Sugestões para a reflexão aos que estão em quarentena

Muitos, por causa do coronavírus têm que se manter reclusos em casa. É a oportunidade de uma espécie de interiorização. Não vejamos só a TV e filmes do NTflix também muito úteis. Mas temos outras formas de nos ocuparmos. Não temos só corpo que cuidamos especialmente agora, nem só a psiqué que nos faz manter o equilíbrio interior. Temos também o Profundo que é nosso espírito que tudo anima, vivifica e nos voar ao infinito. Ele não é vazio.Está cheio de sonhos, arquétipos (disposições profundas) e anseios por algo maior que vai além desta cansada existência. O mundo moderno nos distrai com tantos meios que nos dificulta esta visitação interior. Agora é o momento: qual é o sentido,afinal, de nossas vidas, de nossas famílias, que futuro terão nossos filhos e filhas face à crise ecológica gravíssima pondo em risco nosso futuro, qual o sentido de nosso mundo ameaçado de mil doenças como a de agora e de outras pre-anunciadas? Que podemos esperar para além desta vida tão curta e trabalhosa? O que se esconde atrás das coisas, do céu estrelado e do nosso Profundo mais profundo, onde se esconde o Self, a imagem de Deus ou Deus mesmo? É nesses momentos seminais que é importante pensar,repensar,meditar e ler textos que nos alimentam o espírito. Eu sugiro como cristão os evangelhos, as Cartas de São Paulo, cheias de sabedoria e especialmente os Salmos.Vejam o salmo 103 que nos fala da misericórdia:”Deus não está sempre nos acusando,nem guarda rancor para  sempre…é como um pai que sente compaixão por seus filhos e filhas, porque ele conhece nossa natureza e se lembra de que somos pó e sua misericórdia é de sempre para sempre”. Todo momento sentimos o peso do negativo em nossas vidas. E quando lemos estas palavras, de fato inspiradas (quem poderia dizer tais coisas,senão alguém inspirado pelo Espírito?) nos sentimos aliviados. Jesus disse “que veio para os doentes e não para os sãos e que ama os ingratos e maus”. Ou ler tópicos da Imitação de Cristo (de 1441), o livro mais lido na Cristandade depois da Bíblia tão cheio de sabedoria que Freud e Heidegger os consultavam. Eu me dei o trabalho,por dois anos, de traduzi-lo do latim medieval, arrendar algumas formulações dualistas, na linha da teologia oficial da Igreja de hoje e ainda ousei acrescentar uma parte sobre o Seguimento de Jesus, onde Ele fala a nossa linguagem e a nossa visão moderna do mundo em evolução. E há tantos outros livros de outros caminhos espirituais, como a Via de Tzuan-Chu, traduzida por Thomas Merton, da velha sabedoria do Tao e outros modernos. Transcrevo aqui a reflexão de um monge beneditino, Dom Marcelo Barros, que vive a contemplação no meio de mil ocupações e de viagens (é um dos mais requisitados no Brasil e no exterior) no caminho de São Bento, o primeiro a criar mosteiros no Ocidente (547). É um estímulo de como ser espiritual no mundo secular, sem precisar ir a uma igreja ou se retirar dos afazeres da vida. Leiam suas sugestões pois lhes podem inspirar algum caminho. Lboff

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Nesse dia, 21 de março, há muitos séculos (547), faleceu Bento de Núrcia (São Bento) que propôs um estilo de vida para quem quer viver a radicalidade do evangelho em comunidade. Essa foi a origem dos monges beneditinos que depois institucionalizaram demais essa proposta que é a vida nos mosteiros. Hoje, podemos pensar o mesmo projeto em uma sociedade laical (isso é, não religiosa) e de forma mais espontânea e na dispersão da vida, de modo que mesmo vivendo separados, não seja cada um por si.
Quando São Bento era jovem, ele pensava: “Dentro de mim, eu não sou um. Sou muitos”. E trabalhou isso de forma que, algum tempo depois de sua morte, o papa Gregório dizia: Era um homem que habitava consigo mesmo. Essa é a proposta da espiritualidade nas mais diversas tradições espirituais: unificar-se interiormente e para isso ser capaz de viver em comum com os outros, trabalhar em comum, aceitar as diferenças e viver o amor.
Em tempos de riscos de contágio do vírus, é bom a gente saber que a sociedade tem vários vírus que nós pegamos sem nem perceber. A normose é um deles. Hábitos, falas, caminhos, tudo já bem decidido e bem arrumadinho… A vida fica parecendo esses mapas turísticos que em cidades da Europa (Paris, Veneza) as pessoas compram quando vão visitar. No mapa tem os pontos. 1, 2, 3, 4… É só você ir seguindo… Da catedral passa para o monumento antigo. Deste, você vai para o 3 que é a praça onde se deu tal acontecimento e assim por diante. Tudo previsto, tudo contido. E muita gente se satisfaz em viver assim. Como foi o teu dia ontem? Levantei, tomei café, fui para o trabalho, voltei, tomei banho, vi televisão e fui dormir.
Para a vida espiritual, não há mapas turísticos, regrinhas e etiquetas já programadas. O caminho da libertação do povo de Deus foi o êxodo no deserto. Quando, no rio Jordão, ao ser batizado, Jesus escutou de Deus a revelação de que ele é o filho amado do Pai, saiu das águas e correu ao deserto para fazer sua escolha de um projeto de vida. Essa quaresma de 2020 tem sido para a maioria de nós um deserto forçado pelo coronavírus. Um momento do mundo que no século XXI, a gente não podia imaginar que iria viver, como se estivéssemos nos tempos medievais da peste negra. O vírus revela a fragilidade das estruturas da sociedade. Tudo quebra. Tudo está em crise. Em tempos de contágio, como sobreviverem shoppings, clubes, cruzeiros marítimos e viag ens a&ea cute;reas? Claro os pobres que sobrevivem de vender picolé na rua sofrem mais e quem vive de trabalho precário e autônomo e é obrigado a parar, quem vai pagar? Ao mesmo tempo, as notícias mostram em todo o mundo, as águas de Veneza limpas como há 50 anos quando não havia a poluição dos barcos a motor. Mostram botos nadando nas baías e cisnes e patos selvagens voltando a ocupar os rios antes sujos de petróleo… E isso em apenas um ou dois meses de quarentena.
Será que conseguiremos aprender com a natureza a também nós voltarmos ao nosso ecossistema original que é a espiritualidade do bem-viver? Será que reaprenderemos a alegria do diálogo dois a dois, do ter assuntos agradáveis para ir ganhando (não perdendo) tempo? Será que conseguiremos voltar a horários de sono e de acordado que nos façam mais bem? Principalmente, será que aceitaremos ir revendo nosso estilo de vida e ir priorizando relações que nos façam construir juntos um projeto novo de vida e não apenas a normose de sempre?

