Sem espiritualidade não salvaremos a vida na Terra

                                    Leonardo Boff

Em momentos de grandes crises, de desastres naturais e agora com a epidemia do Coronavírus, os seres humanos deixam vir à tona aquilo que está na sua essência como humanos: a solidariedade, a cooperação, o cuidado de uns para com os outros e para o seu entorno e a espiritualidade.

Ouvimos da boca de Michail Gorbachev no encontros para a elaboração da Carta da Terra,exatamente dele considerado ateu por ser comunista e chefe de Estado: ou vamos desenvolver uma espiritualidade com novos valores,centrados na vida e na cooperação ou não haverá solução para a vida na Terra.

Esta pandemia significa uma conclamação para esta espiritualidade salvadora.Como diz a Carta da Terra:”Como nunca antes na história, o destino comum nos conclama a um novo começo…Isso requer uma mudança na mente e no coração; requer um novo sentindo de interdependência global e de responsabilidade universal…só assim se chega a um modo sustentável de vida”(Conclusão)

         Vivemos uma emergência ecológica planetária. Acertadamente nos alertou a Laudato Sì do Papa Francisco:”As previsões catastróficas já não se podem olhar com desprezo e ironia. O ritmo do consumo, desperdício e alteração do ambiente superou de tal maneira as possibilidades do planeta, que o estilo insustentável de vida atual só pode desembocar em catástrofes”(n.161).

         Esta advertências reforçam a urgência de uma espiritualidade da Terra. Ela demanda um novo paradigma, apresentado pelo Papa Francisco em sua última encíclica Fratelli tutti (2020): devemos deixar de nos imaginar os donos (dominus) da natureza para sermos de fato irmãos e irmãs (frater, soror). Se não fizermos essa travessia vale esta advertência:”Ou nos salvamos todos ou ninguém se salva”(n. 32).

Em função dessa missão comum se estabeleceu uma colaboração e uma articulação entre duas famílias religiosas com suas  tradições espirituais, amigáveis para com a criação, à vida, aos mais destituídos: os franciscanos com o Serviço Inter-franciscano de Justiça, Paz e Ecologia da Conferência da Família Franciscana do Brasil  e os jesuítas com o Observatório Luciano Mendes de Almeida, a Rede de Justiça socio-ambiental dos Jesuítas e o Movimento Católico Global pelo Clima, somando-se ainda como parceiros a MAGIS, A FAJE.

As espiritualidades e os valores de cada uma destas duas tradições  nos poderão inspirar novas formas de cuidar da herança sagrada que a evolução e Deus nos entregaram, a Terra, a Magna Mater dos antigos, a Pachamama dos andinos e a Gaia dos modernos.

Em sua encíclica de ecologia integral Laudato Si o Papa Francisco apresenta São Francisco “como o exemplo por execelência pelo cuidado pelo que é frágil, vivido com alegria e autenticidade. É o padroeiro de todos os que estudam e trabalham no campo da ecologia, amado também por muitos que não são cristãos”(n.10). Diz mais ainda:”Coração universal, para ele qualquer criatura era uma irmã, unida a ele por laços de carinho; por isso sentia-se chamado a cuidar de tudo o que existe…até das ervas silvestres que deviam ter o seu lugar no horto” de cada convento dos frades(n.11.12).

Para Santo Inácio de Loyola, grande devoto de São Francisco, e para este ser pobre significava mais que um exercício  acético, mas um despojamento de tudo para estar mais próximo dos outros e construir com eles fraternidade. Ser pobre para ser mais irmão e irmã.

Para os primeiros companheiros de Santo Inácio a vida em pobreza, individual e comunitária, sempre acompanhou o cuidado com os pobres, parte essencial do carisma jesuítico. E São Francisco vivia estas três paixões: ao Cristo crucificado, aos pobres mais pobres e à natureza. Chamava a todas as criaturas, até ao feroz lobo de Gubbio com o doce nome de irmãos e de irmãs.

Ambos vislumbravam Deus em todas as coisas. Como o expressou belamente Santo Inácio:“Encontrar Deus em todas as coisas e ver que todas as coisas vem do alto”. E dizia mais, bem na linha do espírito de São Francisco:” Não é o muito saber que sacia e satisfaz a alma, mas o sentir e saborear internamente as coisas”. Só pode saborear internamente todas as coisas se as ama verdadeiramente e e sente unido a elas. Em São Francisco abundam afirmações semelhantes.

