The current socio-political crisis demands prophets

 

“The poor tell us who we are. The prophets tell us who we could be.
So we hide the poor and kill the prophets.” wrote the US Prophet Philip Berrigan
(Jonah House).

Prophetizing is not just a Biblical phenomenon. It also exists in other religions, as in Egypt, Mesopotamia, Mari and Canaan. It exists in all times, including our own. Several kinds of prophets (prophetic communities, visionaries, cult prophets, prophets of the court, etc.) will not be discussed here. The prophets of the First Testament, (also called the Old Testament), such as Hosea, Amos, Micah, Jeremiah and Isaiah, were classics. They were sensitive to the social issues.
To tell the truth, the prophetic spirit has always been present in all phases of Christianity. This is undeniably the case among us, to mention only Brazil, with Dom Helder Camara, Cardinal Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Pedro Casaldaliga, and others.

A prophet is an indignant person who struggles for right and justice, especially on behalf of the poor, the weak and widows, against those who exploit the peasants, who falsify weights and measures; and against the luxury of the royal palaces. They sense the call within themselves, interpreted in Biblical code as a divine mission. Amos, who was a simple herdsman, Micah, a small farmer, and Hosea, married to a prostitute, left their daily tasks and went to the backyard of the temple or in front of the royal palace to make their denunciations. But they did not only denounce. They announced catastrophes and then, they announced a new hope, a new and better beginning.

Prophets are mindful of national and international historical events. Micah, for instance, reprimands Nineveh, the capital of the Assyrian empire: “Woe to the bloody city, everything within her is a lie. She is filled with robbery, and does not cease sacking. I will launch filth upon you” (3,1.6). Jeremiah calls Babylon “the metropolis of terror”.

We must understand the premonitions of the prophets correctly. They do not predict catastrophes, as if they had access to a special knowledge. Rather, the meaning is: if the present situation persists, with no change in the exploitation, the practices against the helpless and the absence of a reverent relationship towards Jehovah, something horrible will happen.

Logically, prophets are not pleasing to the powerful, the kings, or even the people. They are called “disrupters of order”, “conspirators against the court and the king”. For that reason, prophets are persecuted, as was Jeremiah, who was tortured and jailed; others were murdered. Very few prophets have died of old age, but no one can make them to shut up.

There clearly are false prophets, those who frequent the courts and are friends with the rich. They announce only pleasing things and even get paid for doing so. There is a true contradiction between false and true prophets. A sign that a prophet is a true one is the courage to risk life and limb for the cause of the humble, and the Earth, one who is always crying for justice and for the right, and tirelessly stands for what is right and just.

Prophets emerge in times of crisis, to denounce illusory projects and to announce a path that brings justice for the humiliated, and that creates a society pleasing to God because the offended and the invisible are well cared for. Justice and right are the bases of lasting peace: that is the central message of the prophets.

We are living now a grave crisis on both a national and world level. Gatherings of scientists and analysts of Earth’s status warn us that if the logic of boundless accumulation continues we will cause a grave ecological-social catastrophe. We are not headed towards global warming. We already are living it. The signs are undeniable.

These voices, even the most authoritative ones, are heard neither by the “decision makers” nor by the men with money. In our country, now submerged in an unprecedented crisis, chaotically ruled by incompetent and even ridiculous persons, we lack prophets who denounce and point to viable paths to get us out of this mess.

The words of Marcio Pochmann are in the prophetic line: “If is maintained the neoliberalism path opened by Temer and now deepened by the ultra-liberalism that dominates the confused government of Bolsonaro, the evolution of Brazil will tend to be like that of Greece, with enterprises failing, and public administration breaking down. The worst is rapidly coming”. Others go even farther: “if socio-political reforms are imposed, according to the logic of the market, merely competitive and not cooperative, Brazil could be transformed into a nation of pariahs”. We need religious and civil prophets, men and women who at least have prophetic attitudes, to denounce that the path underway will be catastrophic.

Isaiah’s words are on point: “The people who walked in darkness have seen a great light: they that dwell in the land of the shadow of death, upon them hath the light shone” (9,1-2).

