A difícil, mas necessária travessia: Cândido Grzybowski- Ibase

Cândido Grzybowski  é Sociólogo, diretor do Ibase. A política brasileira se encontra num voo cego, sem sabermos exatamente que rumo vai tomar. Momentos assim fazem-se urgentes pensadores criativos que, a partir de outros pressupostos e de novos valores, repensam os destinos do país. Na esteira do Betinho que fundou o Ibase, Cândido sugere caminhos viáveis que poderão resgatar a democracia mais participativa, sustentável e socialmente mais justa. Vale a pena escutar esta voz pois traz luzes que iluminam uma nova direção para o Brassil, vindo de baixo, dos movimentos sociais, de políticos éticos  que se preocupam mais com o bem de todos do que defender os benefícios particulares: Lboff

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Neste começo de 2016, me recuso a especular e elaborar prognósticos sobre o que poderá acontecer como desdobramento da enorme crise político-econômica que estamos vivendo, particularmente aqui no Brasil. Prefiro pensar no que é necessário fazermos, a partir da diversidade de sujeitos coletivos que conformamos como cidadania, para serem criadas possibilidades políticas de revitalização da nossa democracia. Estamos diante da necessidade de constituir uma nova hegemonia, de um novo imaginário mobilizador, de uma nova onda democratizadora da política e da economia, que seja capaz de transformar situações através da disputa democrática pautada por valores e princípios éticos dos projetos e rumos para o país. Esta é uma condição sine qua non para uma maior emancipação da cidadania diante da ditadura dos mercados e da especulação financeira, que quer ditar nosso futuro, nosso modo de viver em busca de bem-estar e sustentabilidade, compartindo territórios e riquezas entre todas e todos. O fato é que precisamos agir e ousar desde o aqui e o agora, porque o futuro e os caminhos a ele se fazem no caminhar.

Por trás daquela fumaça toda e confusão em Brasília, onde quase nada se vê, precisamos identificar as forças obscuras que estão determinando o jogo político. Estamos encurralados diante de uma nova investida do pensamento neoliberal da desconstrução e flexibilização das políticas e instituições que garantem direitos. Mais privatização e menos estatais, mais abertura comercial com exploração de insustentáveis “vantagens comparativas” em agronegócio e produtos primários, mais facilidades de acesso a recursos naturais e menos bens comuns como áreas de preservação, territórios indígenas e de povos tradicionais, menos regulação democrática como propósito último. Enfim, os interesses e as forças políticas do neoliberalismo entre nós querem usar o Estado para dar mais poder ao próprio mercado. Aproveitando as dificuldades do governo Dilma, que ganhou as eleições mas não construiu a hegemonia necessária, e usando a alavanca da crise fiscal, trata-se reduzir a própria capacidade do Estado de formular, financiar e executar políticas para o bem de todos.

O problema está longe de ser o impeachment ou não, pois a crise tem uma questão de hegemonia no seu cerne. O futuro que o neoliberalismo aponta é o aprofundando do mesmo sistema do capitalismo socialmente excludente e ambientalmente predador. Porém, o máximo que poderemos alcançar é uma posição de nação subserviente. Há uma grande verdade histórica que evitamos de ver: esse sistema supõe que só uns poucos países possam ganhar. Para haver outros, países que ocupam posições no pequeno clube de desenvolvidos e o imperialismo que os suporta tem que cair. Não há lugar para todo mundo no desenvolvimento do capitalismo, como nos lembrava Celso Furtado nas suas últimas obras. A opção democrática é exatamente o transitar, sem guerra e nem barbárie, para modelos políticos e economias adequadas que priorizam a justiça socioambiental e não a acumulação privada de riquezas.

