Frateli tutti: a revolução paradigmática: do “dominus”(dono) ao “frater”(irmão)

A nova encíclica do Papa Francisco, assinada sobre a sepultura de Francisco de Assis, na cidade de Assis, no dia 3 de outubro, será um marco na doutrina social da Igreja. Ela é vasta e detalhada em sua temática, sempre procurando somar valores, até do liberalismo que ele fortemente critica. Certamente será analisada em detalhe por cristãos e não cristãos pois se dirige a todas as pessoas de boa vontade. Ressaltarei neste espaço aquilo que considero inovador face ao magistério anterior  dos Papas.

         Em primeiro lugar tem que ficar claro que o Papa apresenta uma alternativa paradigmática à nossa forma de habitar a Casa Comum, submetida a muitas ameaças. Faz uma descrição das “sombras densas” que equivalem, como ele mesmo afirmou em vários pronunciamentos, “a uma terceira guerra mundial em pedaços”. Atualmente não há um projeto comum para a humanidade (n.18). Mas um fio condutor  passa por toda a encíclica: “a consciência de que ou nos salvamos todos ou ninguém se salva”(n32). Esse é o projeto novo, expresso nestas palavras: “Entrego esta encíclica social como uma humilde contribuição à reflexão para que frente às diversas formas de eliminar ou de ignorar os outros, sejamos capazes de reagir com um novo sonho de fraternidade e de amizade social”(n.6).

         Devemos compreender bem esta alternativa. Viemos e estamos ainda dentro de um paradigma que está na base da modernidade. É antropocêntrico. É o reino do dominus: o ser humano como senhor e dono da natureza e da Terra que só possuem sentido na medida em que se ordenam a ele. Mudou a face da Terra, trouxe muitas vantagens mas também criou um princípio de autodestruição. É o impasse atual das “sombras densas”. Face a esta cosmovisão, a encíclica Fratelli tutti  propõe um novo paradigma: o do frater o do irmão, a fraternidade universal e da amizade social. Desloca o centro: de uma civilização técnico-industrialista e individualista à uma civilização solidária, da preservação e do cuidado de toda a vida. Essa é a intenção originária do Papa. Nessa viragem está nossa salvação; superaremos a visão apocalíptica da ameaça do fim da espécie por uma visão de esperança de que podemos e devemos mudar de rumo.

         Para isso precisamos alimentar a esperança. Diz o Papa: “convido-os à esperança que nos fala de uma realidade enraizada no profundo do ser humano, independentemente das circunstâncias concretas e dos condicionamentos históricos em que vive”(n.55). Aqui ressoa o princípio esperança, que é mais que a virtude da esperança, mas um princípio, motor interior para projetar sonhos e visões novas, tão bem formulado por Ernst Bloch. Enfatiza: “a afirmação de que os seres humanos somos irmãos e irmãs, que não é uma abstração senão que se faz carne e se torna concreta, nos coloca uma série de de desafios que nos deslocam, nos obrigam a assumir novas perspectivas a e desenvolver novas reações”(n.128). Como se depreende, se trata de um rumo novo, de uma viragem paradigmática.

         Por onde começar? Aqui o Papa revela sua atitude de base, com frequência repetida aos movimentos sociais: “Não esperem nada de cima pois vem sempre mais do mesmo ou pior; comecem por vocês mesmos”. Por isso sugere:” É possível começar de baixo, de cada um, lutar pelo mais concreto e local, até o último rincão da pátria e do mundo”(n.78). O Papa sugere o que hoje é a ponta da discussão ecológica: trabalhar a região, o bioregionalismo que possibilita a verdadeira sustentabilidade e a humanização das comunidades e articula o local com a universal (n.147).

         Tem longas reflexões sobre a economia e a política, mas realça: ”a política não deve submeter-se à economia e esta não deve submeter-se aos ditames e ao paradigma eficientista da tecnocracia”(n.177). Faz um crítica contundente ao mercado:” O mercado sozinho não resolve tudo como nos querem fazer crer no dogma de fé neoliberal; trata-se de um pensamento pobre, repetitivo que propõe sempre as mesmas receitas para qualquer desafio que se apresente; o neoliberalismo se reproduz a si mesmo como o único caminho para resolver os problemas sociais”(n.168). A globalização nos fez mais próximos mas não mais irmãos(n.12). Cria apenas sócios mas não irmãos (n.101).

