O novo Presidente da Congregação da Doutrina da Fé louva a Teologia da Libertação

 

É bom deixar-se surpreender. Quem diria que o novo Presidente da Congregação para a Doutrina da Fé (a ex-Inquisição), o bispo Gerhard Müller, recorde suas experiências no Peru e seu conctato com um dos pais da Teologia da Libertação, o peruano Gustavo Gutiérrez. Confessa que este tipo de teologia mudou a sua cabeça até os dias de hoje. Pena que  se restrinja somente a Gustavo Gutiérrez  e não se refira a toda uma geração de teólogos e teólogas da libertação que estão por ai, não só no Brasil, na América Latina, na Afria, mas também nos USA e na Europa. Ela continua viva, como uma das correntes mais fortes e atuantes da teologia universal e ecumênica. Esperamos que este novo Presidente desfaça  a  suspeição e mesmo a perseguição que muitos destes teólogos e teólogas são ainda submetidos por certos setores do Vaticano e dos episcopados nacionais. Meu sentimento do mundo me aconselha  a ficar um pouco com um pé atrás. Quando o então Card. Joseph Ratxinger foi nomeado para este mesmo cargo, escrevi-lhe uma carta, amigos que éramos, felicitando-o e dizendo da alegria de termos um grande teólogo na frente de uma instituição que nunca gozou de boa fama pelas perseguições e condenações que fez em sua já longa história.  Quem diria que, anos depois, esse mesmo teólogo,  como  Cardeal, escrevesse dois documentos duros contra essa teologia da libertação e me convocasse para me explicar na mesma sala e sentado sobre a mesma cadeira onde sentaram Galileo Galilei e Giordano Bruno e outros muito mais importantes e notáveisd que eu, teólogo menor e periférico. Espero que este novo Presidente seja fiel a suas próprias palavras e boas experiências que conta neste artigo, escrito em 2009 e publicado no site espanhol Religión Digital de  08/09/2012 sob o titulo “Minhas experiências sobre a Teologia da Libertação. No Brasil foi publicado pelo IHU de 15/09/2012.

Republico aqui este artigo, pois não são poucos os que criticam e até rejeitam este tipo de teologia. Eles têm todo o direito de fazê-lo. Mas é bom ler  o testemunho qualificado de alguém que é  a mais alta autoridade doutrinária da Igreja. Ele fala de modo claro e didático sobre o que pretende a Teologia da Libertação. E dizem por ai que ela é ainda mais atual que nunca, dado o aumento dos pobres no mundo e a gravidade da paixão do Grande Pobre que é a Terra crucificada, todos  gritando ao céu por vida e libertação.  LBoff
***************************

Teologia da Libertação está, para mim, vinculada ao rosto de Gustavo Gutiérrez. Em 1988 participei, junto com outros teólogos da Alemanha e da Áustria e a convite do atual diretor da MisereorJosé Sayer, de um curso sobre este tema que aconteceu no já então famoso Instituto Bartolomé de las Casas. Naquele tempo, eu já estava há dois anos lecionando Dogmática na Universidade Ludwig-Maximilian de Munique.

Como professor de Teologia me eram naturalmente familiares os textos e conhecidos os representantes deste movimento teológico, surgido na América Latina, mas sobre o qual se discutia em todo o mundo, sobretudo por conta das observações, em parte críticas, da Comissão Internacional de Teólogos da Congregação para a Doutrina da Fé e as declarações de 1984 e 1986 da mesma Congregação, presidida pelo cardeal Joseph Ratzinger, nosso atualPapa Bento.

Com o seminário dirigido pelo Gustavo Gutiérrez se produziu em mim um giro da reflexão acadêmica sobre uma nova concepção teológica para a experiência com os homens para o que havia sido desenvolvida essa teologia. Para o meu próprio desenvolvimento teológico foi decisiva esta inversão no enfoque de prioridade da teoria à prática para um proceder em três passos: “ver, julgar e agir”.

Os participantes desse seminário chegávamos abarrotados de inumeráveis conhecimentos sobre a origem e o desenvolvimento da Teologia da Libertação e por isso discutimos sobretudo sobre a análise da situação à qual se lhe reprovava uma ingênua proximidade com o marxismo. Eram-nos familiares (1) as declarações das Conferências Episcopais Latino-Americanas de Medellín e de Puebla. Daí o debate de se nessas declarações se pretendia fazer do cristianismo uma espécie de programa político de libertação, no qual, em determinadas circunstâncias, se tolerava inclusive a violência revolucionária contra pessoas e coisas. Alguns suspeitavam que a Teologia da Libertação servia para legitimar a violência terrorista a serviço da legítima revolução, enquanto outros a usavam como argumento para esse fim.

