Josué de Castro e a descoberta da fome: por sua filha Anna Maria de Castro

22 set 2021 (22 Set 2021 às 17h40)

Como poucas vezes em nossa história, a fome grassa aos milhões em nosso país, no contexto da intrusão do coronavírus. Josué de Castro foi o mestre que inaugurou a nível nacional e intternacional o tema-tabu da fome. Sua filha ANA MARIA DE CASTRO neste artigo resume a trajetória e as ideias de seu pai sobre a fome. Esta não é natural, nem querida por Deus, mas é fruto de políticas de exclusão que um estado, ocupado pela classe dominante, submete grande parte da população. Seu clássico “A geografia da fome” mostrou seu caráter humano e social. Não se trata da geografia física, mas da geografia humana e política, como exemplarmente o mostrou um de seus seguidores, mundialmente conhecido, Milton Santos. Hoje a fome do Brasil é pecaminosa, injusta e cruel. Somos como país um dos maiores produtores de alimentos e de proteinas. Mas esta produção não se destina à matar a fome da nossa população. A maior parte dela vai para a exportação, até para, como é o caso da soja, servir de alimento para os bovinos na China. Neste contexto da fome generalizada neste país, vale resgatar as reflexões críticas e inspirdoras de Josué de Castro (ele também cassado pela insensibilidde dos militares de 1964). Elas são um anúncio de suas origens políticas, da vontade humana excludente e acumuladora de riqueza e uma denúncia destes mesmos mecanismos atualmente ainda vigentes e aprofundados. O MST, o maior produtor de arroz orgânico do Brasil e da América Latina e um dos maiores doadores de alimentação agroecológica para as periferias famélicas de nossas cidades, recolheu e divulgou o presente texto. LBoff

No contexto em que a fome e a miséria persistem como resultado de uma cruel concentração de renda, poder e da propriedade, a obra e as propostas de Josué de Castro devem continuar a ser lidas e estudadas. Josué de Castro foi uma destas figuras marcantes de cientista que teve uma profunda influência na vida nacional e grande projeção internacional nos anos que decorreram entre 1930 e 1973, data de seu falecimento em Paris. Ele dedicou o melhor de seu tempo e de seu talento para chamar a atenção para o problema da fome e da miséria que assolavam e que, infelizmente, ainda assolam o mundo.

Nascido no Recife, cidade do nordeste brasileiro, lá, ainda nos primeiros anos de vida, teve contato com o objeto de seus trabalhos de cientista e de escritor – problema da fome. Seus livros mais importantes sempre mantiveram o rigor científico e a verve do romancista, desejo guardado em seu íntimo. Josué de Castro sempre admirou os escritores capazes de contar dos homens e das coisas dos homens com uma linguagem universal, melhor do que os cientistas.

Assim é que ao escrever seu principal livro, a Geografia da Fome, dedicou-o a dois escritores, Rachel de Queiroz e José Américo de Almeida, romancistas da fome no Brasil. A obra também é dedicada à memória de Euclides da Cunha e Rodolfo Teófilo, sociólogos da fome no Brasil. Anos antes, junto com Cecilia Meirelles, havia escrito a Festa das Letras, uma cartilha de alimentação. Tentou desenvolver seu gosto pela literatura ao editar, em 1935, a obra “Documentário do Nordeste”. Entre os contos então publicados, encontra-se o Ciclo do Caranguejos que só mais tarde desenvolveu como uma novela sob o nome de Homens e Caranguejos.

Nestes escritos descreve a fome como fenômeno social: “o tema deste livro é a história da descoberta da fome nos meus anos de infância, nos alagados da cidade do Recife. Procuro mostrar neste livro de ficção que não foi na Sorbonne nem em qualquer outra universidade sábia que travei conhecimento com o problema da fome. Esta se revelou espontaneamente a meus olhos nos mangues do Capibaribe, nos bairros miseráveis da cidade do Recife, fervilhando de caranguejos e povoada de seres humanos feitos de carne de caranguejos, pensando e sentindo como caranguejos.”

Estas imagens de infância e o exercício da medicina foram fundamentais na trajetória científica de Josué de Castro. Nos idos de 1935, ao coordenar o inquérito sobre as condições de vida da população do Recife, já era evidente que as velhas e insustentáveis teorias, falsas interpretações, deploráveis preconceitos raciais e climáticos, bem como o Malthusianismo praticado em detrimento das populações subdesenvolvidas, precisavam ser substituídos. A fome não podia continuar a ser tratada como um tabu, matéria proibida da qual ninguém se atrevia a falar, senão com circunlóquios que desfiguravam a realidade.

Ao escrever a “Geografia da Fome” afirmava que a fome não era um problema natural, isto é, não dependia nem era resultado dos fatos da natureza – ao contrário, era fruto de ações dos homens, de suas opções, da condução econômica que davam a seus países

Antes deste inquérito pioneiro cuja conclusão indicava que o grande mal dos operários da fábrica que servira de modelo para o trabalho, não era doença, mas a fome, Josué já produzira expressivos trabalhos como Problemas da alimentação no Brasil, Alimentação e Raça, A Alimentação à Luz da Geografia Humana e a Geografia da Fome que recebeu em 1946, o Prêmio Jose Verissimo da Academia Brasileira de Letras. Mesmo em pleno pós-guerra – imaginemos o Brasil com suas bibliotecas desatualizadas, sem computador, sem internet, portanto, não dispondo de todo o instrumental de que dispõem hoje os estudiosos – Josué não se omitiu: a realidade da fome era tão forte e o mal que causava era de tamanha magnitude que ele não podia deixar de se empenhar para enfrentar os preconceitos que encobriam tal calamidade. A partir daí, procurou com os meios de que dispunha estudar este, ainda hoje, fenômeno universal.

Ao escrever a “Geografia da Fome” afirmava que a fome não era um problema natural, isto é, não dependia nem era resultado dos fatos da natureza – ao contrário, era fruto de ações dos homens, de suas opções, da condução econômica que davam a seus países. Incompreendida à época, esta afirmação foi ganhando força ao longo do tempo e tem sido objeto de importantes abordagens por brasileiros e pensadores estrangeiros. Frei Beto, um dos idealizadores do Programa Fome Zero, em entrevista concedida ao jornalista pernambucano Vandek Santiago, autor do livro Josué de Castro “O Gênio Silenciado”, afirmou: “as obras de Josué tiveram o mérito de quebrar o tabu em torno do tema da fome. Provaram que ela não é uma consequência do clima do Nordeste e desmistificaram de que a fome é castigo de Deus. Ele, Josué, foi o primeiro a mostrar a fome como questão política.”