O incrível, entre nós, são um montão de “unanimidades burras”, como chamava Nelson Rodrigues. Estas unanimidades, particularmente no seio das classes dominantes, são verdadeiras viseiras que não nos permitem ver mais longe e o que realmente importa. Por exemplo, nem está na agenda pública o debate do fato que um punhado de detentores da dívida pública brasileira consome aproximadamente metade do orçamento federal recebendo juros estratosféricos, situação criada em última análise pela própria política monetária, que, assim, só alimenta mais e mais a tal crise fiscal do Estado. E ainda querem atribuir às conquistas cidadãs em educação, saúde e previdência social, legitimadas e instituídas na Constituição de 1988, como as fontes da crise fiscal que atravessa o Estado brasileiro. O que não dá é para continuar a apostar na possibilidade do Brasil ser um sócio submisso e dócil de um desenvolvimento capitalista concentrador de riquezas e destruidor do próprio planeta, comandado pelo cassino global de grandes corporações e de especuladores, que criam riqueza financeira fictícia de mais de 10 vezes o PIB mundial. Mas como sabem se remunerar estes donos do mundo sem nada fazer!

Estamos diante de uma ameaça real no aqui e agora. Os grandes interesses econômico-financeiros já mercantilizaram e contaminaram a política entre nós. Um dos traços mais evidentes da crise política atual são as lideranças investidas de poder e as bancadas no Congresso a serviço de interesses privados. Aliás, o nosso sistema partidário e nosso Congresso não expressam a cidadania real em sua diversidade. Eles estão contaminados pela enorme privatização operada na política. Campanhas eleitorais entre nós viraram marketing, de venda de imagens e discursos vazios, sem debate de ideias e projetos para o país. Mais, a maioria dos investidos de mandatos de representação não tem lealdade com eleitoras e eleitores que os elegeram, são leais aos seus financiadores.

Será que as operações em curso, deflagradas pela Promotoria Pública, Polícia Federal e Justiça Federal vão ao menos por um freio neste assalto da política e do patrimônio público? De toda forma, mudança real da política não virá daí. Somos nós mesmos que temos que resgatar a política, o espaço comum de construção de sentidos e projetos, de exercer o papel instituinte e constituinte da cidadania, de gestão da nossa diversidade de sujeitos com princípios de liberdade e igualdade mutuamente reconhecidos. Política na democracia só funciona como bem comum, como bem de todos e todas. Política não pode ser um mercado de troca de favores, alimentador do patrimonialismo que, como câncer, corrói o próprio espaço da política, os partidos, a representação e o Estado, em última análise. Mas a política não nasce comum, pelo contrário, torna-se comum pela ação democrática da cidadania e de seus representantes eleitos, que recolocam os comuns no centro. A reforma política que precisamos se faz na rua, na comunidade, nos espaços de encontro, no trabalho, no sindicato, nos movimentos sociais e nas organizações de cidadania ativa, na universidade. Cidadania em ação direta é condição necessária da política como bem comum, enfim. Mas para tornar-se força irresistível precisa criar poderosos movimentos políticos de cidadania que emancipem a política da ditadura privatizante e mercantilizante imposta pelos mercados e lhe deem sentido de bem comum. Aí entra a renovação do ativismo cidadão e da militância através de redes, fóruns, conselhos e partidos, pelo debate público, pela criação e disputa de imaginários mobilizadores, pelas eleições. Não basta uma reforma na legislação, mesmo ela sendo necessária. A condição indispensável para nova onda política democrática é a cidadania em ação. Identifico aí o nosso primeiro grande desafio para criar possibilidades de outro Brasil, desde aqui e agora.