A primeira coisa que Gustavo nos ensinou foi compreender que aqui se trata de teologia e não de política. Na linha das grandes encíclicas sociais dos papas também marcou de forma clara a diferença entre Teologia da Libertação e ética social católica. Enquanto a ética social se fundamenta no direito natural e pretende assegurar as bases de um estado social e justo apoiando-se nos princípios da personalidade, subsidiariedade e solidariedade, no caso da Teologia da Libertação trata-se de um programa prático e teórico que pretende compreender o mundo, a história e a sociedade e transformá-los à luz da própria revelação sobrenatural de Deus como salvador e libertador do homem.

Como se pode falar de Deus diante do sofrimento humano, dos pobres que não têm sustento para seus filhos, nem direito à assistência médica, nem acesso à educação, excluídos da vida social e cultural, marginalizados e considerados uma carga e uma ameaça para o estilo de vida de uns poucos ricos?

Esses pobres não são uma massa anônima. Cada um deles tem um rosto. Como posso, como cristão, sacerdote ou leigo, quer seja na evangelização ou no trabalho científico-teológico, falar de Deus e de seu Filho que se fez homem e morreu por nós na cruz e dar testemunho d’Ele, se não quero construir outro sistema teológico junto ao já existente, mas dizer ao pobre concreto, face a face: Deus te ama e a tua dignidade imperdível tem seu fundamento em Deus? Como se torna concreta a consideração bíblica na vida individual e coletiva se os direitos humanos têm sua origem na criação do homem à imagem e semelhança de Deus?

Minha permanência no Peru em 1988 está ligada não apenas ao seminário de Gustavo Gutiérrez, no qual vi claramente qual é o ponto de partida teológico da Teologia da Libertação, mas também ao encontro vivo com os pobres dos quais havíamos falado. Durante algum tempo vivemos com os moradores de bairros pobres de Lima e depois também com os camponeses da paróquia de Diego Irarrazaval no lago Titicada. A partir de então estive outras 15 vezes no Peru e em outros países da América Latina, às vezes meses inteiros durante as férias de semestre na Alemanha.

Minha participação em cursos teológicos, especialmente nos seminários de Cuzco, Lima e Callao, entre outros, esteve sempre acompanhada de longas semanas de trabalho pastoral nas regiões andinas, especialmente em Lares, na arquidiocese de Cuzco. Ali os rostos adquiriram um nome e converteram-se em amigos pessoais, experiência esta de Comunhão universal no amor a Deus e ao próximo, o que deve ser a essência da Igreja católica. Finalmente, foi para mim uma profunda alegria quando, em 2003, em Lares, na arquidiocese de Cuzco, sendo já bispo, pude administrar o sacramento da Confirmação a jovens cujos pais conhecia já desde há tempo e que eu mesmo havia batizado.

Essa é a razão pela qual eu não falo da Teologia da Libertação de forma abstrata e teórica nem menos ideológica para bajular o grupo eclesial progressista. De igual modo também não temo que isso possa ser interpretado como falta de ortodoxia. A teologia de Gustavo Gutiérrez, independente do ângulo a partir do qual se olha, é ortodoxa porque é ortoprática e nos ensina o adequado agir cristão porque procede da verdadeira fé.

Uma rápida leitura do livro Beber em seu próprio poço (2) coloca de manifesto que a Teologia da Libertação se fundamenta em uma profunda espiritualidade. Seu substrato é o seguimento de Cristo, o encontro com Deus na oração, a participação na vida dos pobres e dos oprimidos, a disposição para escutar seu grito pela liberdade e pelo esplendor dos filhos de Deus; é participar da sua luta para acabar com a exploração e a opressão, de sua ânsia pelo respeito aos direitos humanos e de sua exigência de participação justa na vida cultural e política na democracia. Trata-se da experiência de que não se é estranho no próprio país, mas que a Igreja e o Estado querem ser abrigos e fiadores da liberdade espiritual e cívica. A meta é o início e o acompanhamento de um processo dinâmico que quer libertar o homem de sua dependência cultural e política.

Do mesmo modo que Gustavo com sua pessoa, seu testemunho espiritual, seu compromisso com os pobres e suas magníficas reflexões deu, na nossa época, um rosto à Teologia da Libertação, assim também nos mostrou de maneira impressionante a pessoa de Bartolomé de las Casas que, no século XVI e ao contrário de seu contemporâneoColombo, não descobriu um país e tomou posse dele para a Coroa espanhola, mas que descobriu a injusta opressão e a humilhação da população indígena e se propôs a levar aos homens o reino de Deus, no qual já não haverá senhores nem escravos, mas apenas irmãos e irmãs com os mesmos direitos.