Um abraço amigo do irmão Marcelo Barros, beneditino.
visite o blog: http://www.marcelobarros.com

 

 

 

 

São José, santo do povo, dos anônimos, dos operários

Hoje, dia 19 de março é o dia de São José, o santo tão venerado pelos nordestinos e por tantos outros cristãos. Se não chover até o dia de São José, a seca virá. Por isso ele é venerado com grande expectativa e unção especialmente pelos camponeses.

Escrevi um livro sobre São José, produto de 20 anos de pesquisa (São José a personificação do Pai, Verus 2005 e Vozes 2012). Não se pode pensar concretamente no mistério da encarnação do Filho Jesus sem a presença de José. Foi ele quem acolheu Maria grávida e criou as condições reais para uma vida de família.

Mas na tradição nunca se deu muita importância a ele. Só se pensa em sua missão e, uma vez cumprida, ele pode desaparecer e ser esquecido. Na verdade, Maria, sem José, não teria condições de cuidar da vida do menino Jesus, especialmente ameaçado de ser morto pelo terrível Herodes. Os primeiros sermões sobre São José só começaram a ser feitos a partir dos anos 800. Por aí se percebe a pouca importância que lhe era atribuída, explico no livro.

A razão é que vivemos num tipo de Igreja na qual o que conta é quem detém a palavra e poder de decisão, que são os bispos e os padres,numa palavra, a Hierarquia. De São José não temos nenhuma palavra. Ele apenas teve sonhos. Nem sabemos sua origem e quem foram seus pais. A Igreja não sabia o que fazer com São José. Só em 1870, foi proclamado patrono da Igreja. Mas, na verdade, ele é patrono da Igreja dos invisíveis e anônimos, dos milhões e milhões de cristãos que vivem no seu dia a dia os valores do evangelho da solidariedade, do respeito e do amor desinteressado. Vejo em São José a representação de milhões de cristãos que nunca aparecem nem podem falar e decidir sobre suas vidas e os rumos da sociedade em que vivem.

Dei em 2013 a Walter Sebastião a seguinte entrevista que transcrevo.

Qual o sentimento do senhor diante da cena do nascimento de Jesus?

Precisamos resgatar a inteligência emocional e cordial que vai além da razão intelectual. Quando nasce uma criança, nos enchemos de admiração e dizemos: sempre que nasce uma criança é sinal de que Deus ainda acredita na humanidade. Assim devemos entender os relatos bíblicos sobre o nascimento de Jesus. A comunidade cristã, quando escreveu os evangelhos, cerca de 40-50 anos depois da crucificação de Jesus e de sua ressurreição, já havia entendido que atrás daquela criança se escondia o próprio filho de Deus. Por isso cercam a cena do Natal de significados celestiais, como anjos que cantam, a estrela no céu, os sábios (magos) que vêm de longe.

Como tudo historicamente aconteceu não o sabemos pela razão intelectual, mas pela inteligência emocional e cordial intuímos que aí há um mistério ao qual nos acercamos com reverência e respeito. E criamos símbolos adequados que conferem relevância a esse fato, que, em si, pareceria banal.

Que tipo de paternidade São José enseja ou inspira?

A teologia cristã diz que ele exerceu todas as funções de pai, que foi a de cuidar de Maria em sua gravidez e de proteger Jesus e sua mãe, Maria, quando tiveram que fugir para o exílio no Egito. Viveu como esposo e iniciou o filho nas tradições religiosas do povo e na profissão de carpinteiro que era uma espécie de fac-totum (telhados, mesas, janelas etc).

Dogmaticamente, nada impede que ele tivesse sido pai biológico de Jesus. Os evangelhos falam que “Jesus é filho de José”, ou “o filho do carpinteiro”. Mas não é isso que testemunha toda a tradição cristã.

A gravidez de Maria se deve à ação do Espírito Santo que foi a primeira Pessoa divina a vir a esse mundo. Veio morar nela, quer dizer, a elevou à altura divina para gerar um Filho que também fosse divino como observa São Lucas no seu evangelho. Desta forma, com Jesus deu origem a uma nova humanidade, totalmente purificada do peso da história, marcada pela dimensão do negativo, da ruptura com a criação, com os outros e especialmente com Deus. Ele foi pai adotivo e legal no sentido semita, aquele que dá o nome à criança, como refere o evangelho de São Mateus. Assim se torna o pai social. De toda forma, Maria e Jesus formam a família de José.

