O Padre Cícero à luz do Papa Francisco

Acompanhando, lendo e ouvindo as palavras e especialmente os gestos do bispo de Roma, como gosta de ser chamado, o Papa Francisco e a imagem que ele se faz do padre para os dias de hoje logo me veio à mente, o Padre Cicero Romão Batista.

Surpreso disse para mim mesmo: o que ele está apresentando é exatamente aquilo que o Padre Cícero fazia. O estilo de padre vivido pelo Padre Cicero agradaria, seguramente, o atual Papa.

         1.Características do Papa Francisco

Para começar, permitam-me dizer algumas palavras sobre Francisco, porque é uma das melhores bençãos que aconteceu para a Igreja e para a Humanidade nos últimos anos.

Em primeiro lugar ele trouxe uma primavera para a Igreja depois de um longo inverno que significaram os pontificados de João Paulo II e de Bento XVI. Papas da de volta à grande disciplina e às doutrinas severas

Em segundo lugar, fez da Igreja uma casa com portas e janelas abertas no lugar de uma fortaleza fechada e imaginriamente cercada de inimigos.

Em terceiro lugar, ele quis se chamar bispo de Roma, em vez de Papa. Propô-se dirigir a Igreja com a caridade e não com o direito canônico. Disse claramente, excetuando os pedófilos e os ladrões do Banco Vaticano, não quer condenar ninguém.

Em quarto lugar, deixou o palácio papal e foi morar numa hospedaria onde os padres que vem a Roma se hospedam. Ele quis um quarto comum como o dos hóspedes. Come junto com todos, na fila, dizendo, com humor: “assim é mais difícil que me envenenem”.

Em quinto lugar, prefere o encontro existencial com Cristo do que a proclamação de doutrinas sobre Cristo. E disse: é a pessoa de Cristo que nos salva não as doutrinas.

Em sexto lugar deve-se passar da exclusão para a inclusão. A Igreja Católica deve incluir e reconhecer as outras Igrejas que também levam avante a herança de Jesus e juntas porem-se a serviço do mundo, especialmente dos mais pobres. E dialogar com total abertura com as demais religiões e caminhos espirituais.

Em sétimo lugar, o centro não é ocupado pela Igreja mas pelo mundo que precisa de esperança, de alegria e de salvação. A Igreja deve ser uma espécie de hospital de campanha que não olha se o ferido é muçulmano, negro ou cristão. Basta saber que está sangrando e que deve ser cuidado.

Em oitavo lugar, devemos passar do mundo aos pobres. Francisco deseja “em saida para as periferias existenciais”, antes de tudo uma Igreja dos pobres, com os pobres e para os pobres. Para onde chega, sempre vai visitar os pobres, entra em suas casas, abraça-os, beija-os e toma um cafezinho com eles.

Em nono lugar, quer que os pastores, padres e bispos tenham cheiro de ovelhas, quer dizer, que andam no meio do povo, que” tenham sempre um sorriso de um pai que contempla os seus filhos e os seus netos, que não tenham cara de vinagre, nem tristes como se fossem ao próprio enterro”. Que sejam testemunhos da alegria do evangelho, uma categoria essencial de sua pregação.

Em décimo lugar quer que todos façam a revolução da ternura e da misericórdia, acolhendo a todos com o coração aberto, exercendo a misericórdia ilimitada diante dos que fracassaram e pecaram, mostrando-se como o pai do filho pródigo que se alegrou com o filho que se perdeu e voltou à casa paterna.

Estes são os pontos mais relevantes da figura de Francisco que veio do fim do mundo, do caldo cultural e eclesial que se criou na nossa América Latina.

Depois de ouvir as lições da teologia da libertação na versão argentina, que é a teologia do povo oprimido e da cultura silenciada, isso o diz seu professor ainda vivo, Juan Carlos Scannone, ficou tão impressionado que já como estudante fez uma opção pelos pobres e prometeu visitar toda semana uma favela.

Como Cardeal, não morava no palácio, ia de ônibus, de metro ou a pé. E fazia sua própria comida. Como bispo de Roma, se despojou de todos os títulos de honra e glória, especialmente o manto sobre os ombros cheio de joias, simbolo do poder absoluto dos imperadores e dos papas e começou a usar um mantozinho branco. A cruz é de prata barata sem qualquer adorno. E vai sozinho ao barzinho perto do Vaticano comer um pastel que gosta.

E coisa espantosa, que nunca ocorreu antes na história da Igreja: por quatro vezes, tres em Roma e uma em Santa Cruz de la Sierra na Bolívia convocou os representantes dos movimentos sociais populares do mundo inteiro. Queria saber da boca deles os sofrimentos que padacem e que indicassem quem no mundo coloca essa cruz nas costas deles. Nenhum Papa antes deles condenou tanto a idolatria do dinheiro, e aqueles que saqueiam os escassos bens e serviços da Mãe Tera. Pensa sempre no capitalismo como um sistema anti-vida.

É dele a encíclica “Laudato Si: cuidando da Casa Comum” que o colocou, segundo os especialistas, na ponta da discussão ecológica integral, do mundo inteiro.

