Por que os generais temem o Sínodo Pan-Amazônico: Marcelo Barros

Marcelo Barros é um monge beneditino que foi assessor de Dom Helder, grande conhecedor da Bíblia (exegeta), assessor do MST e um dos conferencistas mais solicitados no Brasil e nos exterior. Aborda de forma original a espiritualidade ligada à lutas populares. É autor de vários livros sobre temas da atualidade, sempre na perspectiva espiritual e da libertação dos oprimidos. Publicamos este material sobre o Sínodo Pan-Amazônico,pelo interesse nacional e mundial que está provocando e pondo em alerta ( por causa de certos preconceitos) dos militares que já puseram em ação os órgãos de informação para vigiarem os bispos e aqueles que se ocupam da problemática amazônica. Esquecem estes militares que a Amazônia não é só brasileira mas cobre parte de 8 países latino-americanos sobre os quais eles não têm jurisdição. Lboff

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O governo brasileiro manifesta preocupações e contrariedades em relação ao próximo Sínodo dos Bispos em Roma sobre a região panamazônica. (Cf. IHU, 10/ 02// 2019). Em artigo esclarecedor e contundente, Roberto Malvezzi, publicado nesse blog, explica o que é um Sínodo (caminhar juntos) e como a Rede Eclesial Pan-amazônica (REPAM), em diálogo com o Vaticano e com os bispos locais dos oito países da região pan-amazônica tem preparado o Sínodo.
De fato, desde que, depois do Concílio Vaticano II, o papa Paulo VI restabeleceu a tradição do Sínodo dos Bispos, vinda do primeiro milênio e a atualizou para a Igreja Católica do século XX, já tivemos mais de 35 sessões do Sínodo. Nessa perspectiva, é importante saber o que se pode esperar do Sínodo sobre a Amazônia.

Não é de forma alguma a primeira vez que, nessas últimas décadas, a Igreja Católica, em Roma, realiza um sínodo sobre uma região particular do mundo. Já tivemos duas assembleias extraordinárias do Sínodo sobre a África (1994 e 2009). Na preparação do Jubileu do ano 2000, o papa João Paulo II convocou e organizou assembleias especiais sobre a Europa (1999), assim como assembleias para a Oceania (1997), Ásia (1998) e América (1997). Além disso, houve uma assembleia extraordinária do Sínodo dos Bispos sobre o Oriente Médio (2010). Assim, além das 25 assembleias ordinárias do Sínodo que aconteceram desde 1969, dez foram extraordinárias e delas, várias sobre regiões específicas.

É possível que o Sínodo da Amazônia traga algumas novidades. Em geral, nas assembleias anteriores aqui citadas, os bispos sempre procuraram se situar na realidade do continente ou da região que é o tema do Sínodo. No entanto, o tema central e o foco de tudo tem sido a Igreja e sua missão. Assim, as exortações pos-sinodais dos papas em geral têm como título: A Igreja na África, a Igreja na Ásia, a Igreja na Oceania, etc… E por causa da herança ou subsistência do que se poderia chamar de “eclesiologia de Cristandade” , (isso é, uma Igreja que se olha como anterior e independente da realidade, com uma missão que vem de fora e entra mais como do alto para baixo), a impressão é que, em geral, a análise da realidade é sempre mais genérica do que contextual, feita em linguagem cuidadosa que diz as coisas sem dizer exatamente (diplomacia necessária a uma Igreja que se coloca a partir de uma posição de poder e de mando).
Dessa vez, o Sínodo tem como tema “A Amazônia, novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”.

Há uma mudança no enfoque – o tema é a realidade e dessa realidade se reflete sobre a missão da Igreja e se busca reconstruir uma Ecologia integral. E há ao menos uma tentativa de que a Igreja (bispos, clero e povo) se coloque como serviço e a partir de baixo e não de cima. Isso significa, parta da comunhão com os mais pobres, escute o grito da Terra e dos povos da Amazônia, ameaçados em sua vida e oprimidos pela tragédia que é o agronegócio, as madeireiras e as mineradoras, assim como as formas depredadoras do Capitalismo nas cidades amazonenses e suas periferias.

Nessa visão, a Ecologia Integral não é um tema a parte ou além da missão da Igreja. Se bem compreendida, a Ecologia integral é a própria missão de uma Igreja servidora da libertação da humanidade, da mãe Terra e de cada pessoa em sua integralidade, como já, em 1968, afirmava a Conferência dos bispos latino-americanos em Medellín (Med 5, 15).
Se essa perspectiva ou mudança de ângulo de abordagem for realmente respeitada e desenvolvida, o governo brasileiro pode ter razões de se preocupar. E, embora somente no Brasil essa preocupação tenha sido explicitada, provavelmente outros governos dos países da região devem ter as mesmas preocupações.

Isso significa apenas que eles têm consciência clara de que as políticas que impõem à região panamazônica vão no sentido contrário à perspectiva de uma Ecologia integral, como o papa Francisco desenvolve na encíclica Laudatum sii e como as discussões preparatórias a esse Sínodo, vindas das consultas às bases dos diversos povos e grupos da Amazônia, propõem.

É claro que Bolsonaro e seus ministros não precisam se preocupar se a orientação espiritual do Sínodo fosse na perspectiva que fez com que, em 2018, não poucos bispos, padres e movimentos católicos votassem na extrema-direita. No entanto, a perspectiva não é essa. É de uma Igreja em saída no qual o Sínodo dos Bispos tem sido preparado por ampla consulta de todos os setores e categorias da Amazônia e lá em Roma com os bispos estarão índios, ribeirinhos, missionários populares e mulheres da Amazônia, de tal forma que o Sínodo dos Bispos possa se ampliar cada vez mais como Sínodo de todos os organismos vivos do Povo de Deus.

Na tradição litúrgica católica, na festa da Epifania, o ofício de vésperas contém um hino antigo no qual se canta: “Hostis Herodes impie, Christum venire quid times? Non eripit mortalia, qui regna dat caelestia”. (Na atual Liturgia das Horas está traduzido assim: “Por que, Herodes, temes, chegar o rei que é Deus? Não rouba aos reis da terra, quem reinos dá nos céus”). Provavelmente, quem compôs esse hino não lia muito o cântico de Maria (o Magnificat) ou o cantava pulando os verso que diz: “Derruba os poderosos de seus tronos e eleva os humildes”.

O quarto evangelho conta que o sumo-sacerdote Caifaz, inimigo de Jesus, profetizou que ele, Jesus, deveria morrer não só pelo povo, mas para reunir na unidade os filhos e filhas de Deus dispersos pelo mundo” (Jo 11, 52). Quem sabe, hoje, os Caifazes atuais, que se chamem com outros nomes e tenham patentes militares e estão no governo brasileiro estejam profetizando que esse Sínodo retomará o espírito de Medellín e provocará uma virada da nossa Igreja e de outras Igrejas no caminho do serviço libertador da mãe Terra e dos povos da Amazônia?

