PARA ONDE ESTAMOS INDO?

Leonardo Boff

Há a convergência de inúmeras crises que estão afligindo a humanidade inteira. Sem precisar citá-las restringo-me a duas, extremamente perigosas e até letais: uma guerra nuclear entre as potências militaristas, disputando a hegemonia na condução do mundo. Como a segurança nunca é total, aí funcionaria a fórmula 1+1=0.Quer dizer, uma destruiría a outra e levaria junto todo o sistema-vida humana. A Terra continuaria empobrecia,cheia de chagas, mas giraria ainda ao redor do sol por não sabemos quantos milhões de anos, mas ser esse Satã da vida que é  o ser humano demente que perdeu sua dimensão de sapiente.

A outra é a mudança climática crescente que não sabemos em que grau Celsius vai se estabilizar. Um fato é inegável, afirmado pelos próprios cientistas céticos: a ciência e a técnica chegaram atrasadas. Passamos o ponto crítico em que elas poderiam ainda nos ajudar. Agora apenas podem nos advertir dos eventos extremos que virão e minorar os efeitos danosos. Climatólogos sugerem que, nos muito próximos anos, possivelmente o clima se estabeleceria, em termos globais, em torno de 38-40 graus Celsius. Em outras regiões pode chegar por volta de 50C. Haverá milhões de vítimas, especialmente entre crianças e idosos que não conseguirão se adaptar à situação mudada da Terra.

Estes mesmos cientistas têm advertido os Estados para o fato de milhões de migrantes que deixarão suas terras queridas pelo excesso de calor e pela frustração das safras de alimentos. Possivelmente, e é o desejável, que haja, obrigatoriamente,uma governança planetária global e plural,constituída por representantes dos povos e das classes sociaispara pensar a situação da Terra mudada, não respeitando os obseletos limites entre as nações. Trata-se de salvar não este ou aquele país, mas a humanidade inteira. Realisticamente disse várias vezes o Papa Francisco: desta vez não há uma arca de Noé que salva alguns e deixa perecer os demais:”ou nos salvamos todos ou ninguém se salva”.

Como se depreende, estamos diante de uma situação limite. A consciência desta urgência é muito fraca na maioria da população, entorpecida pela progapaganda capitalista de um consumo sem freios e dos próprios estados, em grande parte controlados pelas classes dominantes. Estas só olham para um horizonte à frente, crédulas de um progresso ilimitado em direção futuro, sem tomar a sério que o planeta é limitado e não aguenta e que precisamos de 1,7 planetas Terra para satsfazer seu consumo suntuoso.

Há uma saída para este acúmulo de crises, das quais nos restringimos a duas? Creio que nem o Papa nem o Dalai Lama, nenhum sábio previlegiado podem predizer qual seja o nosso futuro. Se olharmos as maldades do mundo temos que dar razão a José Saramago que dizia: “Não sou pessimista; a situação é que é péssima”. Lembro o encantador São Francisco de Assis que, encantado, via o lado luminoso da criação. Pedia,no entanto, a seus confrades: não considerem demasiadamente os males do mundo para não terem razões de reclarmar de Deus. De certa maneira todos somos um pouco Jó que reclamava, pacientemente, de todos os males que o afligiam. Nós também reclamamos porque não entendemos o porquê de tanta maldade e especialmente porque  Deus se cala e permite que, muitas vezes, o mal triunfe como agora face ao genocídio de crianças inocentes na Faixa de Gaza. Por que não intervém para salvar seus filhos e filhas? Não é Ele “o apaixonante amante da vida”(Sabedoria 11,26)?

Atribui-se a Freud, que não se considerava um homem de fé, a seguinte frase: se aparecer diante de Deus, tenho mais perguntas a fazer a ele do que ele a mim, pois há tantas coisas que nunca entendi quando estava na Terra.

