Sugestões para a reflexão aos que estão em quarentena

Muitos, por causa do coronavírus têm que se manter reclusos em casa. É a oportunidade de uma espécie de interiorização. Não vejamos só a TV e filmes do NTflix também muito úteis. Mas temos outras formas de nos ocuparmos. Não temos só corpo que cuidamos especialmente agora, nem só a psiqué que nos faz manter o equilíbrio interior. Temos também o Profundo que é nosso espírito que tudo anima, vivifica e nos voar ao infinito. Ele não é vazio.Está cheio de sonhos, arquétipos (disposições profundas) e anseios por algo maior que vai além desta cansada existência. O mundo moderno nos distrai com tantos meios que nos dificulta esta visitação interior. Agora é o momento: qual é o sentido,afinal, de nossas vidas, de nossas famílias, que futuro terão nossos filhos e filhas face à crise ecológica gravíssima pondo em risco nosso futuro, qual o sentido de nosso mundo ameaçado de mil doenças como a de agora e de outras pre-anunciadas? Que podemos esperar para além desta vida tão curta e trabalhosa? O que se esconde atrás das coisas, do céu estrelado e do nosso Profundo mais profundo, onde se esconde o Self, a imagem de Deus ou Deus mesmo? É nesses momentos seminais que é importante pensar,repensar,meditar e ler textos que nos alimentam o espírito. Eu sugiro como cristão os evangelhos, as Cartas de São Paulo, cheias de sabedoria e especialmente os Salmos.Vejam o salmo 103 que nos fala da misericórdia:”Deus não está sempre nos acusando,nem guarda rancor para  sempre…é como um pai que sente compaixão por seus filhos e filhas, porque ele conhece nossa natureza e se lembra de que somos pó e sua misericórdia é de sempre para sempre”. Todo momento sentimos o peso do negativo em nossas vidas. E quando lemos estas palavras, de fato inspiradas (quem poderia dizer tais coisas,senão alguém inspirado pelo Espírito?) nos sentimos aliviados. Jesus disse “que veio para os doentes e não para os sãos e que ama os ingratos e maus”. Ou ler tópicos da Imitação de Cristo (de 1441), o livro mais lido na Cristandade depois da Bíblia tão cheio de sabedoria que Freud e Heidegger os consultavam. Eu me dei o trabalho,por dois anos, de traduzi-lo do latim medieval, arrendar algumas formulações dualistas, na linha da teologia oficial da Igreja de hoje e ainda ousei acrescentar uma parte sobre o Seguimento de Jesus, onde Ele fala a nossa linguagem e a nossa visão moderna do mundo em evolução. E há tantos outros livros de outros caminhos espirituais, como a Via de Tzuan-Chu, traduzida por Thomas Merton, da velha sabedoria do Tao e outros modernos. Transcrevo aqui a reflexão de um monge beneditino, Dom Marcelo Barros, que vive a contemplação no meio de mil ocupações e de viagens (é um dos mais requisitados no Brasil e no exterior) no caminho de São Bento, o primeiro a criar mosteiros no Ocidente (547). É um estímulo de como ser espiritual no mundo secular, sem precisar ir a uma igreja ou se retirar dos afazeres da vida. Leiam suas sugestões pois lhes podem inspirar algum caminho. Lboff

**************************

Nesse dia, 21 de março, há muitos séculos (547), faleceu Bento de Núrcia (São Bento) que propôs um estilo de vida para quem quer viver a radicalidade do evangelho em comunidade. Essa foi a origem dos monges beneditinos que depois institucionalizaram demais essa proposta que é a vida nos mosteiros. Hoje, podemos pensar o mesmo projeto em uma sociedade laical (isso é, não religiosa) e de forma mais espontânea e na dispersão da vida, de modo que mesmo vivendo separados, não seja cada um por si.
Quando São Bento era jovem, ele pensava: “Dentro de mim, eu não sou um. Sou muitos”. E trabalhou isso de forma que, algum tempo depois de sua morte, o papa Gregório dizia: Era um homem que habitava consigo mesmo. Essa é a proposta da espiritualidade nas mais diversas tradições espirituais: unificar-se interiormente e para isso ser capaz de viver em comum com os outros, trabalhar em comum, aceitar as diferenças e viver o amor.
Em tempos de riscos de contágio do vírus, é bom a gente saber que a sociedade tem vários vírus que nós pegamos sem nem perceber. A normose é um deles. Hábitos, falas, caminhos, tudo já bem decidido e bem arrumadinho… A vida fica parecendo esses mapas turísticos que em cidades da Europa (Paris, Veneza) as pessoas compram quando vão visitar. No mapa tem os pontos. 1, 2, 3, 4… É só você ir seguindo… Da catedral passa para o monumento antigo. Deste, você vai para o 3 que é a praça onde se deu tal acontecimento e assim por diante. Tudo previsto, tudo contido. E muita gente se satisfaz em viver assim. Como foi o teu dia ontem? Levantei, tomei café, fui para o trabalho, voltei, tomei banho, vi televisão e fui dormir.
Para a vida espiritual, não há mapas turísticos, regrinhas e etiquetas já programadas. O caminho da libertação do povo de Deus foi o êxodo no deserto. Quando, no rio Jordão, ao ser batizado, Jesus escutou de Deus a revelação de que ele é o filho amado do Pai, saiu das águas e correu ao deserto para fazer sua escolha de um projeto de vida. Essa quaresma de 2020 tem sido para a maioria de nós um deserto forçado pelo coronavírus. Um momento do mundo que no século XXI, a gente não podia imaginar que iria viver, como se estivéssemos nos tempos medievais da peste negra. O vírus revela a fragilidade das estruturas da sociedade. Tudo quebra. Tudo está em crise. Em tempos de contágio, como sobreviverem shoppings, clubes, cruzeiros marítimos e viag ens a&ea cute;reas? Claro os pobres que sobrevivem de vender picolé na rua sofrem mais e quem vive de trabalho precário e autônomo e é obrigado a parar, quem vai pagar? Ao mesmo tempo, as notícias mostram em todo o mundo, as águas de Veneza limpas como há 50 anos quando não havia a poluição dos barcos a motor. Mostram botos nadando nas baías e cisnes e patos selvagens voltando a ocupar os rios antes sujos de petróleo… E isso em apenas um ou dois meses de quarentena.
Será que conseguiremos aprender com a natureza a também nós voltarmos ao nosso ecossistema original que é a espiritualidade do bem-viver? Será que reaprenderemos a alegria do diálogo dois a dois, do ter assuntos agradáveis para ir ganhando (não perdendo) tempo? Será que conseguiremos voltar a horários de sono e de acordado que nos façam mais bem? Principalmente, será que aceitaremos ir revendo nosso estilo de vida e ir priorizando relações que nos façam construir juntos um projeto novo de vida e não apenas a normose de sempre?

