O Mistério na tessitura da vida: a espiritualidade de Gilberto Gil:F.Teixeira

Faustino Teixeira  da PPCIR/UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora – MG) é um teólogo leigo formado na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Ajudou a fundar, com reconhecimento oficial, a Faculdade de Estudos das Religiões com acento no Islamismo. Sua especialidade é a mística, particularmente do sufismo (Rumi) e de outras vertentes. É especialista também no diálogo ecumênico entre as religiões (macro-ecumenismo). Por causa de seu saber é muito requisitado para conferências e cursos. Publicamos este texto singular que é um diálogo entre a música e a espiritualidade na produção musical do cantor Gilberto Gil. Estimo que esta abordagem poderá interessar a muita gente e animar a busca de uma espiritualidade aberta. Lboff

*******************

Trata-se de tarefa desafiante de tentar captar a experiência espiritual na trajetória criativa de Gilberto Gil. Foi o desafio que busquei responder nas breves notas que seguem, a partir de um convite de conferência realizado pelo Programa de Pós-graduação em Letras da UFJF. Foi um mergulho nas canções desse compositor singular e inaugural, assim como nas biografias disponíveis e entrevistas realizadas pelo compositor baiano. O panorama geral é convidativo, descortinando dimensões singulares da visão espiritual de Gil.

 

O amor pela vida

 

De início, podemos destacar o profundo amor pela vida alimentado por Gil e cantado em diversas canções, como na estrofe de Amo tanto viver (1980):

 

Todas as vezes que eu canto é amor

Transfigurado na luz

Nos raios mágicos de um refletor

Na cor que o instante produz[1] (CR, 282)

 

O que vislumbramos é um canto de alegria, temperado pela fé na vida e nas forças que dinamizam o tempo:

 

Tudo que eu sei aprendi

Olhando o mundo dali

Do patamar da canção (…)

 

Tudo que eu canto é a fé, é o que é

É o que há de criar mais beleza

Beleza que é presa do tempo

E, a um só tempo, eterna no ser (CR, 282).

 

Num ritmo de otimismo que encanta, Gil vai tecendo o seu canto com as marcas da alegria, como um hino de celebração da vida. É o que vemos também na canção Cores vivas (1980):

 

Tomar pé

Na maré desse verão

Esperar

Pelo entardecer

Mergulhar

Na profunda sensação

De gozar

Desse bom viver (CR, 293).

 

A canção tinha sido encomendada para a trilha de uma novela, Água viva, e o compositor aproveitou o ensejo para destacar esse seu “encanto de viver”, essa densa simpatia pela dinâmica vital que envolve todos os fenômenos. A canção, de fato, virou um “hino da vida oferecido à vida”[2]. Com base em Oswald de Andrade, Gil indica que “a alegria é a prova dos nove”, traduzido também no verso da canção “Geleia Geral” (1968 – CR, 105), expressa poeticamente por Torquato Neto. Trata-se de algo “irrecusável”, assinala Gil, que deve compor o ritmo do coração:

 

Seja lá qual for a grande ou pequena vicissitude, seja lá qual for a grande ou a pequena tristeza, a grande ou a pequena decepção, o grande ou o pequeno flagelo, tem de achar um jeito de alegrar o coração[3]. E alegrar no sentido bem suave, moderado, a alegria na dose suficiente para a satisfação do equilíbrio interno, para o estabelecimento do silêncio obsequioso que a gente tem de ter em relação à loucura do mundo[4]

 

O mundo espiritual

 

Gilberto Gil foi alguém sempre marcado pela vida espiritual, mas curiosamente o passo de abertura para a experiência interior ocorreu por ocasião de sua prisão, em dezembro de 1968. Antes mesmo desta época já estava em curso o movimento tropicalista, com presença destacada do compositor, e que foi um traço de vanguarda na música popular brasileira[5]. Em 1967 tinha sido lançada a canção inaugural, Domingo no parque, com a presença dos Mutantes; e em 1968, o disco tropicalista Gilberto Gil, com outras canções de destaque como “Procissão”. Nesta canção, em particular, manifestava-se um pensamento mais sintonizado com o marxismo, em conexão com o engajamento de Gil no Centro Popular de Cultura (CPC). A religião aparecia ali como um dado de alienação, e Gil chega mesmo a ironizar o cristianismo:

 

E Jesus prometeu vida melhor

Pra quem vive nesse mundo sem amor

Só depois de entregar o corpo ao chão

Só depois de morrer neste sertão

Eu também tô do lado de Jesus

Só que acho que ele se esqueceu

De dizer que na Terra a gente tem

De arranjar um jeitinho pra viver (CR, 60).

 

A prisão de Gil aconteceu no final de dezembro de 1968, junto com Caetano Veloso. Os dois foram libertados em 19 de fevereiro de 1969, uma Quarta-Feira de Cinzas. Seguem então para Salvador, permanecendo em estado de confinamento até a partida para o exílio, em julho de 1969. Gil ficará no exílio até janeiro de 1972, quando retorna com sua mulher Sandra e o filho Pedro. Caetano e sua mulher, Dedé, tinham retornado antes.