         À mão da parábola do bom samaritano procede a uma análise rigorosa dos vários personagens que entram em cena e os aplica à economia política culminando com a pergunta:”com quem você se identifica (com o ferido na estrada, com o sacerdote, o  levita ou com o forasteiro, o samaritano,desprezado pelos judeus)? Esta pergunta é crua, direta e determinante. Com qual deles você se parece” (n.64)? O bom samaritano é  feito modelo do amor social e político (n.66).

         O novo paradigma da fraternidade e do amor social se desdobra no amor em sua concretização pública, no cuidado dos mais frágeis, na cultura do encontro e do diálogo, na política como ternura e amabilidade.

Quanto à cultura do encontro, toma-se a liberdade de citar o poeta brasileiro Vinicius de Moraes em seu Samba da Bênção na faixa  “Encontro Au bon Gourmet” de 1962 onde diz:”A vida é a arte do encontro embora haja tantos desencontros na vida”(n.215). A política não se reduz à disputa pelo poder e à divisão dos poderes. Afirma de forma surpreendente:”Também na política há lugar para o amor com ternura: aos mais pequenos, aos mais débeis, aos mais pobres; eles devem entenecer-nos e tem o ‘direito’ de nos encher a alma e o coração; sim, são nossos irmãos e como tais temos que amá-los e assim tratá-los”(194) E se pergunta que é a ternura e responde:”é o amor que se faz próximo e concreto; é um movimento que procede do coração e chega aos olhos, aos ouvidos, às mãos”(n.196). Isso nos faz recordar a frase de Gandhi, uma das inspirações do Papa, ao lado de São Francisco, Luther King, Desmond Tutu: a política é um gesto de amor ao povo, o cuidado das coisas comuns.

         Junto com a ternura vem a amabilidade que nós traduziríamos por gentileza, lembrando profeta Gentileza que nas ruas do Rio de Janeiro proclamava a todos os passantes”Gentileza gera gentileza” e “Deus é gentileza” bem no estilo de São Francisco. Assim define a amabilidade:”um estado de ânimo que não é áspero, rude, duro senão afável,  suave, que sustenta e fortalece; uma pessoa que possui esta qualidade ajuda aos demais para que sua existência seja mais suportável”(n.223). Eis um desafio aos políticos, feito também aos bispos e padres: fazer a revolução da ternura.

A solidariedade é um dos fundamentos do humano e do social. Ela “se expressa concretamente no serviço que pode assumir formas muito diversas e de tomar para si o peso dos outros; em grande parte é cuidar da fragilidade humana”(n.115). Essa solidariedade se mostrou ausente e só depois eficaz no combate ao Covid-19. Ela impede a bifurcação da humanidade entre o ‘meu mundo’ e os ‘outros’, ‘eles’, pois “muitos deixam de ser considerados seres humanos com uma dignidade inalienável e passam a ser apenas “eles”(n.27). E conclui com um grande desejo:”Oxalá no final  não haja “os outros” mas apenas um “nós”(n.35).

         Para esse desafio de dar corpo  ao sonho de  uma fraternidade universal  e de amor social convoca todas as religiões pois “elas oferecem uma contribuição valiosa na construção da fraternidade e para a defesa da justiça na sociedade”(n.271).

         No final evoca a figura do irmãozinho de Jesus Charles de Foucauld que no deserto do norte da África junto à população muçulmana queria ser “definitivamente o irmão universal” (n.287). Fazendo seu este propósito o Papa Francisco observa:”Só identificando-se com os últimos chegou a ser o irmão de todos; que Deus inspire esse sonho em cada um de nós.Amém”(n.288).

         Estamos diante de um homem, o Papa Francisco, que no seguimento de sua fonte inspiradora, Francisco de Assis, se fez também um homem universal, acolhendo a todos e se identificando com os mais vulneráveis e invisíveis de nosso mundo cruel e sem humanidade.  Ele suscita a esperança de que podemos e devemos alimentar o sonho da fraternidade sem fronteiras e do amor universal.

         Ele fez a sua parte. Compete a nós não deixar que o sonho seja apenas  sonho, mas seja o começo seminal de uma nova forma de habitar juntos, como irmãos e irmãs e mais a natureza, na mesma Casa Comum. Teremos tempo e sabedoria para esse salto? Seguramente continuarão as “sombras densas”. Mas temos uma lâmpada nesta encíclica de esperança do Papa Francisco. Ela não dissipa todas as sombras. Mas   basta para vislumbrar o caminho a ser percorrido por todos.

