Todos nos sentimos perdidos, investigadores, médicos e médicas, epidemioilogistas, biólogos e todos os saberes que instauramos, todos não conhecemos o covid-19 nem sabemos como enfrentá-lo eficazmente com uma vacina. Oxalá não seja o que alguns biólogos, há muito, temem: o NBO (Next Big One) “o próximo grande” vírus que fará desaparecer a espécie humana.
Além do covid-19 e dos vários vírus já conhecidos, estamos enfrentando tempos ecologicamente ameaçadores, como o aquecimento global, a sexta extinção em massa, a erosão da biodiversidade e outras.
Além de usarmos os meios científicos que nos estão deixando desamparados, temos uma referência de uma outra ordem que não é contra a inteligência mas vai além de seu alcance que a inteligência espiritual que capta o Espírito Criador.Ela não está fora de nossa realidade quando entendida holisticamente.
Este Espírito Criador responde pelo surgimento do universo com suas bilhões de galáxias e trilhões de estrelas e planetas, aquele que existia antes do antes e que fez surgir aquele ínfimo ponto, carregado de energia e que, explodindo (big bang), deu origem ao universo. Ele continua presidindo todo o processo da cosmogênico, o nosso planeta e a cada um de nós pois é o Spiritus Creator, o Pneuma, o Sopro de Vida. Nas línguas medio-orientais ele é sempre feminino, ligado à mulher que gera.
Nesses momentos de crise é ocasião de invocá-lo e suplicar-lhe: “Tu que és Fonte de Vida, salve nossas vidas, as vidas dos mais desvlidos, as vidas de toda a humanidade”.
Ele, diz o Gênesis logo no início, pairava sobre o “touwabou” (em hebraico), o caos originário; dele tirou todas as coisas e as colocou em sua devida ordem, no céu e na terra e por fim ,nós seres humanos, homens e mulheres.
Alargando o horizonte, releva reconhecer que sua criação está ameaçada para além dos efeitos letais co covid-19. A ameaça não vem de algum meteoro rasante como há 65 milhões de anos que exterminou os dinossauros depois de viverem por mais de cem milhões de anos por sobre a Terra. O meteoro rasante atual se chama homo sapiens e demens, duplamente demens (inteligente e demente e duplamente demente). Por sua relação agressiva para com a Terra e com todos os seus ecossistemas pode eliminar a vida humana, destruir nossa civilização e afetar gravemente toda a biosfera.
É num contexto assim que refletiremos sucintamente e invocaremos a ação sanadora e recriadora do Espírito Santo. Nossas fontes referenciais são os textos dos dois Testamentos judaico-cristãos e a experiência humana, cujo espírito é animado pelo Espírito Criador, chamado pela liturgia de “luz beatíssima”.
Pensar o Espírito Santo nos obriga a ir além das categorias clássicas com as quais se elaborou o discurso ocidental, tradicional e convencional da teologia. Deus, Cristo, a graça e a Igreja foram pensadas dentro de categorias metafísicas da filosofia grega: de substância, de essência e de natureza. Portanto, por algo estático e sempre já circunscrito de forma imutável. Este paradigma foi feito oficial pela teologia cristã.
Entretanto, pensar o Espírito implica assumir outro paradigma, o do movimento, da ação, do processo, da emergência, da história e do novo e do surpreendente. Este não pode ser apreendido com a terminologia substancialista mas com a do vir-a-ser.
Este paradigma nos aproxima da moderna cosmologia e da física quântica. Estas veem todas as coisas em gênese, emergindo a partir de um fundo de Energia Inominável, Misteriosa e Amorosa que está antes do antes, no tempo e no espaço zero. Ela sustenta o universo e todos os seres nele existentes e penetra de ponta a ponta o cosmos e nos penetra totalmente. Essa Energia de Fundo, chamada também de o Abismo Originador de todo o ser, é a melhor metáfora do Espírito Criador que é tudo isso e ainda mais.
Redizer o terceiro artigo do Credo cristão: ”Creio no Espírito Santo” nestes novos moldes, significa uma diligência nova, cientes de que ficamos sempre aquém daquilo que deveríamos dizer sobre o Espírito Criador.
Finalmente, cabe reconhecer que tocamos no mistério. Este não se opõe ao conhecimento pois o mistério é o ilimitado de todo conhecimento. Este sempre conhece mais e mais, mas em todo o conhecimento permanece o mistério. Este é, por natureza limitado. Este mistério se revela mas também se vela. A missão dos que o acolhem e se entregam à sua reflexão sistemática como os teólogos e as teólogas, também os que se dedicam à filosofia (como F. Hegel, cuja categoria central é o Espírito Absoluto) é buscar incessantemente esta revelação.
É próprio do Espírito esconder-se dentro dos processos evolucionários e da história. É próprio do ser humano descobri-lo. Ele “sopra onde quer e não sabemos nem de onde vem nem para onde vai” (cf. Jo,38). Isso não nos exime da tarefa de des-ocultá-lo.
É o que esperamos ardentemente que este Espírito se manifeste e inspire os espíritos de nossos pesquisadores para que descubram uma vacina que salve nossas vidas. E quando através da pesquisa deles, Ele irrompe surpreendentemente, nos alegramos e celebramos, ebrios de gratidão por sua ação mediada pelo espírito humano.
Neste domingo, dia 31 de maio, celebramos a festa de Pentecostes, uma das maiores das Igrejas cristãs. É uma festa sem fim, pois o Espírito está permanente em ação, se prolonga ao longo e ao largo de toda a história e nos alcança até nos dias em que sofremos, nos angustiamos e tememos a letalidade do coronavírus. O Spiritus Creator nunca abandonou sua criação, mesmo nas 15 grandes dizimações pelas quais ela passou. E não nos vai abandonar agora. Veni Creator Spiritus et salva nos”.
Leonardo Boff é ecoteólogo e escreveu O Espírito Santo: fogo interior, doador de vida e pai dos pobres, Vozes 2013.
Entrevista dada à revista belga Démocratie n.2 13 de fevereiro de 2019
Alors qu’au Brésil, la situation politique s’enfonce chaque jour davantage dans le chaos et que se dessinent des perspectives sombres et incertaines, Leonardo Boff, éminent théologien et penseur brésilien, nous propose une vision du futur de son pays qui n’est pas dénuée d’espoir. Cet homme de gauche, proche de Lula1, nous rappelle l’impor- tance de la théologie de la libération dans la mise en place des mouvements sociaux et de leurs combats en faveur des catégories les plus pauvres et marginalisées.
Comment expliquez-vous la victoire du candidat d’extrême droite Jair Bolsonaro, le 28 octobre dernier?
Tout d’abord, bien qu’elle paraisse joviale et hospi- talière, la société brésilienne est conservatrice. Les questions qui touchent à la famille traditionnelle comme l’homosexualité, le mariage entre personnes de même sexe, mais aussi celles liées aux Noirs2, ainsi qu’aux Quilombolas3 et aux peuples autoch- tones, sont généralement rejetées ou débattues de manière négative. Tous ces groupes ont souffert et souffrent encore beaucoup de préjugés et de discri- mination. Ensuite, les classes dominantes 4 n’ont ja- mais accepté qu’un travailleur du Nordeste accède à la présidence du pays. Ils ont toujours cherché à le piéger. Ils ont réussi l’impeachment de Dilma Roussef et finalement via le Lava-Jato 5 et en utilisant la Lawfare 6, Lula a été condamné et emprisonné, sans preuve claire, sans matérialité criminelle. Ces élites, riches et très riches, ont toujours contrôlé l’État pour obtenir leurs privilèges. Elles ont réussi à désigner un candidat d’extrême droite, Jair Bolsonaro, qui, élu, ferait le jeu de ces élites et de ses stratégies qui consistent à réduire le pouvoir de l’État, à privatiser autant que possible les communs (les biens naturels) comme le pré-sel7, les centrales électriques, les terres amazoniennes. Pour y arriver, elles ont désigné un bouc émissaire: le PT comme parti le plus corrompu de l’histoire et Lula comme voleur. Ainsi, un anti-PTisme généralisé a été créé, ce qui a totalement empêché la formation d’une discussion sérieuse sur un projet de société pour le Brésil.
