O legado de J.P.II: o resgate da religião

Nota: alguns grupos católicos de linha mais conservadora me fizeram pesadas criticas em razão da beatificação de JP II. No dia 4/11/2005 por ocasião de sua morte escrevi o artigo que reproduzo como esclarecimento de minha posição como teólogo: LB

João Paulo II foi um homem de profunda fé. Creu em tudo o que perfaz a galáxia eclesial, dede a água benta, as relíquias, os santos, os lugares sagrados até a SS. Trindade.

A metafísica católica (a forma como os católicos entendem e organizam o mundo) é assumida em sua inteireza sem nenhuma restrição. Ele creu e assumiu aquilo que a Igreja diz que é sua função como Papa, descrita na primeira página do Annuario Pontificio:” bispo de Roma, vigário de Jesus Cristo, sucessor do príncipe dos Apóstolos, sumo pontífice da Igreja universal, patriarca do Ocidente, primaz da Itália, arcebispo metropolita da Província romana, soberano do Estado da Cidade do Vaticano e servo dos servos de Deus”.

O Papa subjetivamente incorporou este seu múnus. E o fêz com absoluta convicção e inteireza. Ajudou-o o carisma que recebeu de Deus: a sedução de sua figura imponente, atlética e irradiante. Ajudou-o o fato de ter sido ator e que, naturalmente e com “grazie” sabia produzir uma irresistível dramatização mediática com o gesto impactante e a palavra exata. E tudo isso a serviço da causa da religião. Há nele uma fortíssima condensação do religioso, do espiritual e do místico que transparece no rosto que ora se transfigura, ora se fecha em contemplação e ora se contorce em dor. Empunhava a cruz com solenidade e força com quem empunha uma lança de cavaleiro conquistador.

O importante não é a avalanche de documentos de toda ordem que deixou, ultrapassando mais de cem mil páginas. O grande discurso é sua figura. O que permanecerá na história é sua imagem carismática, ao mesmo tempo vigorosa e terna e profundamente religiosa. Qual é o seu legado? Ele mesmo. Qual o conteúdo deste legado: a religião.

O legado: ele mesmo como uma figura carismática que veio preencher um vazio sentido no mundo inteiro. Há uma orfandade de líderes carismáticos. Os que existem ou são belicosos ou burocratas do poder. Não há um Gandhi, um Luther King, um Che Guevara ou uma Madre Teresa. As massas sentem a carência de um Edipo benfazejo, de um pai com características de mãe, do qual derivam inspiração e direção para o futuro. João Paulo II apontou um caminho.

O conteúdo: o resgate da religião para a publicidade do mundo, como força de galvaniza massas e como poder político, decisivo na derrocada do regime soviético. Contra a tendência secularizante da modernidade que tornara a religião politicamente invisível, João Paulo II mostrou que ela parte essencial da realidade e que pode produzir paz ou guerras.

Podemos discutir a orientação que deu à religião, numa linha conservadora, doutrinariamente fixista e moralmente rígida. Mas não podemos negar a relevância do elemento religioso e místico na configuração da nova humanidade.

Não obstante todos estes valores positivos, um cristão crítico não deixa de se perguntar: esse Pontificado nos chamou para a essência do legado de Jesus que nos disse: “vos sois todos irmãos e irmãs, não chameis a ninguém de pai na Terra porque um só é vosso Pai, aquele que está nos céus; não vos façais chamar de mestres, porque um só é vosso Mestre, o Cristo”? Os verdadeiros adoradores não se encontram no grande espetáculo mediático mas quando “adoram o Pai em espírito e verdade”.Aqui outros são os critérios de avaliação.

10 comentários sobre “O legado de J.P.II: o resgate da religião

  1. Caro Boff,

    “Não há um Gandhi, um Luther King, um Che Guevara ou uma Madre Teresa.”
    Não existe aí um exemplo que não se enquadra com o restante do grupo? Sem dúvida que foram personalidades que trouxeram mudanças positivas para a sociedade em que se inseriam, mas, houveram metodologias diferentes aplicadas por cada um. Acredito que a moral mais divina que foi pregada aqui na Terra foi a moral do Cristo, proveniente diretamente das Leis Morais Imutáveis de Deus. Nessa moral não havia espaço para violência. Um desses quatro exemplos citados pelo senhor, não merece estar ao lado de espíritos tão evoluídos moralmente como os demais. Um deles não seguiu os ensinamentos do Senhor. Não importa o objetivo, a intenção, mas um deles matou e torturou. Gandhi, King e Madre Teresa não devem estar no mesmo nível, jamais. Abraços!

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    • Yuri, obrigado pelo comentário. Você traduziu o meu sentimento quando li os nomes. Boff, como sempre, é genial na sua escrita, entretanto, sua ressalva foi muito oportuna. Este artigo está realmente inspirador.

