Meu sentimento do mundo atual

Nos iníciosN de 2017 dei uma palestra em Juazeiro da Bahia. Dei uma entrevista a Jota Menezes, Coordenador de Educomunicação em Petrolina. A entrevista foi publicada na revista Contexto-educação de janeiro/junho de 2017 mas foi distribuída somente em 2018. Republico-a aqui pois aborda temas atuais que podem interessar a muitos preocupados com os destinos do nosso planeta e de nosso pais. Lboff                          

                  MEU SENTIMENTO DO MUNDO ATUAL

O conhecimento e a complexidade do mundo nesse limiar de terceiro milênio. A tendência à naturalização e a banalização de quase tudo, suscita incertezas, cria um mal-estar e lança um desafio: como revitalizar o sentido de humanidade e de sua espiritualidade comprometida. Implica, pois, numa reinterpretação das sociedades, dos seus modos de vida, do significado das interações, das relações de poder, da ideia de solidariedade e segregação, de suas singularidades transitórias, de cenários contrastantes, em que “o milagre tecnológico” não cumpriu as promessas de felicidade dos seres, da leitura de contextos impactantes geopolíticos, controlados pela influência das grandes corporações. Quais os efeitos dessa realidade nos processos educacionais, culturais e no meio ambiente dos territórios? São questões abordadas pelo Prof. Leonardo Boff nesta entrevista exclusiva para a Revista Contexto.

 

  1. O senhor afirma que em ciência trabalha-se com hipóteses e caminhos e não com verdades e que é necessário, não só conhecer, mas saber. Sobre a urgência da democratização do conhecimento que caminhos podem ser trilhados para se conceber a multiplicação dos saberes, não somente a partir da academia para as comunidades (ainda pouco incipiente), mas sobretudo a possibilidade de acolhimento, compartilhamento e valorização dos saberes populares pela universidade como bem ressalta Boaventura Souza Santos?

R/ Hoje, especialmente depois da física quântica de Borhr/Heisenberg trabalha-se com a indeterminação (Unbestimtbakeitprinzip, mal traduzido como princípio de incerteza) dos fenômenos e da emergência de novas possibilidades contidas no processo evolucionário e consequentemente nos processos sociais. A partir desta compreensão todos os fenômenos e todos os saberes, pouco importa sua procedência, são valorizados como manifestações das forças diretivas do universo e daquela Energia de Fundo que tudo sustenta e que preside o curso da evolução. Quem melhor se deu conta desta realidade foi o prêmio Nobel em química (1977) Ilya Prigogine que escreveu um belo livro sobre “A nova aliança”, publicado pela Universidade de Brasília. Trata-se, segundo ele, da aliança de todos os saberes, dos xamãs indígenas até dos místicos, pois cada saber é uma janela que nos descortina dimensões do real. O que é esse real permanece um mistério, mas é acessível por múltiplos caminhos sem que nenhum deles possa esgotar todas as possibilidades de seu conhecimento. Daí a importância de valorizar todos os saberes. Entre nós foi Paulo Freire quem mais abriu este debate, postulando a troca de saberes, entre o popular e o científico. Ignorante, diz ele, é quem pensa que o povo é ignorante. O povo sabe a seu modo e nos tem muito a ensinar. E ele tem também muito de aprender do saber científico. Eu mesmo tenho postulado a inserção do saber popular ao saber humanístico da tradição medieval com o saber científico da modernidade. Hoje pelo processo da mundialização da experiência humana temos a possibilidade desta imensa troca de saberes, de cosmologias, de formas de produção e de conhecimentos de elementos da natureza, de caminhos éticos e espirituais que as várias culturas produziram. Lamento que o paradigma do saber ocidental (técnico-científico) tenha se imposto de forma tão poderosa à todas as culturas, criando, diria, um pensamento único, uma espécie de fundamentalismo científico. Só o que passa pelo crivo do saber científico nos moldes ocidentais é legítimo, os demais saberes são postos sob suspeita ou colocados de lado especialmente a razão sensível ou cordial. Mas mais e mais vai se impondo a dialogação de todos os saberes, levando a um conhecimento mais profundo da realidade e consequentemente de respeito e de veneração pelo que foi pensado e vivido pelas várias culturas.

 

  1. Com raras exceções, o modelo da escola básica brasileira ainda assemelha-se em muitos aspectos à do século XIX que por sua vez teve forte influência jesuítica e mais tarde nuances do modelo francês. A universidade, considerada recente na cena nacional (tem menos de cem anos de fundação), também adotou características europeias em sua configuração e embora seja um espaço de produção crítica e de interpretação socioeconômica, política e comportamental do país, tem sido criticada por um histórico de elitização acadêmica. O que falta para que possamos ter finalmente uma escola e uma universidade mais inclusiva e com o “DNA” brasileiro?

R/ Um dos traços de nosso subdesenvolvimento consiste na nossa mimetização e replicação de modelos estrangeiros. Isso é uma consequência do processo de colonização que nos impôs a mesma língua, os mesmos modelos de pensar, de organizar a sociedade e os valores próprios dos colonizadores. Nunca conseguimos totalmente nos libertar da introjeção do colonizador dentro de nossas mentes. Isso freia nossa criatividade e limita o nosso imaginário. Por outro lado, pela via da cultura, mormente de matriz popular, se conseguiu romper com esse cerco epistemológico. O povo, como o tem mostrado bem o historiador José Honório Rodrigues em sua obra e também Celso Furtado, foi o criador das principais características de nossa cultura, com sua música, sua arte, sua poesia e sua forma de organizar a vida cotidiana. Pelo fato de estar à margem do processo civilizatório dominante que reproduziu e valorizava tudo o que vinha de fora, começou ele mesmo com sua intuiçCarta ao general X”umano. Como pedia Antoine de Saint Exupre os humanos no lugar da competiçdecisivos: o paradigma do cuidado quão e fantasia criadora a projetar novas formas de ler o mundo. Exemplo típico disso é a obra de Guimarães Rosa em Grande Sertão Veredas e toda a literatura local nordestina que tomava como temas situações da cultura local. Na academia devemos romper com um certo superego castrador que nos vem dos paradigmas estrangeiros e começar a pensar e a dizer a nossa realidade com os nossos instrumentos teóricos. Vale dizer, pensar o Brasil a partir do Brasil e de suas singularidades. O livro de Darcy Ribeiro “O povo brasileiro” é um hino à cultura brasileira em grande parte mestiça e genuinamente criadora, a ponto de, em sua exaltação, projetar o Brasil como a “nova Roma dos trópicos” não imperial e guerreira como a de outrora, mas cordial e aberta a todos os povos.

