Leonardo Boff: 80 anos de fecundidade: Maria Clara L.Bingemer

Maria Clara Lucchetti Bingemer comparece como uma das teólogas mais importantes das Américas. Conhecida no Brasil e especialmente nos USA onde deu aulas, possui uma fecunda produção teológica sempre com um olhar que nos enriquece muito: aquele da mulher. Ela me sucedeu na cátedra quando por decisão da Congregação da Doutrina da Fé fui afastado, retornando depois por intervenção  direta do Papa João Paulo, no seu sentido profundamente pastoral, alegando: “o frei Boff trabalha com os pobres, isso tem que ser apoiado e preservado”. Assim saí, na noite de Páscoa de 1985, do “silêncio obsequioso”. Somos companheiros no ofício da teologia sempre no sentido da justiça social, negada a milhões de pessoas no mundo e no Brasil: Lboff

(professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio,
decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio *)
agape.usuarios.rdc.puc-rio.br

Conheci Leonardo Boff primeiramente através de seus escritos. Quando comecei a estudar Teologia na PUC-Rio, em 1975, tive como leitura para os cursos textos e livros seus.  Pouco a pouco sua produção teológica constante e ininterrupta ia sendo por mim lida e apreciada, seja por indicação dos professores, seja por iniciativa própria.  Ajudaram-me muito e a muitos e muitas que conheciam seus livros dos anos 1970: Vida para além da morte, Minima Sacramentalia.  E evidentemente, Jesus Cristo Libertador. 

Graças ao comum e saudoso amigo João Batista Libanio SJ, tive a oportunidade de conhecê-lo mais de perto na década de 1980. Comecei a participar de reuniões por ele organizadas, nas quais conheci e convivi com pessoas do calibre de Gustavo Gutierrez, Jon Sobrino e tantos outros. A liderança incontestável, porém, era de Leonardo, que a partir da Editora Vozes dirigia revistas, organizava coleções, trazia a público o melhor da teologia que a América Latina produzia naqueles anos

Participei do período em que ele teve dificuldades com a Comissão da Doutrina da Fé, no Vaticano. E qual não foi minha surpresa quando, ao mesmo tempo em que me inteirava da triste notícia do “silêncio obsequioso” que lhe era imposto, recebi um telefonema seu pedindo-me para substituí-lo em Petrópolis ministrando o curso de Trindade.

E assim aconteceu.  Subia entusiasmada a serra toda semana para dar aula.  Turma ótima de alunos vigorosos e interessados, a maioria franciscanos.  Mas havia também alguns cristãos leigos.  Após a aula, tínhamos conversas profundas e enriquecedoras, que não esqueço.

Esse catarinense, vindo de um sul brasileiro bem marcado pelo machismo, sempre acreditou nas mulheres e em seu potencial na teologia.  Em 1986, como diretor da REB, publicou um número inteiro da revista só com artigos de mulheres teólogas latino-americanas.  Creio haver sido a primeira publicação desse gênero no continente. E foi um grande apoio para nós, que começávamos apenas a tecer nossa rede e a acreditar em nós mesmas.

Em maio de 1989, defendi minha tese de doutorado em teologia na Universidade Gregoriana de Roma.  Entre os muitos brasileiros – estudantes e professores –  que assistiram a minha defesa havia dois muito ilustres: Dom Marcelo Carvalheira (então bispo responsável pelo setor Leigos na CNBB) e Leonardo Boff.  Estando em Roma na ocasião, se fez presente com seu apoio e amizade. Jamais esquecerei sua presença naquele dia tão importante para mim.

Dos anos 1990 em diante, já não como frade franciscano, lançou-se como pioneiro no tema que seria a grande novidade do pensamento social e da teologia na virada do milênio: a ecologia.  Hoje, vejo que seu fascínio pela criação e o cosmos já se encontravam latentes em sua espiritualidade franciscana. Apesar de não mais pertencer à Ordem dos Frades Menores, o carisma de Francisco de Assis, com seu amor universal por todas as criaturas, continuava selado em sua vida e seu coração. Acadêmico respeitado e convidado no mundo inteiro, continuava produzindo incessantemente e trazendo novas contribuições para a sociedade.  E assim segue até hoje.

O advento do Papa Francisco, com a vital renovação que trouxe para a Igreja, encontrou um Leonardo atento e ativo.  E quando celebramos seu 80º aniversário, continuamos todos saboreando os frutos de seu ministério teológico e intelectual. Constato com imensa alegria o interesse de alunos meus que estudam sua obra. E posso testemunhar a luminosa influência que este sábio octogenário tem sobre as novas gerações que não foram maleficamente captadas pela razão cínica e ainda desejam horizontes mais largos.

Subi a serra mais uma vez para comemorar seus 80 anos.  Em uma bela e carinhosa festa organizada com carinho por sua família, seus editores e seus amigos e irmãos franciscanos, tocava música, ressoavam as palavras e celebrava-se a vida.  Talvez o presente maior tenha sido a carta pessoal e fraterna escrita ao aniversariante pelo Papa Francisco.  Nela, o Pontífice expressa o agradecimento e o reconhecimento por toda uma vida a serviço da justiça e da inteligência, da fé e do amor.

Felizes oitenta, caríssimo amigo.  É bonito ver você continuando a dar frutos, desafiando o kronos e habitando plenamente o kairos, tempo de Deus. Que Ele continue a abençoá-lo e a fazer de sua vida um verdadeiro milagre de fecundidade!

  Obs: Maria Clara Bingemer é  autora de  de “Mística e Testemunho em Koinonia” (Editora Paulus), entre outros livros.

3 comentários sobre “Leonardo Boff: 80 anos de fecundidade: Maria Clara L.Bingemer

  1. “Não vivemos para morrer, mas morremos para ressuscitar, para viver mais e melhor. É o homem inteiro que morre. É o homem inteiro que ressuscita como Jesus que tem uma presença cósmica”(Leonardo Boff). Uno-me a todos que amam e admiram L. Boff. Abraço Fraterno!

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