Cuidar do espírito em tempos do covid-19

Cuidar do espírito e de suas expressões em tempos do covid-19

Tratamos anteriormente nest blog como cuidar de nosso corpo e como cuidar de nossa psiqué no contexto do covid-19. Como somos corpo-mente-espírito, falta abordar como cuidar desta última dimensão, a mais excelente de todas, do espírito. Como fizemos com o conceito de corpo e de psiqué, faremos com o conceito de espírito. Propomo-nos a alargar sua compreensão. Pois, somos herdeiros de uma interpretação que empobrece a sua realidade. Socorrem-nos as ciências da vida e a nova cosmologia que no processo de evolução não apenas tomam em consideração seus aspectos físicos e as constantes cosmológicas, mas incluem as emergências mais notáveis do processo cosmogênico que são a vida, a subjetividade e a consciência reflexa.

Todas estas dimensões revelam o universo em sua exterioridade que a física e astrofísica captam mas também sua interioridade que as ciências da vida tentam decifrar.

Que é o espírito a partir da nova cosmologia

Entender o espírito como uma substância invisível e imortal é dizer meia-verdade e limitar sua amplitude. Nada refere sobre o seu enraizamento no universo nem seu lugar no conjunto de todas as relações já que tudo é relação e nada existe fora da relação. O espírito como substância imortal parece existir em si e para si mesmo, fora do conjunto dos seres.

No entanto, hoje nos é permitido asseverar que o espírito possui a mesma ancestralidade que as energias e a matéria originária. Ele estava presente já no primeiro momento em que o universo surgiu há 13,7 bilhões de anos. Isso se tornou mais convincente quando se descobriu que a matéria não possui apenas massa e energia. Ela possui também uma terceira dimensão, a informação. A informação nasce do jogo de relações que todos os seres entretém entre si, um deixando marcas no outro.

Quando os dois primeiros hádrions (primeira formação de matéria) ou em seguida os topquarks (as partículas menores de matéria subatômica) se encontraram, ocorreu uma troca de energia e de matéria. Cada qual se modificou. Ficaram marcas deste encontro. Estas marcas vão se acumulando, forjando as informações.

Todos os seres são produtores e portadores de informações, inscritas em seu código genético. Estas vão se estocando e se organizando mais e mais na medida em que o universo avança e ganha maior complexidade.

No nível humano se alcança um patamar elevadíssimo de complexidade a ponto de a informação aparecer na forma de consciência reflexa. É aqui que a Energia de Fundo, poderosa e amorosa que sustenta todas as coisas, mais se manifestou. Ela é a melhor expressão daquilo que chamamos Deus que sempre está atuando dentro do processo da evolução. Emergindo o ser humano manifestou-se mais densamente e de forma especial.

O Gênesis o expressa, na linguagem simbólica da época: “Deus formou o ser humano do pó da terra e soprou nas suas narinas o sopro da vida e o homem se tornou um ser vivo” (Gn 2,7). O “sopro da vida” é o espírito. Ele estava no universo, mas não de forma consciente. Agora pela ação pelo sopro divino, ele se tornou auto-consciente.

Este espírito está em cada parte de nosso “corpo” (o código genético presente em cada célula) mas se organiza em ordens a partir do cérebro cujos neurônios sobem a cifras de bilhões em número com trilhões de sinapses (conexões) entre eles.

É importante enfatizar que esta consciência, de um modo próprio, pertence ao universo, no nosso caso, à nossa galáxia, ao nosso sistema solar, ao planeta Terra e por fim a cada pessoa humana. A consciência possui sua pré-história até irromper em nós como consciência da consciência. Nós não temos espírito como não temos corpo. Somos homem-espírito bem como homem-corpo, homem-psiqué, coisa que já assinalamos anteriormente neste blog.

Como se revela o homem-espírito ou o espírito humano? Ele vem à tona no momento em que a consciência se dá conta de si mesma, se sente inserida num Todo maior e se abre ao Infinito. O espírito é o ápice da autoconsciência.

Qual é a singularidade do espírito? Reside em sua capacidade de criar unidade, de fazer uma síntese das informações acumuladas e formar um quadro coerente; é a capacidade de discernir nas partes o Todo e o Todo nas partes, pois compreende que há um fio condutor, um elo que une e re-une todas as coisas. Estas não estão jogadas ai arbitrariamente. Elas se articulam em ordens das mais diferentes formas. Constituem um Todo orgânico, sistêmico, sempre estruturado em redes de relações.

Esse Todo não é algo estabelecido uma vez por todas. Ele é dinâmico. Passa por fases caóticas e desordenadas para em seguida se reordenar e ganhar novamente equilíbrio e harmonia. Espírito, portanto, é a capacidade presente no universo de criar sínteses das relações e unidades sistêmicas a partir destas relações.

O espírito é um princípio cosmológico, quer dizer, pertence à estrutura e à dinâmica do universo e que permite entender universo assim como é, pois esta é a função enquanto princípio. Por isso, diz-se que o universo é espiritual, pensante, consciente, porque ele é reativo, panrelacional e auto-organizativo. Em seu devido grau, todos os seres participam do espírito.

A diferença entre o espírito de uma floresta e o espírito do ser humano não é de princípio mas de grau. O princípio é o mesmo e funciona em ambos mas de modo diferente. Em nós o princípio cria unidades significativas e alta capacidade de relação. Mas no modo auto-consciente. Na floresta o princípio se revela pela unidade da floresta como uma totalidade dinâmica, não simplesmente como um amontoado de árvores, mas como floresta. Mas de um modo não auto-consciente, ou com uma consciência própria da floresta, já que ela também vem conectada com todo o universo, com suas energias e com as forças diretivas da vida e da Terra.

