CONCLAMAÇÃO PELA VIDA E PELA DEMOCRACIA

Este texto, CONCLAMAÇÃO Pela Vida e pela Democracia, nasceu como expressão de amor à pátria, ao povo brasileiro, especialmente, aos milhões de empobrecidos e marginalizadso que passam fome ou se encontram em grave insuficiência nutricional e às famílias que choram as mais de 676 mil vítimas do Coronavírus, a maioria delas, evitáveis.

Nasceu também como protestação contra os verdadeiros crimes cometidos pelo atual presidente contra o povo, os pobres, os povos indígenas, negros,quilombolas,  mulheres, de outra opção sexual e jovens, contra a natureza e a própria humanidade. Especialmente a forma torpe como enxovalhou membros do STF e do TSE e a segurança das urnas eletrônicas diante de 40 embaixadores estrangeiros convocados ao palácio presidencial.

O grande desafio consiste na reconstrução do que foi literalmente destruído e na criação de uma atmosfera de civilidade, de dignidade e de irmandade entre todas as pessoas.

Esse é o sentido desta CONCLAMAÇÃO Pela Vida e pela Democracia ssubscrita principalmente por pessoas ligadas aos direitos humanos, ao trabalho com comunidades de base, por professores universitários, psicólogas, por teólogos e teólogas de várias igrejas, filósofos, por intelectuais e pessoas do meio popular.

               CONCLAMAÇÃO PELA VIDA E PELA DEMOCRACIA

Vivemos tempos dramáticos, como mundo e como país, tempos que nos obrigam a fazer uma opção, especialmente pela forma como o presidente enxovalhou instituições nacionais e pôs em dúvida a segurança das urnas eletrônicas diante de 40 embaixadores de países estrangerios. Somamo-nos à indignação que veio das principais instâncias do país. Por imperativo humano, ético e também espiritual afirmamos:

Somos pela vida, em toda a sua diversidade, especialmente pela vida humana a partir daqueles que menos vida têm, condenados a morrer antes do tempo.

Somos contra a morte produzida pela violência secularmente praticada contra pobres, negros, indígenas, mulheres e LGBTIQ+, e hoje agravada, pois insuflada a partir de cima e naturalizada. Nos insurgimos contra a morte das mais de 676 mil pessoas vitimadas pela Covid-19 que, em grande parte, poderia ter sido evitada se não fosse a irresponsabilidade do governo.

Somos pelo ato de amar que move o céu, as estrelas e nossos corações.

Somos contra armar a população, o que fez disparar o número de mortes violentas na rua, no trânsito e nas casas, como claramente ocorreu em Foz do Iguaçu-PR.

Somos contra o ódio, a difamação, os maus hábitos e a violência simbólica, difundidos pelas redes sociais, Rádios, TVs e imprensa.

Somos pela verdade contra toda a mentira, as fake news e o ocultamento da realidade, como políticas de estado. Consequentemente condemos  orçamento secreto  parlamentar  sem transparência nem indicação clara da aplicção dos bilhões de reais  liberados.

Somos pelo cuidado e pela preservação de nossas riquezas naturais, de nossas florestas e biomas, Amazônia, Mata Atlântica, Cerrado, Caatinga e Pantanal, cada vez mais agredidos e devastados; de nossas águas e solos contaminados pelo excesso de adubação química e dos agrotóxicos.

Somos contra a sistemática devastação de nossos ecossistemas, via mineração, garimpos ilegais em terras indígenas, madeireiras, avanço das pastagens e do gado, da soja, algodão e outras monoculturas do agronegócio, voltadas para a exportação em detrimento da produção de alimentos para a população. Com a disparada dos preços, a fome voltou a rondar a mesa das famílias.

Somos pela defesa de nosso rico patrimônio cultural, pelo incentivo à educação de qualidade para todos, à ciência e à tecnologia para estarmos à altura da complexidade e das demandas de nossa sociedade.

Por esta razão, somos contra e condenamos veementemente a desmonte oficialmente conduzido de nosso  sistema educacional, de nossas instituições científico-técnicas, das universidades públicase do menosprezo de nossas  tradições populares, afro e indígenas.

Somos contra a privatização dos bens que pertencem a todo o povo, como a água, as terras públicas, as áreas de proteção ambiental, a energia, a Eletrobrás e a Petrobrás.

Somos contra um chefe de estado que não pratica as virtudes que deveriam ser abraçadas pelos cidadãos e pelas cidadãs, que é deseducado, usa palavras de baixo calão, exalta a violência e até mesmo a tortura e está permanentemente em conflito com as instituições que regem um estado democrático de direito.