Deplus, Jair Bolsonaro, impréparé à son futur rôle et véritable ignorant, a évité tous les débats et utilisé des milliers de fausses nouvelles (fake news) en provenance de l’Irlande et du Portugal, discréditant le candidat du PT à la présidence, Fernando Haddad, une personne honorable. Près de 70 % des personnes interrogées sur ces mensonges ont dit leur accorder du crédit. L’élection de Bolsonaro repose donc sur une fraude qui a trompé, avec l’aide des marchés et des oligarchies économiques, des millions de Brési- liens fanatisés.
Après un mois de gouvernement, quelle est la situation ?
C’est déjà un chaos indescriptible. Les postes-clés du gouvernement sont occupés par des généraux à la retraite, de sorte que nous sommes gouvernés, pratiquement, par l’armée qui contrôle tout… La victoire frauduleuse de Bolsonaro a légitimé une culture de la violence. Elle existait déjà dans le pays à des niveaux insupportables comme l’attestent les plus de 62.000 meurtres par an. Mais maintenant elle se sent légitimée par le discours de haine qu’il a nourri pendant la campagne. Une réalité aussi sinistre débouche sur une forte impuissance et un vide d’espoir.
Dans ce contexte sombre et incertain, voyez-vous malgré tout de l’espoir ?
Je pars de l’hypothèse que le Brésil, pays complexe et aux dimensions continentales, est plus grand que sa crise. Je crois vraiment que cette crise a son côté positif.
1. Leonardo Boff est un des seuls proches de Lula à être autorisé à lui rendre visite en prison.
2. 55,4 % de la population se déclarent noirs ou bruns de peau.
3. Villages composés de fugitifs noirs. Il y en a plus de mille au Brésil.
4. 1.173 de super riches, soit 0,05 % de la population qui contrôle 45 % de la richesse nationale.
On retrouve dans les élites brésiliennes de grands propriétaires terriens, des militaires, des lobbys pro-armement et les puissantes églises évangéliques.
5. Lava-Jato (lavage express) est une vaste opération menée depuis 2014 d’enquête sur une affaire de corruption et de blanchiment d’argent impliquant notamment la société pétrolière publique Petrobras.
6. À interpréter comme la loi pour préjudicier l’accusé.
7. Les gisements de pré-sel (champ de pétrole) se situent dans la croûte terrestre, sous des couches de sel, à environ 7.000 mètres de profondeur. On en trouve au large des côtes brésiliennes.
8. Environs 8 postes importants. Des cinq ministères qui composent l’équipe économique du gouvernement,quatre sont sous le commandement de l’armée, ce qui représente la plus grande représentation vert olive dans l’administration publique fédérale depuis la dictature (https://www. brasildefato.com.br/2019/01/17/ para-luiz-gonzaga-belluzzo-visao- dos-militares-que-estao-no-poder-e- antiquada/).
9. Voir à ce sujet, L. BOFF, Brasil: concluir a refundação ou prolongar a dependência, Éd. Vozes, 2018.
10. En plus de leur dimension pécifiquement religieuse, les communautés de base étaient des centres de prise de conscience, de résistance contre la dictature et de construction de la citoyenneté. L’articulation de ces communautés est l’un des points de départ de la fondation du Parti du Travail en 1980.
Si L’union européenne et la Chine rompent leurs relations avec le Brésil ou que ce dernier décide de se séparer de ces nations, une grande partie de nos entreprises exportatrices de viande et de soja pourraient faire faillite. De mon point de vue, l’alternative consiste à rompre avec nos dépendances historiques et à refonder la patrie sur d’autres bases et d’autres valeurs 9.
De quelle manière ?
J’identifie trois piliers, proprement brésiliens, qui pourraient soutenir un projet alternatif. Tout d’abord, celui de la nature. Le Brésil possède la plus grande biodiversité de la planète, la plus grande forêt tropicale du monde – l’Amazonie – 13 % des réserves mondiales d’eau douce, et une immense richesse en minerais et matériaux rares. Comme le dit Paul Krugman, prix Nobel d’économie, dans quelques années, toute l’économie passera par l’écologie. Les pays qui possèderont plus de biens et de services naturels (la bonté de la nature comme disent les Andins) auront un rôle décisif à jouer pour l’avenir de la vie et de la civilisation. Le deuxième pilier est le peuple brésilien lui-même, composé de représentants de 60 peuples différents qui vivent re- lativement sans préjugés raciaux et qui constituent un grand métissage (japonais, espagnol, allemand, italien, coréen, russe, ukrainien et autres). Ce peuple est très créatif, ouvert au dialogue et aux différences (malgré le traditionalisme des coutumes) et est ac- cueillant. Le troisième élément est la culture brésilienne, riche et diversifiée, de par l’extension du pays et les différents écosystèmes, que ce soit en musique, architecture, artisanat ou dans son carnaval la plus grande fête populaire du monde où se manifeste une incroyable créativité des populations des favelas dont sont issues les écoles de samba. J’estime que ces quelques éléments, qui peuvent être enrichis, ont la capacité de fonder un nouvel essai civilisationnel, important pour le processus mondial de globalisation, conférant légèreté, joie de vivre et aura mystico-religieuse (typique du peuple brésilien) opposé au processus actuel trop rigide et dont l’hégémonie est fondée sur la compétition et non sur la coopération.
Comme voyes-vous la “cordialité” brésilienne?
La cordialité, typique du peuple brésilien est très ambigue. Elle a montré le côté sombre de la «cordialité» brésilienne. Que derrière celle-ci peut aussi se cacher de l’hostilité et de la haine. En ce moment de grande colère et de haine dans la société, le côté pervers de la « cordialité » se manifeste. Elle est sortie du placard. Le fait est que ni les élites, ni le gouvernement de Jair Bolsonaro ne veulent un Brésil pour tous. Ils se sont simplement alignés sur Donald Trump, avec le risque que le Brésil ne perde ses relations avec la Chine, son plus grand partenaire commercial. Ni les élites, ni le gouvernement de Bolsonaro ne veulent un Brésil pour tous. Ils se sont simplement alignés sur Donald Trump.
De votre point de vue de théologien, comment peut-on comprendre les évolutions des dynamiques théologiques catholique et évangélique ?
L’Église catholique brésilienne a perdu ses grands prophètes qui dénonçaient la violation des droits de l’homme et l’oppression des marginalisés. La plupart des évêques ont été nommés par le Pape Jean-Paul II et Benoît XVI ouvertement conserva- teurs, plus endoctrinés que pasteurs. La plupart des évêques brésiliens ont peu de choses à dire sur la situation sociale brésilienne. Au contraire, l’affaiblis- sement de l’Église catholique a ouvert la voie aux Églises pentecôtistes et néo-pentecôtistes. Celles-ci rassemblent des milliers de fidèles, pour la plupart pauvres et nécessiteux. Il leur prêche l’évangile de la prospérité et non de la bienveillance. On n’y parle jamais de justice sociale et de transformation de la société. Ce sont des usines pour l’enrichissement de leurs bergers, de vrais loups, trompant les fidèles par des promesses et des miracles préconstruits. Le plus grand groupe néo-pentecôtiste, l’Église universelle du Royaume de Dieu, à la tête de laquelle se trouve l’évêque Macedo, a joué un rôle déterminant dans la victoire de M. Bolsonaro. Cette Église est devenue le centre de millions de fausses nouvelles, sans au- cun sens éthique ou religieux.
