São José é a presença silenciosa daquele que se fez pai do Deus humanado. Entrevista especial com Leonardo Boff

Para o teólogo, São José é o santo dos anônimos, dos trabalhadores e daqueles que assumem sua missão. E vai além: reforça que a Trindade se faz completa na encarnação da Sagrada Família

Foto: Mohamed Hassem | Pixabay

Por: João Vitor Santos | 29 Dezembro 2020- IHU (Instituto Humanitas Unisinos-RS)

“Ele é o santo dos anônimos, dos trabalhadores que falam com as mãos, do silêncio operoso e da discrição”. É assim que o teólogo Leonardo Boff define José, o esposo de Maria, aquele que assume a paternidade terrena de Jesus. Assim como o Papa Francisco, Boff chama atenção para a coragem desse judeu, um homem que assume uma mulher grávida e chama para si todas as responsabilidades paternas, por maiores que sejam os desafios. Coragem e acolhimento que o Papa ressalta e quer animar em todos ao instituir 2021 como o ano de São José, através da Carta Apostólica “Patris corde – Com coração de Pai”. “Dele não temos nenhuma palavra, apenas sonhos. Hoje, a humanidade inteira está recolhida, ocasião para pensar sobre o sentido da vida e de nossa relação com a Terra. São José é o santo da família reunida, como atualmente as famílias têm que se reunir em suas casas para proteger-se da contaminação da covid-19”, reflete Boff.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, o teólogo recupera o José histórico e indica nele elementos cruciais para nos encorajar. “Precisamos de pais que acolhem os desamparados e que tenham coragem para iniciativas em sua rua e bairro para atender aqueles que não têm condições de se defender, como ocorreu exemplarmente no bairro Paraisópolis em São Paulo e na favela da Maré no Rio de Janeiro”, alerta. E completa: “Não há somente o aconchego caloroso da mãe. O pai é responsável pela passagem do mundo dos outros, onde há diferenças, tem que se respeitar certos limites e aprender a conviver pacificamente. Não é uma tarefa fácil, mas imprescindível para não deixar marcas para sempre”.

Boff ainda recupera a teologia em torno desse personagem, do qual não temos uma só palavra nos registros canônicos. É o chamado silêncio, mas que em nada tem de omissão. “É silenciando que vemos melhor e escutamos o chamado do coração e nascem visões que dão sentido à vida e nos alimentam a esperança. Não foi diferente com o pai e trabalhador José”, explica. Além disso, Boff diz que não podemos ignorar o Deus que se faz humano e que, na sua interpretação, personifica a Trindade na terrena família do Cristo. “Ora, São José não fala porque é o portador deste mistério abissal no qual o Pai habita. José se faz a pessoa que apresenta, pelo seu silêncio, o mistério do Pai. Ele acaba sendo a sombra do Pai, a própria personificação terrestre do Pai celeste”, defende.

Para ele, só é capaz de gerar o Divino quem é divina. “Foi o que ocorreu com Maria. Se ela não tivesse dito “fiat”, faça-se, o Filho não teria sido concebido e nascido de Maria. Essa porção divina de Maria é raramente assumida pelas mulheres que estão ainda reféns da cristologia, do Cristo, esquecendo que sem Maria não haveria o Cristo”, adverte. Ou seja, já assumimos o Cristo como Deus encarnado, mas precisamos ainda assumir esse olhar sobre Maria. “E São José, ficou de fora?”, questiona. “Minha tese é que a Família divina inteira se autocomunicou ao mundo”, acrescenta. “Assim se fecha o círculo: a Família divina está para sempre na família humana que foi assumida por Maria, por Jesus e por José”.

Leonardo Boff (Foto: UFJF)

Leonardo Boff é doutor em Teologia pela Universidade de Munique, na Alemanha. Foi professor de teologia sistemática e ecumênica com os Franciscanos em Petrópolis e depois professor de ética, filosofia da religião e de ecologia filosófica na Universidade do Estado do Rio de Janeiro e cmp professor visitante em várias universidades estrangeiras. Entre os livros publicados, destacamos,  Igreja: carisma e poder, (Vozes 1982/2014);Ecologia, Mundialização, Espiritualidade (Rio de Janeiro: Record, 1993), Civilização planetária (Rio de Janeiro: Sextante, 1994), Ecologia: grito da Terra, grito do pobre (Petrópolis: Vozes, 1995), A voz do arco-íris (Rio de Janeiro: Sextante, 2000), Do iceberg à Arca de Noé (Rio de Janeiro: Sextante, 2002), Homem: satã ou anjo bom (Rio de Janeiro: Record, 2008), Evangelho do Cristo cósmico (Rio de Janeiro: Record, 2008), Opção Terra. A solução da Terra não cai do céu (Rio de Janeiro: Sextante, 2009), Proteger a Terra-cuidar a vida. Como evitar o fim do mundo (Rio de Janeiro: Record, 2010), Ética e ecoespiritualidade (Petrópolis: Vozes, 2011), Saber cuidar (Ed. 20. Petrópolis: Vozes, 2014), além de Reflexões de um velho teólogo e pensador (Petrópolis: Vozes, 2018). Especificamente sobre São José, escreveu São José: a personificação do Pai (Petrópolis: Vozes, 2005). E, mais recentemente, em tempos de pandemia, publicou Covid19: a mãe terra contra-ataca a humanidade (Petrópolis: Vozes, 2020).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O Papa Francisco convocou o ano de 2021 como sendo o ano especial dedicado a São José. Como o senhor recebeu essa notícia e em que São José pode nos inspirar neste momento de crises?

Leonardo Boff – Recebi com surpresa e alegria. Surpresa porque o Magistério falou só tardiamente de São José, e com alegria porque sou devoto desse santo e lhe dediquei muitos anos de pesquisa nos melhores centros teológicos do mundo, até da Rússia e da China. Considero meu livro São José: a personificação do Pai (Petrópolis: Vozes, 2005) um dos melhores e mais criativos que escrevi.

Ele é o santo dos anônimos, dos trabalhadores que falam com as mãos, do silêncio operoso e da discrição. Dele não temos nenhuma palavra, apenas sonhos. Hoje, a humanidade inteira está recolhida, ocasião para pensar sobre o sentido da vida e de nossa relação com a Terra. São José é o santo da família reunida, como atualmente as famílias têm que se reunir em suas casas para proteger-se da contaminação da covid-19.

São José é o santo da família reunida, como atualmente as famílias têm que se reunir em suas casas para proteger-se da contaminação da covid-19 –.

 Nesse momento de crise, ele nos oferece algumas virtudes bem acentuadas pelo Papa Francisco especialmente, como “pai da acolhida e pai da coragem criativa”, pois muitos estão desamparados e com grande abatimento a ponto de entregar os pontos. Precisamos de pais que acolhem os desamparados e que tenham coragem para iniciativas em sua rua e bairro para atender aqueles que não têm condições de se defender, como ocorreu exemplarmente no bairro Paraisópolis em São Paulo e na favela da Maré no Rio de Janeiro

Na Carta Apostólica “Patris corde – Com coração de Pai”, o Papa descreve São José e anuncia o ano de 2021 dedicado à sua figura. Acesse a íntegra do documento

 IHU On-Line – Que leitura o senhor faz da Carta Apostólica “Patris corde – Com coração de Pai”, assinada pelo Papa e que dedica o ano de 2021 a São José? Que sinais Francisco emite com esse documento e essa proposição?

Leonardo Boff – Com o título “Pai de coração”, o Papa, de forma nova e criativa, quer evitar os tantos títulos que a tradição teológica deu a São José, nem todos muito dignos: pai putativo, pai nutrício, pai legal, pai matrimonial e outros. A expressão “Pai de coração” evita tudo isso e mostra que pelo coração e o amor a Maria e a Jesus ele se fez realmente pai assumindo todas as responsabilidades. Os evangelhos não o qualificam, apenas se referem com naturalidade a Jesus como “o filho do carpinteiro” (Mt 13,54-56); “não é ele filho de José, não conhecemos seu pai e sua mãe” (Jo,6,41-42)?

“Pai de coração” mostra que pelo coração e o amor a Maria e a Jesus ele se fez realmente pai assumindo todas as responsabilidades – Leonardo Boff.

 A Carta Apostólica Patris corde é um documento relativamente curto, de cunho pastoral e espiritual. Apresenta as virtudes de José em número de sete: pai amável, pai de ternura, pai de obediência, pai de acolhida, pai de coragem criativa, pai trabalhador, pai na sombra. Se bem repararmos, são virtudes transculturais, estão presentes nas comunidades humanas, embora cada uma delas receba uma concretização própria. O Papa comenta cada uma delas em termos existenciais e aplicando-as às famílias de hoje. Vivemos numa sociedade sem pai ou do pai ausente. O Papa se dá conta da importância fundamental da figura do pai na construção da personalidade dos filhos e das filhas, especialmente o respeito ao outro e o sentido dos limites.

