Superar o apagão ético e fortalecer a profecia

Quando se aliou com o bolsonarismo, uma expressiva parcela de evangélicos e católicos colocou em xeque valores cristãos

Magali do Nascimento Cunha

Nesta segunda-feira, 28 de junho, ocorreu um pronunciamento oficial do ministro das Minas e Energia o almirante Bento Albuquerque na TV. Com pouca expressão pública (passou a maior parte da vida em submarinos), o ministro apareceu na TV para anunciar, como diz a antiga piada popular, que “o gato subiu no telhado”.

O Brasil está prestes a reviver os anos 1990, dos governos Fernando Henrique Cardoso, dos apagões de energia elétrica e todos os transtornos e consequências que eles causam. Além disso, já está definido pela agência governamental de energia que a população terá que pagar contas de luz mais caras devido à “crise hídrica” (o baixo nível de água que move as hidrelétricas, por conta de falta de chuvas).

O almirante Albuquerque lançou mão de termos técnicos de difícil compreensão para fazer parecer que o governo está preparado para a crise que se avizinha. Registros da questão revelam que o governo já sabia do problema há meses e não tomou as providências devidas em busca de alternativas à falta de água nos reservatórios. A verdade é que, em meio a uma pandemia que já matou mais de meio milhão de pessoas, resultado de erros terríveis de condução pública da crise sanitária, apagões de energia causarão uma catástrofe ainda maior.

É seríssimo que o pronunciamento do ministro militar e a cobertura noticiosa desta situação escondam que esta é a maior seca vivida no Brasil na última década e que diversos municípios já decretaram estado de emergência.  E é ainda mais grave que cientistas e ambientalistas já alertassem, desde 2019, que o aumento do desmatamento, em especial da Amazônia, esteja na causa primeira da falta de chuvas no país somada às mudanças climáticas. 

Desde 2012, as regiões Centro-Oeste, Sul e parte do Sudeste já apresentavam chuvas muito abaixo da média, isto foi agravado com o aumento drástico do desmatamento a partir de 2018. Com menos árvores na Amazônia, há menos umidade no ar e mais seca no Brasil e nos países da América do Sul. A falta de chuvas impacta de imediato a agricultura e depois o abastecimento de água e a geração de energia. 

Em meio a tudo isto, a Empresa Brasileira de Energia (Eletrobrás) está para ser entregue a empresas privadas, o que tornará mais cara a conta de luz. Veio à tona, ainda, que o recém-exonerado ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, que aproveitou a atenção com a pandemia para desmatar e explorar mais (“passar a boiada”, como ele mesmo disse), está sob investigação por ganhos ilícitos com contrabando de madeira. 

Destruição, corrupção, exploração: uma tríplice sobrecarga imposta sobre o Brasil e tudo o que nele habita. Uma demanda urgente para pessoas que têm fé exercerem ações proféticas e gritarem contra esta realidade! 

O problema é que vivemos uma espécie de apagão ético entre grupos religiosos, especialmente os cristãos. Quando se aliançaram com o bolsonarismo e passaram a apoiar e fazer parte do atual governo, uma expressiva parcela de evangélicos e outra de católicos colocaram em xeque valores cristãos fundamentais como o amor, a misericórdia, a justiça, a solidariedade, a tolerância. Tornaram-se cúmplices da tríplice sobrecarga descrita acima.

Enquanto isto, o restante se divide entre aqueles que se omitem e silenciam, abandonando a tarefa profética e os que permanecem fiéis aos princípios fundamentais da fé cristã na defesa da vida em todas as dimensões.

Um exemplo recente foi a inundação de mensagens de líderes religiosos contra uma certa rede de sanduíches que, nos últimos dias, fez campanha publicitária com defesa do respeito à homoafetividade.  Estes mesmos líderes silenciaram totalmente sobre a ação destrutiva de ruralistas e mineradoras que cobiçam terras indígenas, estes que são povos cuidadores da Criação, e sobre as alianças escusas do Ministério do Meio Ambiente com estes segmentos.