Et qu’en est-il de l’Église du peuple et de ses communautés de base 10 ?
Nous devons différencier l’Église catholique comme grande institution qui, à mon sens est dans une crise grave, de l’Église du peuple. Il y a près de cent mille communautés de base ici; plus d’un million de cercles bibliques qui lisent la Bible et en tirent des conclusions en termes de militance et d’engagement pour la justice sociale. Il y a le mouvement national Foi et Politique, national et régional, qui rassemble des laïcs qui voient dans l’Évangile une source d’inspiration pour une politique éthique et libéra- trice et voient dans la politique un lieu privilégié pour réaliser les biens du Royaume de Dieu que sont solidarité, justice sociale et esprit communautaire. En outre, il existe des mouvements de Sans-Terre et de Sans-Toit, fortement influencés par la théologie
Démocratie n° 2 • Février 2019 • 15
Réflexion d’un vieux théologien et penseur 1
L’importance de la dimension utopique
Dans un contexte de délabrement politique au Brésil, et ont produit un océan de pauvreté, d’injustice sociale et avant de parler d’espérance, il faut retrouver la dimendion de souffrances évitables en lieu et place de bénéfices pour tous. L’utopie ne s’oppose pas à la réalité, mais elle lui appartient, parce que celle-ci n’est pas seulement faite de ce qui est fait et donné, de ce qui y est palpable. Mais elle est également faite de ce qui peut encore être fait et donné, donc de ce qui est potentiel et faisable, de ce qui n’est pas encore visible. L’utopie naît de ces tréfonds de po- tentialités présentes dans l’histoire, dans chaque peuple et dans chaque personne. Le philosophe allemand Ernst Bloch a introduit l’expression principe-espérance. Celui-ci est plus que la vertu de l’espérance, il apparaît comme une source génératrice de rêves et d’actions. Le principe de l’espé- rance représente le potentiel inépuisable de l’existence et de l’histoire humaine qui nous permet de dire non à toute réalité concrète, aux limites de notre condition humaine, aux modèles politiques et aux barrières qui limitent la vie, la connaissance, la volonté et l’amour. Et dire oui à des formes nouvelles ou alternatives d’organisation sociale ou de formation de tout projet.
Les utopies maximalistes et les utopies minimalistes
Aujourd’hui, nous pouvons affirmer que les grandes utopies, les utopies maximalistes, celles des Lumières (alphabétisation de tous), du socialisme (faire prévaloir le nous sur le moi) et aussi du capitalisme (le moi sur le nous) sont entrés dans une crise profonde. Elles n’ont jamais réalisé ce qu’elles avaient promis : tout le monde ne participe pas à la culture alphabétisée, la majorité ne voit pas la distribution équitable et juste des biens et la richesse n’est le fait que de petits groupes et non de la majorité. De plus, toutes ces uto- pies ont dégradé la Maison commune par la surexploitation de tous.
Nous sommes donc obligés de nous tourner vers des utopies minimalistes, celles qui, ne pouvant pas changer le monde, mais qui peuvent cependant l’améliorer : recevoir un salaire qui réponde aux besoins de la famille, avoir ac- cès aux soins de santé, envoyer les enfants à l’école, obtenir des transports publics qui ne font pas perdre tant de temps, avoir des services de santé de base, avoir des lieux de loisirs et culturels, et avoir une pension suffisante pour affronter les maladies du troisième âge.
La réalisation de ces utopies minimalistes crée la base des utopies supérieures: aspirer à ce que la nation sur- monte les relations de haine et d’exclusion, à ce que les peuples embrassent la fraternité, à ce qu’ils ne fassent pas la guerre, à ce que tous s’unissent pour préserver cette pe- tite et belle planète Terre, sans laquelle aucune autre utopie ne serait possible.
Restaurer la force politique de l’espoir
Nous devons renverser la vapeur, ne pas considérer la situa- tion actuelle comme une tragédie sans espoir, mais comme une crise fondamentale qui nous force à résister, à tirer les leçons des contradictions et à sortir plus mûrs, plus expé- rimentés et plus sûrs pour ouvrir une nouvelle voie, plus juste, démocratique, populaire et inclusive pour le Brésil. #
1. Extrait de Reflexões de um velho teólogo e pensador, https://leonardoboff.wordpress. com/2018/12/03/esperanca-indignacao-e-coragem/
de la libération, dont les dirigeants viennent pour la plupart des cadres de l’Église de base. A ce niveau fondamental, l’Église est vivante, elle élabore sa li- turgie, sa propre théologie et une interprétation in- novante de la Bible. Ici est vivante la vraie théologie de la libération dans laquelle les théologiens entrent par la porte de derrière et ne sont que des compa- gnons des autres, sur le chemin de la libération.
Quelle est la plus grande réussite politique de la théologie de libération ?
Ce que Lula dit et répète toujours, c’est qu’elle est la force principale qui a constitué le PT, le parti des travailleurs. Sans l’Église de la libération, les mou- vements sociaux chrétiens, le PT n’aurait jamais surgi comme le plus grand parti de masse de notre histoire. C’est l’une des raisons pour lesquelles les élites traditionnelles sont contre le PT, parce c’est un parti qui vient d’en bas, des pauvres, des noirs, de ceux qu’ils méprisent et humilient et qui s’élèventdans la société et questionnent leur projet d’exclu- sion et de privilèges.
Lula a laissé un mouvement ouvrier autonome et vigoureux. Il est celui qui résiste le plus aux me- sures anti-populaires, mesures qui nient les droits conquis par les travailleurs, et aux restrictions des politiques à destinations des populations pauvres. J’espère que le Brésil, la plus grande nation latine et dans l’Atlantique Sud, jouera, pour les raisons évoquées précédemment, un rôle important dans la formation d’un type d’humanité, enfin unifiée dans la même Maison commune, dans le cadre d’une vé- ritable démocratie écologique et sociale, intégrant tous les peuples avec leurs spécificités, mais préser- vant et prenant soin de la seule planète qui nous fait vivre. #
Leonardo Boff est un théologien brésilien, écologiste et écriteur
Propos recueillis par Stéphanie Baudot et Thomas Miessen.
A Teologia não deve ser uma ciência fechada e encastelada, assim como a Igreja não tem de ser algo posto no olimpo, num nível quase inatingível que a afasta das realidades. São essas as perspectivas que orientam as concepções de Leonardo Boff. “A teologia sempre é possível e deve ser feita para responder com sentido crítico às demandas derradeiras da condição humana, mas ela deve desembocar numa espiritualidade”, define. Reconhecido como um dos maiores nomes da teologia brasileira e um dos principais pensadores da Teologia da Libertação, Leonardo está completando 80 anos hoje, dia 14 dezembro. Para ele, um momento de revisitar pensamentos e de se conectar com o que ainda há de vir. “Estou convencido mais e mais de que a solicitação maior não é por teologia, mas por espiritualidade. Todos estão saturados de mil mensagens de todo tipo, cansados de discursos religiosos, de encíclicas e coisas do gênero. Não querem mais que se fale sobre Deus, mas pedem como experimentar Deus realmente”, observa.
Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, ele recorda os primeiros movimentos que deram origem ao que se irá formular como a Teologia da Libertação. “A teologia estava na academia e a pastoral no meio do povo e dos operários. Não se escutavam”, lembra. E acrescenta que “dom Helder [Câmara] foi o primeiro a perceber que o nosso desenvolvimento significava um desenvolvimento do subdesenvolvimento” e que, por isso, era necessário conceber uma nova forma de ser Igreja que desse conta das duras realidades de países periféricos. “Não tivemos mestres específicos. Foi a inserção dos teólogos no meio dos pobres, onde descobrimos o Cristo crucificado que devia ser baixado da Cruz e de nossos bispos proféticos que corajosamente defendiam os direitos humanos, sob a opressão da ditadura militar”, observa.
