O risco da destruição de nosso futuro

                                    Leonardo Boff

Em julho de 2021 o grande pensador da complexidade Edgard Morin completou 100 anos .Observador atento ao curso do mundo,entregou-nos um livro-Réveillons-nous! – Despertai! cheio de sábias e severas advertências. Resumiu seu pensamento numa entrevista à Jules de Kiss, publicada em 26 de março de 2022 na Franceinfo e reproduzida em  português pelo IHU de 4/4/22. Leitor assíduo de seus escritos, esta entrevista inspirou o presente artigo.

Morin adverte aquilo que venho há muito tempo repetindo: devemos estar atentos, tentar ver e entender o que está ocorrendo. A grande maioria, inclusive chefes de estado, são inconscientes das graves ameaças que pesam sobre o planeta Terra, sobre a vida e o nosso futuro. Parecem sonâmbulos ou zumbis, obcecados pela ideia do crescimento econômico sempre crescente e também de segurança e de mais  construção de armas de destruição em massa.

Vivemos sob várias crises, todas elas graves: a mais imediata é a pandemia que afetou todo o planeta cujo sentido último ainda não foi identificado. Para mim, é um sinal de que a Terra viva enviou aos seus filhos e filhas:”não podem continuar com a pilhagem sistemática da comunidade de vida na qual se encontram os habitats dos vários vírus que nos últimos anos assolaram regiões do planeta”. Com o Covid-19 foi todo o planeta atingido, não outros seres vivos e domésticos. É um sinal de que não está sendo lido pela maioria da humanidade,nem pelos analistas, centrados nas vacinas e nos cuidados necessários. Quem se pergunta pelo contexto em que apareceu o vírus? Ele é consequência do assalto dos seres humanos sobre a natureza especialmente com o desmatamento de vastas regiões,destruindo a casinha onde habitam os vírus que passaram a outros animais e deles a nós.

Grave é a crise climática pois se não cuidarmos até o ano 2030 o aquecimento pode chegar a 1,5 graus Celsius ou mais, comprometendo a maioria dos organismos vivos e grande parte da humanidade. Junto a isso vem a Sobrecarga da Terra (Earth Oveshoot) que foi constatada no dia 29 de julho de 2021: o bens e serviços importantes para a vida estão se esgotando. Já agora precisamos de 1,7 Terra para atender ao tipo de consumo principalmente das classes opulentas. Arranca-se da Terra aquilo que ela já não pode mais dar.Ela reage aumentando o aquecimento,os eventos extremos,a erosão da biodiversidade e mais conflitos sociais.

O que funciona como uma espada de Dámocles é a possibilidade de uma guerra nuclear que pode destruir toda a vida e grande parte da humanidade. Morin escreve: “Penso que entramos em um novo período. Pela primeira vez na história, a humanidade corre o risco de aniquilação, talvez não total – haverá alguns sobreviventes, como em Mad Max –, mas uma espécie de “reinício” do zero em condições sanitárias sem dúvida terríveis”. A guerra na Ucrânia suscitou este fantasma, pois a Rússia como já dizia Gorbachev pode destruir toda a vida com apenas a metade de suas ogivas nucleares. Mas cheio de confiança de que a história anda não foi fechada, Morin afirma esperançoso:” Precisamos esperar o inesperado para saber como navegar na incerteza”

É de todos conhecida a erosão das ideias democráticas no mundo inteiro. Está se impondo, em muitos países, como no Brasil, um espírito autoritário e fascistoide que faz da violência física e simbólica e da mentira direta, uma forma de governar. A democracia deixou de ser um valor universal e uma forma de viver civilizadamente em comunidade. Este espírito pode provocar um tsunami de guerras regionais de grande de destruição.

Não esqueçamos a advertência do Papa Francisco na Fratelli tutti  (2020): “estamos no mesmo barco, ou nos salvamos todos ou ninguém se salva”. Somos responsáveis pelo nosso futuro e pela vida no planeta

Temos a confiança de Morin de que, como a história tem mostrado,o inesperado e o improvável podem acontecer. Já um pré-socrático nos ensinava:”se não esperarmos pelo inesperado, quando ele vier, não o perceberemos”. E assim o perderemos.

Essa é a nossa confiança e esperança: estamos no meio de crises que não precisam terminar em tragédias fatais. Mas podem ser o despertar de uma nova consciência e então, a ocasião para um salto de qualidade rumo a um tipo de convivência pacífica dentro da única Casa Comum.Esse seria o próximo passo para a humanidade? Bem haja!