 Não há somente o aconchego caloroso da mãe. O pai é responsável pela passagem do mundo dos outros, onde há diferenças e conflitos, tem que se respeitar certos limites e aprender a conviver pacificamente. Não é uma tarefa fácil, até antipática mas imprescindível para não deixar marcas negativas para sempre a seus filhos e filhas. Isso está nas entrelinhas da Exortação Patris corde. Neste aspecto, não há maiores novidades teológicas, coisa que aparece melhor na Redemptoris Custos de 15 de agosto de 1989, uma Exortação Apostólica de João Paulo II. Faz aí uma afirmação arrojada no n. 21 ao sustentar que a paternidade humana de São José vem assumida no mistério da encarnação, assinalando assim uma certa dimensão hipostática.

 IHU On-Line – O que é ser um “pai de coração”? Qual a importância dessa figura em nosso tempo?

Leonardo Boff – Nós vivemos numa sociedade dominada pela inteligência instrumental analítica com a qual mudamos a face do planeta, introduzindo profundas modificações na natureza e na sociedade mundial, algumas positivas, como o antibiótico e os meios de comunicação, e outras questionáveis. Na Laudato Si’ se faz uma severa crítica à ditadura da tecnociência assentada exclusivamente na inteligência intelectual e eficientista. Trouxe muitas comodidades humanas, mas tornou as relações funcionais e frias. Faltou o coração. Sabemos que o coração é sede da empatia, do sentimento profundo, da solidariedade, da compaixão e principalmente do amor, da espiritualidade e da ética, numa palavra: da inteligência cordial, emocional e sensível.

 Ela surgiu há 220 milhões de anos com a irrupção do cérebro límbico dos mamíferos. Ao dar à luz a sua cria, a amam, cuidam e a defendem. A razão intelectual transformada em instrumental-analítica apareceu com o cérebro neocortical há 7-8 milhões de anos. Ela é a mais recente mas não a mais decisiva para a existência humana, embora precisamos dela para dar conta da complexidade de nossas sociedades, mas não à custa da empatia, da gentileza e da ternura.

 Esquecemos que somos mamíferos sensíveis e racionais. Houve um desencontro entre as duas inteligências. A intelectual e analítica reprimiu a inteligência emocional, a mais profunda e ancestral em nós, pois se alegava que ela atrapalhava o olhar objetivo da ciência. Hoje sabemos que nunca existiu uma inteligência fria e absolutamente objetiva. O ser humano está sempre presente com seus sentimentos e interesses. O desafio atual consiste em resgatar a razão sensível e enriquecer a razão intelectual. Não basta saber, precisamos sentir o grito do pobre e da Terra. É esse sentimento, ausente em grande parte de nossa cultura que, unido à inteligência intelectual, nos poderá salvar da atual derrocada de nosso paradigma tecnocientífico. Ele não tem sentimentos face à dor humana e da natureza. Ou resgatamos a razão cordial e sensível ou assistiremos ao assalto cada vez mais insensível e avassalador da razão tecnocientífica sobre a natureza, até com o risco de pôr a vida do planeta em um processo de erosão.

O desafio atual consiste em resgatar a razão sensível e enriquecer a razão intelectual. Não basta saber, precisamos sentir o grito do pobre e da Terra – Leonardo Boff.

 Daí a importância de resgatarmos os direitos do coração, tão exemplarmente vividos pelas práticas do Papa Francisco para com os pobres e para com a Mãe Terra, expressas maravilhosamente nas duas encíclicas ecológicas Laudato Si’ e Fratelli tutti.

 IHU On-Line – O Papa Francisco referiu inúmeras vezes, especialmente através da figura de Nossa Senhora de Guadalupe, a necessidade de não nos tornarmos uma sociedade do ‘desmadre’ [que esquece a memória da mãe]. O que isso significa?

Leonardo Boff – Um dos temas mais queridos do Papa é o da ternura. Ela deve compor o comportamento principal da pastoral a ponto de falar da urgência de uma revolução da ternura. Já Fratelli tutti fala que “há lugar para o amor com ternura para com os pequenos e mais débeis, aos mais pobres” (n. 194). A ternura é uma relação doce, suave como a mão que acaricia. Ela é uma derivação do cuidado essencial, o verdadeiro título da Laudato Si’: sobre o cuidado da Casa Comum. Todos os seres humanos são portadores de cuidado e de ternura. Mas ela ganha uma densidade maior nas mulheres. São elas que cuidam por nove meses a vida que cresce dentro delas. Depois é o cuidado e a ternura que devotam aos filhos e filhas que os faz crescer sem medos existenciais.

 O Papa Francisco vive pessoalmente este enternecimento maternal para com os pobres e refugiados vindos de África e os da América Latina querendo ir aos EUA, e estende o cuidado à nossa relação para com a natureza e a todos os seres tidos como irmãos e irmãs na grande Casa Comum. Maria viveu este cuidado para o seu filho que crescia dentro dela, durante toda a vida até ao pé da cruz. Isso deve ser assumido pelos seguidores de seu Filho, que foi educado neste cuidado e que mostrou um cuidado especial para com os doentes e empobrecidos. Essa atitude deveria ser vivida pela Mater Ecclesiae, fora dos burocratismos e ritualismos que se exercem quase mecanicamente sem envolvimento pessoal. Daí a importância que tributa a Maria nas atitudes da Igreja, por vezes demasiadamente doutrinalista e ritualista.

 IHU On-Line – Quem foi São José? Como compreender essa figura no seu tempo, um homem judeu que acaba acolhendo uma mulher grávida?

Leonardo Boff – O José da história é um artesão, um pai, um esposo e um educador. Não sabemos suas origens. São Mateus diz que seu pai foi Jacó (Mt 1,16). São Lucas refere que foi Eli (Lc 3,23). Quer dizer, não o sabemos exatamente nem como foi seu fim. Apenas sabemos que ele não vem do mundo das letras (escribas), nem das leis (fariseus), da burocracia estatal (cobradores de impostos e os saduceus), nem da classe sacerdotal e levítica. Ele é um interiorano, morador de uma desconhecida vila, Nazaré. Chamar alguém de nazareno como a José e depois a Jesus equivalia a chamá-lo de “severino e pobretão” como aparece no evangelho de São João e que alguns renomados exegetas sustentam ser esta a interpretação correta no evangelho de São João.

 Sua profissão é em grego tékton, nome genérico para alguém que trabalha a madeira, um carpinteiro multifuncional, pois construía casas, telhados, cangas, móveis, rodas, prateleiras, carros de boi. Sabia ainda trabalhar com pedras, construindo muros e sepulturas, e manejava o ferro para fazer enxadas, pás, pregos e grades. Jesus foi iniciado na profissão do pai, pois o chamam “o filho do carpinteiro” (Mt 13,55). Ninguém vivia só de uma profissão. Quase todos trabalhavam no campo, no cultivo de frutas e legumes, numa terra ainda hoje considerada das mais férteis do mundo. Também cuidava do pastoreio do gado, de cabras, de ovelhas e de gado. Tudo isso está implícito na profissão de Jesus como tékton, um factotum.

 O pai corajoso

 Já nos referimos a José como pai e como esposo. É uma pessoa corajosa que assumiu uma jovem grávida e a levou para casa, sabe lá Deus os comentários da pequena vila onde todos sabem tudo de todos. Não o fez sem preocupação. E diz-se que era um “homem justo” (Mt 1,19a). Mas não é no sentido nosso, como aquele que dá o valor exato às pessoas e às coisas e que faz tudo direitinho. Biblicamente o justo é também isso, mas, principalmente, é uma pessoa piedosa. Essa vive a ordem do amor a Deus, às tradições do povo e frequenta a sinagoga semanalmente. Quem vive assim se transforma, biblicamente, num justo, vale dizer, uma pessoa que irradia socialmente e pelo exemplo se torna até uma liderança espiritual.

 Esta atmosfera fez dele um educador especialmente do menino que crescia em sabedoria e graça. Iniciou-o nas tradições e festas do povo, como todo pai faz em qualquer lugar. Se Jesus na vida pública prega o amor incondicional e chama a Deus de “Abba” (paizinho querido), foi na carpintaria de José e junto com Maria que experimentou esta intimidade. Jesus viu essa atitude em seu pai e a assumiu como experiência típica sua.

Se Jesus na vida pública prega o amor incondicional e chama a Deus de “Abba” (paizinho querido), foi na carpintaria de José e junto com Maria que experimentou esta intimidade – Leonardo Boff.

 IHU On-Line – Por que, nos Evangelhos e demais livros do Segundo Testamento, não se ouve a voz de José? Como podemos interpretar o silêncio de José?

Leonardo Boff – O silêncio de José não é nenhum mutismo de quem não tem nada a dizer. É um operário que fala pelas mãos e pelo exemplo (justo). Nem é absentismo de um alienado que não capta o que está se passando com ele. Ele sabe, como esposo, pai e educador, qual é a sua missão que importa cumprir. Está sempre presente quando se faz necessária a sua presença: na gravidez, no parto, na escolha do nome do bebê, na hora do batismo judaico (circuncisão), na fuga para o Egito, na definição do lugar onde morar, Nazaré, na iniciação de Jesus nas tradições religiosas de seu povo, indo ao templo aos 12 anos.

