivo para o equilíbrio dos climas da Terra especialmente  pelos seus rios volantes (umidade lançada na atmosfera), pela capacidade de  absorção do dióximo de carbono, do metano e de outros gazes de efeito estufa, produtores de aquecimento global. Estava escandalosamente ausente desse magno evento. A razão é que seu governo e alguns ministros, de parquíssima inteligência, são contra o  fato  do crescente aquecimento planetário. As pesquisas científicas mais sérias nos advertem que estamos face à uma  Emergência Planetária. Outros falam de um Armagedon ecológico. Vale dizer: temos pouco tempo para mudar nosso modo de produção, de consumo e de exploração irracional dos escassos bens e serviços da Mãe Terra. Diz-se que temos apenas uma geração para fazer essas mudanças fundamentais. Caso contrário, engrossaremos o cortejo dos que caminham rumo a seu abismo. Devemos fazer nossa parte. Senão seremos corresponsáveis pelo desaparecimento de milhares de espécies de seres vivos e, o que é pior, de seres humanos que não conseguiriam adaptar-se ao aumento da temperatura e seriam condenados a sofrer terrivelmente e até a morrer. Nosso governo, por ignorante e desinformado, não toma estas ameaças a sério. Põe em risco o sistema-Terra e o sistema-vida, além de não amar o nosso povo, particularmente, os mais vulneráveis (as maiorias) que serão muito atormentadas com as mudanças climáticas. Voltaremos mais vezes a este tema do qual depende nosso futuro. Publicamos aqui um artigo de um especialista na área o Prof.José Eustáquio Diniz Alves que nos fornece os dados básicos e as opiniões de figuras científicas mais reconhecidas desta área. Lboff

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              COP24 diante da emergência planetária e do Armageddon ecológico

                          Fonte: Revista ihu on-line19 Dezembro 2018

Emergência Planetária – A afluência e a influência humana sobre a Terra nos tempos modernos têm sido tão significativas (e ambientalmente tão negativas) que pôs fim à estabilidade climática existente nos cerca de 12 mil anos do Holoceno“, escreve José Eustáquio Diniz Alves, Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências EstatísticasENCE/IBGE, em artigo publicado por EcoDebate, em 17-12-2018.

Eis o artigo. 

“É triste pensar que a natureza fala e que o ser humano não a ouve” – Victor Hugo

A Terra é a nossa casa comum. A humanidade é uma das inúmeras formas de vida que compartilham a riqueza natural gerada por milhões de anos de diversificação biológica e evolução das espécies. O Homo Sapiens – que surgiu há cerca de 200 mil anos – é, portanto, uma das espécies mais recentes na teia da vida planetária. Mas é a espécie que mais impactou negativamente a saúde dos ecossistemas e que tem provocado um holocausto biológico, uma grande redução da biodiversidade e mudanças climáticas sem precedentes e com enorme rapidez.

Nossos ancestrais distantes, nos últimos 3 milhões de anos, viveram múltiplos ciclos de temperatura, passaram por mudanças climáticas graduais e eras geladas, porém, nunca experimentaram “idade quente” alguma. O Homo sapiens sobreviveu a duas eras glaciais. Em cada era glacial, as temperaturas globais ficaram até 4º C mais baixas. O período mais quente já experimentado pelos humanos foi cerca de 1º C mais quente (média global) do que hoje. Esse período ocorreu entre as duas mais recentes eras glaciais, 120.000 anos atrás (Eemian).

Nos 100 mil anos seguintes, as temperaturas diminuíram gradualmente para uma nova era glacial. Durante esse período mais frio, os humanos começaram a se expandir para fora da África e para todas as partes do mundo. Desde o Eemian, as temperaturas mais baixas têm sido a norma.

A civilização humana tem cerca de 12.000 anos, conforme estabelecido pelo início dos assentamentos permanentes e da agricultura. O cultivo da terra se estabeleceu quando as geleiras recuaram da última era glacial. A sociedade moderna desenvolveu-se inteiramente em nossa época geológica atual, o Holoceno. As temperaturas globais não variaram mais do que ± 1º Celsius desde então. Houve mudanças regionais no clima (Período Medieval Quente, Pequena Idade do Gelo, etc.), mas desde que a civilização começou, os humanos nunca experimentaram um clima global mais quente do que o atual.