Leonardo Boff é teólogo e filósofo e escreveu:Como cuidar da Casa Comum,Vozes 2017.

Lançamento da Campanha PARA O FILME Eu Sou Neta dos Antigos

                                    Leonardo Boff

Sabemos que os indígenas especialmente na Raposa Terra do Sol estão permanentemente ameaçados em especial sob a atual políitica governamental anti-indígenas.

Um grupo de profissionais, conhecidos e amigos meus está produzindo um filme sobre os macuxi, sua ecologia, seus costumes, sua vida e visão do mundo. O grupo tem apoio de várias agências internacionais com a Miserior, Terre des Hommes, Tres Reis Magos e outros. Mas falta ainda uma parte para completar o fundo de execução do filme.Daí que se pensou um suporte voluntário e comunitário para completa o que já se tem no fundo.

Abaixo verão os termos e os attach com belíssimas fotos

Leonardo  Boff (sponsor do filme)

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No próximo domingo (03/04) às 19h, vai rolar uma live no perfil da Mayu filmes (@mayufilmes) no instagram  para o lançamento da campanha #eusounetadosantigos. 

O bate papo conta com a participação dos indígenas Kelly Wapichana, Edinho Macuxi (@cir_conselhoindigenaderoraima), Atiliana Brunetto do MST (@brunettoatiliana800 ), além do consagrado teólogo, escritor e filósofo Leonardo Boff (@leonardo.boff.oficial ), trazendo debates sobre a 18ª edição do Acampamento Terra Livre, Território Indígena e Preservação Ambiental.

Curta, comente e compartilhe!

#mayufilmes #cinemanacional #leonardoboff #demarcaçãojá #cir

card do projeto
https://bit.ly/3wHZpdh


link da campanha de financiamento coletivo
https://nova.kickante.com.br/l/eusounetadosantigos

material de divulgação
https://bit.ly/3tEJURz


seguimos

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Adriana Miranda (coordenadora)

En medio de la irracionalidad de la guerra, hay que rescatar el sentido común

                        Leonardo Boff*

Con la guerra en Ucrania, llevada a cabo por Rusia, con el peligro de una hecatombe nuclear que comprometería la biosfera y la vida humana, y el predominio del egoísmo a nivel internacional en el enfrentamiento  contra la Covid-19, y la ascensión del nazifascismo con su ola de odio y de violencia, y el pensamiento reaccionario y ultraconservador en varias partes del mundo, se está revelando la irracionalidad de la razón moderna.

Si perdemos la razón perdemos los criterios que orientan nuestras prácticas y los seres humanos demuestran comportamientos enloquecidos.

En momentos así, tenemos que recurrir a lo que es más fundamental en la vida humana: el sentido común crítico. El sentido común, crítico y no ingenuo, ha sido siempre el gran orientador anticipado de nuestras prácticas para que mantengan su nivel humano y mínimamente ético.

¿Qué es el buen sentido? Decimos que alguien tiene buen sentido cuando tiene la palabra correcta para cada situación, el comportamiento adecuado y cuando atina con el núcleo de la cuestión. El sentido común está ligado a la sabiduría concreta de la vida. Es distinguir lo esencial de lo secundario. Es la capacidad de ver y de poner las cosas en el sitio que les corresponde.

El buen sentido es lo opuesto a la exageración. Por eso, el loco y el genio, que en muchos puntos se aproximan, aquí se distinguen sustancialmente. El genio es aquel que radicaliza el sentido común. El loco, radicaliza lo exagerado.

Para concretar el sentido común, tomemos dos ejemplos de figuras arquetípicas: el más próximo, el Papa Francisco, y el más originario, Jesús de Nazaret.

El eje estructurador de la retórica del Papa Francisco no son las doctrinas ni los dogmas de la Iglesia Católica. No es que las aprecie menos, sabe que son  elaboraciones teológicas creadas históricamente. Pero ellas han provocado conflictos y guerras de religión, cismas, excomuniones, teólogos y mujeres (como Juana de Arco y otras tenidas por “brujas”) quemados en la hoguera de la Inquisición. Esto ha sido así durante siglos, y el autor de estas líneas tuvo una amarga experiencia personal en el cubículo donde se interrogaba a los acusados en el severo y oscuro edificio de la ex-Inquisición, a la izquierda de la basílica de San Pedro según se la mira de frente.