Leonardo BoffEco-Theologian-Philosopher and of  the Earthcharter Commission

Free translation from the Spanish sent by
Melina Alfaro, alfaro_melina@yahoo.com.ar.
Done at REFUGIO DEL RIO GRANDE, Texas, EE.UU

No céu Jesus se fez menino de 7 anos para brincar com o o Arthur de 7 anos

Querido amigo-irmão Lula

Queremos chorar junto com você pelo seu neto Arthur que Deus o quis junto de si.
Há mistérios que não podemos entender o que aumenta ainda mais o sofrimento.
Mas colocamos tudo nas mãos dAquele que tudo conhece e para o qual os nossos mistérios serão um dia uma surpreendente Revelação.

Lula, seu netinho Arthur, como todos nós, não vivemos para morrer.
Ele e todos nós, morremos para ressuscitar.
Para viver mais e melhor.

Seu neto Arthur está vivo brincando com o Deus que um dia em Jesus também foi criança de sete anos e que com o Arthur lá no céu volta a ser criança de novo para brincar com ele, rir junto, correr um atrás do outro, até se abraçarem como amiguinhos. Deus que é Mãe de ilimitada ternura e Pai de infinito carinho  o encherá de alegria como tinha com o pai Sandro e seu mãe Marlene e também com você, seu avô querido.E essa alegria será por toda a eternidade.

Embora longe, Márcia e eu estamos perto de você, também consternados, não contendo as lágrimas pela sua perda que não é definitiva porque o pequeno Arthur, inocente e puro, caiu nos braços do Deus-Mãe-e-Pai que agora o estão abraçando e beijando como você fazia com ele.
Receba nossas preces para que tenha força para passar por mais essa provação.

Com nosso carinho e forte abraço

Leonardo Boff e Márcia Miranda.

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PS. Enviei esta carta à juíza Carolina Lebbos:

Estimada Celine,

Peço que encaminhe para à juíza Carolina Lebbos esta minha petição
Cordialmente
Leonardo Boff

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À Meritíssima Juiza Dra. Carolina Lebbos
12a. Vara da Justiça Federal de Curitiba PR

Meritíssima Dra. Carolina Lebbos,

Há momentos na vida em que a tristeza se abate de forma terrível: quando um familiar, no caso, o neto do ex-Presidente Lula, Arthur, de apenas sete anos, foi ceifado pela meningite, como uma florzinha que mal estava se abrindo para o mundo. Sabemos do amor que o ex-Presidente Lula devotava aos netos e ao Arthur.

Peço-lhe, até em nome do Deus-misericórdia e do sentimento humanitário que sempre existe em cada um de nós, como presença indelével do Sagrado, que permita ao ex-Presidente Lula poder estar, a tempo, no velório de seu neto, Arthur, e poder chorar todas as lágrimas pela perda do menino tão querido.

Mais que as leis que nos regem socialmente, vale o que há de mais profundo em nós, sem o qual, a própria humanidade afundaria, no dizer do filósofo Hegel: a com-paixão e a solidariedade de uns para com os outros.  Bem sei que a Senhora, como mãe, entenderá, a partir do coração, este apelo e solicitação.

Agradeço-lhe de antemão por sua compreensão e senso humanitário.
Que nunca lhe falte o Espírito que tudo conduz e que dirige os passos de cada um de nós.

Cordialmente

Leonardo Boff

Estrada do Mombaça 1800
Bairro Jardim Araras,
25725-290 Petrópolis, RJ

A “AMAZÔNIA NÃO PRECISA SER CONQUISTADA;PRECISA SER RESPEITADA”,

Dom Evaristo Spengler, OFM – Bispo da Prelazia do Marajó (PA)

Nos inícios de fevereiro do corrente ano teve início um seminário organizado pela Secretaria Geral do Sínodo intitulado: “Rumo ao Sínodo Especial para a Amazônia: dimensão regional e universal”. O seminário é uma das muitas iniciativas que a Secretaria Geral do Sínodo dos Bispos está realizando para preparar adequadamente o Sínodo Especial sobre a Amazônia, que terá lugar em Roma em outubro próximo.O bispo franciscano, Dom Evaristo Spengler, Bispo da Prelazia do Marajó (PA), falou na terça-feira,dia 5 de fevereiro sobre “Ecologia, Economia e Política”. Sua intervenção causou impacto devido ao conhecimento dos dados e da contundência de suas posições. Desfez mitos, apresentou  uma visão fundada nas melhores fontes sobre o que significa a Grande Amazônia  para o equilíbrio do mundo, que engloba 8 países latino-americanos. Publicamos aqui o texto como exemplo da nova consciência ecológica que está surgindo no episcopado graças ao impulso dado pelo Papa Francisco como  sua encíclica concernente à ecologia integral: “Sobre o cuidado da Casa Comum”