Somos contra as constantes ameaças de uma ruptura institucional, por parte do chefe de estado, ao arrepio da constituição e no desrespeito às leis.

Somos pela democracia como valor universal a ser vivido em todas as instâncias e como forma de organização social, que busca representar os interesses gerais da população e não os interesses dos poderosos, com privilégios acobertados pelo orçamento secreto. Toda destinação de dinheiro público deve ser transparente, acompanhada pelos cidadãos, e auditada pelos Tribunais de Conta e controlada pelo parlamento e por uma imprensa livre.

Somos pela plena liberdade democrática na manifestação das opiniões, no direito de frequentar todos os espaços públicos e de ter acesso aos bens comuns.

Cultivamos a esperança de que a verdade triunfará sobre a falsidade e de que a convivência pacífica entre todos e todas corresponda ao anelo mais profundo do nosso ser.

Estimamos que a democracia representa uma das melhores formas de as pessoas participarem na construção do bem comum e construir relações que propiciem uma vida mais humana e espiritual e que torne mais fácil o amor, a solidariedade e o cuidado recíproco de uns pelos outros e pela Mãe Terra.

Estamos, finalmente, seguros de que a Vida seguirá abrindo uma senda de esperança no caminhar de nossa atribulada sociedade brasileira.

Petrópolis, 21 de julho de 2022.

Maria Helena Arrochellas– Diretora do Centro Alceu Amoroso Lima para a Liberdade/CAALL, Coordenadora Editorial do Boletim REDE de Cristãos e membro do grupo Emaús.

Leonardo Boff – Teólogo,filósofo e Membro da Iniciativa Internacional da Carta da Terra, do Centro de Defesa dos Direitos Humanos/CDDH de Petrópolis, escritor  e  do grupo Emaús.

Márcia Maria Monteiro de Miranda – Educadora popular, Teóloga, Co-fundadora do CDDH de Petrópolis e membro do grupo Emaús.
José Oscar Beozzo– Historiador, Coordenador Geral do Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular/CESEEP e membro do grupo Emaús.

Celso Carias –  professor universitário e do grupo Emaús.

Aurelina de Jesus Cruz Carias (Leu Cruz) Educadora, liturgista, animadora da Comunidade Batismo do Senhor – Duque de Caxias, RJ e membro do grupo Emaús.

Francisco Assis Dias de Araujo

Dayse de Paula Silva

Vilma Baptista

Márcia Cristina Ferreira

Marlene Bartolomeu de Oliveira Silva

Mariana Freire Lopes – Raiz Orgânica Agricultura

Valmira Freire Lopes

Maria Amélia Clemente Coelho

Jorge Luiz de Souza

Jorge Manoel Coelho

Wagner Jorge Clemente Coelho

Tatiana Coelho Gomes da Silva

Vera Neves Pereira

Roberto Martins Gomes da Silva

Umbandistas de Duque de Caxias, RJ

Maria de Lourdes Cruz

Anna Maria Hassel

Marta Aparecida Batista da Silva

Ildete Ferreira Neto

Flavio Luiz Oliva

Rafael Cruz Carias

Marcelo Barros – Monge, escritor, Teólogo niilista e membro do Grupo de Emaus.

Sarah Silva Telles – Socióloga, PUC Rio.

Ivo Lesbaupin -Sociólogo, coordenador do Iser Assessoria e do Gruupo Emaús.
Cesar Kuzma – Teólogo, professor da PUC-Rio, presidente da SOTER e membro do Grupo Emaús.

Rosemary Fernandes da Costa – Professora, assessora do MEL (Movimento de Juventudes e Espiritualidade Libertadora), membro do Grupo Emaús e da Comunidade Batismo do Senhor
Maria Clara Bingemer – Teóloga, Professora do Dpto. Teologia da PUC-Rio.

Cláudio Ribeiro – Pastor Metodista, teólogo, membro do grupo Emaús
Edward Guimarães – Teólogo e Professor Universitário PUC MG
Luiz Carlos Suzin – Teólogo e Professor Universitário PUC Rio Grande do Sul. Professor permanente e pesquisador do programa de pós-graduação em Teologia.
Edson Fernando de Almeida – Teólogo, Pastor da Igreja Cristã de Ipanema, professor universitário e membro do Grupo de Emaús

Anna Paula Florenzano de Almeida – pela Universidade Estadual de Londrina – PR e Pesquisadora Graduada em do Laboratório Interdisciplinar de Pesquisa em Atenção Primária à Saúde (LIPAPS/UERJ).