El Papa Francisco revolucionó el pensamiento de la Iglesia remitiéndose a la práctica de enorme buen sentido del Jesús histórico. Él rescató lo que hoy se llama “la Tradición de Jesús” que es anterior a los  evangelios  que tenemos, escritos 30-40 años después de su ejecución en la cruz.

La Tradición de Jesús o también el camino de Jesús, como se llama en los Hechos de los Apóstoles, se funda más en valores e ideales que en doctrinas. Para el Papa son esenciales el amor incondicional, la misericordia, el perdón, la justicia  para con los oprimidos, la centralidad de los pobres y marginados, la total apertura a Dios-Abbá (Papá querido). Estos son los valores axiales que orientan sus intervenciones, y los revela concretamente en sus gestos de bondad, de cuidado, particularmente hacia los emigrados de Oriente Medio, de África, y  ahora de Ucrania, así como con las víctimas de los pedófilos, algunos de la misma Iglesia.

Volvámonos a Jesús de Nazaret. Él no pretendió fundar una nueva religión. Él quería enseñarnos a vivir. A vivir con fraternidad, solidaridad y cuidado de unos a otros y total  apertura a Dios-Abbá. Estos son los contenidos de su mensaje: el Reino de Dios y la misericordia ilimitada de su Dios de infinita bondad.

Como nos dan testimonio los evangelios, demostró ser un genio del buen sentido. Un frescor sin analogías atraviesa todo lo que dice y hace. Dios en su bondad, el ser humano con su fragilidad, la sociedad con sus contradicciones y la naturaleza con su esplendor aparecen en una inmediatez cristalina. No hace teología. No apela a principios morales  superiores. Ni se pierde en una casuística tediosa y sin corazón como lo hacían y hacen los fariseos de ayer y de hoy. Sus palabras y actitudes muerden de lleno en lo concreto donde la realidad sangra y él, ante los que sufren, los consuela, los cura y hasta los resucita.

Sus amonestaciones son incisivas y directas: “reconcíliate con tu hermano”(Mt 5,24). “No juréis de ninguna manera”(Mt 5, 34). “No resistáis a los malos”(Mt 5,39), “amad a vuestros enemigos y orad por los que os persiguen”(Mt 5,44). “Cuando des limosna, que no sepa tu mano izquierda lo que hace tu derecha”(Mt 6, 3).

Este buen sentido le ha faltado, no pocas veces, a la Iglesia institucional (papas, obispos y curas), especialmente en cuestiones morales ligadas a la sexualidad y a la familia. Aquí se ha mostrado severa e implacable. Sacrifica a las personas en su dolor a los principios abstractos. Se rige antes por el poder que por la misericordia. Y los santos y sabios nos advierten: donde impera el poder, se desvanece el amor y desaparece la misericordia.

¡Qué distinto es con Jesús y con el  Papa Francisco! La cualidad principal de Dios, nos dice el Maestro y lo repite continuamente el Papa, es la misericordia. Jesús es contundente: “Sed misericordiosos como vuestro Padre celestial es misericordioso” (Lc 6, 36).

El Papa Francisco explica el sentido etimológico de la  misericordia: miseris cor dare: “dar el corazón  a los míseros”, a los que padecen. En el Angelus del 6 de abril de 2014 dijo con voz alterada: “Escuchad bien: no existe ningún límite para la misericordia divina ofrecida a todos”. Pide que la multitud repita con él: “No existe ningún límite para la misericordia divina ofrecida a todos”.

Parece teólogo cuando recuerda la idea de Santo Tomás de Aquino sobre la práctica de la misericordia: es la mayor de las virtudes “porque es propio de ella derramarse hacia los demás y, mas aún, ayudarlos en sus debilidades”.

Lleno de misericordia ante los peligros de la epidemia de zica, abre espacio al uso de anticonceptivos. Se trata de salvar vidas: “evitar el embarazo no es un mal absoluto”, dijo en su visita a México. Durante la pandemia de Covid-19 ha hecho continuos  llamamientos a la solidaridad y al cuidado, especialmente de los niños y los ancianos. Sus llamamientos a la paz en el conflicto bélico de Rusia contra Ucrania han sido fuertes. Llegó a decir: “Señor detén el brazo de Caín. Y una vez detenido, cuida de  él, pues es nuestro hermano”.

A los nuevos cardenales les dijo con todas las palabras: “La Iglesia no condena para siempre. El castigo es para este tiempo”. Dios es un misterio de inclusión y de comunión, nunca de exclusión. La misericordia triunfa siempre. No puede perder a un hijo o a una hija que ha creado con amor (cf. Sab 11,21-24).