  1. Por falar em escola básica brasileira, qual seria o modelo possível que respeitasse nossas características, mas alcançasse níveis mais assertivos de eficiência e satisfação?

R/ Para mim deveríamos seguir o caminho apontado por Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro e Paulo Freire que pediam que a escola derrubasse suas paredes e colocasse os estudantes em contato direto com a realidade, sentindo na pele, as diferenças culturais, valorizando os vários estilos de vida e pondo-se na escola do povo para aprender dele como sobreviver no meio das profundas desigualdades e, ao mesmo tempo, criando espaços de alegria e de lazer. Colocar-se no meio da realidade, é obrigar-se a dialogar com o entorno e aprender dos desafios e das diferenças. A escola como instituição não perderia seu significado: seria o lugar da síntese, da ordenação dos saberes aprendidos e da incorporação daquilo que a humanidade acumulou em séculos de aprendizado. Entretanto, face às mudanças ocorridas no sistema-vida e no sistema-Terra que são ameaçadoras, devido à super-exploração dos bens e recursos naturais, tirando o equilíbrio da natureza e do aquecimento global no qual já estamos dentro, é imperativo incorporar novos valores em todo o processo educativo. Nomeio dois que considero decisivos: o paradigma do cuidado que é uma relação amorosa e protetora da natureza e de toda vida especialmente no que tange às relações sociais. Caso não cuidarmos da única Casa Comum e não fizermos transformações exigidas pelo cuidado (nova relação benigna para com a natureza e de maior solidariedade entre os humanos no lugar da competição) dificilmente escaparemos de uma tragédia ecológico-social que poderá devastar a biosfera e por em risco até a existência da espécie humana. O segundo paradigma seria uma visão espiritual da realidade. Espiritualidade aqui não é entendida como monopólio das religiões, mas como uma dimensão objetiva antropológica, do profundo humano. Como pedia Antoine de Saint Exupéry em sua “Carta ao general X”, deixada sobre a mesa antes de se precipitar com seu avião no Mediterrâneo. Afirmava ele que nós humanos temos cultivado o mundo corpo com todo o tipo de exercícios, o mundo da psiqué com os recursos das várias correntes psicanalíticas. Mas esquecemos de cultivar o mundo do espírito. Este é feito de amor, de solidariedade, de compaixão e de veneração. Porque não o cultivamos, continua ele, temos esta guerra com tantas vítimas humanas e culturais. E termina com uma evocação de uma relação para com Deus como uma espécie de cimento que integra todas as dimensões do humano. Essa espiritualidade nos humaniza, alimenta o sentido de nossa vida, nos faz mais sensíveis aos outros e à dores da natureza e nos move na direção do outro. Estimo que tais dimensões devem ser incluídas no processo educativo, pois este sempre se propôs humanizar o humano, permitir que virtualidades luminosas de nossa existência pudessem irromper e florescer e manter sob controle as dimensões de sombra.

  1. O Papa Francisco tem adotado um discurso de crítica social contundente que o credencia como uma liderança não apenas no âmbito religioso, mas sobretudo no viés político, portanto mais insurgente . Suas falas instigam a reflexões a respeito de uma postura e uma fé cristã mais comprometida com os valores humanos, ética e a preservação da vida, do cuidado com os mais pobres e povos tradicionais, sobre a ganância do capital que por sua vez suscita mais injustiças. Como o senhor avalia a postura do Papa, considerando que via de regra a Santa Sé, costuma manter uma visão mais cautelosa e conservadora a respeito desses fatos?

R/ Para entender as posturas do Papa Francisco importa lembrar que ele vem do caldo cultural e eclesial da Igreja latino-americana que já no final dos anos 60 do século passado fez uma opção pelos pobres contra a pobreza e em favor da justiça social. Daí nasceu a teologia da libertação que confere centralidade à libertação dos oprimidos, feita por eles mesmos, quando conscientizados e organizados e apoiados por grupos de outras classes que consideram justas e legítimas suas reivindicações. O Papa Francisco que vem desta visão das coisas, universalizou para toda a Igreja a perspectiva libertadora da fé cristã. Por causa da centralidade conferida aos pobres que são na verdade empobrecidos e injustiçados, ele tem um lado: está sempre do lado deles e contra aqueles que produzem seus padecimentos. Daí que claramente condena o sistema econômico-financeiro acumulador como anti-vida e assassino de milhões de pobres. O Papa Francisco deixa para trás por razões evangélicas e éticas a atitude convencional e equidistante do magistério pontifício acerca das questões sociais e se engaja em favor da justiça social mundial.

5 .A emergência material, o individualismo, o estímulo ao consumo exacerbado, o culto à personalidade e ao corpo, a ostentação como sinônimo de status, o fanatismo religioso, a negação do ser e o sentido de solidariedade, são sintomas de um mundo cada vez mais intolerante e que não se constrange ao cultivar uma cultura de morte. O que ocorreu com as instituições e seus valores?

