O caráter iracundo de Ciro Gomes o leva a ofender as pessoas

Talves alguns se interessem pela polêmica travada entre Ciro Gomes, ex-candidato à Presidência e eu. Muitos possivelmente não em acesso à Folha de São Paulo que me entrevistou pela competente jornalista Géssica Brandino. Aqui vai a minha resposta ao Ciro Gomes, cuja importância política sempre reconheci. Lboff

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Leonardo Boff diz que entende excesso de Ciro Gomes por seu caráter ‘iracundo’

Ex-candidato à Presidência Ciro Gomes o chamou de

Géssica Brandino FSP 2/11/2018 caderno Poder

São Paulo

O teólogo, filósofo e escritor, Leornardo Boff, 88, respondeu às declarações do ex-candidato à Presidência Ciro Gomes, que em entrevista à Folha o chamou de “um bosta” e “bajulador”, além de insinuar que ele não havia criticado o mensalão e o petrolão.

“Minha posição é dos filósofos, dentre os quais me conto: nem rir nem chorar, procurar entender. Entendo seu excesso a partir de seu caráter iracundo, embora na entrevista afirma que ‘tem sobriedade e modéstia'”, disse.

Apesar da fala de Ciro, Boff defendeu a participação do político numa “espécie de colégio de líderes, vindos das várias partes de nosso país continental, para que as resistências e oposições tenham sua base em vários estados e não apenas naqueles econômica e politicamente mais relevantes”.

Um dos iniciadores da teologia da libertação, Boff falou com a Folha por email e fez uma análise sobre o papel da esquerda após a eleição de Jair Bolsonaro.

“Creio que agora a situação é tão dramática que precisamos de uma Arca de Noé onde todos nós possamos nos abrigar, abstraindo das diferentes extrações ideológicas, para não sermos tragados pelo dilúvio da irracionalidade”, afirmou.

Boff também disse a situação requer uma autocrítica. “Penso que todos os partidos têm que se reinventar sobre bases éticas e morais mais sustentáveis. Toda crise acrisola, nos faz pensar e crescer”.

O teólogo, que fez uma declaração de voto em Fernando Haddad no dia 24 de outubro, a quatro dias do segundo turno, afirmou ser amigo-irmão de Lula e criticou a decisão judicial que barrou a candidatura do ex-presidente, o que teria demonstrado, segundo ele, que o petista é “um prisioneiro político vivendo numa solitária”.

Como o senhor responde às declarações do ex-candidato à Presidência Ciro Gomes durante entrevista à Folha? Considero Ciro Gomes uma das maiores e imprescindíveis lideranças do Brasil. Ele é importante para a manutenção da democracia e dos direitos sociais. Ele ajuda a alargar os horizontes dos problemas que enfrentamos com o seu olhar próprio. O que faz e diz é dito e feito com paixão. Entretanto, a paixão necessária nem sempre é um bom conselheiro. Creio que foi o caso de sua crítica a mim chamando-me com um qualificativo que não o honra. Minha posição é dos filósofos, dentre os quais me conto: nem rir nem chorar, procurar entender. Entendo seu excesso a partir de seu caráter iracundo, embora na entrevista afirma que “tem sobriedade e modéstia”. Sigo a sentença dos mestres espirituais: “se não entender o que alguém diz a seu respeito tenha pelo menos misericórdia”, virtude central do cristianismo assumida, decididamente, pelo Papa Francisco. Procuro viver essa virtude.

Ciro questionou sua opinião sobre o mensalão e o petrolão]

Sobre o “mensalão” e o “petrolão” sempre fui crítico. Mostrei-o em meus artigos publicados no Jornal do Brasil online, onde escrevi, semanalmente, durante 18 anos. Todos eles estão no meu blog onde pode conferir (www.leonardoboff.wordpress.com). Aconselho ao ex-ministro que leia o livro que publiquei a partir da atual crise brasileira: “Brasil: concluir a refundação ou prolongar a dependência”, com 265 páginas, editado pela Editora Vozes neste ano. Leia, por favor, o capítulo “Os equívocos e erros do PT e o sonho de Lula”, das páginas 89-96 e em outras passagens. Um intelectual, ciente de sua missão, não pode deixar de criticar malfeitos, venham de onde vierem. Assim o fiz em todo o tempo.