Leonardo Boff é ecoteólogo, filósofo e escritor brasileiro e escreveu: “Francisco de Assis e Francisco de Roma”, Editora Mar de Ideias, Rio 2015.      

¿Es posible el fin de la especie humana? (I)

La irrupción de la Covid-19 afectando por primera vez a todo el planeta y causando verdadera mortandad humana, que puede llegar a millones de víctimas antes de que se descubra y se aplique una vacuna eficaz, plantea ineludiblemente la pregunta: ¿puede la especie homo, la especie humana desaparecer?

David Quammen, uno de los mayores especialistas en virus que alertó a los jefes de Estado, sin éxito, de un probable ataque de un virus de la línea del SARS, el coronavirus 19, advirtió recientemente en un vídeo acerca de la posibilidad, en caso de que no mudemos nuestra relación destructiva hacia la naturaleza, de la irrupción de otro virus aún más letal, que puede destruir parte de la biosfera y llevar a gran parte de la humanidad, si no a toda, a un fin dramático.

El Papa Francisco, en su alocución en la ONU el día 25 de septiembre del presente año de 2020, advirtió dos veces sobre la eventualidad de la desaparición de la vida humana como consecuencia de la irresponsabilidad en nuestro trato con la Madre Tierra y con la naturaleza superexplotadas. En su encíclica Laudato Sì: sobre el cuidado de la Casa Común (2015) constata: “Estas situaciones provocan el gemido de la hermana tierra, que se une al gemido de los abandonados del mundo, con un clamor que nos reclama otro rumbo. Nunca hemos maltratado y lastimado nuestra casa común como en los últimos dos siglos” (n. 53).

Esto no significa el fin del sistema-vida, sino el fin de la vida humana. Curiosamente, la Covid-19 afectó solamente a los humanos de todos los continentes y no a los demás animales domésticos como los gatos y los perros.

¿Cómo interpretar esta eventual catástrofe a la luz de una reflexión radical, es decir, filosófica y teológica?

Sabemos que normalmente cada año cerca de 300 especies de organismos vivos llegan a su clímax, después de millones y millones de años de existencia, y retornan a la Fuente Originaria de Todo Ser (Vacío Cuántico), aquel océano insondable de energía, anterior al Big Bang, que continúa subyacente a todo el universo. Se conocen muchas extinciones en masa durante los más de tres mil millones de años de la historia la vida (Ward 1997). Actualmente cerca de un millón de especies de seres están bajo amenaza de desaparición debido a la excesiva agresividad humana.

De las varias expresiones de los seres humanos sabemos que solamente el homo sapiens sapiensse consolidó en la historia hace cerca de 100 mil años y ha permanecido hasta el presente sobre la Tierra. Los demás representantes, especialmente el hombre de Neanderthal, desaparecieron definitivamente de la historia.

Lo mismo puede decirse de las culturas ancestrales del pasado. En Brasil, por ejemplo, la cultura del sambaqui y  los sambaquieiros que vivieron hace más de ocho mil años en las costas oceánicas brasileras fueron literalmente exterminados por antropófagos, diferentes de los indígenas actuales. De ellos no quedó nada a no ser los grandes depósitos de conchas, cascos de tortugas y restos de crustáceos (Miranda, 2007,52-53). Muchos de ellos desaparecieron definitivamente, dejando pocas señales de su existencia como la cultura de la isla de Pascua u otras culturas matriarcales que dominaron en varias partes del mundo hace cerca de 20 mil años, especialmente en la cuenca del Mediterráneo. Dejaron las figuras de las divinidades maternas encontradas todavía hoy en sitios arqueológicos.

Entre tantas especies que desaparecen anualmente, ¿no podrá estar la especie homo sapiens/demens? Todo indica que su desaparición no se debería a un proceso natural de la evolución sino a causas derivadas de su práctica irresponsable, carente de cuidado y de sabiduría frente al conjunto del sistema de la vida y del sistema-Gaia. Sería consecuencia de la nueva era geológica del antropoceno e incluso del necroceno.

El hecho es que la Covid-19 puso en jaque, de rodillas, diría yo, al modo de producción capitalista y a su expresión política, el neoliberalismo. ¿Serían ellos suicidas?

