Carta aberta Comunidade Bremen

A Comunidade Bremen reúne grupos ecumênicos que tratam especialmente de espiritualidade, encarnada na situação em que vivemos. A Comunidade  mantém cursos de Bíblia, de teologia e de assuntos atuais. Tem trazido esperança a muita gente e simultaneamente aumentado o espírito crítico, dando conta das causas que assolam o povo com fome e todo tipo de doenças. Por causa deste serviço de inteligência e de espiritualidade tem vivido a bem-aventurança evangélica dos perseguidos e caluniados. Jesus os chama de bem-aventurados, pois “foi assim que perseguiram os profetas antes de vocês”. Damos todo o nosso apoio ao trabalho espiritual  e nos solidarizamos com a  Comunidade Bremen pelo imenso bem que faz, sem se importar com as adversidades.

Leonardo Boff


Leia a carta abaixo ou faça o download no link:


Carta aberta à comunidade

Recife, Páscoa de 2021

Cristo ressuscitou!
Volta para nós o seu olhar
e faz que sejamos renovados pelo sentido de ressurreição
e alcancemos graça, paz, saúde e felicidade
na comunhão em Ti e na solidariedade ao nosso povo.

Desejamos com essa Carta confirmar nosso caminhar como Comunidade de irmãs e irmãos que sonham juntos com o Amor entre nós, nos guiando no agir, no falar, no viver cada dia, com cada situação presente e histórica.

Ao longo do ano de 2020 e início de 2021, a Comunidade Bremen, COMUNIDADE ECUMÊNICA DE ESPIRITUALIDADE LIBERTADORA, se sentiu convocada a viver uma profunda comunhão de vida e de missão. Esse chamado nos chegou de muitos cantos e recantos de nosso chão comum: veio do chão do Cristianismo, do chão dos povos originários, das comunidades quilombolas; das agriculturas familiares; das periferias dos grandes centros urbanos; veio dos empobrecidos sem teto, sem alimento, sem educação, sem saúde pública, sem condições mínimas de vida digna; veio dos saberes artesanais, técnicos, sociais e espirituais de comunidades não reconhecidas ou invisibilizadas que vivem a comunhão em todas as circunstâncias; veio da espiritualidade libertadora presente em muitas expressões religiosas e não religiosas.

Como Comunidade respondemos: Sim, aqui estamos! E a cada dia, nos colocamos nessa disposição, como caminhantes que aprendem juntos, como discípulas e discípulos que seguem o Mestre que veio fazer morada e viver conosco, assumindo com sua própria vida, a vida de cada pessoa – sem distinção de gênero, etnia, religião -, e a vida da Mãe Terra e todas as criaturas.

Neste longo período de pandemia, que poderíamos chamar de grande quaresma da humanidade, nosso discernimento cotidiano nos convoca a gestos concretos de solidariedade, a reflexões a partir da fé cristã em diálogo com a espiritualidade macro ecumênica libertadora e com as grandes questões éticas que atingem pequenas e grandes comunidades em nosso país.

Esse é o chamado que ouvimos, o clamor que vem do povo. Esse é o chamado que ouvimos de nossa Mãe Terra, clamando por vida em plenitude. É vocação pessoal e comunitária na direção do Reino que já se faz presente aqui através dos gestos concretos de solidariedade, justiça, profecia, compromisso político, paz e saúde. É vocação pessoal e comunitária que se faz presença nas lutas sociais cotidianas, especialmente do povo trabalhador e também que sofre por um não-lugar no campo do trabalho digno.

Como é próprio de cada tempo – e mesmo Jesus não foi compreendido em seu contexto social, histórico e religioso -, temos nos deparado com críticas ao nosso jeito de responder aos muitos chamados por vida digna para todos os seres humanos e toda a natureza. Compreendemos que há muitas visões de mundo, pois estamos diante da pluralidade em todas as suas formas, de pensar, agir e viver a fé. Respeitamos as diferenças e nos colocamos à disposição para diálogos com base na fraternidade e na compreensão mútua. Contudo, muitas vezes, as críticas não vêm acompanhadas dessa atitude de escuta e diálogo mútuos.

Afirmamos nosso compromisso com o diálogo como postura fundamental, que supõe abertura e confiança entre identidades e pertenças diferenciadas.

Afirmamos nosso compromisso ético com a vida digna para todas e todos, pelo respeito à diversidade de crenças, gêneros e etnias.

Afirmamos que somos comunidade a caminho, como aprendizes, guiados pelo Amor e pelo sopro divinos.

Afirmamos nosso compromisso com o mestre Jesus, com o conteúdo histórico político de sua Boa Nova, com a libertação de tudo que compromete a dignidade do ser humano e da mãe Terra, como a semeadura diária que cria condições para que a ressurreição seja plena.

“Então, os dois contaram o que tinha acontecido no caminho
e como o tinham reconhecido
quando ele partiu o pão”
Lucas 24, 35).

Comunidade Bremen
Comunidade Ecumênica de Espiritualidade Libertadora

  • O Brasil é o retrato de um país iníquo e aporofóbico: Maria Inez Padula Anderson

O presidente e forças políticas, que atuam através de supostas práticas religiosas e fake news, promovem – de forma proativa e deliberada – desconfiança e insegurança da população em relação à vacina”, lamenta a professora do Departamento de Medicina Integral, Familiar e Comunitária – DMIFC, da UERJ Foto: Pixabay

Por: João Vitor Santos | Edição: Patricia Fachin | 22 Dezembro 2020– IHU

Enquanto alguns países já iniciaram a vacinação contra a covid-19 de forma emergencial, ainda é “difícil” fazer projeções acerca de quando e como o processo de imunização será iniciado no Brasil e se todos os brasileiros serão imunizados, diz Maria Inez Padula Anderson ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU. “Todas as informações – que deviam vir de forma sistemática e organizada por parte do Ministério da Saúde – só vêm à tona por pressão judicial e/ou popular e/ou da classe científica. Agora, as polêmicas em torno do processo de elaboração da proposta, do seu conteúdo e colaboradores, revelam mais do mesmo: incertezas, falta de clareza e – segundo consta – irresponsabilidade, na medida em que a última versão não sofreu revisão ou considerações de profissionais de saúde convidados para esta tarefa”, avalia, ao comentar o Plano Nacional de Vacinação.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, Maria Inez lamenta a falta de “protagonismo” e a “ausência quase completa de transparência e clareza das ações do Ministério da Saúde no que tange à pandemia” e critica as ações do governo no enfrentamento da crise sanitária. “A política governamental em relação à covid-19 pode ser considerada, no mínimo, desastrosa, inclusive em relação aos processos e operações que envolvem o sistema de vacinação“, avalia. Se não bastasse ter qualificado a pandemia como “gripezinha“, menciona, agora que o país enfrenta uma segunda onda, com quase 200 mil brasileiros e brasileiras mortos, o presidente “alardeia que a pandemia está no ‘finalzinho'”.

De acordo com Maria Inez, “o programa de imunização começou a ser pensado tardiamente, insuficientemente e incompetentemente”. Se a vacinação iniciar em fevereiro de 2021, diz, “até o final do próximo ano, existe a possibilidade de termos atingida a imunidade de rebanho – quando a vacinação cobriu mais de 60% da população, diminuindo o risco da transmissão e consequentemente de novos casos”. Para Inez, a situação do país é “profundamente lamentável”, considerando especialmente o histórico de atuação do Programa Nacional de Imunizações – PNI, criado em 1973.