Eis a íntegra do discurso:

“Quero iniciar retomando as palavras do papa Francisco na Laudato Si’ sobre o cuidado da Casa Comum: “A ecologia estuda as relações entre os organismos vivos e o meio ambiente onde se desenvolvem. E isso exige que se pare para pensar e discutir acerca das condições de vida e de sobrevivência de uma sociedade, com a honestidade de pôr em questão modelos de desenvolvimento, produção e consumo. Nunca é demais insistir que tudo está interligado” (n. 138). É no âmbito deste paradigma em que “tudo está interligado” que vou considerar a relação entre ecologia, economia e política, visto que “a ecologia humana é inseparável da noção de bem comum” (LS, 156).

A política enredada nas malhas de uma “economia que mata”

“Essa economia mata”, afirma de maneira contundente o Papa Francisco na Evangelii Gaudium n. 53. Trata-se de uma “economia da exclusão” (n. 53-54) caracterizada pela “nova idolatria do dinheiro” (n. 55-56), criando uma situação em que o “dinheiro governa em vez de servir” (n. 57-58) e “a desigualdade social gera violência” (n. 59-60).
A economia é aquela atividade humana pela qual, interagindo e utilizando racionalmente dos bens e serviços naturais, garantimos nossa sobrevivência, abertos à comunidade de vida e às gerações futuras.

O drama da economia atual é que o sistema financeiro passou a ocupar todos os espaços. De uma economia de mercado passamos para uma sociedade de mercado. Essa é a grande transformação, das maiores e mais perigosas da história. Passamos de uma sociedade com economia de mercado para uma sociedade dominada pelo mercado. Todas as atuais decisões políticas visam favorecer as demandas do Mercado. Nesse contexto, tudo virou mercadoria, desde os bens naturais, as relações humanas e até as coisas mais sagradas da religião. De tudo se pode obter lucro, tudo pode ser levado ao mercado, e no mercado tudo é negociável. Esse tipo de economia, hoje mundializado, transformou o planeta Terra num grande mercado. Nele tudo está à venda.

A Terra vem sendo submetida a uma exploração de todos os seus ecossistemas em função do enriquecimento de alguns e do empobrecimento de bilhões de pessoas. Segundo relato da ONG Oxfan 2019, 26 indivíduos possuem riqueza igual a 3,4 bilhões de pessoas.

Por exemplo, algo pensado no Brasil para preservação ambiental, o Cadastro Ambiental Rural (CAR), também passou a ser usado para fins comerciais. O chinês Lap Chang cadastrou um CAR sobre uma área de 58 mil hectares, no Marajó, território da minha Prelazia, onde vivem povos tradicionais. Em função disso, vendeu crédito de carbono para uma empresa inglesa, no valor de mais de 200 mil dólares.

Essa economia em que tudo virou mercado produz duas funestas injustiças. Uma social, produzindo incomensurável pobreza e miséria; e outra, uma injustiça ecológica, dizimando os bens e serviços naturais, muitos deles não renováveis. Por esse motivo, tem razão o Papa Francisco quando afirma de maneira precisa: “Não há duas crises separadas: uma ambiental e outra social; mas uma única e complexa crise sócio-ambiental. As diretrizes para a solução requerem uma abordagem integral para combater a pobreza, devolver a dignidade aos excluídos e, simultaneamente, cuidar da natureza” (LS, 139).

De fato, a economia atualmente é dominada pela economia de acumulação desenfreada e pelo mercado financeiro. Organizou-se de tal forma a economia que beneficia os mais ricos em detrimento dos mais pobres. Na esteira da Doutrina Social da Igreja somos desafiados a buscar uma política de participação de todos e para todos, e também para com a natureza. A ecopolítica tem por escopo organizar a sociedade e a distribuição do poder de forma a implementar estratégias de sustentabilidade para garantir a todos o suficiente e o decente para viver. Isso supõe pensar a política, no sentido dos documentos sociais da Igreja, como a busca comum do bem comum. Contudo é necessário incluir nesse bem comum não apenas os seres humanos, mas toda a comunidade de vida.