             Características do homem-espírito

Formulada esta compreensão inicial, cabe perguntar: qual são as características distintivas do homem-espírito ou do espírito humano?

A primeira e mais inconfundível delas é sua dimensão transpessoal, chamada também de transcendência. Dimensão transpessoal ou transcendência significa aqui o fato de o espírito humano não ser fechado e limitado em sua própria realidade corporal. Ele sempre desborda e transborda qualquer limite. Transcendência é estar aberto em totalidade, para si mesmo, para o outro, para o mundo e para o Infinito. É sua abertura total que vai além dos limites corporais.

Por isso, diz-se que o homem-espírito habita as estrelas. Quer dizer, com seu espírito atravessa os espaços infinitos e ultrapasse todos os limites espacio-temporais que se lhe antolharem. Por ser um ser de transcendência, o homem-espírito é pan-relacional. Pode entabular relações com todos os tipos de seres. Para ele não há horizontes que se fecham. Cada horizonte se abre a outro e a outro e assim indefinidamente.

Eis aqui a razão porque afirmamos que o ser humano é um projeto infinito e é devorado por um desejo nunca saciável, mas saciável na comunhão com o Infinito real que lhe é adequado. É a Última Realidade, Deus.

Essa capacidade de transcendência liga o homem-espírito ao Todo. Ele se sente mergulhado nele e se percebe parte dele. Esse Todo não está em nenhum lugar, porque engloba todos os lugares.

É próprio do homem-espírito se interrogar sobre a natureza desse Todo que o envolve. Todos os nomes de qualquer língua e cultura terminam por dizer: é o Ser ou simplesmente é o Espírito absoluto, é aquilo que as religiões chamam de Deus.

O extraordinário do homem-espírito é poder entrar em comunhão com esta Suprema Realidade. Agradecer-lhe pela grandeur do universo e pelo dom da vida. Louvá-lo por sua magnanimidade e amor por ter criado todas as coisas e continuar dizendo a cada momento: “ fiat, faça-se, renova-se e exista! Sem essa palavra, tudo voltaria ao nada. Por isso cabe celebrar a vida e dançar diante do Criador.

Mas também, por causa do caos que pode se manifestar no universo, na Terra e na vida, chorar diante dele e perguntar: Por que, ó Deus? Por que permites a morte de tantos pelo Covid-19, por que a avassaladora destruição de um tsunami ou de um terremoto e mesmo, como se relata, na crônica cotidiana, da morte de um jovem dentro de casa, por uma bala da polícia irresponsável ou mesmo por bala perdida numa troca de tiros entre polícia e bandidos? Por que?

Face a estes muitos “por ques” todos nos fazemos um pouco o Jó bíblico que questiona, critica, se rebela diante de Deus para por fim se calar, reverente, face ao mistério porque Deus é maior do que nossa razão e que pode ser de uma forma que não podemos compreender. Apesar desses “absurdos” descobre que Deus “e o soberano amante da vida”(Sab 11,24) que não permitirá que o luto, a lágrima e a desgraça tenham a última palavra. É o espírito que confia e crê. No final Jó resgata a plenitude da vida.

Outra característica do homem-espírito é sua liberdade. Liberdade é a capacidade de auto-determinação pessoal. Sempre há determinações vindas dos vários enraizamentos que a existência apresenta, de lugar, de classe, de tipo de família, de língua,de forma de nosso corpo, de nível de inteligência etc. Mas o ser humano, por si mesmo (auto), pode confrontar-se com estas determinações. Pode assumi-las, rejeitá-las e modificá-las. Preside nele uma força que lhe permite sobrepor-se a estas determinações. Elas o limitam (não há liberdade sem limites) mas não o podem aprisionar. Mesmo escravizado sob ferros, é um livre, pois essa é sua essência enquanto espírito.

A história humana é a história da expansão da liberdade, apesar de todos os retrocessos, história do rompimento de amarras, de conquistas de espaços, de autodeterminação e de plasmação de sua vida e destino. Na história que conhecemos, a liberdade, embora intrínseca ao ser humano, nunca é simplesmente concedida, mas conquistada num processo de libertação. Libertação é aquela ação que cria a liberdade. Paulo Freire, tão injustamente caluniado pelos inimigos da inteligência, mas o grande educador, nos deixou esta lição: “ninguém liberta ninguém; nos libertamos sempre juntos”.

Toda criatividade, todo o universo das artes, da ciência e da técnica, da música, da dança têm por base a liberdade. Sem liberdade a comunicação se transforma em farsa e a palavra mais esconde do que revela.

Mais que tudo, é a liberdade que torna o ser humano um ser ético, responsável pelos atos e suas consequências, que decide do bem e do mal para si para os outros. A liberdade lhe permite ser um anjo bom ou um malfeitor e criminoso. Só um ser livre pode doar-se totalmente ao outro ou a uma causa, como neste momento dramático do império do Covid-19, quando os operadores da saúde, da medicina e da enfermagem e de outros operadores entregam suas vidas, arriscam-se à contaminação para tentar salvar a vida de outros. Se a tão desgastada palavra “herói” tem valor, ela se aplica aqui, não para aqueles heróis de guerra, que se fazem heróis por matar. Aqui nos hospitais estão os verdadeiros heróis da vida porque salvam vidas.