R/ Um projeto civilizatório, fundamentalmente montado no século XVI que se propunha o domínio do mundo, dos povos e da natureza em função de um enriquecimento ilimitado de bens materiais, tinha que, num certo momento, mostrar seu caráter redutor e até perverso. Ele esqueceu as duas fomes que devoram o ser humano: a fome de pão que é saciável (o processo industrialista da modernidade) e a fome de transcendência que é insaciável, porque se funda em valores não materiais e intangíveis como a convivência pacífica, o respeito às diferenças, a amorosidade, a solidariedade, o cuidado daa Casa Comum e a total abertura do ser humano em todas as direções, incluindo o infinito. Ele saciou de pão a primeira fome. Mas deixou minguar a segunda fome. Dai ser a nossa crise, uma crise sistêmica que afeta a nossa compreensão do ser humano e do mundo, reducionista, individualista e alheia a bens espirituais que, cuja consequência é humanizarmo-nos mais. Hoje nos damos conta de que este tipo de mundo, já globalizado, entrou em profunda crise nos seus próprios fundamentos e não encontra recursos de seu próprio arsenal para dar uma solução aos problemas que ele mesmo criou. Ou mudamos ou vamos ao encontro do pior.

6.Houve um tempo (século XVIII) em que os Reis e seus Estados Nacionais justificavam o poder exaltando-o como uma graça divina, ou seja, estavam acima do bem e do mal. Posteriormente, a Declaração dos Direitos do homem e do Cidadão, entre outras convenções, surgiram posteriormente como formas de “corrigir” abusos dos poderes constituídos ou de governos déspotas. Como o senhor ver o recrudescimento de governanças com perfil autoritário nesse início de século XXI?

R/ O recrudescimento do conservadorismo e de poderes autoritários são expressões da crise de nossa cultura. Quer dizer, faltam-nos um horizonte de esperança que aponte para um outro tipo de mundo diferente deste demasiadamente inumano; faltam-nos lideranças que possam apontar rumos na direção do novo. Nesse vazio social, político e ético-espiritual surge quase fatalmente o pensamento da ordem e da disciplina. Os valores da ordem a qualquer custo e da disciplinação dos comportamento sociais são típicos das tendências políticas conservadores que podem terminar no nazi-fascimo. Este nasceu, exatamente, do seio de uma grande crise que se havia instaurado na Alemanha, vencida e humilhada pela Primeira Grande Guerra. Apareceu um líder carismático que impunha ordem e disciplina a todos que foi Hitler na Alemanha e Mussolini na Itália. Hoje, a nível mundial, corre-se semelhante risco de que o caos social presente um pouco em todas as partes, abra espaço para governos ontocráticos ou de personalidades que se orientam pelo uso do poder como o presidente Trump nos USA e Erdogan na Turquia para ordenar toda a sociedade e eventualmente todo o mundo.

7.Depois da Guerra Fria, imaginou-se que o mundo poderia experimentar uma nova era de paz progresso e tolerância. A queda do muro de Berlim em 1989, expressa simbolicamente essa perspectiva otimista. No entanto hoje nos deparamos com várias ameaças bélicas envolvendo nações como Síria, Coréia do Norte, Afeganistão, Iraque, Estado Islâmico. Por outro lado, Estados Unidos, Rússia e China, se posicionam em meio a esses conflitos, procurando ampliar o poder de influência politica e econômica. Estamos às portas de uma Terceira Guerra Mundial ou ainda é possível acreditar num equilíbrio de forças e na conciliação?

R/ Eu temo uma escalada dos conflitos que podem culminar numa guerra de armas altamente letais (químicas, biológicas e nucleares). Estamos assistindo uma espécie de balcanização das guerras regionais, todas elas com alta letalidade de populações civis. São hoje quarenta frentes de guerra. Pode-se chegar a um ponto em que a humanidade se dá conta de que, a elevar o nível de utilização de armamentos altamente destrutivos, pode ela mesma desaparecer. Ai creio que pode ocorrer, inevitavelmente, uma governança global dos sistema-Terra-humanidade que deverá ser pluralista para impedir a manipulação de algum pais mais poderoso sobre os demais. Então seria viável uma democracia mundial que era o sonho de Kant quando escreveu seu último texto sobre “A paz perpétua”, fundada na hospitalidade geral entre todos e no respeito aos direitos humanos.

  1. O ano de 2013 é simbólico no que concerne às manifestações populares e estudantis no mundo e também para refletirmos sobre a importância da democracia. Registrou-se a partir daquele ano as “Primaveras Árabes” (Líbia, Egito), o “Movimento Ocupe”(Seatle -Estados Unidos) e “Podemos” (Espanha). Que lições para o presente e futuro são possíveis de absorver desses movimentos?

R/ Estes movimentos revelam o fracasso de nossos sistemas de representação via partidos. Os partidos já não recolhem a vontade geral e os anseios novos que vão emergindo na sociedade, devido às muitas mudanças, seja tecnológicas, seja sociais e de mentalidades. Esses movimentos revelam antes um desalento geral, no estilo do livro de Freud “O mal-estar na civilização”. Este psicanalista era um atento observador das tendências da história. Logo no início de seu texto denuncia a crise de valores e de referências coletivas que provocavam o mal estar ou a crise de civilização. Pouco depois, veio a Segunda Grande Guerra, fruto deste mal-estar generalizado. Tenho a impressão de que vivemos tempos semelhantes. A rebeldia e a protestação são sinais reveladores da crise. Mas todos estes movimentos não conseguiram ainda apresentar uma alternativa viável que desse conta da crise para dar o salto rumo a outro tipo de sociedade. Esse é o problema geral: a ausência sofrida de alternativas. Meu sentimento do mundo me diz que a solução possível virá do campo da ecologia integral. Quando os seres humanos se deram conta de que podem realmente se autodestruir (já se construíram os meios para tal) aí prevalecerá a razão e a lógica da vida que quer mais vida e tenta evitar a morte. Então mudaremos como instinto de sobrevivência.

9.O senhor costuma se referir à expressão “convenções ocultas” quando aborda questões ligadas ao poder econômico, suas práticas e impactos nas sociedades. Darcy Ribeiro utilizava-se de um termo “tolerância opressiva” para designar um tipo de manipulação em que o opressor invade o corpo e a mente de sua vítima para dominá-la. Georg Orwell no seu livro 1984,- o “Big Brother” também instiga essa perspectiva futura. Os dois autores se referem à estratégias politico-ideológicas. O senhor aqui se atém mais à questão do poder do capital. No fundo elas todas estão entranhadas? Como essas convenções ocorrem na prática?