Sobre o desmatamento da Amazônia e do Pantanal e as terríveis consequências sobre a vida de todo o país, apenas algumas organizações ecumênicas, frentes e coalizações evangélicas e católicas em prol do meio ambiente e das populações da floresta têm empenhado esforços para denunciar e conter a destruição.

Carecemos de profetas e profetizas no Brasil 2021! A tradição cristã ensina que profetas, em geral, são pessoas inconformadas com a realidade, que lutam pelo direito e pela justiça, especialmente das minorias sociais – nas narrativas da Bíblia, os pobres, as viúvas, os órfãos, os doentes. Colocam-se contra exploradores dos trabalhadores da terra, contra comerciantes que falsificam pesos e medidas e o luxo com que viviam os reis, suas famílias e a corte em contraste à pobreza do povo. Assim se expõem porque declaram-se chamados por Deus para cumprir a lei do amor, da paz e da justiça. 

Em nome desse chamado, profetas denunciam as injustiças e iniquidades das autoridades político-religiosas. Também anunciam as consequências dramáticas daquelas atitudes, não sem deixar de consolar os mais sofridos com palavras de esperança de um tempo melhor.

Profetas sempre desagradam autoridades e seus apoiadores que vivem de lucrar com a injustiça. São acusados de conspiradores e promotores de balbúrdia, perseguidos, presos e mortos. No oposto estão os falsos profetas, religiosos que vivem de agradar essas autoridades e seus seguidores. Pregam mensagens de apoio e são beneficiados por isto. Servem para esconder a realidade dura e o futuro terrível. 

O alimento da esperança é saber que contra o apagão ético, os profetas permanecem, apesar de minoritários e perseguidos. Não cessam de existir. Estão em comunidades espalhadas pelo Brasil, em associações e grupos ecumênicos, movimentos, frentes, coletivos, coalizões. Permanecem fiéis ao Deus da Vida e clamam com denúncias e anúncios de transformação possível da realidade de destruição, corrupção e exploração que se abateu sobre o país nos últimos anos. 

Não vou nomear estes homens e mulheres aqui para não cometer qualquer injustiça com omissões. Entretanto, convido leitores e leitoras, a um exercício: busquem em suas redes estes profetas e profetizas (pessoas e grupos) que clamam pela vida com justiça, paz e integridade da Criação e envie-lhes a seguinte palavra de apoio: “Prossiga! Estamos juntos/as pela vida!”. Fortalecer esta rede é muito importante neste tempo de crise.

Magali do Nascimento Cunha é do Conselho Mundial de Igrejas, professora e doutora, especialista em Comunicação Social

Fonte: Carta Capital 30/06/2021

La voracidad del capitalismo trajo la Covid-19

Leonardo Boff*

He sostenido la tesis de que la Covid-19 es un contraataque de la Madre-Tierra contra el sistema del capital y de su expresión política, el neoliberalismo. Ella ha sido agredida y devastada de tal manera que nos envió un arma suya, invisible, el coronavirus, como una alerta y una lección. Este puso de rodillas, humilladas, a las potencias militaristas que con sus armas de destrucción masiva podrían acabar con la vida sobre el planeta. Si se perpetúa la guerra contra el planeta, este podrá no querernos más. Un virus más letal, inmune a cualquier vacuna, podría llevar a gran parte de la especie humana a su fin.

Tal eventualidad no es imposible pues este sistema de muerte de seres de la naturaleza y de seres humanos, al decir del Papa Francisco, posee una tendencia suicida. Prefiere correr el riesgo de morir antes que renunciar a su voracidad.

Este cuento de León Tolstói (1828-1910), contado a los peones de su hacienda Yásnaya Poliana con el título De cuanta Tierra necesita un hombre, puede hacernos reflexionar. 

«Había una vez un campesino que trabajaba un trozo de tierra que no era muy fértil. Trabajaba mucho pero sin mucho fruto. Envidiaba a sus vecinos que tenían más tierras y cosechas más abundantes. Estaba especialmente molesto por los elevados impuestos que tenía que pagar sobre su pequeña tierra y sus escasas ganancias. 