No mesmo livro, João Pedro Stédile, líder nacional do MST, pontua sobre a obra de Josué : “a fome é parceira e consequência da pobreza e da falta de distribuição de renda. Não é por falta de produção de alimentos; esse tema não é tabu, é um problema de poder político. De dominação de classe”. Mais adiante na mesma entrevista, esclarece sobre o autor da “Geografia da Fome”: “ele foi um dos maiores pensadores brasileiros do século 20. Por sua formação científica ampla, de médico, biólogo, e geógrafo, conseguiu nos dar uma leitura correta das causas e das raízes dos problemas brasileiros relacionados com a pobreza e fome.”

O médico pernambucano Jamesson Ferreira Lima, amigo e contemporâneo de Josué, em texto integrante de livro que coordenei sobre os últimos textos de meu pai “Fome, um Tema Proibido” abordou de maneira esclarecedora o pensamento de Josué acrescentando novo viés: “a origem de seu trabalho acarretou mudança de perspectiva. Inicialmente, pensava-se que a fome era um problema natural, irremediável, ligado à seleção e competição vitais, um dos caracteres da condição humana. Foi a cidade do Recife em que nasceu, localizada no Nordeste brasileiro, com um terço da população vivendo miseravelmente, em subemprego e ou desemprego, atingida pela economia, a monocultura da cana de açúcar – um fenômeno artificial – e de secas periódicas que lhe propiciou a consciência da fome e do subdesenvolvimento.”

A publicação deste importante livro assinalou o ponto de maior amadurecimento de suas reflexões sobre a fome. Enfrentando o problema sem subterfúgios não temeu em afirmar “uma das características dos países subdesenvolvidos é que a maioria padece de fome” e procurou demonstrar que o problema é fruto de distorções econômicas. Ou seja, a fome é um fenômeno artificial criado pelo homem, ou mais precisamente por certo tipo de homem.

Manifestava ainda toda sua indignação ao declarar que: “o maior absurdo de nossa sociedade é termos deixado morrer centenas de milhões de indivíduos de fome num mundo com capacidade quase infinita de aumento de sua produção e que dispõe de recursos técnicos adequados à realização deste aumento.” Enfatizava dramaticamente em sua obra, lembrando escritores que apreciava: “não é somente agindo sobre o corpo dos flagelados, roendo-lhes as vísceras e abrindo chagas e buracos em sua pele, que a fome aniquila a vida do sertanejo, mas também atuando sobre sua estrutura mental, sobre sua conduta social. Nenhuma calamidade é capaz de desagregar tão profundamente e num sentido tão nocivo a personalidade humana como a fome quando alcança os limites da verdadeira inanição. Fustigados pela fome, fustigados pela imperiosa necessidade de se alimentar, os instintos primários exaltam-se e o homem como qualquer outro animal esfomeado apresenta uma conduta que pode parecer a mais desconcertante.”

Josué foi um cientista de múltiplos saberes, médico, na origem de sua formação, como consequência de suas pesquisas logo compreendeu que necessitava estender seus conhecimentos a outros ramos científicos, assim a geografia, a sociologia, o estudo do meio ambiente, foram ganhando espaço em sua biblioteca e em sua mente. Por conta destes estudos é que entendeu, quando escreveu a “Geografia da Fome”, que o melhor método para analisar este fenômeno presente em nossa sociedade liberal capitalista seria o contido na geografia humana.

“Resolvemos encarar o problema de uma nova perspectiva de um plano mais distante, de uma visão de conjunto, destacando de maneira mais compreensiva as ligações, as influências e as conexões dos múltiplos fatores. O uso do método geográfico, único método que, a nosso ver, permite estudar o problema na sua realidade total, não o uso do método descritivo da antiga geografia, mas o método interpretativo que se corporificou dentro dos pensamentos fecundos de Ritter, Humboldt, Jean Brunhes, Vidal de La Blanche, Criffith Taylor e tantos outros.” E, mais adiante afirma “neste ensaio de natureza ecológica tentamos portanto, analisar os hábitos alimentares dos diferentes grupos humanos ligados a determinadas áreas geográficas, procurando, de um lado, descobrir as causas naturais e as causas sociais que determinaram o seu tipo de alimentação, com suas falhas e defeitos característicos e, de outro lado, procuramos verificar até onde esses defeitos influenciam a estrutura econômico social.”

A decisão de escolher o método geográfico para a estrutura da obra foi, sem dúvida, parte importante para seu êxito ao longo dos anos. Além da originalidade, influenciou novas pesquisas e até ajudou a formar outros importantes cientistas brasileiros, como, por exemplo o consagrado Milton Santos, geógrafo brasileiro de projeção internacional, autor de expressivas obras científicas que em longa entrevista concedida a Marina Amaral, entre outros intelectuais, a propósito de sua formação esclarecida, diante de uma indagação: “o que levou o senhor à geografia era mais conhecimento físico ou sociológico?”

“Sociológico. Desde menino, a noção de movimento me impressionava ver as pessoas se movendo. Também um fato muito importante no Ginásio, o livro de texto era a ‘Geografia Humana’ de Josué de Castro, era uma espécie de história contada através do uso do planeta pelo homem, aquilo me impressionou”. Mais adiante, na mesma entrevista: “o livro ‘Geografia da Fome’ também o influenciou?”, indaga o entrevistador. “Muito”, responde Milton. “Esse, vamos dizer assim, aprendizado da generosidade que aparece em Josué de Castro, e essa vontade de oferecer uma interpretação não conformista, isso cala no espírito do menino, do jovem, essa vontade de buscar outra coisa. Acho que teve sobre mim uma influência extremamente grande.”

Josué de Castro teve a ousadia de sonhar com um mundo onde não houvesse fome de alimentos, de conhecimento, de liberdade, onde não se ocultasse a verdade e onde todos os problemas pudessem ser discutidos. Pagou um alto tributo pela ousadia.

Em 1964, aos 56 anos Josué de Castro, embaixador do Brasil junto aos Órgãos Das Nações Unidas, em Genebra, teve seus direitos políticos cassados. Interrompia-se, pelo arbítrio, a profícua atividade intelectual do humilde médico brasileiro que aos 21 anos iniciara sua carreira no Recife e chegara a ser representante de seu país.