Desta forma, a temperatura não mudou muito desde que nos instalamos em cidades, avançamos com a agricultura e a pecuária, inventamos a manufatura e começamos a nos chamar de sapiens civilizados. Nos últimos 400 mil anos, o nível de concentração de CO2 na atmosfera nunca ultrapassou 300 partes por milhão (ppm), conforme os gráficos da NASA demonstram.

Considerando apenas os últimos 1000 anos, nota-se uma grande estabilidade nos níveis globais de dióxido de carbono na atmosfera em torno de 275 a 280 ppm até o final do século XVIII. Todavia, desde a invenção da máquina a vapor, desenvolvida por James Watt, e com o início da Revolução Industrial e Energética, as emissões de gases de efeito estufa disparam e a concentração de CO2 atingiu 300 ppm em 1950, ultrapassou 400 ppm em 2015 e deve ultrapassar 411 ppm em 2019.

Existe uma relação muito forte entre as emissões de carbono e o aumento da temperatura global. Entre 1880 e 1900 a temperatura estava 0,2°C abaixo da média da temperatura do século XX. Entre 1901 e 1950 a média da temperatura ficou 0,15°C abaixo da média do século passado e entre 1951 a 2000 ficou 0,15°C acima da média. Portanto, houve um aumento de temperatura, mas que alguns céticos consideravam como efeito natural.

Porém, o ano de 1998 foi o mais quente do século XX e ficou 0,63°C acima da média secular. E o que estava ruim, piorou muito no século XXI, pois a temperatura ficou 0,74º C acima da média do século XX em 2014, 0,90º C em 2015, 0,94º C em 2016, 0,84º C em 2017 e deve ficar em torno de 0,80º C em 2018. Os últimos 5 anos foram os mais quentes já registrados e foram também os anos com maiores níveis de emissões de gases de efeito estufa. Tudo isto acende o alerta e confirma o que os ambientalistas chamam de emergência climática.

A afluência e a influência humana sobre a Terra nos tempos modernos têm sido tão significativas (e ambientalmente tão negativas) que pôs fim à estabilidade climática existente nos cerca de 12 mil anos do Holoceno. Por conta disto, o cientista Paul Crutzen recomenda declarar o início de uma nova era na escala de tempo geológico da Terra: o Antropoceno. O termo Antropoceno foi cunhado levando em consideração que a atividade humana provocou mudanças profundas sobre o Planeta, nomeadamente o aquecimento global, a subida do nível do mar, a acidificação dos oceanos, a extinção de espécies, a transformação do solo e das fontes de água doce, a deflorestação e da defaunação em massa e a incidência de fenômenos climáticos extremos cada vez mais danosos para a civilização e os demais seres da vida natural.

O mundo vive hoje no Antropoceno o que John B. Foster (01/12/2012) chama de “Emergência Planetária”: “A ciência nos diz hoje que temos uma geração no máximo para realizar uma transformação radical em nossas relações econômicas e nossas relações com a Terra, se quisermos evitar um grande ponto de inflexão ou “ponto sem retorno”, após o qual grandes mudanças no clima da Terra provavelmente estarão além de nossa capacidade de prevenir e serão irreversíveis”.

A noção de emergência não é nova, pois no final da década de 1960, Robert Heilbroner (23/04/1970) já alertava para o “Armageddon ecológico”, pois como ele dizia: “Estamos atingindo o limite da capacidade de carga da Terra, não em uma base local, mas global. De fato, estamos bem além dessa capacidade, desde que ultrapassamos o Portanto, a humanidade já ultrapassou, em muito, os limites da resiliência do Planeta (Alves, 25/09/2018).

O último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), divulgado no início de outubro de 2018, considera que uma temperatura global acima de 1,5º C, em relação ao período pré-industrial, poderá ter efeitos catastróficos para os ecossistemas, a biodiversidade, a produção de alimentos e para o modo de vida rural e urbano de toda a população mundial. Para o IPCC, a “Emergência planetária” é agora e o “Armageddon ecológico” pode vir em 12 anos, que é o tempo que a humanidade tem para reduzir emissões em 45% se quiser ter alguma chance de evitar um aquecimento descontrolado.

