O que pretende o Sínodo Pan-Amazônico: Roberto Malvezzi

Roberto Malvezzi carece de apresentação, pois foram publicados vários artigos deles nesse blog, pois comparece como um grande conhecedor do semi-árido, do rio São Francisco e da problemática nacional e mundial da água. Oferecemos aqui uma primeira apresentação do Sínodo Pan-Amazônico que o Papa Francisco convocou para  outubro deste ano em Roma sob o signo “Amazônia:novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral“. Será uma espécie de Concílio que envolve não só os países amazônicos, mas convidados da Igreja Universal. O atual Papa em sua encíclica sobre a ecologia integral:”sobre o cuidado da Casa Comum”(2015) que eu vivamente recomendo por ser um texto dos mais  avançados do mundo sobre a questão do futuro da vida e da Mãe Terra, dedica todo uma parte ( o número 38) sobre a Amazônia “um dos pulmões do planeta”. Adverte que “há propostas de internaconalização da Amazônia que só servem aos interesses das corporações internacionais”. Somos informados que os serviços de inteligência do Brasil como a ABIN e a GSI (Gabinete de Segurança Institucional” estão como que alarmados. O ministro desta área o General Ausgusto Heleno disse publicamente “estamos preocupados e queremos neutralizar isso”. Essa declaração nasce da ignorância e da prepotência, como se a Amazônia fosse só brasileira. O bioma Amazônia abarca 8 países:Bolívia, Equador, Colômbia, Peru, Venezuela, República da Guiana, Suriname e Guiana Francesa. Sobre estas nações o Brasil não se atreverá de querer controlá-las. Ademais, não se dá  conta do que significa enfrentar a Igreja Universal e o Papa Francisco. Seu intento será frustrado senão ridicularizado internacionalmente. Na verdade, o que se trata é do interesse da Humanidade não apenas do Brasil:como salvaguardar a maior floresta úmida do mundo que regula grande parte dos climas e com a maior biodiversidade conhecida. Essa riqueza é da Humanidade e não só do Brasil e dos demais países amazônicos. E é justo que que todos se preocupem com este bioma fundamental para o futuro da vida neste planeta. O Brasil deveria se alegrar e oferecer seus melhores cientistas da área (por exemplo os irmãos Nobre) para aprofundar as questões. O atual governo com seu general à frente, Augusto Heleno, logo politizou de forma mesquinha a preocupação papal como se fosse uma questão das “esquerdas” e não da Humanidade. Por aí se vê o horizonte pequeno com o qual agentes do governo analisam os problemas geo-eco-políticos mundiais. Ademais, acentua o Papa, queremos ouvir aqueles que nunca foram ouvidos e que são os que melhor entendem e protegem a Amazônia: os povos originários dos vários países envolvidos, os ribeirinhos e demais populações que há muito tempo habitam naquela vasta floresta continental.  Lboff

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Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”. Esse é o lema do Sínodo Pan-Amazônico que acontecerá em outubro de 2019, em Roma. Sínodo vem do grego e quer dizer “caminhar juntos”.

Então, faço alguns esclarecimentos sobre o Sínodo, já que faço parte como “olho de fora” do núcleo de assessoria da REPAM-Brasil (Rede Eclesial Pan-Amazônica), que colabora de forma decisiva na preparação do Sínodo.

Primeiro, em 2014 foi criada a Rede Eclesial Pan-Amazônica. Os fundadores são o Conselho Episcopal Latino Americano (CELAM), Conferência dos Religiosos da América Latina e Caribe (CLAR), a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e a Cáritas. Já havia iniciativas anteriores nessa linha, porém, mais na dimensão episcopal. A REPAM abrange as bases da igreja e outros setores da sociedade interessados numa Ecologia Integral.

Essa criação deriva da posição do episcopado Latino-americano, definida no documento de Aparecida, que entende que “Jesus nos fala a partir da Amazônia”, isto é, seus povos e toda a exuberância da criação. É o princípio evangélico dos “sinais do tempo”.

