Duas Mensagens da CNBB: para quê? Leitura crítica

                Duas Mensagens da CNBB: para quê?

Pedro Ribeiro de Aliveira

Pedro A. Ribeiro de Oliveira é conhecido deste blog. É leigo, sociólogo da religião com boa formação teológica, o que o qualifica a fazer uma análise crítica dos dois documento da CNBB, um aos fiéis e outro ao povo brasileiro. São textos que revelam que a própria CBBB não escapa da crise geral do Brasil. De quem esperávamos uma palavra profética, vem-nos conselhos piedosos. Que faltam nos fazem os profetas do tipo de Dom Helder Câmara, de Dom Paulo Evaristo Arns, de Dom Aloisio Lorscheider, de Dom Pedro Casaldáliga e de Dom Tomás Balduino que se sentiam unidos ao povo injustiçado e elevavam sua voz de denúncia e também de resistência e de esperança? Só nos cabe pedir ao Espírito Criador que ilumine as mentes de nossos pastores para que tenham a coragem do Papa Francisco que  chamar a injustiça de injustiça, o golpe de golpe e a expoliação dos direitos do povo, como pecado que clama aos céus, pois Deus escuta o grito do oprimido. No século IV quando quase todos os bispos estavam propensos a afirmar que Jesus não tinha a mesma natureza de Deus (onoúsios) mas apenas era semelhante a Deus (omoiousios, vejam a diferença de um i apenas), foram os leigos que sairam à rua e proclamavam a divindade do Filho de Deus. E conquistaram os bispos. Hoje serão, talvez, os leigos que irão salvar o melhor da Igreja, portadora da herança sagrada de Jesus. LBoff

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Ao terminar sua assembleia geral deste ano, a CNBB difundiu duas mensagens: uma, ao Povo de Deus, convidando-o a associar-se à reflexão sobre sua missão e outra ao Povo Brasileiro, diante das eleições de 2018. Provocado por um programa radiofônico para emitir minha opinião sobre esses pronunciamentos, fiz uma análise do seu conteúdo para descobrir o que os bispos católicos do Brasil têm a dizer sobre a posição da Igreja Católica face à realidade política brasileira. Neste breve texto procuro desvendar os subentendidos presentes nessas mensagens[i], porque à primeira leitura elas parecem nada dizer.

Primeiramente, uma análise da Mensagem ao Povo de Deus.

Ela abre-se declarando, sem falsa modéstia, ser a “CNBB dom de Deus para a Igreja e para a sociedade brasileira”. Há uma referência a “polêmicas (difundidas) pelas redes sociais (que) atingem a CNBB”, mas nada é dito sobre elas.

Seguem-se três parágrafos autolaudatórios. Os bispos identificam-se, é claro, com a Igreja fundada por Cristo e afirmam que ela “é, na história, o povo de Deus, o corpo de Cristo, e o templo do Espírito Santo”. Em seguida, afirmam que “nós, Bispos da Igreja Católica, sucessores dos Apóstolos, estamos unidos entre nós”. E terminam louvando “a CNBB (que) vem servindo à sociedade brasileira”, e que “não se identifica com nenhuma ideologia ou partido político (…) evitando assim os erros de “transformar o cristianismo numa espécie de ONG, sem levar em conta a graça e a união interior com Cristo” e de “viver entregue ao intimismo”.

Depois dos louvores a uma Igreja autoreferenciada, os bispos chegam enfim ao momento atual: “Não podemos nos calar quando a vida é ameaçada, os direitos desrespeitados, a justiça corrompida e a violência instaurada.” Aqui eles poderiam dar alguns exemplos da realidade atual, como o desmonte do SUS, a violação dos direitos dos Povos Originários, a nova legislação trabalhista que legaliza a injustiça social, a impunidade de assassinatos de defensores e defensoras dos Direitos Humanos. Mas preferiram evitar esses fatos desagradáveis.

Seguem-se duas advertências. A primeira a algum bispo que se manifeste de modo diferente: “A Conferência Episcopal, como instituição colegiada, não pode ser responsabilizada por palavras ou ações isoladas”. A outra, aos fiéis que são chamados a construir “uma sociedade impregnada dos valores do Reino de Deus”, mas “devem ser pautados pela verdade, fortaleza, prudência, reverência e amor para com aqueles que, em razão do seu cargo, representam a pessoa de Cristo”. Nada mais nada menos do que a pessoa de Cristo.

Em suma, trata-se de um sermão que reforça a autoridade divina dos bispos. Não é surpreendente que tenha despertado tão pouco interesse.

Vejamos, então, como a CNBB se refere à situação político-eleitoral.