Las Casas chegou supostamente às Índias ocidentais, o continente descoberto por Colombo que hoje chamamos de América, de aventureiro e cavaleiro da fortuna. Da perspectiva do descobridor da América tratava-se de territórios que podiam ser tomados como posse para a Coroa da Espanha e cujas riquezas e habitantes estavam privados de todo direito e, portanto, expostos à agressão da vontade ilimitada de enriquecimento. Em um princípio também Las Casasesteve imerso nesse sistema de privação de liberdade e de exploração. Mas, finalmente, reconheceu no rosto dos maltratados o rosto de Jesus Cristo e assim se converteu em intercessor eloquente e defensor dos povos oprimidos em sua pátria, a América. Com isso retornava ao sentido original da missão cristã: Jesus enviou os seus discípulos para pregar a todos os homens o Evangelho da salvação e da libertação. Neste sentido, missão como encontro de pessoa a pessoa em nome de Jesus é estritamente o contrário de uma forma apenas aparentemente religiosa de colonialismo e imperialismo. Não se pode conquistar territórios para Cristo e subjugar os seus habitantes ao domínio de um estado que se diga cristão. A pregação dos enviados em nome de Cristo supõe antes poder adotar livremente a fé. Deste modo, cria-se uma rede universal de discípulos de Cristo que, segundo sua vontade, constituem uma comunidade de irmãs e irmãos e, portanto, a Igreja visível de Deus no mundo. A este processo impulsionado pelo espírito de Pentecostes os homens acrescentam suas raízes e sua identidade cultural e se deixam transformar pelo espírito de Deus para uma identidade comum mais elevada. Deste modo, cresce o conhecimento de que somos filhos de Deus, chamados a uma vida exemplar, destinados à perfeição no futuro divino. E assim a Igreja pode ser em Cristo o sacramento da salvação do mundo e o sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano (ver Lumen Gentium 1).

Las Casas nomeia em sua brevíssima relação da destruição das Índias ocidentais a verdadeira causa da tremenda injustiça que os conquistadores espanhóis cometeram contra as pessoas que encontraram em sua viagem de descobrimento.

Sobre aqueles que eram cristãos de nome, mas não por sua conduta, Las Casas disse: “A única e verdadeira causa do assassinato e da destruição dessa espantosa quantidade de pessoas inocentes nas mãos de cristãos era exclusivamente apoderar-se de seu ouro”. (3) Gustavo Gutiérrez formulou este caminho libertador de Las Casas com o seguinte juízo: “Deus ou o ouro”. (4)

Este é o caminho rumo à libertação segundo nos ensina Jesus no Evangelho: “Não se pode servir a dois senhores, a Deus e ao dinheiro”, e em outro lugar especifica: “A raiz de todos os males é o amor ao dinheiro” (ver Timóteo 6, 10).

Aquele em quem colocamos a nossa confiança, esse realmente é o nosso Deus. Os cristãos do século XXI, mas também os humanistas, se orgulham de ter deixado para trás o colonialismo e o imperialismo eurocentristas. Contudo, na justa indignação diante das atrocidades perpetradas na conquista da América, África e Índia e a humilhação da China, corremos muitas vezes o perigo de acreditar, sentindo-nos moralmente seguros, de que no século XVI nós teríamos estado do lado de Las Casas e contra os exploradores. Evidentemente, as circunstâncias históricas de então não são sem mais comparáveis com as do mundo globalizado atual. Não obstante, a alternativa fundamental entre a opção pelo dinheiro e o poder, de um lado, e Deus e o amor, do outro, se apresenta hoje também a cada pessoa em particular e tanto a todas as comunidades e sociedades como a Estados e Alianças. Também hoje, continentes inteiros, como a África e a América do Sul, são marginalizados. Uma pequena parte da população mundial reparte entre si os recursos contribuindo deste modo para a morte prematura de milhões de crianças e para que a maior parte da população do mundo viva em circunstâncias desastrosas.

Depois da queda do império soviético muitos esperavam também o fim da Teologia da Libertação, que situavam próxima dos movimentos de libertação marxistas. Mas na verdade a Teologia da Libertação bem entendida desde a sua concepção original, é a melhor resposta à crítica marxista da religião, tanto na teoria como na prática. Uma ampla visão de Deus como criador, libertador e consumador do homem nos permite perceber a armadilha dualística em que se pretendia fazer cair o cristianismo. Não há alternativa entre o bem-estar neste mundo e a salvação no outro, entre a graça divina e a atuação humana, entre o compromisso eclesial e a crítica e configuração do mundo. A orientação para Deus e a configuração do mundo, o amor a Deus e o amor ao próximo são os dois lados da mesma moeda. Os cristãos não se deixam ultrapassar por ninguém quando se trata dos direitos e da dignidade humanos, ou de criticar tanto o pecado estrutural de um sistema político injusto como a falta de responsabilidade do indivíduo concreto. Durante a apresentação das obras completas do Papa sobre a Teologia da Liturgia, publicadas por mim na Editorial Herder, um dos conferencistas citou a bela sentença: “Quando os monges descuidaram dos seus louvores a Deus aguou-se também a sopa dos pobres”.