A REPAM abrange o Brasil e os demais oito países nos quais há o bioma Amazônia: Bolívia, Equador, Colômbia, Peru, Venezuela, República da Guiana, Suriname e Guiana Francesa. Essa última não é um país, mas um território francês no continente da América do Sul. O propósito é criar uma Igreja em Rede, de povos, instituições, igrejas, que defendam os povos e a natureza amazônica.

O Papa Francisco, que foi um dos redatores do documento de Aparecida, decidiu convocar um Sínodo para toda Igreja da Amazônia, mas que é um Sínodo da Igreja Universal. Por isso, além de aproximadamente 140 bispos da Amazônia, haverá mais pessoas de outros lugares do mundo.

A REPAM não é o único grupo a preparar o Sínodo, mas cumpre um papel destacado por decisão de Roma. O próprio Francisco esteve em Puerto Maldonado, Peru, exclusivamente para ouvir os povos originários. Ele disse que ali começava o Sínodo. Ouvir quem nunca foi ouvido, talvez seja esse o elemento mais incomodante para muitos setores da sociedade.

Como preparação para o Sínodo, sobretudo a REPAM-Brasil, realizou uma série de seminários pelos mais diversos pontos da Amazônia, dialogando a realidade local com a encíclica Laudato Sí, do Papa Francisco. Só no Brasil foram feitos 16 seminários regionais e um 17º nacional. Porém, outros países também realizaram intensamente esses debates, reunindo povos indígenas, ribeirinhos, universidades, comunidades eclesiais, pessoas de outras religiões, enfim, todos que se preocupam com uma ecologia integral.

Posteriormente chegou de Roma um questionário para colher as mais diversas opiniões dos povos sobre a Igreja que queremos e o que fazer para uma Ecologia Integral. A síntese desse questionário está em andamento e será enviado a Roma. Foi formada uma equipe de preparação do Sínodo com 20 pessoas do América do Sul e mais um grupo de Roma. Com esse material nas mãos – as dioceses também tiveram que fazer suas consultas -, será elaborado o texto base do Sínodo em Roma.

No fundo, Francisco quer fazer da Amazônia uma referência para a Igreja Universal e também para a defesa da Casa Comum, a Terra. A impressão que ele passa é essa: o que acontecer com a Amazônia, acontecerá com o planeta Terra; o que acontecer com a Igreja da Amazônia, acontecerá com a Igreja Universal.

Vivemos num Brasil delirante, onde as insanidades recriam até manicômios. Porém, não há qualquer mistério a respeito desse Sínodo.

 

¿Qué quedó después de no quedar nada?

Muchos en nuestro país vivimos una situación de luto. Se impone el luto cuando sufrimos pérdidas: muchos muertos y cientos de desaparecidos por la rotura de la presa de la Vale que destruyó criminalmente la ciudad de Brumadinho. La pérdida de la persona amada, del empleo que garantiza la familia, la emigración forzada a causa de amenazas de muerte. El luto es mayor cuando alcanza bienes fundamentales de un país: la pérdida de la democracia, de los derechos laborales garantizados hace muchos años, la disminución de las pensiones de los ancianos, los recortes de las políticas públicas para pobres y miserables, la privatización de los commons, bienes fundamentales para la soberanía del país.

Pero el gran luto es tener que aceptar a un presidente que ha reforzado la cultura del odio, que desconoce las cuestiones nacionales, que nos ha avergonzado en Davos, donde los dueños del dinero del mundo se reúnen para garantizar sus intereses. Su discurso, que podría haber sido de 45 minutos, duró escasos seis, pues eso era todo lo poco que tenía que decir. Canceló las entrevistas para ocultar su ignorancia y las acusaciones graves que pesan sobre un miembro de su familia.

Es un gran desafío para todos elaborar las pérdidas y alimentar la resiliencia, que significa saber dar la vuelta por encima y aprender de la situación de luto.

Son varios los pasos a dar en este camino.

El primer paso es la indignación que se expresa mediante la sorpresa: es criminal la ruptura de la presa de la Vale. ¿El país merecía tal gobierno? Descubrimos que la vida comporta tragedias que hacen sufrir especialmente a los pobres. Y no raramente nos culpamos por no haber tenido cuidado y haberlas percibido antes.