Seu ponto de partida é que os bispos “preocupados com a defesa integral da vida e da dignidade da pessoa humana, especialmente dos pobres e excluídos” chamam “todos os cristãos, incluindo os Pastores (…) a preocupar-se com a construção de um mundo melhor”. Ao aplicar esse princípio à realidade de hoje, os bispos dizem que o “Brasil vive um momento complexo, alimentado por uma aguda crise que abala fortemente suas estruturas democráticas e compromete a construção do bem comum.” Esse diagnóstico genérico especifica-se no parágrafo seguinte, que aponta “um cenário desolador, no qual a corrupção ganha destaque.” Ninguém discordaria, mas caberia explicitar o tipo de corrupção ao qual se referem, porque a grande mídia associou corrupção e governos do PT, e seria ótimo lembrar outras formas de corrupção – muito mais danosas ao Brasil – como a transferência de dinheiro para paraísos fiscais, o perdão das dívidas do agronegócio e a sonegação da contribuição ao INSS por grandes empresas e bancos.

É apontada também “a carência de políticas públicas consistentes, (que) está na raiz de graves questões sociais, como o aumento do desemprego e da violência que, no campo e na cidade, vitima milhares de pessoas, sobretudo, mulheres, pobres, jovens, negros e indígenas.” Não há dúvidas sobre a realidade dessas questões sociais. Minha dúvida está em sua “raiz”. Políticas públicas podem amenizar esses graves problemas sociais, como mostram os resultados do aumento real do salário-mínimo e sua manutenção como piso dos benefícios do INSS, bem com o programa bolsa-família, mas sua “raiz” é outra: a desigualdade estrutural da sociedade brasileira. A impressionante concentração de riqueza e renda nas mãos de menos de cem mil famílias muito ricas, sim, está na “raiz” do desemprego, da violência e da miséria. Mas isso fica sob obsequioso silêncio na Mensagem da CNBB.

Sem referir-se – nem mesmo indiretamente – ao governo resultante do impedimento da Presidente Dilma, os bispos denunciam que “a perda de direitos e de conquistas sociais, resultado de uma economia que submete a política aos interesses do mercado, tem aumentado o número dos pobres e dos que vivem em situação de vulnerabilidade. Inúmeras situações exigem soluções urgentes, como a dos presidiários.” A denúncia, porém, não dá lugar a alguma proposta de sua superação como a convocação de referendos revogatórios dessas políticas.

Chega então o momento de se falar das eleições de 2018, que “devem garantir o fortalecimento da democracia e o exercício da cidadania da população brasileira, (…) passo importante para que o Brasil reafirme a normalidade democrática, supere a crise institucional vigente, garanta a independência e a autonomia dos três poderes constituídos – Executivo, Legislativo e Judiciário – e evite o risco de judicialização da política e de politização da Justiça.” É fantástico o otimismo dos bispos! Tudo se passa como se até hoje o País vivesse a “a normalidade democrática”, e a “judicialização da política” e a “politização da Justiça” não fossem mais do que um “risco”!

De todo modo, a CNBB afirma ser “imperativo assegurar que as eleições sejam realizadas dentro dos princípios democráticos e éticos”. Para isso, o processo eleitoral deve seguir “as leis que o regem, particularmente, a Lei 9840/1999 de combate à corrupção eleitoral mediante a compra de votos e o uso da máquina administrativa, e a Lei 135/2010, conhecida como “Lei da Ficha Limpa”, que torna inelegível quem tenha sido condenado em decisão proferida por órgão judicial colegiado.” Invocar a “Lei da Ficha Limpa” hoje significa dizer que Lula não pode se candidatar a nenhum cargo político. O recado está dado.

Pena que não dessem outros recados, como, por exemplo, a importância da sigla partidária nas eleições legislativas. Os bispos só falam da importância de “conhecer e avaliar as propostas e a vida dos candidatos, procurando identificar com clareza os interesses subjacentes a cada candidatura.” Parece não lembrarem das votações televisadas em que os deputados e senadores condenaram Dilma e absolveram Temer alegando seguir as decisões tomadas pelas respectivas direções partidárias. As raras exceções só fizeram confirmar a regra de que no Congresso o partido conta mais do que o indivíduo.

E o documento conclui com uma piedosa exortação para que abandonemos “os caminhos da intolerância, do desânimo e do desencanto.” Alertando contra os fake news, incentivam “as comunidades eclesiais a assumirem, à luz do Evangelho, a dimensão política da fé, a serviço do Reino de Deus.” Outro sermão. Não mais do que isso.

* * *

Esses documentos me fizeram pensar na mensagem da CNBB logo após o golpe de 1964. É um documento de louvor a Deus que, por meio das Forças Armadas, livrou o País do risco do comunismo. O episcopado brasileiro daquela época viu no golpe militar a resposta divina ao pedido das senhoras católicas marchando pelas ruas com o terço nas mãos. Surpreendentemente, porém, o mesmo documento tinha em sua página final uma crítica sutil mas contundente ao regime militar que então se instaurava. Ficava claro para qualquer leitor atento que aquela posição do episcopado não era unânime. Um resto profético liderado por Dom Helder Câmara recusava aquele alinhamento político porque não condizia com os rumos que João XXIII traçava para a Igreja católica. E foi esse resto profético que identificou mais tarde a CNBB com a defesa dos Direitos Humanos.