Segundo artigo publicado por Christiana Figueres e colegas, na prestigiosa revista Nature (05/12/2018), o tempo para evitar o “Armageddon Ecológico” é ainda mais curto e as ações precisam ser mais efetivas e ambiciosas do que aquelas do Acordo de Paris: “Para voltar ao caminho certo, as metas revisadas devem ser mais ambiciosas do que as prometidas em 2015. Como argumentamos no ano passado na Nature, as emissões globais de CO2 devem começar a cair até 2020 se quisermos atingir as metas de temperatura do acordo de Paris”.

Estes parâmetros deveriam orientar as resoluções da 24ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP24), realizada na cidade de Katowice, na Polônia, em dezembro de 2018. Contudo, depois de reuniões tensas, posicionamentos antiecológicos de algumas nações e do adiamento de um dia para o fim da Conferência, os representantes de 197 países concordaram com o chamado “livro de regras” que governará a luta contra o aquecimento global nas próximas décadas e regulará os compromissos voluntários de cada país para reduzir os gases de efeito estufa — as chamadas “Contribuições Nacionalmente Determinadas”.

Mas a COP24 apenas incluiu uma referência ao relatório científico do IPCC, em vez de tomar medidas “urgentes e sem precedentes” para limitar o aumento da temperatura global a 1,5ºC. Várias decisões importantes foram procrastinadas e não é de se estranhar que os grandes produtores de combustíveis fósseis, como os EUA de Donald Trump, a Rússia e a Arábia Saudita, reforçam as chances do “Armageddon ecológico”. O estranho é a posição do Brasil, que a partir do posicionamento do governo eleito, passou a marcar gol contra o multilateralismo e pode sair perdendo duplamente, pois não se beneficiará dos investimentos para a transição para a economia de baixo carbono, mas, certamente, irá sofrer as consequências das mudanças climáticas.

Como disse o prof. Richard Betts, do centro de monitoramento meteorológico da Grã-Bretanha, o aumento da temperatura da Terra ultrapassou a zona de conforto e agora ameaça a humanidade e vida no Planeta. Para ele, em vez de falar de “aquecimento global” (global warming) deveríamos falar de “esquentamento global” (global heating), pois trata-se de mudanças no balanço de energia do planeta. Ele completa: “Deveríamos estar falando sobre risco, em vez de incerteza.”

O nível de CO2 na atmosfera já é o maior em pelo menos 3 milhões de anos e as emissões de GEE continuam aumentando. A possibilidade de a temperatura global ultrapassar 2º C nas próximas décadas é enorme. Enfim, os resultados da COP24 não foram desprezíveis, mas ficaram muito aquém das necessidades requeridas para evitar o fenômeno “Terra estufa” e o “Armageddon ecológico”. Neste sentido, a ausência de um senso de urgência foi evidente na COP24, que manteve as negociações vivas, mas sem o engajamento necessário para fazer as transformações “urgentes e sem precedentes”.

Artigo de John Sutter (CNN, 16/12/2018) diz que depois de 13 dias de discussão produziu uma distração irritante, pois os quase 200 países da COP24 tomaram nota do relatório do IPCC, mas não deram as boas-vindas ao documento. Essa diferença aparentemente pequena é enorme no mundo hiper-sutil e hiper-educado da diplomacia climática. A questão é que o relatório do IPCC trata as mudanças climáticas como uma “emergência planetária”, enquanto o governo Trump e os produtores de energia fóssil estão colocando o Planeta em risco ao colocar os interesses das companhias petrolíferas e de carvão acima dos interesses de toda a humanidade. O que está acontecendo deve ser considerado como crimes climáticos contra a humanidade.

Artigo de Fiona Harvey (The Guardian, 16/12/2018) considera que a COP24 atingiu um acordo parcial e que fica aquém das necessidades. Ela cita o posicionamento do cientista Johan Rockstrom; “Minha maior preocupação é que as negociações da ONU não tenham alinhado as ambições políticas com a ciência. Continuamos a seguir um caminho que nos levará a um mundo muito perigoso de 3 a 4º C neste século. Eventos climáticos extremos já atingiram pessoas em todo o planeta, com apenas 1º C de aquecimento”.