El segundo paso es el rechazo sufrido: ¿cómo fue posible llegar a este punto con la Vale? ¿Elegir a un presidente con muy pocas luces y con algunas características propias del fascismo? ¿Dónde nos equivocamos? Inicialmente tendemos a rechazar el hecho. Pero él está ahí, grosero y tosco.

El tercer paso es la depresión psicológica asociada a la recesión económica. Hemos llegado al fondo del pozo. La economía es para el mercado que se beneficia de la crisis mientras lanza a millones de personas a la pobreza. Estamos poseídos por un vacío existencial y desinterés por las cosas de la vida. ¿Quién consolará a los familiares de las víctimas de Brumadinho? ¿Quién les reforzará la esperanza de que las promesas de reconstrucción van a ser cumplidas?

El cuarto paso es el autofortalecimiento. Hacemos una especie de negociación con la frustración y la depresión. Estas cosas siniestras pertenecen a la vida con sus contradicciones. No nos podemos hundir ni perder nuestros proyectos y sueños. Necesitamos volver a levantar las casas de Brumadinho. Vale, empresa privada que piensa más en las ganancias que en las personas, tiene que sacar duras lecciones para evitar nuevos crímenes ambientales. El luto debe generar presiones por parte del pueblo y nuevas iniciativas. Podemos salir más fuertes del luto.

El quinto paso es la aceptación dolorosa del hecho ineludible. El luto debe pasar de delante de los ojos a detrás de la cabeza, a pesar de las imágenes imborrables del crimen. Nadie sale del luto como entró. Madura a duras penas y experimenta que, en el caso del nuevo gobierno brasileño de derechas, no toda la pérdida es total: trae siempre una ganancia social y política.

Todo luto requiere una travesía paciente. Parece que nuestras estrellas guía se han apagado, pero el cielo continúa iluminando nuestras noches oscuras. Las nubes pueden tapar al Cristo Redentor del Corcovado, pero él sigue allí. Incluso sin verlo, creemos en su presencia. Bolsonaro también pasará. Cristo, no. Enjugará las lágrimas de los familiares que sufren.

Con respecto a nuestra situación política, hay que reconocer que nuestro árbol fue mutilado: cortaron la copa, arrancaron las hojas, destruyeron las flores y los frutos, abatieron su tronco y arrancaron las raíces. ¿Qué quedó después de no quedar nada? Quedó la vida. Y más que todo quedó  lo esencial que el luto inducido no puede destruir: quedó la semilla. En ella están en potencia las raíces, el tronco, las hojas, las flores, los frutos y la copa frondosa.

Todo puede volver a comenzar. Recomenzaremos más seguros por más experimentados, más experimentados por más sufridos, más sufridos por más dispuestos para un nuevo sueño. El luto pasará. Será tiempo de rehacer un Brasil más cordial, solidario, justo y hospitalario.

Leonardo Boff es teólogo, filósofo y ha escrito Brasil:¿concluir a refundación o prolongar la dependencia? Vozes 2018.

Traducción de Mª José Gavito Milano

 

 

Despite the problems, Christmas is still Christmas

Chegou-me somente agora a tradução inglesa de meu texto sobre o Natal. Como o Natal é mais que uma data mas um espírito de paz e de amor, vale também para atual situação sob a qual vivemos: Lboff

These are somber times around the world and in our country. There is too much rage and hatred. Above all, is the lack of sensitivity towards our fellow human beings, especially the children, such as the Baby Jesus, who lives in the streets and suffers abuse. But in spite of it all, we are living the humanity that our God assumed; a very contradictory human condition.

Christianity is not about announcing the death of God, but about humanity, the benevolence and the merciful love of God. We see the Baby between the ox and the mule: the joviality and eternal youth of God Himself smiles through Him.

Passing through Bethlehem of Judah, I heard a tender whisper. It was the voice of Mary rocking her infant: “My Baby, my Sun, how will I clothe you? How will I nurse you, if you are the one who nourishes all creatures”?

From the manger also came an angelical voice: “Oh human creature, why are you afraid of God? Don’t you see that His mother swaddled His fragile little body? A child neither threatens nor condemns any one. Don’t you hear His soft cry? More than helping others, He needs to be helped and cuddled”.