Un día después de mucho pensar resolvió: “me voy con mi compañera lejos de aquí, en busca de tierras mejores”. Supo que a muchas leguas de su casa había gitanos que vendían tierras muy baratas, hasta por precios irrisorios cuando veían a alguien muy necesitado y con ganas de trabajar. 

Aquel campesino, deseoso de poseer mucha más tierra para cultivar y hacerse rico, pensó: “voy a hacer un pacto con el diablo. Este me va a dar suerte”, dijo a su mujer, que torció el gesto. Y le advirtió:

Marido mío, mucho cuidado con el diablo, nunca sale nada bueno de hacer un pacto con él; esa codicia tuya te va a echar a perder”.

Pero, ante la insistencia del marido, decidió acompañarlo para realizar su ambicioso proyecto. Así que partieron, llevando pocas pertenencias. 

Cuando llegaron a las tierras de los gitanos, el diablo ya estaba allí, bien trajeado, dando la impresión de ser un influyente mercader de tierras. El campesino y su mujer saludaron educadamente a los gitanos. Cuando iban a expresar su deseo de adquirir tierras, el diablo, sin ceremonias, se le anticipó y dijo:

Buen señor, veo que viene de lejos y tiene gran deseo de poseer buenas tierras para plantar y hacer alguna fortuna. Tengo una excelente propuesta que hacerle. Las tierras son baratas, al alcance de su bolsillo. Le propongo lo siguiente: usted pone una cantidad razonable de dinero en una bolsa aquí, a mi lado. El territorio que usted recorra a lo largo de todo un día, desde el amanecer hasta la puesta del sol, siempre que esté de vuelta antes de ponerse el sol, esa tierra recorrida será suya. En caso contrario perderá el dinero de la bolsa”.

Los ojos del campesino brillaron de emoción y dijo:

Me parece una propuesta excelente. Tengo piernas fuertes y acepto. Mañana bien temprano, al amanecer, me pongo a correr y todo el territorio que mis piernas puedan alcanzar será mío”.

El diablo, siempre malicioso, sonrió contento.

Y así fue, bien temprano, apenas el sol rompió el horizonte, el campesino echó a correr. Saltó cercas, atravesó riachuelos y no satisfecho ni siquiera se paró para descansar. Veía delante de sí una encantadora planicie verde y rápidamente pensó:“aquí voy a plantar trigo en abundancia”. Mirando a la izquierda se abría un valle muy llano y pensó “aquí puedo hacer una plantación de lino para ropa fina”.

Subió, un poco sin aliento, una pequeña colina y vió que allá abajo surgía un campo de tierra virgen. Y pensó: “quiero también aquella tierra. Allí voy a criar ganado y ovejas y voy a llenar las alforjas de las burras con dinero a más no poder”.

Y así recorrió muchos kilómetros, no satisfecho con lo que había conquistado, pues los lugares que veía eran atractivos y fértiles y alimentaban su deseo incontenible de poseerlos también. 

De repente miró el cielo y se dió cuenta de que el sol se estaba ocultando detrás de una montaña. Dijo para sí mismo:

No hay tiempo que perder. Tengo que volver corriendo, si no perderé todos los terrenos recorridos y, encima, el dinero. Un día de dolor, una vida de amor”, pensó, como decía su abuelo.

Se puso a correr con una velocidad desmedida para sus piernas cansadas. Pero tenía que correr sin reparar en los límites de sus tensos músculos. Incluso se quitó la camisa y dejó caer la bolsa con algo de comida. Siguió mirando la posición del sol, ya cerca del horizonte, enorme y rojo como sangre. Pero aún no se había puesto del todo. Aunque estaba cansadísimo, corría cada vez más, ya no sentía las piernas de tanto esfuerzo. Con tristeza, pensó: “quizás he abarcado demasiado y podría perderlo todo. Pero sigamos adelante”.