 

A experiência na cadeia foi decisiva no desenvolvimento de sua vida espiritual. Como ele mesmo diz, foi ali que sua busca manifestou uma “face mais visível”, bem como sua “ânsia mística”. E argumenta: “Todo esse primeiro polimento, essa primeira retirada da poeira da superfície do meu ser foi feita ali dentro da prisão” (CR, 113). Na prisão, Gil faz suas primeiras leituras sobre a alimentação macrobiótica e dá início a um “vegetarianismo incipiente”. Acessa também informações sobre ioga e dá início a exercícios de relaxamento e respiração. Naquele espaço limitado, restritivo, Gil busca caminhos de libertação, na linha de uma “visão ascética da vida” e de um “voo mais alto”[6]. Algumas canções nasceram no período, como “Vitrines”, “Futurível” e “Cérebro eletrônico”. Nesta última, aborda contrastes e ensaia diálogos entre o mundo dos homens e o mundo de Deus. O tempo era de modernização, do avanço cibernético, das primeiras viagens espaciais e da afirmação da ficção científica, exemplificada no filme de sucesso: 2001, uma odisseia no espaço. Com “Cérebro eletrônico”, Gil reconhece a força das máquinas, com seus “botões de ferro” e “olhos de vidro”, mas sublinha também sua limitação. Elas comandam e fazem “quase tudo”, mas permanecem penúltimas:

 

Só eu posso pensar se Deus existe

Só eu

Só eu posso chorar quando estou triste

Só eu

Eu cá com meus botões de carne e osso

Hum, hum

Eu falo e ouço

Hum, hum

Eu penso e posso (CR, 112)

 

Naquela situação-limite da prisão, de seu encurtamento programado, firma-se um “sonho” que é real, do “conhecimento da condição divina” e da mudez das máquinas. São as primícias de um processo de interiorização e meditação que vai se irradiar posteriormente em outras canções, como “Preciso aprender a ser só” (1973) e “Realce” (1979). Mediante o recurso a uma brincadeira linguística, Gil revela a potencialidade do mundo interior: “Eu preciso aprender a só ser” (CR, 156).

 

Uma verdade deve ser dita. Os caminhos desbravados pelo tropicalismo produziram uma aproximação à contracultura e, com ela, às formas e práticas extra-ocidentais de cultura. É o que sublinha Antonio Risério em entrevista publicada na Coleção Encontros[7]. Ele acrescenta: “E agora estávamos de volta, por assim dizer, ao Brasil. Fomos de Krishna aos babalaôs. Do I-Ching ao Xingu”[8]. Outro companheiro de Gil, Rogério Duarte, fala deste mergulho interior[9]. Ele também esteve preso, sentindo igualmente um “chamado interno”, com um processo que reconhece como “paralelo ao de Gil”. Ao voltar do exílio em Londres, Gil foi morar com Rogério, e juntos começaram a estudar a Eubiose. Ele relembra um trecho da canção de Gil, “Objeto sim, objeto não” (1969), reconhecida como “panfleto neomitológico” que busca refundar a aliança da ciência com o mito:

 

Eubioticamente atraídos

Pela luz do Planalto Central

Das Tordesilhas

Fundarão o seu reinado

Dos ossos de Brasília

Das últimas paisagens

Depois do fim do mundo (CR, 124)

 

Esta dimensão sincrética do tropicalismo, abraçada por Gil, veio reconhecida por Caetano Veloso na nova edição de Verdade Tropical: “O Brasil é religioso. Eu posso ser ateu, mas o tropicalismo não o é – e o Brasil muito menos”[10].

 

O clima que circundava o campo do tropicalismo era pontuado pela aura do Oriente, com pontuações precisas: de hare-krishnas, tarôs e I Chings. Daí as referências contidas na canção “Oriente” (1971):

 

Se oriente, rapaz

Pela constelação do Cruzeiro do Sul

Se oriente rapaz

Pela constatação de que a aranha

Vive do que tece

Vê se não se esquece

Pela simples razão de que tudo merece

Consideração (CR, 143).

 

Junto com a busca interior, o processo de despojamento pessoal, que vai circundando Gilberto Gil a partir daquele momento. Ele lembra disto numa entrevista concedida a Cissa Guimarães:

 

À medida que você se desprende de si próprio, a ideia de interiorização muda. Eu cada vez me desprendo mais de mim mesmo. Cada vez quero saber menos o que sou, o que significo, o que importo para os outros. Cada vez mais me atribuo menos importância. Então, a interiorização de Deus vai junto com isso. É aí que está Deus, para mim, exatamente onde já se diluíram quase todas as possibilidades de individuações[11].