Na entrevista Ciro o chama de bajulador]

Não me incluo entre os eventuais bajuladores de Lula. Nunca fui filiado ao PT por convicção, pois, o ofício do pensar filosófico e teológico não pode se restringir à parte, donde vem partido, mas deve procurar pensar o todo e a parte dentro do todo. Somos eu e Frei Betto (também não filiado ao PT) amigos de Lula de longa data, desde o tempo em que organizava as greves e a resistência à ditadura militar. Portanto, bem antes de ser político e Presidente. Todas as vezes que o encontrávamos em Brasília, eu e minha companheira Márcia, fazíamos-lhe críticas, por vezes tão duras por parte de Márcia que tinha que dar chutes em sua perna, por debaixo da mesa, para se moderar. Tanto ele como nós fazíamos as críticas como amigos sinceros fazem entre si. Os amigos se criticam olhos nos olhos para construir, os adversários o fazem pelas costas para destruir. E assim o entendia Lula. Somos amigos-irmãos que têm os mesmos sonhos e os mesmos propósitos fundamentais., Frei Betto era igualmente duro na crítica, não obstante a grande amizade que os unia e une.

Após a eleição de Jair Bolsonaro, Fernando Haddad e Ciro Gomes têm disputado o protagonismo na liderança da oposição ao futuro governo. Ciro tem o direito de reivindicar esse papel?

Como não milito em nenhum partido, mas apoio a causa daqueles que pensam nos pobres e marginalizados, nos direitos das minorias políticas, e organizam políticas sociais de inclusão na sociedade. Estou convencido de que é essencial que haja uma grande frente política plural que se comprometa com os direitos citados acima. E que, tão imprescindível como essa, se constitua uma frente de valores ético-sociais utilizando ferramentas que eles não podem usar, como fraternidade, solidariedade, o direito de cada um ter um pedacinho de terra já que essa é a casa comum na qual todos devem caber, ter um teto, a renúncia a toda violência real ou simbólica, o direito de ser feliz numa sociedade na qual não seja tão difícil o amor. Sou a favor de uma espécie de colégio de líderes, vindos das várias partes de nosso país continental, para que as resistências e oposições tenham sua base em vários estados e não apenas naqueles econômica e politicamente mais relevantes.

Diante dessa disputa de protagonismo, como evitar a fragmentação da esquerda nesse cenário?

Infelizmente a fragmentação é uma característica das esquerdas, o que levou ao enfraquecimento das oposições. Creio que agora a situação é tão dramática que precisamos de uma Arca de Noé onde todos nós possamos nos abrigar, abstraindo das diferentes extrações ideológicas, para não sermos tragados pelo dilúvio da irracionalidade e das violências que poderão irromper a partir de uma liderança que tem como ídolo um torturador como Brilhante Ustra e que admira Hitler, o criador dos campos de extermínio em massa de milhões de pessoas.

O partido dos trabalhadores errou ao insistir na candidatura de Lula para a Presidência? 

Não me cabe dizer se errou ou não. O PT tinha esperança de que se fizesse justiça a Lula e o Judiciário obedecesse a declaração da ONU de que a  Lula teria garantido o direito de ser candidato. Mas o arbítrio imperante não obedeceu a uma regra de tão alta instância. Vetou sua candidatura e quanto o saiba, até lhe sequestrou o direito de votar. O que demonstra ser de fato um prisioneiro político vivendo numa solitária

Quais estratégias da esquerda precisarão ser revistas após o resultado das eleições?