Um abraço amigo do irmão Marcelo Barros, beneditino.
visite o blog: http://www.marcelobarros.com

 

 

 

 

17 comentários sobre “Sugestões para a reflexão aos que estão em quarentena

  1. Amei o texto.
    Excelentes colocações. Momento pra meditar,visitar a casa interna com mais interesse.

    Curtir

  2. Caríssimo Frei Leonardo, seus artigos são sempre presentes agradáveis e oportunos para todos nós, que fazemos questão de segui-lo. Suas sugestões para este momento de interioridade, bem como as do monge Marcelo Barros são excelentes. Nos meus oitenta anos, viúva há vinte anos e extremamente mística, apenas darei continuidade ao ritmo de vida bastante interiorizada e com uma atração muito expressiva na admiração da Natureza de um modo geral. Deus os abençoe! Prossigamos em direção à Casa do Pai. Afetuosamente os abraço.

    Curtir

    • Marizia, vc com sua espiritualidade está imunizada do coronavírus. Está repleta do fogo interior dos místicos. Reze por nós, por Márcia e eu pois estamos na idade do risco. Bençãos divinas. Lboff

      Curtir

  3. Caríssimos Leonardo e Márcia, estejam certos de que vocês também estão protegidos. Sempre estiveram e estão a serviço do Amor. Há três anos oro diariamente pela humanidade, pedindo para ela: PERDÃO, CONVERSÃO E SANTIDADE. Abraços fraternos, Marízia.

    Curtir

    • Querida Marízia, obrigado pela lembrança e especialmente pelas orações. Não basta ser teólogo e pensador, devemos ser gente de bem,de cuidado e de amor incondicional, coisa que vc nos testemunha. Bendiciones como se diz na América Latina: Lboff

      Curtir

  4. Oremos preferentemente a oração do Pai Nosso, ensinada pelo Mestre Divino e a oração do poverelo, São francisco de Assis: “Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz, onde houver ódio que eu leve o amor…

    Curtir

  5. “Sede santos porque Eu o Senhor, vosso Deus Sou Santo.” (Levítico 11,44 ; 19,2 ; 20,26).

    Curtir

  6. Maravilhoso seu texto: adorei a “visitação interior” !Orarei pelo sr. e Márcia, pessoas necessárias nesse momento. Abraço, Isabel

    Curtir

  7. Prezado Leonardo Boff,
    Parabéns pela ótima reflexão, muito interessante! Contudo, estou lendo uma tese sobre I Enoque ou Enoch, qual a sua opinião a respeito do assunto, pois existe a hipótese de Jesus ter adquirido conhecimento através deste escrito antigo.
    Att,

    Curtir

    • André,estas teses possuem parco ou nenhum fundamento. O que temos são os evangelhos e uns fragmentos pagãos. No máximo que podemos dizer é que Jesus seguramente conheceu os essênios pois textos morais dele são muito parecidos aos de Jesus. lboff

      Curtir

  8. Leonardo Boff, me desculpe se a pergunta não for pertinente: existe alguma expectativa para a publicação de A Imitação de Cristo, conforme tua tradução?
    Abs.

    Curtir

    • Alexandre,A tradução foi lançada já há mais de um ano pela Editora Vozes. Foi traduzido para o alemão, espanol,inglês e italiano e um exemplar chegou às mãos do Papa que, por carta, me agradeceu. O livro está disponível. lboff

      Curtir

  9. *** perdão! Favor desconsiderar o comentário anterior! Eu não sabia que já foi publicado!!! Que mancada a minha! Vou adquirir um exemplar! Obrigado! ***

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s