Esta no es una pregunta de mal agüero sino un llamamiento dirigido a todos los que alimentan solidaridad generacional y amor a la Casa Común. Hay un obstáculo cultural grave: estamos habituados a resultados inmediatos, cuando aquí se trata de resultados futuros, fruto de acciones realizadas ahora. Como afirma la Carta de la Tierra, uno de los más importantes documentos ecológicos, asumida por la UNESCO en 2003: ”Las bases de la seguridad global están amenazadas; estas tendencias son peligrosas pero no inevitables”.

Estos peligros solamente serán evitados si mudamos la producción y el modelo de consumo. Este giro total civilizatorio exige la voluntad política de todos los países del mundo y la colaboración sin excepción de toda la red de empresas transnacionales y nacionales de producción, pequeñas, medianas y grandes. Si algunas empresas mundiales se negaran a actuar en esta dirección podrían anular los esfuerzos de todas las demás. Por eso, la voluntad política debe ser colectiva e impositiva con prioridades bien definidas y con líneas generales bien claras, asumidas por todos, pequeños y grandes. Es una política de salvación global.

El gran peligro reside en la lógica del sistema del capital globalmente articulado. Su objetivo es lucrar lo más posible en el más corto tiempo posible, con una expansión cada vez mayor de su poder, flexibilizando legislaciones que limitan su dinámica. Él se orienta por la competencia y no por la cooperación, por la búsqueda del lucro y no por la defensa y promoción de la vida.

Ante de los cambios paradigmáticos actuales se ve confrontado con este dilema: o se niega a sí mismo, mostrándose solidario con el futuro de la humanidad, y muda su lógica y así se hunde como empresa capitalista o se autoafirma en su objetivo, desconsiderando toda compasión y solidaridad, haciendo aumentar los lucros, pasando incluso por encima de cementerios de cadáveres y de la Tierra devastada. No es imposible que, obedeciendo a su naturaleza de lobo voraz, el capitalismo sea suicida. Prefiere morir y hacer morir a perder sus lucros. Pero, quién sabe, cuando el agua llegue al cuello y el riesgo de muerte colectiva alcance a todos, a ellos, los poderosos, inclusive, no sería imposible que el propio capitalismo se rinda a la vida, pues el instinto dominante es vivir y no morir. Este instinto posiblemente acabará prevaleciendo. Pero debemos estar atentos a la fuerza de la lógica interna del sistema, montado sobre una mecánica que produce muerte de vidas humanas y de vidas de la naturaleza.

Nombres notables de las ciencias no excluyen la eventualidad del fin de nuestra especie. Stephen Hawking en su libro El universo en una cáscara de nuez (2001,159) reconoce que en 2600 la población mundial estará hombro a hombro y el consumo de electricidad dejará a la Tierra incandescente. Ella podría destruirse a sí misma.

El premio Nobel Christian de Duve, en su conocido libro Polvo Vital (1997, 355) afirma que la evolución biológica marcha a ritmo acelerado hacia una gran inestabilidad; en cierta forma nuestro tiempo recuerda a una de aquellas importantes rupturas en la evolución, caracterizadas por extinciones masivas. Antiguamente los meteoros rasantes amenazaban a la Tierra; hoy el meteoro rasante se llama ser humano.

Théodore Monod, tal vez el último gran naturalista moderno, dejó como testamento un texto de reflexión con este título: Y si la aventura humana lallase (2000, 246, 248). En el afirma: somos capaces de una conducta insensata y demente; a partir de ahora se puede temer todo, realmente todo, inclusive la aniquilación de la raza humana (p. 246). Y añade: sería el justo precio de nuestras locuras y de nuestras crueldades.

Si tomamos en serio el drama mundial, sanitario, social y la alarma ecológica creciente, ese escenario de horror no es impensable.

Edward Wilson afirma en su inspirador libro El futuro de la vida (2002, 121): El hombre hasta hoy ha desempeñado el papel de asesino planetario… la ética de la conservación, en forma de tabú, totemismo o ciencia casi siempre llegó demasiado tarde; tal vez todavía haya tiempo de actuar.