Tais modos de vida e de relacionamento são fundamentais se quisermos reinventar uma forma amigável, reverente e cuidadosa para com a Terra e a natureza. Dai nascerá uma civilização biocentrada. Como afirma a Fratelli tutti, fundada numa “política da ternura e da gentileza”, “no amor universal e na fraternidade sem fronteiras”, na interdependência entre todos, na solidariedade, na cooperação e no cuidado para com tudo o que existe e vive, especialmente com os mais desprotegidos.

O Covid-19 é um sinal que a Mãe Terra nos envia para assumirmos nossa missão que o Criador e o universo nos confiaram: de “proteger e cuidar do Jardim do Éden”, isto é, da Mãe Terra (Gn 2,15). Se juntos, estas duas Ordens, dos franciscanos e dos jesuítas, associados a  outros, se propuserem realizar este sagrado propósito, darão um sinal de que nem tudo do Paraíso terrenal se perdeu. Ele começa a crescer dentro de nós e se expande para fora de nós, fazendo, de verdade, da Mãe Terra, a verdadeira e única Casa Comum na qual podemos viver juntos na fraternidade, na amorosidade, na  justiça, na paz e na alegre celebração da vida. São sonhos? Sim, são os Grandes Sonhos, necessários, que antecipam a realidade futura.

Leonardo Boff, ecoteólogo, da parte da família franciscana.

El reencuentro entre el águila y el cóndor: el genocídio en las Américas

Leonardo Boff*

El planeta Tierra está en un franco y peligroso declinar debido a la agresión sistemática de los últimos siglos. La irrupción de la Covid-19, afectando directamente a todo el planeta y exclusivamente a la especie humana, es una de las serias señales que la Tierra viva nos está enviando: nuestro modo de vida es demasiado destructivo y lleva a la muerte a millones de seres humanos y a otros seres de la naturaleza. Tenemos que cambiar nuestro modo de producir, de consumir y de vivir en nuestra única Casa Común, en caso contrario podemos conocer un armagedónecológico-social.

Curiosamente, a contracorriente de ese proceso, considerado por algunos como la inauguración de una nueva era geológica –el antropoceno y el necroceno– es decir, la sistemática destrucción de vidas perpetradas por el propio ser humano, irrumpen los pueblos originarios, portadores de una nueva conciencia y de una vitalidad reprimida durantesiglos. Están rehaciéndose biológicamente y surgiendo como sujetos históricos. Su manera de relacionarse amigablemente con la naturaleza y la Madre Tierra los hace nuestros maestros y doctores. Se sienten tan unidos a estas realidades que al defenderlas se están defendiendo a sí mismos.

Fue un gran error de los invasores europeos llamarlos “indios” como si fuesen habitantes de una región de la India que todos buscaban. Ellos, en realidad, se llamaban con diferentes nombres: Tawantinsuyo, Anauhuac, Pindorama entre otros. Prevaleció el nombre de Abya Yala, dado por el pueblo Kuna del norte de Colombia y de Panamá que significa “tierra madura, tierra viva, tierra que florece”. Eran pueblos con sus nombres como taínos, tikunas, zapotecas, aztecas, mayas, olmecas, toltecas, mexicas, aymaras, incas quechuas tapajós, tupís, guaranís, mapuches y cientos de otros. La adopción del nombre común, Abya Yala, forma parte de la construcción de una identidad común, en la diversidad de sus culturas y expresa las articulaciones que los unen en un inmenso movimiento que va del norte al sur del continente americano. En 2007 crearon la Cúpula de los Pueblos de Abya Yala.

Pero sobre ellos pesa una vasta sombra que fue el exterminio infligido por los invasores europeos. Ocurrió uno de los mayores genocidios de la historia. Por guerras de exterminio o por enfermedades traídas por los blancos contra las cuales no tenían inmunidad, por trabajos forzados y mestizaje forzado murieron cerca de 70 millones de representantes de estos pueblos. Los datos más seguros han sido recogidos por la socióloga y educadora Moema Viezzer y por el sociólogo e historiador canadiense radicado en Brasil, Marcelo Grondin. El libro, impresionante, con prefacio de Ailton Krenak lleva como título Abya Yala: genocidio, resistencia y supervivencia de los pueblos originarios de las Américas (Editora Bambual, Rio de Janeiro 2021). Recogen los datos del genocidio de las dos Américas. Demos un pequeño resumen:

En 1492, cuando llegaron los colonizadores había en el Caribe cuatro millones de indígenas. Años después no había ninguno. Fueron muertos todos, especialmente en Haití.