O silêncio de José não é nenhum mutismo de quem não tem nada a dizer. É um operário que fala pelas mãos e pelo exemplo (justo) – Leonardo Boff.

São José, aquele que assume as responsabilidades de pai de Cristo, é muito lembrado na piedade popular | Foto: Vatican News

 Estas ações se expressam mais por gestos do que por palavras. Paul Claudel, que amava muito São José, por causa de seu silêncio, escreveu em 1934 a um amigo: “O silêncio é o pai da Palavra. Aí em Nazaré há somente três pessoas muito pobres que simplesmente se amam. São aqueles que irão mudar o rosto da Terra”.

 O silêncio de José representa o nosso cotidiano. Grande parte de nossa vida acontece no seio da família e no trabalho. Logicamente há palavras demais. Mas quando temos que ouvir o outro silenciamos. Quando trabalhamos não conversamos nem discutimos. O trabalho só será bem feito quando nos concentramos, silenciosamente. Possuímos também nosso mundo interior, nossos sonhos, nossas perguntas e preocupações. É silenciando que vemos melhor e escutamos o chamado do coração e nascem visões que dão sentido à vida e nos alimentam a esperança. Não foi diferente com o pai e trabalhador José.

 Os sonhos de José

 Mas há uma razão mais profunda que cabe à teologia investigar. O Pai eterno é o mistério absoluto para o qual não há palavras. Ele não fala. Quem fala é o Filho. Mas como disse Jesus, que seu Pai trabalha e ele também. O inefável se expressa pelo mais profundo que existe em nós que é, segundo psicólogos como C. G. Jung, o inconsciente universal. Sua forma preferida de comunicação é através dos sonhos e dos Grandes Sonhos. Este os teve José de Nazaré. É a morada do mistério, do Pai do Filho na força do Espírito.

A imagem da visita do anjo durante o sono de José também é muito popular entre os fiéis | Foto: Wikipédia

Ora, São José não fala porque é o portador deste mistério abissal no qual o Pai habita. José se faz a pessoa que apresenta, pelo seu silêncio, o mistério do Pai. Ele acaba sendo a sombra do Pai, a própria personificação terrestre do Pai celeste. Este é o sentido secreto do silêncio de José adequado ao mistério que pede o silêncio reverente porque nenhuma palavra o poderá exprimir.

 Ora, São José não fala porque é o portador deste mistério abissal no qual o Pai habita –

IHU On-Line – O senhor quer dizer que José é a personificação do Pai?

Leonardo Boff – A tese central de meu livro é sustentar que Deus se autocomunica assim como ele é. Se é Trindade de Pessoas e sempre estão eternamente juntas e juntas atuam segundo a sua singularidade pessoal e assim se autocomunicam no mundo. Sustento que a primeira Pessoa divina a vir a este mundo foi o Espírito Santo. São Lucas 1,35 o diz claramente que o Espírito veio sobre Maria e armou sua tenda sobre ela (episkiásei), isto significa que começou a morar definitivamente nela.

 Por trás está o verbo skené que significa tenda, moradia. É a mesma palavra que São João usa para a encarnação do Verbo, do Filho (eskénosen). Aplicando o conceito à vinda do Espírito Santo sobre Maria equivale a dizer que ele a assumiu e a elevou à sua altura divina. Por isso, consequentemente diz: “por causa disto (dià óti) o Santo gerado será chamado Filho de Deus” (Lc 1,35).

 omente quem for feita divina poderá gerar o Divino. Foi o que ocorreu com Maria. Se ela não tivesse dito “fiat”, faça-se, o Filho não teria sido concebido e nascido de Maria. Essa porção divina de Maria é raramente assumida pelas mulheres que estão ainda reféns da cristologia, do Cristo, esquecendo que sem Maria não haveria o Cristo. Da encarnação do Filho não há dúvida, pois se transformou em doutrina dogmática em todas as igrejas cristãs. E São José, ficou de fora? Minha tese é que a Família divina inteira se autocomunicou ao mundo. O Pai, mistério absoluto que guarda um eterno silêncio (quem fala é o Verbo, o Filho), encontrou a pessoa adequada que podia acolher sua presença entre nós, em São José, o homem do silêncio e do trabalho. São José, segundo esta compreensão, é a personificação terrestre do Pai celeste.

 Equilíbrio perfeito entre a Família divina e a família humana

 Agora, temos um equilíbrio perfeito porque Deus-Trindade se autocomunicou totalmente a nós: a Maria pelo Espírito Santo, a Jesus pelo Filho, o Verbo e São José pelo Pai. Deus, assim como é, comunhão de Pessoas que eternamente estão juntas (pericórese) no amor mútuo e na mútua entrega de um ao outro.

 Assim se fecha o círculo: a Família divina está para sempre na família humana que foi assumida por Maria, por Jesus e por José. Pertencemos eternamente ao Reino da Trindade, feitos Deus por participação, correspondendo a cada uma das divinas Pessoas em sua singularidade. Esclareço, isto não é ainda doutrina, mas um teologúmeno, vale dizer, uma reflexão teológica bem fundada que um dia poderá ser assumida por toda a comunidade cristã.

 IHU On-Line – Uma das cenas mais comoventes da natividade é a jornada de José e Maria a Belém. Como o senhor interpreta essa passagem? Quais as questões de fundo presentes ali e que normalmente são apagadas?

Leonardo Boff – Essa jornada de Nazaré até Belém deve ser corretamente interpretada. O imperador César Augusto decretou a realização de um recenseamento. A finalidade não era simplesmente saber quantos habitantes havia no Império, mas estabelecer um imposto por cada cabeça. Este imposto anual era para manter a infraestrutura de sacrifícios ao Imperador que se apresentava como Deus. Os judeus não podiam aceitar semelhante blasfêmia, pois implicava reconhecer um Deus que não era o único verdadeiro, Javé.

 Por isso houve muitas revoltas e a última, no ano 67, que significou a total dizimação do povo e do templo. E os que restaram foram levados como escravos para fora da Judeia. Foram eles que, obrigados, construíram o canal de Corinto, existente até os dias de hoje, que une o Adriático com o Mediterrâneo.

 José e Maria tiveram que submeter-se a este edito. Como não havia lugar nas hospedarias da região não restou outra alternativa senão refugiar-se numa estrebaria de animais. Ali nasceu Jesus, fora da comunidade humana e entre os animais. Aquele que veio da escuridão foi o primeiro a ver “a Luz verdadeira que ilumina cada pessoa que vem a este mundo” (Jo 1,9).

 IHU On-Line – Outra cena que completa a jornada de José e Maria é a fuga para o Egito, já com o menino Jesus. Poderia nos explicar esse outro momento? E o que ele revela sobre o entendimento de José acerca do poder político, especialmente de Herodes?

Leonardo Boff – Herodes era um rei sanguinolento e temeroso de perder o trono. Sabendo que nascera um menino da descendência de Davi, eventual sucessor do trono, mandou matar todos os meninos abaixo de dois anos para assim se assegurar que não teria pretendentes. O genocida assim fez. E as Escrituras trazem uma das mais comovedoras expressões das mães que perderam os filhos: “Em Ramá se ouviu uma voz, muito choro e gemido: a mãe chora os filhos mortos e não quer ser consolada porque ela os perdeu para sempre” (cf. Mt 2,28).

 Quantas mães hoje na Baixada Fluminense choram seus filhos inocentes mortos pela polícia enquanto estavam brincando ou simplesmente conversando na porta de casa. Sabendo o quanto sanguinolento era Herodes, José tomou Maria e Jesus, atravessou o deserto, com todos os riscos que os evangelhos apócrifos relatam, e chegou com eles ao Egito, país odiado pelos judeus pelo tempo de escravidão que lá sofreram. Somente quando se certificou que Herodes havia morrido, voltou e foi se esconder numa vila desconhecida ao norte, em Nazaré, para lá estarem finalmente seguros.

 IHU On-Line – Que narrativa se constitui de São José até o decreto Quemadmodum Deus, assinado em 8 de dezembro de 1870 por Pio IX, em que torna José Esposo de Maria e Padroeiro da Igreja Católica? E o que muda na história contada acerca de José depois desse decreto?

Leonardo Boff – De modo geral São José nunca teve centralidade na Igreja latina. Quase tudo se concentrava em Jesus e em Maria. Somente no século VIII se começou certo culto a São José. Só a partir dos anos 800 aparecem os primeiros sermões, pois a Igreja não sabia o que fazer com alguém que não dissera nenhuma palavra e tivera somente sonhos. Só em 1870 foi proclamado patrono da Igreja Universal não pelo Papa Pio IX, mas por um decreto da Congregação dos Ritos.