Viendo, a lo lejos al diablo, solemnemente de pie y a su lado la saca de dinero, recobró más ánimo, seguro de que iba llegar antes de la puesta de sol. Reunió todas las energías que tenía e hizo un último esfuerzo. Corría, sin pensar en los límites de sus piernas, como que fuera volando. No muy lejos de la llegada, se tiró hacia delante, casi perdiendo el equilibrio. Rehecho, todavía dio algunos pasos largos.

Fue entonces cuando extenuado y ya sin fuerzas, se desplomó en el suelo. Y murió. Su boca sangraba y todo su cuerpo estaba cubierto de arañazos y de sudor.

El diablo, maliciosamente, apenas sonrió. Indiferente al muerto y codicioso, miraba la bolsa de dinero. Todavía se dio el trabajo de hacer una fosa del tamaño del campesino y lo metió dentro. Eran solo siete palmos de tierra, la parte menor que le tocaba de todos los terrenos recorridos. No necesitaba más que eso. Su mujer, como petrificada, presenciaba todo, llorando copiosamente».

Este cuento reverbera las palabras de João Cabral de Melo Neto (1920-1999) en su obra Muerte y Vida Severina (1995). En el funeral del labrador dice el poeta: ”Esta fosa en que estás, con palmos medida, es la cuenta menor que sacaste en vida; es la parte que te cabe de este latifundio”.

De todos los terrenos atrayentes que veía y deseaba poseer, al ávido campesino solo le quedaron al final los siete palmos para su sepultura. 

¿No será este el destino del capitalismo y del neoliberalismo?


*Leonardo Boff ha escrito Covid-19: la Madre-Tierra contraataca a la humanidad, advertencias de la pandemia, Vozes 2020.

Traducción de Mª José Gavito Milano

Das Prinzip Mitgefühl für und mit den Leidenden

Leonardo Boff                                    

Mit Covid-19 führt Mutter Erde einen Gegenangriff auf die Menschheit durch als Reaktion auf den unermesslichen Angriff, dem sie seit Jahrhunderten ausgesetzt ist. Sie verteidigt sich einfach selbst. Covid-19 ist auch ein Zeichen und eine Warnung an uns: Wir können nicht wie bisher Krieg gegen sie führen, denn sie ist dabei, die biologische Basis zu zerstören, die sie und alle anderen Lebensformen, insbesondere das menschliche Leben, erhält. Wir müssen uns ändern, sonst schickt sie uns vielleicht noch tödlichere Viren, vielleicht sogar eines, gegen das wir nichts ausrichten können. Dann wären wir als Spezies ernsthaft bedroht. Nicht umsonst hat Covid-19 nur den Menschen getroffen, als Warnung und Lehre. Es hat bereits Millionen in den Tod geführt und hinterlässt eine Leidensspur für weitere Millionen und eine tödliche Bedrohung, die alle anderen treffen könnte.

Hinter den kalten Zahlen verbirgt sich ein Meer von Leid um verlorene Leben, zerbrochene Lieben und zerstörte Projekte. Es gibt nicht genug Taschentücher, um die Tränen der lieben Verwandten oder Freunde derer wegzuwischen, die gestorben sind, und derer, denen es nicht möglich war, ein letztes Lebewohl zu sagen oder gar eine Trauerfeier abzuhalten und sie zum Grab zu begleiten.

Als ob das Leid, das das vorherrschende kapitalistische und neoliberale System, das hart umkämpft und unkooperativ ist, für einen großen Teil der Menschheit produziert, nicht schon genug wäre. Es hat es den reichsten 1 % ermöglicht, 45 % des gesamten globalen Reichtums persönlich zu besitzen, während die ärmsten 50 % weniger als 1 % erhalten, so ein aktueller Bericht von Crédit Suisse. Hören wir auf die Person, die den Kapitalismus im 21. Jahrhundert am besten versteht, den Franzosen Thomas Piketty, der sich auf den brasilianischen Fall bezieht. Hier, sagt er, haben wir die höchste Einkommenskonzentration der Welt; die brasilianischen Millionäre, die zu den reichsten 1% gehören, liegen vor den Ölmillionären des Nahen Ostens. Kein Wunder, dass diese katastrophale Ungleichheit Millionen von Marginalisierten und Ausgegrenzten hervorbringt.