Nem a filosofia nem a teologia conseguiram até hoje oferecer uma resposta convincente ao problema do mal. No máximo é afirmar que Deus ao aproximar-se de nós pela encarnação – não para divinizar o ser humano – mas para humanizar Deus –  foi dizer que esse Deus vai conosco para o exílio, assume a nossa dor e até o desespero na cruz. Isso é grandioso, mas não responde o porquê do mal. Por que o Deus humanado teve que sofrer também ele,”embora fosse Filho de Deus, aprendeu a obediência por meio dos sofrimentos que teve”(Hebreus,5,8). Essa proposta não faz desaparecer o mal. Ele continua como um espinho na carne.

Talvez tenhamos que nos contentar com a afirmação de São Tomás de Aquino que escreveu, reconhecimente, um dos mais brilhantes tratados “Sobre o Mal”( De Malo).No fim ele se rende à impossibilidade da razão de dar conta do mal e conclui:”Deus é tão poderoso que pode tirar um bem do mal”. Isso é fé confiante, não razão raciociante.

O que podemos dizer com certa certeza: se a humanidade,especialmente, o sistema do capital com suas grandes corporações globalizadas continuar com sua lógica de de explorar até a exaustão os bens e serviços naturais em função de sua acumulação ilimitada, aí sim podemos dizer,na expressão de Sigmunt Bauman:”vamos engrossar o cortejo daqueles que estão rumando na direção de sua própria sepultura”.

Depois termos cometido o pior crime já perpetrado na história: o assassinato judicial do Filho de Deus, pregando-o na cruz, nada mais é impossível. Como disse J.P.Sartre após a bombas sobre Hiroshina e Nagasaki: o ser humano se apropiou da própria morte. E Arnold Toynbee, o grande historiador, comentou: não precisamos mais que Deus intervenha para pôr fim à sua criação; coube a nossa geração assistir à possibilidade de sua própria destruição.

Pessimismo? Não. Realismo. Mas, pertence também à nossa possibilidade de dar o salto da fé que se inscreve como uma possível emergência do processo cosmogênico: cremos que o verdadeiro senhor da história e de seu destino não é o ser humano, mas o Criador que das ruínas e das cinzas pode criar um homem novo e uma mulher nova, um novo céu e uma nova Terra. Lá a vida é eterna e reinará o amor, a festa, a alegria e a comunhão de todos com todos e com a Suprema Realidade.Et tunc erit finis.

Leonardo Boff escreveu: Cuidar da Terra-proteger a vida: como escapar do fim do mundo, Record, Rio de Janeiro 2010; A nossa ressurreição na morte, Vozes 2012.

Die historische Stärke der Armen und Unterdrückten

                    Leonardo Boff

Ich war schon immer von einer kleinen Geschichte beeindruckt, die im Buch „Prediger“ im Alten Testament erzählt wird. Es wird angenommen, dass Prediger das Werk des weisen Königs Salomo ist. Er wäre das, was wir heute einen Gelehrten oder einen Universitätsprofessor nennen würden (auf Hebräisch Kohelet). Er ist bekannt durch den Ausdruck “Eitelkeit der Eitelkeiten, alles ist eitel” (1,2). Einige moderne Versionen übersetzen: “Illusion, reine Illusion; alles ist Illusion”.

Das ganze Buch ist eine unermüdliche Suche nach dem Glück, aber er wird mit dem unausweichlichen Tod konfrontiert, der alles Suchen zu Illusionen macht, zu reinen Illusionen. Aber das hindert ihn nicht daran, gottesfürchtig und ethisch in seiner Empörung angesichts der Unterdrückung zu sein: “Wie viele Tränen sind die der Unterdrückten, die niemanden haben, der sie tröstet, wenn sie unter der Macht der Unterdrücker stehen… Glücklich ist, wer nicht geboren ist, weil er das Böse, das unter der Sonne geschieht, nicht gesehen hat” (4,1.3).

Die kleine Geschichte geht so: “Es war einmal eine Stadt mit wenigen Einwohnern. Ein mächtiger König marschierte auf sie zu, belagerte sie und errichtete große Angriffsrampen gegen sie. In der Stadt lebte ein armer, weiser Mann, der sie mit seiner Weisheit hätte retten können. Aber niemand erinnerte sich an diesen armen Mann. Die Weisheit des armen Mannes wird verachtet und seine Worte werden nicht gehört” (9,14-16).