Há valores, como estes vividos por eles, pelos quais vale a pena dar a vida. Morrer assim é digno. É pela qualidade do exercício de nossa liberdade, se optamos pelo bem ou se nos entregamos ao mal que seremos julgados pela nossa própria consciência diante do Senhor da história. Esse julgamento define nosso destino derradeiro e o quadro final de nossa existência, sempre sob o arco da infinita misericórdia de Deus.

Outra característica singular do homem-espírito é sua capacidade de amar. O amor irrrompe como uma força cósmica, decantada por Dante Alighieri em sua Divina Comédia e por todos os grandes espíritos. O amor é tão excelente que para os cristãos define a própria a natureza íntima de Deus: “Deus é amor”(1 Jo 4,16).

O médico Paes Campos, em seu livro Quem cuida do cuidador (Vozes, 2005) disse muito bem:”O ato de cuidar é a materialização de um sentimento de amor” (p. 59). É o que estão fazendo todos aqueles que estão trabalhando abnegadamente nos hospitais, nesse momento do coronavírus. Amar é fazer de si mesmo dom ao outro, é entregar-se incondicionalmente ao outro, é senti-lo dentro; amor é fazer o impossível para estar junto da pessoa amada, é não entender mais a vida sem o amado ou a amada, é experimentar o inferno quando, por qualquer razão, o amor já não existe e não tem mais volta, Sem o amor desaparece todo o brilho, toda a alegria e todo o sentido da vida. Amar então é dizer: você não pode desaparecer nem  morrer.

Mas o homem-espírito pode também odiar, rejeitar, torturar barbaramente, se bestializar completamente quando tomado de ira incontrolável e de vontade destrutiva como nos porões de tortura de nosso regime ditatorial já passado. Essa sombra faz parte também da realidade do espírito, como o mau espírito. E temos assistido pessoas insensíveis e sem empatia face às vítimas do Coronavírus. São desumanas.

O homem-espírito pode também perdoar. Eis outra sua característica. Perdoar não significa esquecer a ferida que ainda sangra mas consiste em não fazer-se refém dela e permanecer aferrado ao passado. Perdoar é esforçar-se em ver o ofensor com compaixão, benevolência e amor. É liberar-se para o amanhã e para novas experiências.

Junto com o perdão vem a capacidade de com-paixão, característica das mais nobres do espírito. Com-paixão, tão necessária nesta época triste da presença do Codiv-19, que produz um oceano de sofrimento em que estão mergulhadas milhares de pessoas em nosso país e  em toda a Terra. Com-paixão é assumir a paixão do outro, é colocar-se no lugar do   outro, não deixá-lo que os familiares e amigos sofram sós, oferecer-lhes um ombro, mais que falar é guardar um silêncio reverente e compassivo, chorar junto e pôr-se solidariamente no mesmo caminho, lado a lado. Tudo isso, pode o homem-espírito.

Mas também a ausência da generosidade e da compaixão pode assumir formas apocalípticas. Três dias antes de se suicidar a 27 de abril de 1945, Hittler escreveu em seu diário:”No fim de tudo, me vem o arrependimento de ter sido tão generoso para com os judeus…”(P. Johnson, Tempos modernos, Rio 1990, p 345), por não ter tido a possibilidade de dar uma solução final a eles (Endlösung) isto é, mandando-os todos eles às câmaras de extermínio (mandou 6 milhões) e de não ter podido matar 30 milhões de eslavos como havia determinado. Aqui o espírito se revela como a suprema perversão. O anti-humano também é parte do humano, complexo e misterioso.

Outra característa do homem-espírito, o de ser o eterno interrogador. Ele permanentemente vem atormentado por perguntas últimas. Só ele as faz porque é portador de autoconsciência, inteligência e percepção do Todo: quem criou o Universo, por que as bilhões de galáxias com suas incontáveis estrelas e planetas? Elas não estão aí por si mesmas. Alguém as pôs na existência e as sustenta. Por que estou aqui? Por que nasci e para que? Qual é o meu lugar e a minha missão neste conjunto indecifrável de seres? Como me comportar diante do outro e da natureza? Terminada a minha jornada nesse pequeno planeta, para onde vou? Que posso, finalmente, esperar?

As respostas não estão codificadas em nenhum manual, embora textos sagrados e filosofias sem conta se esforcem para trazer respostas apaziguadoras. Mas nenhuma delas substitui a nossa própria tarefa existencial de formular uma resposta pessoal que empenha todo o ser.

Mesmo  pessoas mais céticas e descrentes podem, por algum tempo, se furtar a estas indagações. Mas elas, como pertencem à estrutura de nosso espírito, quando menos se espera, especialmente quando um ente querido morre,elas emergem sem podermos recalcá-las, porque possuem uma força intrínseca de sempre se proporem. Não é sem razão que são os ateus aqueles que mais falam de Deus, mesmo que seja para negá-lo. A negação não consegue matar a pergunta existencial. Ela sempre reponta com o vigor do broto depois das chuvas sobre chão ressequido.

Por fim, uma característica básica do espírito é sua capacidade de síntese. Como a natureza do espírito é relacional cabe a ele fazer a síntese entre o céu e a Terra, entre o imanente e o transcendente, entre a exterioridade e a interioridade.