Pio XII proclamou o dia primeiro de maio o dia de São José, o trabalhador. Mas foi somente o Papa João XXIII que introduziu seu nome no cânon da missa, “São José, Esposo de Maria. O verdadeiro culto a São José, seja como trabalhador ou patrono da boa morte, foi por séculos venerado pelo povo. Eles conheciam os apócrifos, cheios de detalhes da vida cotidiana de Jesus, que inspirou os artistas renascentistas e até hoje em dia, como entre outros ‘A história de José, o carpinteiro’ e ‘Diálogos de Jesus, Maria e José’”. Comovente são as palavras de Jesus, no A história de José, o carpinteiro: “Vendo que expirava eu me atirei sobre o corpo de meu pai José, fechei seus olhos, cerrei sua boca e levantei-me para contemplá-lo”. Mais tarde confidenciou aos Apóstolos “quando iam sepultá-lo, não me contive, lancei-me sobre seu corpo e chorei longamente”.

 São José, por causa da devoção popular – é o patrono do Ceará – dá nome a pessoas, ruas, de edifícios, de escolas e de várias congregações religiosas, especialmente dos Josefinos, que levam pelo mundo seu nome. Comenta, entretanto, um dos maiores conhecedores da Josefologia, dos estudos sobre São José: “a Santa Sé foi a última a ser conquistada para a devoção de São José”.(Roland Gauthier). Com a Exortação Apostólica Patris corde do Papa Francisco se deu mais um passo na consolidação da devoção daquele que, segundo minha compreensão, é a personalização do Pai celeste.

 IHU On-Line – São José também é uma das figuras mais presentes na piedade popular. Como o senhor analisa essa devoção, especialmente no Ceará e Nordeste brasileiro?

Leonardo Boff – Na Igreja oficial são os papas, bispos e padres que detêm a palavra e possuem visibilidade. São José, oficialmente, é quase invisível. Mas existe um poderoso cristianismo popular, cotidiano e anônimo do qual poucos tomam nota. Nele vive a grande maioria dos cristãos, nossos pais, avós e parentes que tomam a sério o Evangelho e o seguimento de Jesus. São José por seu anonimato e silêncio se insere dentro desse mundo pequeno que é das grandes maiorias.

 Mais que patrono da Igreja universal é o patrono da Igreja doméstica, dos irmãos e irmãs menores de Jesus. Ele é um representante da “gente boa”, da “gente humilde”, sepultados em seu dia a dia cinzento, ganhando a vida com muito trabalho e suor e levando honradamente suas famílias pelos caminhos da honradez, da solidariedade e do amor. Orientam-se mais pelo sentimento profundo de Deus que por doutrinas teológicas sobre Deus. Para eles, como para José, Deus não é um problema, mas uma luz poderosa para os problemas.

Mais que patrono da Igreja universal é o patrono da Igreja doméstica, dos irmãos e irmãs menores de Jesus – Leonardo Boff.

 Foi num ambiente assim popular que cresceu e se educou Jesus. E o povo inconscientemente em sua fé intuitiva captou essa singularidade, de que não fala, mas sempre acompanha os fiéis em suas dificuldades e em suas festas.

 IHU On-Line – Que mensagem o senhor pode nos deixar para que enfrentemos 2021 com coragem e alegria e que, mesmo diante das adversidades, nutramos a esperança por um novo tempo?

Leonardo Boff – Vivemos tempos sombrios como aqueles vividos por São José. Ele nunca abandonou Maria e ficou junto ao Filho até que ele começasse sua missão libertadora. Cumpriu sua missão e desapareceu, pois fez tudo o que tinha a fazer, como pai, esposo, trabalhador e educador. Ele pode nos acompanhar nestes tempos de abatimento e dor de tantos milhares e no mundo milhões que perderam seus entes queridos.

Vivemos tempos sombrios como aqueles vividos por São José. Ele nunca abandonou Maria e ficou junto ao Filho até que ele começasse sua missão libertadora – Leonardo Boff.

 Seu filho não morreu na cama, mas em dores terríveis no alto da cruz. Mas ressuscitou para nos dizer: a morte não tem a última palavra. Mesmo os que morrem, me seguirão em minha ressurreição. Eu sou apenas o primeiro entre muitos irmãos e irmãs. A vida não é feita para acabar na morte, mesmo de forma tão triste como agora, mas para se transformar através da morte em vida nova em Deus, que recebe a todos como Pai materno ou Mãe paterna para viverem felizes com todos os que os antecederam, avós, pais, irmãos, parentes e amigos. A vida sempre escreve a última página.

 Palavra final: eu assumi intencionalmente o mandato que Jesus deixou aos Apóstolos: “Quando fordes revestidos de minha força e receberdes o Espírito de meu Pai, o Espírito Paráclito e quando fordes pregar o Evangelho, pregai também a respeito do meu querido pai José” (A história de José, o carpinteiro, capítulo 30, n.3). O Papa Francisco com sua Exortação Patris corde e eu fizemos nossa parte. Que os cristãos, homens e mulheres, façam também a sua.

Por que chegamos a Jair Bolsonaro? Uma disquisição histórico-filosófica

                                             Leonardo Boff

Há um sem número de excelentes análises do anti-fenômeno Jair Messias Bolsonaro, predominando as de ordem sociológica, histórica e econômica. Creio que devemos cavar mais a fundo para captar a irrupção deste Negativo em nossa história.

A reflexão ocidental, devido aos limites culturais de nosso arraigado individualismo, quase não desenvolveu categorias analíticas para analisar totalidades históricas. A de Hegel em sua Filosofia da História, vem eivada de preconceitos,inclusive sobre o Brasil e dispõem de poucas categorias aproveitáveis. Arnold Toynbee em seus 10 volumes sobre a história mundial trabalha com um esquema fecundo mas limitado: desafio e resposta (challenge and response) com o inconveniente de não conferir relevância aos conflitos de todo tipo, inerentes à história.A Escola francesa dos Annales,em suas variações (Lefbre,, Braudel, Le Goff) incluí várias ciências mas não nos ofefeceu uma leitura da história como totalidade.Não deixam de ser inspiradoras as categorias desenvolvidas por Ortga  Gasset no seu famoso estudo sobre Esquemas de las crisis y otros ensayos(1942).

Temos que tentar pensar por nós mesmos e nos perguntar numa atitude fillosofante, vale dizer, que busca causas mais profundas que aquelas meramente analíticas das ciências: por que o Brasil chegou a este sinistro personagem histórico, como chefe de estado, que desafia qualquer compreensão pssicológica,ética e política?

De antemão devemos dizer que todo existente não é fortuito, pois é fruto de um pré-existente, de larga duração, que cabe à razão desentranhar. Ademais há que pensá-lo sempre dialeticamente:junto ao negativo e sombrio acompanham sempre como acólitos, as dimensões  positivas e portadoras de alguma luz. Não nos é concedido ter apenas luz ou trevas. Todas as realidades são crepusculares, mesclando luz e sombras. Mas o nosso foco nesta reflexão se concentra nas sombras, pois são elas as que nos causam problemas.

Vou lança mão de algumas categorias: a das sombras recalcadas, a teoria do caos destrutivo e generativo, a compreensão transpssoal do karma no diálogo entre Toynbee e do filósofo japonês Daisaku Ikeda e os princípios do thánatos e do eros, associados à condition humaine de seres sapiens e simultaneamente demens.

            As quatro sombras reprimidas pela consciência coletiva

A consciência brasileira é dominada por quatro sombras que nunca até o presente foram reconhecidas e integradas. Entendo a categoria “sombra” no sentido psicanalítico da escola de C.G.Jung e discípulos,tornada categoria amplamente aceita pelas demais escolas. Sombra seriam os conteúdos sombrios e negativos que uma cultura com seu consciente/inconsciente coletivos se recusa a assimilar e assim os recalca e se esforça por afasta-los da memória coletiva. Tal repressão impede um processo de individuação nacional coerente e sustentado.  

A primeira comparece a sombra do genocídio indígena.Segundo Darcy Ribeiro haveria uma população de cerca 5-6 milhões de indígenas com centenas de línguas, fato único na história mundial. Eles foram praticamene dizimados.Restaram os 900 mil atuais. Lembremos o massacres de Mem de Sá em 31 de maio de 1580 que liquidou com  os Tupiniquim da Capitania de Ilhéus. Por um quilômetro e meio ao longo da  praia numa distância de alguns metros uns de outros, jaziam centenas de  corpos de indígenas assassinados, relatados como glória ao rei de Portugal.

Pior ainda foi a guerra declarada oficialmente por D.João VI, mal chegado ao Brasil, fugindo das tropas de Napoleão, que dizimou os Botocudos (Krenak) no vale do Rio Doce, por acharem que eram incivilizáveis e incatequisáveis. Essa guerra oficial manchará para sempre a memória nacional. Ailton Krenak, cujos antepassados sobreviveram, nos  lembra essa vergonhosa guerra oficial de um imperador impiedoso,tido por bom.

O atual governo de uma ignorância supina em antropologia, considera os povos indígenas originários como sub-humanos que devem ser forçados a entrar nos nossos códigos culturais para serem humanos e civilizados. O descuido que mostrou por   suas reservas invadidas e pelo abandono face à Covid-19 beira a um genocídio,passível de ser levado ao Tribunal Internacional Penal por crimes contra a humanidade.