Rosi Schwantes – Doutora em Ciências da Religião e psicóloga.
Maurício Abdala -Professor de filosofia da UFES e membro da rede nacional de Assessores do Cefep.

Maria Tereza Sartorio – Pedagoga, membro da coordenação do Movimento Nacional Fé e Política, Juiz de Fora – MG

Pedro A. Ribeiro de Oliveira – Sociólogo, professor aposentado da UFJF e PUC-Minas, membro da coordenação do Movimento Nacional Fé e Política, de Juiz de Fora – MG.

Pastora Romi Márcia Bencke – Pastora da IECLB – Conselho Nacional de Igrejas Cristãs.

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Situação do mundo: crise civilizacional, drama ou tragédia?

                                             Leonardo Boff

Sigam-me neste pensamento: alguém pode dizer para onde vamos? Nem o Dalai Lama, nem o Papa Francisco nem alguma autoridade o poderá dizer. No enteando temos três advertência sérias: uma do Papa Francisco em sua última encíclica Fratelli tutti (2020): “Estamos no mesmo barco: ou no salvamos todos ou ninguém se salva”(n.32). Outra também com a mais alta autoridade, a Carta da Terra de 2003: “a humanidade deve escolher o seu futuro; a escolha é essa: ou formar uma aliança global para cuidar da Terra e uns dos outros ou arriscar a nossa destruição e a diversidade da vida”(Preâmbulo). A terceira veio do Secretário Geral da ONU António Guterres em meados de julho deste ano de 2022 num conferência em Berlim sobre mudanças climáticas: “Nós temos uma escolha. Ação coletiva ou suicídio coletivo. Está em nossas mãos.” A maioria não se sente no mesmo barco nem cultiva o cuidado e sequer elabora ações coletivas.

Consideremos alguns fenômenos: o Brasil é perpassado por uma onda de ódio, de mentiras e de violência contra uma gama imensa de pessoas, covardemente desprezadas e difamadas, onda incentivada pelo Presidente que elogia a tortura, as ditaduras e constantemente viola a Constituição. Sem nenhuma prova questiona a segurança das urnas. Convoca todos os embaixadores para falar mal de nossas instituições jurídicas e dá a entender que, caso não se reeleja, dará um golpe de estado. Comete um crime de lesa-pátria, motivo para impugnar sua candidatura. Nem nos refinemos à fome e o desemprego de milhões que campeiam no país.

A situação ecológica do mundo não é menos preocupante: em pleno verão europeu o clima chegou a 40 graus ou mais. Há incêndios praticamente em todos os países do mundo. São os eventos extremos agravados pelo aquecimento global. Temos visto em nosso país neste corrente ano: grandes enchentes no sul da Bahia, no norte de Minas, do Rio Tocantins e Amazonas e trágicos deslizamento de encostas em Petrópolis e Angra dos Reis, com inúmeras vítimas e simultaneamente prolongada estiagem no sul.

Há 17 focos de guerra no mundo,o mais visível de todos na Ucrânia atacada pela Rússia com alto poder de destruição. Gravíssima foi a decisão dos países ocidentais,englobados pela Nato que tem os USA como seu  principal ator, ao estabelecer “um novo compromisso estratégico” de passar  de um pacto defensivo para um pacto ofensivo. Declara ipsis litteris a Rússia como inimigo presente, e mais adiante a China. Não se trata de um concorrente ou adversário, mas de inimigo que na perspectiva do jurista de Hitler Carl Schmitt, cabe combater e destruir,usando todos os meios inclusive os militares e, no limite, os nucleares.Como apontou o reconhecido economista ecológico Jeffrey Sachs, reforçado por Noam Chomsky: se isso ocorrer seria o fim da espécie. Isto significaria a grande tragédia.

Talvez a ameaça mais eminente nos vem do já citado aquecimento global acelerado. Com o esforço conjugado de todo os países dever-se-ia limitar o aquecimento a 1,5 grau Celsius até 2030. Agora constata-se que se acelerou com a entrada maciça do metano devido ao degelo das calotas polares e do parmafrost. Antecipou-se para 2027. O último relatório em tres volumes do IPCC publicado há poucos meses advertiu que poderá vir bem antes. Há o risco notado já anteriormente pela Academia Norte-americana de Ciências de um “salto abrupto” que pode elevar o clima a 2,7 ou mais graus Celsius. A conclusão que o IPCC chega é “que os impactos em todo mundo constituem uma ameaça à humanidade”. Grande parte dos organismos vivos não consegue se adaptar e acaba desaparecendo. Da mesma forma multidões humanas podem sofrer terrivelmente e também morrer antes do tempo.Tal evento pode ocorrer nos próximos 3-4 anos. Não parece que os analistas e os planejadores tomam em conta essa eventualidade.