Do irmão Marcelo Barros

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Cenários sócio-políticos para 2019

 

Pedro A. Ribeiro de Oliveira já e conhecido nesse blog. Trata-se de um sociólogo muito reconhecido no meio acadêmico mas principalmente nos grupos de base seja da Igreja seja da sociedade. É o principal animador dos Encontros das Comunidades Eclesiais de Base, das quais é um dos melhores conhecedores. Ademais é o principal animador do Movimento Fé e Política. Acaba de publicar um livro precioso em termos de sua trejetória intelectual e especialmente na parte final dedicada à análise cuidadosa do jogo de poderes que se estão dando nas estruturas fundamentais de nossa realidade nacional. Publicamos aqui um estudo dele que tem um título desprentensioso: Política Conjuntural: uma previsão para 2019. É muito mais do que o título diz. Trata-se de analisar os vários cenários possíveis que se apresentam aos nossos olhos, mostrando cada vez as relativas correlações de força e as chances para que a nossa democracia se reafirme e mesmo seja resgatada. Quando fala de classes, não caiamos logo no preconceito ora reinante na linguagem da inventada “cultura marxista”. Apenas aponta ao fato de que há forças sociais com interesses não só diferentes, mas até antagônicos. Isso são realidades concretas que se revelam a todo o momento. Todas as sociedades se compõem por estas forças. O gênio da democracia é fazer com que todas elas possam conviver pacificamente, se enfrentarem, sem logo se demonizarem, ao contrário,dando a regência à razão e ao diálogo e assim permitindo que a sociedade ganhe dinamismo. Atualmente a sociedade brasileira está esgarçada e o tecido social rasgado de cima abaixo. Há muito sentimento pequeno, feito de ódio, raivas e falsas notícias e parquíssima racionalidade, intentos de diálogo e de compreensão.  Quase todos estamos confusos acerca dos rumos de nosso país. Este trabalho de Pedro Ribeiro de Oliveira nos ajuda a buscarmos luzes e a definirmos um caminho esperançador. Cabe-nos não permitir que  a situação obscura não termine numa tragédia mas numa crise, que nos acrisola, nos purifica e nos faz crescer rumo a uma situação mais integradora de todos e para todos. Lboff

Nota prévia

Trago uma visão estrutural dos acontecimentos porque assim se coloca em evidência a lógica do processo histórico em que esses acontecimentos estão inseridos. É claro que toda previsão vem carregada de incertezas, mas acredito que uma previsão assentada em análise estrutural é mais confiável do que aquela que se fia apenas em informações desconectadas entre si.

Distingo três planos estruturais: o sistema de vida da Terra, o sistema-mundo com seu modo de produção e consumo capitalista, e o sistema – social, político, cultural e econômico – que chamamos Brasil. É claro que nos interessa especificamente o último sistema, mas não podemos esquecer que ele está subordinadamente integrado nos dois outros. Por isso, farei breve menção das mudanças conjunturais em cada um deles. Na conclusão indico algumas implicações práticas para quem se identifica com as lutas das classes trabalhadoras, dos povos originários e dos grupos socialmente discriminados.

  1. O sistema de vida Terra

Tornaram-se frequentes os sinais de mudanças estruturais no sistema Terra. Ano passado, ao abrir a reunião da COP-24, em Katowice, Polônia, disse o secretário-geral da ONU: “Estamos em apuros. Estamos em grandes apuros com as mudanças climáticas”. Sua visão global, como a do Papa, lhe permite avaliar o que seja uma catástrofe climático-ambiental. E sabe que ela poderá acontecer ainda antes de 2050, se não forem tomadas as medidas recomendadas pela comunidade científica internacional – medidas que as megacorporações não aceitam porque prejudicam seus lucros (como vimos agora em Brumadinho). A situação se agrava porque os Estados nacionais dão mais importância ao crescimento da economia do que ao equilíbrio ecológico. O caso dos atuais presidentes dos EUA e do Brasil é emblemático, mas muitos outros governantes também se curvam diante das imposições das forças econômicas que dominam o mercado capitalista.

Ainda não nos habituamos a entender a questão ambiental como uma questão política, e isso reduz muito nosso campo de visão. É preciso ampliar nossas categorias de pensamento para deixar de considerar a Terra como coisa e perceber nosso Planeta e comunidade de vida como sujeito histórico e detentor de Direitos próprios. Entender que a Terra está sofrendo e que esse sofrimento atinge também a espécie humana. Tudo se passa como se a espécie homo sapiens esteja a pressentir sua extinção e por isso dá vazão a comportamentos irracionais como o ódio aos semelhantes, a voracidade do consumo, o livre trânsito da pós-verdade, o refúgio no mundo virtual e outras práticas que destroem a própria comunidade humana. Mas esse mesmo pressentimento tem seu lado positivo: favorece a tomada de consciência de ser a Terra sujeito de direitos e ser vivo do qual a espécie humana faz parte. Essa consciência se expressou na Carta da Terra, elaborada por um grupo que falava em nome dos Povos da Terra e que foi publicada em 2000. Essa consciência de sermos Terra “que pensa, dança, ama e venera”, como diz L. Boff, nos ajuda a recuperar concepções ancestrais como o Sumak Kawsay (Bem-Viver) e a descortinar novos horizontes de uma sociedade planetária. Esses dois tipos de atitude frente ao pressentimento da catástrofe estão presentes na atualidade e não podem ser ignorados, embora não sejam perceptíveis ao senso-comum nem se tornem notícias de impacto na vida cotidiana.

Cruel para a Terra e para os pobres, é que as forças de destruição são mais potentes do que as forças de construção: é muito mais fácil e rápido destruir o que existe, do que construir algo novo. Esta é a realidade de 2019.

Atenção: Essa realidade de âmbito planetário deve ser tomada a sério porque ainda é possível ao menos amenizar a catástrofe ambiental que se anuncia. No mínimo, ela precisa ser vista como um obstáculo intransponível ao crescimento econômico de médio e longo prazo, como o projeto chinês da nova rota da seda, que prevê investimentos estimados em US$5 trilhões em 30 anos. Por isso, falar do assunto pode ser incômodo, mas é tarefa de toda pessoa que toma consciência dessa catástrofe que se aproxima.

  1. O sistema-mundo do capitalismo

Seu polo dinâmico está passando dos EUA para a China (ou Chíndia?) e essa transição é marcada pela (1) financeirização do capital e (2) clima de guerra. A crise de 2008 ainda não terminou e a situação econômica mundial continuará conturbada enquanto o dólar US for a moeda das transações internacionais. Esse conflito econômico entre as potências emergentes e as potências decadentes já é uma guerra, hoje chamada de “4ª geração” porque nela a informação e a informática se tornaram armas que permitem dominar um povo ou um país sem usar armas de fogo. Guerra hoje se dá em terra, mar, ar, espaço sideral e espaço cibernético.

Atualmente temos, além de dezenas de guerras localizadas – étnicas, religiosas, antidrogas, contra o terrorismo, ou guerras civis – o risco de guerra entre grandes potências. Se for nuclear, dificilmente terá sobreviventes, mas se não for, a China provavelmente será vencedora e modelará outra forma de capitalismo – baseado na economia verde – e conquistará a hegemonia mundial no século 21. Nesse contexto, o Brasil do novo governo se alinha subservientemente com o provável perdedor (EUA).

Atenção: Essa inserção do Brasil como parceiro subalterno dos EUA decorre da crise de 2008, que levou os grandes grupos financeiros e petroleiros dos EUA a convencer a classe dominante brasileira a abandonar o projeto nacional-desenvolvimentista dos governos Lula e Dilma. Ela é determinante na explicação do golpe de 2016 e na conquista da presidência da República, governos estaduais, Senado e Câmara de deputados por pessoas politicamente inexpressivas. Por sua posição geopolítica e econômica (controle do Atlântico Sul, reserva de petróleo, água e minérios), o Brasil é um país chave na América do Sul, onde só Bolívia e Venezuela não se dobraram aos interesses das grandes empresas e do governo estadunidenses.

  1. O sistema Brasil

O resultado das eleições deixou evidente a mudança na correlação de forças entre as classes sociais. A classe dominante (composta por cerca de 40 mil famílias que se beneficiam da financeirização do capital, além de controlar o processo produtivo) aproveitou-se do descontentamento popular manifestado em 2013 para romper o pacto de não-agressão proposto pelo PT de Lula em 2002 (renúncia às Reformas estruturantes – agrária, fiscal, urbana e política – e à auditoria da dívida pública). Desde então ela recorre à agressividade para eliminar – ou ao menos afastar do campo político – os grupos por meio dos quais as classes trabalhadoras e setores subalternos se expressam ou se organizam (como o PT, o PSOL e outros Partidos de oposição, Movimentos como MST, MTST, Indígenas, negros, mulheres, LGBT e outros), ou que as apoiam (como setores de Igrejas, universidades, intelectualidade etc). Talvez caiba o rótulo de fascista a essa proposta por não ceder espaço à luta de classes dentro da institucionalidade democrática, e sim visar a eliminação das classes trabalhadoras enquanto atores da política nacional.