Louvar a Deus incita a tomar responsabilidade pelo mundo. E o compromisso com a justiça social, a paz e a liberdade, a proteção da natureza como base da vida corporal e social fundamenta-se na atuação divina criadora e libertadora.

Depois da queda do comunismo estabelecido alguns chegaram a pensar que agora se poderia obter o paraíso na terra através de um capitalismo desenfreado. As forças autorreguladoras do mercado em escala mundial trariam por si mesmas o bem-estar para todos ou ao menos para a maioria. A realidade é muito diferente. Não foram as aparentemente todo-poderosas forças do mercado, mas a mera cobiça de homens concretos, que provocaram a atual crise financeira mundial, cujas consequências são pagas uma vez mais pelos pobres e pelos mais pobres dos pobres, com sua vida, sua saúde, com sua morte prematura e todas as perspectivas perdidas, previstas por Deus para eles.

Os representantes do liberalismo defenderam no passado sua imagem de homem argumentando que não se pode governar o mundo com as bem-aventuranças, sem considerar que Jesus não pretende governar o mundo, mas que o homem se governe a si mesmo, se liberte de sua cobiça e possa converter-se em ser humano para os demais. Argumentavam que a Igreja não entendia nada de economia e capitalismo e que se queria ser altruísta o fizesse ocupando-se das vítimas do capitalismo. Igreja relegada aos hospitais, às residências de moribundos, mas não ética para Wall Street. Expressão de um capitalismo neoliberal sem escrúpulos são, por exemplo, os “fundos buitre” (vulture funds). Especuladores sem escrúpulos se especializaram em negócios com as dívidas de países inteiros. Quando um país incorre em dificuldades de pagamento esses “buitres” [abutres] compram as dívidas com altas reduções sobre a soma original e reclamam depois com juros e juros acumulados uma soma marcadamente superior.

De forma bem simples leva-se um país à miséria definitiva. No final de 1990, o Peru foi vítima de uma “estratégia de investimentos” em que com um investimento de 11 milhões de dólares obteve-se um lucro de 58 milhões. As consequências para as pessoas – as crianças, os anciãos, os doentes –, para toda a estrutura social de um país são aceitas como consequências lógicas. O lucro puro é a única meta.

Aqui se manifesta de maneira espantosa a tragédia de um mundo, de um mercado econômico sem normas morais vinculantes. A cobiça pelo ouro e pelo dinheiro segue sendo hoje causa da destruição de valores morais, cuja força para o bem do homem emana da única fonte que conduz o home ao seu ser humano e a converter-se no próximo de seus semelhantes.

Incompatíveis com a nossa espiritualidade e a nossa fé cristã são o racismo e o paternalismo, uma sociedade que se desagrega em classes mais altas e baixas, que funciona segundo o princípio da lei do mais forte e com isso se desintegra.

Após tantas décadas de terrorismo e contraterrorismo à custa de muitos milhares de inocentes, especialmente da população indígena pobre, criou-se (5) a Comissão da Verdade e da Reconciliação presidida pelo professorSalomón Lerner. Todos vocês conhecem os resultados das investigações. A dimensão da barbárie posta de manifesto é estarrecedora.

Só será possível um novo começo radical, com um desenvolvimento que leve a uma sociedade mais justa e à garantia dos direitos humanos por parte do Estado. Mas também é necessária uma espiritualidade dos direitos humanos. A maior aspiração de cada pessoa, no mais profundo de sua consciência, deverá ser o tomar consciência da responsabilidade do homem diante de Deus e do espírito de fraternidade. Só assim se poderá limitar a cobiça pelo dinheiro e pelo poder como fonte de todo o mal. E se a desculpa e a reconciliação não devem ser concebidas como obra própria, mas como dom divino e ordem de vida, pode crescer em nossos corações essa gratidão que apresenta a existência como ser humano para outros como a medida suprema do humano, das possibilidades de desenvolvimento de cada pessoa no esplendor do amor de Deus. Deus caritas est, essa é a meta e o instrumento da libertação e a perfeição do homem ao Deus Trino.

No Peru encontrei dois cristãos nos quais se simboliza a saudade do povo pela experiência da dignidade imperdível do homem: Santa Rosa de Lima e São Martinho de Porres converteram-se em amigos queridos nos quais brilham em sua forma última os objetivos da libertação e da redenção.