Maria Inez Padula Anderson (Foto: Blog Medicina da Família)

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Maria Inez Padula Anderson é graduada em Medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, onde leciona nos cursos de mestrado e doutorado em Saúde Coletiva e no Departamento de Medicina Integral, Familiar e Comunitária – DMIFC. Ela também leciona no curso de mestrado profissional em Atenção Primária à Saúde na Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ.

IHU On-Line – Na pandemia, o Sistema Único de Saúde – SUS se revelou de extrema importância. Mas, agora, diante do atual cenário, qual imagina ser o futuro do SUS? Ele sai fortalecido ou sai sob ameaças dessa experiência?

Maria Inez Padula Anderson – A maioria da população brasileira reconhece que o SUS tem sido fundamental na defesa da vida no atual cenário da saúde, graças à ação exemplar dos seus profissionais, a começar pelo trabalho incansável das equipes multiprofissionais nas unidades básicas de saúde. Este reconhecimento é um claro sinal de valorização que deixará o SUS mais fortalecido diante das ameaças que se vê na contingência de enfrentar. Por outro lado, o SUS público, universal e gratuito, como todas as políticas que pretendem reduzir ou minorar a enorme desigualdade social no Brasil, sofre, desde o seu nascimento, com iniciativas de desmonte, a começar pelo subfinanciamento crônico.

Neste sentido, quanto mais valorizado ele for e quanto mais sua visibilidade positiva atingir a camada da população melhor favorecida financeiramente, mais organizadas serão as políticas de desmonte e de destruição da sua imagem; mais intensa será a propaganda, apontando para uma suposta superioridade da saúde privada, dos planos de saúde (ações que, avalio, estão na base dos movimentos que atuam para a desvalorização e do insucesso do SUS).

O SUS público, universal e gratuito sofre, desde o seu nascimento, com iniciativas de desmonte, a começar pelo subfinanciamento crônico – Maria Inez Padula Anderson Tweet

IHU On-Line – A pandemia atingiu também as contas de hospitais particulares e planos de saúde. Em que medida isso poderá representar um recuo sobre as lógicas de ‘privatizar a saúde no Brasil’? Ou seria esse mais um capítulo para atualizar a tese da privatização?

Maria Inez Padula Anderson – Em uma situação de pandemia, especialmente uma inédita, como é o caso do coronavírus, todos os serviços de saúde necessitam passar por um reajuste e uma adaptação visando dar suporte às novas demandas criadas. No caso do coronavírus, foi necessário adaptar e redimensionar praticamente todos serviços e unidades de saúde, desde a prevenção e assistência, em todos os níveis do sistema: das unidades de Atenção Primária aos Centros de Terapia Intensiva.

Naturalmente, este processo fere a lógica de planejamento e de previsão de lucros que envolve o setor privado, hospitais e planos de saúde. E, possivelmente, deve ter havido algum impacto nos lucros, de um modo geral bastante generosos, obtidos por este setor. Mas, vale lembrar que os planos de saúde operam com 55% de todos os recursos investidos em saúde no Brasil e atendem somente a 25% da população. O SUS, que atende a 100% da população, mesmo aquelas que têm planos de saúde, através de uma gama muito mais abrangente de serviços de saúde, em unidades básicas, ambulatórios de especialidade, hospitais, centros de diagnóstico e tratamento, com um dos maiores sistemas de transplante de órgãos do mundo, com o maior sistema público de vacinação do mundo, de oferta de medicamentos de forma gratuita e, além disso, ainda realiza vigilância sanitária, epidemiológica, com controle da qualidade da água, dos alimentos, da análise e liberação de medicamentos e intervenções em saúde, utiliza 45% dos recursos disponibilizados para a saúde.

A tese de que o SUS é pouco eficiente, é equivocada tecnicamente e, em alguns aspectos, chega a ser criminosa. O SUS faz muito, com muito pouco – Maria Inez Padula Anderson Tweet

Ou seja, para a Saúde Pública, aquela onde o lucro não faz parte da lógica de funcionamento, e que atende a todas e todos, os recursos financeiros são menos da metade do total de recursos em saúde do país. O orçamento para Saúde Pública brasileira é muito inferior ao dos chamados países desenvolvidos, mas também é inferior ao de muitos países da própria América Latina. São menos de cinquenta reais por pessoa por mês; são menos de dois reais por dia. Países europeus investem quatro a cinco vezes mais em saúde pública. Ou seja, a tese de que o SUS é pouco eficiente, é equivocada tecnicamente e, em alguns aspectos, chega a ser criminosa. O SUS faz muito, com muito pouco.

Se estes argumentos não bastarem para sensibilizar e orientar a nação brasileira e, especificamente, gestores da saúde e políticos em favor do fortalecimento do SUS, com um investimento que seja compatível e adequado às suas responsabilidades, o que será?

Os planos de saúde operam com 55% de todos os recursos investidos em saúde no Brasil e atendem somente a 25% da população – Maria Inez Padula Anderson  Tweet

IHU On-Line – Uma das referências do SUS é o Programa Nacional de Imunizações – PNI, que tem quase 70 anos. Em que consiste esse programa e o que faz dele uma referência mundial?

Maria Inez Padula Anderson – O Programa Nacional de Imunizações – PNI, criado em 1973, tem por objetivo a vacinação da população brasileira, de forma gratuita, e para todas as classes sociais, focando as doenças imunopreveníveis – aquelas passíveis de ser controladas, eliminadas e/ou erradicadas por vacinas. Para tanto, o PNI atua de forma coordenada e sistemática em conjunto com os serviços públicos de saúde, especialmente, da Atenção Primária à Saúde, ou por meio de equipes volantes em regiões de difícil acesso, em todo o território nacional.

Os números são impressionantes: são mais de 300 milhões de doses anuais distribuídas em vacinas, soros e imunoglobulinas. De forma gratuita, são disponibilizados pela rede pública mais de 40 produtos nesta área, incluindo 28 vacinas e 17 tipos de soro com imunoglobulinas. São 18 vacinas que fazem parte do calendário de vacinação, protegendo contra 19 doenças, muitas incapacitantes como a poliomielite, e outras que podem levar à morte, como a meningite. O calendário inclui as vacinas: BCG (previne as formas graves de tuberculose); hepatite B; penta (previne difteria, tétano, coqueluche, hepatite B e infecções causadas pelo vírus da gripe); poliomielite; pneumocócica (previne a pneumonia, otite, meningite e outras doenças causadas pelo pneumococo); rotavírus (previne diarreia por rotavírus); meningocócica C (previne meningite causada pela neisseria meningitidis); febre amarela; tríplice viral (previne sarampo, caxumba e rubéola); DTP (previne a difteria, tétano e coqueluche); hepatite A; tetra viral (previne sarampo, rubéola, caxumba e varicela/catapora); varicela atenuada (previne varicela/catapora).

Há, ainda, doze vacinas especiais para grupos em condições clínicas específicas, como pessoas com o vírus HIV e outras, disponíveis nos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais – CRIE. O Calendário Nacional de Vacinação contempla crianças, adolescentes, adultos, idosos, gestantes e indígenas. Através da sua história e atuação, o PNI tem como resultados a erradicação da varíola e da poliomielite, no país, além da redução dos casos e mortes de todas as outras doenças acima citadas.

O PNI deve ser considerado, assim como o próprio SUS, um patrimônio da população brasileira. Por tudo isso, o PNI tem reconhecimento internacional e faz do Brasil um exemplo a ser seguido no mundo.