Entramos numa fase, a meu juízo, de grandes desafios e tribulações, especialmente por parte da população mais vulnerável, dos homoafetivos e de outras minorias políticas, que, na verdade, são maiorias numéricas, como os negros e negras. E seguramente muitos intelectuais e artistas sofrerão perseguições e injúrias como já estão já ocorrendo. Temo uma onda de extermínio, vinda de cima, de grupos metidos com a droga e com violência organizada nas periferias de nossas cidades. Mas a situação modificada para pior, nos obrigará a todos a fazermos uma autocrítica e superar a perplexidade com a qual fomos tomados: por que chegamos a tal ponto de extremismo e de atitudes fascistas? Por que não fomos vigilantes? Onde erramos? Penso que todos os partidos têm que se reinventar sobre bases éticas e morais mais sustentáveis. Toda crise acrisola, nos faz pensar e crescer. Não deixemos que o caos seja somente caótico, mas como no universo, o caos pode ser gerador de formas mais complexas, no nosso caso, de formas mais altas de democracia e de consciência coletiva de nosso lugar no processo inevitável de planetização. Temos tudo para sermos uma grande nação nos trópicos, não imperial, mas aberta a todas as culturas, tolerante, jovial, hospitaleira, alegre. Com nossa riqueza ecológica somos destinados a ser  a mesa posta para as fomes do mundo inteiro.

 

Servidão voluntária ou como se submeter à tirania pelo voto

Lineide Duarte-Plon é uma conhecida jornalista brasileira vivendo em Paris. Seus artigos, sempre muito argutos e  com um olhar mais distantanciado dos interesses locais  e por isso mais objetivo, com frequência  escreve sobre a situação do Brasil e do mundo e seus artigos aparecem também aqui, geralmente na Carta Maior. Publicamos aqui o artigo dela pois nos oferece as opiniões dos jornalistas franceses sobre as eleições em nosso pais, nada positivas e muito críticas: Lboff

Carta de Paris: Servidão voluntária ou como se submeter à tirania pelo voto

“O pesadelo se tornou realidade. O maior país da América Latina elegeu um presidente de extrema-direita”, escreveu Libération.

Por Leneide Duarte-Plon
01/11/2018 11:15

Somente os brasileiros que desconhecem a História e o que foi a ditadura militar podem entregar o destino do país aos militares pelo voto, acreditando que não houve ditadura, mas um “movimento”, que inaugurou uma época de ouro em que havia segurança e não existia corrupção.

No dia 28 de outubro, parte do povo brasileiro realizou voluntária e entusiasticamente a previsão do filósofo político e historiador Alexis de Tocqueville em seu livro “De la démocratie en Amérique”, de 1835:

“Sempre acreditei que esta espécie de servidão, regulada, doce e sem guerras (…) poderia se combinar melhor do que imaginamos com algumas formas exteriores da liberdade, e que seria impossível de ser estabelecida até mesmo sob a sombra da soberania do povo. Nossos contemporâneos são frequentemente perturbados por duas paixões contraditórias: sentem necessidade de ser conduzidos e desejo de continuar livres. Não podendo destruir nem um nem outro desses desejos contraditórios, eles se esforçam por satisfazê-los ao mesmo tempo. Imaginam um poder único, tutelar, todo-poderoso, mas eleito pelos cidadãos. Combinam, assim, a centralização e a soberania do povo. Isto lhes satisfaz. Eles se consolam de estar tutelados, pensando que escolheram, eles mesmos, seus tutores”.

Este texto escrito no século XIX é impressionante. Estamos vendo se desenhar no Brasil de hoje essa tutela militar através das urnas. Um povo indo para o abismo, festejando-o como uma vitória, pois ele mesmo escolheu seus tutores e a servidão que se instalará, sobretudo para os mais frágeis.

O capitão do ódio

Os jornais franceses não mediram palavras para falar da “Fulgurante ascensão do capitão do ódio”, como o “Libération” de 30 de outubro, cujo texto principal começa dizendo: “O pesadelo se tornou realidade. O maior país da América Latina elegeu por quatro anos um presidente de extrema-direita, que nunca procurou adocicar seu discurso de ódio e de exclusão contra os militantes de esquerda, os negros, as mulheres ou a comunidade LGBT”.

“Um ilusionista sem escrúpulos” escreveu Nicolas Bourcier, no jornal “Le Monde”. Ele diz em seu texto:

“Por muito tempo, o futuro presidente brasileiro não foi levado a sério, comparado mesmo a um gaiato de frases nauseabundas e nostálgico de um período ditatorial (1964-1985) que se acreditava apagado da memória”.

Bourcier continua:

“Enquanto os discursos anticomunistas dos militares brasileiros autores do golpe de Estado eram feitos, a seus olhos, em nome da democracia, o discurso bolsonarista é feito hoje em nome da ditadura. Um deslize semântico que traz em si mesmo a semente de tensões incalculáveis”.