Atenção: Essa mudança da conjuntura tem forte incidência estrutural porque afeta diretamente a correlação de forças da luta de classes. A classe dominante – com seus distintos setores (financeiro, agronegócio, minerador, industrial, comercial) – optou por submeter-se às grandes corporações transnacionais, rompendo o pacto social que garantia o projeto nacional-desenvolvimentista dos governos do PT. Pelo menos temporariamente, a classe dominante conseguiu a adesão das classes médias e os votos da massa popular. Para isso conta com a habitual colaboração da mídia e o apoio das Igrejas neopentecostais e de setores conservadores das Igrejas Evangélicas e Católica. Embora seu ideário político-social dependa de pensadores do quilate de Olavo Carvalho, isso parece bastar para conquistar a adesão da grande massa de insatisfeitos com o sistema atual, que atiça o desejo de consumo mas não o satisfaz. O recente escândalo de lavagem de dinheiro do filho do presidente, ignorado pelo ministro da Justiça mas denunciado pela mídia tradicional, e a lama de Brumadinho levando vidas mas dando lucro à Vale, talvez marquem o início da perda de respaldo popular ao governo antes mesmo de completar seus 100 dias de tranquilidade.

Atenção: Estamos diante de uma derrota das classes trabalhadoras. Em três anos de luta suas forças foram exauridas, tentando sem êxito apagar os incêndios. Um aglomerado de forças econômicas, políticas, ideológicas, no Brasil e no Exterior (EUA), que tem em Steve Bannon sua figura mais visível, usa os métodos da guerra de 4ª geração para demolir os Direitos assegurados pela Constituição de 1988 e com isso desestabilizar as instituições democráticas do Brasil. Isso enche de indignação qualquer pessoa sensível aos direitos humanos e da Terra. Mas a indignação precisa ser trabalhada para não descambar para a sensação de impotência diante da força das empresas que, guiadas pela busca do lucro, encontram defensores em todas as esferas do poder da república e da sociedade, aí incluídas as igrejas, a mídia e outras agências formadoras de opinião. Como canalizar nossa indignação para uma ação eficaz em defesa dos Direitos Humanos e da Terra?

Se é verdade que as classes trabalhadoras foram derrotadas, também é verdade que elas estão vivas. (1) No campo político, contam com uma bancada relativamente forte na Câmara (um arco de alianças será suficiente para evitar aprovação de PECs), alguns senadores e governos estaduais. (2) No campo social, os Movimentos Sociais organizados, os Povos Indígenas e muitos sindicatos dão mostras de resiliência. (3) No campo do pensamento, a maior parte da população universitária resiste à proposta fascista; as CEBs e Pastorais sociais, bem como um número crescente de bispos católicos e pastores, embora minoritários, não deixam morrer o Cristianismo da Libertação; os e as artistas animam a resistência popular, e seria possível elencar ainda outras forças. (4) No campo econômico as pequenas unidades de economia solidária e cooperativas populares sobrevivem, mesmo à margem da economia formal. A partir dessas forças pode-se pensar um novo processo de construção de “um outro mundo possível” que não seja a repetição do que foi feito nos últimos 70 anos (o projeto nacional-desenvolvimentista inaugurado por Getúlio Vargas).

Atenção: com isso quero dizer que o ano de 2019 inaugura um processo inteiramente novo, que deverá aprender do passado (crítica e autocrítica do processo histórico) para superá-lo. Aqui situa-se meu livro “Fé e Política, uma trajetória”. Como diz Fr. Betto, o livro “percorre a segunda metade do século XX no que teve de melhor: a utopia de que é possível um mundo pós-capitalista, menos desigual e mais livre.” Hoje posso dizer: é possível, sim, mas não da forma como nossa geração buscou, porque fomos derrotados. Há que se encontrar outra forma de pensar e agir, porque esta deu errado. Esta é tarefa da nova geração, que encontrará novas formas de pensar e de agir. E diante dela, minha geração deverá conformar-se em ser ator coadjuvante (importante, sim, mas não protagonista).

Digo isso e penso em muitas pessoas da nova geração, aqui destacando uma delas: Jovanir Polesi, a quem agradeço de coração o trabalho de revisão do livro, tendo sugerido importantes mudanças para sua segunda redação e depois assumido a dura tarefa da edição e produção gráfica, com a valiosa colaboração do Braz, diretor da Gráfica Quatro Irmãos e companheiro de caminhada nas CEBs.

Conclusão: implicações práticas.

  1. Há um problema estratégico. Hoje chegam inúmeros apelos à resistência: resistir à prisão do Lula, aos ataques a Territórios indígenas e quilombolas e assentamentos de trabalhadores rurais, à política de privatizações, à reforma de previdência, à redução da maioridade penal, ao desmatamento da Amazônia e do Cerrado, à escola sem partido, aos ataques a defensores e defensoras dos Direitos Humanos, à comunidade LGBT e tantas outras agressões aos Direitos de Cidadania. Contudo não é possível atuar em todas frentes de combate a que somos convocados e é com tristeza que nos vemos levados a abandonar companheiros nas mãos dos inimigos. A sabedoria reside em lidar com tantas frentes, reunir forças e fazer um trabalho bem articulado e formativo. Essa sabedoria é importantíssima nos dias de hoje. Para isso, há que restaurar as forças.
  2. Restaurar as forças é fundamental. É preciso buscar refúgio onde se possa trocar ideias, rever serenamente os próprios erros e acertos sem acusar terceiros. Esse retiro não é perda de tempo. É fazer um recuo estratégico, onde seja possível fazer o processo de formação política e tecer novos laços de solidariedade. Embora esse recuo possa deixar espaço para o avanço das hordas adversárias, suas desavenças internas (que já são evidentes) tendem a desgasta-las em pouco tempo. Assim, ao voltar à luta seremos muito mais fortes do que hoje (e elas mais fracas).

É claro que há demandas tão graves ou urgentes que nos obrigam a sair do retiro e retornar ao confronto direto. Mas nesse caso o lado mais fraco só tem chance de vitória se estiver na defensiva. Sabe-se que as forças de quem se defende se multiplicam por dez, desde que sua defesa seja sólida e não se aventure à luta em campo aberto. Talvez seja o caso da reforma da Previdência, a proteção a defensores dos Direitos Humanos e a preservação da Amazônia (que tem forte apoio internacional).

  1. Voltar às bases é dedicar-se ao trabalho direto, pessoal, para fazer conscientização e organização. Bases são os grupos de solidariedade pessoal (família, vizinhança, igreja, de amizade, de trabalho, associação por afinidade e outros) onde as relações pessoais se revestem de laços afetivos (base não significa grupos populares). Voltar a atenção, agora, para aquele/s grupo/s onde se é bem recebido ou recebida, sempre dando prioridade aos grupos formados por gente pobre, vulnerável ou jovem. Trata-se de ir a essas bases para retomar o trabalho de educação política, isto é, de conscientização e de organização, sabendo que ele exige capacitação e que leva tempo.
  2. Exercer (ou reconquistar) a hegemonia intelectual e cultural é a missão dos e das intelectuais vinculadas/os às classes trabalhadoras. Essa missão foi bem desempenhada ao longo do século 20, quando os valores democráticos, igualitários e libertários se difundiram pelo mundo, deixando envergonhadas as pessoas que dele divergiam (tradicionalistas, racistas etc). A vitória do capitalismo na guerra fria, porém, favoreceu o pensamento de direita, que propõe a desigualdade como fator de progresso, e vê nas elites e na desigualdade um fato natural.

