Um “racismo amador”ou um racismo cultural

A questão do racismo contra os negros é ancestral. Nos últimos tempos ganhou especial relevância por causa dos crimes cometidos contra alguns deles, de forma cruel, nos USA e das chacinas ocorridas especialmente na zona norte e na Baixada do Rio de Janeiro: jovens negros na idade entre 18-20 anos são, não raro, “abatidos” (havia até a cruel “lei do abate”introduzida pelo governador do Rio,  cassado, Witzel) como se fossem animais. Sob o pretexto de um policial se sentir com medo ou ameaçado podia “abater” as pessoas, especialmente, negras.

Fenômeno semelhante está ocorrendo em vários países da Europa. Tenho em mãos um minucioso estudo de um negro de Guiné Bissau,Filomeno Lopes, jornalista bem formado numa universidade italiana e que trabalha em Roma como radialista na rádio do Vaticano para a África. Engajado na superação do racismo escreveu uma espécie de carta aberta aos jovens italianos, não no dialeto acadêmico, mas de alta divulgação.  A eles dirige uma mensagem, explicando-lhes as muitas razões, todas elas falsas, do porquê surgiu o racismo secular contra os negros-africanos. Dá um título curioso: “um racismo amador e descomplexado”. Com isso quis aclarar que o racismo antinegro-africano está culturalmente tão arraigado que os jovens lhes desconhecem as razões, por isso, é “amador, descomplexado” e legitimado. Sem dar-se conta são racistas na linguagem, nas metáforas despectivas, nos chistes e nos comportamentos discriminatórios, a ponto de não se darem conta do que fazem e do sofrimento e da humilhação que produzem nas vítimas negro-africanas. Esse fato ocorreu recentemente na Espanha contra um excelente jogador negro brasileiro, Vinicius Junior, do Valência.

Para muitos europeus os negros africanos são “Lázaros”, os condenados da Terra, os amaldiçoados descendentes de Cam bíblico, descartados do sistema mundo.

No Brasil cunhamos a expressão de “racismo cultural” ou “estrutural”, vale dizer,os três séculos de bárbara escravidão, de maus tratos, de desprezo  e de ódio aos milhões de afro-descendentes impregnaram nossa cultura de forma desumana e, por vezes, cruel. Só pelo simples fato de serem negros e principalmente se forem pobres e morarem nas favelas que circundam quase todas as nossas cidades.

Vejam a que ponto chegou a barbárie nos países ditos “civilizados” da Europa.Recentemente decidiram como deliberação dos governos e por unanimidade a omissão de resgate do mar, seja dos que vêm do Oriente Médio mas particularmente dos que chegam de África. Colocaram sobre os ombros da Itália o encargo do resgate. Mas como estão chegando multidões, também a Itália aderiu a esta política,um crime contra a humanidade e  contra toda a tradicional ética da “lei do mar”escrupulosamente observada por  todos na salvação e no resgate de pessoas postas em risco ou náufragas.

O Mediterrâneo está se tornando a sepultura de centenas e centenas de pessoas, relegadas, consideradas indesejáveis e “lixo do mundo”. Bem dizia o Papa Francisco:”eles agora estão aqui na Europa, porque antes nós, europeu, estivemos lá, na África, sendo bem recebidos mas dominando-os e roubando-lhes as riquezas; agora eles  vêm para cá e são rechaçados e mal recebidos”. Se conseguem passar as fronteiras, a primeira pergunta certa feita, sem sequer saudá-los é:”documentos”; não quem és? Como te chamas? De onde vens e o que buscas neste país? A maioria foge das guerras e da fome buscam apenas viver com um mínimo de paz.

Por detrás  do racismo contra os negros está a arrogância dos supremacistas brancos europeus e norte-americanos. Julgam-se no topo da pirâmide da hominização,considerando os negros, em razão da cor de sua pele, a escala intermediária entre o símio antropoide e o homem branco. Como foi possível que estas pessoas, cristianizadas, negaram totalmente a mensagem do Mestre de  Nazaré, não branco mas semita, que revelou serem todos os seres humanos filhos e filhas de Deus e por isso respeitáveis e amáveis? Mesmo os maiores filósofos e gênios não escaparam do vício racista, o que comprova a tese de que a cabeça pensa a partir de onde os pés pisam, no caso, num solo  cultural racista, antinegro africano.