No Libération de 30 de outubro, o jornalista François-Xavier Gomez escreveu que no dia 1° de janeiro, em Brasília, Jair Bolsonaro vai receber das mãos de Michel Temer a faixa presidencial. “Triste transferência de poder entre um deputado traidor que comandou o complô para afastar a presidente Dilma Rousseff e um extremista que exibe um ‘real desprezo pelas regras democráticas’, como definiu o cientista político Frédéric Louault”.

Um dos artífices da campanha do capitão – que instalará no Brasil um laboratório mundial de governo autoritário ultra-neoliberal e excludente – o americano Steve Bannon, saudou a vitória de Jair Bolsonaro, que ele ajudou a eleger com sua experiência em disseminar fake news pelas redes sociais através de técnicas de captação de grupos. Prática completamente ilegal pois financiada por caixa 2 pago por empresários, que se sabiam cobertos pela justiça eleitoral conivente. Bannon foi o homem decisivo na eleição de Trump, através de sua empresa Cambridge Analytica.

Segundo o jornal francês “L’Humanité”, Bannon comemorou: “Numa parte do mundo onde existe um socialismo radical, caos na Venezuela, crise econômica, com o FMI que decide na Argentina, Bolsonaro representa o caminho de um capitalismo esclarecido e será um governo populista nacionalista”. Nacionalista? O que isso quer dizer na boca de Bannon? Defendendo os interesses dos EUA?

Muito ativo na Europa, Bannon quer formar a frente anti-União Europeia dos eurocéticos nacionalistas, a começar por Marine Le Pen e Matteo Salvini, com quem mantém contatos frequentes. Atribuem a ele a vitória do Brexit, uma das formas que os Estados Unidos usaram para implodir a União Europeia, que querem ver totalmente dependente tanto militar quanto economicamente.

O inimigo interno

Antes mesmo de tomar posse, o novo presidente do Brasil, que o jornalista Eric Nepomuceno chama de “troglodita desequilibrado”, começou a enviar mensagens de vídeo anunciando que vai limpar o Brasil dos “vermelhos”, dos “comunistas”, dos “petralhas”, isto é, dos que ele considera como indesejáveis: os brasileiros de esquerda.

Durante a ditadura, essas pessoas eram apontadas e combatidas como “subversivas”.

Os militares brasileiros importaram o conceito que os franceses definiram como “inimigo interno”, durante a Guerra da Argélia. Para os franceses e seu teórico Roger Trinquier (no livro “La guerre moderne”), o “inimigo interno” eram os que lutavam pela independência da Argélia. Para os militares brasileiros, todos os que combatiam a ditadura.

Em discurso proferido em Caracas, quando comandante do Estado Maior do Exército, em 1973, o general Breno Borges Fortes deixou claro quem os militares viam como “inimigo interno”:

“Ele se disfarça de sacerdote ou professor, de aluno ou de camponês, de vigilante defensor da democracia ou de intelectual avançado, de piedoso ou de extremado protestante; vai ao campo, às escolas, às fábricas e às igrejas, à cátedra e à magistratura; usará, se necessário, o uniforme ou o traje civil; enfim, desempenhará qualquer papel que considerar conveniente para enganar, mentir e conquistar a boa fé dos povos ocidentais. Daí porque a preocupação dos Exércitos em termos de segurança interna frente ao inimigo principal: este inimigo para o Brasil continua sendo a subversão provocada e alimentada pelo movimento comunista internacional” (Jornal da Tarde de 10 de setembro de 1973, citado no meu livro “A tortura como arma de guerra, da Argélia ao Brasil”).

As principais vítimas da ditadura eram, pois, membros do Partido Comunista, de partidos de esquerda e até mesmo teólogos da Libertação, além de intelectuais e artistas.

O Brasil foi também um modelo do exercício do poder controlado pelos militares. Todos os postos importantes eram ocupados por oficiais das Forças Armadas, com a missão de fazer grandes obras públicas. Eles controlavam toda a vida política e econômica.

Em 2019, eles terão a missão de garantir a entrega de todas as empresas do Estado, muitas vezes de interesse estratégico, a grandes grupos estrangeiros.