Esse pensamento de direita conquistou espaço na sociedade com importante contribuição das religiões cristãs de vertente fundamentalista (incluída a católico-romana). Em sua versão vulgar ele traz o criacionismo, justifica o racismo e o patriarcado e outros sistemas de exclusão; em sua versão erudita ele justifica a liberdade individual como fundamento da lei natural que não pode ser mudada pelo Estado. Ele separa corpo e alma e se volta unicamente pela salvação desta (por meio de rituais), deixando as realidades materiais sob o domínio do mercado. Esse pensamento se difunde como defesa da família, da vida e dos valores tradicionais ameaçados pelo marxismo cultural que é apontado como o grande inimigo da civilização ocidental cristã: não tendo conseguido derrota-la pela economia (fim do socialismo soviético), quer derrota-la destruindo as bases morais da família.

Embora esse pensamento tenha uma argumentação rasa e mal fundamentada, ganha adeptos recorrendo às emoções: medo do diferente, medo da liberdade feminina, busca de segurança no passado idealizado, orgulho de ser pobre mas honrado etc. Após sua aparente derrota para a modernidade, ele volta à tona de forma agressiva atacando quem defende um pensamento libertador ou libertário. Contra ele quatro medidas são recomendadas: (1) não repassar as mensagens que falam de seus avanços e abusos, porque só visam intimidar, (2) não se curvar diante das intimidações e ameaças, mas seguir em frente, (3) sempre que possível rebater os argumentos e esclarecer as ideias, mas ignorar os ataques pessoais, e (4) apontar as trapalhadas cometidas por quem está no governo, para minar seu apoio na sociedade, mas evitar sempre o “eu não disse?” ou o “eu já sabia…”.

Vitória, 8/ fev. 2019

Pedro Ribeiro de Oliveira é leigo católico, nascido em 1943, doutor em sociologia, foi professor nos Programas de Pós-Graduação em Ciência/s da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora e da PUC-Minas. É membro de Iser-Assessoria e da Coordenação do Movimento Nacional Fé e Política. Publicou o livro Fé e Política: uma trajetória, Quatro Irmãos, Juiz de Fora, 2018.

 

Papa Francisco e Emirados Árabes:mensagem comum

 

VIAGEM APOSTÓLICA DO PAPA FRANCISCO AOS EMIRADOS ÁRABES UNIDOS
3-5 DE FEVEREIRO DE 2019

DOCUMENTO SOBRE A FRATERNIDADE HUMANA EM PROL DA PAZ MUNDIAL E DA
CONVIVÊNCIA COMUM

PREFÁCIO

A fé leva o crente a ver no outro um irmão que se deve apoiar e amar.
Da fé em Deus, que criou o universo, as criaturas e todos os seres
humanos ? iguais pela Sua Misericórdia ?, o crente é chamado a
expressar esta fraternidade humana, salvaguardando a criação e todo o
universo e apoiando todas as pessoas, especialmente as mais
necessitadas e pobres.

Partindo deste valor transcendente, em vários encontros dominados por
uma atmosfera de fraternidade e amizade, compartilhamos as alegrias,
as tristezas e os problemas do mundo contemporâneo, a nível do
progresso científico e técnico, das conquistas terapêuticas, da era
digital, dos mass-media, das comunicações; a nível da pobreza, das
guerras e das aflições de tantos irmãos e irmãs em diferentes partes
do mundo, por causa da corrida às armas, das injustiças sociais, da
corrupção, das desigualdades, da degradação moral, do terrorismo, da
discriminação, do extremismo e de muitos outros motivos.

De tais fraternas e sinceras acareações que tivemos e do encontro
cheio de esperança num futuro luminoso para todos os seres humanos,
nasceu a ideia deste «Documento sobre a Fraternidade Humana». Um
documento pensado com sinceridade e seriedade para ser uma declaração
conjunta de boas e leais vontades, capaz de convidar todas as pessoas,
que trazem no coração a fé em Deus e a fé na fraternidade humana, a
unir-se e trabalhar em conjunto, de modo que tal documento se torne
para as novas gerações um guia rumo à cultura do respeito mútuo, na
compreensão da grande graça divina que torna irmãos todos os seres
humanos.

DOCUMENTO

Em nome de Deus, que criou todos os seres humanos iguais nos direitos,
nos deveres e na dignidade e os chamou a conviver entre si como
irmãos, a povoar a terra e a espalhar sobre ela os valores do bem, da
caridade e da paz.

Em nome da alma humana inocente que Deus proibiu de matar, afirmando
que qualquer um que mate uma pessoa é como se tivesse morto toda a
humanidade e quem quer que salve uma pessoa é como se tivesse salvo
toda a humanidade.

Em nome dos pobres, dos miseráveis, dos necessitados e dos
marginalizados, a quem Deus ordenou socorrer como um dever exigido a
todos os homens e de modo particular às pessoas facultosas e abastadas.

Em nome dos órfãos, das viúvas, dos refugiados e dos exilados das suas
casas e dos seus países; de todas as vítimas das guerras, das
perseguições e das injustiças; dos fracos, de quantos vivem no medo,
dos prisioneiros de guerra e dos torturados em qualquer parte do
mundo, sem distinção alguma.

Em nome dos povos que perderam a segurança, a paz e a convivência
comum, tornando-se vítimas das destruições, das ruínas e das guerras.

Em nome da «fraternidade humana», que abraça todos os homens, une-os e
torna-os iguais.

Em nome desta fraternidade dilacerada pelas políticas de integralismo
e divisão e pelos sistemas de lucro desmesurado e pelas tendências
ideológicas odiosas, que manipulam as ações e os destinos dos homens.

Em nome da liberdade, que Deus deu a todos os seres humanos,
criando-os livres e enobrecendo-os com ela.

Em nome da justiça e da misericórdia, fundamentos da prosperidade e
pilares da fé.

Em nome de todas as pessoas de boa vontade, presentes em todos os
cantos da terra.

Em nome de Deus e de tudo isto, Al-Azhar al-Sharif ? com os muçulmanos
do Oriente e do Ocidente – juntamente com a Igreja Católica ? com os
católicos do Oriente e do Ocidente ? declaramos adotar a cultura do
diálogo como caminho; a colaboração comum como conduta; o conhecimento
mútuo como método e critério.

Nós ? crentes em Deus, no encontro final com Ele e no Seu Julgamento
?, a partir da nossa responsabilidade religiosa e moral e através
deste Documento, rogamos a nós mesmos e aos líderes do mundo inteiro,
aos artífices da política internacional e da economia mundial, para se
comprometer seriamente na difusão da tolerância, da convivência e da
paz; para intervir, o mais breve possível, a fim de se impedir o
derramamento de sangue inocente e acabar com as guerras, os conflitos,
a degradação ambiental e o declínio cultural e moral que o mundo vive
atualmente.

Dirigimo-nos aos intelectuais, aos filósofos, aos homens de religião,
aos artistas, aos operadores dos mass-media e aos homens de cultura em
todo o mundo, para que redescubram os valores da paz, da justiça, do
bem, da beleza, da fraternidade humana e da convivência comum, para
confirmar a importância destes valores como âncora de salvação para
todos e procurar difundi-los por toda a parte.

Partindo duma reflexão profunda sobre a nossa realidade contemporânea,
apreciando os seus êxitos e vivendo as suas dores, os seus dramas e
calamidades, esta Declaração acredita firmemente que, entre as causas
mais importantes da crise do mundo moderno, se contam uma consciência
humana anestesiada e o afastamento dos valores religiosos, bem como o
predomínio do individualismo e das filosofias materialistas que
divinizam o homem e colocam os valores mundanos e materiais no lugar
dos princípios supremos e transcendentes.