O programa de imunização começou a ser pensado tardiamente, insuficientemente e incompetentemente – Maria Inez Padula Anderson Tweet

IHU On-Line – Como a senhora tem acompanhado as discussões, especialmente dentro de instâncias do governo, acerca da construção de um programa de imunização que operacionalize a aplicação das vacinas contra a covid-19? O que isso tem revelado sobre como o Brasil tem vivido a pandemia?

Maria Inez Padula Anderson – A política governamental em relação à covid-19 pode ser considerada, no mínimo, desastrosa, inclusive em relação aos processos e operações que envolvem o sistema de vacinação. Desde o princípio, o governo desacredita a pandemia. O próprio presidente da República, de forma irresponsável, a caracterizou como “gripezinha”, além de promover o uso de medicamentos sem comprovação científica, realizar encontros com aglomeração e desvalorizar o uso de máscaras e isolamento social. Agora, em plena segunda onda, próximo a 200 mil brasileiros e brasileiras mortos, alardeia que a pandemia está no “finalzinho”. Naturalmente, essa postura afeta e se reflete nas ações do Ministério da Saúde, que seriam fundamentais na coordenação de todo o processo de combate à pandemia e proteção da população. Ficamos mais de dois meses sem ministro da Saúde em plena pandemia e, anteriormente, o ministro que buscava coordenar, de forma mais racional e cientificamente embasada, a atuação contra a pandemia, foi demitido em abril de 2020, quando a situação já dava mostras de muita gravidade.

O programa de imunização começou a ser pensado tardiamente, insuficientemente e incompetentemente, somente após muita pressão de grupos científicos, mas, especialmente, após iniciativas estaduais de vacinação, caracterizando um movimento mais afinado a interesses políticos do que humanitários. Ou seja, estamos em uma situação desfavorável a nível internacional, quando podíamos estar à frente, com o exemplo da experiência de sucesso e histórico do PNI. Agora, para agravar ainda mais a situação, o presidente e forças políticas, que atuam através de supostas práticas religiosas e fake news, promovem – de forma proativa e deliberada – desconfiança e insegurança da população em relação à vacina. Retrato de um Brasil golpista, necrófito, negacionista, iníquo e aporofóbico, que temos que superar, urgentemente.

A via judicial se impôs pela ausência quase completa de transparência e clareza das ações do Ministério da Saúde no que tange à pandemia – Maria Inez Padula Anderson Tweet

IHU On-Line – Qual a sua avaliação sobre a proposta de programa de vacinação levada pelo Ministério da Saúde ao Supremo Tribunal Federal – STF? E, aliás, o que representa essa proposta ter vindo a público apenas pelas vias judiciais? Essa proposta levada ao STF ainda está envolta em polêmicas. Uma delas é a de que os técnicos que auxiliaram na construção do documento não tiveram acesso a uma versão final. O que isso revela sobre a visão desse governo acerca da gestão da saúde pública e universal?

Maria Inez Padula Anderson – Muito da resposta a estas duas perguntas está colocada no que respondi acima e anteriormente. A via judicial se impôs pela ausência quase completa de transparência e clareza das ações do Ministério da Saúde no que tange à pandemia. Todas as informações – que deviam vir de forma sistemática e organizada por parte do Ministério da Saúde – só vêm à tona por pressão judicial e/ou popular e/ou da classe científica. Agora, as polêmicas em torno do processo de elaboração da proposta, do seu conteúdo e colaboradores, revelam mais do mesmo: incertezas, falta de clareza e – segundo consta – irresponsabilidade, na medida em que a última versão não sofreu revisão ou considerações de profissionais de saúde convidados para esta tarefa.

Você pergunta o que isso revela sobre a visão desse governo acerca da gestão da saúde pública e universal. Penso que isso revela uma visão de mundo desse governo – não só acerca da gestão pública: uma visão sobre o que é realidade, sobre o que é a ciência e sobre o significado de respeito aos processos de construção coletiva. Também, revela incompetência técnica.

IHU On-Line – No Brasil, dada a atual conjuntura, teremos vacinas para todos? E em quanto tempo?

Maria Inez Padula Anderson – No atual contexto, sem o protagonismo do Ministério da Saúde, com atraso e retardo no início das ações de forma organizada junto aos estados e municípios, é difícil responder a esta pergunta com precisão. Tudo o que podemos e viermos a conseguir de positivo, só poderá ser através da atuação, mais uma vez, do SUS, o único que conseguirá desenvolver ações de forma coordenada em todos os níveis de governo, possibilitando acesso universal, a todos e todas, às vacinas.

Aparentemente, ao longo de 2021, iniciando em fevereiro, podemos conseguir ter um plano de vacinação e executar as operações correspondentes, começando com os grupos mais vulneráveis (como deve ser) e, processualmente, ao restante da população. Avalia-se que, até o final do próximo ano, existe a possibilidade de termos atingido a imunidade de rebanho – quando a vacinação cobriu mais de 60% da população, diminuindo o risco da transmissão e consequentemente de novos casos. A situação atual é profundamente lamentável, pois o Brasil, através de seus laboratórios públicos e recursos tecnológicos, poderia e deveria estar produzindo vacinas em escala para todo o Brasil e para apoiar países de economia mais pobre.

Saúde não é mercadoria, não pode ser um bem de consumo, pois saúde não se vende e não se compra – Maria Inez Padula Anderson Tweet

IHU On-Line – A corrida mundial pela vacina contra a covid-19 tem se configurado como uma nova geopolítica. Como a senhora analisa esse cenário globalmente? Quais os riscos de a vacina ser algo apenas para países ricos e intermediários, como o Brasil?

Maria Inez Padula Anderson – O mundo é desigual e, na grande maioria dos países, a economia é baseada em princípios capitalistas, que permitem a manutenção desta desigualdade (e, lucram com ela), uma vez que colocam o dinheiro e a economia fria no centro das políticas e da gestão. Lucro e benefícios para quem pode pagar, e para quem paga mais, costumam ser a tônica. Assim, não diria que a corrida mundial contra a covid-19 é uma nova geopolítica. Penso que ela a coloca em evidência, mais uma vez e, neste momento, de forma trágica. Talvez até, neste contexto, esteja havendo iniciativas vinculadas à Organização Mundial da Saúde, à Organização Pan-Americana da Saúde, com a promessa de participação de países como Canadá, que atuou e tem potencial para vacinar cinco vezes a sua população, e Cuba, que está desenvolvendo sua vacina no sentido de apoio, com venda ou distribuição gratuita a países de economia mais pobre.

Podemos aprender muito com esta pandemia: sobre a humanidade, sobre os políticos, sobre os gestores, sobre os sistemas, sobre os valores da sociedade. Para mim, como médica, ela reafirma que saúde não é mercadoria, não pode ser um bem de consumo, pois saúde não se vende e não se compra. No Brasil, o direito à saúde está na nossa constituição, assim como o dever do Estado em prover suas condições. Precisamos mudar. Não podemos continuar neste processo de desvalorização da saúde pública. As pessoas, de todas as classes sociais, precisam entender que sem a saúde pública, sem um SUS forte, entraremos, cada vez mais, em um processo autodestrutivo para todos, para o país e para a economia.

As pessoas, de todas as classes sociais, precisam entender que sem a saúde pública, sem um SUS forte, entraremos, cada vez mais, em um processo autodestrutivo para todos, para o país e para a economia – Maria Inez Padula Anderson Tweet

IHU On-Line – Vários especialistas apontavam, antes da pandemia, uma série de ações de ataque ao SUS por parte do governo Bolsonaro. Mas, nesses episódios das vacinas, em que medida podemos afirmar que também o Programa Nacional de Imunizações está sendo desvertebrado?