  1. O Padre Cícero antecipador do tipo de padre querido pelo Papa Francisco

Vamos agora refletir rapidamente sobre a prática pastoral do Padre Cícero, o grande Patriarca do Nordeste, o Padrinho Universal, o Intercessor junto a Deus em todos os problemas da vida, o Santo cuja intercessão nunca falha. Os devotos e os romeiros sabem disso.

Não vou resumir sua história que todos conhecem. Apenas digo que, para mim, há três fases principais na vida dele que têm a ver com aquilo que ensina o Papa.

A primeira é a fase de Juazeiro que começa no dia 11 de abril de 1872. Quando era jovem sacerdote de 28 anos foi chamado rezar uma missa em Juazeiro, uma vilazinha com duas ruas, 36 casas e uma capelinha dedicada a Nossa Senhora das Dores. Atendeu aquele povo mas não gostou do lugar. Pensava ser professor no seminário da Prainha em Fortaleza.

Foi quando, cansado de ouvir confissões, foi tirar uma soneca na escolinha próxima. E ai teve um sonho que mudou a sua vida. Como sabemos, o sonho é uma forma como Deus se comunica, como com São José que nunca disse uma palavra mas que teve sonhos, nos quais acreditou. O Padre Cícero viu em sonho o Sagrado Coração de Jesus, sentado à mesa com os 12 Apóstolos. De repente entrou na sala uma multidão de retirantes, famintos e maltrapilhos. Jesus começou a falar com eles. E de repente voltou-se ao Padre Cícero e disse:”E você Padre Cícero tome conta deles”.

O Padre Cícero, perplexo e até assustado, logo entendeu a mensagem: devia ficar em Juazeiro. Foi para Crato, trouxe a mãe, as duas irmãs e uma jovem escrava liberta e se mudou definitivamente para Juazeiro.

A segunda é a fase do milagre do sangue na hóstia, fase da Maria de Araújo. Começa no dia primeiro de março de 1889. Às 5 da manhã o Padre Cícero deu a comunhão, antes da missa, às várias mulheres piedosas, chamadas de beatas. Deu a comunhão a Maria de Araújo, negra, costureira e lavadeira, de 28 anos. Sem nenhuma explicação ela caiu por terra e junto foi a hóstia consagrada. De repente viu que a hóstia estava tingida de sangue. O mesmo se repetiu por dezenas de vezes, sempre recolhendo o sangue num paninho.

Para o Padre Cícero e assistentes, não havia dúvida: era o sangue sagrado de Cristo. Os panos foram colocados numa urna de vidro. Durante dois anos multidões do vale do Cariri começaram a chegar a Juazeiro par ver os panos e tocar na urna. Contam que aconteciam muitos milagres.

O bispo de Fortaleza Dom Joaquim José Vieira mandou por duas vezes analisar a situação. Na primeira se concluiu tratar-se realmente de um milagre. Mas esse resultado não agradou o Bispo. Mandou teólogos ao lugar que acabaram concluindo tratar-se de um embuste. Esta versão foi acolhida pelo bispo.

Devido a ocorrência cada vez maior de romeiros, o Bispo Dom Joaquim intepretrou aquele fenômeno como um cisma, quer dizer, uma divisão na Igreja. De forma muito autoritária suspendeu o Padre Cícero, proibindo-o de pregar, confessar e orientar os fiéis. Mas podia celebrar a missa.

O bispo Joaquim, temeroso, mandou toda uma documentação para o Santo Ofício, a antiga Inquisição, em Roma. Esta não reconheceu o milagre. Ao contrario disse     que se tratava de “gravíssima e detestável irreverência e ímpio abuso à Santíssima Eucaristia”. Bastou esta declaração para o Bispo Joaquim interditar todos os atos religiosos em Juazeiro e proibir o Padre Cícero de celebrar Missa.

Mais tarde em 1916 veio de Roma a excomunhão mas que nunca foi aplicada e nem o Padre Cícero teve conhecimento dela, creio que por medo do bispo Dom Joaquim da reação dos romeiros.

Deixando para trás estes fatos, perguntamos: como agia pastoralmente o Padre Cícero? Aqui, me parece que ele se coloca na linha do que o Papa Francisco gostaria que todos os pastores fizessem. O Padre Cícero usava três métodos:

1) Convivência direta com o povo, cumprimentado a todos.

2) Visita a todas as casas dos sítios, falando com todos, abraçando as crianças e abençoando a casa, os animais e as pessoas. Andava quase sempre a pé com o seu bastão.

3) Orientar o povo nas pregações e nas novenas; ao anoitecer, diante da casa fazia reuniões diárias com povo onde incentivava a vivência dos bons costumes, o estudo nas escolinhas, encaminhava para os vários ofícios e dava dicas de ecologia como veremos logo a seguir.

A fama correu pelo sertão todo. De longe vinham receber seus conselhos e suas bençãos, porque era inteiramente dedicado ao povo, sempre disponível, atento em ouvir, carinhoso em receber a todos até ricos que vinham conhecê-lo. Era impecável em sua vida pessoal, vivendo pobremente e não cobrava nada por seu trabalho pastoral (José Comblin, O Padre Cícero do Juazeiro, Paulus 2011).

Era extremamente obediente. Nunca se queixou dos castigos pesados que recebeu. Amava profundamente a Igreja e respeitava a figura do Papa e dos bispos.