Nós, embora reconhecendo os passos positivos que a nossa civilização
moderna tem feito nos campos da ciência, da tecnologia, da medicina,
da indústria e do bem-estar, particularmente nos países desenvolvidos,
ressaltamos que, juntamente com tais progressos históricos, grandes e
apreciados, se verifica uma deterioração da ética, que condiciona a
atividade internacional, e um enfraquecimento dos valores espirituais
e do sentido de responsabilidade. Tudo isto contribui para disseminar
uma sensação geral de frustração, solidão e desespero, levando muitos
a cair na voragem do extremismo ateu e agnóstico ou então no
integralismo religioso, no extremismo e no fundamentalismo cego,
arrastando assim outras pessoas a render-se a formas de dependência e
autodestruição individual e coletiva.

A história afirma que o extremismo religioso e nacional e a
intolerância geraram no mundo, quer no Ocidente quer no Oriente,
aquilo que se poderia chamar os sinais duma «terceira guerra mundial
aos pedaços»; sinais que, em várias partes do mundo e em diferentes
condições trágicas, começaram a mostrar o seu rosto cruel; situações
de que não se sabe exatamente quantas vítimas, viúvas e órfãos
produziram. Além disso, existem outras áreas que se preparam a
tornar-se palco de novos conflitos, onde nascem focos de tensão e se
acumulam armas e munições, numa situação mundial dominada pela
incerteza, pela deceção e pelo medo do futuro e controlada por míopes
interesses económicos.

Afirmamos igualmente que as graves crises políticas, a injustiça e a
falta duma distribuição equitativa dos recursos naturais ? dos quais
beneficia apenas uma minoria de ricos, em detrimento da maioria dos
povos da terra ? geraram, e continuam a fazê-lo, enormes quantidades
de doentes, necessitados e mortos, causando crises letais de que são
vítimas vários países, não obstante as riquezas naturais e os recursos
das gerações jovens que os caraterizam. A respeito de tais crises que
fazem morrer à fome milhões de crianças, já reduzidas a esqueletos
humanos por causa da pobreza e da fome, reina um inaceitável silêncio
internacional.

A propósito, é evidente quão essencial seja a família, como núcleo
fundamental da sociedade e da humanidade, para dar à luz filhos,
criá-los, educá-los, proporcionar-lhes uma moral sólida e a proteção
familiar. Atacar a instituição familiar, desprezando-a ou duvidando da
importância de seu papel, constitui um dos males mais perigosos do
nosso tempo.

Atestamos também a importância do despertar do sentido religioso e da
necessidade de o reanimar nos corações das novas gerações, através
duma educação sadia e da adesão aos valores morais e aos justos
ensinamentos religiosos, para enfrentarem as tendências
individualistas, egoístas, conflituais, o radicalismo e o extremismo
cego em todas as suas formas e manifestações.

O primeiro e mais importante objetivo das religiões é o de crer em
Deus, honrá-Lo e chamar todos os homens a acreditarem que este
universo depende de um Deus que o governa: é o Criador que nos moldou
com a Sua Sabedoria divina e nos concedeu o dom da vida para o
guardarmos. Um dom que ninguém tem o direito de tirar, ameaçar ou
manipular a seu bel-prazer; pelo contrário, todos devem preservar este
dom da vida desde o seu início até à sua morte natural. Por isso,
condenamos todas as práticas que ameaçam a vida, como os genocídios,
os atos terroristas, os deslocamentos forçados, o tráfico de órgãos
humanos, o aborto e a eutanásia e as políticas que apoiam tudo isto.

De igual modo declaramos ? firmemente ? que as religiões nunca incitam
à guerra e não solicitam sentimentos de ódio, hostilidade, extremismo
nem convidam à violência ou ao derramamento de sangue. Estas
calamidades são fruto de desvio dos ensinamentos religiosos, do uso
político das religiões e também das interpretações de grupos de homens
de religião que abusaram ? nalgumas fases da história ? da influência
do sentimento religioso sobre os corações dos homens para os levar à
realização daquilo que não tem nada a ver com a verdade da religião,
para alcançar fins políticos e económicos mundanos e míopes. Por isso,
pedimos a todos que cessem de instrumentalizar as religiões para
incitar ao ódio, à violência, ao extremismo e ao fanatismo cego e
deixem de usar o nome de Deus para justificar atos de homicídio, de
exílio, de terrorismo e de opressão. Pedimo-lo pela nossa fé comum em
Deus, que não criou os homens para ser assassinados ou lutar uns com
os outros, nem para ser torturados ou humilhados na sua vida e na sua
existência. Com efeito Deus, o Todo-Poderoso, não precisa de ser
defendido por ninguém e não quer que o Seu nome seja usado para
aterrorizar as pessoas.

Este Documento, de acordo com os Documentos Internacionais anteriores
que destacaram a importância do papel das religiões na construção da
paz mundial, atesta quanto segue:

? A forte convicção de que os verdadeiros ensinamentos das religiões
convidam a permanecer ancorados aos valores da paz; apoiar os valores
do conhecimento mútuo, da fraternidade humana e da convivência comum;
restabelecer a sabedoria, a justiça e a caridade e despertar o sentido
da religiosidade entre os jovens, para defender as novas gerações a
partir do domínio do pensamento materialista, do perigo das políticas
da avidez do lucro desmesurado e da indiferença baseadas na lei da
força e não na força da lei.

? A liberdade é um direito de toda a pessoa: cada um goza da liberdade
de credo, de pensamento, de expressão e de ação. O pluralismo e as
diversidades de religião, de cor, de sexo, de raça e de língua fazem
parte daquele sábio desígnio divino com que Deus criou os seres
humanos. Esta Sabedoria divina é a origem donde deriva o direito à
liberdade de credo e à liberdade de ser diferente. Por isso,
condena-se o facto de forçar as pessoas a aderir a uma determinada
religião ou a uma certa cultura, bem como de impor um estilo de
civilização que os outros não aceitam.

? A justiça baseada na misericórdia é o caminho a percorrer para se
alcançar uma vida digna, a que tem direito todo o ser humano.

? O diálogo, a compreensão, a difusão da cultura da tolerância, da
aceitação do outro e da convivência entre os seres humanos
contribuiriam significativamente para a redução de muitos problemas
económicos, sociais, políticos e ambientais que afligem grande parte
do género humano.

? O diálogo entre crentes significa encontrar-se no espaço enorme dos
valores espirituais, humanos e sociais comuns, e investir isto na
propagação das mais altas virtudes morais que as religiões solicitam;
significa também evitar as discussões inúteis.

? A proteção dos locais de culto ? templos, igrejas e mesquitas ? é um
dever garantido pelas religiões, pelos valores humanos, pelas leis e
pelas convenções internacionais. Qualquer tentativa de atacar locais
de culto ou de os ameaçar através de atentados, explosões ou
demolições é um desvio dos ensinamentos das religiões, bem como uma
clara violação do direito internacional.

? O terrorismo execrável que ameaça a segurança das pessoas, tanto no
Oriente como no Ocidente, tanto no Norte como no Sul, espalhando
pânico, terror e pessimismo não se deve à religião ? embora os
terroristas a instrumentalizem ? mas tem origem no cúmulo de
interpretações erradas dos textos religiosos, nas políticas de fome,
de pobreza, de injustiça, de opressão, de arrogância; por isso, é
necessário interromper o apoio aos movimentos terroristas através do
fornecimento de dinheiro, de armas, de planos ou justificações e
também a cobertura mediática, e considerar tudo isto como crimes
internacionais que ameaçam a segurança e a paz mundial. É preciso
condenar tal terrorismo em todas as suas formas e manifestações.