Em suma, o governo “nacionalista” de que falou Bannon.

Grande frente de valores ético-sociais

Estamos vivendo tempos política e socialmente dramáticos. Nunca se viu em nossa história ódio e raiva tão difundidos, principalmente através das mídias sociais. Foi eleito para presidente uma figura amedrontadora que encarnou a dimensão de sombra e do recalcado de nossa história. Ele contaminou boa parte de seus eleitores. Essa figura conseguiu trazer à tona o dia-bólico (que separa e divide) que sempre acompanha o sim-bólico (o que une e congrega) de uma forma tão avassaladora que o dia-bólico inundou a consciência de muitos e enfraqueceu o sim-bólico a ponto de dividir famílias, romper com amigos e liberar a violência verbal e também física. Especialmente ela se dirige contra minorias políticas que, na verdade, são maiorias numéricas, como a população negra, além de indígenas, quilombolas e outros de condição sexual diferenciada.

Precisamos de uma liderança ou um colegiado de líderes, com o carisma capaz de pacificar,de trazer paz e harmonia social: uma pessoa de síntese. Esta não será o presidente eleito, pois lhe faltam todas estas características. Ao contrario, reforça a dimensão de sombra, presente em todos nós, mas que pela civilidade, pela ética, pela moral e pela religião a controlamos sob a égide da dimensão de luz. Os antropólogos nos ensinam que todos nós somos sapiens e simultaneamente demens, ou na linguagem de Freud, somos perpassados pelo princípio de vida (eros) e pelo princípio de morte (thanatos)..

O desafio de cada pessoa e de qualquer sociedade é ver como se equilibram estas energias que não podem ser negadas, dando a hegemonia ao sapiens e ao princípio de vida Caso contrário nos devoraríamos uns aos outros.

Nos tempos atuais em nosso pais perdemos este ponto de equilíbrio. Se quisermos conviver e construir uma sociedade minimamente humana, devemos potenciar a força da positividade fazendo o contraponto à força da negatividade. É urgente desentranhar a luz, a tolerância, a solidariedade, o cuidado e o amor à verdade que estão enraizados em nossa essência humana. Como faze-lo?

Os sábios da humanidade, sem esquecer a sabedoria dos povos originários, nos testemunham que há um só caminho e não há outro. Ele foi bem formulado pelo poverello de Assis quando cantou: onde houver ódio que eu leve o amor, onde houver discórdia que eu leve a união, onde houver trevas que eu leve a luz e onde houver erro que eu leve a verdade.

Especialmente a verdade foi sequestrada pelo ex-capitão, dentro de um discurso de ameaças e de ódio, contrário ao espírito de Jesus, transformando a verdade numa amedrontadora falsidade e injúria. Aqui cabem os versos do grande poeta espanhol António Machado:

“Tua verdade, não: a Verdade. E vem comigo buscá-la. A tua, guarda-a contigo”. A verdade genuina nos deve unir e não separar, pois ninguém tem a posse exclusiva dela. Todos participamos dela, de um modo ou de outro sem espírito de posse.

Junto com uma frente política ampla em defesa da democracia e dos direitos sociais precisamos agregar uma outra frente ampla, de todas as tendências políticas, ideológicas e espirituais, ao redor de valores, capazes de nos tirar da presente crise.

Isso é importante: devemos usar aquelas ferramentas que eles jamais poderão usar: como o amor, a solidariedade, a fraternidade, o direito de cada um de possuir um pedacinho de Terra, da Casa Comum que Deus destinou a todos, de uma moradia decente, de cultivar a com-paixão para com os sofredores, o respeito, a compreensão, a renúncia a todo espírito de vingança, o direito de ser feliz e a verdade transparente. Valem os três “ts”do Papa Francisco: Terra, Teto e Trabalho, como direitos fundamentais.

Devemos atrair os fiéis das igrejas pentecostais através desses valores que são também evangélicos, em contra de seus pastores que são verdadeiros lobos. Ao se darem conta destes valores que os humanizam e os aproximam do Deus verdadeiro que está acima e dentro de todos mas cujo nome verdadeiro é amor e misericórdia, e não de ameaças de inferno, os fiéis se libertarão da servidão de um discurso que visa mais o bolso das pessoas do que o bem de suas almas.