Lógicamente, en el Reino de la Trinidad no se entra de cualquier manera. Se pasará por la clínica purificadora de Dios hasta que las personas salgan purificadas.

Tal mensaje es verdaderamente liberador. El confirma su exhortación apostólica “La alegría del Evangelio”. Dicha alegría se ofrece a todos, también a los no cristianos, porque es un camino de humanización y de liberación.

Es el triunfo del sentido común que tanto nos falta en este momento dramático de nuestra historia, cuyo destino está en nuestras manos. El Papa Francisco y Jesús de Nazaret aparecen como inspiradores de buen sentido, de misericordia y de una humanidad radical. Estas son las actitudes que podrán salvarnos.

*Leonardo Boff es teólogo y ha escrito Habitar la Terra: ¿Cuál es el camino para la fraternidad universal? Vozes 2021; Nostalgia de Dios: la fuerza de los humildes, Vozes 2020.

Traducción de María José Gavito Milano

CARTA DO IRMÃO TIMOTHY RADCLIFFE OP-Testemunho vivo da Guerra na Ucrânia

Timothy Radcliffe OP é um famoso teólogo dominicano que conhece bem a Ucrânia. Relata-nos o trabalho arriscado e generoso que seus confrades estão fazendo para salvar vidas e facilitar os migrantes a chegarem à Polônia. É comovedor verificar como há gente boa, generosa,espiritual e seguidora dos valores de Jesus ao oferecer suas vidas para salvar vidas de outros. A guerra é um mal indescritívelo pois mostra a barbárie que os seres humanos podem cometer. E ao mesmo tempo, abre espaço para mostrar o outro lado do ser humano, luminoso, compassivo, corajoso e entregue ao serviço dos outros especialmente aos que correm risco de vida. O Evangelho do Nazareno continua a inspirar pessoas a serem como ele: amar incondicionalmente e oferecer a própria vida para salvar vidas desprotegidas e sob graves riscos. LBoff

Blackfriars, Oxford, Reino Unido, 21 de março de 2022.

Meus queridos irmãos e irmãs em São Domingos,

            Nosso Irmão Jarosław Krawiec OP, Vigário Provincial da Ucrânia, pediu-me que escrevesse uma carta a todos vocês. Faço isso com uma profunda consciência da inadequação de qualquer coisa que eu possa dizer. Vocês estão  diante de uma violência brutal e sem sentido que excede tudo o que já experimentei ou possa imaginar, e por isso perdoe a pobreza de minhas palavras.

                        Estarei convosco até o fim dos tempos.” (Mateus 28.36)

            Milhões fugiram da Ucrânia e encontraram refúgio em países vizinhos, especialmente na Polônia, que inspirou o mundo por sua generosa acolhida. Graças a Deus  eles encontraram segurança e proteção longe do conflito. Mas também agradecemos a Deus por vocês terem permanecido, irmãos e irmãs ucranianos e poloneses, religiosos e leigos, quando isso foi possível.

            Em todo o mundo, as pessoas estão lendo as cartas do irmão Jaroslaw, e todos ficamos emocionados quando ele escreveu: “Decidimos ficar juntos com o povo da Ucrânia. Só saímos de Kharkiv quando a cidade, incluindo a área ao redor de nossa casa, começou a ser bombardeada”.

            O Senhor Ressuscitado disse aos seus discípulos: ‘Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos’ (Mateus 28.20). 

            A vossa presença permanente é um sinal do Senhor que permanece na Ucrânia agora e para sempre.

            Às vezes, a coisa mais importante que podemos fazer é apenas estar com as pessoas em sua hora de necessidade.

 O Filho do Homem disse: ‘Eu estava doente e você me visitou.’ (Mateus 25.36)

            Rowan Williams, o ex-arcebispo anglicano de Canterbury disse:’ ”Eu não vou embora” é uma das expressões  mais importantes que podemos ouvir.” Como eu gostaria de estar com vocês agora. Quando  quiserem que eu volte, farei isso o mais rápido possível!’

            Tenho lembranças muito felizes de minhas visitas à Ucrânia quando era Mestre da Ordem. Fiquei impressionado com a beleza de Kiev, onde você faz um bom trabalho ensinando no Instituto  Aquino, pregando e publicando.