En 1500 había en México 25 millones de indígenas (aztecas, toltecas y otros), setenta años después quedaban solo dos millones.

En 1532 existían en los Andes 15 millones de indígenas, en pocos años quedó solo un millón.

En América Central en 1492 en Guatemala, Honduras, Belize, Nicaragua, El Salvador, Costa Rica y Panamá había entre 5,6 y 13 millones de indígenas, el 90% de los cuales fueron muertos.

En Argentina, en Chile, en Colombia y en Paraguay murieron en promedio, en algunos países más y en otros menos, cerca de un millón de indígenas.

Las Antillas menores como en las Bahamas, Barbados, Curação, Granada, Guadalupe, Trinidad-Tobago e Islas Vírgenes conocieron el mismo exterminio casi total.

En Brasil, cuando los portugueses atracaron en estas tierras, había cerca de 6 millones de pueblos originarios de decenas de etnias con sus lenguas. El desencuentro violento los redujo a menos de un millón. Hoy, lamentablemente, debido al descuido por parte de las autoridades, ese proceso de muerte continúa, víctimas del coronavirus. Un sabio de la nación yanomami, el pajé Davi Kopenawa Yanomamy relata en el libro La Caída del Cielo lo que los chamanes de su pueblo están vislumbrando: la carrera de la humanidad se dirige hacia su fin.

En los Estados Unidos de América vivían en 1607 cerca de 18 millones de habitantes de pueblos originarios y tiempo después sobrevivieron solo dos millones.

En Canadá había en 1492 dos millones de habitantes originarios y en 1933 apenas se contaban 120 mil.

El libro no solo narra la inconmensurable tragedia, sino especialmente las resistencias y las cúpulas organizadas modernamente entre esos pueblos originarios del sur y del norte de las Américas. Con ello se refuerzan mutuamente, rescatan la sabiduría ancestral de los chamanes, las tradiciones y las memorias.

Una leyenda-profecía expresa el reencuentro de esos pueblos: la del Águila, representando a América el Norte y el Cóndor, a América del Sur. Ambos, engendrados por el Sol y por la Luna, vivían felices volando juntos. Pero el destino los separó. El Águila dominó los espacios y casi llevó al exterminio al Cóndor.

Sin embargo, quiso ese mismo destino que a partir de la década de 1990, al iniciarse las grandes cúpulas entre los distintos pueblos originarios del sur y del norte, el Cóndor y el Águila se reencontraran y empezaran a volar juntos. Delamor de ambos nació el Quetzal de América Central, un de las aves más bellas de la naturaleza, ave de la cosmovisión maya, que expresa la unión del corazón con la mente, del arte con la ciencia, de lo masculino con lo femenino. Es el comienzo del tiempo nuevo de la gran reconciliación de los seres humanos entre sí, como hermanos y hermanas, cuidadores de la naturaleza, unidos por un mismo corazón pulsante y habitando en la misma y generosa Pachamama, la Madre Tierra.

Quien sabe si en medio de las tribulaciones del tiempo presente en que nuestra cultura ha encontrado sus límites insuperables y se siente urgida a cambiar de rumbo, esta profecía pueda ser la anticipación de un fin bueno para todos. Aún volaremos juntos, el Águila del Norte con el Cóndor del Sur, bajo la benéfica luz del Sol que nos mostrará el mejor camino.

*Leonardo Boff escribió El casamiento entre el Cielo y la Tierra: cuentos de los pueblos indígenas de Brasil, Mar de Ideias, Rio de Janeiro 2014.

Traducción de Mª José Gavito Milano

O reencontro entre a Águia e o Condor

O planeta Terra devido à sistemática agressão nos últimos séculos está num franco e perigoso declínio. A intrusão do Covid-19 afetando diretamente  todo o planeta e exclusivamente a espécie humana é um entre os sevros sinais de que a Terra viva nos está enviando: nosso modo de vida é demasiadamente destrutivo levando à morte a milhões de seres humanos e a seres da natureza. Temos que mudar nosso modo produzir,de consumir e de morar na única Casa Comum, caso contrário podemos conhecer um armagedon ecológico-social.

Curiosamente, na contramão desse processo que alguns o veem como  a inauguração de uma nova era geológica – o antropoceno e o necroceno – quer dizer, a sistemática destruição de vidas perpetradas pelo próprio ser humano, irrompem os povos originários, portadores de uma nova consciência e de uma vitalidade, reprimida por séculos. Estão se refazendo biologicamente e surgindo como sujeitos históricos. Sua maneira de se relacionar amigavelmente com a natureza e a Mãe Terra fazem-se nossos mestres e doutores. Sentem-se tão unidos a estas realidades que defendendo-as estão se defendendo a si próprios.