De todas as partes vinham romeiros pedir-lhe conselhos. Tinha a fama de pacificador e de resolver todos os conflitos; conhecia as ervas e remedios caseiros para as doenças e até tinha a fama de bom casamenteiro.

Ele se interessava pelo bem estar do povo: criou centros onde se aprendiam as profissões de marcineiro, ferreiro, alfaiate, artesão com couro ou palha e outros ofícios. Até criou uma relogoaria que fabricava bons relógios. Abriu 12 escolinhas particulares e duas publicas além de um orfanato e a primeira Escola Normal Rural..

A Terceira fase é do Padre Cícero politico. As portas da Igreja se fecharam para ele. Mas para continuar a servir o povo entrou na política.

Aqui cabe lembrar uma frase do Papa Francisco quando esteve no Brasil: “É uma obrigação para o cristão envolver-se na política. Devemos envolver-nos na política, pois a política é uma das formas mais altas da caridade”. Vai mais longe o Papa Francisco ao afirmar: ”Atualmente, se um cristão não é revolucionário não é cristão. Deve ser revolucionário da graça.”

Importa esclarecer que o Padre Cícero entrou na política a contragosto, com a idade de 67 anos, mas aceitou para ser o mediador-conciliador entre vários coronéis em litígio. Por 20 anos até 1927 foi prefeito de Juazeiro, comparecendo como a figura mais respeitada do Cariri. Em 1912 foi eleito vice-governador do Ceará por dois mandatos. Mas cansado se retirou da política pública e atendia os romeiros e politicos em sua casa.

Sua preocupação maior era poder continuar com sua missão pastoral e voltar a celebrar missa. Chegou ir a Roma em 1898 ficando lá oito meses. Conheceu os salesianos e entusiasmou-se com o seu caarisma a ponto de herder a eles quase tudo o que possuia em Juazeiro. Pôde encontrar-se rapidamente com o Papa Leão XIII que lhe permitiu rezar missa em Roma e na volta novamente em Juazeiro. Mas foi em vão. O bispo manteve a proibição.

Mas vendo as multidões que vinham pedir conselho, ele, por amor ao povo, exerceu a desobediência leal: desobediência a uma lei eclesiástica e humana em função de uma lealdade ao mandamento maior do amor e do serviço aos pobres que ela amava do fundo do coração.

Era tido como o pai dos pobres. Foi padrinho de batismo de dezenas de crianças (daí a expressão “meu padim Padre Cícero),o consolador dos abandonados dos sertões. Distribuía com calma e serenidade, por horas a fio, conselhos e bençãos a todos os que o procuravam. Essa desobediência não era opor-se pura e simplesmente às autoridades eclesiásticas, mas etendender que o amor ao pobre e vulnerável possui autoridade maior, pois vem do Evangelho e de Jesus.

O Padre Cícero, pai dos pobres, incansavelmente dedicou 62 anos de sua vida à causa dos deserdados do Nordeste. Faleceu a 20 de julho de 1934.

3.Qualidades do sacerdote pregadas pelo Papa e vividas pelo Padre Cícero.

Muitas vezes o bispo de Roma falou aos sacerdotes e aos estudantes dos vários colégios pontificios. Ai delineia qualidades para o sacerdote, qualidades essas que o Padre Cícero viveu em antecipação.

-Ao Espiscopado italiano em 16 de maio de 2016 diz”O padre não pode ser burocrático mas alguém que é capaz de sair de si, caminhando com o coração e o ritmo dos pobres”. Não viveu a vida inteira assim o Padre Cicero?

-Na missa do crisma na Basílica Vaticana no dia 17 de abril de 2014 afirma:”a disponibilidade do sacerdote faz da Igreja a casa dos pobres, o lar dos que andam pelas ruas, o acampamento dos jovens e o lugar da cura dos doentes”. Na vida inteira o Padre Cícero não fez outra coisa.

-Aos bispos recém sagrados em 18 de setembro de 2016 proclama:”o pastor deve ser capaz de escutar e de encantar e atrair as pessoas pelo amor e pela ternura”. Essa era uma qualidade eminente do Padre Cicero, testemunhada por todos.

– Falando aos seminaristas lombardos lhes diz:”busquem o caminho da simplicidade que facilita encontrar o outro, simplicidade na linguagem e evitar doutrinas complicadas de modo que todos os possam entender e encontrar o Cristo vivo, morto e ressuscitado”. A simplicidade extrema do Padre Cícero era notória e permitia que todos se aproximassem confiantes de serem abraçados por ele.

-Num sermão de 6 de março de 2014 o Papa Francisco foi enfático ao dizer:” o sacerdote está chamado a ter um coração que se comove; deve ser uma pessoa de compaixão e de misericórdia. Deve ser como Jesus que se comovia diante do povo disperso e desalentado; deve estar cheio de ternura para com os excluidos e fracos; por amor é preciso consolar e curar as feridas dos machucados”.

Foi o que o Padre Cícero viveu a vida inteira em seu contacto com o povo.