Daí se entendem que alguns cientistas em clima, sejam tecnofatalistas e céticos. Afirmam que com as bilhões de toneladas de CO2 e de outros gases de efeito estufa já acumulados na atmosfera (eles permanecem cerca de 100 anos) não temos condições de impedir o aquecimento global. Chegamos tarde demais. Os eventos extremos fatalmente virão, cada vez mais frequentes e danosos, devastando partes dos biomas terrestres e das costas marítimas. Pelo fato de dispormos de ciência e de tecnologia podemos apenas mitigar os efeitos  nocivos mas não de evitá-los. Eis uma crise de nosso tipo de civilização.

Acresce a este quadro dramático, a Sobrecarga da Terra: consumimos mais do que ela nos pode oferecer, pois necessitamos mais de uma Terra e meia (1,7) par atender as demandas do consumo humano, especialmente, aquele suntuoso das classes opulentas.

Diante deste cenário inegavelmente dramático que pensar? Talvez tenha chegado a nossa vez de sermos excluídos da face da Terra? Dada a voracidade do processo produtivista mundializado que não conhece moderação, a cada ano estão desaparecendo cerca de 100 mil espécies de organismos vivos. Aqui cabem as palavras do eminente naturalista francês Théodore Monod, por nós algumas vezes citado:” somos capazes de uma conduta insensata e demente; pode-se a partir de agora temer tudo, tudo mesmo, inclusive a aniquilação da raça humana: seria o justo preço de nossas loucuras e de nossas crueldade”. Essa opinião é compartilhada por outras notáveis personalidades como Toynbee, Lovelock, Rees, Jacquard, Chomsky entre outros.

Não podemos travejar como será nosso futuro. Mas ele não pode ser o prolongamento do presente. A natureza da lógica capitalista não mudará senão a  obrigaria a renunciar de ser o que é e quer: acumular ilimitadamente sem cuidar das externalidades.

Como mostrou Hans Jonas em seu livro O Princípio Responsabilidade, o fator medo e pavor pode ser decisivo. Ao dar-se conta de que pode desaparecer, o ser humano fará tudo para sobreviver, como os navios antigos que sob risco de naufragar, jogavam toda a carga ao mar. Haveria mudanças radicais especialmente no consumo frugal e solidário.

Existe ainda o princípio do imponderável e do inesperado da mecânica quântica. A evolução não é linear. Em momentos de alta complexidade e de grande caos pode dar um salto para uma nova ordem e conquistar um outro equilíbrio. No nosso caso não é impossível. Mas seguramente se fará com o sacrifício de vidas também humanas.É o nosso drama.

Por fim, há a esperança teologal, o legado judaico-cristão, que deve ser entendido também como uma emergência do processo evolucionário e não como algo exógeno. Ela afirma o princípio da vida e do Deus vivo e doador da vida que criou tudo por amor. Ele  poderá criar condições para os seres humanos se converterem para um outro rumo de seu destino e assim poderem se salvar. Mas “chi lo sa”? A nós cabe o esperançar de Paulo Freire, quer dizer, criar as condições para a utopia viável, a esperança, de que o inesperado acontecerá e que a vida sempre terá futuro e está destinada a mudar para  continuar e continuar brilhando.

Leonardo Boff escreveu O doloroso parto da Mãe Terra:uma sociedade de fraternidade sem fronteiras e de amor universal, Vozes 2021 e Habitar a Terra, Vozes 2022.

Presente en nuestro DNA,el amor vencerá el odio del bolsonarismo

Leonardo Boff*

Una figura siniestra, claramente poseída por la pulsión de muerte y de odio fue elegida presidente de Brasil. Parece haber sufrido una lobotomía, pues extrañamente está ausentes en él cualquier sentimiento de empatía hacia los millones de familias enlutadas por la acción mortal del Covid-19. Se hizo aliado suyo, pues lo minimizó, ridiculizó y combatió, siendo responsable de gran parte de las más de 600 mil víctimas. La distorsión de la realidad, las fake news y la mentira componen el menú de la política gubernamental. Ha sembrado odio y espíritu de venganza entre sus seguidores, ha apoyado prácticas criminales con respecto a la Amazonia y discriminatorias contra la población indígena, negra, quilombola, de otra condición sexual y, en general, contra los pobres y marginalizados.