? O conceito de cidadania baseia-se na igualdade dos direitos e dos
deveres, sob cuja sombra todos gozam da justiça. Por isso, é
necessário empenhar-se por estabelecer nas nossas sociedades o
conceito de cidadania plena e renunciar ao uso discriminatório do
termo minorias, que traz consigo as sementes de se sentir isolado e da
inferioridade; isto prepara o terreno para as hostilidades e a
discórdia e subtrai as conquistas e os direitos religiosos e civis de
alguns cidadãos, discriminando-os.

? O relacionamento entre Ocidente e Oriente é uma necessidade mútua
indiscutível, que não pode ser comutada nem transcurada, para que
ambos se possam enriquecer mutuamente com a civilização do outro
através da troca e do diálogo das culturas. O Ocidente poderia
encontrar na civilização do Oriente remédios para algumas das suas
doenças espirituais e religiosas causadas pelo domínio do
materialismo. E o Oriente poderia encontrar na civilização do Ocidente
tantos elementos que o podem ajudar a salvar-se da fragilidade, da
divisão, do conflito e do declínio científico, técnico e cultural. É
importante prestar atenção às diferenças religiosas, culturais e
históricas que são uma componente essencial na formação da
personalidade, da cultura e da civilização oriental; e é importante
consolidar os direitos humanos gerais e comuns, para ajudar a garantir
uma vida digna para todos os homens no Oriente e no Ocidente, evitando
o uso da política de duas medidas.

? É uma necessidade indispensável reconhecer o direito da mulher à
instrução, ao trabalho, ao exercício dos seus direitos políticos. Além
disso, deve-se trabalhar para libertá-la das pressões históricas e
sociais contrárias aos princípios da própria fé e da própria
dignidade. Também é necessário protegê-la da exploração sexual e de a
tratar como mercadoria ou meio de prazer ou de ganho económico. Por
isso, devem-se interromper todas as práticas desumanas e os costumes
triviais que humilham a dignidade da mulher e trabalhar para modificar
as leis que impedem as mulheres de gozarem plenamente dos seus direitos.

? A tutela dos direitos fundamentais das crianças a crescer num
ambiente familiar, à alimentação, à educação e à assistência é um
dever da família e da sociedade. Tais direitos devem ser garantidos e
tutelados para que não faltem e não sejam negados a nenhuma criança em
nenhuma parte do mundo. É preciso condenar qualquer prática que viole
a dignidade das crianças ou os seus direitos. Igualmente importante é
velar contra os perigos a que estão expostas ? especialmente no
ambiente digital ? e considerar como crime o tráfico da sua inocência
e qualquer violação da sua infância.

? A proteção dos direitos dos idosos, dos vulneráveis, dos portadores
de deficiência e dos oprimidos é uma exigência religiosa e social que
deve ser garantida e protegida através de legislações rigorosas e da
aplicação das convenções internacionais a este respeito.

Por fim, através da cooperação conjunta, a Igreja Católica e a
al-Azhar anunciam e prometem levar este Documento às Autoridades, aos
Líderes influentes, aos homens de religião do mundo inteiro, às
organizações regionais e internacionais competentes, às organizações
da sociedade civil, às instituições religiosas e aos líderes do
pensamento; e empenhar-se na divulgação dos princípios desta
Declaração em todos os níveis regionais e internacionais, solicitando
que se traduzam em políticas, decisões, textos legislativos, programas
de estudo e materiais de comunicação.

Al-Azhar e a Igreja Católica pedem que este Documento se torne objeto
de pesquisa e reflexão em todas as escolas, nas universidades e nos
institutos de educação e formação, a fim de contribuir para criar
novas gerações que levem o bem e a paz e defendam por todo o lado o
direito dos oprimidos e dos marginalizados.

Ao concluir, almejamos que esta Declaração:

seja um convite à reconciliação e à fraternidade entre todos os
crentes, mais ainda, entre os crentes e os não-crentes, e entre todas
as pessoas de boa vontade;

seja um apelo a toda a consciência viva, que repudia a violência
aberrante e o extremismo cego; um apelo a quem ama os valores da
tolerância e da fraternidade, promovidos e encorajados pelas religiões;

seja um testemunho da grandeza da fé em Deus, que une os corações
divididos e eleva a alma humana;

seja um símbolo do abraço entre o Oriente e o Ocidente, entre o Norte
e o Sul e entre todos aqueles que acreditam que Deus nos criou para
nos conhecermos, cooperarmos entre nós e vivermos como irmãos que se
amam.

Isto é o que esperamos e tentaremos realizar a fim de alcançar uma paz
universal de que gozem todos os homens nesta vida.

Abu Dabhi, 4 de fevereiro de 2019.

Sua Santidade
Papa Francisco                     Grão Imame de Al-Azhar
Ahmad Al-Tayyeb

Situação numérica da Igreja Católico-romana e o Papa Francisco: F.Altmeyer

O Prof. brilhante e culto teólogo da PUC de São Paulo Fernando Algmeyer é um apaixonado por números exatos de santos e santas, de eventos eclesiais e ecumênicos. Agora nos apresenta algo que muitos,mesmo sacerdotes, religiosos e religiosas e até teólogos/as desconhecem. Como vai a Igreja Católica-romana em termos de números? Qual foi a imensa obra do Papa Francisco nestes seus 6 anos de pontificado? Sobresai  o imenso trabalho que esta Igreja com seus mais de um bilhão de católicos faz: no acompanhamento dos pobres, no ensino em todos os níveis e nas inúmeras universidades, nos hospitais e asilos para idosos e na proteção de desvalidos. Não obstante seus defeitos da humana condição e também da infidelidade de alguns aos  valores evangélicos  como são os casos dos escândalos financeiros e dos pedófilos, ela representa uma torrente de bondade e de amor humanitário, herança sagrada de Jesus de Nazaré e de tantos santos e santas como  São Francisco de Assis, São João Bosco, Santa Clara de Assis, Santa Teresa d’Avila e e da Santa Madre Teresa de Calcutá entre outros tantos e tantas. Os dados arrolados são impressionanes. É bom que membros desta Igreja, de outras e mesmo de cidadãos da sociedade saibam da real situação da Igreja e o que ela repreenta no mundo, não só no Ocidente, mas na humanidade inteira. Agradecemos ao teólogo Altemeyer por este penoso e ilustrativo trabalho. Lboff

Sexênio do papa Francisco – números atualizados pelo Prof. Dr. Fernando Altemeyer Junior – Departamento de Ciência da Religião da PUC-SP – atualizado: 03/02/2019

(fonte principal: www.vatican.va).

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Em 19 de março de 2019 celebra-se seis anos do papa Francisco como bispo de Roma. Seu foco articulador continua sendo cuidar pessoalmente dos migrantes e refugiados, fazendo a sua voz profética ecoar em favor das periferias do planeta. Palavras de ordem: misericórdia, missão, alegria, reforma franciscana, colegialidade e diálogo. A motivação primeira é a missão, o cuidado pastoral dos empobrecidos e não mais o clericalismo doentio e narcisista. Diz ele que é a hora histórica da Igreja em saída, seguindo as intuições expressas pelo Concílio Vaticano II. Começa a delinear um novo rosto episcopal em todo o mundo. Bispos atentos aos pobres, atuando na pastoral, movidos pela compaixão.

 

Circunscrições católicas no mundo todo: 12 patriarcados, 640 arquidioceses, 2.121 dioceses, 44 prelazias territoriais, 11 abadias nullius, 42 exarcados dos ritos orientais, 36 ordinariatos militares, 88 vicariatos apostólicos, 39 prefeituras apostólicas, oito administrações apostólicas, oito missões independentes–sui iuris, três ordinariatos pessoais, uma administração de rito extraordinário latino e uma rede de 132.642 centros missionários e 221.740 paróquias.