Como o psiqué precisa de um Centro para ordenar todas as energias e pulsões que a habitam, assim o espírito sente-se perdido ou cindido ao meio se não lograr uma Síntese, não teórica, mas vital-existencial, que dê direção à sua vida. Por isso cada um possui, consciente o inconscientemente, uma cosmovisão, quer dizer, uma leitura do mundo, uma interpretação do curso da história, uma visão de conjunto. O espírito não aguenta uma esquisofrenia existencial que separa, opõe, desune e atomiza a realidade. Ele precisa de um quadro ordenador de todas as suas experiências, ideias e sonhos.

Muito mais caberia dizer do homem-espírito. Mas bastem-nos estas referências para fundamentar nosso intento de pensar tal realidade à luz do cuidado e do que as ciências nos sugerem.

     Cuidar do espírito é viver a dimensão humano-espiritual

Como se deriva das reflexões feitas, o espírito é uma realidade tão sutil e sujeita a tantos percalços – exatamente por ser o melhor e mais alto de nós mesmos – que nós devemos cuidá-lo zelosamente e nos preocuparmos para preservá-lo com todo o seu caráter infinito.

Cuidar do espírito comporta cultivar a espiritualidade. Precisamos libertar a espiritualidade de seu enquadramento na religião. Não existe, por certo, religião sem espiritualidade; ela nasce de uma profunda experiência espiritual. Mas pode existir espiritualidade independente da religião.

Cuidar da espiritualidade é cultivar a permanente atitude de abertura face a qualquer realidade. É estar disponível ao nó de relações que ele mesmo é. É viver concretamente a transcendência, quer dizer, não se deixar prender por nenhuma das realidade determinada, o que não significa não engajar-se e assumir com seriedade responsabilidades. Mas saber estar para além delas. Nem afundar-se com elas quando fracassam. nem apegar-se a elas quando triunfam.

Espiritualidade pede silêncio. Silêncio não é não dizer nada, mas criar o espaço para que outra palavra possa ser ouvida, que nos vem do profundo de nós mesmos, vinda da consciência, de uma pessoa, quem sabe até anônimia,do próprio Deus que nos colocou neste mundo.

O cuidado do espírito implica não colocar entraves no encontro com o outro. Viver espiritualmente é acolhê-lo. Diz a lenda grega, confirmada pelas Escrituras judaico-cristãs, que um casal idoso e pobre ao acolher um miserável, descobriu ter hospedado o Deus escondido na figura do pobre. O cuidado do espírito leva cultivar a bondade, a bem-querença, a solidariedade, a compaixão e o amor. Estes são os valores que constituem a substância da espiritualidade que nos acompanham ao longo da vida e que os levamos para além da morte.

Às vezes este espírito de cuidado emerge através uma conversação sincera com o amigo, ao ouvir uma música que nos vai ao profundo da alma, através da leitura de algum livro, de um encontro especial de uma pessoa sábia,  da assistência de algum filme, vídeo ou teatro. Ou simplesmente ouvindo com atenção o que pensa da vida o pipoqueiro da esquina, o vendedor ambulante, as queixas do esmoler da rua.

Cuidar do espírito é abrir-se ao mistério do mundo e ao mistério maior que é Deus. Espiritualidade não se resume em ler e pensar sobre Deus mas falar a Deus ou permitir que Ele fale à nossa consciência, em senti-lo no coração, poder dialogar com ele e auscultar sua voz que vem por todas as coisas, mas especialmente, dos chamados de nossa consciência. Importa fazer a passagem da cabeça ao coração. Porque é o coração que sente, venera e ama a Deus.

O resultado deste cuidado se faz logo sentir por uma vida mais serena, por uma paz que nenhum ansiolítico ou droga pode conceder. É levar a vida com quem se sente na palma da mão de Deus. Então por que temer? Existe um desfrute maior do que ver-se livre dos medos e sentir-se acompanhado por um olhar amoroso?

Cuidar do espírito envolve também cuidar do ambiente social, cuidar dos outros para que a atmosfera envolvente não se faça tão desumana, obsessiva na busca do prazer, do consumo e do descontrole dos instintos, danosos para a pessoa e para os outros.

Neste campo, há muito que fazer, começando cada um consigo mesmo, fazendo sua revolução molecular e, ao mesmo tempo, se recusando a entrar nos “esquemas deste mundo”segundo o Apóstolo Paulo (Rom 12,2) e reforçando todas aquelas iniciativas que representam alternativas e sementes de um novo tipo de habitar a Casa Comum.

O cuidado em seu núcleo essencial exige um outro tipo de paradigma civilizacional no qual não o capital material e a acumulação de bens impera, mas o capital humano-espiritual será um dos eixos centrais, capaz de criar um rosto mais humano e fraterno ao convívío humano, com os outros e com toda a natureza.

Seja-nos permitir terminar com uma afirmação que se tornou quase banal mas que não perde em verdade e atualidade: o novo mundo, depois do coronavírus ou mais tarde, ou será mais espiritual ou não será. Razão a mais para começarmos a ser mais espirituais, vale dizer, mais sensíveis, cooperativos, amorosos e cuidadosos, finalmente, mais humanos.

Leonardo Boff escreveu Espiritualidade: um caminho de realização, Mar de Ideias, Rio 2016; Experimentar Deus: a transparência de todas as coisas, Vozes, 2011; Anselm Grün/Leonardo Boff, O Divino em nós, na pessoa e no universo Vozes 2017.