Permitam-me concluir estas reflexões com uma prece a Santa Rosa e a São Martinho para que protejam a Igreja e os peruanos intercedendo ao Pai celestial e Criador para que Ele nos revele o seu Filho como o mediador da esperança para a transformação do mundo para a meta mostrada pelo espírito de Pentecostes: “Em todos eles havia temor, por causa dos numerosos prodígios e sinais que os apóstolos realizavam. Todos os que abraçaram a fé eram unidos e colocavam em comum todas as coisas; vendiam suas propriedades e seus bens e repartiam o dinheiro entre todos, conforme a necessidade de cada um. Diariamente, todos juntos frequentavam o Templo e nas casas partiam o pão, tomando alimento com alegria e simplicidade de coração. Louvavam a Deus e eram estimados por todo o povo. E a cada dia o Senhor acrescentava à comunidade outras pessoas que iam aceitando a salvação” (At 2, 43-47).

Notas:
1. CELAM. Conclusões da Conferência de Medellín – 1968; Conclusões da Conferência de Puebla. Evangelização no presente e no futuro da América Latina.

2. GUTIÉRREZ, Gustavo. Beber em seu próprio poço. Itinerário espiritual de um povo. São Paulo: Loyola, 2000.

3. Em português, encontra-se no livro LAS CASAS, Frei Bartolomeu de. Liberdade e Justiça para os Povos da América — Oito Tratados Impressos em Sevilha em 1552. São Paulo: Paulus, 2010.

4. GUTIÉRREZ, Gustavo. Deus ou o ouro nas Índias. Século XVI. São Paulo: Paulinas, 1993.

5. Ver LERNER FEBRES, Salomón; SAYER, Josef (Ed.). Contra el olvido Yuyanapaq. Informe de la Comisión para la Verdad y la Reconciliación Perú, 2008.

C’è salvezza per questo tipo di Chiesa di potere?

Questa domanda è stata formulata da uno dei più rinomati e fecondi teologi dell’area del cattolicesimo: lo svizzero-tedesco Hans Küng.  Con entusiasmo  ha promosso il rinnovamento della Chiesa, insieme al suo collega dell’università di Tübingen, Joseph Ratzinger. Ha scritto una vasta opera su Chiesa, ecumenismo,  religioni, etica mondiale e altri temi rilevanti. A causa del suo libro che mette  in discussione l’ Infallibilità papale, è stato duramente punito dall’ex Inquisizione. Non ha abbandonato la Chiesa ma, come pochi, si è impegnato nella sua riforma con libri, lettere aperte e petizioni comunitarie ai vescovi e alla comunità cristiana mondiale perché si aprissero al dialogo con il mondo moderno e con la nuova situazione planetaria dell’umanità.

Non si  evangelizzano  persone, figli e figlie del nostro tempo, offrendo un modello medievale di Chiesa, come bastione del conservatorismo e dell’autoritarismo e con la sensazione di essere una fortezza assediata dalla modernità, ritenuta responsabile di ogni tipo di relativismo. Diciamo di passaggio che la critica feroce che l’attuale Papa muove al relativismo è fatta  a partire dal suo polo opposto, quello di  un invincibile assolutismo. Questo  è  il “la”  imposto dagli ultimi due papi, Giovanni Paolo II e Benedetto XVI: un  “no” alle riforme, ritorno alla tradizione e alla grande disciplina, orchestrata  dalla gerarchia ecclesiastica.

Il libro di Hans Küng «C’è salvezza per la chiesa?» (Paulus, 2012) esprime un grido quasi disperato per i cambiamenti necessari e, al tempo stesso, una manifestazione generosa di speranza che  queste cose sono possibili e necessarie, se davvero essa non vuole entrare in un deplorevole collasso istituzionale. Sia chiaro, di sfuggita, che quando  Küng e io stesso, parliamo di Chiesa, intendiamo in primo luogo  la comunità di quelli che accettano di farsi coinvolgere  dalla figura e dalla causa di Gesù. Il nocciolo della questione, pertanto, risiede nell’amore incondizionato, nella centralità dei poveri e invisibili, nella fratellanza di tutti gli esseri umani e nella rivelazione che siamo figli e figlie di Dio e Gesù stesso  lascia intravedere che era ‘il figlio’ di Dio che ha assunto la nostra contraddittoria umanità. Questo è il senso originario e teologico di chiesa.

Ma, storicamente, la parola chiesa è stata adoperata  per indicare  la gerarchia (dal Papa fino ai preti). Essa si identifica con la Chiesa tout court  e si presenta come la Chiesa.
Ora quello che sta in crisi profonda è la seconda comprensione di chiesa che Küng chiama “sistema romano” oppure “chiesa-istituzione gerarchica” ossia la “struttura monarchico assolutista del comando”. La sua sede si trova in Vaticano e si concentra nella figura del Papa con l’apparato che lo circonda: la curia romana. Da secoli questa crisi si prolunga e il clamore per i cambiamenti attraversa la storia della Chiesa, culminando con la  riforma nel secolo XVI e con il concilio Vaticano II  (1962-1965) dei nostri giorni.