Lamentavelmente, a fome continua a ser um problema mundial e também no Brasil. Entre nós, a fome e a miséria persistem como resultado de uma cruel concentração de renda, poder e da propriedade que provoca um imenso abismo entre ricos e pobres.

É certo que ao longo do tempo, nos anos compreendidos entre 2003 e 2015 o Brasil soube construir sólidas políticas de inclusão social que foram responsáveis por nossa saída do mapa da fome mundial. Entretanto, a não continuidade destas medidas e até o abandono de muitas delas nos fizeram retornar à infamante situação de integrante do rol de países que têm parte importante de sua população passando fome.

Não hesito em afirmar: Josué de Castro deve continuar a ser lido e suas propostas estudadas.

Anna Maria de Castro é professora titular da UFRJ (aposentada) e livre-docente em sociologia aplicada. Algumas de suas obras são “Introdução ao pensamento sociológico “; “Nutrição e desenvolvimento – análise de uma política” e “Fome, um tema proibido”. É pesquisadora convidada da Cátedra J. Castro/USP (Cátedra Josué de Castro de Sistemas Alimentares Saudáveis e Sustentáveis).

O MITO VERDADEIRO E O MITO FALSO (BOLSONARO)

Leonardo Boff

Quando uma massa imbecilizada começou a ovacionar a Jair Bolsonaro como mito houve um estremecimento em todo o universo cultural dos mitos. Todas as culturas possuem e cultuam seus mitos. Chamar de mito a alguém de mente assassina, um ser movido por ódio, exaltação da tortura, covarde desprezo de afrodescendentes, indígenas, quilombolas e LGBTI e que se propõe “destruir tudo o que está aí”, culminando com a dizimação de milhares de compatriotas vitimados pelo Covid-19 por sua intencionada omissão sem mostrar qualquer sentimento de empatia é atingir no coração o ancestral sentido do mito.

Há uma infinidade de excelentes estudos sobre o resgate do sentido originário do mito. Cito apenas os mais notáveis: a vasta obra em vários tomos de Karl Kerényi, Bronislav Malinovski (seu clássico Myth in Primitive Psychology de 1926), C.G.Jung e sua escola, particularmente Ginette Paris e James Hillman; ainda Micea Eliade, Joseph Campbell, Georges Dumézil, o brasileiro J.Souza Brandão e entre outros e outras. Com referência às religiões de matriz afro ou surgidas aqui como o Santo Daime e a Umbanda compareceram pesquisasores notáveis como Roger Bastide, A. Carneiro, R. Ribeiro, J.Elbein dos Santos entre outros e outras.

O mesmo pode-se dizer do politeismo dito pagão. O monoteismo judaico-cristão foi severíssimo contra o politeísmo, em especial, do romano. Logicamente os neocristãos não possuíam o nível de consciência e os instrumentos de interpretação de que hoje  dispomos com as constribuições da nova hermenêutica, da psicologia do profundo,do estruralismo e da nova antropologia. Eles tomaram aquelas divindades, como também no Brasil concernente às entidades das religiões afro (o axé,os orixás etc) como realidades existentes fora de nós. A pesquisa contemporânea vê nelas não entidades externas mas expressões de energias psíquicas internas, poderosas e primordiais, expressas por figuras concretas externas que devem ser adequadamente interpretadas com os critérios referidos. Já observava E.Durkheim; a religião tem mais a ver com energias poderosas  do que com  doutrinas.

Estas energias são tão profundas e misteriosas que não se deixam captar conceptualmente nem ontem nem hoje. Usam-se então figuras arquetítipicas, narrativas plásticas que dão corpo a estas energias que irrompem, se agitam e vivem dentro de cada ser humano. Nesse sentido elas são transculturais e perenes como perene é a condiçãa humana. O exacerbado monoteismo combatendo o politeismo, fechou muitas janelas da alma e lançou para o inconsciente energias que teriam colaborado enormemente para a humanização e o enriquecimento do psiquismo humano (evitando o surgimento  do machismo e do patriarcalismo que tantos males produzem), caso fossem entendidas em seu sentido originário profundo.

Sirva de exemplo a deusa grega Afrodite: é uma energia arquetípica (das profundezas do inconsciente coletivo) concernente àquilo que subiste em nós:  a sexualidade, o enamoramento, a beleza e a  sedução e,em seu lado de sombra,  a infidelidade e a prostiuição. Ou a figura simpática do Preto Velho, sempre sábio e protetor ou o  tão incompreendido e difamado Exu, o portador da energia cósmica do Axé que vitaliza todos os seres. São energias vitais que movem  a vida humana. Que linguagem adequada encontrar para exprimi-las consoante a sua natureza? O  mito e as dividades (Orixás,Oxóssi, Iansã, Xangô ou panteão católico de santos e santas) tentaram expressar plasticamente a vigência destas forças primordiais.

Pelo que sabemos,foram  os gregos os primeiros a usar a palavra mito num duplo sentido: como força originária de vida ou como um história inventada. No sentido primeiro e originário, o mito constitui uma realidade arquetípica, uma energia fontal que sustenta o ser humano vivo,criativo e aberto a todo tipo de relação.O mito não é inicialmente uma narrativa, mas uma realidade vivida que enraiza o ser humano no seu chão e com toda a realidade à sua volta e lhe confere sentido de pertença e orientação. Abro um parêntesis para ilustrar o significado originário do mito.

Quando fui lançar na UFRJ meui livro “O Casamento do Céu com a Terra:contos dos povos indígenas do Brasil”(2014) comecei dizendo: “Quero apresentar aqui uma série de mitos indígena”…Nisso me atalhou imediatamente Ailton Krenak, grande liderança nacional indígena:”Esses mitos não são mitos como vocês entendem, coisa obsoleta de indígenas; são verdades vitais que nós vivemos e nos oferecem luz para o nosso caminho. O rio Doce é nosso irmão e as montanhas devordas pela fúria impiedosa da mineradora Vale são nossas mães e irmãs violentadas”. E arrematou: “vocês têm seus mitos dos quais não têm sequer consciência: o mito da tecno-ciência, do desenvolvimento ilimitado, do consumismo..; o que eles trouxeram para vocês senão desigualdade, conflitos, ansiedade e acumulação de bens materiais que não satisfazem os anseios da alma”?