 

 

Covid-19: o cooperamos y nos solidarizamos o no tendremos ningún futuro

Una pregunta siempre presente en las búsquedas humanas es: ¿cuál es nuestra esencia específica? La historia conoce innumerables respuestas, pero la más contundente, convergencia de varias ciencias contemporáneas como la nueva biología evolutiva, la genética, las neurociencias, la psicología evolutiva, la cosmología, la ecología, la fenomenología y otras es esta: la cooperación y la solidaridad.

Michael Tomasello, considerado genial en el área de la psicología del desarrollo infantil de 1 a 3 años, sin intervención invasiva, reunió en un volumen lo mejor de ese campo con el título: Por qué cooperamos (Warum wir kooperieren, Berlim, Suhrkamp 2010). En su ensayo inicial afirma que la esencia de lo humano está en el “altruismo” y la “cooperación”. «En el altruismo uno se sacrifica por el otro. Es la empatía. En la cooperación muchos se unen para el bien común» (pág. 14). Es la solidaridad.

Una de las especialistas principales en psicología y evolución de la Universidad de Stanford, Carol S. Dweck, afirma: «Mas que la excepcional grandeza de nuestro cerebro y nuestra inmensa capacidad de pensar, nuestra naturaleza esencial es ésta: la aptitud para ser seres de cooperación y de relación» (Por qué cooperamos, op.cit 95).

Otra, especialista de la misma ciencia, famosa por sus investigaciones empíricas, Elizabeth S. Spelke, de Harvard, afirma: nuestra marca, por naturaleza, que nos diferencia de cualquier otra especie superior como los primates (de los cuales somos una bifurcación) es “nuestra intencionalidad compartida” que propicia todas las formas de cooperación, comunicación y participación en tareas y objetivos comunes” (op.cit. 112). Discurre junto con el lenguaje, que es esencialmente social y cooperativo, un rasgo específico de los humanos, tal como lo entienden los biólogos chilenos H. Maturana y F. Varela.

Otro especialista, este neurobiólogo del conocido Instituto Max Plank, Joachim Bauer, en su libro El gen cooperativo (Das kooperative Gen, Hoffman und Campe, Hamburgo 2008) y especialmente en el libro Principio-humanidad: por qué cooperamos por naturaleza (2006) apoya la misma tesis: el ser humano es esencialmente un ser cooperativo. Refuta rotundamente al zoólogo inglés Richard Dawkins, autor del libro El gen egoísta (1976/2004). Y afirma «que su tesis no tiene ninguna base empírica; por el contrario, representa el correlato del capitalismo dominante que parece así legitimarlo» (Op.cit.153). También critica la superficialidad de otro libro suyo Dios, una ilusión (2007).

Sin embargo, dice Bauer, está científicamente comprobado que «los genes no son autónomos y de ninguna manera ‘egoístas‘ sino que se agregan con otros en las células de todo el organismo» (El gen cooperativo, 184). Además dice: «Todos los sistemas vivos se caracterizan por la cooperación permanente y la comunicación molecular hacia adentro y hacia fuera» (Op.cit.183). Es notorio para la bioantropología que la especie humana dejó atrás a los primates y se convirtió en ser humano cuando comenzó de manera cooperativa a recoger y a comer lo que recogía.

Una de las tesis axiales de la física cuántica (W.Heisenberg) y de la cosmogénesis (B.Swimme) consiste en afirmar la cooperación y la relación de todos con todos. Todo está relacionado y nada existe fuera de la relación. Todos cooperan unos con otros para coevolucionar. Tal vez la formulación más bella la encontró el Papa Francisco en su encíclica Laudato Sì: sobre el cuidado de la Casa Común: «Todo está relacionado, y todos nosotros, los seres humanos, caminamos juntos como hermanos y hermanas, en una maravillosa peregrinación… que nos une también, con tierno afecto, al hermano sol, a la hermana luna, al hermano río y a la Madre Tierra» (n.92).

Un brasilero, profesor de filosofía de la ciencia en la UFES de Vitória, Maurício Abdala, escribió un convincente libro El principio de cooperación (Paulus 2002), en línea con las reflexiones anteriores.

¿Por qué decimos todo esto? Para mostrar lo antinatural y perverso que es el sistema imperante del capital con su individualismo y su competición sin ninguna cooperación. Es el que está llevando a la humanidad a un fatal callejón sin salida.  Con esta lógica, el coronavirus nos habría contaminado y exterminado la gran mayoria. La cooperación y la solidaridad de todos con todos es lo que nos está salvando.

De aquí en adelante tenemos que decidir si obedecemos a nuestra naturaleza esencial, la cooperación y la empatia a nivel personal, local, regional, nacional y mundial, cambiando nuestra forma de habitar la Casa Común, o comenzamos a prepararnos para lo peor, en un camino sin retorno.

Si no escuchamos esta lección que la Covid-19 nos está dando y volvemos, con más furia aún a lo de antes, para recuperar el atraso, podemos estar en la cuenta regresiva de una catástrofe todavía más letal en un umbral apocalíptico. ¿Quién nos garantiza que no podrá ser el temido NBO (Next Big One), aquel próximo y último virus avasallador e inatacable que pondrá fin a nuestra especie? Grandes nombres de la ciencia como Jacquard, de Duve, Rees, Lovelock y Chomsky entre otros nos advierten sobre esta emergencia trágica.