A  segunda  sombra é nosso passado colonial. Não ocorreu uma descoberta do Brasil mas uma pura e simples invasão, destruindo o idílio inicial pacífico descrito por Pero Vaz de Caminha. Deu-se um encontrão profundamente desigual de civilizações. Logo se iniciou o processo de ocupação e violência em função das riquezas aqui existentes. Todo processo colonialista é violento. Implica invadir terras, submeter os povos, obriga-los a falar a língua do invasor, incorporar suas formas de organização social e a completa submissão desumanizadora dos dominados. Desse processo de submetimento surgiu o complexo do vira-lata, achar que é bom só o que vem de fora ou de cima, de abaixar sempre  a cabeça e abandonar qualquer veleidade de autonomia e de projeto próprio.

A mentalidade de boa parte dos estratos dirigentes se consideram ainda de certa forma coloniais, por mimetizarem os estilos de vida e a assumiram os valores de seus  patrões que foram variando ao longo de nossa historia. Hoje se constituiu uma expressão humilhante para toda a nação, o fato do atual chefe de estado fazer uma viagem especial aos USA, saudar a bandeira norte-americana e prestar  um rito explícito  de vassalagem ao presidente Donad Trump, extravagante, ego-centrado e tido por notáveis analistas estadounidentes o mais estúpido da história política daquele país.

A terceira sombra, a mais perversa de todas, foi a da escravidão. O jorrnalista e historiador Laurntino Gomes em seus dois volumes sobre A Escravidão (2019/2020) nos narra o inferno desse processo de inumanidade. O Brasil foi campeão do escravagismo. Só ele importou, a partir de 1538, cerca de 4,9 milhões de africanos que foram escravizados aqui. Das 36 mil viagens transatlânticas, 14.910 destinavam-se aos portos brasileiros.

Estas pessoas escravizadas eram tratadas como mercadorias, chamadas “peças”. A primeira coisa que o comprador fazia para “traze-las bem domesticadas e disciplinadas” era castigá-las, “haja açoites, haja correntes e grilhões”. A história da escravidão foi escrita pela  mão branca, apresentando-a como branda, quando, na verdade, foi crudelíssima e vem prolongada hoje contra a população negra, mulata (54,4% da população) e pobre, como o tem mostrado irrefutavemente Jessé Souza em A Elite do Atraso:da escravidão a Bolsonaro (2020). Feita a abolição em 1888 não se lhes fez aos escravos nenhuma compensação,foram largados ao deus-dará e compõem hoje a maioria das favelas. Nunca se lhes reconheceu a mínima humanidade. A classe dominante, transferindo o ódio ao escravo z eles, se acostumou a humilhá-los, a ofendê-los até perderem o senso de sua dignidade.

Essa sombra pesa enormemente na consciência coletiva e é a mais recalcada, na afirmação mentirosa de aqui aqui não há racismo nem discriminação. No atual governo  isso foi desmascarado pela violência sistemática contra esta população estimulada pelo próprio chefe de estado que tem conduzido uma política necrófila. Esta sombra por sua desumanidade evocou pessoas sensíveis como o poeta Castro Alvez. Ressoarão para sempre seus versos em Vozes d’Africa:

         “Ó Deus, onde estás que não respondes? Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes/ Embuçado nos céus? Há dois mil anos te mandei meu grito/ Que esbalde, desde então, corre o infinito… /Onde estás, Senhor Deus” Esse grito continua hoje tão lancinante com outrora.

Jessé Souza, em sua obra já referida, mostrou de forma convincente como a classe dominante, para impedir qualquer avanço das maiorias marginalizadas, projetou sobre elas toda a carga de negatividades que acumulou face aos escravos, a essa “massa damnata” com requintes de exclusão, discriminação e verdadeiro ódio que nos espanta e nos revela níveis inacreditáveis de desumanização.

A quarta sombra é a constituição de um Brasil só para poucos. Raymundo Faoro (Os donos do poder) e o historiador e acadêmico José Honório Rodrigues (Conciliação e reforma no Brasil  1982) nos têm narrado a violência com que o povo foi tratado para estabelecer uma ordem, fruto da conciliação entre as classes opulentas sempre com a exclusão intencionada do povo.

Escreve José Honório Rodrigues:”A maioria dominante foi sempre alienada, anti-progressista, antinacional e não contemporânea. A liderança nunca se reconciliou com o povo; negou-lhes seus direitos, arrasou sua vida e tão logo a viu crescer ela lhe negou pouco a pouco sua aprovação, conspirou para colocá-la de novo na periferia no lugar que julga que lhe pertence”(Reconciliação e Reforma o Brasil, 1982, p.16). Não foi o que exatamente a maioria dominante e seus aliados fizeram com Dilma Rousseff primeiro e depois com o candidato Lula? Mudam as estratégias mas nunca seus propósitos de um Brasil só para eles.

Nunca houve um projeto nacional que incluisse a todos. Projetou-se um Brasil para poucos. Os outros que se lasquem. Assim surgiu não uma nação, mas como mostrou detalhadamente Luiz Gonzaga de Souza Lima, num livro que seguramente será um clássico, A Refundação do Brasil: rumo a uma civilização biocentrada ((2011) foi fundada  a Grande Empresa Brasil, desde os inícios internacionalizada em função de atender aos mercados mundiais ontem e até  os tempos atuais.Assim temos um Brasil profundamente cindido entre poucos ricos e as grandes maiorias pobres, um dos países mais desiguais do mundo, o que significa, um país violento e cheio de injustiças sociais. Machado de Assis já havia observado que há dois Brasis, o oficial (este de poucos) e o real (das grande maiorias excluídas).

Uma sociedade montada numa bifurcação, sobre uma injustiça social perversa nunca  criará uma coesão interna que lhe permitirá um salto rumo a formas mais civilizadas de convivência. Aqui imperou sempre um capitalismo selvagem que nunca conseguiu ser civilizado. E quando os filhos e filhas da pobreza conseguiram acumular uma força política de base suficiente para chegarem ao poder central e atenderem demandas básicas das populações  humilhadas e ofendidas, logo os descendentes da Casa Grande e a nova burguesia nacional se organizaram para impossibilitar este tipo de governo de inclusão social. Deram-lhe  um golpe vergonhoso, parlamentar, midiático e jurídico para desta forma garantirem os níveis de acumulação considerados dos mais altos do mundo e manterem os pobres ao lugar que lhes cabe, na periferia e na marginalidade pobre e miserável.

O escritor Luiz Fernando Veríssimo num twitter de 6 de setembro de 2020 bem resumiu: “O ódio está no DNA da classe dominante brasileira,que historicamente derruba,pelas armas se for preciso,toda ameaça ao seu domínio, seja qual for sua sigla”.É esta classe de abastados que nem elite é, porque esta supõe certo cultivo de humanidade e de cultura, sustenta o atual governo  ultra-direitista e fascistóide por não lhes ameaçar a forma abusiva de acumulação, antes o ministro da Fazenda,Guedes, discípulo da escola de Viena e de Chicago comparece como o grande demolidor da soberania nacional. O presidente nada sabe e entende o que seja soberania nacional.

                      O caos destrutivo e generativo

Outra categoria que nos poderia fazer  entender melhor nossa atual situação sombria é aquela do caos em sua dupla função destrutiva e construtiva.

Tudo começou com a observação de fenômenos aleatórios como a formação das nuvens e particularmente o que se veio chamar de efeito borboleta (pequenas modificações iniciais, como farfalhar das asas de uma borboleta no Brasil que pode, no fim, provocar uma tempestade em Nova York em razão da inter dependência de todos os fatores. Além disso faz-se a constatação da crescente complexidade que está na raiz da emergência de formas de vida cada vez mais altas (cf.J.Gleick Caos: criação de uma nova ciência,1989). O universo se originou de um tremendo caos inicial o big bang. A evolução se fez e se faz para colocar ordem neste caos.

O sentido originário é o  seguinte: o caos possui uma dimensão  destrutiva: põe fim a um certo tipo de ordem que chegou ao seu climax. Mas por detrás do caos destrutivo se escondem dimensões construtivas de uma nova ordem. E vice-versa, por detrás da ordem se escondem dimensões de caos de tal forma que a realidade é dinâmica e flutuante sempre em busca de um  equilíbrio. Ilya Progrine (1917-2993), prêmio Nobel de Química em 1977, estudou particularmente as condições que permitem a emergência da vida. Segundo este grande cientista,  sempre que existir um sistema aberto, sempre que houver uma situação de caos, (longe do equilíbrio) e vigorar uma não-lineariedade dos fatores é a conectividade entre as partes que gera uma nova ordem (cf. Order out of Chaos,1984). Foi neste contexto que irrompeu a vida como um imperativo cósmico.