Produziu-se um grande silêncio. Foi então que antes de falar dos belíssimos “mitos” vivenciais  indígenas, especialmente, aqueles ecológicos que nos ensinam a criar um laço afeitivo com a natureza e com os animais, tentei explicar aquilo que estou explanando agora: os mitos são as realidades fundadoras do sentido da vida humana situada na  região da qual nos sentimos parte e  parcela, aquela vivência que nos liga à Terra e ao Céu e nos oferece uma significação integradora da interdependência de todos com todoe com todos com os seres da natureza. Nesta acepção positiva até se fala em teologia no “mito cristão”: tudo aquilo de sagrado e de  divino que representa o designio de Deus para o nosso mundo,através de sua auto-comunicação por Jesus e por seu Espírito.

Nossa cultura tecnificada e materialista perdeu esta percepção do sentido originário do mito e se alimenta de falsos mitos, especialmente, projetados pelo marketing comercial e também político. Por isso andamos errantes, solitários e perdidos no meio de um mundo de aparatos e do consumismo sem alimentar o melhor de nós mesmos: a nossa interioridade, nossa capacidade de admirar o despontar de uma flor, de sentir a brisa leve, de se encantar com o nascer e o pôr do sol, de celebrar a alegria de estarmos juntos e dialogarmos sobe nossas vidas, sucessos e dissabores.

Os mesmos gregos que refletiram tão profundamente sobre o mito vivencial também nos advertiram acerca do mito inventado, descolado da vivência da “anima”(a dimensão sensível e simbólica da realidade), construído como uma narrativa falaciosa para atrair as pessoas e deixá-las fascinadas e fanatizadas em função de interesses excusos e de sentimentos indignos.

Tal mito forjado, falso,impiedoso, insensível e odiento é esta triste e lamentável figura que escandaliza a polis, a vida social e degrada a política como  forma civilizada e humanizada de convivência entre os cidadãos.E o faz, descaradamente, até no Foro mais alto que é a ONU. Este (des) governa nosso país sem qualquer sentido de dignidade do cargo, usando continuamente mentiras e ataques autoritários à democracia, ao STF e às instituições políticas nacionais. Seu nome sequer merece ser citado para não ofender a linguagem.

Tudo o que representa um falso mito e vem construído sobre o ódio e a  mentira, como ele está fazendo, jamais foi e será fundamento de uma convivência humana aceitável. Ele ruirá como um castelo de areia.E grande será sua queda. Isso não é profecia, é lição da história.

Leonardo Boff é teólogo e filósofo e escreveu “Brasil:concluir a refundação ou prolongar a dependência”, Vozes, 2018, reponsável pela tradução da obra completa de C.G.Jung (19 tomos, Vozes).

Uma espantosa revelação, vivida por poucos  e recusada por muitos (I)

                                            Leonardo Boff

Nas religiões, os seres humanos buscam a Deus.Na Tradição de Jesus é Deus que busca os seres humanos. Na primeira, o fazem pela oração oral, pela meditação silenciosa, pela observância dos preceitos religiosos e éticos, pela participação das festas e dos ritos e pela memória das tradições. Quanto mais reta e fiel for a pessoa, mais meritoriamente chega a Deus.

Na Tradição de Jesus ocorre o contrário: É Deus que busca o ser humano, especialmente aquele que se sente perdido, que não leva uma vida   virtuosa e que julga ter sido abandonado por Deus. Logicamente, nesta Tradição também se reza e se conservam as tradições religiosas, se vive eticamente e se frequentam os cultos e as festas. Englobando tudo: observa-se a Lei. Mas não é aqui que reside a novidade.E não é por esses meios que acolhemos a singularidade trazida por Jesus.

A  experiência originária de Jesus: a proximidade de Deus

Num obscuro vilarejo,Nazaré, tão insignificante que nunca ocorre nas Escrituras do Antigo  Testamento, vive um homem desconhecido cujo nome nunca constou na crônica profana da época, seja de Jerusalém, seja de Roma. Ele pertence ao grupo dos chamados “os pobres de Javè” que são os humildes e invisíveis mas cuja característica consiste em viver uma profunda fé no Deus dos pais, Abraão,Isaac e Jacó  e uma inabalável confiança em Deus de que vai realizar o que os profetas anunciaram:a justiça para os pobres, a proteção das viúvas e a elevação dos humilhados e ofendidos. Esse homm é Jesus de Nazaré.

De profissão é um artesão-carpinteiro como seu pai José. Até a idade adulta viveu na família a espiritualidade dos pobres de Javé.Era conhecido no vilarejo como “o filho de José, de quem conhecemos o pai e a mãe”(Jo 6,42) ou simplesmente “o carpinteiro, filho de Maria” (Mt 5,3) ou “o filho de José”(Lc 4,22).

Mas ele mostrava uma singularidade que deixou perplexos os pais.Não chamava a Deus como se costumava, mas de uma forma bem própria: de Abba o diminutivo infantil de “meu querido paizinho”. Isso ficou claro quando aos 12 anos participou, com os  pais, da romaria anual a Jerusalém e por lá ficou perdido. Encontrado, sob a angústia dos pais,diz:”Não sabíeis que eu devia ficar no casa do meu Pai (Lc 2,50)? Perplexos, seus pais não entenderam esta linguagem inaudita (Lc 2,5). Maria, no entanto, guardava-o em seu coração (Lc 2,51). E tudo morreu ai. Não se sabe nada de sua vida oculta,  profissional e familiar. Apenas o evangelista Lucas observa tardiamente pelos anos 80 dC:”Jesus progredia em idade, em sabedoria e graça diante de Deus e dos homens”(Lc 2,52).

Abstraindo os evangelhos da infância de Mateus e de Lucas, carregados de significação teológica posterior, todos os evangelistas começam suas narrativas pelo batismo de Jesus por João Batista. Foi então, testemunham os relatos, que ocorreu uma  grande transformação na vida do ignoto Nazareno. Quando ele ouviu a fama de João Batista, vindo do deserto, que batizava junto ao rio Jordão, não por curiosidade mas por seu espírito profundamente piedoso, se uniu à multidão e foi também ver João e o que estava acontecendo por lá. Multidões acorriam de toda a Palestina, pois o Batista pregava a iminente vinda do Reino (a nova ordem querida por Deus) e cobrava do  povo penitências em vista desta irrupção. Provavelmente Jesus tenha conversado com ele e com  seus discípulos. 