Declarando que “o atual sistema mundial é insustentável” (n. 202), o Papa Francisco, por 35 vezes na Laudato Si’, conclama para “novos estilos de vida” (n. 163; 194 passim) e novas formas de consumo de sobriedade compartilhada. É necessário e urgente a construção de um paradigma de desenvolvimento alternativo ao atual modelo hegemônico. Trata-se de conversão do atual modelo de desenvolvimento global. O modelo alternativo de desenvolvimento global deverá considerar o meio ambiente como um bem coletivo, a defesa do trabalho e dos povos originários, entre eles os indígenas da Amazônia, o papel dos movimentos sociais e das organizações da sociedade civil.
Sem negar os avanços da tecnociência na melhoria das condições de vida e do bem-estar das pessoas, não podemos nos deixar dominar e ser controlados por ela. A ciência, a tecnologia, assim como a economia, deve estar a serviço da vida, e não impor o ritmo à vida.

Ecologia, economia e política na região amazônica brasileira

Desde o período da invasão dos ibéricos, a região amazônica se encontra à mercê de políticas coloniais. Entre os séculos XVI-XIX, o colonialismo extrativista teve fortes incidências sobre povos autóctones e bens naturais mediante uma injusta expropriação. E nos séculos posteriores, com os Estados modernos, práticas e mentalidades colonialistas continuam mediante a exploração de populações, culturas e territórios dessa imensa região. Há séculos, distintas formas de exploração da Amazônia vêm sendo produzidas e, para a fatalidade das suas populações, todas elas com interesses colonizadores que se manifestam mediante dois expedientes: exploração de sua população e redução da região a mera reserva de “recursos” naturais, como território a ser conquistado, explorado e comercializado para a obtenção de lucros.

A Amazônia já resistiu a grandes projetos, de monocultivos e de ocupação. Falando do Brasil, em 1926, Henry Ford comprou 3 milhões de hectares de terra ao longo do rio Tapajós, contratou mais de 3.000 operários, derrubou a mata e plantou 70 milhões de mudas de seringueira para extrair borracha. Um fungo invisível, com enorme capacidade de multiplicação, fez fracassar o projeto. O monocultivo, mesmo sendo de uma espécie amazônica, foi rejeitado pela floresta.
Em 1967, Daniel Keith Ludwig montou um projeto milionário junto ao rio Jari, numa área de 3,6 milhões de hectares para produção de celulose com espécies de outras regiões, e agropecuária. A floresta resistiu e novamente um fungo foi responsável pelo fracasso de 22 empresas envolvidas no projeto.

Em 1975, a Volkswagen desmatou 55.000 hectares usando bombas de napalm e desfolhantes químicos. Teve grandes prejuízos e abandonou o projeto. A natureza amazônica resistiu e resiste incansavelmente. A prepotência humana teve que se curvar e se humilhar muitas vezes à grandeza e à força do bioma amazônico. Contudo, hoje, os ataques são mais graves, porque os ataques são muitos, simultâneos, de muitas frentes e com grandes tecnologias. São megaprojetos de mineração, energia, petróleo, agricultura, pecuária, madeireiras, infra-estrutura, como hidrovias, rodovias, ferrovias e portos. São projetos de governos e de grandes conglomerados econômicos e de diversos países.

Trata-se a Amazônia como se fosse o celeiro do mundo, onde se pode retirar ou produzir o que quiser. Isso não é verdade. A Amazônia é um bioma frágil que tem seus próprios mecanismos internos de sobrevivência e resistência. Outros consideram ainda a Amazônia como o pulmão do mundo, como se fosse uma grande fábrica de oxigênio. Na verdade, a floresta é um grande equilíbrio dinâmico, no qual tudo é aproveitado e continuamente reciclado. O oxigênio que ela produz, ela mesmo consome. Mas ela funciona como um grande filtro que absorve dióxido de carbono, o principal gás do efeito estufa, um dos fatores responsáveis pelo aquecimento global e das mudanças climáticas.

Caso a floresta seja derrubada, seriam liberados para a atmosfera cerca de 50 bilhões de toneladas de carbono por ano, que a floresta, em pé, mantém sequestrados. A derrubada provocaria uma dizimação em massa. Outro fator é que a floresta é importante para o equilíbrio da umidade e das chuvas que sustentam a própria floresta. A floresta sustenta a chuva e a chuva sustenta a floresta. Além disso exporta umidade, via aérea, para outros biomas.