Solo me queda recordar las últimas palabras del viejo Martin Heidegger en su última entrevista a Der Spiegel, que sería publicada 15 años después de su muerte, refiriéndose a la lógica suicida del proyecto científico-técnico de la modernidad: “Nur noch ein Gott kann uns retten” = “Solo un Dios podrá salvarnos”.

Es lo que espero y creo, pues Dios se ha revelado como “el apasionado amante de la vida” (Sabiduría 11,24).

*Leonardo Boff es ecoteólogo, filósofo y ha escrito: Opción Tierra: la solución de la Tierra no cae del cielo, Record 2009, Sal Terrae 2010.

Traducción de Mª José Gavito Milano

 

O cosmólogo Mark Hathaway e Leonardo Boff conversam sobre o covid-19

Pode-se interpretar a irrupção da pandemia do convid-19 sob muitos aspectos, feitos já a partir de muitas perspectivas científicas, políticas, econômicas e ecológicas. Aqui se propõe um diálogo entre a nova cosmologia, a comunidade de vida e a presença do coronavírus entre o prof. de cosmologia e ética da universidade de Toronto e comigo, pois juntos escrevemos um grosso livro com o título O Tao da Libertação:explorando a ecologia da Transformação”(Orbis Books 2009/Vozes 2012/ Trotta 2014) bem recebido pela comunidade científica. Conta com um prefácio do conhecido físico quântico e ecologista Fritjof Capra. O título Tao se refere ao diálogo entre a cosmologia ocidental e a sabedoria ancestral do Oriente. O encontro será no dia 26 de maio a partir das 14.00,hora do Brasil. Aqui vai o convite para esse live que promete ser interessante. A língua usada será o espanhol com tradução para o inglê sse o francês,línguas faladas no Canadá.  LBoff

Español:
En Diálogo con Leonardo Boff y Mark Hathaway

Martes, 26 de mayo, 1:00-2:30 PM EDT
Afiche/Grafico: http://tiny.cc/boff-es
Inscripción: http://tiny.cc/boff
Convertir la hora a tu hora local: http://tiny.cc/boff-hora
Encontrémonos con Mark Hathaway del Foro Jesuita en conversación con el ecoteólogo Leonardo Boff sobre algunos temas claves que surgen de la encíclica Laudato Sí.

Juntos, explorarán:

Por qué la crisis ecológica es, ante todo, una crisis de relaciones,
Cómo la ecología integral entrelaza las dimensiones sociales, económicas, ambientales y espirituales,
Cómo responder al llamado a una conversión ecológica radical, y
Cómo se puede poner en práctica una espiritualidad ecológica.

Más detalles

Leonardo Boff es el teólogo más reconocido de Brasil, autor de unos cien libros sobre la teología de la liberación, ecología y espiritualidad, y ganador del Premio Right Livelihood en 2001. Junto con Boff, Mark Hathaway escribió el libro El Tao de la Liberación: Una Ecología de la Transformación (Orbis, 2009; Vozes, 2012; Trotta, 2014).

English:

In Dialogue with Leonardo Boff and Mark Hathaway
Tuesday, May 26, 1-2:30 PM EDT
Poster / Graphic: http://tiny.cc/boff-en
Registration: http://tiny.cc/boff
Convert event time to your local time at: http://tiny.cc/boff-time
This event will be in Spanish and interpreted into both English and French
Please join the Jesuit Forum’s Mark Hathaway in conversation with renowned Brazilian theologian Leonardo Boff on key themes arising from the encyclical Laudato Sí.
Together, they will explore:

Why the ecological crisis is, at its heart, a crisis of relationships,
How integral ecology weaves together social, economic, environmental, and spiritual dimensions,
How to respond to the call to radical ecological conversion, and
How to live out an ecological spirituality in practice.

More Details

Leonardo Boff is Brazil’s best-known theologian, author of hundred books on liberation theology, ecology, and spirituality, and recipient of the 2001 Right Livelihood Award. Mark Hathaway, the Jesuit Forum’s Associate Director, co-authored The Tao of Liberation: Exploring the Ecology of Transformation with Boff (Orbis, 2009).

Français

En Dialogue avec Leonardo Boff/ Mark Hathaway
Mardi, 26 mai 2020, 1h00 à 2h30 (EDT)
Affiche et graphique : http://tiny.cc/boff-fr
Inscription : http://tiny.cc/boff
Convertir à l’heure locale : http://tiny.cc/boff-heure
Rejoignez Mark Hathaway du Jesuit Forum pour une conversation avec le théologien et penseur altermondialiste Leonardo Boff autour des thèmes clés de l’encyclique Laudato Sí’.
Ensemble, ils se demanderont :

Pourquoi la crise écologique est d’abord et avant tout, une crise des relations,
– De quelle manière l’écologie intégrale peut lier entre elles les dimensions sociales, économiques, environnementales et spirituelles de notre Maison commune ;
– Comment répondre à l’appel à une conversion écologique radicale lancé par le pape François
Comment mettre en pratique la spiritualité écologique au cœur de Laudato Si’.

Plus de détails
Leonardo Boff est le théologien le plus renommé du Brésil, auteur de presque cent livres sur la théologie de la libération, l’écologie et la spiritualité, et lauréat du Right Livelihood Award en 2001. Avec Boff, Mark Hathaway a écrit le livre The Tao of Liberation : Exploring the Ecology of Transformation (Orbis, 2009 ; Vozes, 2012 ; Trotta, 2014).