Esta triste figura, que no posee un centro psíquico, consiguió sacar a la luz las distintas sombras que acompañan a nuestra sociedad, desde el genocidio indígena, la colonización, la esclavitud y la dominación de las élites opulentas que siempre ocuparon el estado y sus aparatos en beneficio propio y a costa del bienestar de las grandes mayorías. Ha liberado la dimensión dia-bólica (que divide) que habita en los sótanos oscuros de la psique personal y colectiva, hasta el punto de hacer desaparecer la dimensión sim-bólica (la que une), la que nos hace verdaderamente humanos y sociables. El asesinato por razones políticas cometido por un bolsonarista en Foz de Iguaçu, no exime de responsabilidad moral al presidente, pues él dio luz verde para el uso de la violencia.

Esta ola de odio que está inundando varias naciones en el mundo, pero de forma exponencial entre nosotros, hizo que el eminente intelectual norteamericano Noam Chomsky, casado con una brasilera, dijese recientemente: “Brasil es un caso especial; raramente he visto un país donde elementos de la élite tengan tanto desprecio y odio hacia los pobres y hacia el pueblo trabajador”.

A ese odio debemos contraponer el amor, la amorosidad, que decía Paulo Freire, promover aquellos valores a los que el presidente, sus hijos y sus seguidores jamás podrán referirse: el amor, la solidaridad, la fraternidad, el cuidado de unos a otros y a  la naturaleza, el derecho de cada uno a tener un pedacito de Tierra, la Casa Común, que Dios destinó a todos, una vivienda decente, el cultivo de la compasión con los que sufren, el respeto, la comprensión, la renuncia a todo espíritu de venganza, la transparencia de los actos gubernamentales y el derecho a ser feliz. Todos estos valores son negados teórica y prácticamente por la verdadera secta bolsonarista.

Abordaré el tema del amor, no en el sentido ético/moral, filosófico y teológico. Me basaré solo en su base biológica, tan bien formulada por los científicos Humberto Maturana y James D. Watson, que junto con Francis Crick decodificó en 1953 el código genético.

El biólogo chileno Humberto Maturana, en sus estudios sobre la autopoyesis, es decir, sobre la autoorganización de la materia de la cual resulta la vida, mostró cómo el amor irrumpe desde dentro del proceso evolutivo. En la naturaleza, afirma él, se constatan dos tipos de conexiones (él las llama acoplamientos) de los seres con el medio y entre sí: uno necesario, ligado a la propia subsistencia y otro espontáneo, vinculado a relaciones gratuitas, por afinidades electivas y por puro placer, en el fluir del propio vivir.

Cuando ocurre esta última, incluso en estadios primitivos de la evolución hace miles de millones de años, surge ahí la primera manifestación del amor como fenómeno cósmico y biológico de relaciones mutuas. En la medida en que el universo se expande y se vuelve más complejo, esa conexión espontánea y amorosa tiende a incrementarse. A nivel humano gana fuerza, se hace un proyecto consciente de vida y se convierte en el móvil principal de las acciones humanas (Cf. El árbol de la vida: la base biológica del entendimiento humano, 1955).

El amor se orienta siempre hacia el otro. Significa una aventura abrahámica, de dejar su propia realidad e ir al encuentro del otro, hombre o mujer, y establecer una relación de afectividad, de alianza vital y de amor.

Whatson, en su voluminoso libro DNA: el secreto de la vida (2005) afirma explícitamente: «En el DNA, el manual de instrucciones de la creación humana, el amor pertenece a la esencia del ser humano. Aunque yo no sea religioso no dejo de ver elementos profundamente verdaderos, escritos por San Pablo en su primera Carta a los Corintios (13,1-13): “aunque hablase en lenguas, las de los hombres y las de los ángeles… y tuviese el don de la profecía, el conocimiento de todos los misterios y de toda la ciencia… si me falta el amor, no sería nada”. Continúa Whatson: «Pablo, a mi entender, reveló con claridad la esencia de nuestra humanidad; el amor, ese impulso que nos hace tener cuidado del otro, fue lo que permitió nuestra supervivencia y éxito en el planeta; es impulso creo que es el que salvaguardará nuestro futuro… tan fundamental es el amor para la naturaleza humana. Estoy seguro de que la capacidad de amar está inscrita en nuestro ADN; un Pablo secular como yo diría que el amor es el mayor don de nuestros genes a la humanidad» (p.413-414).

Como podemos ver, quienes hacen tales afirmaciones son científicos de la mayor seriedad y reconocimiento internacional. El amor pertenece a nuestra naturaleza esencial. Obrando en contra de él, como lo hace el presidente y el bolsonarismo, se sitúan a contramarcha de la humanidad y de la lógica del universo. De ahí su maldad y perversidad.