Diese Beobachtung führt mich zur lateinamerikanischen Befreiungstheologie. Es ist eine Theologie, deren artikulierende Achse “die nicht-exklusive Option für die Armen, gegen die Armut und für ihre Befreiung” ist. Sie stellt die Armen in den Mittelpunkt, wie es das Evangelium des historischen Jesus tut: “Glücklich seid ihr Armen, denn euch gehört das Reich Gottes” (Lk 6,20). Aber die Befreiungstheologie hat etwas noch nie Dagewesenes, das über die traditionelle öffentliche Wohlfahrt und den Paternalismus hinausgeht, der zwar Nächstenliebe gegenüber den Armen praktizierte, sie aber in ihrer Situation der Armut beließ.

Die Befreiungstheologie brachte etwas Einzigartiges: Sie erkannte die historische Stärke der Armen an. Sie begannen zu begreifen, dass ihre Armut weder gottgewollt noch natürlich ist, sondern die Folge sozialer und politischer Kräfte, die sie ausbeuten, um sich auf ihre Kosten zu bereichern und sie so arm zu machen. Sie sind also nicht einfach nur arm, sondern werden unterdrückt.

Gegen jede Unterdrückung steht die Befreiung. Im Bewusstsein dieser Tatsache und organisiert bilden sie soziale Kräfte, die in der Lage sind, zusammen mit anderen Kräften die Gesellschaft zu verändern, damit sie besser wird und nicht so ungerecht, unterdrückend und ungleich ist.

Die Christen ließen sich von der Tradition des Exodus inspirieren (“Ich hörte das Geschrei meines unterdrückten Volkes und stieg herab, um es zu befreien”, Ex 3,7), von der der Propheten, die die Unterdrücker der Armen und Witwen, die herrschenden Eliten und die Könige anprangerten (Jesaja, Amos, Hosea, Jeremia) und Gott sagen ließen: “Ich will Barmherzigkeit und nicht Opfer; sucht das Recht, richtet den Unterdrücker, gebt den Waisen und Witwen Recht” (Jesaja, 1,17), aber vor allem in der Praxis des historischen Jesus, der immer klar auf der Seite des leidenden Lebens stand, insbesondere der Armen, der Kranken, der Ausgegrenzten, der Frauen, und eine wirklich befreiende Praxis des menschlichen Leidens ausübte. Er verkündete ihnen den Plan Gottes, eine absolute Revolution: ein Reich der Liebe, des Friedens, der Vergebung, des Mitgefühls und auch der Herrschaft über die rebellische Natur.

Dies ist die Grundlage der Befreiungstheologie. Marx war weder der Vater noch Pate dieser Art von Theologie, wie ihr heute noch viele vorwerfen. Die Befreiungstheologie gründet sich auf die prophetische Tradition und Praxis des historischen Jesus. Vergessen wir nicht, dass er von den Religiösen seiner Zeit, die mit der römischen politischen Macht verbunden waren, wegen der Freiheit, die er sich von unterdrückenden Gesetzen und dem Bild eines rächenden Gottes nahm, verurteilt und ans Kreuz gehängt wurde. Er hat für alles die Liebe und die Barmherzigkeit als Maßstab gewählt. Wenn sie nicht der Liebe dienten und nicht zur Barmherzigkeit führten, brach er mit den Sitten und Gebräuchen, die das Leben des ganzen Volkes belasteten.

Die Befreiungstheologie gab den Armen ein Vertrauensvotum, indem sie als Protagonisten ihrer eigenen Befreiung und als Akteure in einer Gesellschaft werden,wie der unseren betrachtete, die immer mehr Arme schafft und sie schändlich verachtet und an den Rand drängt. Sie beruht auf der Ausbeutung der Menschen, auf Wettbewerb und nicht auf Solidarität, auf dem unverantwortlichen Raubbau an der Natur und nicht auf der Sorge um sie.