A atual geração é a última que pode salvar clima. A jovem vegetariana sueca Greta Thunberg, de 15 anos de idade, foi uma das palestrantes da COP24, desde agosto a adolescente decidiu fazer uma greve em frente ao parlamento sueco, em Estocolmo. Seu protesto é pelo clima. Ela argumenta que seu país e o mundo precisam fazer mais. Ela disse:

“Não viemos aqui para implorar aos líderes mundiais que se preocupem com nosso futuro. Eles nos ignoraram no passado e irão nos ignorar novamente. Viemos até aqui para informá-los que a mudança está a caminho queiram eles ou não. As pessoas se unirão a este desafio. E já que nossos líderes se comportam como crianças, teremos que assumir a responsabilidade que eles deveriam ter assumido há muito tempo”.

Referências:

ALVES, JED. Os limites da resiliência do Planeta e o decrescimento demoeconômico, XXI Encontro Nacional de Estudos Populacionais, da ABEP, Poços de Caldas, 25/09/2018

https://pt.scribd.com/document/389557293/A-humanidade-ja-ultrapassou-os-limites-da-resiliencia-do-Planeta

Sarah. We’ve been through climate changes before, Skeptical Science, 09/03/2012

https://skepticalscience.com/humans_survived_previous_changes.html

John Bellamy Foster and Brett Clark. The Planetary Emergency, Monthly Review, 01/12/2012

https://monthlyreview.org/2012/12/01/the-planetary-emergency/

Robert Heilbroner. Ecological Armageddon, New York Review of Books, n.14, 23/04/1970

https://www.nybooks.com/articles/1970/04/23/ecological-armageddon/

IPCC. Global Warming of 1.5 °C http://www.ipcc.ch/report/sr15/

Christiana Figueres, et. al. Emissions are still rising: ramp up the cuts, NATURE, 05/12/2018

https://www.nature.com/articles/d41586-018-07585-6

Jonathan Watts. Global warming should be called global heating, says key scientist, The Guardian, 13/12/2018 https://www.theguardian.com/environment/2018/dec/13/global-heating-more-accurate-to-describe-risks-to-planet-says-key-scientist

John Sutter. Planetary emergency: After 30 years, leaders are still fighting about basic truths of climate science, CNN, 16/12/2018

https://edition.cnn.com/2018/12/16/health/sutter-cop24-climate-talks/index.html

Leia mais

 

Leonardo Boff: 80 anos de fecundidade: Maria Clara L.Bingemer

Maria Clara Lucchetti Bingemer comparece como uma das teólogas mais importantes das Américas. Conhecida no Brasil e especialmente nos USA onde deu aulas, possui uma fecunda produção teológica sempre com um olhar que nos enriquece muito: aquele da mulher. Ela me sucedeu na cátedra quando por decisão da Congregação da Doutrina da Fé fui afastado, retornando depois por intervenção  direta do Papa João Paulo, no seu sentido profundamente pastoral, alegando: “o frei Boff trabalha com os pobres, isso tem que ser apoiado e preservado”. Assim saí, na noite de Páscoa de 1985, do “silêncio obsequioso”. Somos companheiros no ofício da teologia sempre no sentido da justiça social, negada a milhões de pessoas no mundo e no Brasil: Lboff

(professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio,
decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio *)
agape.usuarios.rdc.puc-rio.br

Conheci Leonardo Boff primeiramente através de seus escritos. Quando comecei a estudar Teologia na PUC-Rio, em 1975, tive como leitura para os cursos textos e livros seus.  Pouco a pouco sua produção teológica constante e ininterrupta ia sendo por mim lida e apreciada, seja por indicação dos professores, seja por iniciativa própria.  Ajudaram-me muito e a muitos e muitas que conheciam seus livros dos anos 1970: Vida para além da morte, Minima Sacramentalia.  E evidentemente, Jesus Cristo Libertador. 