Vale la pena citar dos nombres más de la ciencia muy respetados: James Lovelock que elaboró la teoría de la Tierra como Superorganismo vivo, Gaia, con un título fuerte La venganza de Gaia (2006) y el astrofísico inglés Martin Rees (Hora final, 2005) que prevén el fin de la especie antes de que finalice el siglo XXI. Lovelock es contundente: hasta el fin del siglo desaparecerá el 80% de la población humana. El 20% restante vivirá en el Ártico y en algunos pocos oasis en otros continentes, donde las temperaturas sean más bajas y haya un poco de lluvia… casi todo el territorio brasilero será demasiado caliente y seco para ser habitado” (Veja, Páginas Amarillas del 25 de octubre de 2006).

¿Es posible el fin de la especie humana? (II)

Un hecho que ha impulsado a muchos científicos, especialmente biólogos y astrofísicos, a hablar del eventual colapso de la especie humana es el carácter exponencial de la población. La humanidad necesitó un millón de años para alcanzar en 1850 mil millones de personas. Los espacios temporales entre un crecimiento tal y otro del mismo tamaño disminuyen cada vez más. De 75 años –de 1850 a 1925– pasaron a 5 años actualmente. Se prevé que hacia 2050 habrá diez mil millones de personas. Es el triunfo innegable de nuestra especie.

Lynn Margulis y DorianSagan en el conocido libro Microcosmos (1990) afirman con datos de los registros fósiles y de la propia biología evolutiva que una de las señales del colapso próximo de una especie es su rápida superpoblación. Esto puede ser visto con microorganismos colocados en una placa de Petri (cápsulas redondas de vidrio con colonias de bacterias y nutrientes). Poco antes de alcanzar los bordes de la placa y de agotarse los nutrientes, se multiplican de forma exponencial. Y de repente mueren todas.

Para la humanidad, comentan ellos, la Tierra puede mostrarse idéntica a una placa de Petri. En efecto,ocupamos casi toda la superficie terrestre, dejando solo un 17% libre, por ser tierra inhóspita como losdesiertos y las altas montañas nevadas o rocosas. Lamentablemente, de homicidas, genocidas y ecocidas nos haríamos biocidas.

Carl Sagan, ya fallecido, veía en el intento humano de enviar naves espaciales a la Luna y otras como el Voyager fuera del sistema solar, como una manifestación del inconsciente colectivo que presiente el peligro de nuestra próxima extinción. La voluntad de vivir nos lleva a pensar en formas de supervivencia más allá de la Tierra.

El astrofísico Stephen habla de la posible colonización extrasolar con naves, especie de veleros espaciales,impulsadas por rayos láser que les darían una velocidad de treinta mil kilómetros por segundo, pero para llegar a otros sistemas planetarios tendríamos que recorrer miles y miles de millones de kilómetros de distancia y necesitaríamos muchos años de tiempo. Ocurre que somos prisioneros de la luz, cuya velocidad de trescientos mil kilómetros por segundo es hasta hoy insuperable. Incluso así, para llegar a la estrella más próxima – la Alfa Centauro – necesitaríamos cuarenta y tres años, sin saber todavía cómo frenar esa nave a tan altísima velocidad.

Para terminar, recojo la opinión de dos notables historiadores. Arnold Toynbee en su autobiografía: “viví para ver que el fin de la historia humana puede tornarse una posibilidad real, que puede ser traducida en hechos no por un acto de Dios sino del ser humano” (Experiencias 1970,422).

Y finalmente Eric J. Hobsbawn, en su conocida Era de los extremos (1994, 562), al concluir su libro:  No sabemoshacia donde estamos yendo. Sin embargo, una cosa es segura. Si la humanidad quiere tener un futuro aceptable, no puede hacerlo mediante la prolongación del pasado o del presente. Si intentamos construir el tercer milenio sobre esa base, vamos a fracasar. Y el precio del fracaso, la alternativa al cambio de la sociedad, es la oscuridad.

Naturalmente, tenemos que tener paciencia con el ser humano. Él todavía no está listo. le falta mucho por aprender. En relación al tiempo cósmico tiene menos de un minuto de vida. Pero con él, la evolución dio un salto, de inconsciente se hizo consciente. Y con la conciencia puede decidir qué destino quiere para sí. En esta perspectiva, la situación actual representa más un desafío que un desastre inevitable, la travesía hacia un estadio más alto y no fatalmente un sumergirse en la autodestrucción. Estaríamos por lo tanto en un escenario de crisis de paradigma civilizacional y no de tragedia.