O que fazer, então? É evidente que de Brasília, do poder central, nada virá! Tão pouco virá da plêiade de partidos existentes, em geral oportunismos de ocasião ou, quando tendo bases sociais, verdadeiras máquinas burocráticas sem mais condições de disputar hegemonia. Nos resta olhar à nossa volta, ao nosso cotidiano, ao território em que vivemos como nosso lugar. Precisamos reconstruir espaços de encontro e debate, de incansáveis debates que vão criando novas solidariedades, com renovados valores e, sobretudo, com ideias que podem dar sentido e mobilizar a cidadania em círculos crescentes. Não foi isto que nós, das gerações que viveu os anos de chumbo da ditadura, fizemos e acabamos alimentando o irresistível movimento da redemocratização? Os tempos e as gentes são outros. A história não se repete. Mas o aprendizado do fazer política a partir de situações do cotidiano pode ser resgatado como um bem comum da cidadania e voltar a ser útil para novo tecido associativo, novos movimentos, novas organizações, na atualidade. Por sinal, é no cotidiano à nossa volta que podemos encontrar resistências e insurgências cidadãs que são verdadeiras sementes políticas de um amanhã mais democrático e participativo na construção de uma sociedade mais justa e sustentável. Eis aí um segundo desafio, mas que depende mais de nosso engajamento cidadão do que de outra coisa.

Este olhar atento e solidário às resistências e insurgências cidadãs nos territórios em que vivemos podem ser o pilar de uma agenda mobilizadora que, de baixo para cima, alimente uma poderosa onda democratizadora. Vejo as resistências e insurgências que pipocam pelo Brasil nos últimos anos como tendo a defesa e a promoção dos bens comuns como algo central. Podem ser resistências urbanas, como favela é cidade, barreiras ao assalto de espaços na cidade pelo capital imobiliário, a luta por transporte e a mobilidade urbana coletiva como direito de cidadania e como prioridade sobre o transporte individual e as empresas privadas que o transformam em negócio, a luta pela água e o saneamento como bens comuns, a valorização da produção cultural popular e de rua, escolas e saúde pública “padrão Fifa”, entre tantas outras lutas. Muitas delas e cada vez mais são resistências nos territórios rurais como comuns humanizados e criados ao longo de gerações, seja contra o agronegócio predador e concentrador, seja à grande mineração e os grandes projetos de interesse dos grandes conglomerados empresariais, sem respeito nenhum às populações locais e seus comuns. Temos, ainda, um debate emergente que tenta por em questão as empresas públicas como bens comuns. O fato de haver muito a mudar neste terreno, para que as estatais funcionem como bem comum de toda a cidadania, não pode obscurecer que o ataque às estatais visa a transferência generosa, como no passado recente, de patrimônio público a grupos privados. Desmontar a capacidade indutora da economia nas mãos do Estado é fácil, mas vai limitar enormemente a própria capacidade de regulação democrática da economia. Todas estas agendas emergentes, de resistências e insurgências, devem entrar no nosso campo de análise e do novo ativismo cidadão que precisamos construir para outro futuro do nosso Brasil. Está aí a terceira prioridade que aponto.

Tem mais! Penso que temos um grande desafio para ampliar a esfera pública e o debate público com um novo imaginário mobilizador. Trata-se da comunicação como espaço estratégico do fazer a partir de hoje o futuro que queremos e apostamos como possível. Brigamos muito pela democratização da comunicação, visando em particular o verdadeiro monopólio privado, que tenta fazer nossas cabeças através dos grandes meios. A comunicação é um bem comum estratégico em qualquer democracia que tenha sentido e capacidade de transformação. Como pouco conseguimos nos 30 anos da onda democratizadora que se esgota, tal luta continua válida, mas talvez venha perdendo importância. Devido às novas tecnologias de informação e comunicação – as TICs – está em curso uma verdadeira revolução nas comunicações. As “redes sociais” minam o monopólio privado de televisão, rádio e jornais numa velocidade espantosa. Estamos diante de uma fecunda revolução anárquica, quase sem controle, onde podemos nos informar e nos comunicar da forma mais livre possível. O problema é seguir isto tudo e, sobretudo, garimpar as sementes de bom senso presentes aí – como dizia Gramsci no seu tempo. Já existem esforços de cidadania, alguns ancorados em instituições de reconhecido compromisso ético e político com a democracia, que tentam ajudar na garimpagem, organizando a informação e a circulação de análises que arrancam sentido do cotidiano aparentemente anárquico. Precisamos apoiar tais esforços como resistências e insurgências de cidadania portadores de outro futuro. Isto podemos fazer sem depender de partidos ou mediadores. Basta nos reconhecermos como cidadãs e cidadãos que compartilham a mesma busca de novo imaginário mobilizador.