  1. O Padre Cícero, antecipador da ecologia integral

Como é sabido, o Papa Francisco publicou uma importantíssima encíclica Laudato Si: cuidando da Casa Comum (2015). Não se trata de uma encíclica verde, meramente ambientalista, mas uma encíclica sobre a ecologia integral que incorpora a natureza, a sociedade, a política, a educação e a espiritualidade. Com grande surpresa nossa, o Padre Cícero publicou seus 10 famosos mandamentos ecológicos que me permito transcrever mas enfatizando apenas alguns, válidos até hoje:

não derrube o mato nem mesmo um só pé de pau.

não toque fogo nem no roçado nem na caatinga.

-não cace mais e deixe os bichos viverem.

-não crie o boi nem o bode soltos: faça cercados e deixe o pasto descansar para se refazer.

-não plante em serra acima, nem faça roçado em ladeira   muito em pé;

deixe o mato protegendo a terra para que a   água não a arraste e não se perca a sua riqueza.

faça uma cisterna no oitão de sua casa para guardar água da chuva.

represe os riachos de cem em cem metros ainda que seja  com pedra solta.

plante cada dia pelo menos um pé de algaroba, de caju, de sabiá ou outra árvore qualquer até que o sertão seja uma mata só.

Aprenda a tirar proveito das plantas da caatinga, como a maniçoba, a favela e a jurema; elas podem ajudar a conviver com a seca.

Se o sertanejo obedecer a estes preceitos, a seca vai aos poucos se acabando, o gado melhorando e o povo terá sempre o que comer.

-Mas, se não obedecer, dentro de pouco tempo o sertão todo vai virar um deserto só”. (Pensamento vivo do Padre Cícero, Ediouro, Rio de Janeiro 1988).

5.Conclusão: a atualidade do modelo sacerdotal do Padre Cícero.

Para a Igreja popular, o Padre Cícero sempre foi reconhecido como santo. Padeceu sob a mão dura do bispo de Fortaleza e da Inquisição, sem queixa e livre de qualquer amargura e sem deixar de amar a Igreja e seus pastores. Nunca se rebelou.

Mas está chegando o o tempo de a Grande Igreja se reconciliar com com os romeiros que o veneram e com o Padre Cícero, tido como pastor ideal.

Vale uma Igreja que distribui sacramentos, missas, confissões, batismos, casamentos e enterra mortos embora corra o risco de se fazer burocrática. Mas é importante que a Igreja seja, além disso, a grande companheira do povo, participando de seus padecimentos e alegrias, acolhendo com ternura a todos, dando conselhos e benções.

É esse tipo de Igreja, preferida pelo atual Papa, sem deixar de dar valor ao outro tipo mais tradicional. E é dessa Igreja popular que o povo mais aprecia e mais precisa não só no Nordeste mas no Brasil todo.

Graças ao bispo local, Dom Fernando Panico, beneficiado com uma cura de um cancer incurável, pela intercessão do Patriarca do Nordeste e do Brasil, tudo está tomando o rumo da reconciliação. Dom Frei Luiz Cappio, meu ex-aluno em Petrópolis, conversou em 2010 com o Papa Francisco sobre a figura excepcional de sacerdote e de santo que foi o Padre Cícero. O Papa conhecia o caso e prometeu acelerar o processo de reabilitação e de reconciliação.

A Congregação da Doutrina da Fé de 27 de outubro de 2014 afirmou num documento “não poder proceder à solicitação de reabilitação do sacerdote” Padre Cícero Romão Batista (primeiro Omnes). Mas, quase de forma contraditória assevera que “julga oportuna uma certa forma de reconciliação histórica…que coloque em luz também os lados positivos de sua figura”(segundo Omnes).

Para entender esta aparente contradição devemos entender a forma como esta instância doutrinária profere suas sentenças. Estas são de suas ordens: de tuto e de vero. Afirmação de tuto significa afirmação de “segurança” e de “prevenção” sem querer decidir acerca da verdade do fato analisado. De vero é quando se quer decidir sobre a “verdade” do fato. Esta é a sentença mais peremptória. Tudo leva a entender, dada a segunda observação (Omnes 2) que a Congregação para a Doutrina da Fé se ateve ao aspecto da segurança (de tuto) que possui um valor menor e não ao aspecto da verdade(de vero) que fecharia totalmente a questão.

Isso fica mais claro na carta do Secretário de Estado do Vaticano, a primeira pessoa depois do Papa em autoridade, o Card. Pietro Parolin, enviada ao bispo Dom Fernando Panico, bispo diocesano do Crato em 20 de outubro de 2015.

Este documento vem de uma instância mais alta que aquela da Congregação da Doutrina da Fé. O Card. Parolin como Secretário de Estado é a primeira pessoa após o Papa. Explicitamente escreve em nome do Papa Francisco. Deixa para trás a discussão do passado, e vai logo ao centro da questão que é pastoral:”põe em realce a figura de Padre Cícero Romão Batista e a nova Evangelização, procurando concretamente ressaltar “os bons frutos que hoje podem ser vivenciados pelos inúmeros romeiros que, sem cessar, peregrinam a Juazeiro atraíados pela figura daquele sacerdote”. Insiste que se deve “por em evidência aspectos positivos de sua vida e figura, tal como atualmente é percebida pelos fiéis”.