In termini strutturali, è necessario riconoscerlo, le riforme sono state sempre superficiali, o rimandate o semplicemente abortite. Tuttavia, negli ultimi tempi , la crisi ha raggiunto una gravità tutta speciale. La chiesa-istituzione (Papa, cardinali, vescovi e preti), ripeto, non la grande comunità dei fedeli, è stata colpita al cuore, in quello che era la sua grande pretesa:  essere “guida e maestra di morale” per tutta l’umanità. Alcuni dati già conosciuti hanno posto in scacco tale pretesa e hanno coperto  la Chiesa-istituzione di  discredito , il che è stata occasione per una grande emigrazione di fedeli: gli scandali finanziari che hanno coinvolto la banca vaticana (IOR) che si è trasformata in una specie di off-shore per riciclare denaro sporco; documenti segreti, sottratti alle  più alte autorità ecclesiastiche  e – chissà  – perfino   dalla scrivania del Papa dal suo stesso segretario e venduti ai giornali, dando conto degli intrighi per il potere tra cardinali; e specialmente la questione dei preti pedofili: migliaia di casi in vari paesi, hanno coinvolto preti, vescovi e perfino un cardinale pedofilo di Vienna, Hans  Hermann Groër.

Gravissima è stata l’Istruzione del 18 maggio 2001, inviata dall’allora cardinale Ratzinger a tutti i vescovi del mondo, perché coprissero, col sigillo pontificio, gli abusi sessuali a minori da parte di preti pedofili, perché non fossero denunciati alle autorità civili. Finalmente il Papa ha dovuto riconoscere il carattere criminale della pedofilia e accettare di essere giudicato dal tribunale civile. Küng mostra, con erudizione storica incontrovertibile, i vari passi dei papi per passare da successori del pescatore Pietro a vicari di Cristo e rappresentanti di Dio. I titoli che il canone 331 conferisce al Papa sono di tale ampiezza che si addicono, in verità, soltanto a Dio. Una monarchia papale assoluta con il bastone dorato non sta bene insieme al bastone di legno del buon pastore  che con amore ha cura delle pecore e le conferma nella fede come ha chiesto il Maestro (Lc 22,32).

Tradotto da Romano Baraglia

Tiene salvación este tipo institucional de Iglesia?

Esta cuestón fué formulada recientemente Hans Küng en su libro  Tiene salvación la Iglesia?(2012). El autor es uno de los más renombrados y fecundos teólogos del área del catolicismo. De forma entusiasta fomentó la renovación de la Iglesia junto con su colega de la Universidad de Tubinga, Joseph Ratzinger. Ha escrito una vasta obra sobre la Iglesia, el ecumenismo, las religiones y otros temas relevantes. Debido a un libro suyo que cuestionaba la infalibilidad papal fue duramente castigado por la Inquisición. No abandonó la Iglesia, sino que se empeñó como pocos en su reforma con libros, cartas abiertas y llamamientos a obispos y a la comunidad cristiana para que se abriesen al diálogo con el mundo moderno y con la nueva situación planetaria de la humanidad. No se  evangelizan personas, hijos e hijas de nuestro tiempo, presentándoles un modelo de Iglesia, hecha bastión de conservadurismo y de autoritarismo y sintiéndose una fortaleza asediada por la modernidad, que es considerada responsable de todo tipo de relativismo. Digamos de paso que la crítica feroz que el papa actual dirige contra el relativismo, la realiza a partir de su polo opuesto, un riguroso absolutismo. Esta es la tónica que está siendo impuesta por los dos últimos papas, Juan Pablo I y Benedicto XVI: un no a las reformas y una vuelta a la tradición y a la gran disciplina, orquestadas por la jerarquía eclesiástica.

El presente libro: ¿Tiene salvación la Iglesia?  (2012) expresa un grito casi desesperado en pro de transformaciones y, al mismo tiempo, una manifestación generosa de esperanza de que éstas son posibles y necesarias, si no se quiere entrar en un lamentable colapso institucional.

Quede claro, para empezar, que cuando Küng y yo mismo hablamos de Iglesia, no entendemos la comunidad de aquellos que se sienten comprometidos con la figura y la causa de Jesús, cuyo foco reside en el amor incondicional, en la centralidad de los pobres e invisibles, en la hermandad de todos los seres humanos y en la revelación de que somos hijos e hijas de Dios, siendo el mismo Jesús quien dejó entrever que él era el propio Hijo de Dios que asumió nuestra contradictoria humanidad. Ése es el verdadero sentido de Iglesia, pero históricamente es la jerarquía (desde el papa a los curas) la que se apropia de la palabra Iglesia, la que se identifica como Iglesia y se presenta como siendo la Iglesia.