Como a dimensão do masculino se afirma a partir de São José?

José mostra o lado melhor da paternidade, que é o de ser o cuidador, o educador e provedor,aquele que está sempre ao lado da esposa e do filho. A Bíblia fala que era um “homem justo”. Na linguagem da época significava que socialmente assumia uma liderança e era considerado um ponto de referência para todos.

Hoje, sofremos com o eclipse da figura do pai. Isso produz sentimento de insegurança nos filhos e filhas e sua falta de limites. José foi um educador. Se Jesus mais tarde vai chamar Deus de “paizinho querido”(Abba) isso significa que ele teve uma experiência de grande intimidade com o pai José. Freud mostrou que a base para uma imagem boa de Deus provém de uma relação boa com o próprio pai.

Os tempos de José e os nossos são diferentes. Mas a missão é a mesma: ser aquela figura que cuida, que provê tudo o que a família precisa, que inicia nos valores éticos e espirituais da sociedade e que aceita correr riscos em defesa da família, como quando teve que enfrentar o deserto a caminho do Egito.

Aí aparece a dimensão do masculino ( do “animus”, a coragem, a direção e a determinação), que junto com o feminino (a “anima”, o afeto, o cuidado e o amor) ajudam a constituir uma personalidade integrada e feliz, pois cada pessoa carrega seu lado feminino e masculino.

Qual a importância teológica de São José?

Tenho defendido a tese, até hoje nunca ajuizada pelas autoridades doutrinárias da Igreja, de que São José é a personificação do Pai celeste. Deve haver um equilíbrio no mistério de Deus que se auto-entregou e se revelou à humanidade. O Espírito Santo, segundo Lucas, veio sobre Maria e fez morada nela, quer dizer, ficou permanentemente nela. Em seu seio, por causa da presença do Espírito Santo, começou a se formar a santa humanidade do Filho do Pai.

O Filho se encarnou em Jesus, nascido de Maria. E o Pai não ficou de fora desse processo. Ele é bem representado pela figura de José, porque o Pai é o mistério absoluto representado pelo silêncio (não fala, quem fala é o Filho), é o criador de todas as coisas. O grande psicanalista C.G. Jung mostrou que o sonho representa o Profundo, o lado de Mistério do ser humano. São José só teve sonhos, nele o Profundo se manifestou.

Ele também é o homem do silêncio e o trabalhador. Este, o trabalhador, não fala com a boca, mas pelas mãos que constroem a casa, os bancos, as janelas e os telhados. O Pai celestial é o que cuida de todo o universo e de cada um de nós, à semelhança de São José, que cuidou da família em tudo o que fosse necessário.

São José comparece como a figura mais adequada para receber em sua vida a vinda do Pai que também veio morar conosco. Se o sonho é expressão do mistério no ser humano, o Pai é o Mistério absoluto. Portanto, há uma adequação entre São José e o Pai celeste.

Identifiquei na Igreja de São Francisco Xavier, na pequena vila de Saint François du Lac, em Quebec, no Canadá, um quadro de 1742 que representa são José com o mesmo rosto do Pai celeste que aparece no alto. Daí me veio a ideia de que São José é a personificação do Pai celeste. Assim temos a família divina encarnada na família humana.

A totalidade do mistério da Santíssima Trindade entrou em nossa história e a santificou. São José é parte desta entrega total do Deus-família à família humana. Os cristãos deveriam refletir mais sobre essa conexão para se sentir mais envolvidos pela presença divina e ficar sabendo que o nosso Deus é um Deus próximo e que se revelou assim como é, como Pai (em José) como Filho (em Jesus) e como Espírito Santo (em Maria).

Leonardo Boff é teólogo e escreveu São José: a personificação do Pai, Vozes, Petrópolis 2012

 

 

 

Coronavirus: ¿reacción y represalia de Gaia?

Todo está relacionado con todo: es hoy un dato de la conciencia colectiva de los que cultivan una ecología integral, como Brian Swimme y tantos otros científicos y el Papa Francisco en su encíclica “Sobre el cuidado de la Casa Común”. Todos los seres del universo y de la Tierra, también nosotros, los seres humanos, estamos envueltos en intrincadas redes de relaciones en todas las direcciones, de suerte que no existe nada fuera de la relación. Esta es también la tesis básica de la física cuántica de Werner Heisenberg y de Niels Bohr.

Eso lo sabían los pueblos originarios, como lo expresan las sabias palabras del cacique Seattle en 1856: “De una cosa estamos seguros: la Tierra no pertenece al hombre. Es el hombre quien pertenece a la Tierra. Todas las cosas están interligadas como la sangre que une a una familia; todo está relacionado entre sí. Lo que hiere a la Tierra hiere también a los hijos e hijas de la Tierra. No fue el hombre quien tejió la trama de la vida: él es meramente un hilo de la misma. Todo lo que haga a la trama, se lo hará a sí mismo”. Es decir, hay una íntima conexión entre la Tierra y el ser humano. Si agredimos a la Tierra, nos agredimos también a nosotros mismos y viceversa.

Es la misma percepción que tuvieron los astronautas desde sus naves espaciales y desde la Luna: Tierra y humanidad son una misma y única entidad. Bien lo declaró Isaac Asimov en 1982 cuando, a petición del New York Times, hizo un balance de los 25 años de la era espacial: “El legado es la constatación de que, en la perspectiva de las naves espaciales, la Tierra y la humanidad forman una única entidad (New York Times, 9 de octubre de 1982)”. Nosotros somos Tierra. Hombre viene de húmus, tierra fértil, el Adán bíblico significa hijo e hija de la Tierra fecunda. Después de esta constatación, nunca más ha apartado de nuestra conciencia que el destino de la Tierra y el de la humanidad están indisociablemente unidos.