            Lembro-me da movimentada cidade de Fastiv, da igreja com telhado de cobre e do nosso muito modesto convento composto por cabanas de construtores que aparentemente ainda estão em uso hoje e é um testemunho da preocupação dos irmãos pela missão e não pelo seu próprio conforto!

            Depois veio a calma Chortkiv com suas lembranças, dos dominicanos martirizados pelo NKVD, e de  mais coroinhas na igreja do que eu poderia contar! Houve tantas visitas memoráveis – por exemplo, ao palácio do bispo na histórica Zhitomir onde, fico triste em saber,  mísseis estão agora destruindo as casas das pessoas.

            A presença dominicana cresceu muito desde a minha última visita e não consigo imaginar como é para aqueles que vivem hoje em Kharkiv, perto da fronteira russa, que foi alvo de tantos ataques de mísseis.

             Eu sei que há dominicanos em Khmelnytskyi e Lviv também – que, até os recentes ataques com mísseis, pareciam estar bastante seguros. Em todos os lugares que fui na Ucrânia, fui recebido com corações calorosos e a tradicional hospitalidade eslava.

            Lembro-me de ver Fastiv quando a igreja ainda estava sendo reformada e quando a Casa de São Martinho, o orfanato, ainda era um prédio vazio e um sonho na mente de nosso incrível irmão dominicano, Zygmunt Kozar, cujo coração estava sempre aberto aos idosos e aos pobres.

            Seu sonho agora é uma realidade e é maravilhoso ver o novo papel que a casa de São Martinho está desempenhando como ponto de partida para os refugiados, alguns dos quais são órfãos a caminho de um lugar mais seguro na Polônia graças aos seus esforços.

                        ‘Façam  isso em memória de mim’

            Todos os dias vocês se unem aos seus irmãos e irmãs ao redor do mundo enquanto celebram a Eucaristia. Diante da violência insana que está tentando destruir sua bela nação, vocês devem se lembrar da Última Ceia, quando tudo o que parecia estar à frente de Jesus era violência e destruição. Sua pequena e frágil comunidade estava à beira do colapso e todos os sonhos para o futuro pareciam destruídos.

            Neste momento mais sombrio, Jesus realizou esse ato de esperança generosa, entregando-se a seus amigos e a nós.

            Cada Eucaristia proclama a nossa esperança de que a violência, a destruição e a morte não terão a última palavra. Quando sua vida estava prestes a ser tirada dele à força, ele se fez presente. É a esperança eucarística e a generosidade que a Família Dominicana vive dia a dia na Ucrânia. Quando se vive  a Sexta-feira Santa, o Domingo de Páscoa está se aproximando!

            Esta guerra brutal contra civis indefesos em cidades, vilas e até pequenas aldeias da Ucrânia, é verdadeiramente chocante. Vemos mísseis e projéteis deliberadamente apontados para as casas de pessoas comuns que não representavam ameaça a ninguém. Diante disso, a Eucaristia encarna a nossa esperança de que a paz do Senhor triunfe.

‘Recolham os fragmentos que sobraram, para que nada seja desperdiçado.’

(João 6.12)

            Todo o mundo dominicano se comoveu com os relatos do irmão Jaroslaw sobre a bondade e a compaixão de toda a Família Dominicana neste momento terrível: cuidar dos refugiados, visitar os doentes, preparar alimentos e a viagem recorde de carro da Irmã Anastasia a Fastiv com o forno para assar pão!

            Acho que o anjo da guarda dela devia estar fazendo hora extra!

            O irmão Jaroslaw escreveu: “Estou conhecendo essa nova realidade e tendo mais certeza de que, durante a guerra, o que é necessário não são apenas soldados, mas também todas as pessoas nos bastidores. Eles entregam alimentos e medicamentos. E quando necessário, eles evacuam as pessoas para lugares seguros.” Os motoristas, farmacêuticos, professores, enfermeiros e médicos, e tantos outros que continuam dia a dia, são um sinal de esperança.

            Às vezes alguém pode se perguntar: Que bem está sendo alcançado?. Como esses pequenos feitos podem ser importantes diante do enorme poder destrutivo de mísseis, tanques e aeronaves?

             Mas o Senhor da colheita garantirá que nenhuma boa ação seja desperdiçada. Como todos os fragmentos foram recolhidos da alimentação dos cinco mil, nenhum ato de bondade será desperdiçado. Ele dará frutos que nunca podemos imaginar.