La sociedad brasilera no puede construirse sobre esta barbarie y antihumanismo. El pueblo deberá rechazar su reelección, no solo por razones ético-morales-políticas y de buen sentido, sino también por razones científicas.

De su boca oí y de su ejemplo aprendí lo que mi padre legó a toda la familia: “Quien no vive para servir, no sirve para vivir”. El presidente actual no sirve al pueblo brasilero, peor aún, niega aquella energía única que crece y se renueva cuanto más es vivida y donada: el amor. Amor, repito, negado al pueblo brasilero, a la naturaleza y a la Madre Tierra.

*Leonardo Boff es teólogo, filósofo y ha escrito: Brasil: concluir la refundación o prolongar la dependencia, Vozes 2018; La busca de la justa medida, Vozes 2022.

Traducción de MªJosé Gavito Milano

O inimigo principal na atual conjuntura do país

Jean Marc von der Weid, Julho de 2022

Publcamos este texto de Jean Marc que se tem distinguido por suas análises profundas, bem pensadas sobre a situação brasileira e sobre as ameaças reais que pesam sobre o destino político de nosso país. O poder central no Brasil é ocupado por um dirigente energúmeno, cercado de assessores inescrupulosos, a maioria militares, que contra a constituição, se metem na política e estão dispostos a apoiar um grande caos social. Este daria ao Inominável que está levando o povo à fome e ao desespero a à esta porção de militares conservadores, reacionários, incultos e ainda reféns de fantasmas que estão apenas em suas cabeças como a ameaça comunista internacional travestida de globalização a uma interrupção de nossa democracia. O fanatismo criado em seus seguidores, verdadeira seita violenta potencialmente sanguinária, poderá provocar assassinatos e atentados terroristas durante as eleições. Jean Marc nos alerta por esta eventualidade, até a suspensão das eleições e o prolongamento do atual poder já com conotações terroristas. Temos que estar atentos, participar das reações, tomar as ruas em protesto para bloquear este ato de insanidade política. Nunca como antes, o destino de nosso país está em nossas mãos, impedindo a dominação pelo ódio, pela violência (até armada) e pela destruição das bases de uma democracia minimamente representativa dos anseios das grandes maiorias por pão, casa,, trabalho,justiça social e educação. LBoff

Nos meus tempos de militante da Ação Popular, organização de esquerda que lutou contra a ditadura militar, discutíamos muito quem era o “inimigo principal”, conceito muito usado para orientar as estratégias e táticas a serem empregadas. Havia um debate, muitas vezes estéril, sobre o alvo maior a ser atacado, se os militares no poder ou seu mandante, o imperialismo americano.

Ao risco de cair na esterilidade que critiquei acima vou pôr em debate a aplicação do conceito no quadro político atual. Vamos ver se vai fazer sentido.

Intuitivamente, o alvo maior das forças progressistas atualmente é o energúmeno que preside o nosso triste Brasil, Bolsonaro. O inominável ameaça as eleições, quer pela derrama de dinheiro distribuído para ganhar apoio entre os mais pobres em uma situação de imensa miséria e fome no país, quer pela mais que evidente preparação de um golpe contra as próprias eleições. É a tática que descrevi em um artigo anterior como de “bola ou búlica”.

Analisando o quadro político desenhado nos últimos dias, em particular as votações do Congresso que permitiram a derrama de dinheiro para distribuição eleitoreira, temos que avaliar se a ameaça maior não está no presidente da Câmara, Artur Lira.

Está cada vez mais claro que Bolsonaro entendeu que precisa da colaboração do Congresso para suspender as eleições. Sua tentativa de setembro passado foi um fiasco tamanho que mostrou a fragilidade da sua base de fanáticos, de policiais militares e das próprias forças armadas para gerar o evento político e social de descontrole que justificasse um estado de exceção, com a suspensão da vida democrática. O presidente vem pelejando com sucesso para fortalecer esta base, envolvendo as FFAA no esforço de emparedar o TSE e o STF, trocando comandos para colocar generais mais bem dispostos em relação aos seus arreganhos liberticidas; ampliando a sua militância armada nos Clubes de Tiro; acirrando seus apaniguados nas polícias militares e excitando ao paroxismo seus fanáticos, o que está multiplicando atentados contra os eleitores de Lula e até chegando ao primeiro assassinato político destas eleições. Mas o perigo maior parece estar na facilidade com que Lira atropelou a Constituição, o regimento da Câmara e a legislação eleitoral.