 

 

El post-coronavírus: qué cosmologia y qué virtudes assumir?(IV)

Este modo de vida sostenible propuesto por la Carta de la Tierra se traduce en prácticas virtuosas que hacen real este proposito. Son muchas las virtudes para otro mundo posible. Seré breve, ya que publiqué tres volúmenes con este mismo título “Virtudes para otro mundo posible” (Sal Terrae 2005-2006). Enumero 10 sin detallar su contenido, lo que nos llevaría lejos.

           Virtudes de otro mundo posible y necesario

La primera es el cuidado esencial. Lo llamo esencial porque, según una tradición filosófica que proviene de los romanos, cruzó los siglos y adquirió su mejor forma con varios autores, especialmente en el núcleo central de Ser y Tiempo de Heidegger. En él se considera el cuidado como la esencia del ser humano. Es la condición previa para el conjunto de factores que permiten el surgimiento de la vida. Sin cuidado, la vida nunca irrumpiría ni podría sobrevivir. Algunos cosmólogos como Brian Swimme y Stephan Hawking vieron el cuidado como la dinámica misma del universo. Si las cuatro energías fundamentales no tuvieran el cuidado sutil de actuar sinérgicamente, no tendríamos el mundo que tenemos. Todo ser vivo depende del cuidado. Si no hubiésemos tenido el cuidado infinito de nuestras madres, no sabríamos cómo salir de la cuna y buscar nuestro alimento, ya que somos seres biológicamente carentes, sin ningún órgano especializado. Necesitamos el cuidado de otros. Todo lo que amamos también lo cuidamos y todo lo que cuidamos, lo amamos. Con respecto a la naturaleza significa una relación amistosa, no agresiva y respetuosa de sus límites.

La segunda virtud es el sentimiento de pertenencia a la naturaleza, a la Tierra y al universo. Somos parte de un gran Todo que nos desborda por todos los lados. Somos la parte consciente e inteligente de la naturaleza, somos esa parte de la Tierra que siente, piensa, ama y venera. Este sentimiento de pertenencia nos llena de respeto, de asombro maravillado y de acogida.

La tercera virtud es la solidaridad y la cooperación. Somos seres sociales que no sólo viven, sino que conviven con otros. Sabemos por la bioantropología que fue la solidaridad y la cooperación de nuestros antepasados antropoides la que, al buscar alimentos y traerlos para el consumo colectivo, les permitió dejar atrás la animalidad e inaugurar el mundo humano.Las varias ciencias de la vida, la psicologia evolutiva,las neurociencias, la cosmogénesis, la ecología y otras han confirmado el caracter esencial de la cooperación y de la solidaridad. Hoy, en el caso del coronavirus, lo que nos está salvando es la solidaridad y la cooperación de todos con todos.No son los valores axiales del capitalismo: la competencia y el individualismo. Esta solidaridad debe comenzar por los últimos e invisibles, sin los cuales deja de ser inclusiva de todos.

La cuarta virtud es la responsabilidad colectiva. Ya hemos expuesto su significado más arriba. Es el momento de la conciencia en el que cada uno y toda la sociedad se dan cuenta de los efectos buenos o malos de sus decisiones y actos. Sería absolutamente irresponsable la deforestación descontrolada de la Amazonia porque desequilibraría el régimen de lluvias de vastas regiones y eliminaría la biodiversidad indispensable para el futuro de la vida. No necesitamos referirnos a una guerra nuclear cuya letalidad eliminaría toda la vida, especialmente la humana.

La quinta virtud es la hospitalidad como deber y como derecho. El primero en presentar la hospitalidad como un deber y un derecho fue Immanuel Kant en su famoso texto “En vista de la paz perpetua” (1795). Entendía que la Tierra es de todos, porque Dios no le dio la propiedad de ninguna parte de ella a nadie. Ella pertenece a todos los habitantes, que pueden caminar por todas partes. Cuando se encuentra a alguien, es el deber de todos ofrecer hospitalidad, como signo de pertenencia común a la Tierra, y todos tenemos derecho a ser acogidos, sin distinción alguna. Para Kant, la hospitalidad junto con el respeto de los derechos humanos constituirían los pilares de una república mundial (Weltrepublik). Este tema es de mucha actualidad dado el número de refugiados y las muchas discriminaciones de diferentes clases. Tal vez sea una de las virtudes más urgentes en el proceso de planetización, aunque una de las menos vividas.

La sexta virtud es la convivencia de todos con todos. La convivencia es un hecho primario porque todos venimos de la convivencia que tuvieron nuestros padres. Somos seres de relación, que es lo mismo que decir, no vivimos simplemente, sino que convivimos a lo largo del tiempo. Participamos de la vida de los demás, de sus alegrías y angustias. Sin embargo es difícil para muchos convivir con aquellos que son diferentes, ya sea de etnia, de religión, de partido político. Lo importante es estar abierto al intercambio. Lo diferente siempre nos trae algo nuevo que nos enriquece o nos desafía. Lo que nunca podemos hacer es convertir la diferencia en desigualdad. Podemos ser humanos de muchas maneras diferentes, a la manera brasileña, italiana, japonesa, yanomami. Cada manera es humana y tiene su dignidad. Hoy, a través de los medios de comunicación cibernéticos, abrimos ventanas a todos los pueblos y culturas. Saber convivir con estas diferencias abre nuevos horizontes y entramos en una especie de comunión con todos. Esta convivencia implica también a la naturaleza, convivir con los paisajes, con los bosques, con los pájaros y los animales. No sólo para mirar el cielo estrellado, sino para entrar en comunión con las estrellas, porque de ellas venimos y formamos un gran Todo. En definitiva, formamos una comunidad de destino común con toda la creación.