Kant,o maior crítico da razão pura e da razão prática, não foi suficientemente crítico. É dele a afirmação:”Os negros da África não receberam da natureza nenhum sentimento que se elevasse acima da estupidez (…). Os pretos (…) são tão barulhentos que para acalmá-los recorremos a pauladas”. Hegel vai mais longe ainda:” “O negro encarna o homem no estado de natureza em toda a sua selvajaria e desenfreamento”. Portanto, “se queremos ter uma ideia correta dele, devemo-nos abstrair de qualquer noção de respeito, moral, de tudo o que se passa sob o nome de sentimento: neste caráter não podemos encontrar nada que contenha até mesmo um eco de humanidade. Os relatos detalhados dos missionários confirmam plenamente a nossa afirmação e parece que só o maometanismo ainda é capaz de aproximar os negros da cultura”. Com razão reconhecia Gramsci:”A história é mestra mas não tem discípulos” Estes maus discípulos forjaram a ideologia que legitimasse a escravidão e a supremacia dos brancos.

Todo o esforço do autor é mostrar aos jovens os grandes valores das culturas africanas, especialmente ao redor do conceito de Ubuntu:”eu só sou eu através e com você;  eu sou porque nós somos; a vida é sempre com os outros; o ser humano é o remédio do outro ser humano”. É o ser juntos, a comunhão do “nós somos” que funda a”comunhão de destino”.

Se isso for vivido não há porquê segregar, já por tantos séculos, milhões e milhões de africanos. Importa recordar que todos nós somos africanos, pois, o primeiro ser humano irrompeu na África e de lá se difundiu por todo o mundo. Hoje nos encontramos na mesma Casa Comum. Eles que foram os primeiros não podem ser considerados os últimos. Ao contrário, devemos agradecer-lhes porque neles se formaram as primeiras estruturas psíquicas,mentais,sentimentais e racionais que nos caracterizam enquanto humanos. Nesse sentido a Mãe África é perene e viverá sempre em nós, pois com ela formamos uma comunidade de destino junto com a outra Mãe, a Terra.

Leonardo é teólogo,filósofo e escritor e escreveu: O destino do homem e do mundo, Vozes 1973, várias edições.

O otimismo da vontade contra o colapsoo climático

Michael Löwy

Publicamos este texto do amigo e interlocutor Michael Löwy pela clareza das ideias e pela alternativa que oferece à crise mundial que nos afeta a todos e põe até em risco o nosso futuro. Sua posição é equilibrada e nos abre um horizonte de esperança. Vale a pena ler e aprofundar sua proposta pois representa uma utopia viável e esperançadora. LBoff

No último dia 3 de junho, o Fórum 21 e parceiros, como o Fórum Permanente da Intelectualidade Orgânica, promoveram um encontro com o intelectual marxista Michael Löwy, diretor do Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS em francês) e um dos grandes estudiosos do pensamento revolucionário de esquerda, com obras sobreKarl Marx,Leon Trotski, Rosa Luxemburgo, György Lukács, Lucien Goldmann e Walter Benjamin; além de movimentos transgressores como o surrealismo e o romantismo e a teologia da libertação sobre a qual escreveu vários livros.

Desde 2013, inicialmente ao lado do filósofo marxista Leandro Konder (falecido em 2014), Löwy passou a coordenar a coleção Marxismo e literatura da editora Boitempo, de imensurável contribuição para a formação política dos leitores brasileiros e latino-americanos. Sua militância “faz dele um elo de fundamental importância entre inúmeros grupos políticos de esquerda dos dois lados do Atlântico” e “sua personalidade aberta, tolerante e avessa às frequentes rupturas entre marxistas faz com que atue nos mais diversos fóruns de debate pela coesão e pela construção do socialismo” (p. 11), aponta Ivana Jinkings e João Alexandre Peschanski em As utopias (Boitempo, 2007) de Michael Löwy .