Entretanto, reconhece que a atuação de leigos foi fundamental para atualizar essa necessidade de “ser Igreja”. “A Teologia da Libertação não seria o que foi e como hoje é se não fosse a presença de Paulo Freire com seu método libertador e seus dois clássicos”, acrescenta. E define: “a Teologia da Libertação não é uma nova disciplina teológica, mas um novo modo de fazer teologia, arrancando do inferno da pobreza e optando pelos condenados da Terra”. A quem ainda vê, nessa forma de pensar, apenas um instrumental marxista, responde que “Marx não foi nem pai nem padrinho da Teologia da Libertação”. “Mas há que reconhecer que Marx nos ajudou a ver no pobre não apenas um pobre, mas alguém feito pobre”, dispara.
Além de uma avaliação dessa experiência acerca da Teologia da Libertação – que para ele tem como principal reconhecimento a eleição de Jorge Mario Bergoglio como Papa, pois considera que ele “provém do caldo cultural da Teologia da Libertação” –, Leonardo também retoma conceitos que são importantes para sua concepção de cristianismo. Entre eles, o da morte. “Para mim, a morte pertence à vida. É seu ponto culminante”, pontua. Afinal, segundo ele, “a Ressurreição de Jesus nos veio mostrar esse outro lado nosso: a irrupção do “novissimus Adam”, a emergência do ser novo, unido à realidade divina”.
Por fim, falar em Leonardo Boff é também falar em ecologia, ou nos cuidados da Casa Comum, como ele diz. Aliás, numa outra concepção de pensamento ecológico, até então, pouco usual. “Dei-me conta de que não somente as florestas gritam, gritam também os animais, as águas, os solos e os ares. Todos são explorados pelo ser humano na sua voracidade de buscar comodidades e riqueza. O planeta Terra é o mais explorado de todos. Ele já está perdendo a sustentabilidade”, lembra. Assim, numa outra cosmovisão, ele tensiona a tomar esta também como uma das questões a serem abarcadas por uma teologia em sintonia com os problemas do mundo. “Dentro da opção pelos pobres, devemos incluir o Grande Pobre que é a nossa Mãe Terra. Daí nasceu uma Ecoteologia da Libertação”, pontua.
Leonardo Boff (Foto: Reprodução do Facebook)
Leonardo Boff é doutor em teologia pela Universidade de Munique, na Alemanha. Foi professor de teologia sistemática e ecumênica com os Franciscanos em Petrópolis e depois professor de ética, filosofia da religião e de ecologia filosófica na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Referência no campo da Teologia, é um dos fundadores da Teologia da Libertação. Em 1985, foi condenado a um ano de silêncio obsequioso pelo ex-Santo Ofício, por suas teses no livro Igreja: carisma e poder (Record). A partir da década de 1980, dedicou-se à questão ecológica como prolongamento da Teologia da Libertação. Foi membro da Ordem dos Frades Menores (franciscanos) até 1992, quando pediu seu desligamento da congregação e do sacerdócio, dedicando-se exclusivamente aos estudos teológicos. Agora em 2018, quando celebra seus 80 anos de vida, está lançando Reflexões de um velho teólogo e pensador (Petrópolis: Vozes, 2018).
Entre os inúmeros livros publicados, destacamos: Ecologia, Mundialização, Espiritualidade (Rio de Janeiro: Record, 1993), Civilização planetária (Rio de Janeiro: Sextante, 1994), A voz do arco-íris (Rio de Janeiro: Sextante, 2000), Saber cuidar (Ed. 20. Petrópolis: Vozes, 2014), Ética e ecoespiritualidade (Petrópolis: Vozes, 2011), Homem: satã ou anjo bom (Rio de Janeiro: Record, 2008), Evangelho do Cristo cósmico (Rio de Janeiro: Record, 2008), Do iceberg à Arca de Noé (Rio de Janeiro: Sextante, 2002), Opção Terra. A solução da Terra não cai do céu (Rio de Janeiro: Sextante, 2009), Proteger a Terra-cuidar a vida. Como evitar o fim do mundo (Rio de Janeiro: Record, 2010), Ecologia: grito da Terra, grito do pobre (Petrópolis: Vozes, 1995), além de Reflexões de um velho teólogo e pensador (Petrópolis: Vozes, 2018).
Assista ao testemunho do entrevistado durante a comemoração dos seus 80 anos realizada, em 07 de dezembro, pela Editora Vozes e Instituto Teológico Francisco, em Petrópolis, no Rio de Janeiro:
Confira a entrevista.
IHU On-Line – A Teologia da Libertação trouxe uma outra percepção do “ser Igreja” num momento, especialmente no Brasil, de grande dureza. Gostaria que o senhor recuperasse esse momento e nos contasse quais as fontes, autores e teóricos, que inspiraram esse primeiro grupo que apostou nessa perspectiva teológica?
Leonardo Boff – A Teologia da Libertação nasceu da preocupação da Igreja com a pobreza das grandes maiorias empobrecidas. Foram os profetas da Igreja como dom Helder Câmara, dom José Maria Pires, dom Antônio Fragoso, dom Pedro Casaldáliga, cardeal dom Paulo Evaristo Arns, entre outros, que sentiram que a missão da Igreja junto aos pobres devia ser libertadora e não mais assistencialista. DomHelder foi o primeiro a perceber que o nosso desenvolvimento significava um desenvolvimento do subdesenvolvimento. Deveríamos fazer não uma teologia do desenvolvimento, mas da libertação das amarras que nos prendiam a um tipo de desenvolvimento feito à custa dos muitos pobres em favor de poucos ricos. Numa reunião de bispos do Conselho Episcopal Latino-Americano – Celam em Montevidéu no final dos anos 1960, caiu da boca de dom Helder a palavra libertação. Ela foi retomada por Gustavo Gutiérrez quando ele, estando em Itaipava-Petrópolis, numa reunião de bispos latino-americanos que faziam um balanço das sessões do Vaticano II , falou que a missão da Igreja em nosso Continente empobrecido deveria ser libertadora.
Depois, em 1971, em Lima, lançou seu livro-fundador “Teologia da libertação: perspectivas” (São Paulo: Loyola, 1999). Eu, sem saber nada dele, escrevia cada mês, na revista para religiosas Sponsa Christi, artigos sobre Jesus Cristo Libertador. Fazia-o para escapar da repressão dos militares, pois a palavra libertação era proibida. Em janeiro de 1972, reuni os artigos e saiu o livro “Jesus Cristo Libertador” (Petrópolis, RJ: Vozes, 1972) , tido como iniciador no Brasil desse tipo de teologia.
Inspirações
Não tivemos mestres específicos. Foi a inserção dos teólogos no meio dos pobres, onde descobrimos o Cristo crucificado que devia ser baixado da Cruz e de nossos bispos proféticos que corajosamente defendiam os direitos humanos, sob a opressão da ditadura militar. Aqui cabe dizer: a Teologia da Libertação não seria o que foi e como hoje é se não fosse a presença de Paulo Freire com seu método libertador e seus dois clássicos “Pedagogia do oprimido” e “Educação como prática da liberdade”.
Ele sempre se considerou, como cristão, um dos fundadores da Teologia da Libertação. Nele descobrimos o método: de sempre escutar primeiramente o povo, depois pensar e elaborar o que recolhemos. Freire nos ajudou a assumir o método da Ação Católica mundial do ver, julgar, agir e celebrar (isso é acréscimo da Teologia da Libertação).