Maria Inez Padula Anderson – O desmonte do SUS, naturalmente, afeta todos os seus serviços, inclusive o PNI. A política do atual governo reforça a iniciada em 2016, a partir do golpe de estado. Esta orientação, para a área da saúde, visa o desmonte do SUS como política pública. Para tanto uma medida de impacto foi tomada neste sentido através da Emenda Constitucional 95, também conhecida como PEC da morte, que congela recursos da saúde e da educação para a população brasileira, por 20 anos. Já registramos aumento das taxas de mortalidade infantil e piora de vários indicadores de saúde, naturalmente, afetando os mais pobres por causa desta brutal medida.

Ricardo Barros, ministro do governo Temer, que teve sua vida política financiada pelos planos de saúde, declarou: “O SUS não cabe no orçamento”. Vale lembrar que, desde o início da sua existência, o SUS é subfinanciado. Agora, temos a ameaça de corte da ordem de 40 bilhões de reais no orçamento do SUS para 2021. É triste. Mas, acima de tudo, é revoltante e vergonhoso ter políticos e gestores públicos de saúde, que deveriam defender e cuidar da saúde da população brasileira, atuando de forma praticamente lobista, voltados para os interesses privados e seus próprios interesses.

Podemos aprender muito com esta pandemia: sobre a humanidade, sobre os políticos, sobre os gestores, sobre os sistemas, sobre os valores da sociedade – Maria Inez Padula Anderson Tweet

IHU On-Line – A senhora é médica de família e doutora em Saúde Coletiva. Como avalia, para além da situação de pandemia, a realidade dos programas e estratégias de saúde da família no Brasil hoje?

Maria Inez Padula Anderson – A Estratégia Saúde da Família – ESF tem recebido justo reconhecimento nacional e internacional por suas contribuições tanto para a melhoria dos indicadores de saúde – a exemplo da redução das taxas de mortalidade infantil – quanto da organização do sistema de saúde. Para tanto, as equipes multiprofissionais da Estratégia focalizam de modo integrado as necessidades de saúde de uma população específica, desenvolvendo ações abrangentes que incluem as de promoção, proteção e recuperação da saúde das pessoas, suas famílias e respectivas comunidades.

Apesar destas evidências de sucesso, o custo-efetividade vem, desde 2019, sob a batuta do Ministério da Saúde à época, sofrendo um desmonte progressivo da ESF, a partir da promoção de outras formas de organização e, mais gravemente, outra lógica de concepção de assistência à saúde – passando para um movimento mais pontual, centrado na doença e não nas pessoas. Ou seja, uma concepção mais atrasada e antiquada de atuação sobre o processo saúde-adoecimento.

Além disso, há uma nova forma de financiamento da Atenção Primária que se contrapõe à equidade alcançada pela anterior. Esta nova lógica, que perpassa modelos e formas de financiamento, é mais palatável aos grupos interessados na privatização da Atenção Primária, área mais abrangente de serviços de saúde e que, até o momento, é preponderantemente pública. Há poucas semanas, o governo havia editado uma medida que dava início formal ao processo de privatização. A população reagiu, de modo intenso, através de manifestações na mídia. A repercussão fez o governo voltar atrás, pelo menos provisoriamente, mas a ameaça é concreta.

É revoltante e vergonhoso ter políticos e gestores públicos de saúde, que deveriam defender e cuidar da saúde da população brasileira, atuando de forma praticamente lobista, voltados para os interesses privados e seus próprios interesses – Maria Inez Padula Anderson Tweet

IHU On-Line – Qual foi o papel da atenção básica na pandemia e como dimensionar esse papel daqui por diante?

Maria Inez Padula Anderson – Com base no modelo de atuação Estratégia Saúde da Família, como expresso anteriormente, com ações abrangentes, cobrindo ações de prevenção de adoecimentos, educação e promoção e assistência e reabilitação em saúde, com capacidade resolutiva para mais de 80% dos problemas de saúde, podemos afirmar que o papel da Atenção Primária foi fundamental para evitar uma situação ainda mais trágica.

Apesar do desmonte progressivo, podemos afirmar que, de um modo geral, as equipes da ESF, com os agentes comunitários de saúde, foram as principais responsáveis pelo primeiro atendimento como também pelo acompanhamento das pessoas com sintomas clínicos, ao lado do desenvolvimento de ações educativas em relação ao afastamento social e demais cuidados individuais necessários em cada caso. Além disso, desempenharam papel fundamental no campo da vigilância sanitária e demais medidas de saúde pública para prevenir a disseminação da doença e, por fim, estimular a comunidade a aderir às medidas de proteção em benefício de todos.

Por tudo isso, é fundamental cuidar, ampliar e fortalecer especialmente as equipes de saúde da família, com os Núcleos de Apoio à Saúde da Família, pela sua capacidade resolutiva e trabalho em equipe multiprofissional. É preciso prover infraestrutura físico-funcional adequada, incluindo mais pessoal – muitos afastados e adoecidos – por causa da pandemia. São mais de 46 mil equipes já existentes e espalhadas em todo território nacional – com força de cobertura atual para mais de 180 milhões de brasileiras e brasileiros.

O SUS é mais do que um patrimônio da população brasileira. É um patrimônio da humanidade. Precisamos, todas e todos, cuidar dele – Maria Inez Padula Anderson Tweet

IHU On-Line – Quais foram os maiores avanços em termos de saúde pública e universal no Brasil nos últimos anos? E quais os maiores retrocessos? Que caminhos podemos construir para superar esses retrocessos e avançarmos ainda mais?

Maria Inez Padula Anderson – Em termos de avanço, podemos citar: melhoria do acesso aos serviços de saúde, desde os mais simples aos mais sofisticados. Todo ser humano, em solo brasileiro, tem direito e pode acessar qualquer nível do sistema e qualquer serviço público de saúde existente em território nacional, sem dispender nenhum recurso financeiro.

A equidade impressa nesta lógica, aliada aos avanços no campo da prevenção de doenças transmissíveis, universalização do tratamento da Aids, transplantes de órgãos, dispensação de medicamentos de alto custo, vigilância sanitária e epidemiológica, representam um avanço em termos de sistemas universais de saúde, não encontrando equivalência em qualquer outro país do mundo.

Por último, desejo destacar a implantação e desenvolvimento da Atenção Primária à Saúde de qualidade, através da Estratégia Saúde da Família, elemento essencial para dar concretude ao conceito de universalidade e equidade que todo sistema de saúde deve buscar.

Atualmente estamos sob o comando de um governo e de uma lógica ultraliberal, que ameaça de forma mais contundente o SUS e todos os avanços alcançados até agora. Os caminhos para superar os retrocessos e avançarmos ainda mais incluem a necessidade de a população brasileira assumir as rédeas do seu destino como nação e saber do seu potencial de construir um mundo melhor, através dos bons exemplos que temos no campo da saúde, especificamente do SUS. Neste sentido, a sociedade organizada, as instituições de saúde e educação, a população brasileira, têm que conhecer mais e eleger melhor, cobrar de forma mais efetiva dos políticos e gestores que defendam a saúde da população brasileira. Para isso precisamos do SUS. Sem o SUS é a barbárie, como assinalou Drauzio Varella.

O SUS é mais do que um patrimônio da população brasileira. É um patrimônio da humanidade. Precisamos, todas e todos, cuidar dele. Ele cuida de todas e todos nós. O Brasil precisa do SUS.

La Navidad de Jesús y nuestraNavidad bajo la COVID-19

Leonardo Boff

La Navidad del año 2020 tal vez sea la más parecida al verdadero Nacimiento de Jesús bajo el emperador romano Cesar Augusto.