Auch hier können die kalten Zahlen nicht über den Hunger, das Elend, die hohe Kindersterblichkeit und die Verwüstung der Natur, besonders im Amazonasgebiet und anderen Biomen, hinwegtäuschen, die in diesen Prozess der Ausplünderung der natürlichen Reichtümer verwickelt sind.

Aber in diesem Moment wird, durch das Eindringen des Coronavirus, die Menschheit gekreuzigt, und wir wissen kaum, wie wir sie vom Kreuz herunterholen sollen. Dann müssen wir in uns allen eine der heiligsten Tugenden des menschlichen Wesens aktivieren: das Mitgefühl. Es ist in allen Völkern und Kulturen bezeugt: die Fähigkeit, sich in einen anderen hineinzuversetzen, seinen Schmerz zu teilen und ihn so zu lindern. 

Der größte christliche Theologe, Thomas von Aquin, weist in seiner Summa Theologica darauf hin, dass das Mitleid die höchste aller Tugenden ist, weil es nicht nur den Menschen für den anderen öffnet, sondern für den Schwächsten und Hilfsbedürftigsten. In diesem Sinne, so seine Schlussfolgerung, ist es eine wesentliche Eigenschaft Gottes.

Wir beziehen uns auf das Prinzip des Mitgefühls und nicht einfach auf das Mitleid. Das Prinzip bedeutet in einem tieferen (philosophischen) Sinn eine ursprüngliche und wesentliche Disposition, die eine dauerhafte Haltung erzeugt, welche in Handlungen umgesetzt wird, sich aber nie in ihnen erschöpft, sondern immer offen für neue Handlungen ist. Mit anderen Worten: Das Prinzip hat mit etwas zu tun, das zur menschlichen Natur gehört. Denn so konnte es der englische Ökonom und Philosoph Adam Smith (1723-1790) in seinem Buch über die Theorie der ethischen Gefühle ausdrücken: Selbst der brutalste und gemeinschaftsfeindlichste Mensch ist nicht immun gegen die Kraft des Mitgefühls.

Die moderne Reflexion hat uns geholfen, das Prinzip des Mitgefühls zu retten. Dem kritischen Denken ist immer klarer geworden, dass der Mensch nicht nur auf der intellektuell-analytischen Vernunft aufgebaut ist, die notwendig ist, um die Komplexität unserer Welt zu erklären. Es gibt etwas Tieferes und Ursprünglicheres in uns, das vor mehr als 200 Millionen Jahren auftauchte, als die Säugetiere in die Evolution einbrachen: die sensible und herzliche Vernunft, d.h. die Fähigkeit zu fühlen, zu berühren und betroffen zu sein, Empathie, Sensibilität und Liebe zu empfinden.

Wir sind rationale, aber im Wesentlichen sensible Wesen. Tatsächlich bauen wir die Welt auf emotionalen Bindungen auf, die Menschen und Situationen kostbar und wertvoll machen. Wir bewohnen die Welt nicht nur durch Arbeit, sondern durch Empathie, Fürsorge und Liebe. Dies ist der Ort des Mitgefühls.

Was besser funktioniert hat als bei unserer wesentlichen Zivilisation, ist der Buddhismus. Mitgefühl (Karuná) artikuliert sich in zwei unterschiedlichen und sich ergänzenden Bewegungen: völlige Loslösung und wesentliche Fürsorge. Loslösung bedeutet, den anderen sein zu lassen, ihn nicht in einen Rahmen zu fassen, sein Leben und sein Schicksal zu respektieren. Sich um ihn zu kümmern bedeutet, ihn in seinem Leiden nicht allein zu lassen, sich affektiv auf ihn einzulassen, damit er besser leben kann, indem er seinen Schmerz leichter erträgt.