Let’s not allow what Saint John wrote in his gospel to come true: “He came to His people and His people did not receive Him”. We want to be among those who do receive Him, as a brother and companion in the journey.

God’s entrance into the world was not overwhelming. It occurred at the margins of official history, outside the city, in the middle of the darkest night, in an animal shed. Nothing was known either in Rome, the capital of the empire, or in Jerusalem, the religious center of the People of Israel. Almost no one noticed: only those with a simple heart, such as the pastors of Bethlehem. They came to the shed where the Divine Child was shivering from the cold.

The Nativity offers us the key to deciphering some of the most inscrutable mysteries of our afflicted existence. Human beings have always questioned others and themselves: why is our existence so fragile? Why all the humiliation and the suffering? And God was silent. But in the Nativity an answer is found: God made Himself as fragile as we are. God humiliated himself and suffered as all human beings suffer. This was God’s answer: not in words but with a gesture of identification. We are no longer alone in our immense loneliness. God is with us. His name is Jesus.

The Nativity also gives us the key to the meaning of being human. We are an unfinished project. Only the Infinite can realize our full humanity. And it so happened that the Infinite became human so that the human could realize his Infinite project. The Infinite became a human being so that the human being could become Infinite.

To finish, nothing is more moving than these verses about the Child Jesus by the great Portuguese poet Fernando Pessoa:

He is the Eternal Child, the God we were missing.

He is so human that it is natural.

He is the divinity that smiles and plays.

Because of that I know with all certainty

That He is the true Child Jesus.

He is a child so human that He is divine.

We get along so well, the two of us,

In the company of everything,

That we never think of one in the other.

But we live the two of us together,

With an intimate agreement,

Like the right hand and the left hand.

When I die, Child of mine,

Let me be a child, the smallest one.

Take me in your arms and carry to your home.

Undress my tired and human being.

And lay me in your bed.

And if I wake, tell me stories,

That I may go back to sleep.

And let me play with your dreams,

Until I am born one day

You know which one it is.

Merry Christmas to all, men and women. Let’s trust: there is a Star, such as the star of Bethlehem, that illuminates our path no matter how dark it may be. Even if I do not know the path, Child Jesus, You know it; and You know it very well.

Leonardo Boff Eco-Theologian-Philosopher Earthcharter Commission

Free translation from the Spanish
Done at REFUGIO DEL RIO GRANDE, Texas, EE.UU.

 

Papa Francisco e Emirados Árabes:mensagem comum

 

VIAGEM APOSTÓLICA DO PAPA FRANCISCO AOS EMIRADOS ÁRABES UNIDOS
3-5 DE FEVEREIRO DE 2019

DOCUMENTO SOBRE A FRATERNIDADE HUMANA EM PROL DA PAZ MUNDIAL E DA
CONVIVÊNCIA COMUM

PREFÁCIO

A fé leva o crente a ver no outro um irmão que se deve apoiar e amar.
Da fé em Deus, que criou o universo, as criaturas e todos os seres
humanos ? iguais pela Sua Misericórdia ?, o crente é chamado a
expressar esta fraternidade humana, salvaguardando a criação e todo o
universo e apoiando todas as pessoas, especialmente as mais
necessitadas e pobres.

Partindo deste valor transcendente, em vários encontros dominados por
uma atmosfera de fraternidade e amizade, compartilhamos as alegrias,
as tristezas e os problemas do mundo contemporâneo, a nível do
progresso científico e técnico, das conquistas terapêuticas, da era
digital, dos mass-media, das comunicações; a nível da pobreza, das
guerras e das aflições de tantos irmãos e irmãs em diferentes partes
do mundo, por causa da corrida às armas, das injustiças sociais, da
corrupção, das desigualdades, da degradação moral, do terrorismo, da
discriminação, do extremismo e de muitos outros motivos.