Pues bien, lo que está en profunda crisis es esta concepción de Iglesia que Küng llama “sistema romano”, o sea, la Iglesia institución-jerárquica o la estructura monárquico-absolutista de mando, cuya sede se encuentra en el Vaticano y se centra en la figura del papa con el aparato que le rodea: la curia romana. Esta crisis se prolonga desde hace siglos y el clamor por cambios atraviesa la historia de la Iglesia, culminando en la Reforma del siglo XVI y en el Concilio Vaticano II (1962-1965) de nuestros días. En términos estructurales, las reformas de la “cabeza” siempre fueron superficiales o aplazadas o simplemente abortadas.

En los últimos tiempos, sin embargo, la crisis ha adquirido una gravedad singular. La Iglesia institución (papa, cardenales, obispos y curas), repito, no la gran comunidad de los fieles, ha sido alcanzada en su corazón, en aquello que era su gran pretensión: la de ser “guía y maestra de moral” para toda la humanidad. Algunos datos ya conocidos han puesto en jaque tal pretensión y  han llevado el descrédito a la Iglesia institución. Los escándalos financieros involucrando al Banco Vaticano (IOR), que se transformó en una especie de off-shore de lavado de dinero; los documentos secretos sustraídos, quien sabe si hasta de la mesa del papa, por su propio secretario y vendidos a los periódicos, revelando las intrigas por el poder entre cardenales; y especialmente la cuestión de los sacerdotes pedófilos, miles de casos en varios países, que involucran a padres, obispos y hasta al cardenal de Viena Hans Hermann Groer. Gravísima fue la instrucción de 2001 dada por el entonces cardenal Ratzinger a todos los obispos del mundo de encubrir, bajo sigilo pontificio, los abusos sexuales a menores para evitar que los curas pedófilos fuesen denunciados a las autoridades civiles. Finalmente el papa tuvo que reconocer el carácter criminal de la pedofilia y aceptar su enjuiciamiento por los tribunales civiles.

Küng muestra, con erudición histórica irrefutable, los pasos dados por los papas al pasar de sucesores de Pedro a vicarios de Cristo y a representantes de Dios en la Tierra. Los títulos que el canon 331 confiere al papa son de tal magnitud que, en realidad,  caben solamente a Dios. Una monarquía papal absoluta con báculo dorado no concuerda con el cayado de palo  del Buen Pastor que cuida con amor de sus ovejas y las confirma en la fe, como pidió el Maestro (Lc 22,32).

Um “armagedon cibernético”? Washington Novaes

WASHINGTON NOVAES é um analista atento ao que de novo, surpreendente e perigoso pode estar sendo preparado na humanidade seja em termos de avanços que protegem a vida, seja de ameaças que podem nos destruir. Convoca-nos a pensar para além das atuais crises econômico-financeiras e até civilizacionais. Está em curso a nanotecnologia, nanorobots e uma eventual guerra cibernética de consequências inimagináveis para o futuro de inteiras nações e de nossos sistemas de comunicação. Ela é silenciosa mas está sendo aplicada em regiões de guerra como no Afeganistão, Iraque ou ameaçadas por guerra como o Irã e na Palestina. Seu artigo apareceu no Estado de São Paulo no dia 9 de setembro sob o título: “Sem milagres para a guerra cibernética. Dada a importância do tema, nos abalançamos em republicá-lo. Importa estarmos atentos a novidades nada róseas que nos podem ocorrer nos próximos tempos.  LBoff

************************

Seria prazeroso escrever sobre ipês rosas floridos prenunciando a primavera que chega em setembro. Ou sobre o comovente trabalho de músicos que criam orquestras de jovens em favelas. Mas que fazer ? Jornais estão povoados de notícias sobre ameaças de uma guerra cibernética que pode levar a uma catástrofe nuclear planetária. Sobre robôs que podem, por conta própria, disparar um míssil atômico. Sobre hackers capazes de  paralisar sistemas de transporte, de saúde, de comunicação, sistemas financeiros em escala planetária. Nesta mesma página o embaixador Rubens Barbosa já escreveu sobre o tema (20/6). O ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional, Kenneth Rogoff, também tratou (6/7) da vulnerabilidade da economia global a ataques cibernéticos, com terríveis conseqüências. Nestes tempos em que já estamos confrontados por tantos limites inultrapassáveis – crises de finitude de recursos naturais, crises da água, de terras, de alimentos etc. -, que se fará para enfrentar a ameaça de “armagedon cibernético” mencionada pelo professor da universidade canadense de Toronto, Don Tapscott (Folha de S. Paulo, 22/7) ?