A Teologia da Libertação não é uma nova disciplina teológica, mas um novo modo de fazer teologia, arrancando do inferno da pobreza e optando pelos condenados da Terra – Leonardo Boff
Em segundo lugar, está o principal da Teologia da Libertação, sem o qual não se pode falar em libertação: a opção especial pelos pobres, contra sua pobreza e pela justiça social que significa verdadeira libertação. Os sujeitos dessa libertação, isso aprendemos dePaulo Freire e da prática pastoral junto aos oprimidos, são os pobres mesmos quando conscientizados e organizados. Nós entramos pela porta de trás e como força auxiliar. Portanto, a Teologia da Libertação não é uma nova disciplina teológica, mas um novo modo de fazer teologia, arrancando do inferno da pobreza e optando pelos condenados da Terra.
Sem esse amor pelos mais desvalidos e sem a experiência espiritual de ver neles a atualização da Paixão de Cristo, nunca teria nascido a Teologia da Libertação. Sem o amor e sem espiritualidade a Teologia da Libertação não teria conservado seu caráter eminentemente teológico com efeito claramente social, pois a libertação constitui um valor social em si mesmo, mesmo nascida de uma prática religiosa.
Reações da Igreja
Infelizmente, as autoridades doutrinais da Igreja não se deram conta dessa base espiritual e passaram a considerar a Teologia da Libertação, segundo diziam, como um cavalo de Troia mediante o qual o marxismo entraria na América Latina. Eles tinham boa intenção, só que essa intenção não era boa, pois começaram a censurar teólogos e bispos.
Marx não foi nem pai nem padrinho da Teologia da Libertação. Foi o grito dos oprimidos do Êxodo, foram os profetas bíblicos, foi a mensagem e a prática de Jesus e dos apóstolos que estão na base desta Teologia – Leonardo Boff
Marx não foi nem pai nem padrinho da Teologia da Libertação. Foi o grito dos oprimidos do Êxodo, foram os profetas bíblicos, foi a mensagem e a prática de Jesus e dos apóstolos que estão na base desta Teologia. Mas há que reconhecer que Marx nos ajudou a ver no pobre não apenas um pobre, mas alguém feito pobre, portanto, um empobrecido, vale dizer, um oprimido por um sistema que explora seu trabalho e lhe suga o sangue.
IHU On-Line – Como a Teologia da Libertação impactou a produção teológica no mundo?
Leonardo Boff – Esse modo de fazer teologia impactou enormemente a comunidade teológica mundial, pois era a primeira vez que, na periferia do mundo e da Igreja, irrompia um pensamento diferente, ligando prática com teoria, pastoral com teologia. O que se conhecia era uma dissociação dessas duas realidades. A teologia estava na academia e a pastoral no meio do povo e dos operários. Não se escutavam. Ainda havia os desafios que vinham deste mundo e que obrigariam a teologia a mudar de método e de agenda. Essa foi a colaboração que a Teologia da Libertação trouxe para a Igreja Universal.
A teologia estava na academia e a pastoral no meio do povo e dos operários. Não se escutavam – Leonardo Boff
Ela se espalhou na África, na Ásia, por toda a América Latina e em grupos de solidariedade com o então chamado “Terceiro Mundo” na Europa e nos Estados Unidos. Percebia-se claramente que era o pensamento adequado para a relação da fé com a injustiça social. Esta significava opressão, e contra a opressão vale a libertação. Nos grandes encontros que organizávamos no Brasil ou no México, estes aliados se faziam presentes. Fomos enriquecidos, com o passar do tempo, pela teologia negra norte-americana de libertação e com a teologia feminista de libertação. Por fim, recebemos a grande contribuição da teologia a partir dos povos originários, dos indígenas, com sua sabedoria ancestral.
Geralmente, uma nova corrente teológica demora uma ou mais gerações para ser sentida no centro do poder religioso que está em Roma, especialmente nas instâncias doutrinárias. Logo cedo, dentro da primeira geração se deu a primeira reação da Congregação da Doutrina da Fé, carregada de incompreensões e vítima do horror do comunismo, fruto da Guerra Fria. A reação foi de suspeita e até de condenação. O documento do cardeal Joseph Ratzinger cautamente dizia que eram condenações de alguns aspectos desta teologia. Mas logo foi entendido como pura e simples condenação desse tipo de teologia. Houve muito sofrimento.
As sanções
Sob suspeita de participarem desse ideário, muitos teólogos e teólogas perderam suas cátedras, foram desconvidados de cursos e de retiros espirituais e até condenados ou levados a se justificar em Roma, como Gustavo Gutiérrez (por meio dos bispos peruanos reunidos em Roma e assessorados pelos teólogos do Vaticano). E eu pessoalmente que saudei com honra a cadeirinha onde Galileo Galilei e Giordano Bruno também sentaram, além de outros melhores que eu.
Universalidade teológica
Temos nos dado conta da universalidade desta Teologia nas várias sessões do Fórum Social Mundial. Três dias antes, no mesmo local, fazia-se um congresso da Teologia da Libertação com a representação de duas ou três mil pessoas, vindas das várias partes do mundo onde ela era atuante. Depois, esses participantes se misturam nas várias temáticas do Fórum. Geralmente as conferências dos teólogos da libertação estavam e ainda estão entre as mais concorridas. Nesses locais, não se diziam palavras, mas coisas que movem os corações pelo alto apelo em favor dos pobres e oprimidos e por sua libertação integral.
Papa Francisco
Para nós, o impacto maior foi a ascensão do cardeal Bergoglio à Cátedra de Pedro com o nome significativo de Francisco. Ele provém do caldo cultural da Teologia da Libertação, da vertente argentina que enfatizava a libertação da cultura silenciada e do povo oprimido. Ele, desde jovem, estudante de teologia, segundo o testemunho de seu professor Juan Carlos Scanonne, ainda vivo, se entusiasmou por esse tipo de teologia. Viveu-a como cardeal, despojando-se de todo o aparato que cerca um cardeal, usando o ônibus, vivendo num pequeno apartamento e visitando com muita frequência as “villas miseria”, como são chamadas as favelas na Argentina.
Francisco levou ao centro da cristandade esta cultura teológica e pastoral. Despojou-se de todos os símbolos pagãos que ornavam a figura do Papa. Renunciou ao palácio pontifício e foi viver numa casa de hóspedes. Come junto com todos, coloca-se na fila da comida e diz com humor: “assim é mais difícil que me envenenem”. Podemos imaginar seu patrono São Francisco, o poverello “pútrido e fétido, mesquinho, miserável e vil” como dizia de si mesmo, vivendo num palácio pontifício? Essa contradição o papa Francisco captou e foi consequente deixando os espaços pomposos dos edifícios pontifícios.
O impacto maior foi a ascensão do cardeal Bergoglio à Cátedra de Pedro com o nome significativo de Francisco. Ele provém do caldo cultural da Teologia da Libertação. Leonardo Boff
IHU On-Line – Hoje, a Teologia da Libertação ainda dá conta do enfrentamento dos problemas deste mundo pós-moderno, em que as relações são atravessadas pela tecnologia e no qual vivemos uma retomada da extrema direita?
Leonardo Boff – Hoje, mais do que antes, faz-se urgente a Teologia da Libertação. Sua centralidade está nos pobres e marginalizados do mundo e atualmente o número deles aumentou exponencialmente. Vivemos tempos cruéis e sem piedade. Vigora uma acumulação espantosa de riqueza em pouquíssimas mãos à custa da espoliação da grande maioria dos seres humanos, de seus países e da exploração desenfreada dos parcos bens e serviços da Mãe Terra. Por causa dessa realidade é que a Teologia da Libertação se internacionalizou e abriu um leque novo de questões desafiadoras: como preservar a Casa Comum, como organizar a resistência das vítimas e como podem se articular em nível mundial, para fazer frente à desumanização e às agressões à natureza que podem pôr em risco o futuro da espécie humana?