Foi grande o equívoco dos invasores europeus de chamá-los de “indios” como se fossem habitantes de uma região da Índia que todos buscavam.Eles, na verdade,  se chamavam por vários nomes:Tawantinsuyo, Anauhuac, Pindorama entre outros. Prevaleceu o nome de Abya Yala  dada pelo povo Kuna do norte da Colômbia e do Panamá que significava “terra madura, terra viva, terra que floresce”. Eram povos com seus nomes como taínos, tikunas, zapotecas, astecas, maias, olmecas, toltecas, mexicas, aimaras,incas quíchuas tapajós, tupis, guaranis, mapuches e centenas de outros. A adoção de nome comum Abya Yala faz parte da construção de uma identidade comum, na diversidade de suas culturas e  expressão das articulações que os unem num imenso movimento que vai do norte o sul do continente americano. Em 2007 criaram a Cúpula dos Povos de Abya Yala.

Mas sobre eles pesa uma vasta sombra que foi o extermínio infligido pelos invasores europeus. Ocorreu um dos maiores genocídios da história. Foram mortos por guerras de extermínio ou por doenças trazidas pelos brancos contra as quais não possuíam imunidade, por trabalhos forçados e mestiçagem forçada, cerca de 70 milhões de representantes destes povos. Os dados mais seguros foram levantados pela socióloga e educadora Moema Viezzer e pelo sociólogo e historiador canadense radicado no Brasil Marcelo Grondin. O livro, impressionnte, com prefácio de Ailton Krenak leva como título Abya Yala: genocídio, resistência e sobrevivência dos povos originários das Américas (Editora Bambual, Rio de Janeiro 2021). Recolhem os dados do genocídio das duas Américas. Demos um pequeno resumo:                                                                                                  

No Caribe em 1492 quando chegaram os colonizadores, havia quatro milhoes  de indígenas. Anos após não havia mais nenhum. Todos foram mortos especialmente no Haiti.

No México em 1500 havia 25 milhões de indígenas (Astecas, toltecas e outros) depois de 70 anos restaram apenas dois milhões.

Nos Andes existiam em 1532 15 milhões de indígenas, em poucos anos restou apenas um milhão.

Na América  Central em 1492 na Guatemala, Honduras, Belize, Nicarágua, El Salvador, Costa rica e Panamá havia entre 5,6-13 milhões de indígenas, dos quais 90% foram mortos.

Na Argentina, no Chile, na Colômbia e no Paraguai morreram em média, em alguns países mais em outros menos, cerca cerca de um milhão de indígenas.

Nas Antilhas menores como nas Bahamas, Barbados.Curaçao,Granada, Guadalupe, Trinidad- Tobago e Ilhas Virgens conheceram o mesmo extermínio quase total.

No Brasil quando os portugueses aportaram  nestas terras, havia cerca de  6 milhões de povos originários de dezenas de etnias com suas línguas. O desencontro violento os reduziu a menos de um milhão. Hoje, infelizmente, devido ao descuido por parte das autoridades, esse processo de morte continua, vítimas do coronavírus. Um sábio da nação yanomami, o pajé Davi Kopenawa Yanomamy relata no livro A Queda do Céu o que os xamãs de seu povo estão entrevendo:a corrida  da humanidade está rumando  na direção de seu fim.

Nos Estados Unidos da América viviam  em 1607 cerca de 18 milhões de povos originários e tempos depois sobreviveram apenas dois milhões.

No Canadá havia em 1492 dois milhões de habitantes originários e em 1933 se contavam apenas 120 mil.

O livro não narra apenas a incomensurável tragédia, mas especialmente as resistências e modernamente as várias cúpulas organizadas entre esses povos originários, do sul e do norte das Américas. Com isso se reforçarem mutuamente, resgatam a sabedoria ancestral dos xamãs, as tradições e as memórias.

Uma lenda-profecia expressa o reencontro desses povos: aquela entre a Águia, representando a América do Norte  e o Condor a América do Sul. Ambos foram gerados pelo Sol e pela Lua. Viviam felizes voando juntos. Mas o destino os separou. A Águia dominou os espaços e quase levou ao extermínio o Condor.