Com essa bagagem de décadas de militância e de produção teórica, Löwy vem defendendo o Ecossocialismo, “um projeto civilizatório ancorado na democracia social e econômica, e no respeito à Natureza”, que agrega o que há “de melhor no socialismo e na ecologia”, explica. Em “O que é o Ecossocialismo?” (Cortez Editora, 2012), ele traz os fundamentos dessa concepção de mundo, ampliando e atualizando os conceitos abordados em Ecologia e Socialismo, publicado pela mesma editora em 2004.

Nessa palestra, ele explica o ecossocialismo e aponta como as lutas ecológicas e socialistas compartilham da mesma base antissistêmica, fundamental para o enfrentamento das mudanças climáticas e, em última instância, para a sobrevivência da humanidade no planeta. Afinal, por mais que os bilionários lancem foguetes para escapar do inferno ambiental que estão produzindo, a verdade é que “não existe Planeta B”.

Partindo da célebre frase de Gramsci, de que é preciso manter “o pessimismo da razão” e “o otimismo da vontade”, Löwy dividiu sua palestra em duas partes: na primeira, ele traz um diagnóstico sintético das catástrofes ambientais e políticas em marcha; na segunda, os caminhos (ainda) possíveis.

O pessimismo da razão

A situação da humanidade é grave. A crise ecológica e a mudança climática representam uma ameaça sem precedentes na história humana e diante disso, aponta Löwy, “a questão ambiental já é e será ainda mais a principal questão política, econômica, social e ética do século XXI”.

Nunca vivemos algo parecido em termos ambientais e de ameaça civilizatória. Pela primeira vez e num futuro não muito distante, a humanidade poderá chegar ao extremo de acabar com a água potável do planeta. Ao mesmo tempo, o nível do mar, devido ao derretimento das calotas polares da Groenlândia e da Antártica, poderá se elevar mudando completamente a paisagem que hoje conhecemos. “Bastam alguns metros, para que cidades como Rio de Janeiro, Recife, Amsterdã, Veneza, Londres, Nova York, Xangai, etc. fiquem debaixo d´água”.

Ante esse cenário trágico, soam cada vez mais “absurdas as discussões dos meios bancários, do sistema econômico e financeiro sobre quantos por cento do PIB serão perdidos para evitar as catástrofes ecológicas. Como você calcula o custo dessas cidades? Das vidas humanas?”, questiona Löwy e, sobretudo, “quem é responsável por essa situação, sem precedentes?”

Os cientistas usam o termo antropoceno para descrever atual era geológica, iniciada a partir dos anos 1940. “Uma era geológica em que o antropos (o ser humano) está mudando alguns dos parâmetros fundamentais do planeta, como o clima”. Embora “cientificamente correto” – realmente é a ação humana (antropos) que está provocando a crise – Löwy destaca que antropoceno é um termo “um pouco curto” porque a humanidade existe “há centenas de milhares de anos” sem crise ecológica.

A crise começa com a Revolução Industrial no século XVIII, agravando-se “muitíssimo depois da II Guerra Mundial, a partir de 1945”. A responsabilidade não é “da ação humana, em geral”, mas de “um modo particular de produção e de ação humana: o modo de produção capitalista industrial moderno”. Em sua avaliação a compreensão “de que o responsável pela crise ecológica e pelas mudanças climáticas é a civilização capitalista moderna, o sistema capitalista, vem sendo bastante aceita, e para além dos circuitos marxista e ecossocialista”.

Löwy cita os exemplos da encíclica Laudato Si’ do Papa Francisco, sobre o cuidado da Casa Comum, de 2015, que responsabiliza “o atual sistema [capitalista] globalizado, baseado em formas perversas de propriedade com o único critério de maximização do lucro” pela crise ecológica e pela desigualdade social. Destaca também a mobilização das juventudes pelo mundo afora e o impacto da ativista ambiental sueca Greta Thunberg, que afirma ser “matematicamente impossível resolver a crise ecológica nos quadros do atual sistema econômico”.