Um capítulo à parte é como fazer Teologia da Libertação num contexto onde prevalecem a intolerância e a ascensão da direita e extrema direita. Creio que para os teólogos da Libertação, mais do que discutir politicamente essas questões que devem ser discutidas, o desafio é estar ao lado das vítimas, no caso do Brasil, dos homoafetivos, dos LGBTI, dos quilombolas, dos afrodescendentes (55,4% da população), dos membros do MST e dos Sem-Teto, com o risco de serem condenados por terrorismo com a violência que pode ocorrer contra eles. Devemos caminhar com eles e, se for o caso, participar de seu destino. Como dizia uma mulher negra resistente: “se decidiram nos matar, nós decidimos não morrer”. E eu acrescentei: “nós decidimos ressuscitar a cada morte”.
IHU On-Line – O que é fazer teologia hoje? Qual o espaço do pensamento teológico neste mundo pós-moderno?
Leonardo Boff – Estou convencido mais e mais, frequentando vários ambientes do mundo, daqui e de fora, mesmo do meio popular, de que a solicitação maior não é por teologia, mas por espiritualidade. Todos estão saturados de mil mensagens de todo tipo, cansados de discursos religiosos, de encíclicas e coisas do gênero. Não querem mais que se fale sobre Deus, mas pedem como experimentar Deus realmente. Escutam com atenção as pessoas que falam a partir de Deus, irradiando uma aura do sagrado e do divino que de alguma forma pervade nossa existência.
Todos estão saturados de mil mensagens de todo tipo, cansados de discursos religiosos, de encíclicas e coisas do gênero. Não querem mais que se fale sobre Deus, mas pedem como experimentar Deus realmente – Leonardo Boff
Na espiritualidade, todos nos encontramos. Geralmente, as religiões fazem guerra entre si ou justificaram guerras. A espiritualidade, ao contrário, vai ao profundo do humano, onde se encontra sob cinzas uma brasa sagrada que pode ser despertada e transformar-se numa chama ardente. Ela gera entusiasmo (ter um deus dentro, em grego), uma paz que nenhum psicotrópico pode dar e uma discreta alegria de viver com poucas coisas e se tornar capaz de solidariedade e de compaixão com os sofredores humanos e da natureza.
A teologia sempre é possível e deve ser feita para responder com sentido crítico às demandas derradeiras da condição humana, mas ela deve desembocar numa espiritualidade. Ela deve ser boa para as pessoas e levá-las a descobrir o seu caminho para o encontro com a Suprema Realidade.
IHU On-Line – O senhor foi um dos ideólogos das Comunidades Eclesiais de Base, as CEBs. Hoje, depois de mais de 50 anos da sua criação, como o senhor avalia a atuação desses grupos?
Leonardo Boff – As Comunidades Eclesiais de Base significaram uma criação de emergência suscitada pela própria Igreja brasileira por causa da falta de sacerdotes para atender a maioria católica. Inicialmente, as CEBs estavam ligadas a alguma paróquia. Lentamente foram se autonomizando, pois os leigos foram assumindo as várias funções de ler e comentar a Palava de Deus e as diferentes atividades, como a catequese, a liturgia, o cuidado com os doentes e a participação nos sindicatos. Elas têm esta propriedade: ser de base, seja eclesial, formada de leigos, homens e mulheres, seja de base, constituída de pobres. Realizam a essência da Igreja que é de ser “comunitas fidelium”, comunidade de fiéis, a fé que congrega as pessoas. Onde há dois ou mais reunidos, é palavra de Jesus, aí está presente o Ressuscitado.
É mais fácil fazer teologia dentro desta visão do novo paradigma do que dentro do velho, herdado dos gregos e dos pais fundadores da modernidade, no século XVII – Leonardo Boff
Portanto, há quatro presenças reais: da fé, da Palavra de Deus, da comunidade e do Ressuscitado. Isso forma o núcleo central do que significa Igreja concreta. Não se trata como teólogos oficialistas diziam: elas possuem elementos eclesiais, mas não são Igreja. Assim pensava também o papa João Paulo II. Quando dom Helder lhe explicou que, se retiramos delas o caráter de Igreja, baixaria a repressão militar sobre elas e as destruiria. Foi aí que o Papa atalhou: então que sejam consideradas Igreja.
Logicamente as CEBs podem e devem ser enriquecidas pelos sacramentos, pela Eucaristia, pelo grupo de animação e direção e outros elementos mais. Mas é decisivo enfatizar que é a Igreja verdadeira na base. Sob o regime da ditadura militar, eram um dos poucos espaços onde as pessoas podiam se reunir sem serem logo reprimidas. Ganharam força social e grande visibilidade, pois eram ativas na defesa dos direitos humanos, a partir dos direitos dos pobres. Chegaram ao número de cem mil.
CEBs na atualidade
Hoje, na democracia, surgiram muitos outros movimentos e elas diminuíram em número. Elas não possuem a mesma visibilidade, mas existem por todos os lados e mostram um modo novo de ser Igreja, mais comunidade do que sociedade eclesial piramidalmente organizada. Elas estão presentes em quase todos os Continentes. Levam, quiçá, como semente, o futuro da Igreja dentro do processo de mundialização. Não será mais a Igreja ocidental distribuída pelo mundo, mas a Igreja de Cristo que ganha raízes nas várias culturas na forma de pequenas comunidades que assumem um rosto novo consoante a diversidade cultural.
IHU On-Line – Suas posições com relação à hierarquia da Igreja Católica lhe renderam processos e uma série de sanções. O que fica dessa experiência para o senhor?
Leonardo Boff – Fui punido com o “silêncio obsequioso”, um eufemismo para a proibição de ensinar, de falar em público e de escrever. Isso foi por causa do livro “Igreja: carisma e poder” (São Paulo: Record, 2005), no qual fazia críticas à forma centralizadora da organização da Igreja com a exclusão dos leigos e das mulheres no processo de decisão dos caminhos da Igreja. Essa crítica foi vista como certo protestantismo e marxismo de minha teologia. Curiosamente, não condenaram nenhuma doutrina, mas se dizia no texto oficial que minha prática punha em risco a fé dos fiéis. Nunca na história da Igreja se condenaram práticas, mas doutrinas sobre fé e moral. Sentia-me em boa companhia com Jesus, que dizia: “vim trazer fogo à terra e o que mais quero é que arda”. Não há prática mais revolucionária que esta.
Nunca rompemos a amizade (Leonardo Boff e Cardeal Ratzinger), a ponto de, pela passagem de seus 90 anos, solicitar uma página minha sobre ele. Foi o que fiz gostosamente sem me referir a esse fato que ficou no século passado – Leonardo Boff
Mas nunca guardei rancor por causa dessa condenação. Disse ao cardeal Ratzinger, que sempre foi meu amigo, em longas conversas durante as reuniões para preparar a revista Concilium em alguma cidade da Europa, sempre na semana de Pentecostes, pouco depois de meu interrogatório: “eu sinto pena do senhor, pois tem que me condenar, pois é obrigado pelo tipo de teologia vigente no Vaticano, teologia do poder sagrado que não tolera nenhuma crítica; vê a crítica como deslealdade”. Ele silenciou, pois tenho certeza que, pelo que ouvi dele nas conferências na Alemanha, no fundo, me dava razão. Nunca rompemos a amizade, a ponto de, pela passagem de seus 90 anos, solicitar uma página minha sobre ele. Foi o que fiz gostosamente sem me referir a esse fato que ficou no século passado. Estamos num novo século, com outro Papa e com outro tipo de teologia mais benigna e servidora da vida.
IHU On-Line – Ao longo dos seus 80 anos, a Igreja passou por muitas transformações? Que Igreja o senhor viu, que Igreja vê hoje e qual imagina ser a Igreja do futuro?
Leonardo Boff – Durante 30 anos, vivemos um inverno na Igreja sob os pontificados do papa João Paulo II e o de Bento XVI. Representava uma volta à grande disciplina passando por cima das decisões do Concílio Vaticano II. Foram tempos de controle doutrinário rigoroso, de censuras e de proibição de introduzir novidades na Igreja e na teologia. Mais de 100 teólogos e teólogas foram punidos, perderam as cátedras ou foram silenciados.