 

Com a volta do exílio, a partir de 1972, Gilberto Gil toma contato mais próximo com o candomblé. Isso não tinha ocorrido antes, em dimensão de profundidade. O campo espiritual vem, assim, enriquecido com a nova presença. Junto com esta aproximação, a descoberta do profundo significado do carnaval da Bahia[12]. A vaidade de ser baiano já tomava conta de suas composições anteriores, como “Eu vim da Bahia” (1965):

 

Porque na Bahia tem mãe Iemanjá

De outro lado o Senhor do Bonfim

Que ajuda o baiano a viver

Pra cantar, pra sambar pra valer

Pra morrer de alegria (CR, 63).

 

Depois do exílio esse sentimento ganha vigor, somando-se à consciência vibrante da herança africana: “Não há brasilidade possível sem nossa ascendência africana em todos os sentidos: cultura, pulsação espiritual, herança genética, tudo”[13]. Nas canções, percebe-se agora a presença recorrente dos Orixás: de Iansã, a “Senhora do Mundo” (CR, 152); de Aganju e Xangô (CR, 218), de Logunedé, filho de Oxum (CR, 271) e do pai Oxalá, com seu toque de felicidade (CR, 294). Gil reconhece que “toda menina baiana tem um santo, que Deus dá” (CR, 270), e que em cada canto da Bahia há uma conta e “pra cada santo uma mata, uma estrela, um rio, um mar” (CR, 331). E cada conta vai montando um colar singular de religiosidade, proteção e alegria:

 

Hoje já ninguém duvida

Está na alma, está na vida

Está na boca do país

É o gosto da comida

É a praça colorida

É assim porque Deus quis (CR, 331).

 

O vínculo é forte e firma-se como rocha no coração. E quando as coisas titubeiam, é a eles que vem pedir ajuda ou consolo:

 

Omolu, Ogum, Oxum, Oxumaré

Todo o pessoal

Manda descer pra ver

Filhos de Gandhi (CR, 169).

 

Em jogo de Búzios, pelas mãos de Mestre Di, Gil descobre que era de Xangô, e numa linda canção, “Babá Alapalá” (1976), reverencia o orixá Aganju, que é um Xangô menino:

 

Alapalá, egum, espírito elevado ao céu

Machado astral, ancestral do metal

Do ferro natural

Do corpo preservado

Embalsamado em bálsamo sagrado

Corpo eterno e nobre de um rei nagô

Xangô (CR, 218).

 

Gil recorda também sua amizade com Mãe Menininha, a quem visitou várias vezes e para ele jogou os búzios. Foram anos de singela aproximação, nas festas em Gantois e outras situações diversificadas. Daí a tristeza de acompanhar sua travessia, compondo para ela um réquiem:

 

Foi

Minha mãe se foi

Minha mãe se foi

Sem deixar de ser – ora iêiê, ô (…)

 

Ouve nossa oração

Escuta a demanda de cada um

Manda teu doce axé

Recomenda ao santo o teu candomblé

Fala com cada um

Fala com cada um

Fala com cada filho fiel

Canta pra todos nós

Derrama sobre todos o teu mel (CR, 393).

 

Por todo canto, o Mistério

 

Envolvida por tantos aprendizados, a fé de Gil foi ganhando a forma de um mosaico, onde se arregimentam várias coisas. Uma fé que abraça as diferenças e que vibra sob o toque da sede de Unidade. Sublinha em entrevista esta vinculação: “A ideia de unidade, pra mim, é uma coisa do universo. O universo pra mim é uno, é integral”[14]. Esta unidade, porém, convive bem com a diversidade: “A minha fé ficou assim, um apanhado, um mosaico dessas coisas todas. Tenho respeito por elas e por quem, digamos assim, se confina num desses territórios religiosos por vontade própria, por natureza e índole”[15].

 

O que muitas canções de Gil buscam expressar, todo o tempo, é a presença do mistério, e por toda parte. Seu canto reflete este pasmo diante da grandeza do mistério. É o que está claro na canção “Esotérico” (1976): “Mistério sempre há de pintar por aí” (CR, 213). E os olhos precisam ser educados para captar essa beleza, que se irradia pelos fenômenos da natureza, como o luar:

 

O luar

Do luar não há mais nada a dizer

A não ser

Que a gente precisa ver o luar (CR, 287)

 

Tudo o que brilha na natureza é uma prolongação do nosso corpo, e ainda mais, é parte integrante de nosso corpo. É o que reverbera em Gil: “Nós somos natureza”. Tudo que acontece no tempo reverbera, irradia, provocando uma singular ressonância. Mesmo o movimento distante de uma folha na relva, em qualquer lugar do universo, tem um impacto sobre nós. Estamos todos inseridos numa malha de relações, como num rizoma, onde as linhas remetem-se umas às outras. E a canção é capaz de expressar essa dinâmica:

 

 

 

De surgir

Uma estrela no céu cada vez que ocê

Sorrir (CR, 286).