Este emperador había mandado hacer un censo de todo el imperio. La intención no era solo, como entre nosotros, contabilizar cuantos habitantes había. Era esto, pero con el propósito de cobrar un impuesto a cada habitante, que sumado al de todas las provincias se destinaba a mantener encendida la pira de fuego permanentemente y sustentar los sacrificios animales al emperador, que se presentaba y así era venerado, como dios. Tal imposición a todos los habitantes del imperio provocó revueltas entre los judíos.

Este hecho fue usado más tarde por los fariseos para tender una trampa Jesús: ¿debía pagar o no el impuesto al Cesar? No se trataba del impuesto común, sino de aquel que cada persona del imperio debía pagar para alimentar los sacrificios al emperador-dios.

Para los judíos esto significaba un escándalo pues adoraban a un único Dios, Yavé, ¿cómo iban a poder pagar un impuesto para venerar a un falso dios, el emperador de Roma? Jesús se dio cuenta de la celada. Si aceptaba pagar el impuesto seria cómplice de adoración a un dios humano y falso, el emperador. Si se negaba, se indispondría con las autoridades imperiales negándose a pagar el tributo en homenaje al emperador-dios.

Jesús dio una respuesta sabia: “Dad al Cesar lo que es del Cesar y a Dios lo que es de Dios”. En otras palabras, dad al Cesar, un hombre mortal y un falso dios, lo que es de César: el impuesto para los sacrificios, y a Dios, el único verdadero, lo que es de Dios: la adoración. No se trata de la separación entre la Iglesia y el Estado, como comúnmente se interpreta. La cuestión es otra: ¿cuál es el Dios verdadero? Denle a él lo que le corresponde, la adoración. Y al Cesar, el falso dios, lo que es del César: la moneda del impuesto. No mezclen a dios con Dios.

Pero volvamos al tema: La Navidad de 2020 se asemeja a la navidad de Jesús, como nunca antes en la historia. La familia de José y María encinta es hija de la pobreza como la mayoría de nuestro pueblo. Las hospederías estaban llenas, como aquí los hospitales están llenos de gente contaminada por el virus. Como pobres, José y María tal vez no eran capaces de pagar los gastos, así como entre nosotros quien no es atendido por el SUS no tiene cómo pagar los costes de un hospital particular. María estaba a punto de dar a luz. A la pareja no le quedó más solución que refugiarse en un establo de animales, como hacen hoy tantos pobres que no tienen donde dormir y se acuestan bajo las marquesinas o en un rincón de cualquier ciudad. Jesús nació fuera de la comunidad humana, entre animales, como tantos de nuestros hermanos y hermanas menores nacen en las periferias de las ciudades, fuera de los hospitales, en sus pobres casas.

Después de su nacimiento, el Niño fue amenazado muy pronto de muerte. Un genocida, el rey Herodes, mandó matar a todos los niños menores de dos años. ¿Cuántos niños en nuestro contexto son muertos por los nuevos Herodes vestidos de policías que matan a niños sentados a la puerta de sus casas? El llanto de las madres es el eco del llanto de Raquel en uno de los textos más conmovedores de todas las Escrituras: “En la Baixada (en Ramá) se oyó una voz, mucho llanto y muchos gemidos: es la madre llora a sus hijos muertos y no quiere ser consolada porque los perdió para siempre” (cf.Mt 2,18).

Por temor a ser descubierto y muerto, José tomó a María y al niño, atravesaron el desierto y se refugiaron en Egipto. Cuántos hoy, bajo amenaza de muerte por las guerras y por el hambre, tratan de entrar en Europa y en Estados Unidos. Muchos mueren ahogados, la mayoría es rechazada, como en la catoliquísima Polonia, y son discriminados; se llega a arrancar a los niños de los padres y se los encierra en jaulas, como pequeños animales. ¿Quién les enjugará las lágrimas? ¿Quién les quitará la saudade de sus padres queridos? Nuestra cultura se muestra cruel con los inocentes y con los inmigrantes forzados.

Después que murió el genocida Herodes, José tomó a María y al Niño y fueron a esconderse en un pueblecito, Nazaret, tan insignificante que ni siquiera consta en la Biblia. Allí el Niño “crecía y se fortalecía lleno de sabiduría” (Lc 2,40). Aprendió la profesión del padre, José, un fac-totum constructor de tejados y cosas de la casa, un carpintero. Era también un campesino que trabajaba el campo y aprendía a observar la naturaleza. Allí estuvo escondido hasta cumplir treinta años, cuando sintió el impulso de salir de casa y empezar la predicación de una revolución absoluta: “El tiempo de espera acabó. El gran cambio (Reino) está llegando. Cambien de vida y crean en la buena noticia” (cf.Mc 1,14): una transformación total de todas las relaciones entre los humanos y con la propia naturaleza. 

Conocemos su fin trágico. Pasó por el mundo haciendo el bien (Mc 7,37; Hechos 10,39), curando a unos, devolviendo la vista a los ciegos, dando de comer a las multitudes y compadeciéndose siempre del pueblo pobre y sin rumbo en la vida. Los religiosos confabulados con los políticos lo prendieron, lo torturaron y lo asesinaron, crucificándolo.

Salgamos de estas “densas sombras” como dice el Papa Francisco en la Fratelli tutti. Volvamos la mirada clara al nacimiento de Jesús. Él nos muestra la forma como Dios quiso entrar en nuestra historia: anónimo y escondido. La presencia de Jesús no apareció en la crónica de Jerusalén ni mucho menos en la de Roma. Debemos aceptar esta forma escogida por Dios. Se realizó la lógica inversa a la nuestra: “todo niño quiere ser hombre; todo hombre quiere ser grande; todo grande quiere ser rey. Solo Dios quiso ser niño”. Y así sucedió. 

Aquí resuenan los bellos versos del poeta portugués Fernando Pessoa:

“Él es el Eterno Niño, el Dios que faltaba.

Él es tan humano que es natural,

Él es lo divino que ríe y juega.

Es un niño tan humano que es divino”

Tales pensamientos traen a mi memoria a una persona de excepcional calidad espiritual. Fue ateo, marxista, de la Legión Extranjera. De repente sintió una conmoción profunda y se convirtió. Escogió el camino de Jesús, en medio de los pobres. Se hizo Hermanito de Jesús. Llegó a una profunda intimidad con Dios y lo llamaba siempre “el Amigo”. Vivía la fe según el código de la encarnación y decía: “Si Dios se hizo gente en Jesús, gente como nosotros, entonces hacía pipí, lloriqueaba pidiendo el pecho, hacía pucheros si tenía el pañal mojado”. Al principio le habría gustado más María, y después, crecidito, más José, cosa que los psicólogos explican en el proceso de la realización humana.

Fue creciendo como nuestros niños, observaba a las hormigas, tiraba piedras a los burros y, travieso, levantaba el vestidito a las niñas para verlas furiosas, como imaginó irreverentemente Fernando Pessoa en su bello poema sobre Jesús Niño.

Ese hombre, amigo del Amigo, “imaginaba a María acunando a Jesús para que durmiera porque de tanto jugar fuera se excitaba mucho y le costaba cerrar los ojos; lavaba los pañales en el balde; cocinaba la papa para el Niño y comidas mas fuertes para el trabajador, el buen José”.