R/ Respondo sem dar maiores mediações. As lógicas ocultas ou conexões ocultas estão ligadas ao sistema do capital que conseguiu depois da queda do muro de Berlim se impor em todo o mundo. Já não se trata da desmontagem teórica do sistema do capital já amplamente feita a começar por Marx e culminando na Escola de Frankfurt para citar as referências maiores. Ocorre que isso é insuficiente. A força do sistema é ter-se tornado uma cultura, a cultura do capital que penetrou em todos os âmbitos da sociedade, nos hábitos e na leitura do mundo. As diferentes mídias foram os grandes instrumentos de consolidação desta cultura. Essa cultura do capital nos mantem todos de alguma forma reféns. Obriga-nos a trocar de tempos em tempos o computador, caso contrário os programas não funcionam, os celulares e outros aparatos. Trocamos de tênis, de roupas, de formas de gozar das férias, consumir bens culturais e materiais. Passamos da uma economia de mercado para uma sociedade de mercado, como genialmente o denunciou ainda em 1944 Karl Polaniy em su famoso livro “A Grande Transformação”. Nesse tipo de sociedade tudo vira mercadoria até as coisas mais sagradas como órgãos humanos, bens religiosos, nada escapa da lógica do ganho com os negócios de tudo e com tudo. Essa é a grande perversão, o mal de nossa cultura que não merece ser perpetuada porque fez da própria Terra um balcão de negócios e está destruindo as bases físico-químicas que sustentam a vida. Ou mudamos de paradigma no qual nos sentimos parte da natureza e não seus senhores que podem explorá-la a seu bel-prazer, ou então vamos ao encontro de nosso próprio desaparecimento sobre o planeta Terra. A Terra continuará porque ela não precisa de nós, nós sim precisamos dela, mas coberta de cadáveres. E seguirá co-evoluindo até emergir um ser capaz de suportar o espírito e fazer sua trejetória com outro tipo de história, oxalá, mais benigna que a nossa.

  1. O Brasil não se constitui numa exceção quando se fala em corrupção, contudo, ela tem estado tão enraizada na história do país, a ponto de ser naturalizada nas relações sociais. Nos últimos 50 anos, a situação se agravou de tal modo, que não se pode falar do problema de um poder apenas, ou de um período. Quais são as raízes dessa tragédia institucional brasileira e quais as soluções a médio e longo prazos para mitigá-la?

R/ Os países que um dia foram colonizados geralmente inventaram estratégias de corrupção para escaparem da dureza da dominação colonial. Isso se agravou ainda mais com a escravidão que é uma corrupção absoluta ao fazer do próximo uma “peça”, um objeto de uso e de abuso. O jeitinho brasileiro supõe uma mentalidade corrompida mas que significa uma forma de navegação social para escapar da lei e de conseguir o que é pretendido. Essa lógica não mudou com a república e com os vários ensaios democráticos. Então não temos corrupção. Estamos assentados sobre um sistema corrupto que sobrevive à condição de manter este sistema que beneficia a quem detém seja o poder de Estado, seja o poder econômico. Não vejo outra solução senão uma refundação do Brasil sobre outras bases. Essa refundação virá de um conjunto de forças e valores, hegemonizados pelos movimentos sociais mais organizados que, somados a outros grupos e setores partidários e intelectuais elaboraram um pensamento alternativo. Isso pressupõe o fracasso total do tipo de democracia que temos e a urgência de colocar em seu lugar um novo tipo de Estado, novas formas de representação popular e um projeto de desenvolvimento inclusivo, a natureza incluída, que supere a nossa maior vergonha: a abissal desigualdade social. Então poderíamos florescer como uma nação moderna e minimamente justa.

  1. Em suas palestras, o senhor tem afirmado que apenas 5% da vida são visíveis e que 95% invisíveis, o que remete a pensar sobre a fragilidade dos organismos vivos na Terra, bem como da indiferença de governos, corporações e de cidadãos comuns com ambientes tão delicados. De que modo é possível transformar essa visão tão contraditória de exploração predatória do Planeta cujo alerta fora feito no Brasil com a Eco-92? Como é possível formar uma consciência coletiva mundial em torno da questão?

R/ Esta questão para mim é fundamental. Ela precisa realizar o que a Carta da Terra de cuja redação participei, diz: ”Como nunca antes na história o destino comum nos conclama a buscar um novo começo. Isto requer uma mudança na mente e no coração. Requer um novo sentido de interdependência global e de responsabilidade universal. Devemos aplicar com imaginação a visão de um modo de vida sustentável aos níveis local, nacional regional e global” . A mesma petição é feita pelo Papa Francisco (que cita a Carta da Terra) em sua encíclica destinada a toda a humanidade: Laudato Si: sobre o cuidado da Casa Comum. Necessitamos uma mudança na mente, quer dizer, uma nova visão do universo e da Terra e de nosso lugar e missão no conjunto dos seres: que tudo está interconectado, que a Terra é um superorganismo vivo e que nós somos seus guardiães e cuidadores. Um mudança no coração: não é mais suficiente a tecno-ciência que analisa os fenômenos, precisamos de um outro exercício da razão, da razão sensível e cordial, aquela que é a base da ética dos valores e da espiritualidade. Só uma mente sensível que capta o grito do oprimido junto com o grito da Terra se move para curar e salvar. Sem esta disposição continuamos reféns do velho paradigma que coisificou toda a realidade. Precisamos entender que tudo no universo e na terra é constituído de relações. Todos estamos enredados em teias de relações, onde tudo tem a ver com tudo em todos os momentos e em todas as circunstâncias. A partir desta compreensão nos sentimos parte da natureza e não donos dela, partes da própria Terra e do universo, com o sentimento de uma responsabilidade coletiva de salvaguardar e cuidar desta herança sagrada que nos foi legada pelo universo ou por Deus. Sem essa conversão ecológica profunda, de que fala o Papa Francisco, não encontremos solução para nossos problemas atuais. Mas vale a convicção de que o espírito humano face a crises axiais se torna criativo, projeta alternativas viáveis e rasga um novo caminho. E os portadores de fé creem no que diz o livro da Sabedoria: “Deus é o soberano amante da vida”(11,26). Se for verdadeiramente apaixonado pela vida, Deus não permitirá que ela fracasse vergonhosamente por causa da irresponsabilidade humana. Farei minhas as palavras esperançadoras do Papa Francisco no final de seu texto ecológico: ”Caminhemos cantando, que as nossas lutas e a nossa preocupação por este planeta não nos tire a alegria da esperança”(n. 244).