Desafortunadamente ocurre aquello que el Papa lamenta en su encíclica ecológica: “nunca maltratamos y herimos a nuestra Casa Común como en los dos últimos siglos” (n.53). La voracidad del modo de acumulación de la riqueza es tan devastadora que hemos inaugurado, dicen algunos científicos, una nueva era geológica: la del antropoceno. Es decir, quien amenaza la vida y acelera la sexta extinción masiva, dentro de la cual estamos ya, es el mismo ser humano. La agresión es tan violenta que más de mil especies de seres vivos desaparecen cada año, dando paso a algo peor que el antropoceno, el necroceno: la era de la producción en masa de la muerte. Como la Tierra y la humanidad están interconectadas, la muerte se produce masivamente no solo en la naturaleza sino también en la humanidad misma. Millones de personas mueren de hambre, de sed, víctimas de la guerra o de la violencia social en todas partes del mundo. E insensibles, no hacemos nada.

No sin razón James Lovelock, el formulador de la teoría de la Tierra como un superorganismo vivo que se autorregula, Gaia, escribió un libro titulado La venganza de Gaia (Planeta 2006). Calculo que las enfermedades actuales como el dengue, el chikungunya, el virus zica, el sars, el ébola, el sarampión, el coronavirus actual y la degradación generalizada en las relaciones humanas, marcadas por una profunda desigualdad/injusticia social y la falta de una solidaridad mínima, son una reaacción, hasta una represalia de Gaia por las ofensas que le infligimos continuamente. No diría como J. Lovelock que es “la venganza de Gaia”, ya que ella, como Gran Madre que es, no se venga, sino que nos da graves señales de que está enferma (tifones, derretimiento de casquetes polares, sequías e inundaciones, etc.) y, al límite, porque no aprendemos la lección, toma represalias como las enfermedades mencionadas.

Recuerdo el libro-testamento de Théodore Monod, tal vez el único gran naturalista contemporáneo, Y si la aventura humana fallase (París, Grasset 2000): «somos capaces de una conducta insensata y demente; a partir de ahora se puede temer todo, realmente todo, inclusive la aniquilación de la raza humana; sería el precio justo de nuestras locuras y crueldades» (p.246).

Esto no significa que los gobiernos de todo el mundo, resignados, dejen de combatir el coronavirus y de proteger a las poblaciones ni de buscar urgentemente una vacuna para combatirlo, a pesar de sus constantes mutaciones. Además de un desastre económico-financiero puede significar una tragedia humana, con un número incalculable de víctimas. Pero la Tierra no se contentará con estas pequeñas contrapartidas. Suplica una actitud diferente hacia ella: de respeto a sus ritmos y límites, de cuidado a su sostenibilidad y de sentirnos, más que hijos e hijas de la Madre Tierra, la Tierra misma que siente, piensa, ama, venera y cuida. Así como nos cuidamos, debemos cuidar de ella. La Tierra no nos necesita. Nosotros la necesitamos. Puede que ya no nos quiera sobre su faz y siga girando por el espacio sideral pero sin nosotros porque fuimos ecocidas y geocidas.

Como somos seres de inteligencia y amantes de la vida podemos cambiar el rumbo de nuestro destino. Que el Espíritu Creador nos fortalezca en este propósito.

*Leonardo Boff escribió Cuidar la Tierra-proteger la vida: cómo evitar el fin del mundo, Record, Rio de Janeiro 2010.

Traducción de Mª José Gavito Milano

 

 

 

Para quem é querida ou não a Exortação “Querida Amazônia”

Para ser sincero, o presente texto foi escrito e enviado ao Papa Francisco em forma de carta, como fiz de outras vezes. Como não respondeu, o que é de seu direito, resolvi transformar o formato de carta, numa reflexão teológica, fundada, creio eu, na melhor tradição e nos estudos mais sérios sobre o tema, que não cabe aqui referir. Concordando fortemente com a bela Exortação Apostólica “Querida Amazônia” me permiti fazer estas reflexões no sentido de reafirmar a intenção originária do Sínodo Panamazônico de uma verdadeira inculturação da Igreja na cultura dos diversos povos indígenas. Isso implicava a ordenação ao sacerdócio de indígenas casados, “viri probati“. Isso foi aprovado neste Sínodo pela maioria dos votantes. O Papa mesmo incentivava esta plena inculturação. Por surpresa geral, tal ideia não foi assumida pela Exortação Apostólica”Querida Amazônia”. Não são poucos até entre bispos que supõem que aqui agiu outra mão, usou outro estilo e reafirmou a doutrina comum de viés tradicionalista, superada pelo eclesiologia de comunhão do Concílio Vaticano II. Meu texto procura resgatar o valor desta eclesiologia de comunhão, nova e tradicional por cerca de mil anos, segundo a qual quem preside a comunidade (um bispo, um presbítero,um agente de pastoral e um leigo casado e vir probatus) preside também a celebração da Eucaristia. Tempos virão em que essa possibilidade será realizada para que a Igreja de rosto amazônico e indígena seja realmente expressão de uma inculturação legítima da fé cristã, como foi a inculturação desta fé – na sua origem judaica – na cultura grega, romana e germânica. Lboff.