            Primo Levi, o químico italiano, conheceu Lorenzo no campo de concentração de Auschwitz. Lorenzo lhe dava parte de sua ração de pão todos os dias. Ele escreveu: “Acredito que foi realmente devido a Lorenzo que estou vivo hoje; e não tanto por sua ajuda material, mas por ter me lembrado constantemente, por sua presença, por seu jeito natural e simples de ser bom… algo difícil de definir, uma remota possibilidade de bem, mas pela qual valeu a pena sobreviver. Graças a Lorenzo consegui não esquecer que eu mesmo era um homem.[1]’

            Cada ato de bondade e compaixão é um testemunho da possibilidade de bondade, de nossa humanidade, que o mal nunca poderá destruir.

                        A verdade vos libertará’ (João 8.32)

            Costuma-se dizer que “a primeira causalidade da guerra é a verdade.” No entanto, a violência que está sendo forjada contra seu belo país é o fruto envenenado das mentiras.

            Nós, dominicanos, com o nosso lema, Veritas , e o nosso amor à verdade, temos um testemunho especial a dar hoje num mundo que muitas vezes não se importa com a verdade.

            Quando visitei Bagdá durante o sofrimento do povo iraquiano, fiquei emocionado ao ver a Academia de Ciências Humanas de Bagdá, fundada pelos irmãos em 2012. 

            Em todo o Iraque há escolas dirigidas por nossas irmãs dominicanas, sinais de que o ser humano só pode florescer se, juntos,  buscarmos a verdade . Cada escola é um sinal de nossa esperança para nossas crianças e seu futuro.

            Então é maravilhoso que no meio dessa guerra sem sentido, os dominicanos continuem estudando e ensinando. Estive presente na inauguração do Instituto de Estudos Religiosos  São Tomás de Aquino, dirigido pelos dominicanos em Kiev há 30 anos, e que continua seu trabalho até hoje. O irmão Peter continua a dar palestras on-line dos evangelhos sinóticos. Cada hora de estudo ou ensino é uma proclamação de nossa esperança de que a violência sem sentido não terá a última palavra.

            “A luz brilha nas trevas e as trevas não a venceram.” (João 1.5)

            Nenhuma cultura de mentiras pode perdurar porque destrói a base da comunidade humana.

O  Irmão Pawel Krupa OP, apareceu em um clipe do TikTok recentemente.

            Alguém lhe pergunta: ‘Você tem alguma mensagem para os jovens?’

            E ele responde: ‘Você faz essa pergunta a um padre e, mais especificamente, a um padre da Igreja Católica. Pois bem, eu tenho algo não só para os para jovens como também para os velhos: 

                        “Buscai a verdade e a verdade vos libertará…”.

             Em dois ou três dias, havia 5 milhões de visualizações.

Agora, são  mais de 10 milhões de  visualizações e 1,7 milhão de curtidas.

            Muito poucas pessoas que curtiram  sabiam que Pawel estava citando Jesus, mas essas palavras do evangelho tocaram uma fome profunda: ‘Buscai a verdade e a verdade vos libertará.’

            Dou também graças a Deus por todos os professores e alunos e pelos jornalistas que arriscam a vida para partilhar com o mundo a verdade sobre o  sofrimento de vocês.

            Também nos lembramos de seus irmãos e irmãs russos que tiveram a coragem de protestar contra as mentiras do Kremlin, mesmo correndo o risco de prisão.

            Ficamos tão emocionados com as palavras do católico russo que foram lidas, do púlpito em que ele expressa sua vergonha pelo que seu país está fazendo. Que expressão de coragem e de esperança!

            Portanto, meus irmãos e irmãs, sintam-se  abraçados, nas orações e no amor da Família Dominicana do  mundo todo.

            Damos graças por vocês estarem aí nesse lugar de loucura, uma testemunha visível do Cristo que estará conosco até o fim dos tempos.

            Todos os dias damos graças com vocês, na suprema expressão de gratidão, a Eucaristia, sacramento da nossa esperança, para que a guerra seja derrotada.

            Damos graças pelos atos de compaixão e bondade que são as sementes da colheita que o Senhor trará.

            Que sua busca dominicana pela verdade seja um sinal de que a cultura da mentira que está alimentando essa violência não perdurará. Que o Senhor permita  que eu possa estar com vocês na Ucrânia o mais rápido possível! E perdoem-me por  minhas palavras inadequadas.

            Seu irmão em São Domingos

             Irmão Timothy Radcliffe OP

Carta recebida de Frei Márcio Couto,dominicano de São Paulo.