Nota bene: estes temas são aprofundados no meu recente livro: Brasil:concluir a refundação ou prolongar a dependência, Vozes 2018.

 

Estaba preso y les impediste venir a visitarme

Hay una escena enormemente dramática en el evangelio de San Mateo cuando trata del Juicio Final, es decir, cuando se revela el destino último de cada ser humano. El Juez Supremo no preguntará a qué Iglesia o religión perteneció esa persona, si aceptó sus dogmas, cuántas veces frecuentó los ritos sagrados.
Ese Juez se volverá hacia los buenos y les dirá: “Venid, benditos de mi Padre, tomad posesión del reino preparado para vosotros desde la creación del mundo, porque tuve hambre y me disteis de comer, tuve sed y me disteis de beber, fui peregrino y me acogisteis, estuve desnudo y me vestisteis, enfermo y me visitasteis, estaba preso y vinisteis a verme… todas las veces que hicisteis esto a uno de mis hermanos y hermanas menores, a mí me lo hicisteis… y cuando dejasteis de hacerlo a uno de estos pequeños, a mí me lo dejasteis de hacer” (Evangelio de San Mateo, 25, 35-45).
En ese momento supremo son las prácticas hacia los sufridores de este mundo y no las prédicas las que cuentan. Si los hemos atendido, oiremos aquellas palabras benditas.
Esta experiencia fue vivida por el Premio Nobel de la Paz de 1980, el argentino Adolfo Pérez Esquivel (1931), arquitecto y renombrado escultor, gran activista de los derechos humanos y de la cultura de la paz, además de ser profundamente religioso, y de apoyarme. Él pidió a las autoridades judiciales brasileñas permiso para visitar en la cárcel al expresidente Lula, amigo de muchos años.
Esquivel me llamó desde Argentina y en twitter está resumida la conversación en una especie de youtube. Iríamos juntos, pues yo había recibido también el llamado Nobel Alternativo de la Paz en 2001 (The Right Livelihood) del Parlamento sueco. Pero le adelanté que mi visita era para cumplir el precepto evangélico de “visitar a quien está encarcelado” además de abrazar al amigo de más de 30 años. Quería reforzarle la tranquilidad del alma que mantuvo siempre. Poco antes de ser arrestado me confesó: mi alma está serena porque no me acusa de nada; me siento portador de la verdad que posee una fuerza propia y a su debido tiempo se manifestará.
Esquivel y yo llegamos a Curitiba en horarios diferentes el día 18 de abril. Fuimos directamente al gran auditorio de la Universidad Federal de Paraná repleta de gente, para un debate sobre democracia, derechos humanos y la crisis brasileña que había culminado con la prisión de Lula. Allí estaban autoridades universitarias, el exministro de Relaciones Exteriores, Celso Amorim, representantes de Argentina, Chile, Paraguay, Suecia y otros países. Alternadamente se cantaban bellísimas canciones latinoamericanas especialmente en la voz sonora de la actriz y cantora Leticia Sabatella. Los afrodescendientes danzaron y cantaron con sus trajes de bellos colores.
Hubo varios pronunciamientos. Como por arte de magia el desaliento general dio lugar a un aura de bienquerencia y de esperanza de que el golpe parlamentario, jurídico y mediático no podría dibujar ningún futuro para Brasil. Antes bien, se cerraría un ciclo de dominación de las élites del atraso para abrir el camino a una democracia venida de abajo, participativa y sostenible.
Antes de la sesión se nos había comunicado que la jueza Catalina Moura Lebbos, brazo derecho del juez Sérgio Moro, había prohibido la visita que queríamos hacer al ex presidente Lula.
Esta jueza no se dio cuenta del alto significado del que es portador un Premio Nobel de la Paz. Tiene el privilegio de recorrer el mundo, visitar prisiones y lugares de conflicto para promover el diálogo y la paz. Nos apoyamos en el documento de la ONU de 2015 que se ha convenido en llamar “Reglas de Mandela” que trata de la Prevención del crimen y la justicia criminal. En él se aborda también la parte de la visita a los encarcelados. Brasil fue uno de los más activos en la formulación de estas Reglas de Mandela, aunque no las observa en su territorio.
Pero de nada nos valió. La jueza Lebbos simplemente negó. Al día siguiente, el 19 de abril, llegamos al campamento en el que cientos de personas hacen vigilia junto al Departamento de Justicia Federal, donde Lula está preso. Le gritan “Buenos días, Lula”, “Lula libre” y otras palabras de ánimo y esperanza que él desde su cárcel puede escuchar perfectamente.
Había policías por todas partes. Intentamos hablar con el jefe para poder tener una audiencia con el Superintendente de la Policía Federal.
Siempre venía la misma respuesta: no puede, son órdenes de arriba. Después de mucho insistir, con llamadas de teléfono que iban y venían, Pérez Esquivel consiguió una audiencia con el Superintendente. Le explicó los motivos de la visita humanitaria y fraterna a un viejo y querido amigo. Por más que Pérez Esquivel argumentase e hiciera valer su título de Premio Nobel de la Paz, mundialmente reconocido y respetado, oía siempre la misma cantinela: No puede. Son órdenes de arriba.
Y así, cabizbajos, volvimos en medio del pueblo. Yo personalmente insistía en que mi visita era meramente espiritual. Le llevaba dos libros El Señor es mi pastor, nada me falta, un comentario minucioso que realmente alimenta la confianza. Y otro de nuestro mejor exégeta Carlos Mesters, La misión del pueblo que sufre, que describe el desamparo del pueblo hebreo en el exilio babilónico, cómo era consolado por los profetas Isaías y Jeremías y cómo a partir de ahí se fortaleció el sentido de su sufrimiento y su esperanza.
En el Departamento de la Policía Federal todo estaba prohibido. Ni siquiera estaba permitido enviar una nota al expresidente Lula.
En medio del pueblo hablaron varios representantes de los grupos, especialmente una pareja de Suecia que sostiene la candidatura de Lula al Premio Nobel de la Paz. Hablamos Pérez Esquivel y yo, reforzando la esperanza que finalmente es aquella energía poderosa que sostiene a los que luchan por la justicia y por otro tipo de democracia. Él anunció que había lanzado una campaña mundial para proponer a Lula como candidato al Premio Nobel de la Paz. Hay ya miles de firmantes en todo el mundo. Lula cumple todos los requisitos para ello, especialmente por sus políticas sociales que sacaron a millones de personas del hambre y de la miseria y por su empeño por la justicia social, base de la paz.
Hubo muchas entrevistas a medios de comunicación nacionales e internacionales. Algunas fotos del evento comenzaron a difundirse por el mundo y llegaba la solidaridad de muchos países y grupos.
Allí nos dimos cuenta de que efectivamente vivimos bajo un régimen de excepción en forma de un golpe blando que secuestra la libertad y niega derechos humanos fundamentales.
La pequeñez de espíritu de nuestros jueces del Lava Jato y la negación del derecho asegurado a un Premio Nobel de la Paz a visitar a su amigo encarcelado dentro de un espíritu de pura humanidad y de cálida solidaridad avergüenza a nuestro país. Sólo permite comprobar que efectivamente estamos bajo la lógica negadora de la democracia en un régimen de excepción.
Pero Brasil es mayor que su crisis. Purificados, saldremos mejores y orgullosos de nuestra resistencia, de nuestra indignación y del coraje de rescatar, a partir de las calles y de las elecciones, un Estado de derecho.
No olvidaremos jamás las palabras sagradas: “Yo estaba preso y tú les impediste venir a visitarme”.