Ese hombre espiritual italiano que vivió, muchas veces amenazado de muerte, en tantos países de América Latina y varios años en Brasil, Arturo Paoli, se alegraba interiormente con tales cavilaciones, porque las sentía y vivía como conmoción del corazón, de pura espiritualidad. Y lloraba con frecuencia de alegría interior. Era amigo del Papa que lo mandó a buscar con un coche a su pequeña ciudad a unos 70 km de Roma para pasar la tarde juntos y hablar de la liberación de los pobres y de la misericordia divina. Murió a los 103 años como un sabio y santo.

No olvidemos el mensaje principal de Navidad: Dios está entre nosotros, asumiendo nuestra condition humaine, alegre y triste. Es un niño quien nos va a juzgar, no un juez severo. Y este niño solo quiere jugar con nosotros y no rechazarnos nunca. Finalmente, el sentido más profundo de la Navidad es este: nuestra humanidad, un día asumida por el Verbo de la vida, pertenece a Dios. Y Dios, por peores que seamos, sabe que venimos del polvo y tiene con nosotros una misericordia infinita. Él nunca puede perder, ni va a dejar que un hijo o una hija suya se pierdan. Así que a pesar de la Covid-19 podemos vivir una discreta alegría en la celebración familiar. Que la Navidad nos dé un poco de felicidad y mantenga en nosotros la esperanza del triunfo de la vida sobre la Covid-19.

Leonardo Boff es teólogo, filósofo y escritor y ha escrito Encarnación: la humanidad y la jovialidad de nuestro Dios, Vozes 2015 y Sal Terrae. 

Traducción de M.ª José Gavito Milano

Fiocruz, Fratelli tutti y el Papa Francisco

Leonardo Boff

Fiocruz (Fundación Oswaldo Cruz) con 120 años de existencia es una referencia internacional en ciencia y tecnología en ciencias biológicas y de la salud, especialmente en salud pública. En este tiempo de pandemia de la Covid-19 ha desempeñado un papel fundamental en el esclarecimiento de la acción del virus y también en la producción de una vacuna en colaboración con la universidad de Oxford. En el ámbito de Seminarios Avanzados de Salud Global y Diplomacia de la Salud se solicitó un debate sobre la encíclica social Fratelli tutti del Papa Francisco.

Los científicos, animados por la presidenta de esta magna institución, tal vez la mayor de América Latina, Nísia Trindade de Lima, organizaron un debate sobre la encíclica, conscientes de su relevancia humanitaria. En el debate estaba el presidente de la Academia Brasilera de Ciencias, Luiz Davidovich y la investigadora emérita Cecília Minayo, siendo moderador el profesor emérito de la Fiocruz, Paulo Marchiori Buss.

La presidenta, Nísia Trindade Lima, solicitó el apoyo del Papa Francisco. Este vino, rico y minucioso, celebrando el significado de Fiocruz, pero llegó solo al día siguiente cuando debería haber sido para la apertura del evento. Pero valió la pena este reconocimiento.

A mí me solicitaron una breve exposición sobre Fratell tutti, que acepté honrado, dada el alto significado de Fiocruz. El texto que está siendo publicado, representa lo que se expuso a los presentes. Siguió un breve e inteligente debate, valorando siempre la contribución de Fratelli tutti en el modelado de un nuevo futuro para la humanidad en la post-Covid-19. Sigue el texto de la charla.

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No es difícil darse cuenta de que el Papa Francisco con la encíclica social Fratelli tutti rechaza el actual modo de vivir en la Casa Común, pues afirma “Si alguien cree que sólo se trataba de hacer funcionar lo que ya hacíamos, o que el único mensaje es que debemos mejorar los sistemas y las reglas ya existentes, está negando la realidad” (n.7).

Directamente afirma “que es una ilusión engañosa pensar que podemos creer que podemos ser todopoderosos y olvidar que estamos todos en la misma barca” (n.30). En función de eso advierte: “nadie se salva solo, sólo es posible salvarnos juntos” (n.32).) En un twitter de finales de octubre declaró: “O nos salvamos todos o no se salva nadie”.

1. El rechazo del sistema actual globalizado

Ataca directamente los cuatro pilares que sustentan el sistema mundial: el mercado en términos de economía, el neoliberalismo en términos de política, el individualismo en términos de cultura y la devastación de la naturaleza, en términos de ecología. “El mercado por si solo· afirma el Papa, “no resuelve todo, aunque a veces nos quieran hacer creer este dogma de fe neoliberal. Se trata de un pensamiento pobre, repetitivo, que propone siempre las mismas recetas ante cualquier reto que surja. El neoliberalismo se reproduce siempre igual a sí mismo… como el único camino para resolver los problemas sociales” (n.168). El individualismo es presentado “como el virus más difícil de vencer; no es capaz de generar un mundo mejor para toda la humanidad… como si, acumulando ambiciones y seguridades individuales, pudiésemos construir el bien común” (n. 105). En términos de ecología critica la destrucción de la naturaleza en razón de de acumular más y más ganancias y de las muertes que produce en la humanidad y en la naturaleza.

“La sociedad mundial tiene serias fallas estructurales que se resuelven con parches o soluciones rápidas meramente ocasionales. Hay cosas que deben ser cambiadas con reajustes profundos y transformaciones importantes” (n.179). Su propósito es acumular sin límites, dando por supuesto supuesto que los recursos naturales también serían ilimitados. Tal suposición resulta ser falsa. La Laudato Sì lo denuncia como “una mentira” (n.161), porque un planeta finito no soporta un proyecto infinito.

Conclusión: nos encontramos hoy en un mundo “sin proyecto para todos” (n.15; n.31). Sin él, todos somos rehenes del proyecto privado de los más fuertes que establece una perversa opresión económica, social y cultural sobre todas las sociedades humanas, inaugurando, según algunos científicos, una nueva era geológica, la del antropoceno, en la que el ser humano constituye la gran amenaza para la vida. 

Ese sistema no se afina con la naturaleza humana, que es esencialmente cooperativa y solidaria, como nos enseñan las neurociencias y las ciencias de la vida. El ser humano en verdad emerge como un ser de relación orientado hacia todas las direcciones, conectándose con toda la realidad, también divina.

Esta forma de habitar la Casa Común niega una de las constantes cosmológicas que preside todo el universo y sostiene a todos los seres, desde las galaxias más distantes, las estrellas y nuestra Tierra hasta cada uno de nosotros. Esta constante significa que todo está relacionado con todo y que no existe nadie fuera de la relación (Laudato Si, n. 86; 117). 

Todo esto es rechazado, práctica y teóricamente, por este sistema que atomiza las ciencias y las prácticas productivas y se ha convertido, en palabras del gran biólogo Edward Wilson, en el gran Satán de la Tierra, en lugar de ser su ángel bueno y cuidador. Se ha convertido en el meteoro rasante que mata y asesina vidas de la naturaleza y de la humanidad, una expresión usada a menudo por el Papa Francisco.

En este contexto de un sistema a la deriva, con un futuro sin futuro, el Papa Francisco propone una alternativa, basada en principios y valores ausentes en el orden actual, en plena crisis sistémica. 

¿En qué fuentes beberá los principios y valores que pueden representar una alternativa al orden/desorden actual? Busca en lo que es más humano en los humanos, porque sólo ahí se encuentra una base sólida, sostenible y personalizable. Por ser esencialmente humanos, estos valores y principios están presentes en todos los hombres y mujeres de las más diferentes culturas, adquiriendo diferentes expresiones, propias de cada tradición cultural, pero siempre como articulaciones de estos datos antropológicos básicos.