Enfim, sei que o que proponho está longe de ser suficiente, mas pode ser um começo que nos tire da total falta de perspectivas do debate dominante e que transforme nosso desconforto com a atual situação em algo que nos permita mover-se como cidadania. Quão longo será o processo de gestação de uma nova onda democratizadora é difícil prever. Aliás, escapa ao controle. Só é possível afirmar que foi assim que se gestaram verdadeiras revoluções cidadãs na história recente da humanidade. E isto está ao alcance do nosso que fazer político.

Que no fim deste ano, 2016 possa ser celebrado e lembrado no futuro como o ano de começo da virada! Boa sorte para nós, pois ela também faz falta muita vezes. O mar está revolto, mas a travessia necessária pode se tornar possível pelo nosso engajamento com ousadia e determinação.

4/1/2016

A sociedade do cansaço e do abatimento social

Ha uma discussão pelo mundo afora sobre a “sociedade do cansaço”. Seu formulador principal, é um coreano que ensina filosofia em Berlim, Byung-Chul Han, cujo livro com o mesmo título acaba de ser lançado no Brasil (Vozes 2015). O pensamento nem sempre é claro e, por vezes discutível, como quando se afirma que “cansaço fundamental” é dotado de uma capacidade especial de “inspirar e fazer surgir o espírito” (cf. Byung-Chul Han, p. 73). Independentemente das teorizações, vivemos numa sociedade do cansaço. No Brasil além do cansaço sofremos um desânimo e um abatimento atroz.

Consideremos, em primeiro lugar, a sociedade do cansaço. Efetivamente, a aceleração do processo histórico e a multiplicação de sons, de mensagens, o exagero de estímulos e comunicações, especialmente pelo marketing comercial, pelos celulares com todos os seus aplicativos, a superinformação que nos chega pelas midias sociais, nos produzem, dizem estes autores, doenças neuronais: causam depressão, dificuldade de atenção e uma síndrome de hiperatividade.

Efetivamente, chegamos ao fim do dia estressados e desvitalizados. Nem dormimos direito, desmaiamos.

Acresce ainda o ritmo do produtivismo neoliberal que se está impondo aos trabalhadores no mundo inteiro. Especialmente o estilo norteamericanmo cobra de todos o maior desempenho possível. Isso é regra geral também entre nós. Tal cobrança desequilibra emocionalmente as pessoas, gerando irritabilidade e ansiedade permanente. O número de suicídios é assustador. Resuscitou-se, como já referi nesta coluna, o dito da revolução de 68 do século passado, agora radicalizado. Então se dizia: “metrô, trabalho, cama”. Agora se diz: “metrô, trabalho, túmulo”. Quer dizer: doenças letais, perda do sentido de vida e verdadeiros infartos psiquicos.

Detenhamo-nos no Brasil. Entre nós, nos últimos meses, grassa um desalento generalizado. A campanha eleitoral turbinada com grande virulência verbal, acusações, deformações e reais mentiras e o fato de a vitória do PT não ter sido aceita, suscitou ânimos de vindita por parte das oposições. Bandeiras sagradas do PT foram traídas pela corrupção em altíssimo grau, gerando decepção profunda. Tal fato fez perder costumes civilizados. A linguagem se canibalizou. Saiu do armário o preconceito contra os nordestinos e a desqualificação da população negra. Somos cordiais também no sentido negativo dado por Sergio Buarque de Holanda: podemos agir a partir do coração cheio de raiva, de ódio e de preconceitos. Tal situação se agravou com a ameaça de impeachment da Presidenta Dilma, por razões discutíveis.