De tais fraternas e sinceras acareações que tivemos e do encontro
cheio de esperança num futuro luminoso para todos os seres humanos,
nasceu a ideia deste «Documento sobre a Fraternidade Humana». Um
documento pensado com sinceridade e seriedade para ser uma declaração
conjunta de boas e leais vontades, capaz de convidar todas as pessoas,
que trazem no coração a fé em Deus e a fé na fraternidade humana, a
unir-se e trabalhar em conjunto, de modo que tal documento se torne
para as novas gerações um guia rumo à cultura do respeito mútuo, na
compreensão da grande graça divina que torna irmãos todos os seres
humanos.

DOCUMENTO

Em nome de Deus, que criou todos os seres humanos iguais nos direitos,
nos deveres e na dignidade e os chamou a conviver entre si como
irmãos, a povoar a terra e a espalhar sobre ela os valores do bem, da
caridade e da paz.

Em nome da alma humana inocente que Deus proibiu de matar, afirmando
que qualquer um que mate uma pessoa é como se tivesse morto toda a
humanidade e quem quer que salve uma pessoa é como se tivesse salvo
toda a humanidade.

Em nome dos pobres, dos miseráveis, dos necessitados e dos
marginalizados, a quem Deus ordenou socorrer como um dever exigido a
todos os homens e de modo particular às pessoas facultosas e abastadas.

Em nome dos órfãos, das viúvas, dos refugiados e dos exilados das suas
casas e dos seus países; de todas as vítimas das guerras, das
perseguições e das injustiças; dos fracos, de quantos vivem no medo,
dos prisioneiros de guerra e dos torturados em qualquer parte do
mundo, sem distinção alguma.

Em nome dos povos que perderam a segurança, a paz e a convivência
comum, tornando-se vítimas das destruições, das ruínas e das guerras.

Em nome da «fraternidade humana», que abraça todos os homens, une-os e
torna-os iguais.

Em nome desta fraternidade dilacerada pelas políticas de integralismo
e divisão e pelos sistemas de lucro desmesurado e pelas tendências
ideológicas odiosas, que manipulam as ações e os destinos dos homens.

Em nome da liberdade, que Deus deu a todos os seres humanos,
criando-os livres e enobrecendo-os com ela.

Em nome da justiça e da misericórdia, fundamentos da prosperidade e
pilares da fé.

Em nome de todas as pessoas de boa vontade, presentes em todos os
cantos da terra.

Em nome de Deus e de tudo isto, Al-Azhar al-Sharif ? com os muçulmanos
do Oriente e do Ocidente – juntamente com a Igreja Católica ? com os
católicos do Oriente e do Ocidente ? declaramos adotar a cultura do
diálogo como caminho; a colaboração comum como conduta; o conhecimento
mútuo como método e critério.

Nós ? crentes em Deus, no encontro final com Ele e no Seu Julgamento
?, a partir da nossa responsabilidade religiosa e moral e através
deste Documento, rogamos a nós mesmos e aos líderes do mundo inteiro,
aos artífices da política internacional e da economia mundial, para se
comprometer seriamente na difusão da tolerância, da convivência e da
paz; para intervir, o mais breve possível, a fim de se impedir o
derramamento de sangue inocente e acabar com as guerras, os conflitos,
a degradação ambiental e o declínio cultural e moral que o mundo vive
atualmente.

Dirigimo-nos aos intelectuais, aos filósofos, aos homens de religião,
aos artistas, aos operadores dos mass-media e aos homens de cultura em
todo o mundo, para que redescubram os valores da paz, da justiça, do
bem, da beleza, da fraternidade humana e da convivência comum, para
confirmar a importância destes valores como âncora de salvação para
todos e procurar difundi-los por toda a parte.

Partindo duma reflexão profunda sobre a nossa realidade contemporânea,
apreciando os seus êxitos e vivendo as suas dores, os seus dramas e
calamidades, esta Declaração acredita firmemente que, entre as causas
mais importantes da crise do mundo moderno, se contam uma consciência
humana anestesiada e o afastamento dos valores religiosos, bem como o
predomínio do individualismo e das filosofias materialistas que
divinizam o homem e colocam os valores mundanos e materiais no lugar
dos princípios supremos e transcendentes.