No entanto, quis esse mesmo destino que a partir da década de 1990, ao se iniciarem as grandes cúpulas entre os distintos povos originários, do sul e do norte, o Condor  e a Águia se reencontraram e começaram  a voar juntos. Do amor de ambos, nasceu o Quetzal da América Central, uma das mais belas aves da natureza, ave da cosmovisão maia  que expressa a união do coração com a mente, da arte com a ciência, do masculino com o feminino. É o começo do novo tempo, da grande reconciliação dos seres humanos entre si, como irmãos e irmãs, cuidadores na natureza, unidos por um mesmo coração pulsante e habitando na mesma e generosa Pachamama, a Mãe Terra.

Quem sabe, no meio das tribulações do tempo presente em que nossa cultura encontrou seus limites intransponíveis e se sente urgida a mudar de rumo, esta profecia possa ser a antecipação de um fim bom para todos nós. Ainda voaremos juntos, a Águia do Norte com o Condor do Sul sob a luz benfazeja do Sol que nos mostrará o melhor caminho.

Leonardo Boff escreveu O Casamento entre o Céu e a Terra: contos dos povos indígenas do Brasil, Mar de Ideias, Rio de Janeiro 2014.

Inmitten der Pandemie: Die Dringlichkeit des Geistes des Lebens

Leonardo Boff

Inmitten der Pandemie, die täglich Tausende von Toten fordert, feiern wir das Pfingstfest, das Fest des lebensspendenden und heilenden Geistes. Sein Wirken mit all denen, die im Kampf gegen Covid-19 an vorderster Front stehen, ist dringend notwendig, um sie am Leben zu erhalten, beschützt und gewappnet mit dem heldenhaften Geist, um ihre Mission, Leben zu retten, fortsetzen zu können, wobei sie  ihr eigenes aufs Spiel setzen.

Der liturgische Hymnus des heutigen Festes spricht von ihm als den “großen Tröster und süßen Erquicker”. Mehr denn je muss er sich mit diesen Gaben allen zur Verfügung stellen, die in Krankenhäusern arbeiten

Lasst uns einen Moment über das Wesen des Heiligen Geistes und seine Bedeutung für das Leben und den gegenwärtigen dramatischen Moment nachdenken.

Zuallererst ist es wichtig zu sagen, dass der Geist der erste war, der in diese Welt kam und immer noch kommt. Er kam und schlug seine Zelte bei Maria von Nazareth auf. Das heißt, er richtete seine ständige Wohnstätte in ihr ein (Lk 1,35) und erhob das Weibliche auf die Höhe des Göttlichen.

Aus dieser Gegenwart ist die heilige Menschheit des Gottessohnes entstanden. Das Wort schlug sein Zelt auf (Joh 1,14) in dem von Maria empfangenen Menschen Jesus. In einem Moment der Geschichte ist sie, die einfache Frau von Nazareth, der Tempel des lebendigen Gottes: Zwei göttliche Personen wohnen in ihr: der Geist, der sie “gesegnet unter allen Frauen” (Lk 1,42) macht, und der Sohn Gottes, der in ihr heranwächst und dessen Mutter sie wahrhaftig ist.

Dann kam der Geist bei der Taufe durch Johannes den Täufer auf Jesus herab und entzündete ihn für seine befreiende Mission. Er kam auf die erste Gemeinde herab, die sich am Pfingstfest, das wir heute feiern, in Jerusalem versammelte, und gebar die Kirche. Er kam weiterhin herab, unabhängig davon, ob die Menschen Christen waren und sich taufen ließen oder nicht, wie es bei dem römischen Beamten Kornelius geschah, als er noch ein Heide war (Apg 11,45).

Und im Laufe der Geschichte ist er immer schon vor den Missionaren gekommen und hat dafür gesorgt, dass in den Herzen der Menschen die Liebe herrschte, die Gerechtigkeit gepflegt und das Mitgefühl gelebt wurde. Einmal in die Geschichte eingetreten, hat er sie nie wieder verlassen. Er nimmt, was zu Jesus gehört, gibt es weiter, verkündet aber auch “Neues, das kommt” (Joh 16,13).

Es geschieht mithilfe des Geistes, dass Propheten hervorbrechen, Dichter singen, Künstler geschaffen werden und Menschen das praktizieren, was gut, gerecht und wahr ist. Vom Geist werden die Heiligen geformt, besonders jene, die ihr Leben für das Leben anderer geben, wie jetzt jene, die fast bis zur Erschöpfung in den Krankenhäusern Brasiliens und der Welt arbeiten.

Es ist ebenfalls auf den Geist zurückzuführen, dass alte und schrumpfende Institutionen sich plötzlich erneuern und den Gemeinden den nötigen Dienst erweisen, wie es Papst Franziskus tut und auch andere christliche Kirchen.