Descobrimos um fato, não uma teoria, de que entre nós, vigora uma verdadeira luta de classes. Os interesses das classes abastadas são antagônicos aos das classes empobrecidas. Aquelas, historicamente hegemônicas, temem a inclusão dos pobres e a ascensão de outros setores da sociedade que vieram ocupar o lugar, antes reservado apenas para elas. Importa reconhecer que somos um dos países mais desiguais do mundo, vale dizer, onde mais campeiam injustiças sociais, violência banalizada e assassinatos sem conta que equivalem em número à guera do Iraque. Temos ainda centenas de trabalhadores vivendo sob condição equivalente à escravidão.

Grande parte destes malfeitores se professam cristãos: cristãos martirizando outros cristãos, o que faz do cristianismo não uma fé mas apenas uma crença cultural, uma irrisão e uma verdadeira blasfêmia.

Como sair deste inferno humano? A nossa democracia é apenas de voto, não representa o povo mas os interesses dos que financiaram as campanhas, por isso é de fachada ou, no máximo, de baixíssima intensidade. De cima não se há de esperar nada pois entre nós se consolidou um capitalismo selvagem e globalmente articulado o que aborta qualquer correlação de forças entre as classes.

Vejo uma saída possível, a partir de outro lugar social, daqueles que vem debaixo, da sociedade organizada e dos movimentos sociais que possuem outro ethos e outro sonho de Brasil e de mundo. Mas eles precisam estudar, se organizar, pressionar as classes dominantes e o Estado patrimonialista, se preparar para eventualmente, propor uma alternativa de sociedade ainda não ensaiada mas que possui raízes naqueles que no passado lutaram por um outro Brasil e com projeto próprio. A partir daí formular outro pacto social via uma constituição ecológico-social, fruto de uma constituinte exclusiva, uma reforma política radical, uma reforma agrária e urbana consistentes e a implantação de um novo design de educação e de serviços de saúde. Um povo doente e ignorante nunca fundará uma nova e possível biocivilização nos trópicos.

Tal sonho pode nos tirar do cansaço e do desamparo social e nos devolver o ânimo necessário para enfrentar os entraves dos conservadores e suscitar a esperança bem fundada de que nada está totalmente perdido, mas que temos uma tarefa histórica a cumprir para nós, para nossos descendentes e para a própria humanidade. Utopia? Sim. Como dizia Oscar Wilde: “se no nosso mapa não constar a utopia, nem olhemos para ele porque nos está escondendo o principal”. Do caos presente deverá sair algo bom e esperançador, pois esta é a lição que o processo cosmogênico nos deu no passado e nos está dando no presente. Em vez da cultura do cansaço e do abatimento teremos uma cultura da esperança e da alegria.

Leonardo Boff, colunista do JB on line e escritor

The Earth will defeat capitalism

There is an indisputable and sad fact: capitalism as a mode of production and its political ideology, neoliberalism, are so thoroughly established globally that it seems to make any real alternative impossible. It has in fact occupied every space and aligned almost every country to its global interests. Since society has been commercialized and turned everything, even the most sacred things, such as human organs, water and the capacity of flowers to be pollinated, into an opportunity to gain wealth, most countries feel obliged to participate in the globally integrated macro-economy and much less inclined to serve the common good of their people.

Democratic socialism in its advanced version of eco-socialism is an important theoretical option, but has a small worldwide social base of implementation. The thesis of Rosa Luxemburg in her book, Reform or Revolution (Reforma o Revolución), that «the theory of the collapse of capitalism is at the heart of scientific socialism» has not become reality. And socialism has collapsed.

The fury of capitalist accumulation has reached the highest levels of its history. Practically 1% of the wealthy population of the world controls nearly the 90% of its wealth. According to the reputable NGO Oxfam Intermon, in 2014, 85 members of the super-rich had the same amount of money as 3.5 billion of the poorest in the world. This level of irrationality and inhumanity speaks for itself. We are living explicitly barbaric times.

Until now, the usual crises of the system occurred in the peripheral economies, but since the crisis of 2007/2008, it exploded in the heart of the principal countries, in the United States and Europe. Everything seems to indicate that this is not a usual crisis which can always be solved, but that this time it is about a systemic crisis that destroys capitalism’s ability to reproduce itself. The solutions put forward by the countries that have hegemony in the global process are always alike: more of the same. That is, to continue with the limitless exploitation of natural goods and services, guided by a clearly material (and materialistic) measure, such as the gross national product, GNP. And woe to those countries whose GNP decreases.