Posturas antissistêmicas que se confrontam com a “atitude totalmente ecocida” de figuras como Donald Trump e Jair Bolsonaro, que negam as mudanças climáticas, defendendo os interesses do que Löwy denomina de “oligarquia fóssil”, uma poderosa parcela da classe dominante ligada aos interesses do carvão, do petróleo e o do gás. “Um enorme conglomerado, poderosíssimo, o coração das classes dominantes no capitalismo. Essa oligarquia fóssil não quer ouvir falar em abandonar as energias fosseis obviamente porque seu poder econômico depende dessas fontes”, afirma.

Felizmente, “a maior parte dos governos e países reconhece que o problema existe e que ele é sério”. No entanto, combatê-lo demanda ações antissistêmicas porque “o sistema capitalista não pode existir sem acumulação do capital, do lucro, da mercadoria, do mercado. Não pode existir sem expansão e sem crescimento. Isso faz parte de sua natureza e desde o século XVIII, essa expansão e acumulação é baseada nas energias fósseis”, detalha.

Daí a dificuldade de conter a emissões de gases estufa, de combater o horizonte de catástrofes e de superar a fase retórica. Basta observar a sucessão de COPs (Conferências das Partes) das Nações Unidas, e a imensa dificuldade de se emplacar medidas que “limitem drasticamente, nos próximos anos e não daqui a 50 anos, a utilização e extração das energias fósseis. Esse fracasso dramático e preocupante das reuniões internacionais é o sinal de que o sistema não está disposto a enfrentar seriamente o problema”, avalia.

Otimismo da Vontade

Frente o trágico diagnóstico, Löwy apresenta, na segunda parte de sua exposição, o ecossocialismo,“uma síntese dialética entre o melhor do socialismo e o melhor da ecologia”, como a mais consequente das alternativas antissistêmicas e anticapitalistas. Em sua avaliação, “um socialismo que não seja ecológico, ou uma ecologia que não seja socialista, não terão condições de enfrentar o desafio da crise ambiental”. Neste sentido, o ecossocialismo é também “uma crítica ao socialismo produtivista que predominou no século passado e à ecologia de mercado”.

Por outro lado, a questão ambiental é marginal na obra de Marx e Engels, afinal, “no século XIX, a destruição não tinha esse caráter dramático que tem no século XX”. Mesmo assim, aponta, ela aparece na “correta intuição” de ambos sobre a destruição dos equilíbrios ecológicos pelo capitalismo. Apoiado, portanto, na crítica marxista do capitalismo, do fetiche da mercadoria, etc., o ecossocialismo confere centralidade à questão ecológica.

A questão ambiental não é “mais um capítulo do programa”. Ela passa a ser compreendida como “um fio condutor de toda concepção do socialismo do século XXI, que precisa ter como um de seus vetores principais o reestabelecimento da harmonia entre a sociedade humana e a natureza ou Mãe Terra’.

Segundo Löwy, o ecossocialismo rompe com a concepção que muitos marxistas tem do socialismo como “uma transformação das relações de produção”, que passariam da propriedade privada à propriedade coletiva, visando o livre desenvolvimento das forças produtivas. “Essa ideia de socialismo nós temos que abandonar, porque os problemas não são apenas as relações capitalistas de produção, mas o aparato produtivo capitalista, responsável pela crise ecológica e pelas mudanças climáticas”, alerta.

Após a Comuna de Paris (8 de março a 28 de maio de 1871), lembra Löwy, Marx escreveu sobre a breve tomada de poder pela população, apontando que “os trabalhadores não podem se apropriar do aparelho de Estado capitalista burguês, eles precisam quebrá-lo e criar outra forma de poder político, democrática e revolucionária”. O mesmo se aplica hoje para os ecossocialistas. É preciso “transformar radicalmente o aparelho produtivo do Estado, a começar pela transformação de suas fontes de energia”, e repensar o que vem sendo produzido por esse sistema, em busca de uma “profunda ruptura com o consumismo e o produtivismo”, salienta.

O ecossocialismo é “uma proposta muito ambiciosa de mudança de paradigma dos fundamentos da civilização capitalista industrial moderna”. Ele propõe “uma nova civilização, orientada por novos valores e critérios sociais, éticos, políticos, econômicos, ecológicos”. Um “projeto de transformação das estruturas do poder político, do poder econômico, do modo de produção e de suas relações”. É, portanto, uma proposta revolucionária e como tal implica o enfrentamento dos interesses das classes dominantes. Afinal, como afirmava Benjamin, “o capitalismo nunca vai morrer de morte natural”. Não irá desmoronar vítima de suas “contradições internas” como esperavam os socialistas, anarquistas e comunistas de outrora.