Die Erfahrung, die wir gemacht haben, ist genau die, die im Buch Prediger beschrieben wird: Die Armen sind weise, sie lehren uns, weil ihr Wissen aus Erfahrungen besteht; wir tauschen unser Wissen aus, unser wissenschaftliches Wissen und ihr Erfahrungswissen, und auf diese Weise vereinen wir unsere Kräfte. Wir entdecken, dass sie, wenn sie sich in Gemeinschaften und Bewegungen organisieren und als Bürger an Parteien teilnehmen, die sich für soziale Gerechtigkeit einsetzen, ihre Fähigkeit offenbaren, Druck auszuüben und sogar soziale Veränderungen durchzusetzen.

Aber wer sind die Politiker in den Parlamenten und die wenigen Regierungen, die ihnen zuhören und auf ihre Forderungen eingehen? In der Regel wird nur bei Wahlen auf sie gezählt, um sie für ihre meist fiktiven Projekte zu verführen.

Ich werde Ihnen, nicht ohne Schwierigkeiten, erzählen, was mir passiert ist. Der große Philosoph und Jurist Norberto Bobbio von der Universität “degli Studi” in Turin wollte die Befreiungstheologie ehren, indem er mir den Titel eines “doctor honoris causa” in Politik verlieh. Abteilungen des Vatikans und der Kardinal von Turin übten starken Druck aus, um die Veranstaltung zu verhindern, was den Philosophen und Juristen Bobbio sehr verärgerte. Die Veranstaltung fand in seinem Beisein statt, der inzwischen alt und krank war. In der Urkunde der Universität heißt es: “Die Persönlichkeit des Franziskaners Leonardo Boff zeichnet sich sowohl durch seine Forschungen in den politischen und theologischen Wissenschaften als auch durch sein ethisches und soziales Engagement aus. Seine Schriften und seine Überlegungen, die sehr originell und von einer bürgerlichen Leidenschaft getragen sind, stehen im Mittelpunkt einer leidenschaftlichen politischen und kirchlichen Debatte in der heutigen Welt”. Am 27. November 1990 wurde mir der oben erwähnte Titel verliehen.

Noberto Bobbio war von der Rede, die ich zur Würdigung des Titels hielt, so beeindruckt, dass er sagte: “Wir Linken mussten auf einen Theologen warten, der uns daran erinnert, dass die Armen Subjekte der Geschichte sind” (vgl. M. Losano, Norberto Bobbio: uma biografia cultural, E. Unesp 2022, S. 460-463).

Für mich war es die Bestätigung der Wahrheit der Prediger-Geschichte: Wir müssen auf die Armen hören (um ihretwillen wurde ich mit dem Titel geehrt), die, bevor sie die Buchstaben lesen, die Welt richtig lesen. Ohne ihre Weisheit und die der ursprünglichen Völker werden wir unsere Gesellschaften nicht retten und auch die Katastrophen unserer Zivilisation nicht vermeiden können.

Leonardo Boff Autor von: Brasil: concluir la refundación o prolongar la dependencia, Vozes 2018; La búsqueda de la justa medida: cómo equilibrar el planeta Tierra, Vozes 2023.

A força hiatórica dos pobres e oprimidos

                              Leonardo Boff

A mim sempre me impressionou uma pequena história relatada no livro do Eclesiastes do  Primeiro Testamento (ou o Antigo). O Eclesiastes se assume como sendo o sábio rei  Salomão. Seria o que chamaríamos hoje um acadêmico ou um professor universitário (em hebraico Qohelet), É conhecido pela expressão “vaidade, pura vaidade;tudo é vaidade”(1,2). Algumas traduções modernas traduzem: “ilusão,pura ilusão; tudo é ilusão”.

Todo livro é uma busca incansável pela felicidade mas se confronta com a morte inevitável que torna todas as buscas ilusões, puras ilusões. Nem por isso deixa de ser temente a Deus e ético ao se indignar face às opressões:”quantas são as lágrimas dos oprimidos sem ninguém que os console quando estão sob o poder dos opressores…feliz é aquele que não chegou a nascer porque não viu a maldade que se comete debaixo do sol”(4,1.3).

A pequena história reza assim:

Havia uma cidade de poucos habitantes.Um rei poderoso marchou sobre ela, cercou-a e levantou contra ela grandes rampas de ataque. Havia na cidade um homem pobre, porém sábio, que poderia ter salvo a cidade com sua sabedoria. Mas ninguém se lembrou daquele homem pobre. A sabedoria do pobre é desprezada e suas palavras nunca são ouvidas”(9,14-16).