O Papa Francisco é o defensor mundial da Mãe Terra e de tudo o que sustenta a sua sobrevivência. Li com atenção e grande entusiasmo a sua exortação apostólica “Querida Amazônia”. Nela, ele considera um crime verdadeiro o que está sendo feito agora na Amazônia. Ele contrapõe quatro sonhos axiais: social, cultural, ecológico e eclesial.

Como não ficar encantado com afirmações como esta, entre outras tantas, clara expressão de uma ecologia integral e cósmica:

“Somos água, ar, terra e vida do meio ambiente criado por Deus. Por conseguinte, pedimos que cessem os maus-tratos e o extermínio da ‘Mãe Terra’. A terra tem sangue e está sangrando, as multinacionais cortaram as veias da nossa ‘Mãe Terra’” [n. 42].

Estou plenamente de acordo com esse tipo de linguagem e de denúncia e, especialmente, com os três primeiros sonhos e com a primeira parte do quarto, que vão na linha da Laudato si’ sobre o cuidado da casa comum.

Três sonhos e meio e um pesadelo

Essa primeira parte do quarto sonho segue o estilo de grande beleza dos sonhos anteriores. No entanto, a segunda parte me parece mais um pesadelo. O tom antes profético, ético, ecológico e poético dos primeiros se evaporou. Estará aí a presença de outra mão?

Atrevo-me a pensar que essa parte está sob o domínio do velho paradigma cultural latino, clerical e machista. E se nega aos indígenas o direito divino de receber o corpo e o sangue de Cristo pelas mãos dos seus viri probati casados e ordenados. Eles são impedidos pela aplicação de uma lei humana eclesiástica: o celibato. Outros teólogos afirmaram, e eu enfatizo: “Não podemos colocar a questão do celibato acima da celebração da Eucaristia”.

Tenho a impressão de que essa parte do quarto sonho vem de outra mão e de outro espírito, diferente daquele a que o Papa Francisco nos acostumou. Quem confirma isso claramente é o bispo Erwin Kräutler, da Amazônia, figura central no Sínodo Pan-Amazônico: “Muitas pessoas, e eu mesmo, achamos essa parte muito estranha, porque realmente muda de estilo, como se o escrito papal tivesse sofrido uma intervenção na parte mais controversa da Exortação Apostólica”.

Nessa parte, fala não o pastor, mas sim o doutor. Mais a autoridade doutrinal que impõe uma lição teológica do que um padre que reflete a partir das urgências da sua comunidade. Não é aquele que tem a coragem de enfrentar o sistema antivida, mas sim aquele que se rende aos temores e à pressão dos grupos conservadores, possivelmente pelo risco de uma cisão dentro da Igreja. O temor sempre freia ou posterga as inovações devido a uma excessiva prudência. Isso me faz lembrar das palavras de Dante Alighieri na “Divina Comédia“: “Nel pensier rinova la paura” (Inferno I, verso 4).

Com relação ao ponto importante do ministério sacerdotal, o “autor” prefere o eclesiástico tradicional ao indígena amazônico atual. Ao rosto amazônico da Igreja, ele prefere, no ponto do ministério sacerdotal, o rosto romano-latino ocidental. À semelhança daqueles que impõem a recolonização econômica da América Latina, o “autor” preferiu a recolonização latino-romana e ocidental da Igreja amazônica. Diante daqueles que, com maioria de votos no Sínodo Pan-Amazônico, aceitaram a ordenação dos viri probati, o “autor” optou pela minoria que o rejeitou.

Para quem a “Querida Amazônia” não é querida?

Certamente, ela não é “querida” pelo presidente do Brasil, Jair Messias Bolsonaro, da extrema direita, antiamazônico e anti-indígena. Ela não é “querida” pelos madeireiros, nem pelos “garimpeiros” do ouro e pelas empresas nacionais e internacionais que pensam nas minas, nas hidrelétricas e na exploração das riquezas naturais amazônicas. Mas isso era de se esperar.

Mas o que não era de se esperar em relação à inculturação do ministério sacerdotal era a não aceitação do sacerdócio dos indígenas viri probati. Por isso, a “Querida Amazônia” não é “querida” para esses indígenas casados e impedidos de serem ordenados. Ela não é “querida” para as mulheres, às quais se nega o diaconato feminino, advertindo, além disso, de forma infundada na minha opinião, o risco de clericalismo. Ela também não é “querida” especialmente para tantos teólogos e bispos, missionários e missionárias, agentes de pastoral leigos e leigas que estão no meio dos indígenas, como manifestou claramente o já referido bispo Erwin Kräutler desde o coração da Amazônia (Xingu). Todos esperavam verdadeiramente a aprovação dos viri probati: indígenas, homens casados e ordenados com rosto verdadeiramente amazônico. O bispo Kräutler postulava mais: a ordenação de personae probatae (pessoas comprovadas) para incluir as mulheres no ministério sacerdotal, exercido à sua maneira feminina.

Não foi assim. Nos seus textos sobre ecologia e economia, o Papa Francisco soube escutar a ciência. No que se refere a esse ministério sacerdotal específico, o “autor” parece não ter se permitido consultar uma pessoa especialista no tema dos ministérios, o cardeal Walter Kasper, amigo e muito próximo do Papa Francisco. Em seus escritos, ele expôs as melhores reflexões sobre a função/missão do presbítero na Igreja, baseado no Vaticano II. Sua posição vai em uma direção muito diferente da que está representada pelo “autor” na exortação “Querida Amazônia”. Com essa visão que mantém o regime ocidental, clerical e celibatário, não se pode pensar uma Igreja amazônica de rosto verdadeiramente indígena.