“O capitalismo só irá desaparecer se houver vontade política e social da grande maioria da população”. Se para Marx as revoluções são a locomotiva da história; para Benjamin elas são o puxar do freio de emergência pela população. “Nós somos passageiros de um trem suicida. Esse trem se chama civilização capitalista moderna. Ele está indo numa velocidade crescente em direção ao abismo que se chama catástrofe ecológica, catástrofe climática. A nossa tarefa revolucionária é parar esse trem suicida e louco. E mudar a sua direção”, aponta Löwy.

Em sua avaliação, somente com “muita mobilização, muita luta e muita pressão” será possível substituir as fontes de energia fósseis pelas renováveis. É preciso, ao mesmo tempo, diminuir a quantidade do consumo e da produção. E acabar com publicidade, devolvendo à população o poder de decisão sobre suas necessidades fundamentais, hoje exclusivamente nas mãos do mercado, salienta.

Para Löwy, é imprescindível “obliterar o avanço de iniciativas desastrosas” como a recente proposta de perfuração de petróleo na foz do Rio Amazonas. Temos de apresentar “ações concretas” voltadas ao “bloqueio das iniciativas mais destruidoras do sistema”.

“O ecossocialismo nunca acontecerá se não nos debruçarmos sobre coisas muito concretas. É no processo de luta social e ecológica que as pessoas vão tomando consciência dos problemas e das soluções possíveis”, salienta. Daí a aposta ecossocialista “na luta como pedagogia conscientizadora”, seguindo a trilha apontada por Rosa Luxemburgo para quem a “consciência crítica e revolucionária nasce da luta, da greve, do enfrentamento às elites”.

“A pedagogia mais eficaz é a pedagogia da luta. É através dela que as pessoas tomam consciência da necessidade de se organizar, de se auto-organizar, de quem é o adversário. Eu acredito muito na pedagogia das lutas. A gente nem sempre pode ganhar, mas pode… E tivemos vitórias importantes”, avalia Löwy ao finalizar sua apresentação com a máxima de outro revolucionário, Bertolt Brecht: “Quem luta pode perder, mas quem não luta já perdeu”.

Fonte: Newaleterr IHU 16/06/2023

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A socio-ecological or ecosocialist democracy

                         Leonardo Boff

The Earth is irreversibly changing. We are entering a new climate regime that is much hotter and more threatening. Science and technology arrived late. Only with the accumulation of greenhouse gases in the atmosphere did the course of the living planet change. The various types of knowledge, from the popular to the most scientific, can only mitigate the harmful effects. But those will come more often and more severe.

If we want to continue on this planet, we have to develop another civilizing paradigm, friendly to life and feeling like brothers and sisters to all other living beings, as Pope Francis postulates in Fratelli tutti(2020). Well, we have the same basic genetic code with them. Within this context, there is an urgent need for another type of democracy: socio-ecological or eco-socialist.

It would represent the culmination of the democratic ideal, exactly at this moment in which we are witnessing a serious decline in democratic ideals in a context of rising authoritarian movements. In addition, the spread of artificial intelligence that combines millions of algorithms and can threaten democracy and distort, for example , the figure of the Pope wearing a thick, rare and very expensive jacket.

Despite all this, we have to discuss the threatened democracy. Underlying it is the original idea of ​​all democracy: verything that interests everyone must be thought about and decieded by everyone.

There is direct democracy in small communities or in a country like Switzerland. When these social groupings are larger, representative democracy is projected. As the powerful generally control it, a participatory democracy was proposed in which those on the floor below could participate in the formulation and monitoring of the country’s policies.

More progress was made and a communitarian democracy was created, experienced by the Andean peoples, in which everyone participates in everything within a great human-nature harmony. It is “bien vivir y convivir”. It was seen that democracy is a universal value (N.Bobbio), lived daily in life, in the family, in associations and in the way of organizing the state. Also an endless democracy (Boaventura de Souza Santos), because it can always be perfected and never ready. Faced with the imminent risk of the disappearance of the human species, everyone, in order to save themselves, would unite around a planetary super-democracy (J.Atalli).