Estamos num novo século, com outro Papa e com outro tipo de teologia mais benigna e servidora da vida.
O mais grave foi a nomeação de novos bispos, muitos deles vindos do Direito Canônico, conservadores, apresentando-se mais como autoridades eclesiásticas de costas para o povo do que pastores no meio do povo. Isso se refletiu como um refluxo da Igreja no seu compromisso com os pobres e com os Direitos Humanos, contra a injustiça social. Esse vazio foi preenchido por um cristianismo tradicionalista e pietista que usa as rádios e, especialmente, programas de televisão para anunciar uma fé sem conexão com os pobres e a injustiça social, mediocrizada, mais interessada no espetáculo do que na transformação das consciências, sensíveis às angústias dos mais vulneráveis.
Creio que este tipo de cristianismo tem mais a ver com uma visão medievalista da Igreja do que com a tradição de Jesus, pobre, humilde, caminhando no meio do povo pelas estradas poeirentas da Palestina. Este tipo de Igreja não honra a grandeza da figura histórica de Jesus, muitas vezes, melhor captada até por ateus. Na nova fase da humanidade, a planetária, na qual todos estão conectados com todos e o Ocidente é considerado mais um acidente histórico do que o centro da cultura do mundo, vejo a Igreja de Cristo constituída por redes de comunidades, encarnadas nas muitas culturas, com suas teologias próprias, sua forma de rezar a Deus e de organizar-se.
Elas terão o Papa como ponto de referência comum. E ele andará peregrinando pelo mundo, visitando as comunidades e confirmando-as na fé, pois essa é a missão dada por Jesus a Pedro. As várias congregações da Cúria não precisam mais ficar em Roma, mas podem tranquilamente estar distribuídas pelo mundo, a que cuida da inculturação na África, a que se ocupa com o diálogo inter-religioso na Ásia, a que zela pelos Direitos Humanos na América Latina e na Europa, a que leva o diálogo ecumênico entre as igrejas cristãs. Aí está o Skype e outros meios pelos quais podem visivelmente se comunicar e realizar mesas-redondas visuais. Seria a Igreja de Cristo na sua forma adequada ao novo patamar, alcançado pela humanidade. Fiz chegar ao papa Francisco esta minha visão. Oxalá ele ou outro de sua genealogia o possa realizar.
Durante 30 anos, vivemos um inverno na Igreja sob os pontificados do papa João Paulo II e o de Bento XVI – Leonardo Boff
IHU On-Line – O senhor trabalhou conceitos de forma muito particular, como a morte. Gostaria que recuperasse o seu entendimento sobre ‘o que é a morte’.
Leonardo Boff – Trabalhei bastante este tema, ligado à Ressurreição de Jesus e às muitas palestras que tenho dado a médicos e a operadores da saúde. Para mim, a morte pertence à vida. É seu ponto culminante. Ela não significa o fim, mas uma transformação “alquímica” através dela. A morte nos permite dar um salto para o outro lado de nós mesmos, invisível a nós, mas real. Esse salto nos permite continuar a viver dentro de outra forma.
A Ressurreição de Jesus nos veio mostrar esse outro lado nosso: a irrupção do “novissimus Adam”, a emergência do ser novo, unido à realidade divina. São Paulo nos garante que ele é “o primeiro entre muitos irmãos e irmãs, nós seguiremos a Ele”. Tenho afirmado que não vivemos para morrer. Mas morremos para ressuscitar, para viver mais e melhor. Seria bom se a Igreja, em sua catequese e evangelização, voltasse a essa doutrina de São Paulo ao invés de ficar refém da ideia platônica da imortalidade de uma parte de nós, só da alma. É o homem inteiro que morre. É o homem inteiro que ressuscita, não como Lázaro que acabou morrendo porque era só a reanimação de um cadáver, mas como Jesus que tem uma presença cósmica.
Para mim, a morte pertence à vida. É seu ponto culminante. Ela não significa o fim, mas uma transformação “alquímica” através dela. A morte nos permite dar um salto para o outro lado de nós mesmos, invisível a nós, mas real. Esse salto nos permite continuar a viver dentro de outra forma – Leonardo Boff
Como Ele, penetramos no coração do universo, onde tudo é um só coração, unidos com o coração da montanha, com o coração da planta, com o coração do animal, com o coração do ser humano no seio do coração do Deus-Trindade.
IHU On-Line – A ecologia é outro conceito muito presente em suas reflexões. Quando e por que o senhor sentiu a necessidade de trabalhar esse conceito a partir da teologia?
Leonardo Boff – Minha preocupação com a ecologia vem do fato de ter sido franciscano por mais de 30 anos. Sempre guardei o espírito do “Sol de Assis”, como o chama Dante Alighieri. Mais concretamente, foi uma consequência da própria opção pelos pobres, eixo central da Teologia da Libertação. A partir dos anos 1980, dei-me conta de que não somente as florestas gritam, gritam também os animais, as águas, os solos e os ares. Todos são explorados pelo ser humano na sua voracidade de buscar comodidades e riqueza. O planeta Terra é o mais explorado de todos. Ele já está perdendo a sustentabilidade. Precisa de um ano e meio para repor aquilo que lhe tiramos durante um ano.
Não vivemos para morrer. Mas morremos para ressuscitar, para viver mais e melhor – Leonardo Boff
Portanto, dentro da opção pelos pobres, devemos incluir o Grande Pobre que é a nossa Mãe Terra. Daí nasceu uma Ecoteologia da Libertação. Para estar à altura de reflexão contemporânea, tive que ocupar-me, por bastante tempo, com as novas ciências da vida e da Terra, como a mecânica quântica, a astrofísica, a cosmologia e a nova biologia e antropologia. Fruto deste esforço foi o meu livro mais complexo e volumoso, escrito em parceria com um cosmólogo canadense, Mark Hathaway: “O Tao da libertação: uma ecologia da transformação”, de 2010 (Petrópolis, RJ : Vozes, 2010). Lendo o manuscrito, Fritjof Capra ficou tão entusiasmado que quis escrever ele mesmo um prefácio.
A comunidade científica norte-americana acolheu bem o livro a ponto de recebermos em 2010 a medalha de ouro em ciência e nova cosmologia. Esse trabalho a quatro mãos nos custou 13 anos de estudo e trabalho lendo a principal literatura científica na área. Mas modificou minha visão do mundo. É mais fácil fazer teologia dentro desta visão do novo paradigma do que dentro do velho, herdado dos gregos e dos pais fundadores da modernidade, no século XVII.
IHU On-Line – Em seu novo livro, “Reflexões de um velho teólogo e pensador”, o senhor formula seu pensamento dentro da nova cosmologia, que vê o universo em cosmogênese e o ser humano em antropogênese e como Deus emerge nesse processo. Pode nos detalhar no que consiste essa sua cosmologia?
Leonardo Boff – Não é fácil detalhar o que seja a nova cosmologia. Depois de anos de estudo, publiquei um livro, belissimamente ilustrado, onde tento, para o grande público, resumir a nova visão das coisas. O título é “De onde vem: o universo, as estrelas, o sol, a Terra, a vida, o espírito e Deus” [Rio de Janeiro: Mar de Ideias, 2017]. No fundo, é o que diz a nova cosmologia, especialmente seu maior representante, Brian Swimme, que junto com o teólogo Thomas Berry escreveu uma história da evolução, do big bang aos dias de hoje: “The Universe Story”[Estados Unidos: HarperOn, 1992]. Aí se afirma a profunda unidade complexa de todo o processo cósmico, incluindo todos os seres e suas manifestações que irrompem da Energia de Fundo, inicialmente chamada de Vácuo Quântico. Mas como de vácuo não tem nada, pois é um oceano sem margens de virtualidades, passaram a chamar de Fonte Originária de todo o Ser ou de Abismo gerador de Tudo.