Graças ao comum e saudoso amigo João Batista Libanio SJ, tive a oportunidade de conhecê-lo mais de perto na década de 1980. Comecei a participar de reuniões por ele organizadas, nas quais conheci e convivi com pessoas do calibre de Gustavo Gutierrez, Jon Sobrino e tantos outros. A liderança incontestável, porém, era de Leonardo, que a partir da Editora Vozes dirigia revistas, organizava coleções, trazia a público o melhor da teologia que a América Latina produzia naqueles anos

Participei do período em que ele teve dificuldades com a Comissão da Doutrina da Fé, no Vaticano. E qual não foi minha surpresa quando, ao mesmo tempo em que me inteirava da triste notícia do “silêncio obsequioso” que lhe era imposto, recebi um telefonema seu pedindo-me para substituí-lo em Petrópolis ministrando o curso de Trindade.

E assim aconteceu.  Subia entusiasmada a serra toda semana para dar aula.  Turma ótima de alunos vigorosos e interessados, a maioria franciscanos.  Mas havia também alguns cristãos leigos.  Após a aula, tínhamos conversas profundas e enriquecedoras, que não esqueço.

Esse catarinense, vindo de um sul brasileiro bem marcado pelo machismo, sempre acreditou nas mulheres e em seu potencial na teologia.  Em 1986, como diretor da REB, publicou um número inteiro da revista só com artigos de mulheres teólogas latino-americanas.  Creio haver sido a primeira publicação desse gênero no continente. E foi um grande apoio para nós, que começávamos apenas a tecer nossa rede e a acreditar em nós mesmas.

Em maio de 1989, defendi minha tese de doutorado em teologia na Universidade Gregoriana de Roma.  Entre os muitos brasileiros – estudantes e professores –  que assistiram a minha defesa havia dois muito ilustres: Dom Marcelo Carvalheira (então bispo responsável pelo setor Leigos na CNBB) e Leonardo Boff.  Estando em Roma na ocasião, se fez presente com seu apoio e amizade. Jamais esquecerei sua presença naquele dia tão importante para mim.

Dos anos 1990 em diante, já não como frade franciscano, lançou-se como pioneiro no tema que seria a grande novidade do pensamento social e da teologia na virada do milênio: a ecologia.  Hoje, vejo que seu fascínio pela criação e o cosmos já se encontravam latentes em sua espiritualidade franciscana. Apesar de não mais pertencer à Ordem dos Frades Menores, o carisma de Francisco de Assis, com seu amor universal por todas as criaturas, continuava selado em sua vida e seu coração. Acadêmico respeitado e convidado no mundo inteiro, continuava produzindo incessantemente e trazendo novas contribuições para a sociedade.  E assim segue até hoje.

O advento do Papa Francisco, com a vital renovação que trouxe para a Igreja, encontrou um Leonardo atento e ativo.  E quando celebramos seu 80º aniversário, continuamos todos saboreando os frutos de seu ministério teológico e intelectual. Constato com imensa alegria o interesse de alunos meus que estudam sua obra. E posso testemunhar a luminosa influência que este sábio octogenário tem sobre as novas gerações que não foram maleficamente captadas pela razão cínica e ainda desejam horizontes mais largos.

Subi a serra mais uma vez para comemorar seus 80 anos.  Em uma bela e carinhosa festa organizada com carinho por sua família, seus editores e seus amigos e irmãos franciscanos, tocava música, ressoavam as palavras e celebrava-se a vida.  Talvez o presente maior tenha sido a carta pessoal e fraterna escrita ao aniversariante pelo Papa Francisco.  Nela, o Pontífice expressa o agradecimento e o reconhecimento por toda uma vida a serviço da justiça e da inteligência, da fé e do amor.

Felizes oitenta, caríssimo amigo.  É bonito ver você continuando a dar frutos, desafiando o kronos e habitando plenamente o kairos, tempo de Deus. Que Ele continue a abençoá-lo e a fazer de sua vida um verdadeiro milagre de fecundidade!

  Obs: Maria Clara Bingemer é  autora de  de “Mística e Testemunho em Koinonia” (Editora Paulus), entre outros livros.