Mas chegou o momento em que junto com a multidão e não sozinho como mostram as gravuras, Jesus entrou na água. A um sinal do Batista, ele mergulhou na água e assim se deixou batizar, como faziam todos.Mas eis que ocorreu nele algo especialíssimo. Depois de batizado, enquanto rezava, diz o texto de Lucas (3,21), sentiu um tremendo frêmito interior. Foi invadido por uma onda de ternura tão avassaladora que comoveu todo seu interior:”Tu es meu filho amado, em ti pus meu agrado”(Mc 1,10-11). Lucas é mais explícito e diz o que Jesus ouviu:“Tu és meu Filho amado, eu hoje te gerei”(Lc 3,21-22).

A linguagem bíblica expressa a experiência interior usando expressões pictóricas e simbólicas: o céu se abriu e se viu o Espírito descer sobre ele em forma corpórea de pomba.

Trata-se de uma encenação plástica  para expressar uma radical e originalíssima experiência espiritual, vivida por Jesus, impossível de ser expressa por palavras. A partir daí ocorreu uma verdadeira revolução em sua vida: sente-se filho amado pelo Deus-Paizinho querido. É invadido por uma paixão de amor divino que transtornou sua vida. Experimentou uma absoluta e direta proximidade de Deus. Não é mais ele que busca Deus. É Deus que o buscou e o assumiu como seu filho querido.

A espantosa revolução: a proximidade amorosa do Deus-Abba

Como em todas as coisas tudo conhece um processo. Com Jesus não foi diferente.Foi lentamente se dando conta da proximidade de Deus, consoante a idade, até irromper em plena consciência ao se batizar no rio Jordão na idade de 30 anos. Uma coisa é ser objetivamente o Filho bem amado de Deus e outro é subjetivamente dar-se conta desse fato. No batismo no rio Jordão, ocorreu esse salto da consciência por ocasião dessa visitação concretíssima do Deus-Abba.

Aqui se encontra a grande singularidade relatada pelos evangelistas: testemunhar a proximidade de Deus, do Deus que busca intimidade com o ser humano, com  Jesus de Nazaré. Essa proximidade é com todos os seres humanos, independentemente de sua condição moral e situação de vida. Trata-se do transbordamento gratuito do amor de Deus para com todos os seus filhos e filhas.

Com isso se inaugura um novo caminho, diverso daquele da observância da Lei e das distinçõe que se fazem entre bons e maus, justos e injustos. Estas coisas têm lá sua razão de ser na convivência humana. Mas não é por ai que Deus vê e julga os seres humanos. Seu olhar e sua lógica é totalmente outra como se revelou em  Jesus,membro grupo dos pobres de Javé.Nele irrompe um amor  divino ilimitado a começar por  aquele que nunca falam,que não frequentaram algum escola de  teologia, no máximo, a escolinha bíblica junto à sinagoga. O Nazareno veio deste meio. Não pertence ao mundo dos letrados, dos juristas, da casta sacerdotal e de algum status social. É um anônimo,mais afeito ao trabalho das mãos do que ao uso da paalavra.

De repente tudo mundou: inundado pela proximidade amorosa de Deus põe-se a pregar com tal entusiasmo e sabedoria a ponto de os ouvintes comentarem: “Donde lhe vem tal sabedoria? Não é ele o filho do carpinteiro (Mc 6,23,Mt 13, 54-55)? Seus privilegiados são os pobres, sempre covardemente desprezados, come com os pecadores, aproxima-se dos cobradores de impostos,odiados pelo povo pois são aliados das forças de ocupação romana(Mc 2,216). Chamam-no até de comilão e beberão porque aceita o convite de comer na casa de pecadores (Mt 11,19). Rompe os tabus religiosos da época ao conversar com um mulher samaritana, ao defender outra mulher pega em adultério e deixar que seus pés sejam ungidos com raro perfume, beijados e com os cabelos  enxugando as lágrimas de Maria Madalena,tida de má fama.

Frequentando gente de má fama Jesus lhes mostra a proximidade de Deus

Por que faz isso? Porque quer levar a todos, especdialmente a estes socialmente desqualificados, os hanseniano, os paralíticos, os cegos mas também  os pecadores públicos, os desesperados, a novidade de que Deus se aproximou de todos eles. Jesus, transbordando de amor do Deus-Abba vai a seus irmãos e irmãs e lhes anuncia essa novidade da proximinada incondicional de Deus que se fez para todos o “paizinho amoroso”. O decisivo não é a Lei e as tradições cuidadosamente observadas mas aceitar aquilo que Deus-Abba  disse a Jesus e que agora o repete para eles, pouco importa o que fazem na vida, como é sua condição religiosa e moral. Apenas lhes diz: “vós sois meus filhos e filhas amados em vós encontro meu regozijo”. Isso soa primeiramente como um espanto e depois como uma inaudita alegria e libertação. Dizem: eis a boa nova,eis o evangelho. Esta surpreendente pro-posta precisava e precisa de uma res-posta.Exige mudar a mente e o coração. E o foi? Eis a questão (segue).

Leonardo Boff é teólogo e escreveu Jesus Cristo Libertador, Vozes,(1972/2012); Paixão de Cristo-paixão do mundo ,Vozses (2012): A nossa ressurreição na morte, Vozes (2010).

Homage to Paulo Freire in his birth centenary: Frei Betto

Frei Betto is one of the best experts on Paulo Freire. Besides being a personal friend, he applied his method in popular education, which he exercises until nowadays. This homage to him on the 100th anniversary of his birth is a mixture of experiences lived with him and a simple and exemplary exposition of his method. I join him in this celebration. I met him when Paul was part of the scientific committee of the group of theologians and philosophers that edited and still edits the International Journal Concilium (in 7 languages). Right at the beginning there was a great dialogue, of which he was a master. He is counted among the founders of Liberation Theology, something he said with honor. Here is Frei Betto’s lucid and experiential text. LBoff

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         I can say, without fear of exaggeration, that Paulo Freire is the root of the history of Brazilian popular power in the 50 years between 1966 and 2016. This power emerged, like a leafy tree, from the Brazilian left active in the second half of the 20th century: groups that fought against the military dictatorship (1964-1985); the Ecclesial Base Communities of the Christian Churches; the comprehensive network of popular and social movements that emerged in the 1970s; combative trade unionism; and, in the 1980s, the founding of the CUT (Central Única dos Trabalhadores); of ANAMPOS (Articulação Nacional dos Movimentos Populares e Sindicais) and, later, of CMP (Central de Movimentos Populares); of PT (Partidos dos Trabalhadores); and of MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra); and of so many other movements, NGOs, and entities.