 

Entidades filantrópicas e de ensino da Igreja Católica no planeta: 72.800 creches frequentadas por 7.300.000 crianças; 96.600 escolas de ensino fundamental para 35.100.000 alunos; 47.900 escolas de ensino médio para 20.000.000 alunos e 2.381.337 alunos do ensino superior; e 3.103.072 estudantes participantes das Universidades Católicas. Ainda 5.167 hospitais católicos, 15.699 casas para pessoas idosas, 10.124 orfanatos, 11.596 enfermarias, 14.744 consultórios de orientação familiar e 115.352 institutos beneficentes e assistenciais.

 

Número de fieis congregados pela Igreja Católica em seus diferentes ritos latinos e orientais: São 1,3 bilhão de batizados, com a ação ministerial de 3.170.643 catequistas, 362.488 missionários leigos, são 54.229 os irmãos religiosos e 668.729 religiosas com votos perpétuos de vida consagrada. O clero católico é composto de 5.486 bispos (em 03/02/2019), 415.656 presbíteros sendo 281.514 diocesanos e 134.142 do clero religioso, 45.000 diáconos casados permanentes e há 116.843 seminaristas maiores.

 

Programa reformador: O Papa Francisco, Jorge Mario Bergoglio afirmou em sua carta-programa: “Exige-se a toda a Igreja uma conversão missionária: é preciso não se contentar com um anúncio puramente teórico e desligado dos problemas reais das pessoas (AL 201)”. Ele quer uma ação permanente de saída: “Sonho com uma opção missionária capaz de transformar tudo, para que os costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda a estrutura eclesial se tornem um canal proporcionado mais à evangelização do mundo atual que à autopreservação (EG 27)”.

 

Inscrições no Martiriologium Romanum: Papa Francisco reconheceu publicamente 886 santos (até 03/02/2019) inscrevendo-os no cânon do Martyriologium Romanum e ainda 1.165 beatos (até 03/02/2019). O Papa João Paulo II havia incluído na lista canônica 482 santos e 1.341 beatos. O papa Bento XVI inscrevera no cânon: 45 santos e 371 beatos. Francisco acaba de canonizar ao papa Paulo VI e o bispo mártir salvadorenho dom Oscar Romero em outubro de 2018. Certamente fará as canonizações dos mártires da América Latina, África e Ásia perseguidos nas cinco últimas décadas do século XX. Em 2019 está programada a canonização do bispo argentino dom Enrique Angel Angelelli, assassinado pela ditadura em 1977. O Brasil espera as canonizações de irmã Dulce dos Pobres, dom Helder Pessoa Câmara, irmã Adelaide Molinari, operário Santo Dias da Silva, padre Josimo Moraes Tavares, irmão jesuíta Vicente Cañas, padre Ezequiel Ramin, irmã Creusa Carolina Rody Coelho, padre salesiano Rodolfo Lunkenbein e o índio Lorenzo Simão Bororo; dom Luciano Pedro Mendes de Almeida, indígena Sepé Tiarajú, Dorcelina de Oliveira Folador; Eugenio Lyra Silva; Expedito Ribeiro de Souza; Franz de Castro Holwarth; frei Tito de Alencar Lima, dominicano; indígena pataxó Galdino Jesus dos Santos; Irmã Dorothy Mae Stang; indígena kaigang Marçal de Souza Tupã-i; a sindicalista Margarida Maria Alves; irma Maria Filomena Lopes Filha; padre Antonio Henrique Pereira Neto; padre francês Gabriel Felix Maire; o jesuíta João Bosco Penido Burnier; padre Leo Comissari; padre Manuel Campo Ruiz; leiga Roseli Correa da Silva; líder sindical Sebastião Rosa Paz; catequista Vilmar José de Castro, entre tantas testemunhas do Cristo Ressuscitado.

(fonte: http://www.causesanti.va/content/causadeisanti/it.html )

 

Vinte e duas viagens internas na Itália: Lampedusa em 08/07/2013; Cagliari em 22/09/2013; Assis em 04/10/2013; Campobasso e Isernia em 05/07/2014; Caserta em 26/07/2014; Cassiano all´Ionio em 21/06/2014, Redipuglia em 13/09/2014, Prato e Firenze em 10/11/2015, Turim, 21 e 22/06/2015, Pompeia e Nápoles em 21/03/2015, duas vezes em Assis em 04/08/2016 e 20/09/2016, Milão 25/3/2017, Carpi 02/04/2017, Genova 27/5/2017, Bozzolo e Barbiana 20/06/2017; Cesena e Bolonha 01/10/2017; Pietrelcina, diocese de Benevento, e San Giovanni Rotondo, diocese de Manfredonia-Vieste-San Giovanni Rotondo, para celebrar os 50 anos da morte de São Pío de Pietrelcina, em 17/03/2018; em 20/04/2018, região de Puglia, nas cidades de Alessano-Lecce, na diocese de Santa Maria de Leuca, e Molfetta, para celebrar os 25 anos da morte de Dom Tonino Bello; Nomaldelfia, na Toscana em 10/05/2018, para encontrar a comunidade fundada por padre Zeno Saltini; e em seguida Loppiano (Florença) na cidade internacional do Movimento dos Focolares; Bari, 07/07/2018 e enfim, diocese de Piazza Armerina e Palermo para celebrar o 25° Aniversário de Morte do Beato Pino Puglisi, em 15/09/2018.

 

Viagens internacionais de Francisco: Completam-se 27 viagens internacionais que o conduziram a 36 países: Brasil (22 a 29/07/2013), Jerusalém (24 a 26/05/2014), Coreia do Sul (13 a 18/08/2014), Albânia (21/09/2014), França (Estrasburgo, Parlamento Europeu, em 25/11/2014), Turquia (28 a 30/11/2014), Sri Lanka e Filipinas (12 a 19/01/2015), Bósnia-Herzegovina (Sarajevo em 06/06/2015), Equador, Bolívia e Paraguai (05 a 13/07/2015), Cuba e Estados Unidos e sede da ONU (19 a 28/09/2015), Quênia, Uganda e República Centro Africana (25 a 30/11/2015), México (12 a 18/02/2016), Lesbos, na Grécia em 16/04/2016, Armênia em 24-26/06/2016, Polônia, durante a JMJ de 27 a 31/07/2016, Geórgia e Azerbaijão de 30/09 a 2/10/2016, Suécia de 31/10 a 01/11/2016, Egito, 28-29 abril de 2017, Fátima, em Portugal, 12-13 de maio de 2017, Colômbia, 06 a 11 de setembro de 2017; Bangladesh e Myanmar, 27 de novembro a dois de dezembro de 2017; Chile e Peru, 15 a 21/01/2018; Conselho Mundial de Igrejas em Genebra, em 21 de junho de 2018; Irlanda, ao Encontro Mundial das Famílias, 25 a 26 de agosto de 2018; Lituânia, Estônia e Letônia, 22 a 25/09/2018; Panamá de 23 a 28 de janeiro de 2019 para a XXXIV Jornada Mundial da Juventude; Emirados Árabes Unidos, 3 a 5 de fevereiro de 2018. Planejadas visitas ao Marrocos 30 e 31 de março de 2019; Bulgária e Macedônia, 5 a 7 de maio de 2019; Romênia 31/05 a 02/06/2019; Japão em novembro de 2019. Estão pendentes visitas para Madagascar, Coreia do Norte, Sudão do Sul, Argentina, Uruguai, Índia, Beijing (China) e Moscou (Rússia).