Lembra o embaixador Rubens Barbosa o pensamento de Von Clausewitz, que já na primeira metade do século 19 escrevia que a guerra é a continuação da política por outros meios – tal como já começa a acontecer nos dias de hoje, com a cibernética e o uso de instrumentos eletrônicos cada vez mais sofisticados. Estados Unidos e Israel já os teriam utilizado para interferir no programa iraniano de enriquecimento de urânio, desativando cinco mil centrífugas. China e Estados Unidos trabalham com programas capazes de invadir sistemas sofisticados e desenvolvem comandos cibernéticos, programas de segurança nacional para informações, formatos de impedir a escalada de  ataques cibernéticos. Que pensa o Brasil em fazer nesse quadro ? Já o prof. Kenneth Rogoff pergunta que acontecerá com o uso de vírus cibernéticos comandados por anarquistas e terroristas, ou com catástrofes naturais geradas por interferências em programações, ou por satélites assim danificados paralisando redes elétricas, bancos de dados do sistema financeiro, indústrias de tecnologia. E medita: se governos desenvolvem vírus com esse poder destruidor, que se fará ? Confiar na sorte ?

O panorama é assombroso. A instituição Royal Pingdom, citada pelo The New York Times (ESTADO, 12/7), calculou para 2010 um número de 107 trilhões de mensagens  eletrônicas circulando pelo mundo,onde, no ano passado já havia 3,1 bilhões de contas de e-mails. Que acontecerá no mundo se a nova geração usuária desse meio tem mais de 50% de seus membros desempregados ? – pergunta Don Tapscott. Eugene Kaspersky, ex-funcionário do Ministério de Defesa da antiga URSS, hoje diretor da maior empresa de antivírus do mundo, propõe a criação de uma organização internacional de segurança cibernética, para impedir que prossiga a guerra na qual já estão envolvidos Estados Unidos, China, Grã-Bretanha, Índia, Alemanha, França, as duas Coréias e outros paises, que têm unidades de guerra cibernética, de criação de supervirus, naves de guerra não tripuladas e outras armas. Segundo ele, “estamos sentados em um barril de pólvora e serrando o galho que sustenta a internet” (Folha, 29/7). As hostilidades podem implicar perda de informações de forças armadas, perda de propriedade intelectual de empresas etc.

Kenneth Benedict, editora do “Bulletin of the Atomic Scientists”, diz na revista New Scientist(30/6) não ter dúvida de que os Estados Unidos “estavam por trás” do ciberataque ao Irã, com o objetivo de impedir o desenvolvimento de sistema de enriquecimento de urânio. Segundo ela, “estamos em uma nova era bélica, de fortes ligações com a corrida secreta para construir bombas atômicas”. O ataque ao Irã baseou-se no sistema de software Stuxnet desenvolvido pelos Estados Unidos e Israel. Ele continha “malwares” (códigos agressivos) que tinham como alvos sistemas específicos de controle industrial, do tipo que controla centrífugas utilizadas para enriquecer  urânio.

Faz lembrar o final da segunda guerra mundial, quando cientistas alertaram o governo norte-americano para as conseqüências dramáticas que teria atirar bombas nucleares sobre o Japão – inclusive uma corrida nuclear entre EUA e URSS –, diz Benedict. Mas outros cientistas e autoridades temiam que a Alemanha pudesse chegar antes ao domínio da tecnologia nuclear. Não vingou, assim, a tese de que a energia nuclear deveria ser colocada sob controle internacional, talvez mesmo na ONU, que estava sendo criada. A situação atual seria semelhante, por falta de controle internacional no campo cibernético. Para a editora, é “irônico que o primeiro uso conhecido da cibernética para a guerra seja exatamente para impedir a proliferação de armas nucleares: uma nova era de destruição em massa pode começar em um esforço para encerrar um capítulo da primeira era de destruição em massa”.

Se a política internacional não consegue avançar nesse terreno da cibernética e da respectiva guerra, que se fará ? Acreditar em milagres ? Na mesma edição da New Scientist, ao lado do texto de Kenneth Benedict – coincidência ou não -, o lider da Associação Racionalista Indiana, Sanal Edamarku, conta haver sido convidado para  desvendar um suposto milagre numa igreja, em Mumbai, onde água brotava de uma imagem e atraia multidões. Pesquisou até descobrir que se tratava de água das instalações sanitárias, canalizada por um sistema de drenagem, que passava sob a base da imagem, mas estava bloqueado. Por capilaridade, diz ele, a água infiltrou-se nas paredes adjacentes à estátua e, por um orifício corria para os pés da imagem.

É possível que haja milagres. Mas a política internacional terá de se desdobrar na nova guerra, que já está no nosso cotidiano.

Fonte o Estado de São Paulo 09/09/2012