Daí irrompeu, ninguém sabe como e por quê, um pontinho, menor que a cabeça de um alfinete, mas repleto de energia. De repente, explodiu dando origem a tudo o que existe hoje, inclusive a Terra e cada um de nós. Nunca podemos ultrapassar aquilo que se chama o “Muro de Planck”, aquela realidade anterior ao big bang. Mas se entendeu que este big bang remete a esta derradeira realidade. Os cosmólogos lhe atribuem as qualidades de infinitude, de suprema plenitude, de misteriosidade e outras.
Ora, dizem alguns deles, essas são as características que as religiões atribuem àquilo que chamamos de Tao, Shiva, Alá, Javé, Olorum e Deus. Eu diria que essa Energia de Fundo não seja Deus, porque Deus é ainda maior. Mas seguramente é sua melhor metáfora, seu sacramento essencial. De todas as forças, Deus emerge de dentro do processo cosmogênico como aquela Suprema Energia que tudo move e a atrai para uma Suprema Realidade a qual Teilhard de Chardin chamou de Ponto Ômega. Ela é poderosa e amorosa. O ser humano pode abrir-se à ela, acolhê-la porque a sente também dentro de si. Ela nos assegura o fim bom de toda criação.
Eu diria que essa Energia de Fundo não seja Deus, porque Deus é ainda maior. Mas seguramente é sua melhor metáfora, seu sacramento essencial – Leonardo Boff
IHU On-Line – Estamos novamente vivendo um tempo de advento. Quais os desafios para nos prepararmos hoje para a Boa-Nova?
Leonardo Boff – Na verdade, estamos sempre numa situação de advento. Advento de nós mesmos, porque nascemos completos, mas não prontos. Há um futuro para nós próprios. Esse futuro é um advento que nos convida a uma sempre maior perfeição. Mas também há um advento de Deus. Ele sempre veio e está vindo nos visitar. Cabe a nós acolhê-Lo com o coração nas mãos. Ele vem cada vez, uma única vez só. Se não estamos despertos ele poderá chegar e nós não perceberemos sua chegada. Então, o advento é esse momento da espera vigilante para que, quando quiser nos visitar, encontre nossa morada aberta para entrar. E que ele se esqueça de ir embora. Então será o Deus conosco, o Natal do Filho de Deus entre nós.
Sobre os 80 anos do entrevistado, leia também o artigo de Faustino Teixeira
Hoy, 14 de diciembre, cumpliré 80 años de vida. Estoy descendiendo la montaña de la vida.
En primer lugar, doy gracias a Dios por haber llegado hasta aquí y por haber sobrevivido. De pequeño, con algunos meses, estaba destinado a morir. En aquellos interiores profundos de Santa Catarina, Concórdia, todavía no había médicos. Todos, desolados, decían: “pobrecito, va a morir”. Mi madre, desesperada, después de hacer el pan familiar en un horno de piedra, lo dejó entibiar y sobre una pala de madera me colocó unos cuantos minutos allí dentro. A partir de este experimento último, mejoré y aquí estoy como sobreviviente.
Pensaba que nunca pasaría de la edad de mi padre que murió de un infarto fulminante a los 54 años. Sobreviví. Escribí un balance a los 50. Después pensaba que no pasaría de la edad de mi madre, que también murió de infarto con 64 años. Sobreviví. Hice otro balance a los 60. Entonces, estaba seguro de que no llegaría a los 70. Sobreviví. Tuve que escribir otro balance a los 70. Finalmente, pensé convencido, de todas maneras no llegaré a los 80. Sobreviví. Y tengo que escribir otro balance.
Como salí desacreditado en mis previsiones, ya no pienso en nada más. Cuando llegue la hora que sólo Él conoce, iré alegremente al encuentro del Señor.
Releyendo los distintos balances, sorprendentemente y sin intención previa, veo que hay constantes que atraviesan todas las memorias. Voy a tratar de hacer una lectura de ciego que solo capta lo que es relevante. Siempre estuve movido por alguna pasión más fuerte que me llevaba a hablar y a escribir.
La primera pasión fue por la Iglesia renovada por el Concilio Vaticano II. Escribí mi tesis doctoral en Múnich: La Iglesia como sacramento; Iglesia: carisma y poder (que me llevó al silencio obsequioso) y Eclesiogénesis: las CEBs reinventan la Iglesia.
La segunda pasión fue por el Jesús histórico, su gesta que lo llevó a la cruz. Escribí Jesucristo el Liberador; Nuestra resurrección en la muerte; El evangelio del Cristo cósmico; Vía Crucis de la justicia.
La tercera pasión fue por San Francisco de Asís, el primero después del último (Jesús). Escribí Francisco de Asís: ternura y vigor; San Francisco: nostalgia del Paraíso; Comentario a su Oración por la Paz.
La cuarta pasión fue por los pobres y oprimidos. Nació la teología de la liberación y escribí Teología del cautiverio y de la liberación; El caminar de la Iglesia con los oprimidos; y junto con mi hermano Fr. Clodovis escribimos Cómo hacer teología de la liberación.
La quinta pasión fue por la Madre Tierra superexplotada. Escribí La opción Tierra: la solución a la Tierra no cae del cielo; El Tao de la liberación: ecología de la transformación junto con Mark Hathaway; Cómo cuidar la Casa Común.
La sexta pasión fue por la condición humana sapiente y demente. Escribí El destino del hombre y del mundo; El águila y la gallina: una metáfora de la condición humana; El despertar del águila: lo dia-bólico y lo sim-bólico en la construcción de la realidad; Saber cuidar; El cuidado necesario; Femenino-Masculino con Rose-Marie Muraro; El ser humano como proyecto infinito.
La séptima pasión fue por la vida del Espíritu: Traduje la obra principal del místico Maestro Eckhart; retraduje actualizándola la Imitación de Cristo de 1441 añadiéndole una parte nueva: El seguimiento de Cristo; Experimentar a Dios hoy; La Santísima Trinidad es la mejor comunidad; El Espíritu Santo: fuego interior, dador de vida y padre de los pobres; Espiritualidad: un camino de transformación.
He publicado cerca de cien libros. Es trabajoso, con solo 25 letras, componer las palabras y después con las palabras formular las frases y por fin con las frases concebir el contenido pensado de un libro.
Cuando me preguntan: “¿Qué haces en la vida”? Respondo: “soy un trabajador como cualquier otro, como un carpintero o un electricista. Solo que mis instrumentos son muy sutiles: apenas 25 letras”.
“¿Y qué es lo que pretendes con tantas letras?” Respondo: “solo pensar, en sintonía, las preocupaciones mayores de los seres humanos a la luz de Dios; suscitar en ellos la confianza en las potencialidades escondidas dentro de sí para encontrar soluciones; intentar llegar al corazón de las personas para que tengan compasión por el sufrimiento injusto del mundo y de la naturaleza, para que nunca desistan de mejorar siempre la realidad, comenzando por mejorarse a sí mismos. Para que, independientemente de su condición moral, se sientan siempre en la palma de la mano de Dios-Padre-y-Madre de infinita bondad y misericordia.
“¿Valieron la pena tantos sacrificios para escribir?” Respondo con el poeta Fernando Pessoa: “Todo vale la pena si el alma no es pequeña”. Me esforcé para que no fuese pequeña. Dejo a Dios la última palabra. Ahora en el atardecer de la vida, reviso los días pasados y tengo la mente vuelta hacia la eternidad.
*Leonardo Boff es teólogo, filósofo y escritor. Ha escrito: Reflexiones de un viejo teólogo y pensador, Vozes 2018.