Die Welt geht schwanger mit dem Geist, auch wenn der Geist der Ungerechtigkeit beharrlich sein Werk fortsetzt, feindlich gesonnen gegenüber dem Leben und allem, was heilig und göttlich ist. Dies geschieht in unserem Land mit einer Regierung, die dem Tod freundlicher gesonnen ist als dem Leben.

Die Armen fühlen sich in diesem Moment am meisten bestraft, ohne ein angemessenes Haus zum Leben, ohne zu wissen, was sie am nächsten Tag essen werden, ohne Arbeit und ohne jegliche Sicherheit gegenüber den Angriffen des tödlichen Virus.

Heute gibt es Millionen von ihnen. Die Armen schreien auf. Und Gott ist der Gott des Schreis, d.h. derjenige, der auf den Schrei der Unterdrückten hört. Er verlässt seine Transzendenz und kommt herab, um ihnen zuzuhören und sie zu befreien, wie im Fall der Gefangenschaft in Ägypten (vgl. Ex 4,3). Es ist der Geist, der uns dazu bringt, “Abba, lieber Vater” zu rufen (Röm 8,15; Gal 4,6). Deshalb ist der Geist der Vater und der Pate der Armen (pater pauperum), wie die Kirche heute an diesem Fest singt.

Er tut es sicher nicht auf wundersame Weise, aber er gibt ihnen Mut und Widerstand, den Willen zu kämpfen und zu siegen. Er lässt die Arme nicht sinken. Er schickt das Licht in die Herzen der Armen, damit sie die richtigen Initiativen entdecken, damit sie ausharren und tatsächlich bis heute lebendig werden; wenn die Ureinwohner nicht völlig ausgerottet werden konnten und jetzt, wegen der Nachlässigkeit der offiziellen Behörden, ernsthaft gefährdet sind, wenn die Afro-Nachfahren nicht der Last der Sklaverei erliegen konnten, dann deshalb, weil in ihnen eine Energie des Widerstands und der Befreiung war, das, was der Hymnus die Gaben und das Licht der Herzen nennt: der Heilige Geist, egal welchen Namen wir ihm geben.

Den Verzweifelten zeigt er sich als ein Tröster ohnegleichen. Er steht ihnen nicht von außen bei. Er ist gekommen, um als Gast in ihnen zu wohnen, um ihnen zu helfen und sie zu beraten, denn das ist seine Mission. In den großen Schwierigkeiten und Krisen verkündet er sich als Bezugspunkt des Friedens, der Ruhe: ein Erquicker, denn so sagt es der Pfingsthymnus, den ich hier wörtlich zitiere.

Er erscheint als der große Tröster. Wie oft treiben uns in diesen dunklen Zeiten die Nöte des Lebens Tränen in die Augen! Wenn wir einen geliebten Menschen verlieren, ohne uns zu verabschieden und ohne die notwendige Trauerarbeit zu leisten, oder wenn wir tiefe Frustrationen erleben, affektiv oder beruflich, oder wenn wir arbeitslos sind, scheinen wir in einen Abgrund zu fallen. Es sind diese Momente, in denen wir flehen müssen: “Komm, Geist, sei unser Trost; wische unsere Tränen ab und kühle unser Schluchzen.

Der Heilige Geist kam einmal und kommt noch immer ständig. Aber in dramatischen Momenten wie dem unseren, unter Covid-19, müssen wir rufen: “Komm, Heiliger Geist, und erneuere das Antlitz der Erde und rette unser Land und die Welt.

Wenn der Geist nicht kommt, werden wir dazu verdammt sein, die vom Propheten Ezechiel (c.37) beschriebene Landschaft zu sehen: die Erde bedeckt mit Leichen und Knochen überall. Aber wenn er kommt, werden die Leichen mit Leben bekleidet, und die Wüste wird zu einem Garten. Die Armen werden ihre Gerechtigkeit erhalten, die Kranken werden Gesundheit erlangen, und die Sünder, die wir alle sind, werden Vergebung und Gnade empfangen.

Das ist unser Glaube und mehr noch, unsere unsterbliche Hoffnung, verbunden mit einer tiefen Solidarität mit allen Opfern von Covid-19.

Leonardo Boff Theologe und Autor von “Der Heilige Geist: Feuer Gottes – Lebensquell – Vater der Armen“, 2014, Herder.

Übersetzt von Bettina Gold-Harnack