Das Schreckliche am Leiden ist nicht so sehr das Leiden selbst, sondern die Einsamkeit im Leiden. Mitgefühl besteht darin, den anderen nicht allein zu lassen. Es bedeutet, bei ihm zu sein, sein Leid und seine Angst zu spüren, ihm Worte des Trostes zu sagen und ihn liebevoll zu umarmen.

Heute brauchen diejenigen, die leiden, weinen und durch das tragische Schicksal des Lebens entmutigt sind, dieses Mitgefühl und diese tiefe humanitäre Sensibilität, die aus sensibler und herzlicher Vernunft geboren wird. Die gesprochenen Worte, die so gewöhnlich erscheinen, gewinnen einen neuen Klang, hallen im Herzen nach und bringen Gelassenheit und lassen einen kleinen Hoffnungsschimmer aufkommen, dass alles vorübergehen wird. Der Abschied war tragisch, aber die Ankunft in Gott ist gesegnet.

Die jüdisch-christliche Tradition bezeugt die Größe der Barmherzigkeit. Der Gott Jesu und Jesus selbst erweisen sich als besonders barmherzig, wie die Gleichnisse vom barmherzigen Samariter (Lk 10,30-37) und vom verlorenen Sohn (Lk 15,11-32) zeigen.

Mehr denn je wird es angesichts der Verwüstungen, die Covid-19 ausnahmslos über die gesamte Bevölkerung gebracht hat, dringend notwendig, das Mitleid mit den Leidenden als unsere menschlichste, sensibelste und solidarischste Seite zu leben.

Leonardo Boff schrieb mit Werner Müller, Ds Prinzip Mitgefühl, Herder 1999.

El principio compasión y las victimas del Covid-19

Leonardo Boff*

A través de la Covid-19 la Madre Tierra está llevando a cabo un contraataque sobre la humanidad como reacción al ataque avasallador que ella viene sufriendo desde hace siglos. La Covid-19 es igualmente una señal y una advertencia que nos envía: no podemos hacerle una guerra como hemos hecho hasta ahora, pues está destruyendo las bases biológicas que la sustentan y sustentan también todas las demás formas de vida, especialmente, la humana. Tenemos que cambiar, de lo contrario podrá enviarnos virus más letales todavía, quien sabe, hasta un virus invencible contra el cual nada podríamos hacer. Entonces estaríamospodía decirseriamente amenazados como especie. No sin razón que la Covid-19 ha atacado solo a los seres humanos, como aviso y lección. Ha llevado ya a la muerte a millones de personas, dejando un viacrucis de sufrimientos a otros millones y una amenaza letal que puede alcanzar a todos los demás.

Los números fríos esconden un mar de padecimientos por vidas perdidas, por amores destrozados, por proyectos destruidos. No hay suficientes pañuelos para enjugar las lágrimas de los familiares queridos o de los amigos muertos, a los cuales no pudieron darles un último adiós, hacerles el duelo y acompañarlos a la sepultura.

Como si no bastase el sufrimiento producido a gran parte de la humanidad por el sistema capitalista y neoliberal imperante, ferozmente competitivo y nada cooperativo. Él ha permitidoque el 1% de los más ricos posea a título personal el 45% de toda la riqueza global mientras que el 50% más pobre queda con menos del 1%, según un informe reciente del Crédit Suisse. Oigamos a quien más entiende de capitalismo en el siglo XXI, el francés Thomas Piketty, refiriéndose al caso brasilero. Aquí, afirma, se verifica la mayor concentración de renta del mundo; los millonarios brasileros, entre el 1% de los más ricos, están por delante de los millonarios del petróleo de Oriente Medio. No sorprende los millones de marginados y excluidos que esta nefasta desigualdad produce.

Nuevamente los números fríos no pueden esconder el hambre, la miseria, la alta mortandad de niños y la devastación de la naturaleza, especialmente en la Amazonia y en otros biomas, implicadas en este proceso de saqueo de las riquezas naturales.

Pero en este momento, debido a la irrupción del coronavirus, la humanidad está crucificada y mal sabemos cómo bajarla de la cruz. Es ahora cuando debemos activar en todos nosotros una de las virtudes más sagradas del ser humano: la compasión. Ella está atestiguada en todos los pueblos y culturas: la capacidad de situarse en el lugar del otro, compartir su dolor y, así, aliviarlo. 