Essa constatação me reporta à teologia latino-americana da libertação. É uma teologia cujo eixo articulador é a opção não excludente pelos pobres e por sua  libertação”. Ela confere centralidade aos pobres como está no evangelho do  Jesus histórico:”felizes os pobres porque de vós é o Reino de Deus”(Lucas 6,20). Mas há algo de inédito na Teologia da Libertação que supera o assistencialismo e o paternalismo tradicionais que faziam caridade para com os pobres  mas os deixavam em sua situação de pobres.

A Teologia da Libertação acrescentou algo singular: reconhecer a força história dos pobres. Eles começaram a se conscientizar de que sua pobreza não é querida por Deus,nem é natural, mas consequência de forças sociais e políticas que os exploram para se enriquecerem à custa deles, fazendo-os assim pobres. Então não são simplesmente pobres, são oprimidos. Contra toda opressão vale a libertação.Conscientizados deste fato e organizados, constituem-se forças sociais, capazes, junto com outras forças, de mudarem a sociedade para que seja melhor, não tão injusta, opressora e desigual.

Os cristãos se inspiraram na tradição do Êxodo (“ouvi o clamor de meu povo oprimido, desci para libertá-lo:”Ex 3,7), naquela dos profetas que contra os opressores dos pobres e das viúvas  denunciavam as elites dominantes e os reis (Isaías,Amós, Oséias,Jeremias), fazendo Deus dizer: “quero misericórdia e não sacrifícios; procurai o direito, corrigi o opressor, julgai a causa do órfão e defendei a viúva”(Isaías, 1,17). Mas principalmente na prática do Jesus histórico que claramente estava sempre do lado da vida sofrida, especialmente dos pobres, dos doentes,dos marginalizados, das mulheres, curando e exercendo uma prática verdadeiramente libertadora dos padecimentos humanos. Anunciava-lhes o projeto de Deus,uma revolução absoluta: um Reino de amor, de paz, de perdão, de compaixão e também de domínio sobre a natureza rebelada.

Esta é a base da teologia da libertação. Marx não foi nem pai nem padrinho deste tipo de teologia, como muitos ainda hoje a acusam. Mas se fundamenta na tradição profética e da prática do Jesus histórico. Não esqueçamos que ele foi julgado, condenado e erguido numa cruz pelos religiosos no tempo, associados ao poder político romano.  Por causa da liberdade que se tomava face à leis opressoras e a uma imagem de um Deus vingador. Tudo colocou sob o crivo do amor e da misericórdia Se não servia ao amor e não levava à misericórdia rompia com costumes e tradições que oneravam a vida de todo um povo.

A Teologia da Libertação deu um voto de confiança nos pobres, considerando-os  protagonistas de sua própria libertação e atores na sociedade como a nossa que cria mais e mais pobres e vergonhosamente os despreza e relega à marginalidade. Ela se funda sobre exploração das pessoas, sobre competição e não sobre a solidariedade e sobre depredação irresponsável da natureza e não sobre o cuidado.

A experiência que fizemos é exatamente aquela contada no livro do Eclesiastes: os pobres são sábios, nos ensinam, pois seu saber é de experiências feito; fazemos uma troca de saberes, entre o nosso científico e o deles experiencial e assim somamos forças. Descobrimos que quando se organizam em comunidades, em movimentos, e como cidadãos participam de partidos que buscam a justiça social, revelam sua capacidade de pressão e até de impor transformações sociais.Mas quem dos políticos nos parlamentos, quais os poucos governos que os escutam e atendem a suas reivindicações? Geralmente só contam quando há eleições para seduzi-los para seus projetos,geralmente, fictícios.