        If I had to respond to the suggestion, “Name one person who is the cause of all this.” I would say, without any doubt: Paulo Freire. Without Paulo Freire’s methodology of popular education, these movements would not exist, because he taught us something very important: to see history from the oppressed’s point of view and make them protagonists of the changes in society.

The excluded as political subjects

 When I came out of political prison at the end of 1973, I had the impression that all the struggle out here had ended because of the repression of the military dictatorship, even because all of us, imbued with the pretension of being the only ones who understood the struggle capable of recovering democracy, were in jail, dead, or in exile. What was my surprise to find a huge network of popular movements spread all over Brazil.

       When the PT was founded, in 1980, I saw fellow leftists reacting: “Workers? No. It is too pretentious for workers to want to be the vanguard of the proletariat! It is us, theoretical intellectuals, Marxists, who have the capacity to lead the working class. However, in Brazil the oppressed were beginning to become not only historical subjects, but also political leaders, thanks to the

Paulo Freire method.

Once, in Mexico, some leftist comrades asked me:

       – How do we do something here similar to your process there in Brazil? Because you have a leftist sector in the Church, a combative unionism, the PT… How do you obtain this popular political force?

       – Start doing popular education,” I answered, “and in thirty years…

       They interrupted me:

       – Thirty years is a lot! We want a suggestion for three years.

       – For three years I don’t know how to do it,” I observed, “but for thirty years I know the way.

       In summary, the whole process of accumulation of popular political forces, which resulted in the election of Lula as president of Brazil, in 2002, and kept the PT in the federal government for thirteen years, did not fall from the sky. Everything was built with a lot of tenacity from the organization and mobilization of popular bases through the application of the Paulo Freire method.

The Paulo Freire method

         I first met the Paulo Freire method in 1963. I lived in Rio de Janeiro and was a member of the national direction of the Catholic Action. When the first working groups of the Paulo Freire method emerged, I joined a team that, on Saturdays, went up to Petrópolis, 70km away from Rio, to teach literacy to the workers of the National Motor Factory. There I discovered that nobody teaches anybody anything, some help others to learn.

       What did we do with the workers of that truck factory? We photographed the facilities, gathered the workers in a church hall, projected slides and asked them a very simple question:

       – In this picture, what didn’t you guys do?

       – Well, we didn’t do the tree, the woods, the road, the water…

       – That what you didn’t do is nature – we said.

       – And what did human work do? – we asked.

       – Human labor made the brick, the factory, the bridge, the fence…

       – That is culture,” we said. – And how were these things made?

       They debated and answered:

       – They were made as human beings transformed nature into culture.

       Then a picture appeared of the courtyard of the National Motor Factory occupied by many trucks and the workers’ bicycles. We simply asked:

       – In this photo, what have you made?

       – The trucks.

       – And what do you have?

       – The bicycles.

       – Wouldn’t you be wrong?

       – No, we make the trucks…

       – And why don’t you go home by truck? Why do you go by bicycle?

       – Because the truck costs a lot of money, and it doesn’t belong to us.

       – How much does a truck cost?

       – About 40 thousand dollars.

       – How much do you earn per month?

       – Well, we earn an average of $200.

       – How long does each one of you have to work, without eating, without drinking, without paying rent, saving all your salary to one day own the truck you make?

       Then they began to calculate and became aware of the essence of the capital vs. labor relationship, what is surplus value, exploitation, etc.

       The most elementary notions of Marxism, as a critique of capitalism, came through the Paulo Freire method. The difference was that we were not teaching a class, we were not doing what Paulo Freire called “banking education”, that is, putting political notions into the worker’s head. The method was inductive. As Paulo said, we teachers did not teach, but helped the students to learn.

Distinct and complementary cultures

       When I arrived in São Bernardo do Campo (SP) in 1980, there were leftist militants who distributed newspapers among the workers’ families. One day Ms. Marta asked me

       – What is “crasse contradiction”?

       – Doña Marta, forget it.

       – I’m not much of a reader,” she justified, “because my eyesight is poor and my handwriting is small.

       – Forget it,” I said. – The left writes these texts for themselves to read and be happy, thinking that they are making a revolution.

       Paulo Freire taught us not only to speak in popular, plastic, not academically conceptual language, but also to learn from the people. He taught the people to recover their self-esteem.

       When I got out of prison, I lived for five years in a slum in Espírito Santo. There I worked with popular education using the Paulo Freire method. When I returned to São Paulo at the end of the 1970s, Paulo Freire proposed that I write an account of our experience in education and, thanks to the mediation of journalist Ricardo Kotscho, we produced a book called “Essa escola chamada vida” (Ática). It is his account as educator and creator of the method, and of my experience as a basic educator.

       In the book, I tell that in the slum where I lived there was a group of women pregnant with their first child, assisted by doctors from the Municipal Health Secretariat. I asked the doctors why we should work only with women who were pregnant with their first child. 

       – We don’t want women who already have maternal addictions. – they said – We want to teach them everything.

       Well, a few months later, there was a knock at the door of my shack.

       – Betto, we want your help.

       – My help?

       – There is a short circuit between us and the women. They don’t understand what we say. You, who have experience with these people, could advise us.

       I went to see their work. When I entered the slum’s Health Center, I was scared. There were very poor women there, and the center had been decorated with posters of Johnson babies, little blondes with blue eyes, Nestle advertisements, and so on. At this sight, I reacted:

       – It’s all wrong. When the women come here and look at these babies, they realize that this is another world, it has nothing to do with the babies on the hill.

       I watched the work of the doctors. I noticed that they were talking on FM and the women were tuned into AM. The communication really didn’t work. In one session, Dr. Raul explained, in scientific language, the importance of breastfeeding, and therefore of proteins, for the formation of the human brain. When he finished his presentation, the women stared at him as I do when I open a text in Mandarin or Arabic: I don’t understand anything.

       – Do you understand what Dr. Raul said? – I asked.

       – No, I didn’t understand, I only understood that he said that our milk is good for the children’s heads.

       – And why didn’t you understand?

       – Because I am uneducated. I didn’t go to school much, I was born poor in the countryside. I had to work with a hoe and help support the family.