 

O fascínio pelo mistério perdura nas canções de Gil e ganha um conteúdo vivo em todo o trabalho que antecedeu o CD Quanta, de 1996, que foi sendo gestado desde 1992. Captou a “ideação do mistério em ação” em suas leituras sobre o quantum da matéria. E revela: “Quando descobri o mundo quântico, eu disse: ´Ah, olha aí: dobraram-se finalmente`. Descobriram que não são nada sem o mistério”[16]. O mistério envolve o mundo das pessoas[17], e também o mundo transcendente:

 

Seu sou algo incompreensível

Meu Deus é mais” (CR, 213).

 

O que dardeja ocultamente na natureza vem captado de forma singular pelo artista e torna-se expressão poética:

 

Debaixo do barro do chão da pista

onde se dança

Suspira uma sustança sustentada por

um sopro divino

Que sobe pelos pés da gente e de

repente se lança

Pela sanfona afora até o coração do

menino (CR, 227).

 

A canção das coisas

 

O que encanta nas canções de Gil é a leveza, a sutil percepção dos pequenos e simples detalhes da vida. O cotidiano ganha um colorido particular. São construções poéticas delicadas e reveladoras:

 

Vamos fugir

Pronde haja um tobogã

Onde a gente escorregue

Todo dia de manhã

Flores que a gente regue

Uma banda de maçã

Outra banda de reggae (CR, 347)

 

O compositor arma sua tenda no chão da vida, atento ao ritmo do dia-a-dia. A cabeça é leve e os pés firmam-se no chão:

 

Eu estou onde tudo esteja

Ou seja

Onde quer que esteja em mim

O céu, o chão, o não, o sim

A vontade de Deus (CR, 173)

 

A vida e seu rumo são pontuados por desígnios gratuitos. O decisivo é a disposição de escuta, com leveza: “Agora calo, calço o chinelo, reparo a flor” (CR, 190). Ou então, como na canção “Refazenda” (1975):

 

Abacateiro

Serás meu parceiro solitário

Nesse itinerário

Da leveza pelo ar (CR, 196).

 

E o bonito é poder demorar-se entre as coisas, captando as suas formas e o seu fragor, como expresso na canção “Retiros espirituais” (1975). O momento irredutível de “estar defronte de uma coisa e ficar” (CR, 202). Aqui notamos o influxo positivo da fórmula Wu Wei (não ser, não fazer, não agir), tomada da tradição taoísta. Trata-se de um “deixar-ser”, sem que isto signifique passividade, mas disponibilidade ativa ao canto das coisas. É o tempo que se inaugura na cadência de cada instante (CR, 225). Gil, em estilo único, que faz lembrar a sétima Elegia de Duíno (Rilke), celebra a grandiosidade do momento: “O melhor lugar do mundo é aqui e agora” (CR, 234)[18]. E o compositor comenta a respeito: “O ´aqui e agora` reivindicado pelos místicos: a situação confortável, que deveria ser buscada e atingida pelo homem, de integridade na vivencia de cada momento, de cada centímetro de espaço ocupado” (CR, 234). É um convite que se apresenta para todos, de refestança:

 

Só não pode quem não quiser

Ver que o céu da Terra é azul

Ver que o verde é verde

Que a vida viaja

E com a vida a gente vai

Vai, vai, vai (CR, 240).

 

No rastro da canção, a percepção alerta dos passos que marcam o dia, dos dias lindos que tornam “mais branca a roupa no varal”. Sem dúvida, “o sentido desta vida é ao invés, azular a cor do branco e clarear” (CR, 252). Tudo que brota e vibra no tempo é rebento:

 

Rebento, tudo que nasce é rebento

Tudo que brota, que vinga, que medra

Rebento raro como flor na pedra

Rebento farto como trigo ao vento (CR, 269).

 

O sussurro do Deus Mu-dança

 

Em meio ao ritmo do mistério, a presença do Deus Mu-dança, utilizando aqui o recurso linguístico adotado por Gil para caracterizar o traço essencial da transformação, que também opera no mundo da divindade: “O eterno Deus Mu-dança” (1989 – CR, 390). Para além dos códigos rígidos que operam em muitas tradições religiosas, das reflexões sensatas, o recorte de um Deus que “está solto”[19], diluído e irradiado no tempo; de um Deus que convoca à transformação.

 

O clima espiritual que acompanha uma tal reflexão é de singular otimismo, de acolhida simpática, de esperança num horizonte benfazejo. Num ângulo um pouco distinto do “niilismo essencial” defendido por Caetano na canção “Oração ao tempo”, Gil manifesta sua esperança na permanência e na transformação. Não se trata de deixar de ser, como aponta Caetano, mas ser de uma forma distinta, integrada:

 

Não me iludo

Tudo permanecerá do jeito que tem sido

Transcorrendo

Transformando

Tempo e espaço navegando todos os

Sentidos (CR, 344)

 

Com “Tempo rei” (1984), Gil deixa aberta uma porta para algo pós, sempre embalado pelo toque de otimismo. Assinala em entrevista que prefere “os corpos que ressuscitam e se levantam apesar de tudo”[20]. Daí sua tranquilidade de lidar com a questão da morte, entendida como deusa, como “rainha que reina sozinha” (CR, 153). E retoma a ideia em canção:

 

Se a gente teve o tempo para crescer

Crescer para viver de fato

O ato de amar e sofrer

Se a gente teve esse tempo

Então vale a pena morrer (CR, 250),

 

Numa espiritualidade de semblante feminino, regida pela busca da leveza, da ternura, do equilíbrio e da paz, Gil celebra a força da fé, do impulso que move as pessoas, as criaturas e as montanhas; de uma fé que “não costuma faiá” (CR, 311). E assinala: “Uma das características básicas da fé é a possibilidade dessa manutenção do elã vital, do gosto de viver, que é no que consiste a fé”[21].

 

Ao afirmar sua espiritualidade, ao defender o elã da fé, Gil entende que essa entrega não se compagina, em hipótese alguma, com qualquer seiva de intolerância ou exclusão. Trata-se de uma espiritualidade que é ponte que acolhe e abraça as diferenças. Se há algo que não suporta é a intolerância com os outros. E a experiência requer do sujeito disposições que estão sempre ligadas ao desapego e à gratuidade. Para “falar com Deus” é necessário “ficar a sós”, “calar a voz”, “encontrar a paz” e “folgar os nós”. É antes de tudo uma grande “aventura”, que exige muita coragem para quem se dispõe, pois não há “cordas para segurar” (CR, 291). O acesso à “realidade última” não é algo simples. Há que enfrentar, delicadamente, os passos de uma travessia que implica a realidade do nada, de um “vazio-Deus”. Daí a sequência ilustrativa de treze nãos presentes na canção de Gil.

 

Ao final desse itinerário onde se buscou sinalizar os traços que marcam a experiência espiritual de Gil, fica a presença de uma sensação positiva, de energia singular, onde as expressões mais presentes são vida e alegria. Trata-se de uma espiritualidade bem terrenal, de integralidade, pontuada pelo sabor dos frutos da terra, como “um cesto de alegria de quintal” (CR, 290). Uma espiritualidade que traz consigo um convite que é para todos:

 

Amarra o teu arado a uma estrela

E os tempos darão

Safras e safras de sonhos

Quilos e quilos de amor (CR, 385).

 

…..

[1] Todas as letras das canções de Gil foram recolhidas da obra: Carlos Rennó (Org). Gilberto Gil. Todas as letras. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. Para facilitar as referências, vamos utilizar o código CR.

[2] Gilberto Gil & Regina Zappa. Gilberto bem perto. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, p. 392.

[3] Expresso também por Gil na canção “Se eu quiser falar com Deus” (1980): “E apesar de um mal tamanho, alegrar meu coração” (CR, 291).

[4] Gilberto Gil & Ana de Oliveira. Disposições amorosas. São Paulo: Iyá Omin, 2015, p. 118.

[5] Na visão de Gil, o Tropicalismo fazia uma síntese entre espiritualidade e marxismo: Sergio Cohn. Rogério Duarte. Encontros. Rio de Janeiro: Azougue, 2009, p. 218.

[6] Gilberto Gil. Encontros. Rio de Janeiro: Azougue, 2008, p. 247-248.

[7] Antonio Risério. Encontros. Rio de Janeiro: Azougue, 2009, p. 152.

[8] Ibidem, p. 152.

[9] Rogério Duarte. Encontros. Rio de Janeiro: Azougue, 2009, p. 217.

[10] Caetano Veloso. Verdade tropical. 3 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2017, p. 32.

[11] Cissa Guimarães & Patrícia Guimarães. Viver com fé. Histórias de quem acredita. Rio de Janeiro: GNT/Casa da Palavra, 2012, p. 261.

[12] Gilberto Gil. Encontros, p. 253.

[13] Gilberto Gil & Ana de Oliveira. Disposições amorosas, p. 79.

[14] Miguel Jost & Sergio Cohn. Entrevistas Bondinho. Rio de Janeiro: Azougue, 2008, p. 107.

[15] Cissa Guimarães & Patrícia Guimarães. Viver com fé, p. 259.

[16] Gilberto Gil & Ana de Oliveira. Disposições amorosas, p. 40

[17] Gilberto Gil. Encontros, p. 164.

[18] E o que mais impressiona é o fato de uma afirmação tão expressiva ter sido composta na prisão: Gilberto Gil. Encontros, p. 144.

[19] Gilberto Gil. Encontros, p. 163.

[20] Ibidem, p. 163.

[21] Cissa Guimarães & Patrícia Guimarães. Viver com fé, p. 256.

Prof.Dr.Faustino Teixeira  da PPCIR/UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora – MG)

Lucia Helena Issa: carta aberta a Leonardo Boff

                         Carta aberta a Leonardo Boff

 

Lúcia Helena Issa

Jornalista, escritora e ativista pela paz. Foi colaboradora da Folha de S.Paulo em Roma. Autora do livro “Quando amanhece na Sicília”. Pós- graduada em Linguagem, Simbologia e Semiótica pela Universidade de Roma e embaixadora da Paz por uma organização internacional. Atualmente, vive entre o Rio de Janeiro e o Oriente Médio.