¿Pero habrá tiempo para tal aprendizaje? Todo parece indicar que el tiempo del reloj corre en contra nuestra. ¿No estaremos llegando demasiado tarde, habiendo pasado ya el punto de no retorno? Pero como la evolución no es lineal y conoce frecuentes rupturas y saltos hacia arriba, como expresión de una mayor complejidad, y como existe el carácter indeterminado y fluctuante de todas las energías y de toda la evolución, según la físicacuántica de W. Heisenberg y de N. Bohr, nada impide que ocurra la emergencia de otro estadio de conciencia yde vida humana que salvaguarde la biosfera y el planeta Tierra. Esa transmutación sería, según san Agustín en sus Confesiones, fruto de dos grandes fuerzas: un gran amor y un gran dolor. Son el amor y el dolor que tienen el privilegio de transformarnos por entero. Esta vez cambiaremos por un gran amor a la Tierra, nuestra Madre, y por un gran dolor por las penas que está sufriendo.

De todas maneras, en la hipótesis de una eventual desaparición da especie humana ¿qué consecuencias sederivarían para nosotros y para el proceso evolutivo?

Antes de cualquier otra consideración, sería una catástrofe biológica de inconmensurable magnitud. El trabajo de por lo menos 3.800 millones de años, fecha probable de la aparición de la vida, y de los últimos 5-7 millones de años, fecha de la aparición de la especie homo, y los últimos cien mil años, con la irrupción del homo sapiens sapiens, el trabajo realizado por todo el universo de las energías, las informaciones y las diferentes densidades de materia, habría sido, si no anulado, por lo menos profundamente afectado.

El ser humano, según podemos constatar estudiando el universo, es el ser de la naturaleza más complejo ya conocido. Complejo en su cuerpo con treinta mil millones de células, continuamente renovadas por el sistema genético; complejo en su cerebro de cien mil millones de neuronas en continua sinapsis; complejo en su interioridad, en su psique y en su conciencia, cargada de informaciones recogidas desde la irrupción del cosmos con el Big Bang y enriquecida con emociones, sueños, arquetipos, símbolos provenientes de las interacciones de la conciencia consigo misma y con el ambiente que la rodea; complejo en su espíritu, capaz de captar el Todo y sentirse parte de él y de identificar ese Vínculo que une y reúne, liga y religa todas las cosas haciendo que no sean caóticas sino ordenadas y den sentido y significado a la existencia en este mundo y haciéndonos despertar sentimientos de profunda veneración y respeto por la grandeza del cosmos.

Hasta hoy, no han sido identificadas científicamente y de forma irrefutable otras inteligencias del universo. Por ahora como especie homo somos una singularidad sin comparación en el cosmos. Somos un habitante de una galaxia media, la Vía Láctea, que depende de una estrella, el Sol, de quinta magnitud, en un rincón de la Vía Láctea; vive en el tercer planeta del sistema solar, la Tierra, y ahora está aquí, en este pequeño espacio virtual, discutiendo las consecuencias de nuestro probable fin.

El universo, la historia de la vida y la historia de la vida humana perderían algo invaluable. Toda la creatividad producida por este ser, creado creador, que hizo cosas que la evolución por sí misma nunca haría, como una pintura Di Cavalcanti o una sinfonía de Beethoven, un poema de Carlos Drumond de Andrade o un canal de televisión, un avión e Internet con sus redes sociales. Las construcciones de la cultura, ya sean materiales, simbólicas o espirituales, habrían desaparecido para siempre.

Para siempre las grandes producciones poéticas, musicales, literarias, científicas, sociales, éticas y religiosas de la humanidad se habrían vuelto polvo.

Para siempre habrían desaparecido las referencias de figuras paradigmáticas de seres humanos entregadas al amor, al cuidado, a la compasión y a la protección de la vida en todas sus formas, como Buda, Chuang-tzu, Moisés, Jesús, María de Nazaret, Mahoma, Francisco de Asís, Gandhi entre tantos otros y otras.

Para siempre habrían desaparecido las anti-figuras que enfangaron lo humano y violaron la dignidad de la vida en innumerables guerras y exterminios, y cuyos nombres ni siquiera queremos mencionar. Vale la pena recordar los terribles incendios actuales en la Amazonia y el Pantanal, muy probablemente provocados intencionalmente por codiciosos buscadores de ganancias a cualquier precio. Tales eventos pueden amenazar el equilibrio de los climas de la Tierra.