This growth worsens the state of the Earth even more. The price of trying to reproduce the system is what its spokesmen call «externalities» (things that do not enter into the business accounting). There are principally two of these: a degrading social injustice with high unemployment and growing inequality; and a threatened ecological injustice with the degradation of whole ecosystems, the erosion of biodiversity (with the extinction of between 30-100 thousand species of living beings each year, according to data of the biologist E. Wilson), the growing global warming, the scarcity of drinking water and general unsustenability of the life-system and of the Earth-system.

These two aspects are bringing the capitalist system to its knees. If it wanted the well being it offers the rich countries to be universal, we would need at least three Earths equal to the one we have, which clearly is impossible. The level of exploitation of the «goodness of nature», as the Andean people call the natural goods and services, is such that this September the «Earth Over-Reach Day» occurred. In other words, the day when the Earth no longer has the capacity, by herself, to meet human demands. She needs a year and a half to replace all that is taken from her in one year. She has become dangerously unsustainable. Either we restrain the voracity of wealth accumulation to let her rest and replenish herself, or we must prepare for the worst.

Since it is about a living super-Being (Gaia), finite, with scarce goods and services, and now infirm, but still combining the elements that guarantee the physical, chemical and ecological bases for reproducing life, this process of excessive degradation could cause an ecological-social collapse of Dantesque proportions.

The consequence would be that the Earth would definitively defeat the capitalist system, which would be incapable of reproducing itself, with its materialist culture of limitless and individualistic consumption. What we historically have been unable to accomplish by alternative processes (that was the goal of socialism), nature and the Earth would accomplish. The Earth, in fact, would free herself from the cancer that threatens to metastasize throughout the whole organism of Gaia.

Meanwhile, our task is within the system, to widen the openings, exploring all its contradictions to guarantee the essentials for subsistence: nourishment, work, housing, education, basic services and some free time, especially to the humble peoples of the Earth. This is being done in Brazil and in many other countries. From the bad, we must take only the necessary minimum for the continuity of life and of civilization.

And, also, we must pray and be prepared for the worst.
Leonardo Boff is theologian and writter.
Free translation from the Spanish by
Servicios Koinonia, http://www.servicioskoinonia.org.
Done at REFUGIO DEL RIO GRANDE, Texas, EE.UU.

ANNO NEFASTO. MA NON ANNULLERA’ LA SPERANZA

L’anno che finisce merita questa qualifica latina: annus nefastus. Altri lo chiamano annus horribilis. Sono avvenute tante disgrazie che oltre a spavento ci hanno causato preoccupazioni.

La prima preoccupazione è il Giorno del Sovraccarico ossia del Sorpasso della terra (Earth Overshoot Day) avvenuto il giorno 13 di settembre. Questo significa: in quel giorno la Terra ha mostrato che il suo stock di risorse per mantenere il sistema-vita o sistema-Terra aveva oltrepassato i limiti, aveva perduto la biocapacità. La Terra è il presupposto di tutti i nostri progetti. Siccome la Terra è un Super-Ente vivo, i segnali che ci invia per dire che non ce la fa più, sono la siccità e le alluvioni, gli uragani e l’aumento della violenza nel mondo. Tutto è connesso con tutto, come ci ripete insistentemente Papa Francesco nella sua Enciclica.

Associato a questo fatto è illusorio il consenso ottenuto il giorno 12 dicembre durante la COP 21 di Parigi: il riscaldamento dovrebbe rimanere sotto i 2°Celsius avviandosi verso 1,5°C fino alla metà del secolo. Questo implica un cambio di paradigma di civiltà non più basata su combustibili fossili, consapevoli che tutte le energie alternative sommate non arrivano al 30% del fabbisogno. Una simile conversione, le grandi compagnie petrolifere e i fornitori di gas e carbone non sono in grado di farla e nemmeno la vogliono. Idea vuota.