Conto, não sem certo constrangimento, o que ocorreu comigo. O grande filósofo e jurista Norberto Bobbio da Universidade “degli Studii” de Turim quis honrar a Teologia da Libertação, concedendo-me o título de “doutor honoris causa” em política. Setores do Vaticano e o Cardeal de Turim fizeram forte pressão para que esse evento não acontecesse, o que irritou sobremaneira o filósofo-jurista Bobbio.O evento aconteceu com a presença dele, já velhinho e adoentado. No diploma universitário se dizia:”A personalidade do franciscano Leonardo Boff se destaca seja na pesquisa  em ciências políticas e teológicas, seja no empenho ético e social. Seus escritos e sua reflexão, altamente originais e movidos por paixão cívica, estão no centro de um debate político e eclesiástico fervoroso no mundo contemporâneo”. No dia 27 de novembro de 1990 me foi concedido o referido título.

Noberto Bobbio ficou tão impressionado com a aula magistral que dei, como agradecimento ao título, que comentou:”Nós, da esquerda, devíamos esperar de um teólogo para nos lembrar que os pobres são sujeitos da história”(cf.M.Losano, Norberto Bobbio:uma biografia cultural,E.Unesp 2022,pp 460-463).

Para mim era a confirmação da verdade da história do Eclesiastes: temos que ouvir os pobres (por causa deles me honraram com o título) que antes de ler as letras, leem mundo com acerto. Sem a sabedoria deles e dos povos originários não salvaremos nossas sociedades e também não evitaremos as catástrofes de nossa civilização.

Leonardo Boff escreveu:Brasil: concluir a refundação ou prolongar a dependência, Vozes 2018; A busca da justa medida: como equilibrar o planeta Terra,Vozes 2023.

This liberation theologian was once silenced by the Vatican. In the Laudato Si’ era, he’s getting a second look.

James T. KeaneJanuary 30, 2024- Review America

Leonardo Boff (Brasil TV/Wikimedia Commons)

Reflecting on more than 80 years of life in his 2022 book Thoughts and Dreams of an Old Theologian, Leonardo Boff summed up many of his theological and personal concerns in a clarion call for change. “Either we care for Mother Earth, our Common Home, and we join hands to work together in solidarity, or we join the procession of those headed for their own funeral. Here we see the importance and the urgency of nurturing good dreams that lead us to transformational activities and constantly nourish our hope,” he wrote, adding:

This is the dream I want to pass on, as my life nears toward its end, to the young people who will come after us. It is their task to take forward the dream of Jesus, of Pope Francis, of liberation theology at its broadest, and of so many others who also nurture dreams of a better humanity. These young people will have to be the leaders in shaping a better future for us, for nature, and for Mother Earth.

If those dreams and concerns sound somewhat familiar, even to a reader unfamiliar with Boff’s work, it is because many of them were also reflected in recent Vatican documents like “Laudato Si’” and “Querida Amazonia.” After the publication of the former, rumors circulated that Pope Francis had personally asked Boff for his input on the writing of the encyclical.

Leonardo Boff, the pope’s theologian?

After the publication of “Laudato Si’,” rumors circulated that Pope Francis had personally asked Leonardo Boff for his input on the writing of the encyclical.

It was not always thus. In a long and still-ongoing career, Boff was for many years one of the leading voices of liberation theology—and became a lightning rod for criticism of that theological school in the 1980s and 1990s.

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Born in Concórdia, Brazil, in 1938, Boff entered the Franciscans in 1959 and was ordained in 1964. He earned a doctorate in philosophy and theology from the University of Munich in 1970. In the years that followed, Boff joined scholars such as Gustavo Gutiérrez, Jon Sobrino, S.J., and Juan Luis Segundo, S.J., in promoting the theology of liberation through books like Jesus Christ Liberator (1974). He was a strong proponent of comunidades de base, the small and local “base communities” which were championed by liberation theologians as centers of theological praxis in the face of economic injustice and structural sin. His 1987 book, Introducing Liberation Theology, co-written with his brother Clodovis, is still widely used in colleges and theological schools as a textbook.

In 1985, the Congregation for the Doctrine of the Faith (now the Dicastery for the Doctrine of the Faith) censured Boff for his book Church: Charism and Power and silenced him for a year. The C.D.F., then led by Cardinal Joseph Ratzinger, criticized Boff’s “ecclesiological relativism” in seeing both Protestant and Catholic church structures as incomplete, and also cited his praxis-based approach to theology (centered on the base communities) that, the C.D.F. argued, seemed to relativize the nature of truth.