Inegavelmente vivemos no Brasil numa situação de gravíssimo caos.No contexto do Covid-19 que está dizimando quase 200 mil vidas,temos um Presidente totalmente omisso e sem qualquer preocupação com o destino cruel de seu povo,um negacionista com uma estupidez e arrogância, própia de pessoas autoritárias com sinais de insanidade mental. Um chefe de estado deve ser uma pessoa de síntese (sim-bólico) e não de divisão (dia-bólico) e viver pessoalmente as virtudes éticas e cívicas que quer ver nos cidadãos.Este faz exatamente o contrário, incentiva ódios, mente descaradamente e perde todo o sentido da dignidade do cargo que ocupa.

As autoridades que têm poder como o Congresso Nacional, o MPF,o STF e outras revelam-se  omissas, assistindo inertes e irresponsáveis o genocídio que está ocorrendo. Creio que a história  será implacável para com as omissões destas autoridades que nada fizeram face a tanto descaso do destino de milhões de famílias que choram seus mortos. O atual presidente cometeu tantos casos de grave irresponsabilidade que mereceria juridica e eticamente um impeachment ou uma pura simples destituição por um acerto de lideranças apoiadas por multidões nas ruas.

Consola-nos o fato de que há oculto  dentro desse caos humanitário uma ordem mais alta e melhor. Quem vai desentranhá-la e fazer superar o caos?

Precisamos constituir uma frente ampla de forças progressistas e opostas às pivatizações e da neo-colonização do país para desentranhar a nova ordem, abscôndita no caos atual mas que  quer nascer. Temos que fazer esse parto mesmo que doloroso. Caso contrario, continuaremos reféns e vítimas daqueles que sempre pensaram corporativamente só em si, de costas e, como agora, contra o povo.

                           A interpretação ocidental do Karma transpessoal

Por fim valho-me de uma categoria, oriunda do Oriente que relida à luz das novas ciências da Terra e da vida nos podem trazer elementos esclarecedores. Trata-se da categoria do Karma, objeto de um de um longo diálogo  de três dias entre o historiador Arnold Toynbee e o filósofo japonês Daisaku Ikeda (cf. (cf. Elige la vida, Emecé. Buenos Aires, 2005).

karma é um termo sânscrito originalmente significando força e movimento, concentrado na palavra “ação” que provoca sua correspondente “re-ação”. Uma interpretação transpessoal parece importante, porque, como já assinalei acima, não dispomos no ocidente de  categorias conceptuais que deem conta de um sentido de devir histórico, de toda uma comunidade e de suas instituições nas suas dimensões positivas e negativas.

Cada pessoa é marcada pelas ações que praticou em vida. Essa ação não se restringe à pessoa mas conota todo o seu ambiente. Trata-se de uma espécie de conta-corrente ética cujo saldo está em constante mutação consoante as ações boas ou más  feitas, vale dizer, os “debitos e os créditos”. Mesmo depois da morte, a pessoa, na crença budista, carrega esta conta para que com mais  renascimentos possa ter, até zerar a conta negativa.

O grande historiador e pensador Toynbee dá-lhe outra versão,nos quadros do paradigma ocidental, que me parece esclarecedora e nos ajuda entender um pouco também a nossa história. A história é feita de redes relacionais dentro das quais está inserida a cada pessoa, ligada com as que a precederam e com as presentes. Há um funcionamento kármico na história de um povo e de suas instituições consoante os níveis de bondade e justiça ou de maldade e injustiça que produziram ao largo do tempo. Assim refletiu Toynbee.

Este seria uma espécie de campo mórfico que permaneceria impregnando tudo. Não se requer a hipótese dos muitos renascimentos, como na tradição oriental pressupõe, porque a rede de vínculos garante a continuidade do destino de um povo (p.384). As realidades kármicas impregnam as instituições, as paisagens, configuram as pessoas e deixam seus sinais na cultura de um povo. Esta força kármica atua nos processos socio-históricos, marcando os fatos benéficos ou maléficos. C.G.Jung em sua psicologia arquetípica notara, de alguma forma,  tal fato.

Apliquemos esta lei kármica à nossa situação sob a regência nefasta de Bolsonaro. Não será difícil reconhecer que somos portadores de um pesadíssimo karma, em grande escala, derivado do genocídio indígena, da super-exploração da força do trabalho escravo, pela colonização predatória, pelas injustiças perpretadas contra grande parte da população, negra, mestiça e pobre pela burguesia endinheirada e insensível, jogada na periferia, com famílias destruídas e corroídas pela fome e pelas doenças.

Tanto Toynbee quanto Ikeda concordam nisso:”a sociedade moderna (nós incluídos) só pode ser curada de sua carga kármica, através de uma revolução espiritual no coração e na mente (p.159), na linha da justiça compensatória e de políticas sanadoras com instituições justas como vem apregoando insistentemente o Papa Francisco em suas encíclicas sociais e ecológicas, Laudato Si e Fratelli tutti. Sem esta justiça mínima a carga kármica não se desfará.

Mas ela sozinha não é suficiente. Faz-se mister  o amor, a solidariedade e uma compaixão universal, especialmente  para com as vítimas. É a proposta central e paradigmática da Fratelli tutti. do Papa Francisco. O amor será o motor mais eficaz porque ele, no fundo “é a última realidade”(p.387). Uma sociedade incapaz de efetivamente amar e de ser menos malvada, jamais desconstruirá uma história tão marcada pelo karma negativo e desumano, realizado, estranhamente, dentro de uma cultura cunhada pelo cristianismo, diuturnamente traído. Eis o desafio que a atual crise sistêmica nos suscita.

Não apregoaram outra coisa os mestres da humanidade, como Jesus,Buda, Isaías, São Francisco, Dalai Lama, Gandhi, Luther King Jr e o Papa Francisco? Só o karma do bem redime a realidade da força kármica do mal. E se o Brasil não fizer essa reversão kármica permanecerá de crise em crise, destruindo seu próprio futuro como o está fazendo, entre mentiras, fake news, ironia e zombaria, o necrófilo e insano presidente deste país.

          A função iluminadora dos princípios thanatos e demens

Estas são expressões bem conhecidas no Ocidente e não se necessita de maiores explanações. Vale lembrar que se trata de princípios  e não simplesmente de dimensões acidentais. Princípio é aquilo que faz ser todos os seres ou sem o qual o seres não irrompem na realidade. Assim foi desenvolvido por Sigmund Freud o princípio do thánatos que acompanha o do eros que convivem em cada ser humano. O thánatos emerege como aquela pulsão que leva à violência, à destruição e, no termo, à morte. Temos a ver com o Negativo na condição humana ao lado do Positivo  e do Luminoso, estes assim o cremos, irão finalmente triunfar.

É conhecida a troca de cartas entre Freud e Einstein sobre a possibilidade da superação violência e da guerra, ainda nos idos de 1932. Freud respondeu que é impossível diretamente  superar   o thánatos, somente reforçando o princípio do eros através de laços emocionais e pelo trabalho humanizador da cultura. (cf.Obras completas III:3,215). Mas termina com uma frase desoladora:”esfaimados pensamos no moinho que tão lentamente mói que podemos morrer de fome antes de receber a farinha”.

Ambos os princípios para Freud possuem algo de eterno e deixa em aberto qual princípio escreverá a última  página da vida. Mas o princípio do thánatos pode em momentos da história impregnar todo um povo e  inundar a consciência de seus líderes produzindo tragédias político-sociais.

Estes comportamentos mostram igualmente o princípio demens  presente junto com o sapiens no ser humano. Vivemos numa civilização mundializada que está sob o domínio do demens. Basta lembrar os 200 milhões de mortos nas guerras dos últimos dois séculos e do princípio de auto-destruição já montado com armas nucleares, químicas e biológicas, capazes de pôr fm à vida humana e à nossa civilização, tornando tais armas ineficazes e ridículas pelo Covid-19.

Esse princípio de demência se mostra claro pelos assassinatos intencionados de negros, pobres e outros com outra opção sexual e um perverso feminicídio. Tudo isso é chancelado por um presidente com claros sintomas de psicopatia, vergonhosamente tolerado por aquelas autoridades que poderiam e deveriam por crimes de responsabilidade social, denunciá-lo, fazê-lo renunciar ou democraticamente submetê-lo a um impeachment jurídico. Talvez elas mesmas sejam já infectadas pelo vírus do demens, o que explicaria sua leniência e culposa omissão.

Conclusão: o oculto e o reprimido saíram dos  porões e uma luz se acendeu

O sentido de nossa disquisição possui este significado: tudo o que estava oculto e reprimido em nossa sociedade saiu dos porões onde por séculos se havia ocultado na vã tentativa de negá-lo ou torná-lo aceitável socialmente, até de pintá-lo roseamente, como o fazem vários ministros indignos que chegam ver um ganho na escravidão e no estado colonial. Mas basta um pouco de luz para desfazer esta densa escuridão. Agora se tornou visível e solar. Não há mais como escamoteá-la.