Lira fez votar, até com um mais que suspeito apagão na energia da Câmara, o estado de emergência nacional. Estado de emergência? Ele não foi aventado na votação do Auxílio Brasil, meses atrás, para enfrentar a real emergência da fome que assola já 33 milhões de pessoas em todo o país, sem falar nas outras mais de 90 milhões em estado de insegurança alimentar em graus variados de gravidade. Pensando apenas nos efeitos eleitorais, Bolsonaro propôs e fez aprovar uma distribuição de recursos mal elaborada tanto nos valores como na definição dos beneficiários, resultando em poucos recursos para os mais pobres e acesso a outros menos mal aquinhoados. Quando viu que a derrama não estava dando certo do ponto de vista das intenções de voto, Bolsonaro aumentou a aposta visando aportar mais 200,00 reais para os já inscritos e acrescentando dois milhões de beneficiários.

Soma-se a esta derrama de dinheiro, supostamente para os mais pobres, uma série de outras medidas que arrombam totalmente a lei eleitoral, facilitando a distribuição de recursos do orçamento secreto sem qualquer controle para as bases do Centrão.

O resultado desta operação, que estoura completamente o erário e que prejudica todos os outros setores da administração ao longo deste ano, talvez não garanta a virada de votos que Bolsonaro necessita para ficar competitivo nas eleições de outubro. Entretanto, uma coisa é mais provável: os candidatos à reeleição vinculados ao Centrão vão ter um forte estímulo para garantir seus votos entre os mais pobres. Lira e seus apaniguados ganham, com ou sem a vitória de Bolsonaro. A perspectiva de ser eleito um Congresso ainda mais lamentável do que o atual vai ficando cada dia mais concreta.

Se a derrama de dinheiro não resultar em uma virada de expectativa de votos para Bolsonaro e/ou não garantir a reeleição da maioria fisiológica do Congresso, o que vão fazer Bolsonaro e Lira? Suponhamos que as pesquisas de opinião indiquem em setembro a perspectiva de derrota para estas forças da direita. A alternativa de suspender as eleições e prorrogar todos os mandatos passa a ser a solução.

Votar a derrama para fortalecer uma vitória eleitoral foi fácil para Lira, mas a suspensão das eleições é um passo muito mais grave a ser dado por esta corja. Como já disse em outros artigos, votar um estado de exceção a seco, sem uma situação de tumulto político e social generalizado é bem mais difícil, mas não impossível. Tudo depende da reação da sociedade ao quadro de descalabro que estamos vivendo.

Não acredito em uma reação espontânea da população desesperada pela pobreza e pela fome. Pensei que isto ia acontecer com o horror vivido pelo país durante a pandemia, com uma forte colaboração do governo para que este estado se instalasse. Mas as pessoas morreram sem ar e sem atendimento nas portas e corredores de hospitais repletos. O sofrimento atroz dos enfermos, contados aos milhões e com quase 700 mil mortos, não foi suficiente par promover reações populares. As pessoas sofreram e morreram e seus familiares choraram suas perdas ao som do riso escarninho do presidente. Seus fanáticos arrogantemente desprezaram as medidas de controle da pandemia, deixando de usar máscaras como forma de afirmação da sua adesão ao negacionismo de Bolsonaro e favorecendo a contaminação pelo vírus. O horror não foi suficiente para provocar reações de massa. Não houve manifestação por vacinas, sequer por oxigênio no caso de Manaus. Foi um extremo sofrimento vivido solitariamente por cada família afetada.

Pensei que a fome crescente em uma escalada que acrescenta milhões de novos sofredores mês a mês levaria a uma reação popular com saques a supermercados e feiras. Também nada ocorreu de relevante. Cenas de famintos precipitando-se para pegar restos de frigoríficos, pelanca e ossos, chocaram o país, mas não se multiplicaram. Bolsonaro mostrou-se frustrado com esta falta de reação, indicando que contava com o desespero do sofrimento para gerar o estado de instabilidade social e política que permitisse a adoção de medidas de força pelo executivo.

Este histórico aponta para a improbabilidade de uma convulsão social para a qual não faltam razões objetivas. Neste quadro, como Bolsonaro vai justificar o seu pedido de estado de exceção e a suspensão das eleições?