*Leonardo Boff, testigo de los hechos narrados aquí

Traducción de María José Gavito Milano

Hombre y mujer: Igualdad y subordinación. Contradicciones de la cristiandad

El cristianismo originario fundado en las prácticas de Jesús y posteriormente de San Pablo había instaurado una ruptura en la línea de la igualdad de género. Pero no se sostuvo. Sucumbió a la cultura dominante predominantemente machista que subordinaba la mujer al hombre. Cualquier motivo fútil permitía el divorcio, dejando a la mujer desamparada.
El propio apóstol Pablo, contradiciendo el principio de igualdad, bien formulado por él (Gal 3,28), podía decir de acuerdo al código patriarcal: “el hombre no procede de la mujer, sino la mujer del hombre; ni el hombre fue creado para la mujer, sino la mujer para el hombre; debe, pues, la mujer usar el signo de su sumisión (el uso del velo: 1Cor 11,10).
Estos textos, que algunos estudiosos consideran una inserción posterior a Pablo, serán blandidos a lo largo de los siglos contra la liberación de las mujeres, constituyendo el cristianismo histórico, principalmente la jerarquía romano-católica, no tanto los laicos, un bastión de conservadurismo y de patriarcalismo. Aquél no vivió proféticamente su propia verdad y en nombre de ella no rescató la memoria libertaria de sus orígenes, cuestionando la cultura dominante. Por el contrario, se dejó asimilar por ella y aún creó un discurso ideológico para su naturalización y, así, para su legitimación hasta los días actuales, al menos a nivel de los discursos papales, en contra de lo que los teólogos y teólogas enseñan desde hace mucho tiempo. Bien decía una feminista alemana M. Winternitz: “La mujer siempre ha sido la mejor amiga de la religión; la religión, sin embargo, jamás ha sido amiga de la mujer”.
A esa ideologización de trasfondo bíblico-teológico se añadió otra de orden biológico. Se admitía antiguamente que el principio activo en el proceso de generación de una nueva vida dependía totalmente del principio masculino. Se planteaba, entonces, la cuestión: ¿si todo depende del hombre por qué entonces nacen mujeres y no sólo hombres? La respuesta, reputada científica por los medievales, era la de que la mujer es una desviación y una aberración del único sexo masculino. En razón de ello, Tomás de Aquino, repitiendo a Aristóteles, consideraba a la mujer como un “mas occasionatus” (un hombre en camino), mero receptáculo pasivo de la fuerza generativa única del varón (Summa Theologica I.q.92, a.1 ad 4). Y todavía argumentaba: “La mujer necesita del hombre no sólo para engendrar, como hacen los animales, sino también para gobernar, porque el hombre es más perfecto por su razón y más fuerte por su virtud” (Summa contra Gentiles, III, 123).
Tales discriminaciones, aunque sobre otras bases, ahora psicológicas, resuenan modernamente, para perplejidad general, en los textos de Freud y de Lacan. Con razón se dice que la mujer es la última colonia que todavía no ha logrado su liberación (M. Mies, Woman, the Last Colony, Londres, Zed Books 1988).
El sueño igualitario de los orígenes sobrevivirá en grupos de cristianos marginales o entre los considerados herejes (Shakers de Inglaterra) o entonces es proyectado para la escatología, al término de la historia humana. Hubo que esperar a los movimientos libertarios feministas europeos y norteamericanos a partir de 1830 para hacer valer el antiguo sueño cristiano. A la luz de los ideales de la Ilustración que afirmaban la igualdad original y natural entre hombres y mujeres, Sarah Grimké podía escribir sus Cartas sobre la igualdad de los sexos y la condición de la Mujer (1836-1837), inspiradas en los textos bíblicos libertadores, y en 1848 en Séneca Falls, Nueva York, las líderes cristianas feministas podían formular la Declaración de los Derechos de la Mujer, calcada de la Declaración de Independencia de los Estados Unidos y por fin comenzar a publicar en 1859 la Biblia de la Mujer en Seattle.
A partir de entonces se formó la irrefrenable ola del feminismo y del ecofeminismo modernos, movimientos seguramente de los más importantes para el cuestionamiento de la cultura patriarcal en las Iglesias y en las sociedades, presentando un nuevo paradigma civilizacional.
Es importante resaltar que del grupo de feministas nos vino una de las críticas más severas al paradigma racionalista de la modernidad y la introducción de la categoría cuidado en la discusión de la ética, centrada tradicionalmente en la justicia. El eco-feminismo representa una de las grandes corrientes de la reflexión ecológica actual reforzando el nuevo paradigma relacional.