Vigoram hoje, na Amazônia, dois modelos de desenvolvimento. Um é predatório, da extração de madeira, da mineração, do petróleo e energia, da pecuária, do monocultivo, que tem como consequências o desmatamento (20% da floresta já estão desmatados), concentração de renda, trabalho escravo, envenenamentos do solo e das águas, diminuição das chuvas (nas áreas desmatadas a estação seca se prolonga num ritmo de seis dias a cada dez anos), conflitos de ocupação com a expulsão dos povos da floresta, desrespeito às leis, morte de lideranças, ambientalistas e agentes de pastoral.

O outro modelo é o socioambiental, ecológico, direcionado aos povos da floresta. Tem como consequência a redistribuição de renda, a preservação da floresta e da biodiversidade, a socialização da terra e dos recursos, a distribuição de renda, a preservação de populações tradicionais, a fixação do “homem” na floresta, e um mercado promissor de frutas, cocos, artesanatos, polpas, fitoterápicos, óleos, castanhas, ecoturismo, entre outros. Este modelo deve ser fortalecido pelos nossos projetos pastorais. Ainda é um desafio estudar e conhecer toda a biodiversidade e o bioma amazônico.

Bem dizia Chico Mendes, o mártir por defender a floresta, assassinado em 22 de dezembro de 1988: “A floresta em pé é mais produtiva do que a floresta tombada”. Ou, como diziam os seringueiros da Amazônia, e tantas vezes repetiu a Ir. Dorothy Stang, também mártir, assassinada em 12 de fevereiro de 2005 por defender os povos da floresta: “A morte da floresta é o fim da nossa vida”.

Para o modelo predatório, a Amazônia tem tudo o que o mercado precisa para manter um crescimento linear e constante, e tudo em abundância: biodiversidade, terras, água, floresta, petróleo, madeira, minérios, fontes de energia, que são de fácil acesso. E é assim que ouvimos falar da Amazônia como a última fronteira do agronegócio e da mineração. Essa economia predatória não poupa nem as pessoas. Tráfico de pessoas, exploração de mão de obra infantil, exploração sexual, são comuns na Amazônia. A economia transforma em mercadoria não apenas os corpos, mas explora e manipula sentimentos, sonhos, desejos, e a confiança das pessoas, seduzidas por falsas e enganosas promessas.

Aqui, Vossa Eminência Cardeal Baldisseri, eu abro um parêntesis para dizer que trago um apelo de parte da Igreja da Amazônia, que junto com diversas organizações da sociedade civil organizada atuam na promoção e defesa dos direitos de crianças e adolescentes. Eles solicitam ao Sínodo para a Amazônia um olhar especial e misericordioso para a problemática da violência sexual contra crianças e adolescentes, sobretudo nas áreas dos grandes projetos econômicos presentes na região.

A Amazônia não precisa ser conquistada, nem desbravada, precisa ser respeitada.

O sistema amazônico não funciona nos moldes de competição, funciona nos moldes de cooperação, como todo o sistema Terra. A questão não está em conquistar a Amazônia, mas em conviver com a Amazônia. A política deveria estar a serviço da boa convivência social e da boa convivência ambiental, mas ela prefere estar a serviço da economia. Podemos aprender das populações tradicionais da Amazônia. Há vestígios de presença humana na Amazônia há pelo menos 12.000 anos. Populações tradicionais desenvolveram grandes e complexas sociedades. Em períodos mais recentes chegaram outros habitantes, que também foram acolhidos pela floresta. Os povos da floresta não são ingênuos nem ignorantes.

Como seres humanos, eles interagiram com o seu meio. Têm uma sabedoria, uma cultura, convivem com a floresta, interferem na floresta, vivem da floresta e das águas. Povos tradicionais e floresta se condicionam mutuamente, criaram relações e desenvolveram uma florestania, numa teia intrincada de reciprocidade, intercâmbio e cumplicidade. Isso também é política, ou melhor, eco-política, eco-logia e eco-nomia. Eco do grego oikos lar, casa, como insiste o Papa Francisco, “nossa casa comum”.

Os povos da floresta, a veem como algo vivo, um sujeito, parte da comunidade que deve ser respeitada. Ao contrário, a Cultura Ocidental Moderna vê na floresta e no imenso território apenas um objeto, algo a ser conquistado, manipulado, transformado em matéria prima para ser explorada, negociada, consumida, usada e descartada.