O ponto alto da afirmação do Card Parolin se encontra no númer 5 de sua carta onde afirma:”No momento em que a Igreja inteira é convidada pelo Papa Francisco a uma atitude de saída, ao encontro das periferiais existenciais, a atitude do Padre Cícero em acolher a todos, especialmente aos pobres e sofredores, aconselhando-os e abençoando-os, constitui, sem dúvida,um sinal importante e atual”.

Por fim enfatiza que “a presente mensagem foi redigida por expressa vontade de sua Santidade o Papa Francisco”.

Temos aqui, portanto, um pronunciamento da autoridade papal, a mais alta da Igreja, abrindo o caminho para a reconciliação. E dadas as virtudes eminentes do Padre Cícero e a conclamação a “agradecer ao Senhor por todo bem que ele suscitou por meio do Padre Cícero” se criam as condições para a sua beatificação e, por graça do Altíssimo e por amor dos romeiros, seja também oficialmente canonizado para ser santo não apenas do Nordeste, mas de toda a Igreja Universal, podendo ser venerado em todos os países onde há católicos.

O Padre Cícero será o grande santo do novo estilo de caminhar com o povo, com “cheiro de ovelha” porque o ama e sabe conduzi-lo pelo caminho das verdes campinas e das águas límpidas como o diz o Bom Pastor do salmo 23.

Que nossa geração possa ainda ver esta glória como veremos no dia 15 de agosto de 2017 a canonização pelo Papa Francisco, do bispo Dom Oscar Arnulfo Romero de El Savador, mártir dos direitos humanos e da libertação dos oprimidos.

Estou seguro de que o dia chegará para o Padre Cícero Romão Batista: será beatificado e canonizado como um santo original e típico de nossa terra, batida pela seca e terra dos homens e das mulheres fortes e invencíveis e cheios de fé.

Leonardo Boff, teólogo e escritor.

Bibliografia essencial

-José Comblin, O Padre Cícero do Juazeiro, Paulus,    2011.

-Ralph della Cava, Milagre em Juazeiro, Paz e Terra   1985.

-Amália Xavier de Oliveira, O Padre Cícero que eu     conheci, Editora Massangana, Recife 1981.

-Azarias Sobreira, O Patriarca de Juazeiro, Vozes,      Petrópolis 1968.

-Therezinha Stella Guimarães e Anne Dumoulin, O Padre Cícero por ele mesmo, Edições INESP, Fortaleza 2015.

-Annette Duloulin, Em sonho.. Uma boa conversa entre o romeiro Sebastião e Padre Cícicero, Paulinas 2017.

-Antônio Romero Siqueira Dodou, De Tabuleiro a Juazeiro. Reflexões sobre Cícero:o homem,o padre e o líder, Edição do autor 2016.

-Ercíclia Maria Braga de Olinda, Adriana Maria Simão da Silva (org.) Vidas em romaria, Ed UECE, Fortaleza 2016.

-Pe. Neri Feitosa, Análise juridica das Pastorais de Dom Joaquim sobre o Padre Cícero e o milagre de Juazeiro, Canindé 2005.

-Carlos Alberto Tolovi, Mito, religião e política: Padre Cícero e Juazeiro do Norte, Editora Primas, Curitiba 2017.

-Maria do Carmo Pagan Forti, Padre Cícero e Dom Fernando: uma relação que deu certo, edição da autora, Juazeiro 2013.

-Pe.José Oscar Beozzo, Pe. Cicero nos textos e no contexto do seu tempo Anaes do II Simpósio Internacional de 12 de outubro de 2004.

-Pe. José Oscar Beozzo, Uma cronologia comparada da vida do Pe.Cícero com os eventos eclesiásticos e civis de seu tempo, pesquisa inédita, São Paulo 2004.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Um padre com cheiro de ovelhas: o Pe.Cicero Romão Batista

Nos dias 20-24 de março se realizou em Juazeiro do Norte, Ceará, o V­º Simpósio Internacional Padre Cícero com o tema “Reconciliação…e agora?” Fiquei admirado pelo alto nível das exposições e das discussões com a presença de pesquisadores nacionais e estrangeiros. Tratava-se da reconciliação da Igreja com o Pe. Cícero que sofreu pesadas penas canônicas, hoje questionáveis, sem jamais se queixar, num profundo respeito às autoridades ecclesiasticas e reconciliação com os milhares de romeiros que o consideram um santo.

Indiscutivelmente o Pe. Cícero Romão Batista (1844-1034), por suas múltiplas facetas, é uma figura polêmica. Mas mais e mais as críticas vão se diluindo para dar lugar àquilo que o Papa Francisco através do Secretário de Estado Card. Pietro Parolin, numa carta ao bispo local Dom Fernando Panico de 20 de outubro de 2015, expressamente diz que no contexto da nova evangelização e da opção pelas periferias existenciais a “atitude do Pe. Cícero em acolher a todos, especialmente aos pobres e sofredores, aconselhando-os e abençoando-os, constitui, sem dúvida, um sinal importante e atual”.

O Pe. Cicero corporifica o tipo de padre adequado à fé de nosso povo, especialmente nordestino. Existe o padre da instituição paróquia, classicamente centrada no padre, nos sacramentos e na transmissão da reta doutrina pela catequese. É um tipo de Igreja que se autofinaliza e com parca incidência social em termos de justiça e defesa dos direitos humanos especialmente dos pobres.