*Leonardo Boff escribió con la socióloga Lúcia Ribeiro, Masculino-Femenino: perspectivas vividas, Record, Rio 2007.

Traducción de Mª José Gavito Milano

Duas Mensagens da CNBB: para quê? Leitura crítica

                Duas Mensagens da CNBB: para quê?

Pedro Ribeiro de Aliveira

Pedro A. Ribeiro de Oliveira é conhecido deste blog. É leigo, sociólogo da religião com boa formação teológica, o que o qualifica a fazer uma análise crítica dos dois documento da CNBB, um aos fiéis e outro ao povo brasileiro. São textos que revelam que a própria CBBB não escapa da crise geral do Brasil. De quem esperávamos uma palavra profética, vem-nos conselhos piedosos. Que faltam nos fazem os profetas do tipo de Dom Helder Câmara, de Dom Paulo Evaristo Arns, de Dom Aloisio Lorscheider, de Dom Pedro Casaldáliga e de Dom Tomás Balduino que se sentiam unidos ao povo injustiçado e elevavam sua voz de denúncia e também de resistência e de esperança? Só nos cabe pedir ao Espírito Criador que ilumine as mentes de nossos pastores para que tenham a coragem do Papa Francisco que  chamar a injustiça de injustiça, o golpe de golpe e a expoliação dos direitos do povo, como pecado que clama aos céus, pois Deus escuta o grito do oprimido. No século IV quando quase todos os bispos estavam propensos a afirmar que Jesus não tinha a mesma natureza de Deus (onoúsios) mas apenas era semelhante a Deus (omoiousios, vejam a diferença de um i apenas), foram os leigos que sairam à rua e proclamavam a divindade do Filho de Deus. E conquistaram os bispos. Hoje serão, talvez, os leigos que irão salvar o melhor da Igreja, portadora da herança sagrada de Jesus. LBoff

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Ao terminar sua assembleia geral deste ano, a CNBB difundiu duas mensagens: uma, ao Povo de Deus, convidando-o a associar-se à reflexão sobre sua missão e outra ao Povo Brasileiro, diante das eleições de 2018. Provocado por um programa radiofônico para emitir minha opinião sobre esses pronunciamentos, fiz uma análise do seu conteúdo para descobrir o que os bispos católicos do Brasil têm a dizer sobre a posição da Igreja Católica face à realidade política brasileira. Neste breve texto procuro desvendar os subentendidos presentes nessas mensagens[i], porque à primeira leitura elas parecem nada dizer.

Primeiramente, uma análise da Mensagem ao Povo de Deus.

Ela abre-se declarando, sem falsa modéstia, ser a “CNBB dom de Deus para a Igreja e para a sociedade brasileira”. Há uma referência a “polêmicas (difundidas) pelas redes sociais (que) atingem a CNBB”, mas nada é dito sobre elas.

Seguem-se três parágrafos autolaudatórios. Os bispos identificam-se, é claro, com a Igreja fundada por Cristo e afirmam que ela “é, na história, o povo de Deus, o corpo de Cristo, e o templo do Espírito Santo”. Em seguida, afirmam que “nós, Bispos da Igreja Católica, sucessores dos Apóstolos, estamos unidos entre nós”. E terminam louvando “a CNBB (que) vem servindo à sociedade brasileira”, e que “não se identifica com nenhuma ideologia ou partido político (…) evitando assim os erros de “transformar o cristianismo numa espécie de ONG, sem levar em conta a graça e a união interior com Cristo” e de “viver entregue ao intimismo”.

Depois dos louvores a uma Igreja autoreferenciada, os bispos chegam enfim ao momento atual: “Não podemos nos calar quando a vida é ameaçada, os direitos desrespeitados, a justiça corrompida e a violência instaurada.” Aqui eles poderiam dar alguns exemplos da realidade atual, como o desmonte do SUS, a violação dos direitos dos Povos Originários, a nova legislação trabalhista que legaliza a injustiça social, a impunidade de assassinatos de defensores e defensoras dos Direitos Humanos. Mas preferiram evitar esses fatos desagradáveis.

Seguem-se duas advertências. A primeira a algum bispo que se manifeste de modo diferente: “A Conferência Episcopal, como instituição colegiada, não pode ser responsabilizada por palavras ou ações isoladas”. A outra, aos fiéis que são chamados a construir “uma sociedade impregnada dos valores do Reino de Deus”, mas “devem ser pautados pela verdade, fortaleza, prudência, reverência e amor para com aqueles que, em razão do seu cargo, representam a pessoa de Cristo”. Nada mais nada menos do que a pessoa de Cristo.

Em suma, trata-se de um sermão que reforça a autoridade divina dos bispos. Não é surpreendente que tenha despertado tão pouco interesse.

Vejamos, então, como a CNBB se refere à situação político-eleitoral.