Uma tristeza imensa me impulsiona a fazer a única coisa que consigo fazer em momentos de dor e em todos os outros. Escrever.

 

 

 

 

A imagem permanece tatuada em mim. A imagem de um homem na casa dos 80 anos, cabelos brancos, uma barba longa e branca em um lindo contraste com o vermelho da camisa, sentado diante de um cárcere brasileiro, à espera de um sim que jamais chegou. Á espera de uma permissão formal e burocrática, ou quem sabe apenas de uma atitude humana para que ele pudesse apenas exercer sua humanidade. Para que pudesse abraçar um irmão.

Hoje vivo no Rio e sou uma escritora e jornalista que tem procurado dar voz às refugiadas e que acaba de voltar de um campo de refugiados na fronteira da Síria. Mas quem lhe escreve nesse momento, professor, não é a escritora, mas a menina que um dia fui e ainda sou.

Uma menina que, aos 14 anos de idade e muitas incertezas, leu um livro de Leonardo Boff. Uma menina que, nascida em uma classe social muito privilegiada, sentia não pertencer a sua classe e nem a nenhuma outra, sentia uma imensa culpa por ter vindo ao mundo com todas as chances e oportunidades em um país tão injusto e socialmente desigual como o nosso.

A culpa e a dúvida de que sua formação cristã, herdada de seus pais, pudesse levar a menina a fazer a diferença na vida de pessoas mais pobres a acompanharam por muitos anos.

Foi apenas com a sua obra que a menina que hoje lhe escreve, aprendeu que ela poderia, sim, sendo cristã, , dar voz às mulheres refugiadas, às mulheres agredidas cotidianamente e às crianças que estão sendo dizimadas por guerras promovidas por petróleo e não por democracia.

A menina que lhe escreve aprendeu com você que é possível acreditar numa teologia mais humana, mais próxima da vida cotidiana, uma teologia que seja filha da esperança e não do medo ou de um Deus responsável apenas por me punir.

A menina que lhe escreve aprendeu que pode lutar pela paz, pelo diálogo entre cristãos e muçulmanos, pelo respeito a todos os grupos religiosos, e pode fazer isso usando o próprio legado de Jesus, a escuta atenta, o cuidado com o outro, o amor pelas diferenças e a luta contra a hipocrisia dos vendilhões do templo, dos gurus que sequestraram o cristianismo em nome de interesses financeiros e poder.

A menina que lhe escreve aprendeu com você, professor, que era possível conciliar minha fé e minha razão questionadora, que por um momento acreditei serem antagônicas. A menina que lhe escreve aprendeu que é possível, usar a ciência, a antropologia e o saber social para denunciar os mecanismos de opressão que ameaçam a vida dos mais pobres, e também para tirar algumas pessoas de nosso convívio de sua imensa indiferença ética e moral em relação aos mais pobres do Brasil.

A menina que lhe escreve aprendeu com você que. apesar do discurso elitista de alguns padres que povoaram minha infância, a indiferença ou ódio aos pobres jamais foi e jamais será parte do legado de Jesus.

A menina que lhe escreve aprendeu com você a conhecer um Deus amoroso, que se manifesta nas lutas cotidianas, num campo de refugiados ou nas areias da Praia do Recreio e um Cristo cujo rosto eu vejo refletido em meu irmão todos os dias.

A menina que lhe escreve aprendeu com você que a verdadeira ética cristã, que deve nortear a minha luta, é uma ética libertadora e inclusiva, que se importa com a dimensão do humano e com o futuro do planeta, com os fabricantes de armas , com milhões de refugiados, e não uma ética cristã alheia aos problemas do mundo.

A menina que lhe escreve aprendeu com você que a hospitalidade ao outro é vital, é cristã e é necessária em tempos de guerras e crises migratórias. A hospitalidade é um dever de todos e um imperativo ético.

A menina que lhe escreve aprendeu com você que o reconhecimento do outro, o ouvir o outro, o cuidar solidário, a compaixão ( palavra que, em latim, significa sofrer com) são atitudes essenciais para que eu me defina como cristã, o resto é apenas hipocrisia ou uma forma de exercício de dominação social que nada a tem em comum com o cristianismo.

A menina que lhe escreve aprendeu com você que lutar pelo diálogo entre diferentes grupos religiosos e pela paz, como ela tem feito, jamais seria fácil pois a violência está em nosso país de várias formas. Além da violência interior de cada um, vivemos imersos em um meio social violento, na violência patriarcal, a violência que culpa a mulher pelo estupro sofrido, que pergunta a uma mulher com que roupa ela estava quando foi violentada, na violência policial que mata milhares de jovens negros por ano, na violência bélica que transforma crianças refugiadas muçulmanas em alvos de um genocídio sem fim e na violência de um capitalismo cada vez mais selvagem e mais predador, que parece ter perdido a chance de se transformar em um capitalismo mais humano.