Nós, embora reconhecendo os passos positivos que a nossa civilização
moderna tem feito nos campos da ciência, da tecnologia, da medicina,
da indústria e do bem-estar, particularmente nos países desenvolvidos,
ressaltamos que, juntamente com tais progressos históricos, grandes e
apreciados, se verifica uma deterioração da ética, que condiciona a
atividade internacional, e um enfraquecimento dos valores espirituais
e do sentido de responsabilidade. Tudo isto contribui para disseminar
uma sensação geral de frustração, solidão e desespero, levando muitos
a cair na voragem do extremismo ateu e agnóstico ou então no
integralismo religioso, no extremismo e no fundamentalismo cego,
arrastando assim outras pessoas a render-se a formas de dependência e
autodestruição individual e coletiva.

A história afirma que o extremismo religioso e nacional e a
intolerância geraram no mundo, quer no Ocidente quer no Oriente,
aquilo que se poderia chamar os sinais duma «terceira guerra mundial
aos pedaços»; sinais que, em várias partes do mundo e em diferentes
condições trágicas, começaram a mostrar o seu rosto cruel; situações
de que não se sabe exatamente quantas vítimas, viúvas e órfãos
produziram. Além disso, existem outras áreas que se preparam a
tornar-se palco de novos conflitos, onde nascem focos de tensão e se
acumulam armas e munições, numa situação mundial dominada pela
incerteza, pela deceção e pelo medo do futuro e controlada por míopes
interesses económicos.

Afirmamos igualmente que as graves crises políticas, a injustiça e a
falta duma distribuição equitativa dos recursos naturais ? dos quais
beneficia apenas uma minoria de ricos, em detrimento da maioria dos
povos da terra ? geraram, e continuam a fazê-lo, enormes quantidades
de doentes, necessitados e mortos, causando crises letais de que são
vítimas vários países, não obstante as riquezas naturais e os recursos
das gerações jovens que os caraterizam. A respeito de tais crises que
fazem morrer à fome milhões de crianças, já reduzidas a esqueletos
humanos por causa da pobreza e da fome, reina um inaceitável silêncio
internacional.

A propósito, é evidente quão essencial seja a família, como núcleo
fundamental da sociedade e da humanidade, para dar à luz filhos,
criá-los, educá-los, proporcionar-lhes uma moral sólida e a proteção
familiar. Atacar a instituição familiar, desprezando-a ou duvidando da
importância de seu papel, constitui um dos males mais perigosos do
nosso tempo.

Atestamos também a importância do despertar do sentido religioso e da
necessidade de o reanimar nos corações das novas gerações, através
duma educação sadia e da adesão aos valores morais e aos justos
ensinamentos religiosos, para enfrentarem as tendências
individualistas, egoístas, conflituais, o radicalismo e o extremismo
cego em todas as suas formas e manifestações.

O primeiro e mais importante objetivo das religiões é o de crer em
Deus, honrá-Lo e chamar todos os homens a acreditarem que este
universo depende de um Deus que o governa: é o Criador que nos moldou
com a Sua Sabedoria divina e nos concedeu o dom da vida para o
guardarmos. Um dom que ninguém tem o direito de tirar, ameaçar ou
manipular a seu bel-prazer; pelo contrário, todos devem preservar este
dom da vida desde o seu início até à sua morte natural. Por isso,
condenamos todas as práticas que ameaçam a vida, como os genocídios,
os atos terroristas, os deslocamentos forçados, o tráfico de órgãos
humanos, o aborto e a eutanásia e as políticas que apoiam tudo isto.

De igual modo declaramos ? firmemente ? que as religiões nunca incitam
à guerra e não solicitam sentimentos de ódio, hostilidade, extremismo
nem convidam à violência ou ao derramamento de sangue. Estas
calamidades são fruto de desvio dos ensinamentos religiosos, do uso
político das religiões e também das interpretações de grupos de homens
de religião que abusaram ? nalgumas fases da história ? da influência
do sentimento religioso sobre os corações dos homens para os levar à
realização daquilo que não tem nada a ver com a verdade da religião,
para alcançar fins políticos e económicos mundanos e míopes. Por isso,
pedimos a todos que cessem de instrumentalizar as religiões para
incitar ao ódio, à violência, ao extremismo e ao fanatismo cego e
deixem de usar o nome de Deus para justificar atos de homicídio, de
exílio, de terrorismo e de opressão. Pedimo-lo pela nossa fé comum em
Deus, que não criou os homens para ser assassinados ou lutar uns com
os outros, nem para ser torturados ou humilhados na sua vida e na sua
existência. Com efeito Deus, o Todo-Poderoso, não precisa de ser
defendido por ninguém e não quer que o Seu nome seja usado para
aterrorizar as pessoas.