O ódio não se vence com mais ódio, nem a violência com mais violência ainda. Só a mãos que se entrelaçam com outras mãos, só os ombros que se oferecem aos combalidos, só o amor incondicional nos permitirão gestar, nas palavras do injustamente odiado Paulo Freire, uma sociedade menos malfada onde não seja tão difícil o amor.

Aqui se encontra o segredo que faria do Brasil uma grande nação nos trópicos, que poderá ajudar n irrefreávell processo de mundialização a ganhar um rosto humano, jovial, alegre, hospitaleiro, tolerante terno e fraterno.

Leonardo Boff é filosofo, teólogo e escritor, autor do livro A oração de São Francisco: uma mensagem de paz para o mundo atual, Vozes 2009.

A construção de uma Frente Ampla Democrática: L.A.Gomez de Souza

Luiz Alberto Gomez de Souza é um dos nossos mais brilhantes intelectuais católicos. Militou nos movimentos universitários católicos. Exilou-se. Ao voltar, junto com o Betinho, se dedicou a um processo de conscientização da sociedade civil. Possui boa formação teológica, a ponto de a PUC-SP dar-lhe um doutor honoris causa em Ciências da Religião. Publicou vários livros importantes sobre a relação da Igreja em diálogo com o mundo moderno, sobre o Concílio Vaticano II e inumeráveis e excelentes artigos de reflexão política e ética. Trabalhou em vários organismos internacionais como a FAO e outros. No Brasil foi diretor do CERIS da CNBB e na Universidade Cândido Mendes coordenava um centro de altos estudos de diálogo fé e ciências. Publicamos este artigo por ser objetivo e por manter viva a esperança que nasce de uma espiritualidade de características evangélicas e cristãs. LBoff

Nas últimas semanas, vivemos um certo movimento de tomada de consciência cidadã. Houve como que um despertar de alguns setores da população, que se deram conta de um perigo iminente. É o que se chamou uma possível virada eleitoral. Expressiva nas grandes cidades, com pessoas de todas as idades, mas particularmente entre jovens e mulheres. Tempo curto, que não impediu a derrota de nosso candidato Haddad, mas que mostrou um movimento saudável na sociedade e que poderá servir para desenhar um caminho futuro. Pela rua, no momento da votação, aqui no Rio, havia um grande número de botons 13, de pessoas de uma alegria contagiante. Do outro lado, uma certa perplexidade, diante de uma vitória que já não parecia tão fragorosa. Mesmo assim, foi uma ampla maioria, de cerca de 12%. Em São Paulo, ela foi enorme. Ali nasceram PT e PSDB, assim como fortes movimentos sindicais. E agora é o centro do conservadorismo. Em plano nacional, em relação às últimas pesquisas, foi caindo a diferença entre os dois candidatos, mas não levou a uma inversão no resultado final. Há como que dois brasis, o do nordeste, onde ganhou Haddad e as outras regiões. Temos, neste momento, alguns ingredientes básicos com que preparar um programa de ação política para o futuro.

Não posso deixar de lembrar, no passado, dois momentos traumáticos para o país: a eleição de Jânio e sua vassoura e de Collor com a denúncia dos marajás, dois presidentes sem equilíbrio nem apoio político. Receberam o voto de setores de classe média, como agora, pendentes de um discurso anticorrupção. Uma ética necessária virava um moralismo simplificador e enganoso. Aliás, a falta de ética desses dois presidentes foi ficando evidente, na vida privada e pública. Estaremos repetindo o mesmo erro, com os mesmos apoios?

Bolsonaro aproveitou o terrível atentado para posar como vítima ou para eximir-se de debater e de apresentar um programa de governo minimamente coerente. E então, assim, jornalistas a soldo, se lançaram como abutres contra a dupla democrática. Lembremos a valentia de Manuela diante de perguntas mal intencionadas num programa roda viva. Ou no mesmo programa a clareza de estadista de Fernando Haddad. Antes, ele fora agredido com violência por uma dupla raivosa, que não fazia perguntas mas desfiava acusações sem prova.