El mayor teólogo cristiano, Tomás de Aquino, señala en su Suma Teológica que la compasión es la más elevada de todas las virtudes, pues no solamente abre la persona a otra persona sino que la abre hacia la más débil y necesitada de ayuda. En este sentido, concluía, es una característica esencial de Dios.

Nos estamos refiriendo al principio compasión, no simplemente a la compasión. El principio, en sentido más profundo (filosófico), significa una disposición originaria y esencial, generadora de una actitud permanente que se traduce en actos pero nunca se agota en ellos. Está siempre abierta a nuevos actos. En otras palabras, el principio tiene que ver con algo que es propio de la naturaleza humana. Porque es así, el economista y filósofo inglés, Adam Smith (1723-1790) en su libro sobre la Teoría de los Sentimientos Éticos pudo decir: hasta la persona más brutal y anticomunitaria no es inmune a la fuerza de la compasión.

La reflexión moderna nos ha ayudado a rescatar el principio compasión. Para el pensamiento crítico va quedando cada vez más claro que el ser humano no se estructura solamente sobre la razón intelectual-analítica, necesaria para darnos cuenta de la complejidad de nuestro mundo. Existe en nosotros algo más profundo y ancestral, surgido hace más de 200 millones de años cuando irrumpieron en la evolución los mamíferos: la razón sensible y cordial, que es la capacidad de sentir, de afectar y ser afectado, de tener empatía, sensibilidad y amor. 

Somos seres racionales pero esencialmente sensibles. A decir verdad, construimos el mundo a partir de lazos afectivos. Tales lazos hacen que las personas y las situaciones sean preciosas y portadoras de valor. No solo habitamos el mundo por medio del trabajo sino por la empatía, el cuidado y la amorosidad. Este es el lugar de la compasión.

Quien ha trabajado esto mejor que nosotros los occidentales ha sido el budismo. La compasión (Karuná) se articula en dos movimientos distintos y complementarios: el desapego total y el cuidado esencial. Desapego significa dejar al otro ser, no encuadrarlo, respetar su vida y su destino. Cuidar de él implica no dejarlo nunca solo en su sufrimiento, envolverse afectivamente con él para que pueda vivir mejor haciendo más leve su dolor. 

Lo terrible del sufrimiento no es el sufrimiento en sí, sino sufrirlo en soledad. La compasión consiste en no dejar al otro solo. Es estar a su lado, sentir sus padecimientos y angustias, decirle palabras de consuelo y darle un abrazo cargado de afecto.

Hoy los que están sufriendo, llorando y desanimados con el destino trágico de la vida necesitan esta compasión y esta profunda sensibilidad humanitaria que nace de la razón sensible y cordial. Palabras que parecen comunes adquieren otro sonido, resuenan dentro del corazón, dan serenidad y suscitan un pequeño rayo de esperanza de que todo va a pasar. La partida fue trágica pero la llegada a Dios es bienaventurada. 

La tradición judeocristiana testimonia la grandeza de la compasión. En hebreo es “rahamim” que significa “tener entrañas”, sentir al otro con sentimiento profundo. Más que sentir es identificarse con el otro. El Dios de Jesús y Jesús mismo se muestran especialmente misericordiosos, como se revela en las parábolas del buen samaritano (Lc 10,30-37) y del hijo pródigo (Lc 15,11-32). Curiosamente en esta parábola, el cambio no está tanto en el hijo que vuelve, sino en el padre que se vuelve hacia el hijo pródigo.

Ante la devastación causada por la Covid-19 en toda la población, sin excepción, es más urgente que nunca vivir la compasión con los que sufren, como nuestro lado más humano, sensible y solidario.

*Leonardo Boff ha escrito con Werner Müller el libro Principio compasión&cuidado, Vozes 2009; Covid-19: la Madre Tierra contraataca a la humanidad, Vozes 2020.

Traducción de Mª José Gavito Milano