Entonces, el amor deja de ser una experiencia sólo entre dos seres que se atraen, para emerger como amor social. De la misma manera, la amistad adquiere una expresión social, “porque no excluye a nadie” (n.94), la fraternidad entre todos los humanos es sin fronteras, incluyendo, en el espíritu de San Francisco, a los demás seres de la naturaleza, ya que Francisco llamaba con el dulce nombre de hermanos y hermanas a todas las criaturas, por pequeñas que fueran; la cooperación, abierta a todos los países y culturas; el cuidado, empezando por uno mismo (n.117) se expande a todo lo que existe y vive especialmente el cuidado de la naturaleza y de la Madre Tierra; asimismo, la justicia social y la compasión universalizadas con todos los que sufren en la naturaleza y en la humanidad. Todo este mundo de excelencias está presente en el ser humano. Aquí está el nuevo paradigma que deberá prevalecer en la post-epidemia.

Estos valores se vivían sólo subjetivamente en relaciones cortas y en la privacidad de la vida. La novedad del Papa fue generalizar y universalizar lo que era subjetivo e individual.

Si observamos bien, lo que nos ha ayudado a enfrentarnos a la Covid-19 no han sido los mantras del capitalismo y el neoliberalismo. Fueron la centralidad de la vida en lugar de la búsqueda del beneficio, la interdependencia de todos con todos en lugar del individualismo, la solidaridad y la cooperación entre los pueblos en lugar de la competencia, la inclusión de todos en la Casa Común y no la afirmación de una soberanía superada por la nueva fase planetaria de la globalización, el cuidado mutuo, de la naturaleza y de la Madre Tierra, en lugar del saqueo desenfrenado de los bienes y servicios naturales, la priorización de la sociedad en lugar de la dominación de la economía y la política por el mercado, un Estado suficientemente pertrechado para satisfacer las demandas de la población en lugar del Estado mínimo. Esta inversión de valores y prioridades es la que está salvando a la humanidad de los ataques de la Covid-19.

He aquí la alternativa presentada en Fratelli tutti: “un nuevo sueño de fraternidad y amistad social… que se abre al diálogo con todas las personas de buena voluntad” (n.6).

Es importante entender el sueño aquí como lo interpretan muchos psiquiatras, como por ejemplo C.G. Jung: “como la anticipación de logros futuros” o “como la anticipación previa, a través del inconsciente colectivo, de posibilidades reales”.

La fraternidad y la amistad social serán los ejes estructuradores de toda su propuesta. El Papa se da cuenta de lo inusitado de su propuesta, reconociendo que “parece una utopía ingenua, pero no podemos renunciar a este sublime objetivo” (n.190). Dónde si no en la naturaleza humana, siempre relacionada con el todo, hay que buscar la alternativa a un tipo de sociedad inhumana y cruel con sus propios semejantes en el afán de acumular bienes materiales. Ella olvida que el ser humano no es un animal hambriento, sino un ser que tiene hambre de pan pero también otra hambre, de amor, de reconocimiento, de paz con la naturaleza, de belleza y de diálogo con el Trascendente.

2. Contraposición de dos paradigmas: señor & hermano 

Para comprender mejor la novedad de esta propuesta paradigmática, sería esclarecedor compararla con el paradigma que subyace al actual sistema mundial y que ha estado vigente durante más de dos siglos: el de los tiempos modernos.

Se acepta entre pensadores, filósofos, científicos sociales y de otras áreas de pensamiento que el ideal a perseguir y generar en los tiempos modernos, ya proyectado por los padres fundadores de los siglos XVI y XVII (Descartes, Galileo Galilei, Newton, Francis Bacon, Copérnico y otros) es el saber como poder y la voluntad de poder: poder entendido como dominación del otro, de las clases, pueblos, culturas de África, Asia y América, de la naturaleza, de los más ínfimos, los topquarks, de los átomos y de la vida misma (código genético).

Para dar eficacia al saber y al poder, se creó la tecnociencia. Esta está predominantemente al servicio del poder económico, político e ideológico, del mercado, y sólo después, de la vida. En La Laudato Sì el Papa lo somete a una rigurosa crítica (nn. 106-114). Y en Fratelli tutti, afirma con severidad: “La política no debe someterse a la economía y ésta no debe someterse a los dictados y al paradigma eficientista de la tecnocracia” (n.177). La ciencia debe hacerse con conciencia y la técnica con criterios éticos en vista del bien común y la salvaguardia de la integridad de la naturaleza y el equilibrio de la Tierra.

Hay una afirmación que sin duda se dirige a la comunidad de científicos: “Hoy existe la convicción de que, además de los desarrollos científicos especializados, es necesaria la comunicación entre disciplinas, puesto que la realidad es una, aunque pueda ser abordada desde distintas perspectivas y con diferentes metodologías. No se debe ocultar el riesgo de que un avance científico sea considerado el único abordaje posible para comprender algún aspecto de la vida, de la sociedad y del mundo” (n. 204). Sería el fundamentalismo científico como única forma de acceder a la realidad, sabiendo que la nueva epistemología, especialmente las reflexiones de Ilya Prigonine/Isabelle Stengers, él Premio Nobel de Química, que en su conocido libro La nueva alianza aprecian la articulación de los muchos conocimientos que, como ventanas, nos dan dimensiones de la realidad, desde los más populares, el de de los chamanes y otras tradiciones y, por supuesto, el científico.

La figura es la del ser humano como dominus, amo y dueño (maître et possesseur de Descartes) de todo. La naturaleza y la propia Tierra (mera res extensa) no tienen ningún valor en sí mismas, sólo en la medida en que están ordenadas al ser humano. Él está por encima de la naturaleza y no se entiende a sí mismo como parte de ella o al pie de ella. En palabras de Fratelli tutti: “es la pretensión de ser señores absolutos de la vida misma y de todo lo que existe” (n.34).

El poder como dominación violenta ha significado históricamente una devastación de las culturas como las de los pueblos mesoamericanos y los pueblos originarios, un intento de homogeneizar los hábitos de pensar, actuar, hacer política y de las distintas culturas, anulando sus diferencias. Este inquietante proyecto encontró su máxima expresión en la Shoah, “símbolo de los extremos a los que puede llegar la maldad humana” (n.247): seis millones de judíos y otros condenados a las cámaras de gas por el nazismo. Observa tristemente que “en nuestro mundo se vive una guerra mundial a pedazos” (n. 259).

En contraposición a este paradigma del dominusFratelli tutti presenta el paradigma del frater, del hermano/hermana, de donde se deriva la fraternidad universal. Incluyendo los dos géneros, sería la hermandad universal, todos, hombres y mujeres, hermanos y hermanas. Él se siente parte de la naturaleza, al pie de ella junto a los demás seres, con el imperativo ético de cuidar y guardar esa herencia sagrada (cf. Gn 2,15). Un eslabón de fraternidad une a todos los seres como lo sustenta la Carta de la Tierra (UNESCO 2003) y las dos encíclicas ecológicas del Papa Francisco. Este paradigma es aquel de los pueblos originarios y de los andinos con su bien vivir y convivir que se sienten profundamente en armonía con la naturaleza y con todo el universo. Este proyecto, sin embargo, nunca fue realizado históricamente en Occidente. De ahí su sorprendente novedad.AD

Dicho en palabras de andar por casa: el paradigma del dominus, del dueño y señor, está representado por el puño cerrado para someter mientras que el del frater es la mano abierta y extendida para la caricia esencial y para entrelazarse con otras manos y vivir la colaboración y la ética del cuidado de unos con otros y de toda la naturaleza. 