La séptima virtud es el respeto incondicional. Cada ser, por pequeño que sea, tiene valor en sí mismo, independientemente del uso humano. Albert Schweitzer, gran médico suizo que fue a Gabón, en África, para atender a los hansenianos, desarrolló el tema en profundidad. Para él el respeto es la base más importante de la ética, porque incluye la acogida, la solidaridad y el amor. Debemos empezar por el respeto a nosotros mismos, manteniendo actitudes dignas y formas que despierten el respeto de los demás. Es importante respetar a todos los seres de la creación, porque ellos valen por sí mismos; existen o viven y merecen existir o vivir. Es especialmente valioso el respeto ante toda persona humana, pues es portadora de dignidad, de sacralidad y de derechos inalienables, sin importar de dónde provenga. Debemos un respeto supremo a lo sagrado y a Dios, el misterio íntimo de todas las cosas. Sólo ante Él podemos arrodillarnos y venerar, pues sólo ante Él cabe esta actitud.

La octava virtud es la justicia social y la igualdad fundamental de todos. Justicia es más que dar a cada uno lo que es suyo; entre los humanos, la justicia es el amor y el mínimo respeto que debemos dedicar a los demás. La justicia social es garantizar lo mínimo a todas las personas, no crear privilegios, y respetar sus derechos en pie de igualdad, porque todos somos humanos y merecemos ser tratados humanamente. La desigualdad social significa injusticia social y, teológicamente, es una ofensa al Creador y a sus hijos e hijas. Tal vez la mayor perversidad que existe hoy en día sea la que deja a millones de personas en la miseria, condenadas a morir antes de tiempo. En este tiempo de coronavirus, se ha demostrado la violencia de la desigualdad social y la injusticia. Mientras algunos pueden vivir en cuarentena en casas o apartamentos adecuados, la gran mayoría de los pobres están expuestos a la contaminación y a menudo a la muerte.

La novena virtud es la búsqueda incansable de la paz. La paz es uno de los bienes más ansiados, porque, por el tipo de sociedad que construimos, vivimos en permanente competencia, con llamadas al consumo y a la exaltación de la productividad. La paz no existe en sí misma, es la consecuencia de valores que deben ser vividos previamente y que dan como resultado la paz. Uno de las formas más acertadas de comprender la paz nos viene de la Carta de la Tierra, donde se dice: «La paz es la plenitud que resulta de las relaciones correctas con uno mismo, con otras personas, con otras culturas, con otras vidas, con la Tierra y con el Gran Todo del cual somos parte» (n.16 f). Como se puede ver, la paz es la consecuencia de relaciones adecuadas y el fruto de la justicia social. Sin estas relaciones y esta justicia sólo conoceremos una tregua, nunca una paz permanente.

La décima virtud es el cultivo del sentido espiritual de la vida. El ser humano tiene una exterioridad corporal mediante la cual nos relacionamos con el mundo y con las personas y tenemos también una interioridad psíquica donde se anidan, en la estructura del deseo, nuestras pasiones, los grandes sueños, y nuestros ángeles y demonios. Debemos controlar estos últimos y cultivar amorosamente los primeros. Sólo así podremos disfrutar del equilibrio necesario para la vida.

Pero también poseemos una profundidad, esa dimensión en la que residen los grandes interrogantes de la vida: ¿quiénes somos, de dónde venimos, a dónde vamos, qué podemos esperar después de esta vida terrenal? ¿Cuál es la Energía Suprema que sostiene el firmamento y mantiene nuestra Casa Común alrededor del Sol y la mantiene siempre viva para permitirnos vivir? Es la dimensión espiritual del ser humano, hecha de valores intangibles como el amor incondicional, la confianza en la vida, el coraje para enfrentar las inevitables dificultades. Nos damos cuenta de que el mundo está lleno de sentidos, que las cosas son más que cosas, son mensajes y tienen otro lado invisible. Intuimos que hay una Presencia misteriosa que impregna todas las cosas. Las tradiciones religiosas y espirituales han llamado a esta Presencia con mil nombres, sin poder, sin embargo, descifrarla totalmente. Es el misterio del mundo que se remite al Misterio Abisal que hace que sea todo lo que es. Cultivar este espacio nos humaniza, nos hace más humildes y nos arraiga en una realidad trascendente, adecuada a nuestro deseo infinito.

              Conclusión: ser simplemente humanos

La conclusión que sacamos de estas largas reflexiones sobre el coronavirus 19 es: debemos ser simplemente humanos, vulnerables, humildes, conectados entre sí, solidarios y cooperativos, parte de la naturaleza y la porción consciente y espiritual de la Tierra con la misión de cuidar la herencia sagrada que hemos recibido, la Madre Tierra, para nosotros y para las generaciones futuras.

Son inspiradoras las últimas frases de la Carta de la Tierra: «Que nuestro tiempo sea recordado por el despertar de una nueva reverencia ante la vida, por el firme compromiso de alcanzar la sostenibilidad e intensificar la lucha por la justicia y la paz, y por la alegre celebración de la vida».

*Leonardo Boff es ecoteólogo y ha escrito Virtudes para otro mundo posible (3 vol.), Sal Terrae, 2005-2006.

Traducción de Mª José Gavito Milano