More or less in this line, the various forms of democracy must be thought and lived. The survivors of the great transformation of the Earth, stabilizing its average climate around 38 degrees Celsius or more, learned from these drastic changes. As a means of survival, they will have to incorporate new forms of relationships in harmony with nature and Mother Earth. Hence, this type of socio-ecological democracy was thought. It is social because it involves the whole society.

It is the great proposal of ecosocialism that has nothing to do with the frustrated real socialism that has already disappeared. This socio-ecological or ecosocialist democracy has the ecological as its structuring axis. Not as a technique to guarantee the sustainability of the human way of life, along the lines of the current paradigm of the human being dominus=lord and outside and above nature, but as frater=brother and sister, part of and within nature. , would rather be an art, a new way of tender and fraternal coexistence with nature.

The mode of production and institutions will no longer force nature to adapt to human desires. These will adapt to the rhythms of nature, taking care of it, giving it rest to regenerate. The human being will feel nature itself so that by taking care of it, it will be taking care of itself.

The uniqueness of the human being, and this has been proven by neurologists, geneticists, bioanthropologists and cosmologists, is to appear as a being-knot-of-relationships, of love, cooperation, solidarity and compassion. This was said by James D. Watson in his book “DNA: the secret of life” (2005): love and solidarity belong to the human genetic code

Such singularity appears better when we compare it with the superior simians from which we differ in only 1.6% of genetic load. They also have a corporate life. But they are guided by the logic of domination and hierarchization. But we differ from them by cooperation and commensality.

Today it is accepted that both nature and the Earth are subjects of rights. They are the new citizens with whom we must live amicably. The Earth is a biogeophysical entity, Gaia, which articulates all the elements to stay alive and produce all the biodiversity. In an advanced moment of its evolution and complexification, it began to feel, think, love and care. It was then that the human being, man and woman, who is the thinking and loving Earth, appeared.

If we want to survive together, this democracy must be a biocracy, a sociocracy, a geocracy and a cosmocracy, in short, an ecological-social or eco-socialist democracy. Time is pressing. We must generate a new awareness and prepare ourselves for the changes that will not take long to arrive. Is it a utopia? Yes, but a necessary utopia if we still want to live on this planet.

Leonardo Boff, brazilian Philosopher, Theologian and writer wrote with the german Theologian Jürgen Moltmann, Is there hope for endangered creation? Vozes, Petrópolis/Rio 2014; Caring for the Earth-Protecting Life: How to Avoid the End of the World, Record, Rio 2010.

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ECODECALOGO: per salvare la vita su queto planeta

                  Michael Lövy

Pubblichiamo questo testo fondamentale del franco-brasiliano Michael Lövy, professore alla Sorbone, sociologo, grande conoscitore del Brasile e che unisce la sociologia con l’ecologia, oltre che, essendo ebreo, apparire come specialista in teologia della liberazione latinoamericana. Brillante intelligenza e rigore scientifico sono i tratti distintivi della sua vasta produzione, in gran parte pubblicata in Brasile. Dobbiamo divulgare questo decalogo, perché non copre i problemi, smaschera le trappole del sistema dominante e ci lancia un serio monito: se non cambiamo, potremmo scomparire dalla faccia della Terra. Ma le sue indicazioni vanno nella direzione di ciò che dobbiamo fare già adesso per salvare la vita del nostro pianeta.

Leonardo Boff

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Dieci comandamenti per salvare la vita su questo pianeta

L’autore di queste note non si considera un nuovo Mosè e non ritiene di aver ricevuto da Geova questo Eco-decalogo. È semplicemente un tentativo di rispondere, con un pizzico di ironia, in due brevi pagine, alla domanda che molti oggi si pongono: cosa fare?

Cosa fare di fronte alla crisi ecologica e alla catastrofe climatica?