Para siempre habría desaparecido el desciframiento hecho de la Fuente Originaria de Todo Ser que impregna toda la realidad y la conciencia de nuestra profunda comunión con ella, haciéndonos sentir hijos e hijas del Misterio Innombrable y entendernos como un proyecto infinito que sólo descansa cuando descansa en el senode este Misterio de infinita ternura y bondad.

Para siempre habría desaparecido todo esto de esta pequeña parte del universo que es nuestra Madre Tierra.

Finalmente, cabe preguntar: ¿quién nos reemplazaría en la evolución de la vida, si alguna forma de vida sobrevive? En la hipótesis de que el ser humano desapareciera como especie, aún así se conservaría el principio de inteligibilidad y de amortización. Él está primero en el universo y luego en los seres humanos. Ese principio es tan ancestral como el universo. 

Cuando, en los primeros momentos después de la gran explosión, los quarks, protones y otras partículas elementales comenzaron a interactuar, aparecieron campos de relaciones y unidades de información y órdenes mínimas de complejidad. Allí se manifestó lo que más tarde se llamaría espíritu, esa capacidad de crear unidades y marcos de orden y sentido. Al desaparecer dentro de la especie humana, emergería un día , quizás tras millones de años de evolución, en algún ser más complejo.

Théodore Monod, fallecido en el año 2000, sugiere un candidato presente ya la evolución actual: los cefalópodos, es decir, una especie de molusco parecido a los pulpos y los calamares. Algunos de ellos tienen una perfección anatómica notable, su cabeza está dotada de una cápsula cartilaginosa que funciona como cráneo y tienen dos ojos como los vertebrados. Poseen además un psiquismo altamente desarrollado, hasta con doble memoria, mientras nosotros tenemos solo una (2000, 247-248). Evidentemente ellos no saldrían mañana del mar y entrarían continente adentro, necesitarían millones de años de evolución, pero tienen ya la base biológica para dar un salto hacia la conciencia.

De todas formas urge escoger: o el ser humano o los pulpos y los calamares. Más que optimismo, alimento la esperanza de que vamos a crear juicio y aprender a ser sabios.

Mientras tanto es importante desde ahora mostrar amor a la vida en su mayestática diversidad, tener compasión de todos los que sufren, ejercer rápidamente la justicia social necesaria y amar a la Gran Madre, la Tierra. Nos incentivan las escrituras judeocristianas: “Escoge la vida y vivirás” (Deut 30,28). Caminemos deprisa pues no tenemos mucho tiempo que perder.

El Covid-19 nos obliga a pensar: que és lo esencial: la vida o el lucro?

Como afirmó el renombrado filósofo alemán Jürgen Habermas, en una entrevista sobre la Covid-19: ”Nunca supimos tanto de nuestra ignorancia de como ahora”. La ciencia es indispensable para sobrevivir y atender a la complejidad de las sociedades modernas, pero ella no puede ser arrogante y pretender, como ciertos cientificistas postulan, que podría resolver todos los problemas. A decir verdad,  lo que no sabemos es infinitamente más que lo que sabemos. Todo saber es finito y perfectible. Eso se está comprobando ahora con ocasión de la búsqueda desenfrenada de una vcuna eficaz contra la Covid-19. No sabemos cuándo va a estar disponible, ni cuándo desaparecerá la epidemia.

Tal hecho tiene como efecto el ocaso de un horizonte de vida y de esperanza  y causa aquello que tan bien escribió en su twitter la jueza y escritora (“La vida no es justa”) Andréa Pachá: “La pandemia ha hecho muchos estragos. Algunos físicos, concretos y definitivos. Otros sutiles, pero devastadores. Nos sustrajo el deseo de ir, de jugar, de hacer planes, incluso aquellos sólo utópicos e idealizados, que jamás se realizarían, pero que alimentaban el alma”.

Constatamos que hay un profundo abatimiento colectivo, melancolía, depresión y hasta rabia contra una epidemia acerca de la cual conocemos muy poco y poco podemos hacer. Todos nos sentimos rodeados por el fantasma de la contaminación, de la intubación y de la muerte.