Este Documento, de acordo com os Documentos Internacionais anteriores
que destacaram a importância do papel das religiões na construção da
paz mundial, atesta quanto segue:

? A forte convicção de que os verdadeiros ensinamentos das religiões
convidam a permanecer ancorados aos valores da paz; apoiar os valores
do conhecimento mútuo, da fraternidade humana e da convivência comum;
restabelecer a sabedoria, a justiça e a caridade e despertar o sentido
da religiosidade entre os jovens, para defender as novas gerações a
partir do domínio do pensamento materialista, do perigo das políticas
da avidez do lucro desmesurado e da indiferença baseadas na lei da
força e não na força da lei.

? A liberdade é um direito de toda a pessoa: cada um goza da liberdade
de credo, de pensamento, de expressão e de ação. O pluralismo e as
diversidades de religião, de cor, de sexo, de raça e de língua fazem
parte daquele sábio desígnio divino com que Deus criou os seres
humanos. Esta Sabedoria divina é a origem donde deriva o direito à
liberdade de credo e à liberdade de ser diferente. Por isso,
condena-se o facto de forçar as pessoas a aderir a uma determinada
religião ou a uma certa cultura, bem como de impor um estilo de
civilização que os outros não aceitam.

? A justiça baseada na misericórdia é o caminho a percorrer para se
alcançar uma vida digna, a que tem direito todo o ser humano.

? O diálogo, a compreensão, a difusão da cultura da tolerância, da
aceitação do outro e da convivência entre os seres humanos
contribuiriam significativamente para a redução de muitos problemas
económicos, sociais, políticos e ambientais que afligem grande parte
do género humano.

? O diálogo entre crentes significa encontrar-se no espaço enorme dos
valores espirituais, humanos e sociais comuns, e investir isto na
propagação das mais altas virtudes morais que as religiões solicitam;
significa também evitar as discussões inúteis.

? A proteção dos locais de culto ? templos, igrejas e mesquitas ? é um
dever garantido pelas religiões, pelos valores humanos, pelas leis e
pelas convenções internacionais. Qualquer tentativa de atacar locais
de culto ou de os ameaçar através de atentados, explosões ou
demolições é um desvio dos ensinamentos das religiões, bem como uma
clara violação do direito internacional.

? O terrorismo execrável que ameaça a segurança das pessoas, tanto no
Oriente como no Ocidente, tanto no Norte como no Sul, espalhando
pânico, terror e pessimismo não se deve à religião ? embora os
terroristas a instrumentalizem ? mas tem origem no cúmulo de
interpretações erradas dos textos religiosos, nas políticas de fome,
de pobreza, de injustiça, de opressão, de arrogância; por isso, é
necessário interromper o apoio aos movimentos terroristas através do
fornecimento de dinheiro, de armas, de planos ou justificações e
também a cobertura mediática, e considerar tudo isto como crimes
internacionais que ameaçam a segurança e a paz mundial. É preciso
condenar tal terrorismo em todas as suas formas e manifestações.

? O conceito de cidadania baseia-se na igualdade dos direitos e dos
deveres, sob cuja sombra todos gozam da justiça. Por isso, é
necessário empenhar-se por estabelecer nas nossas sociedades o
conceito de cidadania plena e renunciar ao uso discriminatório do
termo minorias, que traz consigo as sementes de se sentir isolado e da
inferioridade; isto prepara o terreno para as hostilidades e a
discórdia e subtrai as conquistas e os direitos religiosos e civis de
alguns cidadãos, discriminando-os.