Il terzo evento nefasto è la violenza terroristica in Europa e in Africa. Le migliaia di rifugiati e la guerra che le potenze guerrafondaie, tutte insieme, muovono contro lo Stato islamico e gruppi armati in Siria. Fonti sicure ci garantiscono stragi di migliaia di civili innocenti.

Altro evento nefasto è la trasformazione degli USA in uno Stato terrorista. Con le loro 800 basi militari sparse nel mondo intero, intervengono direttamente o indirettamente, là dove giudicano che i loro interessi imperiali sono minacciati. Internamente, il “Patriot Act” non è stato abolito e rappresenta la sospensione dei diritti fondamentali. Non è senza ragione che la polizia statunitense ha ucciso nel 2015 circa mille persone disarmate, il 60 per cento delle quali erano neri o ispanici.

Altro fatto orribile è la nascita, in Brasile, di un’onda d’odio, di rabbia e di preconcetto dopo le elezioni presidenziali del 2014. Non è da meravigliarsi, dato che il Brasile è un paese pieno di contraddizioni come bene aveva visto Roger Bastide (Brésil, terre des contrastes, Hachette, 1957), ma prima di lui Gilberto Freyre che ha scritto: “Considerata nel suo insieme, la formazione dello Stato brasiliano è stata un processo di equilibrio tra antagonisti”.

Questo antagonismo, quasi sempre mantenuto sotto il mantello ideologico dell’ “uomo cordiale“, è uscito adesso dall’armadio e appare chiaramente in modo speciale attraverso i media sociali. L’uomo cordiale che Sergio Buarque de Holanda ha ripreso dallo scrittore Ribeiro Couto è generalmente compreso male. Non ha niente a che vedere con la civiltà e la buona educazione. Ha invece a che vedere con la nostra intolleranza ai riti sociali e ai salamelecchi; noi stiamo dalla parte dell’informalità e del contatto personale.

Si tratta di un comportamento brasiliano che si fonda più sul cuore che sulla ragione. Ora, dal cuore nascono gentilezza e ospitalità. Ma come correttamente sottolinea Buarque de Holanda“, l’inimicizia può essere benissimo altrettanto cordiale quanto l’amicizia, visto che l’una e l’altra nascono dal cuore” (nota in calce alla pag.157 da p.106-107).

Questo equilibrio fragile si è perso nel 2015 e ha fatto irruzione la cordialità negativa come odio, preconcetto e rabbia contro i militanti del PT, contro i Nordestini e i Neri. E nemmeno le figure costituzionalmente rispettabili come la presidentessa Dilma Rousseff sono state risparmiate. Internet ha aperto le porte dell’inferno dell’ingiuria, delle parolacce, dell’offesa diretta alle persone, una contro l’altra.

Tali espressioni sono rivelatrici del nostro ritardo, e manifestano assenza di cultura democratica, intolleranza e lotta di classe. Non si può negare che siano scattati, in certi settori, rabbia dei poveri e di coloro che sono saliti socialmente, grazie a politiche sociali compensatorie (ma scarsamente emancipatorie) del governo PT. Gli antagonismi brasiliani sono apparsi chiaramente, non armonizzati e ora a briglie sciolte uno contro l’altro in lotta vera (chiamatela classi, interessi, potere, non importa). Ma c’è uno strappo sociale in Brasile: per ricucirlo ci vorrà molto tempo e impegno. A mio modo di vedere, soltanto a partire da una reale democrazia partecipativa, superando l’attuale farsa, che rappresenta piuttosto gl’interessi dei gruppi beneficiati che non quelli del popolo come un tutto.

Di positivo c’è la nostra sovrabbondanza di speranza che supera l’annus nefastus nella direzione di un annus admirabilis. Che il Signore ci ascolti.

*Leonardo Boff, teologo e columnist del JB on line.

Trad. di Romano Baraglia e Lidia Arato