Gostaria de refletir sobre o que está acontecendo no país. Vivemos um tempo de divisão profunda, marcada pela intolerância, e, inclusive há que dizer, com a contribuição apaixonada de companheiros de nosso lado. Famílias, amigos, colegas, entraram em choque e ficou difícil a convivência. A sociedade adoeceu. Como recuperar o que os ingleses chamam sanity? Há uma lição a tirar para nosso lado democrático. Não podemos cair na síndrome paralisante da decepção e da derrota. Mas, principalmente, não deveríamos reagir com agressividade e rancor, por mais que pudesse haver razão de sobra, ao descobrir um trabalho criminoso de falseamento da realidade e de construção de slogans absurdos.

O curioso é que muitos votaram em Bolsonaro em nome do novo na política. Incrível a falta de memória. Esse cidadão foi deputado em mais de uma legislatura, obscuro, imerso há tempos no grupo informe do chamado baixo clero. Apareceu para a opinião pública naquela noite lamentável, capitaneada vingativamente por Eduardo Cunha, no encaminhamento do impeachment de Dilma Rousseff. Ali, na sua declaração, fez uma incrível homenagem a um dos maiores torturadores dos tempos da ditadura. Procurando descobrir sua atuação nas votações na Câmara, vemos que estava sempre ao lado do chamado grupo da bala, daquele do boi e de um fundamentalismo religioso. Nada mais velho e caduco.

Assusta ver pessoas inteligentes e de boa vontade dizerem coisas insensatas e sem provas, afirmando que o país correria o risco de se tornar uma nova Venezuela, ou que seria invadido por médicos cubanos doutrinadores. Ou invocando um inexistente “kit gay”. Ao tentar desmanchar esses equívocos, muitas vezes nos temos deparado com um semblante rígido e inexpressivo, incapaz de entrar num contraditório. Fiéis de igrejas pentecostais votam no que os pastores ordenam, considerando que só eles dizem a verdade. O diálogo torna-se quase impossível.

Há dois tipos de eleitores bolsonarescos. Uns, que tem a mesma síndrome violenta do candidato e que agridem adversários, odeiam negros e gays ou são de um machismo espantoso. Aí, pelo momento, há pouco a fazer, a não ser denunciar uma síndrome de destruição, que surge em todos as ocasiões que viram nascer o nazismo e o fascismo. Temos de apelar aos psiquiatras e aos psicólogos e lembrar com eles, Karen Horney e sua mentalidade neurótica de nosso tempo, ou o medo da liberdade de Eric Fromm. Joel Birman tem desocultado com maestria essa enfermidade coletiva.

Mas há outra parte dos que votaram Bolsonaro, que absorveu acriticamente notícias falsas ou deturpadas, difundidas pelos meios de comunicação ou por púlpitos. Com esses temos de preparar o caminho para um diálogo. Há que provar que realmente aceitamos o pluralismo e que estamos dispostos inclusive a rever nossas próprias posições. Tudo num clima de abertura e de simplicidade. Habermas falava da força da argumentação, e ela vale nos dois sentidos.

É preciso aprender com a história, nas vitórias, e especialmente nas derrotas. O grande poeta Antonio Machado, em 1939 partindo para o exílio, onde morreria logo depois, escreveu melancolicamente: “A história não caminha no ritmo de nossa impaciência”. Mas a resposta vem mais adiante, em 1973, na intervenção pela radio Magallanes de Salvador Allende. Vendo os aviões voar baixinho para bombardear o Palácio da Moneda e ouvindo Allende despedir-se, baixou-nos num primeiro momento uma enorme tristeza e uma sensação de impotência. Porém disse o presidente: “Más temprano que tarde volverá el pueblo a las grandes alamedas… La historia es nuestra, la hacen los pueblos”. Suas palavras foram retiradas do ar pela fúria dos vencedores. Mas nos trouxeram alento e esperança.