Somos uma sociedade contraditória onde encontramos, ao mesmo tempo  brilhantismo na ciência, na literatura, nas artes plásticas ,na música e na riquíssima cultura popular, geralmente feita à revelia de toda a opressão e do mainstream e em tantos outros campos. E ao mesmo tempo, somos uma sociedade que internalizou o opressor, se fez eco da voz dos donos, conservadora e até atrasada quando comparada com países semelhantes ao nosso. Num certo sentido somos cruéis e sem piedade para com nossos semelhantes atingidos pelas maldades perpetradas pelos estratos ultra-endinheirados e faltos de qualquer sentido de compaixão para com os milhões caídos na estrada sem que nenhum samaritano se compadeça deles. Passam ao largo sem vê-los e o que é pior, desprezando-os como se não fossem da mesma nação ou   da mesma família humana.

Esses ainda se confessam cristãos sem terem nada a ver com  a mensagem do Mestre de Nazaré. Os ateus éticos e humanitários estão maia próximos do Deus de Jesus, da ternura dos humildes e defensor dos humilhados e ofendidos, do que estes cristãos meramente culturais que usam o nome de Deus para defender suas nefastas políticas individualistas ou corporativas, de um Brasil só para eles. Eles estão longe de Deus por negarem os filhos e filhas de Deus, chamados pelo Juiz supremo de “meus irmãos e irmãs menores” sob os quais ele mesmo se escondia.

Tem muito  de verdade o que escreveu a filósofa Marilena Chaui:”A sociedade brasileira é uma sociedade autoritária,uma sociedade violenta, possui uma economia predatória de recursos humanos e naturais, convivendo com naturalidade com a injustiça, a desigualdade e a ausência de liberdade e com os espantosos índices das várias  formas institucionais – formais e informais – de extermínio físico e psíquico e de exclusão social e cultural”( 500 anos -cultura e política no Brasil n.38 p.32-33).  O sonho idílico de Darcy Ribeiro de o Brasil se tornar  a Roma tardia e tropical se esvanece nas “vastas sombras” como diz o Papa Francisco nas Fratelli tutti (cap.I). Celso Furtado, entristecido, no final  da vida escreveu todo um livro: Brasll: a construção interrompida (1993).

Todas estas nuvens escuras se condensaram nos últimos anos e ganharam seus sacerdotes e acólitos que as assumem conscientemente,querendo levar o Brasil aos tempos pré-modernos. Se os levassem pelo menos à Idade Média que tinha suas grandezas desde as majestosas catedrais às grandes sumas teológicas. O Brasil deste projeto retrógrado e irrealizável se tornou uma grotesca farsa e uma irrisão internacional.

O conjunto destas sombras vastas e o domínio do Negativo se adensaram na figura do atual chefe de estado e de seu governo, associado ao seu projeto. Ele é a consequência desta anti-história e sua mais perversa corporificação. Representa o que de pior ocorreu em nossa história e consciente o inconscientemente tenta dar-lhe o acabamento final. Mas não o conseguirá porque jamais na história os mecanismos de morte e de ódio lograram realizar seu intento, sequer Hitler com todo o seu poderia militar e científico conseguiu lançar ao fundamentos de um Reino de Mil Anos como sonhava.

Os processos históricos não são cegos e  sem destino. Eles guardam um Logos secreto que vai conduzindo o rumo das coisas em consonância com o processo da cosmogênese e gera, do meio do caos, ordens superiores com novas possibilidades e horizontes insuspeitados. Qual será nosso lugar, como povo e como nação, no conjunto de todos esses processos? Eles marcam a direção mas quem tem que percorrê-la e construi-la somos todos nós. Não nos é permitido preguiçosamente pisar nas pegadas já feitas, Temos que fazer as nossas pegadas. E também não podemos chegar tarde demais, porque desta vez o caminho não tem volta.

Oxalá estejamos atentos ao que a história, apesar do reacionarismo e protofascismo de Bolsonaro e de seus seguidores, nos exigirá. Como outrora dizia Platão:”todas as coisas grandes procedem do caos”.As nossas poderão ter  a mesma origem.

Leonardo Boff, filósofo, teólogo e escritor e escreveu:Brasil: concluir a refundação ou prolongar a dependência, Vozes 2018.

Sartre, prisioneiro de guerra:comovente texto sobre o Natal

Recebi de um amigo e colega de teologia da PUC-SP Fernando Altemeyer Junior este texto, conhecido, mas pouco divulgado de J.P.Sartre. Prisioneiro na segunda guerra mundial, a pedido de alguns padres, também prisioneiros, foi solicitado a escrever uma meditação, a mais ampla possível para que todos pudessem entendê-la. Ateu professo e generoso, acedeu ao convite. Entrou no espírito do Natal e lhes entregou este comovente texto que nos ilumina até os dias de hoje. Posto em dúvida, ele o reconheceu como seu em 1962, explicando o contexto em que foi elaborado. Agradecemos ao incansável pesquisador e professor Fernando Altemeyer Junior o acesso a este texto em português e no originqal francês. Lboff

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Estamos em 1940, na Alemanha, num campo de prisioneiros franceses. Alguns padres pedem a Jean-Paul Sartre, recluso há alguns meses com eles, que redija uma pequena meditação para a véspera de Natal. Sartre, ateu, aceita o pedido. Oferece aos seus camaradas “Barjoná ou filhos do trovão”, procurando unir crentes e não crentes.
“Como hoje é Natal, tendes o direito de exigir que vos seja mostrado o presépio. Ei-lo. Eis a Virgem, eis José e eis o Menino Jesus. O artista colocou todo o seu amor neste desenho, mas vós talvez o considereis ingénuo. Vede, as personagens têm belos ornamentos, mas estão rígidas, dir-se-ia que são marionetes. Não eram certamente assim. Se fordes como eu, que tenho os olhos fechados… Mas escutai: só tendes de fechar os olhos para me ouvir e eu vos direi como os vejo dentro de mim. A Virgem está pálida e observa o menino. O que falta pintar no seu rosto é um maravilhamento ansioso, que só aparece uma única vez numa figura humana. Pois Cristo é o seu filho, a carne da sua carne e o fruto das suas entranhas. Ela carregou-o nove meses e dar-lhe-á o seio e o seu leite tornar-se-á o sangue de Deus. E em certos momentos a tentação é tão forte que esquece que é Deus. Ela aperta-o nos seus braços e diz: “Meu pequeno!”. Mas noutros momentos permanece perturbada e pensa: “Deus está ali”, e sente-se tomada por um horror religioso por este Deus mudo, por este menino terrificante. Pois todas as mães se detêm por instantes diante desse fragmento rebelde da sua carne que é o seu filho e sentem-se exiladas diante dessa nova vida que foi feita com a sua vida e que povoam de pensamentos estranhos. Mas nenhum filho foi mais cruelmente e mais rapidamente arrancado da sua mãe, porque Ele é Deus e está além de tudo o que ela pode imaginar. E é uma dura provação para uma mãe ter vergonha de si e da sua condição humana diante do seu filho. Mas penso que deve ter havido outros momentos, rápidos e escorregadiços, nos quais sente ao mesmo tempo que o Cristo é seu filho, o seu pequeno, e que é Deus. Ela observa-o e pensa: “Este Deus é meu filho! Esta carne divina é a minha carne. É feito de mim, tem os meus olhos e esta forma da sua boca é a forma da minha. Parece-se comigo. É Deus e parece-se comigo”. E nenhuma mulher teve da sorte o seu Deus só para si. Um Deus pequenino que se pode tomar nos braços e cobrir de beijos, um Deus quente que sorri e respira, um Deus que se pode tocar e que vive. E é nesses momentos que eu pintaria Maria, se eu fosse pintor, e tentaria representar a expressão de terna audácia e de timidez com a qual ela avança o dedo para tocar a doce pelezinha deste menino-Deus, de quem sente sobre os joelhos o peso morno e que lhe sorri. E eis tudo para Jesus e para a Virgem Maria. E José? José, não o pintaria. Mostraria apenas uma sombra ao fundo da granja e dois olhos brilhantes. Pois não sei o que dizer de José e José não sabe o que dizer de si mesmo. Adora e está feliz por adorar e sente-se um pouco em exílio. Creio que sofre sem o admitir. Sofre porque vê o quanto a mulher que ama se parece com Deus, o quanto ela já está perto de Deus. Pois Deus rebentou como uma bomba na intimidade desta família. José e Maria estão separados para sempre por esse incêndio de claridade. E toda a vida de José, imagino, será para aprender a aceita

Jean-Paul Sartre – Trad.: Rui Jorge Martins

En français par m. l´Abbé Pierre-Hervé Grosjean:

“Nous sommes en 1940, en Allemagne, dans un camp de prisonniers français. Des prêtres prisonniers demandent à Jean-Paul Sartre, prisonnier depuis quelques mois avec eux, de rédiger une petite méditation pour la veillée de Noël. Sartre, l’athée, accepte. Il offre à ses camarades ces quelques lignes magnifiques.
« Vous avez le droit d’exiger qu’on vous montre la Crèche. La voici. Voici la Vierge, voici Joseph et voici l’Enfant Jésus. L’artiste a mis tout son amour dans ce dessin, vous le trouverez peut-être naïf, mais écoutez. Vous n’avez qu’à fermer les yeux pour m’entendre et je vous dirai comment je les vois au-dedans de moi. La Vierge est pâle et elle regarde l’enfant. Ce qu’il faudrait peindre sur son visage, c’est un émerveillement anxieux, qui n’apparut qu’une seule fois sur une figure humaine, car le Christ est son enfant, la chair de sa chair et le fruit de ses entrailles. Elle l’a porté neuf mois. Elle lui donna le sein et son lait deviendra le sang de Dieu. Elle le serre dans ses bras et elle dit : « mon petit » ! Mais à d’autres moments, elle demeure toute interdite et elle pense : « Dieu est là », et elle se sent prise d’une crainte religieuse pour ce Dieu muet, pour cet enfant, parce que toutes les mères sont ainsi arrêtées par moment, par ce fragment de leur chair qu’est leur enfant, et elles se sentent en exil devant cette vie neuve qu’on a faite avec leur vie et qu’habitent les pensées étrangères. Mais aucun n’a été plus cruellement et plus rapidement arraché à sa mère, car Il est Dieu et Il dépasse de tous côtés ce qu’elle peut imaginer. Et c’est une rude épreuve pour une mère d’avoir crainte de soi et de sa condition humaine devant son fils. Mais je pense qu’il y a aussi d’autres moments rapides et glissants où elle sent à la fois que le Christ est son fils, son petit à elle et qu’il est Dieu. Elle le regarde et elle pense : « ce Dieu est mon enfant ! Cette chair divine est ma chair, Il est fait de moi, Il a mes yeux et cette forme de bouche, c’est la forme de la mienne. Il me ressemble, Il est Dieu et Il me ressemble ». Et aucune femme n’a eu de la sorte son Dieu pour elle seule. Un Dieu tout petit qu’on peut prendre dans ses bras et couvrir de baisers, un Dieu tout chaud qui sourit et qui respire, un Dieu qu’on peut toucher et qui vit, et c’est dans ces moments-là que je peindrais Marie si j’étais peintre, et j’essayerais de rendre l’air de hardiesse tendre et de timidité avec lequel elle avance le doigt pour toucher la douce petite peau de cet enfant Dieu dont elle sent sur les genoux le poids tiède, et qui lui sourit. Et voilà pour Jésus et pour la Vierge Marie. Et Joseph. Joseph ? Je ne le peindrais pas. Je ne montrerais qu’une ombre au fond de la grange et aux yeux brillants, car je ne sais que dire de Joseph. Et Joseph ne sait que dire de lui-même. Il adore et il est heureux d’adorer. Il se sent un peu en exil. Je crois qu’il souffre sans se l’avouer. Il souffre parce qu’il voit combien la femme qu’il aime ressemble à Dieu. Combien déjà elle est du côté de Dieu. Car Dieu est venu dans l’intimité de cette famille. Joseph et Marie sont séparés pour toujours par cet incendie de clarté, et toute la vie de Joseph, j’imagine, sera d’apprendre à accepter. Joseph ne sait que dire de lui-même : il adore et il est heureux d’adorer ».

Le texte dérange les partisans de Sartre et sa compagne Simone de Beauvoir essayera de réfuter l’origine de ce texte. Mais Sartre confirmera en être l’auteur, en 1962, dans la note suivante : « si j’ai pris mon sujet dans la mythologie du Christianisme, cela ne signifie pas que la direction de ma pensée ait changé, fût-ce un moment pendant la captivité. Il s’agissait simplement, d’accord avec les prêtres prisonniers, de trouver un sujet qui pût réaliser, ce soir de Noël, l’union la plus large des chrétiens et des incroyants ».

[Extrait de « Barjona ou le Fils du tonnerre », le texte se trouve intégralement dans l’ouvrage Les Ecrits de Sartre, M. Contat et M. Rybalka, NRF 1970].

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Maradona, uma metáfora da condição humana

                                        Leonardo Boff

Que é o ser humano? Por mais que todas as ciências tentem definir o ser humano, este continua sendo sempre uma questão aberta. Santo Agostinho (354-430) que durante a vida inteira se preocupava desesperadamente por encontrar uma resposta sobre que é o ser humano, terminou dizendo apenas:”factus sum quaestio magna”: “tornei-me para mim mesmo uma grande questão”. E se calou.

Às vezes não são as ciências nem   as religiões que nos fornecem a melhor imagem (ao invés de uma definição), mas os literatos. A melhor fórmula para mim  encontrei-a em Antoine de Saint Exupéry, o autor do Pequeno Príncipe, em seu romance A Cidadela. Aí ele entende o ser humano como “um noeud de relations” “um nó de relações voltado em todas as direções” Vai além da sexta tese de Marx sobre Feuerbach ao definir “essência humana é o conjunto de suas relações sociais”. Essa visão é redutivista. O ser humano é o conjunto de suas relações totais e em todas as direções e não só sociais. Faz sentido também ainda dizer que ele “é um projeto infinito sempre em busca de seu objeto adequado,nunca encontrável no âmbito em que vive”, o que o leva a transcender este mundo.

À parte desta busca sem fim, cabe seguramente dizer que ele é um ser complexo e a conjunção de duas dimensões que sempre ocorrem nele conjuntamente: o positivo e o negativo, o luminoso e obscuro, o inteligente (sapiens) e o demente (demens), a pulsão de vida (eros) e a pulsão de morte (thánatos), o utópico e o histórico, a realização e a frustração, a derrota e a vitória, a gentileza e a boçalidade, a cordialidade a rudeza, o poético e o prosaico, o dia-bolico (que divide) e o sim-bólico (que une), o equilíbrio e o excesso, o caos e o cosmos Esta dualidade não é um defeito de criação. É a condição humana real. Esta mesma estrutura se encontra no cosmos (ordem e desordem) e em cada ser vivo e inerte (autônomo e integrado).Temos a ver com uma constante universal.

Desafio para cada ser humano não é negar uma das partes, o que seria impossível e ela voltaria furiosa, mas como integrar esta dualidade, encontrar um justo equilíbrio dinâmico, sempre por fazer, de forma que possa construir sua identidade, seu projeto de vida e buscar a felicidade possível aos filhos e filhas de Adão e de Eva.

Ocorre, entretanto, que existe o trágico na vida humana, tão plasticamente  representado pelos teatros gregos. O excesso,o demencial e o dia-bólico (o que cinde ) pode tomar conta da pessoa, inundar-lhe consciência e faze-la escrava da dimensão do obscuro.

O arquétipo do herói/heroína nos pode ajudar a entender esse drama. Não o herói/heroína convencional das sagas de guerra e das novelas. Mas no sentido da moderna psicanálise. Cada pessoa pode ser herói/heroína na forma como trabalha esta dualidade, consegue integrá-la e realizar seu processo de individuação.Há vários tipos de heróis/heroínas: o resistente,o peregrino,o lutador, o mártir e outros.

Escrevo tudo isso a propósito da figura do genial jogador argentino de futebol Diego Maradona. Vê-lo em campo era um espetáculo por si só. Driblava com uma inteligência sumamente criativa; um sentido único de oportunidade. Pequeno, 1,65 de altura, robusto e com uma velocidade inacreditável.Toda comparação é odiosa, pois cada um é um e irrepetível. Mas Maradona excele  sobre qualquer jogador ainda em atividade. Será uma referência mundial imarcessível.

Mas eis que irrompeu a tragédia: foi tomado pela dependência química da qual nunca se libertou totalmente. Era tão humano que não escondia sua dependência.“Sabe que jogador eu teria sido se não tivesse usado drogas?” se perguntava com humor. “Tenho 53 anos, mas é como se tivesse 78. Minha vida não foi normal, digamos. 53 anos? Eu vivi 80.” Morreu aos 60 anos. Ele foi um herói resistente (del aguante) tragado pelo lado do obscuro e do excesso.

Vale recordar: jogava com os pés agilíssimos e com a cabeça que marcava gols notáveis. Mas sua cabeça também pensava e definia em que lado se colocava no espectro social: do lado dos oprimidos, simbolizados por Fidel Castro e por Lula. E o anunciava publicamente.

O povo argentino, tão sofrido por problemas internos políticos, o elevou ao mais alto ponto da exaltação a ponto de penetrar no  espaço do Numinoso e chama-lo de “deus”. Faltavam-lhe palavras para admirar o seu “Pibe” “o  divino infante”. Há que se entender corretamente tal exaltação que ocorre sempre quando o entusiasmo supera todos os limites e encontra nas palavras do Numinoso sua melhor expressão.

Uno-me ao encantamento de sua arte e solidarizo-me a tantos do povo argentino em lágrimas, que com Maradona ganhavam a força de superar dificuldades e manter a alegria de viver. Uniu em si o humano e o inhumano, como nos recorda Nietzsche, pois ambos, o humano e o excessivamente humano, pertencem ao humano: luminoso e obscuro, heroico mesmo vencido.

Leonardo Boff é teólogo, filósofo e escritor e escreveu “Tempo de Transcendência:o ser humano como projeto infinito” Animus/Anima, Petrópolis.