A menina que lhe escreve aprendeu que a espiritualidade é mais importante do que a religião em si. A espiritualidade surge em mim quando sou capaz ver Deus nos pequenos milagres do cotidiano , no amor do outro, na minha filha e nas crianças refugiadas.

A menina que lhe escreve aprendeu com você que a ressurreição acontece todos os dias em nós e que existe um vínculo imenso entre a paixão de Cristo e o sofrimento humano, mas que o sofrimento de Cristo não tem como função legitimar as injustiças ou a opressão, mas pode ter a função de denunciar os mecanismos geradores de sofrimento e nos convidar a lutar.

A menina que lhe escreve, professor, gostaria de lhe contar que esteve em muitos lugares desse mundo em guerra, e descobriu que é nos lugares mais feios que vivem as pessoas mais bonitas.

A menina que lhe escreve gostaria de poder lhe abraçar e lhe dizer que , mesmo depois dos crepúsculos mais longos e das noites mais escuras, o amanhecer costuma voltar e trazer consigo a cor púrpura mais intensa.

Tenho muita esperança de que em breve você e o grande Nobel da Paz Pérez Esquivel irão poder abraçar um amigo. E tenho imensa gratidão, professor, por tudo o que aprendi com você.

 

La freccia dell’evoluzione indica la vita non l’essere umano

Nel pensiero dei grandi cosmologi, che studiano i processi della cosmogenesi e della biogenesi, il punto più alto dell’affluire della vita non si realizza nell’essere umano. La grande emergenza è la vita con la sua immensa diversità e quanto essenzialmente le appartiene che chiamiamo cura. Senza la cura necessaria nessuna forma di vita sussisterà (cf. Boff, L., O cuidado necessario, Vozes, Petropolis 2012).

È d’obbligo mettere in risalto che il culmine del processo cosmogenico non si concretizza nell’antropocentrismo quasi che l’essere umano fosse il centro di tutto e gli esseri rimanenti guadagnassero in significato se ordinati a lui e per suo uso e consumo. Il maggiore evento dell’evoluzione è l’irruzione della vita in tutte le sue forme compresa quella umana.

I biologi descrivono le condizioni dentro cui è nata la vita, a partire da un alto grado di complessità e quando questa complessità si trova al suo punto di equilibrio, il caos impera. Ma il caos non è soltanto caotico. È anche generativo. Genera nuovi ordini e parecchie altre complessità. Gli scienziati non sanno come definire che cosa sia vita. Essa è l’emergenza più sorprendente e misteriosa di tutto il processo cosmogenico. La vita umana è un sottotitolo del capitolo della vita. È bene sottolineare: la centralità è una proprietà della vita. È ad essa che viene ordinata l’infrastruttura fisico-chimica e ecologica dell’evoluzione che permette l’enorme biodiversità e all’interno la vita umana cosciente, parlante e curante.

Qui intendiamo la vita come autorganizzazione della materia in alto grado di interazione con l’universo e con tutto ciò che la circonda. Cosmologi e biologi sostengono: la vita appare come la suprema espressione della “Fonte Originaria” di ogni essere che ha come corrispettivo altro nome più adeguato per noi, Dio. Essa non viene da fuori, ma emerge dal ventre del processo cosmogenico, quando raggiunge un altissimo grado di complessità.

Il Premio Nobel per la biologia Christian de Duve arriva ad affermare che in qualsiasi luogo dell’universo, quando avviene un simile livello di complessità, la vita emerge come imperativo cosmico (Polvere vitale,1995). In questo senso l’universo è pieno di vita.

La vita mostra una unità sacra nella diversità delle sue manifestazioni, dato che tutti gli esseri viventi portano lo stesso codice genetico di base che sono i venti amminoacidi, le quattro basi fosfatate, cosa che ci rende tutti parenti, sorelle e fratelli gli uni degli altri.

Prendersi cura della vita, farla espandere, entrare in comunione e sinergia con tutta la catena di vita e celebrare la vita: ecco il senso del vivere degli esseri umani sulla Terra, detta pure Gaia, super organismo vivo e noi umani la porzione di Gaia che sente, pensa, ama, parla e venera.

La centralità della vita implica concretamente di assicurare i mezzi di vita come: alimentazione, salute, lavoro, abitazione, sicurezza, educazione e passatempo. La standardizzazione a favore di tutta l’umanità, dei progressi della tecno scienza già raggiunti, avremmo i mezzi per far gustare i servizi con qualità che oggi soltanto settore privilegiati e ricchi possono permettersi.