Já não podemos confiar na política vigente. Ela é submissa e serviçal ao grande capital e aos megaprojetos para a Amazônia. Faz isso sem ética e sem escrúpulos. Já não podemos confiar na economia de mercado. Ela é insaciável e transforma tudo em mercadoria. Talvez tenhamos que ouvir mais as ciências da vida e da Terra porque hoje são os cientistas que nos advertem sobre os riscos que corremos, inclusive de autodestruição, em consequência desse modelo de uma economia predatória.

Mas antes dos cientistas, pela fé, cada cristão é convidado a assumir a defesa da casa comum, porque reconhece tudo como criatura de Deus. Há oito séculos, São Francisco de Assis cantava louvores a Deus, sentindo-se irmão de toda natureza criada. Louva a Deus pela Terra, “Irmã e Mãe, que nos sustenta e governa”. Essa percepção está em profunda comunhão com a cosmovisão de povos originários da América, que chamam a terra de “Pachamama”, a grande mãe.

As florestas são um fator importante na Terra, para o equilíbrio dos climas, temperatura e das condições favoráveis à vida, entre elas a vida humana. As florestas refrescam a terra. Os cientistas dizem que a Terra precisa conservar pelo menos 50% de suas florestas nativas para manter o clima e o ambiente favorável à vida humana. As florestas estão ameaçadas. Hoje só restam preservadas 22% das florestas; menos da metade do que o postulado como necessário. A Amazônia representa 1/3 de todas as florestas que ainda existem. Daí a importância da Amazônia. É urgente respeitá-la, preservá-la e cuidá-la.

Conclusão: a utopia vencerá

A compreensão da Terra como Casa Comum deveria oferecer a base para políticas globais de controle do aquecimento global, das mudanças climáticas, da preservação das florestas, do cuidado da casa comum e o limite para a economia de mercado. Tenho suspeitas de que nem os economistas globais, nem os políticos nacionais serão capazes de fazer isso. Mas tenho certeza que os povos da floresta, os povos originários, com a proposta do “bem-viver” e “brm conviver” e as comunidades dos discípulos de Jesus, com a proposta do Reino de Deus, junto com outros aliados que sabem que a Amazônia é um presente, uma criação de Deus, serão capazes. Isso pode parecer um sonho, mas são os sonhos que alimentam as utopias. Nós sonhamos com a utopia do Reino anunciado por Jesus. Como diz uma canção de nossas Comunidades:

Sonho que se sonha só, pode ser pura ilusão.
Sonho que se sonha juntos, é sinal de solução.
Então, vamos sonhar, companheiros, sonhar ligeiro, sonhar em mutirão”.

Paz e Bem! Obrigado!

A publicação é do portal Franciscanos, 26-02-2019.

 

 

Carnaval: celebrar a alegria de viver,apesar dos pesares

O Brasil está vivendo uma das fases  mais tristes e até macabras de sua história. Foi desmascarada a lógica da corrupção, presente em toda a nossa história, como parte de um Estado patrimonialista (colonialista, escravagista, elitista e antipopular) e sequestrado durante séculos pelas oligarquias do ser, do ter, do saber, do dominar  e do manipular a opinião pública. Por todo esse tempo, grassou a corrupção e não apenas, como se atribuiu, nos últimos anos, quase que  exclusivamente ao PT (é verdade, que suas  cúpulas foram contaminadas),  feito bode expiatório como forma de ocultar a corrupção dos privilegiados de sempre.

Surgiu um novo “Collor”(“caça aos marajás”),  o “mito”, Jair Bolsonaro, (“exterminar a  corrupção” e ” o comunismo”). Foram suficientes um pouco mais de dois meses  de mandato para se identificar a corrupção também em suas próprias hostes, até em sua família. Muitos acreditaram ingenuamente na profusão de fake news e slogans de viés nazista: “Brasil acima de tudo”(“Deutchland über alles, lema de Hitler) e “Deus acima de todos”. Qual Deus? Aquele dos neopentecostais que promove a prosperidade material mas é surdo à nefasta injustiça social e que dá muito dinheiro a seus pastores, verdadeiros lobos a  tosquiar as ovelhas? Não é o Deus do Jesus pobre e amigos dos pobres, de quem falava Fernando Pessoa “que não entendia nada de contabilidade e que não consta que tinha uma  biblioteca”. Era pobre mesmo que perambulava por todos os lugares anunciando “uma grande alegria para  todo o povo” como relatam os evangelhos.