Hoje os bispos optaram por um pronunciamento que apoia envergonhadamente o regime resultante do golpe de 2016, sem que os bispos-profetas – que existem! – se manifestassem publicamente. É hora de vê-los se manifestando, porque isso é que reforça a Esperança dos leigos e leigas que estão nas lutas por um Mundo justo, pacífico, e cuidador da Casa Comum. Que sigam o exemplo do bispo de Roma, nosso Papa Francisco, que não se envergonha de clamar por Terra, Teto e Trabalho para os pobres deste mundo.

[1]Leigo católico, nascido em 1943, doutor em sociologia, foi professor nos Programas de Pós-Graduação em Ciência/s da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora e da PUC-Minas. É membro de Iser-Assessoria e da Coordenação do Movimento Nacional Fé e Política.

[i] Os trechos entre aspas são dos bispos. As palavras entre parênteses são minhas, para restaurar o sentido dos trechos que resumi.

fonte: http://www.ihu.unisinos.br/578331-duas-mensagens-da-cnbb-para-que

8 comentários sobre “Duas Mensagens da CNBB: para quê? Leitura crítica

  1. “Se se empenhar na promoção do bem para os pobres é ser comunista Jesus Cristo e eu somos comunistas.”(Papa Francisco). “O Papa Francisco não se envergonha em clamar por Terra, Teto e Trabalho para os pobres deste mundo” (Pedro A. Ribeiro de Oliveira). O Brasil está nas mãos daqueles que endeusaram o dinheiro. Na verdade são uns infelizes.Vi um bicheiro entrar no PRONTO SOCORRO, BALEADO. Ao Ver o médico, disse-lhe:”Dr. faça tudo, eu sou um homem de posse!” NO DIA SEGUINTE ESTAVA MORTO!

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  2. “Como leiga, atuante na Igreja, desde os meus quinze anos,(hoje com 63) quando vejo a maioria dos nossos Pastores, acovardados pelo medo, ora de sofrer alguns ataques pessoais, ora de perder privilégios e mordomias que seus estatus lhes proporcionam junto às piores autoridades do três PODERES desse País, sinto que a minha FÉ parece esvair-se, como o suor do meu corpo, no ralo do banheiro. Não a minha FÉ em Deus e em seu Filho Jesus Cristo, mas a fé na Igreja que sempre defendi e em nome desses Profetas ( bispos, padres e irmãs ), que estiveram e estão conosco nas lutas contra todas as injustiças que recai sobre nossos irmãos excluídos de toda e qualquer sorte; continuarei por amor a corajosos como esses e aos que, assim como Jesus, deram suas vidas para garantir uma vida digna para os empobrecidos do Reino de Deus!
    Fico muito triste quando os vejo escolher o lado errado, mas feliz por ainda ter os bons, os escolhidos do Pai, do lado que escolhemos. O lado certo. O dos pobres e MARGINALIZADOS deste mundo.
    Que Deus tenha misericórdia do Papa Francisco e de todos nós! E nos dê paciência e muito Amor, para continuar a serví-LO, nessa Igreja Católica Apostólica Romana.

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  3. Depois os auto intitulados, católicos , que eu particularmente contesto, se sentirão cada mais á vontade de se sentirem católicos apenas e tão somente por frequentarem as missas, pois seguirão o exemplo dos Bispos da CNBB, sem se envolver em nada na prática!

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  4. Nunca me esqueço do “Mística e Espiritualidade”, assinado pelo senhor, Leonardo Boff e por Frei Betto, onde se escreveu que era preciso se “passar por uma Kénosis epistemológica, para captar o pobre quando ele almoça Deus, dorme Deus, Xinga Deus, vai com Deus, graças a Deus, por Deus, pelo amor de Deus…”. No mesmo espírito do livro, diria que os Bispos estão com o “Deus da ópera” e nós, o povo de Deus, estamos como o “Deus do samba”. E de um artigo vosso, no mesmo livro: Deus já não fala. É uma mercadoria que está dentro do mercado, e quando se pretende encontrar Deus, encontra-se um ídolo que não satisfaz o desejo infinito do ser humano.

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  5. Acho que Deus é assim, tipo um safado, um patife da melhor estirpe. E sutil, como sói ao melhor dos safados é dado ser, Deus acontece na história, provendo, iluminando, na mais negra das noites. Deus é um puta de de um filho-da-puta da melhor estirpe. Desculpe a grosseria! Talvez Deus releve?

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