Entre nós surgiu um outro tipo de padre como o Pe. Ibiapina (1806-1883), que foi magistrado e deputado federal, tendo abandonado tudo para, como sacerdote, colocar-se a serviço dos pobres nordestinos, como o Pe. Cícero, o Frei Damião, Pe. José Comblin entre outros. Eles inauguraram um outro tipo ação religiosa junto ao povo. Não negam os sacramentos, porém, mais importante é acompanhar o povo, defender seus direitos, criar por toda parte escolas e centros de caridade (de atendimento), aconselhá-lo e reforçar sua piedade popular. Esse é o tipo de padre adequado à nossa realidade e que o povo aprecia e necessita.

Esse era também o método do Pe. Cícero que se desdobrava em três vertentes: primeiro conviver diretamene com o povo, cumprimentando e abraçando a todos; em seguida visitar todas as casas dos sítios, abençoando a todos, a criação dos animais e as plantações; por fim orientar e aconselhar o povo nas pregações e novenas; ao anoitecer reunia as pessoas diante de sua casa e distribuía bons conselhos e encaminhava para o aprendizado de todo tipo de ofícios para tornarem independents.

Neste contexto o Pe. Cícero se antecipou ao nosso discurso ecológico com seus 10 mandamentos ambientais, válidos até os dias de hoje (“não derrube o mato nem mesmo um só pé de pau” etc).

O Pe. Comblin, eminente teólogo, devoto do Pe. Cícero e que quis ser enterrado ao lado do Pe. Ibiapina escreveu com acerto:”O Padre Cícero adotou amorosamente os pobres e advogou a causa dos nordestinos oprimidos, dedicando-lhes incansavelmente 62 anos de vida. E o povo pobre o reconheceu, o defendeu e o consagrou, continuando a expressar-lhe o seu devotamento, porque viu e vê nele o Pai dos Pobres. Antecipou em muitos anos as opções da Igreja na América Latina. É impossível negar a sincera opção pelos pobres, como foi dito por um deles:”Meu padrinho é padre santo/como ele outro não há/ pois tudo o que ele recebe/ tudo de esmola dá”(O Padre Cícero de Juazeiro, 2011 p.43-44).

Curiosamente, se recolhermos os muitos pronunciamentos do Papa Francisco sobre o tipo de padre que projeta e quer, veremos que o Pe. Cícero se enquadra. à maravilha, ao modelo papal. Não há espaço aqui para trazer a farte documentação que se encontra no meu blog (www.leonardoboff. wordpress.com) que recolhe minha intervenção em Juazeiro: “O Padre Cícero à luz do Papa Francisco”.

Repetidas vezes enfatiza o Papa Francisco que o padre “deve ter cheiro de ovelha”, quer dizer, alguém que está no meio de seu “rebalho” e caminha com ele. Cito apenas dois textos emblemáticos, um proferido ao episcopado italiano no dia 16 de maio de 2016 onde diz:”O padre não pode ser burocrático mas alguém que é capaz de sair de si mesmo, caminhando com o coração e o ritmo dos pobres”. O outro aos bispos recém sagrados no dia 18 de setembro de 2016:”o pastor deve ser capaz de escutar e de encantar e atrair as pessoas pelo amor e pela ternura”.

Estas e outras qualidades foram vividas profundamente pelo Pe. Cícero, tido como o Grande Patriarca do Nordeste, o Padrinho Universal, o Intercessor junto a Deus em todos os problemas da vida, o Santo cuja intercessão nunca falha. Os romeiros e devotos sabem disso. E nós secundamos esta convicção.

Leonardo Boff é articulista do JB on line e escreveu A nova evangelização: a perspectiva dos pobres, Vozes 1991.

 

Para evitar um eminente novo golpe de Estado

O eminente jurista Fábio Konder Comparato numa entrevista na Carta Capital de 12 de abril de 2017 ponderou que face à desmoralização dos dirigentes politicos e da corrupção generalizada “é bem possível outra intervenção extralegal para impedir a continuação disso tudo; não está fora de cogitação um novo golpe de Estado”.

Os agentes desse novo golpe seriam, segundo Comparato, “os empresários (a minoria rica) e os proprietarios por um lado, e por outro, os principais agentes do Estado. Para agentes de Estado deduzo que se trataria do Ministério Público, da OAB e acrescentaria ainda a Polícia Federal e alguns ministros do STF.

Meu temor é que os grupos acima citados utilizem a mesma estratégia que vigorou em 1964: as oligarquias usaram o poder militar para dar um golpe de classe como foi mostrado de forma irrefutável por René Dreifuss: na sua tese de Glasgow:”A conquista do Estado, ação política, poder e golpe de classe” (Vozes 1981, 841 pp.):”o que houve no Brasil não foi um golpe militar, mas um golpe de classe com uso da força militar”(p.397).

A barafunda total da atual política, corroída pela corrupção de cima abaixo, desmascarada pelas delações da Odebrecht (outras ainda virão) torna a continuidade do atual governo altamente problemática. A ilegitimidade do presidente e de grande parte dos parlamentares das duas Casas, sob acusação de graves delitos, torna vergonhosa a celeridade conferida às mudanças, claramente anti-populares e até anticonstitucionais.