In a 1988 book on the matter, The Silencing of Leonardo Boff: The Vatican and the Future of World Christianity, the theologian Harvey Cox suggested that the Vatican singled out Boff because it saw the “grass-roots religious energy” Boff represented as a threat to the church’s teaching authority.

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Cox, wrote the theologian Lamin Sanneh in America in 1988, placed Boff’s silencing “in the global context of world Christianity, in particular the potential scale of the fallout from the growing challenge of third-world Christianity to the accustomed privileges of Western religious hegemony.”

Harvey Cox suggested that the Vatican singled out Boff because it saw the “grass-roots religious energy” Boff represented as a threat to the church’s teaching authority.

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Cox saw Boff as “an evangelical radical, not a modernist” who did not want to bring the church up to date, necessarily, but to align it more closely with the Gospels, wrote America editor in chief George W. Hunt, S.J., in 1989. Cardinal Ratzinger, Hunt wrote, sought to recenter the church “intellectually and liturgically in its ancient homeland (Europe), and to achieve this his congregation must be ‘the protector not only of the integrity of the faith and the documents of Vatican II but also of their proper interpretation against cagey [non-European] theologians.’” Boff, on the other hand, found the solution to what ailed the church “not in ‘recentering’ but in ‘decentering,’ that is, a form of Catholicism ‘in which the Gospel can take root in a variety of disparate cultures and flourish especially among the poor.’”

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Boff continued to write and teach (he was a professor of theology at the Jesuit Institute for Philosophy and Theology in Petropolis, Brazil, for 22 years) after his silencing ended, publishing such books as Ecclesiogenesis and Cry of the Earth, Cry of the Poor. In 1992, Boff faced a potential silencing once again from the C.D.F. Recognizing that his status as a priest under obedience in a religious order was an issue in the C.D.F.’s repeated efforts to discipline him, he resigned from the Franciscans that June. The next year, he took a position at Rio de Janeiro State University in Brazil, where he is now the Professor Emeritus of Ethics, Philosophy of Religion and Ecology.

In 2000, Cardinal Ratzinger reflected on the contretemps in a speech at the Vatican that suggested Boff’s silencing stood as a warning to other theologians. “At a distance of 15 years, it is clearer than it perhaps was then that it was not so much a matter of a single theological author, but of a vision of the church which circulates with different variations and which is still very current today,” Ratzinger said. Boff was one of many theologians censured by the C.D.F. during the pontificate of John Paul II, a process America’s editors criticized in a 2001 editorial, “Due Process in the Church.”

In recent years, in addition to Thoughts and Dreams of an Old Theologian, Boff has also published such books as Christianity in a Nutshell, Come Holy Spirit and The Following of Jesus. His theological work has increasingly focused on the ecological crisis facing the world.

“Boff’s skillful use of the sociology of knowledge enables him to explain why theologians of other ages interpreted the faith within the total social, cultural, political and economic realities of their day,” wrote Joseph P. Fitzpatrick, S.J., in America in 1990. “It also prompts him to declare why the perspective of liberation theology is the only authentic interpretation of the faith in the presence of the massive inhumanity, oppression and injustice of our day.”

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Boff’s primary concern theologically and sociologically has always been the poor and marginalized, particularly in Latin America. But that might not be the audience needs to hear him the most. “The Christian slum-dweller in Lima or Sao Paulo does not need a Gustavo Gutiérrez or à Leonardo Boff in order to know that something is terribly wrong and has to change, or that the Gospel has plenty to say about the nature of that change,” wrote Kevin P. O’Higgins, S.J., in a 1990 essay for America.

“It is the comfortable Christian suburbanite—clerical, religious or lay—in North America or Western Europe who has [the] most difficulty in seeing what is wrong and what is demanded by an authentic faith.”

Boff’s 1987 book, Introducing Liberation Theology, co-written with his brother Clodovis, is still widely used in colleges and theological schools as a textbook.

James T. Keane

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James T. Keane

James T. Keane is a senior editor at America.

@jamestkeane