  • Prenderai sul serio la crisi ecologica. Non è solo un problema tra tanti, è la questione politica, economica, sociale e morale più importante del XXI secolo. È una questione di vita o di morte. La nostra casa comune brucia di fuoco. Non c’è tempo da perdere. Hai altre preoccupazioni? Sei giustamente preoccupato per il prezzo della benzina e del gas e sei ingiustamente preoccupato per il grande numero di arabi, neri, zingari, ebrei, messicani e gay nel tuo paese? Devi modificare le tue preoccupazioni. La crisi climatica è più grave. Molto più grave? Infinitamente peggiore. Riguarda la tua sopravvivenza e/o quella dei tuoi figli e nipoti.
  • Non adorerai gli idoli della religione capitalista: “Economia di mercato”, “Energie fossili”, “Crescita del PIL”, “Organizzazione Mondiale del Commercio”, “Fondo Monetario Internazionale”, “Competitività”, “Rimborso del debito”, eccetera. Questi sono falsi dei, avidi di sacrifici umani e responsabili del riscaldamento globale.
  • Agirai quotidianamente in conformità con i principi ecologici. Rifiuterai di viaggiare in aereo su distanze coperte per ferrovia. Ridurrai drasticamente il consumo di carne. Eviterai le trappole del consumismo. Sarai consapevole dell’interdipendenza di tutti gli esseri viventi e agirai con prudenza e rispetto per la natura. Ma rifiuterai le illusioni del “colibrismo“: la convinzione che il cambiamento ecologico risulterà dalla somma di piccole azioni individuali.
  • Sosterrai azioni collettive, ad esempio, qualsiasi lotta ecologica concreta, nel tuo paese e nel mondo. A seconda dei casi, opterai per manifestazioni di piazza, atti di disobbedienza civile, ZAD [Zone da Difendere], sabotaggio di oleodotti. Parteciperai o sosterrai movimenti, ONG, ecc. che si battono per cause ecologiche, privilegiando quelle più radicali.
  • Non opporrai mai il sociale e l’ecologico. Cercherai, in tutti i modi, di favorire la convergenza tra lotte sociali ed ecologiche. Agirai per garantire posti di lavoro alternativi ai lavoratori delle aziende inquinanti, che devono chiudere. Proverai a mettere insieme sindacati e movimenti ecologisti.
  • Sarai solidale, militante e/o finanziariamente, con i rifugiati climatici e le vittime di catastrofi ecologiche. Chiederai che le frontiere del tuo paese siano aperte e che i paesi ricchi del Nord indennizzino i paesi poveri del Sud per i danni causati dal cambiamento climatico.
  • Lotterai senza tregua contro i politici ecocidi e/o negazionisti del clima, i Donald Trump, Jair Bolsonaro, Scott Morrison e co. Tutti i mezzi sono buoni per sloggiarli, sostituirli, neutralizzarli.
  • Rifiuterai il tuo sostegno a coloro che invocano invano il nome dell’ecologia. Cioè politici che fanno bei discorsi, ma non agiscono contro le emissioni e i combustibili fossili. O che propongono false soluzioni come “diritti di emissione”, “meccanismi di compensazione” e altre mistificazioni del capitalismo verde e del green washing.
  • Combatterai con ogni mezzo le compagnie dell’oligarchia fossile, cioè l’enorme complesso economico-finanziario-politico-militare legato alle energie fossili: petrolio, carbone, gas. Lotterai per la loro espropriazione e per la creazione di un servizio pubblico per l’energia, decisamente orientato alle energie rinnovabili (solare, eolica, idrica, ecc.) e capace di offrire servizi gratuiti alle classi popolari.
  • Sapendo che il problema è sistemico e che, di conseguenza, nessuna soluzione reale sarà possibile nell’ambito del capitalismo, parteciperai, in un modo o nell’altro, a partiti o movimenti che propongono alternative anti-capitaliste: eco-socialismo, ecologia, decrescita, ecc.

*Michael Löwy è direttore della ricerca in sociologia presso il Centre nationale de la recherche scientifique (CNRS). Autore, tra gli altri libri in italiano, di Ecosocialismo – L’alternativa radicale alla catastrofe capitalista (Ombre corte).

(traduzione dal portoghese di Gianni Alioti)