Esse golpe pode ser dado a qualquer momento, pois os empresários estão eles mesmos se sentindo prejudicados especialmente nos níveis costumeiros de alta acumulação. Resta saber se os militares aceitariam tão espinhosa tarefa. Mas eles se sentem os guardiães da República, pois foram eles que puseram fim à Monarquia. Em momentos tão graves como os atuais, poderão se sentir urgidos, mesmo a contragosto, a assumir esta responsabilidade nacional.

Se isso ocorrer, provavelmente um triunvirado de generais assumiria o poder, fecharia o congresso, mandaria prender os principais políticos acusados de corrupção, não poupando, apenas dando uma forma privilegiada ao presidente Temer, aposentaria coercitivamente Gilmar Mendes o mais parcial dos ministros do STF, obrigaria a renúncia dos governadores implicados em corrupção e instauraria um regime de “purga” dos corruptos e de seus aliados e empresários corruptores e contaria, seguramente, com o apoio da imprensa conservadora que sempre apostou num golpe. Isso não é contraditório com a política dos órgãos de segurança dos USA, especialmente sob Donald Trump pois estaria a serviço “full spectrum dominance”. O que viria depois, seria uma incógnita pois o poder é um dos arquétipos mais tentadores da psiqué humana. Os militares poderiam não querer mais sair do poder assumido.

Outra saída, ainda dentro do marco democrático, seria a convocação para esse ano ainda de eleições gerais, pois o sujeito originário do poder é o povo que, ao escolher seus politicos, lhes conferiria legitimidade. A Lava Jato continuaria com sua devassa enchendo os tribunais de processos, nas várias instâncias do judiciário.

Uma outra via seria a anulação pelo TSE da candidatura Dilma-Temer, seguida de uma eleição indireta pelo Parlamento de um novo Presidente. Não saberíamos que força teria ele, uma vez que foi eleito de forma indireta, com uma base parlamentar amplamente desmoralizada e sob vários processos criminais.

Uma terceira via, mais radical, seria inspirada pela Comissão da Verdad e da Reconciliação da África do Sul, coordenada pelo bispo Desmond Tutu que aqui apresento como viável. Ai se tratava de conhecer a verdade sobre os crimes cometidos contra a população negra por dezenas de anos não excluídos também crimes perpetrador por negros.

Três eixos estruturavam o processo: a verdade, a responsabilização e a justiça restaurativa e curativa. Tudo era feito sob o arco de um valor cultural comum que nos falta: o Ubuntu que significa: eu só posso ser eu através de você. Esse valor conferia e confere coesão à sociedade da Africa do Sul, pois de saída supera o individualism, típico de nossa cultura ocidental.

A verdade tinha a dimensão factual:conhecer os fatos como se passaram. Outra dimensão era a pessoal: como a pessoa subjetivamente sentia o crime cometido. A terceira era a social: como a sociedade interpretava e discutia a gravidade dos crimes. Por fim, a verdade restaurativa e criativa: reprovação moral do passado e disposiçãode construir uma nova memória.

A anistia era concedida àqueles que reconheciam publicamente a responsabilidade pelos crimes cometidos. A confissão pública de seus atos era a grande punição moral. É a anistia pela verdade que possui uma função restaurativa e curativa: refazer o tecido social e dispor-se a não mais cometer os mesmos crimes sob o lema: “para que não se esqueça e para que nunca mais aconteça”. Para crimes contra a humanidade havia a punição legal conveniente e não vigorava a anistia.

Discutia-se então e ainda hoje se discute: se a lei não pune os que transgrediram, não desvalorizaria a própria noção do império de lei, base de um Estado de direito?

Aqui, em vista do Ubuntu, de manter a coesão e não deixar chagas abertas, chegou-se a um compromisso pragmático entre a dimensão política e a dimensão do princípio.

Logicamente, existe uma ordem legal, necessária sem a qual a sociedade se torna caótica. Mas ela repousa sobre uma ordem ética e axiológica. Esta foi invocada. Isso implica ir além do discurso jurídico e político e entrar no campo antropológico profundo, dos valores que dão um sentido transcendente à vida pessoal e social. Trata-se de um ato de confiança no ser humano de que ele é resgatável. Foi o que mostrou Hannah Arendt em Jerusalém por ocasião do juízo e condenação de Eichmann, o exterminador de judeus sob o regime nazista. Ela arrolou o valor do perdão, não propriamente como valor religioso, mas como capacidade humana de poder livrar-se da dependência do passado, e inaugurar uma nova página da história coletiva.

Tais procedimentos poder-se-iam aplicar ao caso brasileiro. Marcelo Odebrecht e seu pai Emílio Odebrecht reafirmaram que praticamente todos os políticos (com exceções conhecidas por sua inteireza ética) se elegeram pela via do caixa 2. O caixas 2 é tipificado como crime pelo artigo 350 do Código Eleitoral e pelo artigo 317 do Código Penal. Foi o que tem repetido muitas vezes a Presidente do STF.

Pelo fato, porém, de a corrupção ter-se generalizado e afetado a grande maioria dos partidos, poder-se-ia aplicar uma anistia nos moldes da Comissão da Verdade e da Reconciliação da África do Sul. Todos os que se valeram do caixa 2 viriam a público, confessariam tal crime e manifestariam o propósito de não mais recorrer a este expediente para eleger-se. A revelação de seus nomes e sua confissão pública seria uma verdadeira punição moral.