É aqui que entra em jogo a provocação do bolsonarismo. Uma campanha eivada de ódio, com milhares de extremistas fanáticos armados dispostos a tudo tem toda a possibilidade de gerar uma situação de confronto entre eleitores de Lula e os de Bolsonaro. Por enquanto o energúmeno está só criando o clima de provocações com resultados ainda pontuais embora dramáticos, como o assassinato do militante do PT, Marcelo Arruda, em Foz do Iguaçu. Mas não se pode descartar algo muito mais pesado, em particular atentados com tiros e bombas nos comícios de Lula e dos candidatos progressistas. Isto é muito fácil de fazer. Basta Bolsonaro e/ou seus filhotes darem o sinal para os grupos organizados da extrema direita atacarem.

Outro cenário de enorme perigo é a mobilização destes mesmos grupos para atacarem os comícios da oposição com agressões e pancadaria, com ou sem tiros e bombas. A reação dos apoiadores de Lula levaria à uma intervenção das polícias militares, fiéis bolsonaristas em grande parte, sentando o cacete na massa de oposição. Quanto mais pancadaria, quanto mais gás lacrimogênio, feridos e mortos, melhor para a criação do “clima de instabilidade política”. Este desenho de provocações está mais do que inscrito na estratégia de Bolsonaro e deve ir se aguçando até setembro, sendo que o dia sete está anunciado como o momento do grande confronto. Isto pode ser evitado, neste dia, se a oposição decidir não se manifestar na ocasião e deixar para outro dia seus atos de massa, que não deixarão de acontecer, nem que seja no encerramento da campanha. Mas, se for interessante para Bolsonaro, o confronto existirá, seja qual for o momento escolhido pela oposição para se manifestar.

Ou seja, estamos diante de um processo eleitoral explosivo e cheio de riscos, exacerbado pelo discurso de ódio e pelas provocações dos grupos organizados do bolsonarismo. Sempre com a tática do “bola ou búlica”, se Bolsonaro não conseguir reagir nas pesquisas de opinião ele vai acionar suas “tropas” para culminar a campanha com uma superprovocação às manifestações da oposição. Com um quadro de violência generalizada ele vai pedir ao Lira para votar um estado de exceção e suspender as eleições. Lira sabe que, mesmo se tiver uma base ampliada do Centrão no Congresso, um governo Lula não vai facilitar a sua vida. Com Bolsonaro ele sabe que o estado atual das relações com o executivo vai se prolongar e a dependência do energúmeno em relação ao seu aliado parlamentar vai, se possível, aumentar. É claro que o risco existe, para Lira, do energúmeno achar que o estado exceção poderá dispensar este apoio do Congresso. Se for o caso, Bolsonaro vai ter que dar mais um passo na direção do golpe explícito, para dominar o legislativo como os generais da ditadura o fizeram ao longo de 21 anos.

E o que fazer para enfrentar estes riscos enormes? Defendo que os candidatos contra Bolsonaro busquem um acordo republicano pela defesa das eleições, do TSE, das urnas eletrônicas e da posse dos eleitos. E que se busque um acordo de todos os partidos não bolsonaristas no Congresso afirmando o mesmo princípio. E que partidos e sociedade civil se organizem e se manifestem da mais ampla forma contra a violência nas eleições e pelo respeito às urnas e seus resultados. Entidades de todas as classes devem ser convocadas a se manifestarem neste sentido, cobrando, sobretudo das patronais, uma posição pela democracia.

Fica a questão de a oposição ir ou não ir às ruas durante a campanha. Uma tática mais defensiva, evitando dar ocasião para as provocações do bolsonarismo, parece a mais prudente e razoável. Entretanto, ceder as ruas para as manifestações de Bolsonaro vai acuar a oposição na campanha e não garante evitar os confrontos. Não podemos excluir uma operação terrorista do bolsonarismo no próprio dia da eleição, com sabotagem da rede elétrica (seguindo o modelito de Lira na votação da PEC) nos locais onde haja uma clara probabilidade de uma votação forte para Lula. Ou com atentados a bomba nestes mesmos locais. Ou agressões a eleitores lulistas por bandos de provocadores com o beneplácito das polícias militares. Multiplique isto por todo o país e teremos o pretexto para o estado de exceção. A sabotagem dos TREs e do TSE no dia da eleição teria o mesmo efeito.

Por todos estes argumentos continuo achando que teremos que correr o risco dos enfrentamentos de rua, em paralelo com a campanha pela paz nas eleições e esperar que esta combinação empurre o eleitorado contra o energúmeno e a derrota seja de tal ordem que iniba o Congresso a aceitar melar o jogo.

Jean Marc von der Weid

Ex-presidente da UNE (69/71)

Fundador da ONG Agricultura Familiar e Agroecologia (1983)

Ex-membro do CONDRAF/MDA (2004/2016)

Militante da Geração 68 Sempre na Luta