Aquí reside el gran viraje paradigmático propuesto por Fratelli tutti. No es mera proyección ensoñadora. Capta las tendencias de nuestra época y afirma que existe “un anhelo mundial de hermandad (n. 8). Bellamente sustenta que “aquí está un óptimo secreto para soñar y volver nuestra vida una bella aventura… los sueños se construyen juntos. Soñemos como una única humanidad, como caminantes de la misma carne humana, como hijos e hijas de esta misma Tierra… todos hermanos y hermanas” (n. 8).

Es importante resaltar esta contraposición de paradigmas. Urge hacer la transición del dominus al frater si queremos enfrentar con éxito las amenazas que pesan sobre el sistema-Tierra y el sistema-vida, destacadas en el detallado capítulo primero “las sombras de un mundo cerrado” (nn.9-55).

En la epidemia de la Covid-19 “se hizo evidente la incapacidad de obrar en conjunto” (n.7); “la sociedad cada vez más globalizada nos hace vecinos pero no nos hace hermanos ” (n.12); puede hacernos socios,“aquel que está asociado para determinados intereses” (n.102) pero no próximos en el sentido de la parábola del buen samaritano (n.102) detalladamente analizada por el Papa (nn.63-86).

3. Resonancias de la fraternidad universal, de la amistad social y del amor ilimitado.

Seria largo identificar las resonancias de los valores antes mencionados, cosa que hice en un estudio más detallado.

Concentrémonos en una cuestión central: cómo hacer la transición del paradigma del dueño y señor (dominus) al paradigma del hermano y la hermana (frater).

En el ensayo de una respuesta el Papa apela al principio esperanza (Ernst Bloch), que es más que una virtud porque “nos habla de una realidad que está enraizada en lo más hondo del ser humano, independientemente de las circunstancias concretas y de los condicionamientos históricos en los que vive…; ella nos abre a los grandes ideales” (n.55). 

Como ha dicho a menudo a los movimientos sociales: “no esperen nada de arriba, porque siempre viene más de lo mismo o incluso peor”. Pero “no lo hagamos solos, individualmente…; estamos llamados a invitar a otros y a encontrarnos en un “nosotros” más fuerte que la suma de pequeñas individualidades» (n.78).

Quisiera señalar, entre otros, sólo dos puntos completamente nuevos: “en la política hay lugar para el amor con ternura: a los más pequeños, los más débiles, los más pobres; sí, son nuestros hermanos y como tales debemos amarlos y tratarlos” (n. 194). La política es más que la búsqueda del poder. El poder debe ser la mediación para construir el bien común. La ternura “es el amor que se hace cercano y concreto; es un movimiento que procede del corazón y llega a los ojos, a los oídos, a las manos” (n.196).

Y la política hecha no burocrática y fríamente, sino con amabilidad es “un estado de ánimo que no es áspero, grosero, duro, sino afable, suave, que sostiene y conforta; una persona que posee esta cualidad ayuda a los demás a hacer más llevadera su existencia” (n.223).

Pero volvamos al tema: ¿cómo se hará la transición? El Papa no entra en detalles, seguramente porque sabe que hay muchos biomas para los cuales no hay una fórmula única. Que eso lo decidan los ciudadanos y las naciones. Pero plantea dos puntos interesantes, uno tomado de la tradición social de la Iglesia, el principio de subsidiariedad y el otro de la moderna discusión ecológica: el valor de la región o del biorregionalismo.

Inicialmente afirma: “Es posible comenzar desde abajo y caso por caso, luchar por lo más concreto y local hasta el último rincón de la patria y del mundo” (n.78). Pero añade: “este principio abarca la participación y la acción de las comunidades, la organización de nivel menor” (n.175), los movimientos que nacen desde abajo: todo lo que una instancia inferior puede hacer, no lo haga la instancia superior. Con esto abre el camino a iniciativas de todo tipo de grupos pequeños. Es la concreción del principio de subsidiariedad.

La otra categoría a la que dedica varios párrafos es el cultivo de la región o del biorregionalismo, ya que es “lo local lo que nos hace caminar con los pies sobre la tierra” (n. 142). Lo local debe estar siempre articulado con lo global para tener una experiencia integradora en esta nueva fase de la humanidad: “No es posible ser saludablemente local sin una sincera y cordial apertura a lo universal, para ser solidario con los dramas de los demás pueblos” (146).

Esta articulación entre lo local y lo global permite el surgimiento de la comunidad mundial, que no es el resultado de la suma de los distintos países, pero sí la propia comunión que existe entre ellos y la mutua inclusión (n.137). Este fue el gran ideal propuesto por Immanuel Kant en su última obra “Para una paz perpetua” (1793).en la cual propone una “República mundial” (Weltrepublik) fundada en la hospitalidad universal entre todos los habitantes de la Tierra y en el respeto a los derechos humanos, “la niña de los ojos de Dios”.

La viabilidad de este sueño será el gran punto de discusión de ahora en adelante. ¿Pero acaso tenemos otra alternativa sino ésta fundada en el propio ser del ser humano? Como nunca antes en la historia nos estamos confrontando a la posibilidad del fin de la especie humana. Depende de decisiones político-ético-espirituales de la humanidad dar un salto de calidad que nos alzará a un nuevo nivel de conciencia y a inaugurar un nuevo comienzo. En caso contrario iremos al encuentro de lo peor, o en el límite, haremos el camino ya recorrido por los dinosaurios. 

4. Conclusión: hombre universal, un hermano entre hermanos 

Entretanto cabe reconocer que nos encontramos sin lugar a dudas ante una emergencia planetaria. Parece que no tenemos otra alternativa que consultar lo que hay de mejor en nuestra humanidad y extraer de ella un proyecto común que podrá garantizarnos un horizonte de esperanza y unir y re-unir en la misma Casa Común.

De todos modos, estamos ante un hombre, el Papa Francisco, que por su ejemplo y por supalabra se ha elevado a la altura de uno de los mayores líderes espirituales y políticos de la humanidad, si no el mayor de todos. Se despojó de los títulos inherentes a su alta función como Papa y se ha hecho hermano de todos para hablar como hermano entre hermanos. 

A ejemplo de su patrono, Francisco de Asís, se trasformó también en un hombre universal, acogiendo a todos e identificándose con los más vulnerables e invisibles de nuestro mundo. Él suscita la esperanza de que podemos y debemos alimentar el sueño de la fraternidad sin fronteras y del amor universal. Le mueve la fe de que “Dios creó todo por amor y que es el apasionado amante de la vida” (Sab 11, 26), texto citado tres veces en la Laudato Si.

Espera que ese Dios vivo no permitirá que la humanidad, ya entronizada en el Reino de la Trinidad por la resurrección y ascensión de un hermano nuestro, Jesús de Nazaret, desaparezca así tan miserablemente. Todavía vamos a vivir y brillar.

Él ha hecho su parte. Compete a nosotros no dejar que el sueño sea solo un sueño errático, sino que sea lo que él significa, el “anticipador de realidades futuras y posibles”, el comienzo seminal de una nueva forma de habitar juntos, como hermanos y hermanas y con la naturaleza, en la misma casa común.

¿Tendremos tiempo y sabiduría para este salto? El tiempo es corto tempo, pero urge y no podemos llegar tarde, ni errar el camino porque no tenemos tiempo de corregirlo. Seguramente continuarán las “densas sombras” a las que el Pontífice se refiere en la encíclica. Pero tenemos una lámpara en la Fratelli tutti. Ella no disipa todas las “densas sombras”. Solo nos ilumina el camino que tenemos que recorrer. Y esto nos basta.

*Leonardo Boff, teólogo, filósofo, miembro de la Iniciativa Internacional de la Carta de la Tierra. 

Traducción de M.ª José Gavito Milano