Outra coisa, entretanto, é a a propina recebida de empresas com promessa de dar-lhes vantagens legais e a corrupção como desvio de dinheiro público, aos milhões e milhões, a ponto de levar à falência um estado como o Rio de Janeiro. Aqui se trata diretamente de crimes que devem ser adequadamente julgados e punidos e mais que tudo recuperar para os cofres públicos o dinheiro roubado. Neste âmbito ocorreram crimes de lesa-humanidade como os 300 milhões desviados da Saúde do Rio de Janeiro que, obviamente, tem prejuficado milhares de pessoas, levando muitas à morte. Para esses cabem as penas mais severas.

Este caminho seria altamente humanitário, reforçaria nossa democracia que sempre foi de baixa intensidade e traria uma atmosfera moral e ética para o campo da política, como busca comum do bem comum.

A atual crise da política brasileira, obnubilando qualquer futuro esperançador, nos obriga a pensar e a busar saídas possíveis que evitem uma convulsão social de consequências imprevisíveis. É o sentido destas minhas reflexões.

Leonardo Boff é ex-professor de ética da UERJ e dr.h.c. em ciência política pela Universidade de Turim, título concedido por Norberto Bobbio.

“Não está fora de cogitação um novo golpe”: Fábio Konder Comparato

Fábio Konder Comparato é um dos nossos juristas mais brilhantes cuja obra jurídica em direitos humanos e ética está à altura das grandes produções dos centros metropolitanos do saber. Sua advertência sobre a situação do Brasil merece ser considerada pois conhece muito bem a lógica perversa da política das oliquarquias e das elites endinheiradas de nosso país, sempre conjugadas com outras forças suplementares. A situação atual em parte provocada por elas é de tal gravidade que até para elas se torna insuportável. Daí sua advertência: a saída da crise poderá ver por uma via extra legal. Que não seja pela via militar, não aventada por ele, mas temida por mim. Vale ler esta pequena entrevista deste sábio:Lboff

Entrevista à Carta Capital a Debora Melo- dia 12/04/2017

Konder Comparato: “Não está fora de cogitação um novo golpe”

O jurista Fábio Konder Comparato não nutre esperança em relação à crise política. A instrução dos processos a partir da lista de Luiz Fachin, relator da Operação Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF), vai demorar.

O governo, de pouca legitimidade, e o Congresso desmoralizado continuarão a aprovar reformas “inconstitucionais”, salvo uma intervenção do Ministério Público ou da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Os políticos buscarão formas de escapar das acusações. E mais: Comparato não descarta um novo golpe de Estado.

CartaCapital: A divulgação da lista do ministro Luiz Fachin tira, de alguma forma, a legitimidade do governo para fazer reformas como a trabalhista e a da Previdência?

Fábio Konder Comparato: Este governo nunca teve legitimidade. Vivemos, no mundo todo, uma situação de total falta de rumo da política. Do lado da direita, a fachada democrática do sistema capitalista rui e todos percebem que não têm nenhum poder, nem mesmo de livre eleição de representantes.

Do lado da esquerda, a ideia fundamental de que haveria uma luta de classe entre a burguesia e o proletariado torna-se inaplicável, uma vez que o proletariado em si praticamente não existe como força política.

CC: O senhor disse que o governo nunca teve legitimidade. E o Congresso, que será o responsável pela aprovação dessas reformas? Há 71 parlamentares na lista.

FKC: Grande parte dessas reformas é inconstitucional. Eles não querem de maneira nenhuma enfrentar esse problema e, se enfrentarem, terão o Judiciário a favor.

CC: Os projetos continuam a tramitar…

FKC: Exato. Trata-se, porém, de saber se haverá ou não uma reação por parte do Ministério Público ou da OAB, por exemplo.

CC: E no Congresso? A discussão e a aprovação dessas reformas pode perder força com a divulgação da lista?

FKC: Os parlamentares vão empurrar com a barriga e fazer o possível para a Lava Jato não avançar em relação a eles. Agora será feita a instrução desses inquéritos. Vai levar um tempo considerável. É bem possível outra intervenção extralegal para impedir a continuação disso tudo. Não está fora de cogitação um novo golpe de Estado.

CC: De onde viria esse golpe?

FKC: Da oligarquia, basicamente. A oligarquia no Brasil é composta de dois grupos intimamente associados: os empresários e os proprietários, de um lado, e os principais agentes do Estado, do outro. Evidentemente a Lava Jato desmoraliza ambos os grupos.

CC: Qual seria uma solução possível para a crise política?

FKC: A solução não é rápida. Trata-se de lutar contra dois fatores fundamentais de organização da sociedade: de um lado, o que eu chamo de poder oligárquico, ou seja, o poder da minoria rica, estreitamente ligada às instituições do Estado.

De outro, a mentalidade coletiva, que não é favorável à democracia. Ela nunca existiu no Brasil, pois o povo se considera inepto, incapaz de tomar grandes decisões. Tivemos quase quatro séculos de escravidão, o que criou na mentalidade popular aquela ideia fundamental de que quem pode, manda, obedece quem tem juízo.