Seu ponto de partida é que os bispos “preocupados com a defesa integral da vida e da dignidade da pessoa humana, especialmente dos pobres e excluídos” chamam “todos os cristãos, incluindo os Pastores (…) a preocupar-se com a construção de um mundo melhor”. Ao aplicar esse princípio à realidade de hoje, os bispos dizem que o “Brasil vive um momento complexo, alimentado por uma aguda crise que abala fortemente suas estruturas democráticas e compromete a construção do bem comum.” Esse diagnóstico genérico especifica-se no parágrafo seguinte, que aponta “um cenário desolador, no qual a corrupção ganha destaque.” Ninguém discordaria, mas caberia explicitar o tipo de corrupção ao qual se referem, porque a grande mídia associou corrupção e governos do PT, e seria ótimo lembrar outras formas de corrupção – muito mais danosas ao Brasil – como a transferência de dinheiro para paraísos fiscais, o perdão das dívidas do agronegócio e a sonegação da contribuição ao INSS por grandes empresas e bancos.

É apontada também “a carência de políticas públicas consistentes, (que) está na raiz de graves questões sociais, como o aumento do desemprego e da violência que, no campo e na cidade, vitima milhares de pessoas, sobretudo, mulheres, pobres, jovens, negros e indígenas.” Não há dúvidas sobre a realidade dessas questões sociais. Minha dúvida está em sua “raiz”. Políticas públicas podem amenizar esses graves problemas sociais, como mostram os resultados do aumento real do salário-mínimo e sua manutenção como piso dos benefícios do INSS, bem com o programa bolsa-família, mas sua “raiz” é outra: a desigualdade estrutural da sociedade brasileira. A impressionante concentração de riqueza e renda nas mãos de menos de cem mil famílias muito ricas, sim, está na “raiz” do desemprego, da violência e da miséria. Mas isso fica sob obsequioso silêncio na Mensagem da CNBB.

Sem referir-se – nem mesmo indiretamente – ao governo resultante do impedimento da Presidente Dilma, os bispos denunciam que “a perda de direitos e de conquistas sociais, resultado de uma economia que submete a política aos interesses do mercado, tem aumentado o número dos pobres e dos que vivem em situação de vulnerabilidade. Inúmeras situações exigem soluções urgentes, como a dos presidiários.” A denúncia, porém, não dá lugar a alguma proposta de sua superação como a convocação de referendos revogatórios dessas políticas.

Chega então o momento de se falar das eleições de 2018, que “devem garantir o fortalecimento da democracia e o exercício da cidadania da população brasileira, (…) passo importante para que o Brasil reafirme a normalidade democrática, supere a crise institucional vigente, garanta a independência e a autonomia dos três poderes constituídos – Executivo, Legislativo e Judiciário – e evite o risco de judicialização da política e de politização da Justiça.” É fantástico o otimismo dos bispos! Tudo se passa como se até hoje o País vivesse a “a normalidade democrática”, e a “judicialização da política” e a “politização da Justiça” não fossem mais do que um “risco”!

De todo modo, a CNBB afirma ser “imperativo assegurar que as eleições sejam realizadas dentro dos princípios democráticos e éticos”. Para isso, o processo eleitoral deve seguir “as leis que o regem, particularmente, a Lei 9840/1999 de combate à corrupção eleitoral mediante a compra de votos e o uso da máquina administrativa, e a Lei 135/2010, conhecida como “Lei da Ficha Limpa”, que torna inelegível quem tenha sido condenado em decisão proferida por órgão judicial colegiado.” Invocar a “Lei da Ficha Limpa” hoje significa dizer que Lula não pode se candidatar a nenhum cargo político. O recado está dado.

Pena que não dessem outros recados, como, por exemplo, a importância da sigla partidária nas eleições legislativas. Os bispos só falam da importância de “conhecer e avaliar as propostas e a vida dos candidatos, procurando identificar com clareza os interesses subjacentes a cada candidatura.” Parece não lembrarem das votações televisadas em que os deputados e senadores condenaram Dilma e absolveram Temer alegando seguir as decisões tomadas pelas respectivas direções partidárias. As raras exceções só fizeram confirmar a regra de que no Congresso o partido conta mais do que o indivíduo.

E o documento conclui com uma piedosa exortação para que abandonemos “os caminhos da intolerância, do desânimo e do desencanto.” Alertando contra os fake news, incentivam “as comunidades eclesiais a assumirem, à luz do Evangelho, a dimensão política da fé, a serviço do Reino de Deus.” Outro sermão. Não mais do que isso.

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Esses documentos me fizeram pensar na mensagem da CNBB logo após o golpe de 1964. É um documento de louvor a Deus que, por meio das Forças Armadas, livrou o País do risco do comunismo. O episcopado brasileiro daquela época viu no golpe militar a resposta divina ao pedido das senhoras católicas marchando pelas ruas com o terço nas mãos. Surpreendentemente, porém, o mesmo documento tinha em sua página final uma crítica sutil mas contundente ao regime militar que então se instaurava. Ficava claro para qualquer leitor atento que aquela posição do episcopado não era unânime. Um resto profético liderado por Dom Helder Câmara recusava aquele alinhamento político porque não condizia com os rumos que João XXIII traçava para a Igreja católica. E foi esse resto profético que identificou mais tarde a CNBB com a defesa dos Direitos Humanos.

Hoje os bispos optaram por um pronunciamento que apoia envergonhadamente o regime resultante do golpe de 2016, sem que os bispos-profetas – que existem! – se manifestassem publicamente. É hora de vê-los se manifestando, porque isso é que reforça a Esperança dos leigos e leigas que estão nas lutas por um Mundo justo, pacífico, e cuidador da Casa Comum. Que sigam o exemplo do bispo de Roma, nosso Papa Francisco, que não se envergonha de clamar por Terra, Teto e Trabalho para os pobres deste mundo.

[1]Leigo católico, nascido em 1943, doutor em sociologia, foi professor nos Programas de Pós-Graduação em Ciência/s da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora e da PUC-Minas. É membro de Iser-Assessoria e da Coordenação do Movimento Nacional Fé e Política.

[i] Os trechos entre aspas são dos bispos. As palavras entre parênteses são minhas, para restaurar o sentido dos trechos que resumi.

fonte: http://www.ihu.unisinos.br/578331-duas-mensagens-da-cnbb-para-que