El hecho es que vivimos no bajo una emergencia extraordinaria como el tsunami del Japón, que afectó las centrales  nucleares, una de las cuales continúa emitiendo radioactividad, afectando desde las costas de la India, de Tailandia, de Indonesia hasta las costas de California, o las grandes quemas de la Amazonia, del Pantanal y de los bosques de California. Con la Covid-19 estamos delante de una emergencia extrema, que afecta a todo el planeta, consecuencia de una profunda erosión ecológica causada por la voracidad de las grandes empresas que buscan exclusivamente el lucro material con el derribo de las selvas, el extractivismo, la expansión de monoculturas como la de la soja o la cría de ganado y la excesiva urbanización del mundo entero.

Esa intrusión del ser humano en la natureza, sin ningún sentido de respeto a su valor intrínseco, tenida como un mero medio de producción y no como algo vivo del cual somos parte y no dueños ni señores, negándonos a respetar sus límites de soportabilidad, ha producido la destrucción de los hábitats de miles de virus en animales y en plantas que se han transladado hacia otros animales y hacia el ser humano.

Tenemos que incorporar nuevos conceptos: la zoonosis (enfermedad que viene del mundo animal: aves, cerdos, vacas, murciélagos) y la transferencia zoonótica: una afección animal transmisible al ser humano. A partir de ahora entrarán en nuestro  vocabulario no sólo científico.

Uno de los mayores especialistas en virus,  David Quammen (Montana USA), nos advierte en su video “Spillover: the next human pandemic” (2015)”: es inevitable que vuelva a haber una gran pandemia. Puede matar a decenas de miles, centenas de miles, o millones de personas, según las  circunstancias y la forma como reaccionemos, pero  aparecerán cualquiera de estas cosas. Será con seguridad un agente zoonótico. Tendrá origen en animales no humanos. Será ciertamente un virus”. Observemos la gravedad de esta advertencia de un notable científico.

Frente a esta emergencia extrema aumentada por la escasa movilidad nacional e internacional, el aislamiento social, el distanciamiento entre las personas y el uso de la máscarilla nos propician plantear las cuestiones más fundamentales de nuestras vidas: ¿al final, qué es lo que cuenta en última instancia? ¿Qué es definitivamente esencial? ¿Cuáles son las razones que nos llevaron a tal situación de emergencia extrema? ¿Qué debemos y podemos hacer después de que pase la pandemia, si pasa? Estas preguntas son impostergables.

Entonces descubrimos que no hay mayor valor que la vida, nuestra vida y la de toda la comunidad de vida. Ella surgió hace 3,8 miles de millones de años y la humana hace cerca de 8-10 millones de años. Pasó por varias devastaciones pero siempre se mantuvo su existencia.  Y junto con la vida, los medios de vida sin los cuales ella no se sustenta: el agua, el suelo, la atmósfera, la biosfera, los climas, el trabajo y la naturaleza que nos ofrece todo lo que necesitamos para vivir y sobrevivir. Y la comunidad humana que nos acoge y nos ofrece las bases del orden social y espiritual que nos mantiene cohesionados como humanos. De nada vale la acumulación de bienes materiales, la apropiación individual, la pura y simple competición. Lo que nos salva como seres vivos y sociales es la solidaridad, la cooperación, la generosidad y el cuidado de unos a otros y del ambiente.

Estos son los valores humano-espirituales, contrarios a aquellos de la cultura del capital material, sobre la cual la Covid-19 representa una especie de rayo que la está reduciendo a pedazos. No podemos volver a ella para no provocar a la Madre Tierra y a la naturaleza que, si no cambiamos nuestra relación de respeto y de cuidado, nos enviarán otros virus, tal vez todavía más letales o hasta el último (The Big One) que diezmaría a la especie humana.

Este tiempo de recogimiento forzado es tiempo de reflexión y de conversión ecológica, tiempo de decidir qué tipo de Casa Común queremos para el futuro.Tenemos que crecer en solidaridad y en amor a todo lo que es creado, especialmente a los humanos, nuestros hermanos y hermanas.

Seremos  “el homo solidarius”, el principio de una nueva era, la era de la biocivilización, en la cual la vida en su diversidad tendrá centralidad y todo lo  demás estará al servicio de ella. No habrá ECOnomia sin ECOlogia. La vida vale por sí misma. Juntos en la Casa Común gozaremos de la alegre celebración de la vida.

*Leonardo Boff es ecoteólogo y filósofo y ha escrito “Covid-19: el contraataque de la Tierra contra la Humanidad” que saldrá publicada próximamente por la editorial Vozes.

Traducción de M°José Gavito Milano