A especificidade do sacerdote não é concentrar poder, mas sim coordenar e presidir a comunidade

A visão desse texto no quarto sonho remonta ao Concílio Lateranense IV, de 1215, sob Inocêncio III, que afirma “nemo potest conficere sacramentum nisi sacerdos rite ordinatus” (“ninguém pode realizar o sacramento eucarístico a menos que seja sacerdote, ordenado segundo o rito”). A eclesiologia desse sonho segue o rigor do Concílio de Trento, que, na sessão XIII de 11 de outubro de 1551, sob o Papa Júlio III, reafirmou a mesma doutrina exclusivista.

De acordo com a melhor eclesiologia nascida do Concílio Vaticano II, a função/missão específica do presbítero deve ser pensada não de forma absoluta, mas sempre dentro do Povo de Deus e no contexto da comunidade.

Sua singularidade não é consagrar absolutamente, como se fosse um mágico, mas ser na comunidade princípio de coesão e de unidade de todos os serviços e carismas. Não é concentrar, mas sim coordenar e presidir. Pelo fato de presidir a comunidade, ele também preside a celebração eucarística.

O problema surge quando, sem culpa, não há um sacerdote presente, e a comunidade, como reconhece a exortação, “devido em parte à imensa extensão territorial, com muitos lugares de difícil acesso” (n. 85) não pode tê-la.

No texto, levanta-se com grande realismo o problema, e aqui aparece a mão do Papa Francisco: “Será possível evitar de pensar numa inculturação do modo como se estruturam e vivem os ministérios eclesiais?” (n. 85). E acrescenta com sinceridade: “É necessário conseguir que o ministério se configure de tal maneira que esteja ao serviço duma maior frequência da celebração da Eucaristia, mesmo nas comunidades mais remotas e escondidas” (n. 86). Essa situação é absolutamente verdadeira. Mas o “autor” não a considerou assim e não propiciou a configuração do ministério como seria necessário.

É aqui que a eclesiologia de comunhão podia ter ajudado muito o “autor” na sua concepção do poder de consagrar. Ela predominou em todo o primeiro milênio, como a pesquisa histórica demonstrou inequivocamente.

Durante mil anos, quem presidia a comunidade presidia também a Eucaristia

A lei básica naqueles tempos era: quem preside a comunidade presida também a Eucaristia. Podia ser um bispo, um presbítero, um profeta ou um confessor, até um leigo, segundo Tertuliano, que era um exímio teólogo leigo.

Se isso é verdade, por que negar a um indígena casado que presida a sua comunidade e presida também a celebração eucarística?

Nessa parte, realiza-se aquilo que os eclesiologistas chamam de “cefalização” da Igreja. Todo poder se concentra na “cabeça”(cefalização) no papa ou no clero, dispensando totalmente a comunidade.

Nessa visão reducionista, o “autor” pensou apenas no sacerdote com o poder de consagrar de forma exclusiva e absoluta, sem conexão com a comunidade. Então, surge uma contradição:

Um sacerdote pode celebrar sozinho, sem a comunidade, mas a comunidade não pode celebrar sozinha sem o sacerdote.

Nos mil anos seguintes, só consagra quem é ordenado no Sacramento da Ordem

Essa visão deriva não de questões teológicas, mas sim de questões políticas: as disputas de poder entre o Imperium e o Sacerdotium, entre os papas e os imperadores. Quem tem, em última instância, o poder? Isso aparece claramente sob Gregório VII (1077). Com ele, deslocou-se o eixo da comunidade para o eixo do poder sagrado (sacra potestas). O poder absoluto é detido pelo papa. Lembremos o seu Dictatus Papae que, bem traduzido, é: “A ditadura do papa”. Todo poder está na cabeça, isto é, no papa e a quem ele delega. Os portadores do poder sagrado serão exclusivamente os ordenados no sacramento da Ordem, isto é, os da hierarquia eclesiástica. Só o sacerdote ritualmente ordenado celebra a Eucaristia. A comunidade dos fiéis já não conta mais.

O padre J. Y. Congar, o mais erudito e notável eclesiologista do século XX, denunciou esse perigoso desvio teológico com consequências prejudiciais para toda a eclesiologia subsequente, que perdura até hoje em dia. Na exortação “Querida Amazônia”, ainda ressoa esse tipo de eclesiologia do poder desgarrada da comunidade.

Por isso, não deixam de causar perplexidade as afirmações: “Por isso, é importante determinar o que é mais específico do sacerdote, aquilo que não se pode delegar. A resposta está no sacramento da Ordem sacra, que o configura a Cristo sacerdote. (…) este caráter exclusivo recebido na Ordem deixa só ele habilitado para presidir à Eucaristia. Esta é a sua função específica, principal e não delegável” (n. 87).

É neste ponto, suponho eu com outros, em que aparece uma “mão externa”, com sua eclesiologia do poder específico e indelével de consagrar, visão sacerdotalista, tardia e desvinculada da comunidade de fé. Com essa visão, em vão se pode realizar uma inculturação do ministério sacerdotal a indígenas viri probati casados que confeririam um rosto verdadeiramente amazônico à Igreja. Mais uma vez, prolonga-se um cristianismo de colonização dentro do paradigma romano-católico, ocidental e celibatário.