? O relacionamento entre Ocidente e Oriente é uma necessidade mútua
indiscutível, que não pode ser comutada nem transcurada, para que
ambos se possam enriquecer mutuamente com a civilização do outro
através da troca e do diálogo das culturas. O Ocidente poderia
encontrar na civilização do Oriente remédios para algumas das suas
doenças espirituais e religiosas causadas pelo domínio do
materialismo. E o Oriente poderia encontrar na civilização do Ocidente
tantos elementos que o podem ajudar a salvar-se da fragilidade, da
divisão, do conflito e do declínio científico, técnico e cultural. É
importante prestar atenção às diferenças religiosas, culturais e
históricas que são uma componente essencial na formação da
personalidade, da cultura e da civilização oriental; e é importante
consolidar os direitos humanos gerais e comuns, para ajudar a garantir
uma vida digna para todos os homens no Oriente e no Ocidente, evitando
o uso da política de duas medidas.

? É uma necessidade indispensável reconhecer o direito da mulher à
instrução, ao trabalho, ao exercício dos seus direitos políticos. Além
disso, deve-se trabalhar para libertá-la das pressões históricas e
sociais contrárias aos princípios da própria fé e da própria
dignidade. Também é necessário protegê-la da exploração sexual e de a
tratar como mercadoria ou meio de prazer ou de ganho económico. Por
isso, devem-se interromper todas as práticas desumanas e os costumes
triviais que humilham a dignidade da mulher e trabalhar para modificar
as leis que impedem as mulheres de gozarem plenamente dos seus direitos.

? A tutela dos direitos fundamentais das crianças a crescer num
ambiente familiar, à alimentação, à educação e à assistência é um
dever da família e da sociedade. Tais direitos devem ser garantidos e
tutelados para que não faltem e não sejam negados a nenhuma criança em
nenhuma parte do mundo. É preciso condenar qualquer prática que viole
a dignidade das crianças ou os seus direitos. Igualmente importante é
velar contra os perigos a que estão expostas ? especialmente no
ambiente digital ? e considerar como crime o tráfico da sua inocência
e qualquer violação da sua infância.

? A proteção dos direitos dos idosos, dos vulneráveis, dos portadores
de deficiência e dos oprimidos é uma exigência religiosa e social que
deve ser garantida e protegida através de legislações rigorosas e da
aplicação das convenções internacionais a este respeito.

Por fim, através da cooperação conjunta, a Igreja Católica e a
al-Azhar anunciam e prometem levar este Documento às Autoridades, aos
Líderes influentes, aos homens de religião do mundo inteiro, às
organizações regionais e internacionais competentes, às organizações
da sociedade civil, às instituições religiosas e aos líderes do
pensamento; e empenhar-se na divulgação dos princípios desta
Declaração em todos os níveis regionais e internacionais, solicitando
que se traduzam em políticas, decisões, textos legislativos, programas
de estudo e materiais de comunicação.

Al-Azhar e a Igreja Católica pedem que este Documento se torne objeto
de pesquisa e reflexão em todas as escolas, nas universidades e nos
institutos de educação e formação, a fim de contribuir para criar
novas gerações que levem o bem e a paz e defendam por todo o lado o
direito dos oprimidos e dos marginalizados.

Ao concluir, almejamos que esta Declaração:

seja um convite à reconciliação e à fraternidade entre todos os
crentes, mais ainda, entre os crentes e os não-crentes, e entre todas
as pessoas de boa vontade;

seja um apelo a toda a consciência viva, que repudia a violência
aberrante e o extremismo cego; um apelo a quem ama os valores da
tolerância e da fraternidade, promovidos e encorajados pelas religiões;

seja um testemunho da grandeza da fé em Deus, que une os corações
divididos e eleva a alma humana;

seja um símbolo do abraço entre o Oriente e o Ocidente, entre o Norte
e o Sul e entre todos aqueles que acreditam que Deus nos criou para
nos conhecermos, cooperarmos entre nós e vivermos como irmãos que se
amam.

Isto é o que esperamos e tentaremos realizar a fim de alcançar uma paz
universal de que gozem todos os homens nesta vida.

Abu Dabhi, 4 de fevereiro de 2019.

Sua Santidade
Papa Francisco                     Grão Imame de Al-Azhar
Ahmad Al-Tayyeb