Fino ad oggi il sapere era inteso come potere a servizio di chi accumulava denaro, di individui o gruppi che creano diseguaglianze e pertanto a servizio del sistema imperante, ingiusto e disumano. Noi postuliamo un potere a servizio della vita e dei cambiamenti necessari richiesti dalla vita stessa, perché non fare una moratoria di investigazioni e di invenzione in favore della democratizzazione del sapere e delle invenzioni già accumulate dalla civiltà e idonee a beneficiare i milioni e milioni scartati dalla società?

Questo costituisce una grande sfida per il secolo XXI. O possiamo distruggere noi stessi, visto che abbiamo l’occorrente per farlo oppure potremmo anche cominciare, finalmente, a creare una società veramente giusta e fraterna insieme a tutta la comunione di vita.

*Leonardo Boff è teòlogo e filòsofo e autore di Ecologia: Grido della Terra-grido dei poveri, Cittadella Editrice 2000.

Traduzione di Romano Baraglia e Lida Arato

Encounter with Lula in prison: spirituality and politics

As of May 7th, former President Luiz Inacio Lula da Silva had spent 30 days in prison. For the first time, he was allowed to receive visits from his friends. I had the honor of being the first to visit him, due to our friendship of more than 30 years, and that we share the same Causa: Liberating the impoverished, and reinforcing life’s spiritual dimension. I fulfilled the evangelical precept: “I was in jail and you visited me”.

I found him as we knew him before he was imprisoned: the same face, hair, beard… only somewhat more slender. Those who hoped to see him angry or depressed must be disappointed. He is filled with energy and hope. His cell is large, very clean, with built-in-cupboards, and a bathroom and shower in an enclosed space. The first impression is good, even though he lives in isolation because, other than his lawyers and children, he can only talk with the guard, who is of Ukrainian origin, gentle and attentive, who has become his admirer. He brings Lula his food tray, more warm or cool, and coffee whenever he requests it. Lula does not accept the food his children bring him, because he wants to eat as the other prisoners do, without any privileges. He has his time to take in the sun. But lately, when he does that, drones appear overhead. As a precaution Lula leaves, because the purpose of those drones is unknown: to take photos of him, or perhaps something more sinister..

Among our discussions of politics, the most important was our conversation on spirituality… Lula is a religious man, but of the popular religiosity, for which God is existential evidence. I found him reading one of my books, The Lord is my Shepherd, (from editorial Voces) a commentary on the famous Psalm 23, the most read of the Psalms, which is also read by other religions. He felt fortified and confirmed, because the Bible is generally critical of pastor/politicians, and praises those who care for the poor, the orphans and the widows. Lula feels that he belongs in that line, with his social policies that benefited so many millions. He does not accept criticism as being a “populist.” Lula says: “I belong to the people, I come from the people and direct my policies, as much as I can, towards the people”.

At the head of his bed there is a crucifix. He uses the time of solitary confinement to reflect, meditate, to review so many things in his life, and to deepen the fundamental convictions that give meaning to his political actions, all that his mother, Lindu (whom he considers his protector and inspiring angel), often repeated to him: always be honest, and struggle and struggle more. Lula sees in that the meaning of his personal and political life: a struggle that everyone may have a dignified life, and not just a few at the expense of the others. “The greatness of a politician is measured by the greatness of his Causa”, he emphatically told me. And the Causa must be to make a life for everyone, starting with those who have the least. For that reason, Lula does not accept definitive defeat. Nor does he want to fall on his face. He does not want to fail, but to remain always faithful to his basic purpose, and to make of politics a great tool for organizing a life of justice and peace for all, especially for those who live in the hell of hunger and misery.

This dream has an undeniable ethical and spiritual greatness. It is in the light of these convictions that Lula maintains his tranquility, because he says and reiterates that he lives for that interior truth, one that possesses its own strength, that one day will become evident. “I only hoped”, he commented, “for it to happen after my death, but it is already happening, even now, while I am alive”. He becomes profoundly indignant at the lies spread about him, based on which they have mounted the triplex procedure. He wonders: “How can these persons consciously lie and sleep in peace?” He challenges Judge Sergio Moro: “show me a single shred of evidence that I own the triplex of Guaruja; If you show me one, I will renounce my candidacy to the Presidency”.

He asked me to pass a message on to the press and the people in the encampment: “I am a candidate. I want to carry on with rescuing the poor, and to create social policies in their favor, State policies, and that the costs –that are investments– are in the budgets of the Union. I will radicalize these policies for the poor, with the poor, and to dignify our country”.

Meditation has made him understand that prison has a meaning that transcends him, me, and the political disputes. It must be the same price that Gandhi and Mandela paid, with prison and persecution, to reach what they accomplished. “This I believe, and hope”, he told me, “that this is what I am going through now”.

I who came to encourage him, left encouraged. I hope that others are also encouraged. and shout “Free Lula!”, against a Justice that does not manifest justice.

Leonardo Boff Eco-Theologian-Philosopher anda of theEarthcharter Commission

Free translation from the Spanish sent by
Melina Alfaro, alfaro_melina@yahoo.com.ar.
Done at REFUGIO DEL RIO GRANDE, Texas, EE.UU.