Para sanar esse tipo de recolonização, é preciso voltar à eclesiologia do primeiro milênio, que estabelecia uma conexão íntima entre a comunidade e seu presidente. Não se deve esquecer o cânone 6 do Concílio de Calcedônia (451), válido para a Igreja oriental até hoje e para a ocidental apenas até o século XII-XIII. Nesta, a ocidental, tudo mudou por causa das disputas políticas pelo poder entre os papas e os imperadores. No lugar da visão comunional do primeiro milênio, impôs-se a visão jurídico-canônica da sacra potestas excludente, do início do segundo milênio. Diz o cânone 6:

“Ninguém seja ordenado de maneira absoluta, nem presbítero, nem diácono, se não lhe for designada de forma precisa uma Igreja urbana ou rural, ou um martyrion, ou mosteiro. Aqueles que foram ordenados de maneira absoluta, o Santo Concílio decidiu que sua ordenação será nula e sem valor… e não poderão exercer suas funções em parte alguma.”

Aqui aparece claramente a conexão entre a comunidade e o celebrante da Eucaristia. Agora, surge um problema teológico que deve ser levado a sério: existe o direito divino de todos os fiéis de receber o corpo e o sangue de Jesus (Jo 6,35) e de celebrar sua memória (Lc 22,19; 1Cor 11,25). Esse direito divino não pode ser negado em razão de uma lei humana que o vincula exclusivamente a uma pessoa, ao sacerdote celibatário, sem o qual esse direito divino não pode ser realizado. O divino está sempre e sem exceção alguma acima do humano.

É Cristo quem batiza, perdoa e consagra, não o sacerdote

Por outro lado, é preciso lembrar algo com consequências fundamentais: depois do sumo sacerdócio de Cristo, não há mais sacerdotes em si na Igreja. Quem leva esse nome – sacerdote – é apenas um representante do sacerdócio de Cristo. É Cristo quem batiza, é Cristo quem perdoa, é Cristo quem consagra. O sacerdote não tem em si mesmo o poder de consagrar. Somente o de representar e de agir “in persona Cristi”, no lugar de Cristo, mas sem substituí-lo. O sacerdote torna visível o Cristo Sacerdote invisível.

Por que, na ausência do sacerdote, por razões que não dependem da comunidade, outro cristão leigo, “vir probatus” pela comunidade e casado, não pode representar a Cristo, torná-lo visível, uma vez que, pelo batismo, ele também participa do sacerdócio de Cristo?

Além disso, o Concílio Vaticano II, resumindo a Tradição, diz acertadamente: “Nenhuma comunidade cristã se edifica sem ter a sua raiz e o seu centro na celebração da santíssima Eucaristia” (Presbyterorum Ordinis, n. 6).

Negando a ordenação dos viri probati indígenas, também lhes é negada a possibilidade de edificar a comunidade cristã. Esse direito divino não lhes pode ser negado em nome de uma lei humana e cultural como o celibato e por uma eclesiologia, entre outras, que entende como exclusivo o poder de consagrar.

Aqui, então, não vale a inculturação tão convincentemente desenvolvida na exortação “Querida Amazônia”? Ela não fica impedida por razões eclesiológicas estranhas, que acabam inviabilizando o rosto indígena e amazônico da Igreja ao negar a ordenação de viri probati indígenas e casados?

As 24 Igrejas também católicas sem a lei do celibato

É esclarecedor, nesse contexto, lembrar que existem outras 24 Igrejas que também são católicas, mas não romanas, como a copta, a melquita, a maronita, a etíope, a bizantina grega, a armênia, a siríaca, a caldeia e outras. Em todas elas, há sacerdotes casados e sacerdotes celibatários. Nem por isso elas são menos Igrejas Católicas do que a romana.

Por que razão a Igreja Católica Romana é tão inflexível com relação à lei do celibato, condição para ser ordenado sacerdote? Sabemos que a lei do celibato surgiu lentamente na Igreja e que, na história, ela sempre foi um problema, sendo violada por papas, cardeais, bispos e presbíteros. E, nos últimos anos, veio à tona, nos mais altos escalões da Cúria vaticana, a violação do celibato agravada pelos crimes de pedofilia, que também são uma forma de violar o sentido do celibato.

Na exortação “Querida Amazônia”, o tema da inculturação nas culturas indígenas e amazônicas, por razões já mencionadas, não foi levado até as últimas consequências, até a raiz. Como se sabe, na cultura indígena, não existe a figura do indígena celibatário. Todos vivem com seu/sua parceiro/a. E assim seria o sacerdote indígena.

Viri probati indígenas: reféns da cultura romana, latina, ocidental e celibatária

Impedir que os viri probati índios casados sejam sacerdotes significa não se encarnar na totalidade da sua cultura. Nela, o sacramento eucarístico deveria ser celebrado por um sacerdote indígena casado. Ao não se encarnar plenamente, condenam-se os indígenas a continuar reféns, no que diz respeito ao sacramento da Ordem, da cultura romana, latina, ocidental e celibatária. Isso não é lhes fazer justiça, pois eles têm o direito divino de receber, no modo da sua cultura, a presença eucarística do Senhor.

O supplet ecclesia e o ministro extraordinário da Eucaristia: uma saída possível

Apesar dessa limitação na compreensão de quem preside a Eucaristia, a comunidade cristã pode recorrer a outro expediente eclesiológico assegurado na tradição, o famoso “supplet ecclesia”.

Esclareço: o indígena casado que já preside a comunidade pode presidir a celebração da ceia do Senhor, suprindo o sacerdote celibatário ausente, a título de “suplência da Igreja”. Ele funciona como um ministro extraordinário da Eucaristia e o faz com a intenção de estar com a Igreja (cum Ecclesia), jamais contra a Igreja (contra Ecclesiam), e de fazer tudo o que faria o sacerdote, se estivesse presente.