       – And why was Dr. Raul able to explain all this?

       – Because he is a doctor, he is studied. He knows and I don’t know.

       – Dr. Raul, can you cook? – I asked.

       – I don’t even know how to make coffee.

       – Mrs. Maria, can you cook?

       – Yes, I can.

       – Can you make chicken “ao molho pardo” (a dish that, in Espirito Santo, and also in some areas of the Northeast, is called “galinha de cabidela”)?

       – Yes.

       – Please, stand up – I asked – and tell us how to make a frango ao molho pardo.

       Dona Maria gave us a cooking lesson: how to kill the chicken, which side to remove the feathers, how to prepare the meat and make the sauce, etc.

       When she sat down, I said

       – Dr. Raul, do you know how to make a dish like this?

       – No way, I like it, but I don’t know how to cook.

       – Mrs. Maria,” I concluded, “you and Dr. Raul, both lost in a closed forest, hungry, and suddenly a chicken appears. He, with all his culture, would die of hunger, but not you.

       The woman grinned from ear to ear. She discovered, at that moment, a fundamental principle of Paulo Freire: there is no one more cultured than another, there are distinct cultures, socially complementary. If we weigh all my philosophy and theology and the cooking of the cook at the convent where I live, she can do without my knowledge, but I cannot do without her culture. Here is the difference. The culture of a cook is indispensable for all of us

Paulo Freire and Future Challenges

Facing the emergence of so many authoritarian governments and the profusion of antidemocratic, racist, homophobic, sexist, and negationist messages in digital networks, it seems to me of utmost importance to revisit Paulo Freire on this date of the centennial of his birth.

       The ebb of progressive forces in Latin America in recent years, and the emergence of neo-fascist figures like Bolsonaro in Brazil, force us to recognize that for decades we have abandoned the grassroots work of popular organization and mobilization. This void with the populations of the periphery, of the slums, of the poor rural areas, has been occupied by religious fundamentalism, drug trafficking, and militia.

       In his works, Paulo Freire teaches us that there is no mobilization without prior awareness. It is necessary that people have a “clothesline” on which to hang their political concepts and the keys to analyze reality. The “clothesline” is the perception of time as history.

       There are civilizations, tribes, groups, that have no perception of time as history. The ancient Greeks, for example, believed that time is cyclical. Today, cyclical time returns through esotericism, negationism, fatalism, and religious fundamentalism. But it returns, above all, through neoliberalism.

       The essence of neoliberalism is the dehistoricization of time. When Fukuyama declared that “ahistory is over,” he expressed what neoliberalism wants to instill in us: We have reached the fullness of time! The neoliberal capitalist mode of production, based on the supremacy of the market, is final! Few are the chosen, and many are the excluded. And it is no longer enough to want to fight for an alternative society, for “another possible world”!

       In fact, nowadays it is difficult to talk about an alternative society. Socialism, no way! A shame has been created, an intellectual and emotional block. “The alternatives that are put forward are, in general, intrasystemic.

       The notion that time is history comes from the Persians, passed on to the Hebrews and accentuated by the Jewish tradition. Three great paradigms of our culture are of Jewish origin – Jesus, Marx and Freud – and, therefore, worked with the category of time as history.

       One cannot study Marxism without delving into the previous modes of production, to understand how the capitalist mode of production was arrived at. And then to understand how its contradictions could lead to socialist and communist modes of production. Marxist analysis presupposes, therefore, the rescue of time as history.

       If someone is undergoing analysis or therapy, the psychoanalyst soon asks the patient about his past, his childhood, his upbringing. If the patient can talk about his intrauterine life, so much the better. Freud’s whole psychology is a rescue of our temporality as individuals.

       Jesus’ perspective was historical. The God of Jesus presents himself with curriculum vitae: he is not just any god – he is the God of Abraham, Isaac and Jacob – that is, a God who makes history. The main category of Jesus’ preaching is historical: the Kingdom of God. Although placed up there by ecclesiastical discourse, theologically it is not located up there. The Kingdom is something up ahead, it is the culmination of the historical process..

.        It is curious that in the Bible history, as a factor that identifies time, is so strong that in the Genesis account the Creation of the world is already marked by this historicity of time before the appearance of human beings.

       For many, history is what men and women do. So, there would be no history before the appearance of men and women, so much so that they speak of prehistory. For the Bible, there is already history before the appearance of the human being. So much so that the Greeks considered the god of the Hebrews to be a very incompetent entity. A true god creates like Nescafé: instant, and not in time, as the biblical account shows. Now, in the Creation story, in seven days, there is already historicity. And Paulo Freire, a man of Christian background and a militant supporter of the foundations of Marxism, knew how to perceive the importance of reading the world as a condition for reading the text.

       Neoliberalism does not suit this perspective. Therefore, one cannot do popular education without having a “clothesline” to hang the clothes… This “clothesline” – time as history – is fundamental to visualize the social and political process. This also happens in the micro dimension of our lives. Why, today, do many people find it difficult to have life projects? Why do young people reach the age of 20 without the slightest idea of what they want to be or do with their lives? For many of them, everything is here and now.

       Therefore, if we want to rescue Paulo Freire’s legacy, the way is to return to the grassroots work with the popular classes, adopting his method in a historical perspective, open to libertarian utopias and democratic horizons. Outside the people there is no salvation. And if we believe that democracy must be, in fact, the government of the people for the people and with the people, there is no alternative but to adopt the Paulo Freirean educational process that places the oppressed as political and historical protagonists.

       When Paulo Freire returned from 15 years of exile, in August 1979, we met in São Paulo. We were neighbors and I often visited him. We had very close personal relationships.

My personal testimony  

So I end this tribute with this text that I wrote on May 2, 1997, the date of Paulo Freire’s transvivencation:

       “Ivo saw the grape,” the literacy manuals taught. But Professor Paulo Freire, with his method of teaching literacy by raising awareness, made adults and children, in Brazil and Guinea-Bissau, in India, in Nicaragua, and in so many other places, discover that Ivo did not only see with his eyes. He also saw with his mind and asked himself if grapes are nature or culture.

       Ivo saw that fruit is not the result of human work. It is Creation, it is nature. Paulo Freire taught Ivo that sowing grapes is human action in and on nature. And the hand, a multi-tool, awakens the potentialities of the fruit. Just as the human being himself was sowed by nature in years and years of evolution of the Universe.