Tempos depois da derrota, alguns partidos de diferentes tendências criaram a Concertação, que elegeria os primeiros presidentes democratas. Eu estava em Santiago mais adiante, voltei à Moneda restaurada, atravessei comovido o pátio de los naranjos, convidado para almoçar ali pelo secretário-geral da presidência, que voltara do exílio. E no canto da praça, um busto de Allende estava voltado para a janela de onde tantas vezes ele se dirigira a seu povo. Na base, trechos de sua última alocução. Mais tarde, quando Ricardo Lagos tomou posse como presidente democraticamente eleito, entrou pela porta da rua Morandé, por onde chegava Allende, e que tinha sido taipada pela ditadura, foi até a sala de onde ele se tirou a vida e depositou ali uma rosa vermelha. E o corpo de Allende voltou a Santiago, atravessou a Alameda Bernardo O’Higgins, onde um povo comovido o acolheu em silêncio.

Tudo isso para dizer que a história pode redimir-se de seus tropeços. Sentimos isso, fortemente, os que retornamos ao Brasil entre 1977 e 1979.

Volto à atualidade. Passada a eleição, é hora de preparar um novo processo. Não deveria ser possível ressuscitar velhos ajustes de contas, nem fazer cobranças, mas é indispensável lembrar fatos nem sempre agradáveis de ouvir. Aqui seria necessária uma grande abertura, grandeza e sentido uma revisão histórica positiva. Temos uma realidade complexa pela frente.

Criou-se, certamente construído em bases falsas, um clima antipetista violento. Porém o próprio partido não sai totalmente absolvido. Faz muitos anos, Tarso Genro, então presidente interino, propôs sua refundação, no tempo dos escândalos do mensalão. Não foi ouvido. Depois, vieram mais denúncias, infundadas ou não. Talvez por culpa de alguns dirigentes, o partido passou um ar de arrogância e de incapacidade para confessar falhas. E não se abriu a uma aliança, em igualdade de condições, com outros partidos e políticos. Por isso, num momento futuro, o PT não tem condições de ser o catalizador de uma nova aliança, mas certamente será um dos membros principais desse processo.

A construção de uma frente deveria ser fruto de uma concertação em várias direções, como no Chile. O PCdoB tem dado um exemplo, colocando-se disciplinadamente nas alianças. Manuela d’Ávila deu um lindo sinal de firmeza e de discreção. Flávio Dino, reeleito largamente no primeiro turno, entrou de cheio da campanha de Haddad, ele que, na primeira eleição, viu dirigentes petistas apoiarem Roseana Sarney, agora uma vez mais derrotada. O PSOL, que sai com uma expressiva votação em Marcelo Freixo, teria de abrir-se a alianças, o que não conseguira fazer na eleição municipal, que levou o incompetente Crivella à prefeitura carioca. Assim por diante, são lições a tirar, sem mágoas, mas sem esquecer a dureza implacável dos fatos.

Podemos elencar deputados eleitos, que podem ajudar a costurar essa grande aliança: Alessandro Molon, Paulo Teixeira, Luíza Erundina, Jandira Feghali, Jean Wyllys e tantos outros que talvez eu esteja esquecendo. Temos senadores como Paulo Paim ou Jacques Wagner. E inclusive políticos excelentes que foram varridos pelo tsunami eleitoral, como Eduardo Suplicy, Jorge Viana, Dilma Rousseff, à frente em sondagens no começo do período eleitoral ou outros com boas raízes, como Lindbergh Farias, Chico Alencar e Roberto Requião.

É de prever que o futuro governo poderá ser errático, entre militares nacionalistas e economistas privatistas, com um presidente meio perdido no meio. Medidas draconianas poderão fazer perder avanços históricos populares, nosso petróleo seguirá sendo rifado, como está fazendo este atual governo liliputiano. Poderão crescer setores de repressão, à sombra de uma nova doutrina de segurança nacional. O que parece provável é que, por um desgoverno, o presidente caia mais adiante, vítima de suas contradições e de sua incapacidade. Poderá haver pela frente o terrível risco de uma intervenção militar. Ou então, teríamos, por um tempo, uma ciranda de governos fracos. Sem uma reforma política – e este parlamento será capaz de fazê-la? – nos espera um futuro bastante incerto. A não ser que, lenta, mas firmemente, se vá afirmando a tão sonhada Frente Ampla Democrática, Popular e Nacional.

Escrevendo este texto, depois dos foguetes e dos gritos de vitória, saiu de uma janela vizinha a voz de Chico Buarque: “Apesar de você, amanhã há de ser outro dia”. Assim seja.