Toda situação extraordinária também demanda uma solução extraordinária: a legitimidade do leigo indígena e casado de presidir a celebração da ceia e a memória do Senhor. A necessidade não conhece lei. O ordo caritatis (a ordem da caridade) e a solicitude para com a salus animarum (a salvação das almas) e a oeconomia salutis (o processo histórico da salvação) sustentam teologicamente tal prática. E ela pode legitimamente ser praticada.

A mesma visão é encontrada no sistema jurídico-canônico da Igreja. O Direito Canônico diz explicitamente que a lei suprema na Igreja é sempre a “salvação da alma” (cânone 1.752). Isso não implicaria também o acesso, sem as limitações impostas por leis humanas, ao sacramento da Ordem?

É injusto manter as mulheres como cristãs inferiores

Deixemos de lado o tema do diaconato das mulheres, igualmente negado na exortação. Infelizmente, tal negação não supera, como se esperava, a questão de gênero e torna as mulheres, por mais comprometidas que sejam nas comunidades, cristãs inferiores, de segunda categoria, como, aliás, afirma a cultura machista ainda dominante em relação a elas.

A Igreja poderia muito bem romper com essa tradição tão injusta seguindo a prática de Jesus. Para as mulheres, não valem os sete sacramentos; para elas, só importam seis, porque estão excluídas do Ordo.

Recordemos que São Tomás de Aquino, em sua doutrina sobre os sacramentos, afirmava que o batismo é o sacramento de iniciação à vida cristã e, simultaneamente, é a iniciação para todos os outros sacramentos e, por isso, contém os sete sacramentos. De acordo com essa compreensão do Doutor Angélico, pelo fato de ser mulher, ela, a mulher, recebe um batismo menor, porque lhe falta o conteúdo do sacramento do Ordo.

Mas não queremos esquecer um flagrante paradoxo:

Uma mulher, Miriam de Nazaré, pode gerar um filho que é o Filho de Deus. Essa mesma mulher, que gerou esse filho que é o Filho de Deus, não pode representar seu filho que é o Filho de Deus. Só pelo fato de ser mulher.

As Escrituras dizem que essa mulher, Maria, “é bendita entre todas as mulheres” (Lc 1,41). Mas parece que ela não é suficientemente bendita para representar seu próprio Filho, que é o Filho de Deus encarnado.

Acrescento também o fato de que as mulheres nunca traíram Jesus, como fizeram Pedro e os apóstolos, que o abandonaram. Elas sempre foram fiéis e foram as primeiras testemunhas do maior fato da fé, que é a Ressurreição. Somente por tais razões, elas deveriam ter um lugar central dentro da Igreja, se esta não estivesse atada à cultura latino-ocidental machista.

Nada é mais forte do que uma ideia quando alcança seu ponto de maturação

Tudo o que eu escrevi não significa uma falta de lealdade ao Papa Francisco, que é inabalável em mim. Mas vale o velho ditado: “Amicus Plato, sed magis amica veritas”. Compete ao teólogo buscar caminhos novos para problemas novos, sempre a serviço das comunidades cristãs e da própria Igreja universal.

Como já se disse, “nada é mais forte do que uma ideia quando chega o momento da sua realização”. Chegará esse momento para os viri probati indígenas e, principalmente, para as mulheres dentro da Igreja Romano-Católica. Mas como demora…

Apesar dessas limitações internas, a Exortação Apostólica “Querida Amazônia” é, neste momento crucial da crise ecológica como emergência planetária, a defesa mais decidida e valente da Amazônia, presente em nove países, fonte de vida para toda a humanidade, garantia do futuro da Terra e esperança da salvaguarda da nossa civilização.

Por isso, não deixamos de agradecer ao Papa Francisco por esse serviço profético em benefício de toda a Humanidade e por todos aqueles que amam e cuidam deste belo e esplêndido Planeta, nossa Casa Comum, a grande e generosa Mãe Terra.

                                        Anexo

              Carta do bispo emérito do Xingu, Dom Erwin Kräutler

Meu caro irmão,

Li seu artigo com imensa satisfação. Não preciso dizer-lhe que concordo com tudo que escreveu. Você traduziu em palavras claras e diretas o que a grande maioria de nós pensa. Nosso sonho não acabou. Lamentamos apenas que vamos ter que esperar ainda não sei por quanto tempo que ele se torne realidade. Infelizmente, nós já octogenários certamente não teremos mais a graça de entoar o Te Deum laudamos… agradecendo que finalmente a nossa Igreja também tem um rosto indígena.

É simplesmente absurdo pensar que isso aconteça sem que a Eucaristia seja celebrada pelos mesmos indígenas com jeito indígena, na língua indígena, na cultura indígena e nos parâmetros indígenas em relação a quem ocupa função de coordenar/presidir.

Não sei se lhe contei uma vez a minha primeira visita como bispo a uma aldeia Kayapó. À pergunta do cacique: “Aprô” – “Sua esposa” – respondi “Iprô kêt”: “sem esposa”. Olhou-me um tanto desconfiando. Outra vez fui lá e veio a mesma indagação. Aí respondi: “Onij” – tá muito longe! Aí ficou com pena. Deus certamente já me perdoou a mentirinha que certamente me aproximou mais dos indígenas. Mais tarde a mulher do cacique me adotou com “Ikra” – meu filho. Lindo não é!

Pergunto se não seria importante traduzir seu artigo para o alemão, inglês e italiano para os da extrema-direita tão agressiva dos países desses idiomas se poderem inteirar da caprichada fundamentação de seus argumentos?

Cordiais abraços,

Dom Erwin Kräutler