Dentro deste quadro sinistro se festeja o carnaval. Não poderia deixar de ser, pois é um dos pontos altos  da vida de milhões de brasileiros. A festa faz esquecer as decepções e dá espaço às muitas raivas afogadas na garganta (como milhares em São Paulo, gritando indecentemente ‘B.vá tomar no c`). A festa, por um momento, suspende o terrível cotidiano e o tempo tedioso dos relógios. É como se, por um lapso de tempo, participássemos da eternidade, pois na festa se suspende o tempo dos relógios.

Pertence à festa o excesso, a ruptura das normas convencionais e das formalidades sociais. Lógico, tudo o que é sadio pode ficar doentio, como o caráter orgiástico de algumas expressões carnavalescas. Mas não é esta a característica própria  do  carnaval.

A festa é um fenômeno da riqueza. Aqui riqueza não significa possuir dinheiro. A riqueza da festa é  a riqueza da razão cordial, da alegria, de mostrar um sonho de fraternidade ilimitada, gente da favela com gente da cidade organizada, todos fantasiados: crianças, jovens, adultos, homens e mulheres e idosos dançando, cantando, comendo e bebendo juntos. A festa é a exaltação de que podemos ser alegres e felizes, apesar dos pesares.

Se bem refletirmos, a alegria do carnaval é uma expressão de amor que é mais que empatia. Quem não ama nada ou ninguém, não pode se alegrar, mesmo  que angustiadamente suspire pelo amor. Um teólogo da Igreja Ortodoxa, do século V da era cristã, São João Crisóstomo (de quem o Card. Dom Paulo Evaristo Arns era um grande entusiasta e leitor) escreveu bem:”ubi caritas gaudet, ibi est festivitas”; “onde o  amor se alegra, ai se encontra a festividade”.

Agora uma pitada  de reflexão: o tema da festa comparece como um fenômeno que tem desafiado grandes nomes do pensamento como R. Caillois,  J. Pieper, H. Cox, J. Motmann e o próprio  F. Nietzsche. É que a festa revela o que há ainda de inocente e mítico em nós no meio da maturidade e da predominância da fria razão instrumental-analítica que rege nossas sociedades.

A festa reconcilia todas as coisas e nos devolve a saudade do paraíso das delícias, que nunca se perdeu totalmente. Platão sentenciava com razão:”os deuses fizeram as festas para que os homens pudessem respirar um pouco”. A festa não  é  só um dia que os homens fizeram mas também “um dia que o Senhor fez” como diz o Salmo 117,24. Efetivamente, se a vida é uma caminhada onerosa, precisamos, às vezes, de parar para respirar e, renovados, seguir adiante com alegria e coragem no coração.

Donde brota a alegria da festa? Foi Nietzsche quem encontrou sua melhor formulação: ”para alegrar-se de alguma coisa, precisa-se dizer a todas as coisas: “sejam benvindas”. Portanto, para podermos festejar de verdade precisamos afirmar positividade de todas coisas. Continua Nietzsche:”Se pudermos dizer sim a um único momento então teremos dito sim não só a nós mesmos mas à totalidade da existência” ”(Der Wille zur Macht, livro IV: Zucht und Züchtigung n.102).

Esse sim subjaz às nossas decisões cotidianas,ao nosso trabalho, à preocupação pela família, ao emprego ameaçado agora pelas novas leis regressivas do atual governo, ao tipo de aposentadoria que nos é apresentada, prejudicando os idosos e os camponeses, à convivência com amigos e colegas. A festa é o tempo forte no qual o sentido secreto da vida é vivido mesmo inconscientemente. Da festa saímos mais fortes para enfrentar  as exigências da vida, para a maioria, sempre lutada e levada na marra.

Temos boas razões para festejar nesse carnaval de 2019 para, por um momento,deixar de lembrar as agruras políticas e sociais que nos angustiam. Tiremos da cabeça, o atual governo ainda sem rumo e  com  ministros que nos envergonham e com políticos que representam mais os grupos que os elegeram que os reais interesses do povo. Apesar disso tudo, a alegria há de predominar. É ela que nos faz resistir e esperar contra toda a esperança.Dias melhores virão.

Leonardo Boff é filosofo, teólogo e escritor e escreveu :Virtudes por um outro mundo possível, 3 Vozes 2005