       To pick the grapes, crush them, and turn them into wine is culture, Paulo Freire pointed out. Work humanizes nature and, by doing it, men and women humanize themselves. Work establishes the knot of relationships, social life. Thanks to the professor, who started his revolutionary pedagogy with Sesi workers in Pernambuco, Ivo also saw that grapes are harvested by labourers, who earn little, and commercialized by middlemen, who earn much more.

       Ivo learned from Paulo that, even without knowing how to read, he is not an ignorant person. Before learning how to read, Ivo knew how to build a house, brick by brick. The doctor, the lawyer or the dentist, with all his study, is not able to build like Ivo. Paulo Freire taught Ivo that there is no one more cultured than another, there are parallel, distinct cultures that complement each other in social life.

       Ivo saw the grape and Paulo Freire showed him the bunches, the vine, the whole plantation. He taught Ivo that the reading of a text is better understood the more the text is inserted in the context of the author and the reader. It is from this dialogical relationship between text and context that Ivo draws the pretext for action. At the beginning and end of learning, it is Ivo’s praxis that matters. Praxis-theory-practice, in an inductive process that makes the learner a historical subject.

       Ivo saw the grape and did not see the bird that, from above, sees the vine and does not see the grape. What Ivo sees is different from what the bird sees. Thus, Paulo Freire taught Ivo a fundamental principle of epistemology: the head thinks where the feet step. The unequal world can be read from the oppressor’s perspective or from the oppressed’s perspective. The result is a reading as different from one another as between Ptolemy’s vision, when observing the solar system with his feet on the Earth, and Copernicus’ vision, when imagining himself with his feet on the Sun.

       It is curious that in the Bible history, as a factor that identifies time, is so strong that in the Genesis account the Creation of the world is already marked by this historicity of time before the appearance of human beings.

       For many, history is what men and women do. So, there would be no history before the appearance of men and women, so much so that they speak of prehistory. For the Bible, there is already history before the appearance of the human being. So much so that the Greeks considered the god of the Hebrews to be a very incompetent entity. A true god creates like Nescafé: instant, and not in time, as the biblical account shows. Now, in the Creation story, in seven days, there is already historicity. And Paulo Freire, a man of Christian background and a militant supporter of the foundations of Marxism, knew how to perceive the importance of reading the world as a condition for reading the text.

       Neoliberalism does not suit this perspective. Therefore, one cannot do popular education without having a “clothesline” to hang the clothes… This “clothesline” – time as history – is fundamental to visualize the social and political process. This also happens in the micro dimension of our lives. Why, today, do many people find it difficult to have life projects? Why do young people reach the age of 20 without the slightest idea of what they want to be or do with their lives? For many of them, everything is here and now.

       Therefore, if we want to rescue Paulo Freire’s legacy, the way is to return to the grassroots work with the popular classes, adopting his method in a historical perspective, open to libertarian utopias and democratic horizons. Outside the people there is no salvation. And if we believe that democracy must be, in fact, the government of the people for the people and with the people, there is no alternative but to adopt the Paulo Freirean educational process that places the oppressed as political and historical protagonists.

       When Paulo Freire returned from 15 years of exile, in August 1979, we met in São Paulo. We were neighbors and I often visited him. We had very close personal relationships.

       So I end this tribute with this text that I wrote on May 2, 1997, the date of Paulo Freire’s transvivencation:

       “Ivo saw the grape,” the literacy manuals taught. But Professor Paulo Freire, with his method of teaching literacy by raising awareness, made adults and children, in Brazil and Guinea-Bissau, in India, in Nicaragua, and in so many other places, discover that Ivo did not only see with his eyes. He also saw with his mind and asked himself if grapes are nature or culture.

       Ivo saw that fruit is not the result of human work. It is Creation, it is nature. Paulo Freire taught Ivo that sowing grapes is human action in and on nature. And the hand, a multi-tool, awakens the potentialities of the fruit. Just as the human being himself was sowed by nature in years and years of evolution of the Universe.

       To pick the grapes, crush them, and turn them into wine is culture, Paulo Freire pointed out. Work humanizes nature and, by doing it, men and women humanize themselves. Work establishes the knot of relationships, social life. Thanks to the professor, who started his revolutionary pedagogy with Sesi workers in Pernambuco, Ivo also saw that grapes are harvested by labourers, who earn little, and commercialized by middlemen, who earn much more.

       Ivo learned from Paulo that, even without knowing how to read, he is not an ignorant person. Before learning how to read, Ivo knew how to build a house, brick by brick. The doctor, the lawyer or the dentist, with all his study, is not able to build like Ivo. Paulo Freire taught Ivo that there is no one more cultured than another, there are parallel, distinct cultures that complement each other in social life.

       Ivo saw the grape and Paulo Freire showed him the bunches, the vine, the whole plantation. He taught Ivo that the reading of a text is better understood the more the text is inserted in the context of the author and the reader. It is from this dialogical relationship between text and context that Ivo draws the pretext for action. At the beginning and end of learning, it is Ivo’s praxis that matters. Praxis-theory-practice, in an inductive process that makes the learner a historical subject.

       Ivo saw the grape and did not see the bird that, from above, sees the vine and does not see the grape. What Ivo sees is different from what the bird sees. Thus, Paulo Freire taught Ivo a fundamental principle of epistemology: the head thinks where the feet step. The unequal world can be read from the oppressor’s perspective or from the oppressed’s perspective. The result is a reading as different from one another as between Ptolemy’s vision, when observing the solar system with his feet on the Earth, and Copernicus’ vision, when imagining himself with his feet on the Sun.

       Now Ivo sees the grape, the grapevine and all the social relationships that make the fruit a feast in the cup of wine, but he no longer sees Paulo Freire, who plunged into Love on the morning of May 2, 1997. He leaves us a priceless work and an admirable testimony of competence and coherence.

       Paulo should have been in Cuba to receive an honorary doctorate from the University of Havana. Sensing the pain in his heart that he loved so much, he asked me to represent him. I was scheduled to fly to Palestine, but was unable to attend. However, before leaving, I went to pray with Nita, his wife, and their children, around his peaceful countenance: Paulo saw God.

Frei Betto is a writer, author of “Por uma educação crítica e participativa” (Rocco) and “Essa escola chamado vida” (Ática), in partnership with Paulo Freire and Ricardo Kotscho. Virtual bookstore: http://www.freibetto.org