 

Discursos e textos importantes: O papa Francisco até 03/02/2019 pronunciou 1.171 discursos, 300 homilias. Escreveu duas exortações apostólicas pós-sinodais: Evangelium Gaudium (A Alegria do Evangelho) publicada em 24/11/2013 e Amoris Laetitia (A alegria do amor) em 08/04/2016. Publicou também a exortação apostólica Gaudete et Exultate, sobre a santidade em 19/03/2018. Enviou 35 constituições apostólicas, 190 cartas, uma bula, 32 cartas apostólicas, 258 mensagens, 34 motu próprios. Acolheu milhares de peregrinos em 258 audiências gerais, presidiu 518 celebrações na Casa Santa Marta com as meditações cotidianas publicadas, doze bençãos Urbi et Orbi e rezou 317 Angelus, da janela do Vaticano. Proclamou e fez acontecer um Ano da Misericórdia em 2016. Escreveu duas encíclicas: Lumen Fidei, de 29/06/2013, e Laudato Si’: o cuidado da Casa Comum, publicada em 15/06/2015. Presidiu três sínodos da Igreja universal e tem programado para outubro de 2019, o sínodo extraordinário da Pan-Amazônia, no Vaticano.

 

Ecumenismo e diálogo inter-religioso: Francisco realizou gestos de grande amor ecumênico junto aos irmãos luteranos, na celebração dos 500 anos da Reforma. Também junto aos ortodoxos russos e ao patriarca Ecumênico de Constantinopla, Bartolomeu I, chamado por ele carinhosamente de “meu irmão André”, recordando que ele exerce a função de Pedro, em Roma. Manteve encontros frequentes com o primaz da Igreja Anglicana, Justin Welby. O papa Francisco propôs três chaves para avançar no caminho comum dos cristãos e aprofundar o ecumenismo: oração, testemunho e missão. Houve encontros fecundos com os irmãos menonitas, os pentecostais, os metodistas, os batistas, os reformados. Particularmente fecundo foi o encontro realizado no Vaticano com a atual moderadora do Comitê central do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), Agnes Abuom, e o secretário geral do mesmo organismo ecumênico, Rev. Olav Fykse, na manhã de 24/08/2017 em que fez uma oração comum pela unidade, pela paz e reconciliação das igrejas e dos povos. As pontes junto aos judeus, islâmicos, hindus e budistas têm sido edificadas com esmero e sabedoria. Francisco sabe que não haverá paz mundial sem paz entre as religiões. Visita como peregrino ao CMI celebrou os 70 anos da entidade ecumênica mundial. Importante encontro inter-religioso em Abu Dhabi, com os irmãos muçulmanos em 2019.

 

Medidas internas na Cúria: Alterou inúmeros procedimentos ligados à questão da pedofilia; alterou funções de muitos dos serviços da Cúria Romana; limitou o número de títulos honoríficos na instituição católica; criou a comissão de controle do Instituto para as Obras de Religião (IOR); nomeou 59 novos cardeais eleitores; publicou quatro estatutos alterando o formato dos secretariados romanos. Em função de sua firme decisão de reformar a Igreja tem sofrido pressão imensa dos quadros eclesiásticos da Cúria e de alguns episcopados que lhe oferecem resistência e em alguns casos até oposição, entre eles cardeais e alguns poucos bispos dos Estados Unidos da América, na Polônia, Espanha, um cardeal da China, bispos do Cazaquistão e a parcela dos bispos integristas em muitos países. O gesto mais significativo se concentrou na política de tolerância zero com os presbíteros e religiosos acusados de pedofilia em todo o planeta, em especial, nos Estados Unidos, Europa e Austrália. Caso recente de acobertamento de um pedófilo por bispo chileno resultou no pedido de demissão coletivo de todo o episcopado na ativa (34 bispos).

 

Medidas futuras: Em fevereiro encontro inédito de todos os 117 presidentes das Conferencias Episcopais de todo o mundo, chefes dos dicastérios romanos, chefes das Igrejas de ritos Orientais, Secretária de Estado, alguns Superiores religiosos/as nos dias 21 a 24 de fevereiro de 2019 no Vaticano, para tratar de pedofilia no clero católico e seu enfrentamento como tolerância zero. Em outubro de 2019 o Sínodo Extraordinário para a Amazônia, em Roma. Espera-se ainda uma encíclica social sobre o tema dos refugiados e imigrantes. A Reforma da estrutura burocrática da Cúria Romana desenhada pelo grupo de trabalho de cardeais. Provável aprovação das mulheres diaconisas e também da revisão do código canônico para aprovar homens casados ao ministério presbiteral na igreja católica de rito latino, já que em ritos orientais isso já existe há séculos.

 

Papa Francisco e o novo rosto do Episcopado Brasileiro: Em 03/02/2019 dos atuais 480 bispos no Brasil, contamos 309 na ativa e 171 eméritos. Por indicação papal temos a seguinte composição: dois bispos nomeados pelo papa São João 23, ambos eméritos (D. Serafim Fernandes de Araújo e dom José Mauro Alarcón); 36 nomeados bispos durante o governo do santo papa Paulo VI (todos eméritos); 223 nomeados pelo santo papa João Paulo II (125 eméritos); 124 nomeados pelo papa Bento XVI (oito eméritos); e 95 bispos nomeados de 19/03/2013 até 15/01/2019 pelo papa Francisco (todos na ativa). Em 03/02/2019 há quatorze dioceses brasileiras vacantes. Quatro bispos já completaram 75 anos e tornar-se-ão eméritos. Em 2019 oito bispos se aposentarão. Somando as dioceses vacantes (14), os quase eméritos (4) e os que vão aposentar-se em 2019 (8), teremos a nomeação em breve de 26 novos bispos para o Brasil. O perfil em 2020 seria este: 121 bispos nomeados por Francisco sobre 309 bispos atuantes, ou seja, 39% do episcopado. Já poderemos ver esse novo rosto na eleição em abril dos novos cargos na CNBB, especialmente presidente, vice e secretário geral. Um horizonte de esperanças está descortinando.

 

Francisco e a composição do colégio de cardeais em 03/02/2019: Os atuais cardeais eleitores são 123 bispos católicos de 65 países. Os cardeais não eleitores são 100 com mais de oitenta anos. Há um total de 223 cardeais vivos provindos de 88 países. O cardeal norte-americano McCarrick foi excluído do Colégio de cardeais.

Segundo a indicação dos diferentes papas quando da elevação ao cardinalato temos a atual composição no colégio de cardeais:

Beato Papa Paulo VI – não há mais nenhum cardeal vivo (o papa emérito Bento XVI foi criado cardeal pelo beato papa Paulo VI).

Papa São João Paulo II18 eleitores + 57 não eleitores = 75 cardeais vivos.

Papa emérito Bento XVI47 eleitores + 28 não eleitores = 75 cardeais vivos.

Papa Francisco58 eleitores + 15 não eleitores = 73 cardeais vivos.

Do total de 223 cardeais vivos temos 38 advindos de ordens religiosas e congregações (24 eleitores e 14 não eleitores). Há 14 cardeais bispos sendo seis eleitores, 174 cardeais presbíteros sendo 97 eleitores e, 35 cardeais diáconos sendo 20 eleitores. Total de 123 eleitores + 100 não eleitores = 223 cardeais vivos.

Cardeais eleitores da Europa são 52; das Américas são 34; da África são 16; da Ásia são 17; e da Oceania são 4.

Resumo:

18 cardeais eleitores criados por São João Paulo II;

47 eleitores criados por Bento XVI;

58 eleitores criados por Francisco.

Em 2019 completam 80 anos, nove cardeais (que não mais participarão de conclaves para escolha do bispo de Roma). Portanto, até junho de 2019 poderíamos ter um novo consistório com a nomeação de ao menos seis novos purpurados (para atingir 120 membros).

Resumo do sexênio de Francisco: Os seis anos do pontificado de Francisco são a fonte de oxigênio para os cristãos, aberto aos demais crentes e mesmo uma ponte feliz de diálogo com os ateus que buscam a verdade e a justiça. Francisco não veio repetir fórmulas. Quer o novo, como pastor de esperanças e alegrias, especialmente fala aos jovens, migrantes e refugiados e tem um compromisso junto ao planeta Terra, pedindo “cuidado para com a Casa Comum”