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  2. João Paulo II estará, para sempre, associado à primeira ideia de “Papa” que tive em minha vida: eu tinha 6 anos quando ele assumiu o Pontificado e 33 quando ele faleceu. Lembro bem de sua passagem por Porto Alegre, em 1981 (“ucho, ucho, o Papa é gaúcho”) e de muitas outras coisas. João Paulo II viveu o mandato de anunciar o Evangelho sobre os telhados para os nossos tempos. Em si, isto já se compôs em grande desafio, pois a época de seu pontificado é marcada por mudanças rápidas e profundas na cultura ocidental e na comuncação humana. Karol Woytila soube ser “midiático” sem ser superficial. Fez-se presente no meios de comunicação sempre com algo significativo a dizer. Como esquecer do convite que fez a Bob Dylan para tocar para ele e de todo o cpomentário que fez sobre a música “Blowin in the Wind”? Como não lembrar da audiência com Bono Vox, quando colocou os óculos recebidos de presente do roqueiro? Neste espírito de diálogo e aliança a favor da vida foram os encotros com líderes de diversas tradições relgiosas em Assis, na Itália (ocrreram dois, se não estou enganado). Enfim… João Paulo II deu um rosto para a Igreja no final do século XX. Faltou-lhe ousadia em algumas questões? Sim. No todo, porém, temos um grande líder sendo beatificado hoje.

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  3. Boff, sou seu fã.

    Gosto das respostas que você dá aos agressores no twiter. É muito inspirador vê-lo rebater agressões sem ser agressivo.

    Aquela que você disse que foi aluno de Werner Heisenberg foi genial. Humilde, sóbria, sincera e, sobretudo, cordial.

    Se um dia vier ao Recife, poderia batizar minha filha? Seria uma honra para mim.
    No mais, excelente artigo.
    Que Deus o proteja.

    P.S.: Sei que fiz errado, mas respondi a dois de seus agressores. Me desculpe. Não conseguir me conter.

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    • Carlos

      Grato por suas palavras generosas. Há momentos que a iracundia sagrada tem seu lugar, especialmente quando a pessoa agride gratuitamente e carregada de preconceito.

      Sua defesa me deixou feliz pela sinceridade e verdade de suas palavras.
      um abraço com fraternura
      lboff

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  4. Leonardo Boff, que dizer de tão grandioso homem da humanidade?
    Palavras faltam para expessar quão grande é sua representatividade na luta por um mundo harmoniosamente mais justo e economicamente mais igualitário. Céu e Terra numa interdependência precípua, sob o risco de, se não haver, findar a vida humana nesta terra.

    A teologia da libertação foi fundamental para que a igreja católica volte seus olhares aos mais pobres, assim como fez Jesus. Para que a igreja deixe de lado fatores estadistas, para se tornar a voz dos oprimidos, a voz dos que sofrem.

    João Paulo II foi um exemplo de carisma e afetuosidade que o fizeram ser respeitado nos quatro cantos do globo terreste e, se lera os livros de Boff como dito alhures, cresceu, ainda mais na espiritualidade, pois Boff é exemplar.

    Paz, equilíbrio e sabedoria!

    Grande abraço.

    Gustavo Gurgel

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  5. Vital farias escreve: Fiquei muito triste quando li o Comentario do Nosso Amigo João Claudio Moreno,a respeito do Grande Vulto da Intelectualidade Religiosa Mundial que é:Frei Leonardo Boff,Talvez o nobre amigo não tenha noção dos ensinamentos que CRISTO, deixou além das instituições religiosas e seus Lamentaveis DOGMAIS QUE A IGREJA CATOLICA APOSTOLICA ROMANA,inventou durante Séculos pensando que sozinha dominaria o mundo Ocidental para Seculos Amém.!Ledo engano.!
    A primeira comprovação histórica,é a interferência de MARTIN LUTERO,nas vendas de INDULGÊNCIAS e etc..que sem querer dividiu a força descomunal da Igreja Católica daquela época.! Note bem o desprezo nos seculos:XIX,XX E XXI,virando as costas para os Humildes e desprezando os textos mais CONTUNDENTES DA PALAVRA SAGRADA.!
    O PROTESTANTISMO vingou de tal maneira que até hoje a bem da verdade, a Igreja Catolica Apostólica Romana,nunca mais foi nem será a mesma.! OS SANTOS DA TERRA NÃO OBRARÃO MILAGRES.! MILAGRES SÓ SERÃO REALIZADOS PELOS SANTOS DOS CÉUS,.!O DESVIO DE CONDUTA EM RELAÇÃO AO DESPREZO AOS PEQUENINOS,FERE FRONTALMENTE AS LEIS DE DEUS E SEUS ENSINAMENTOS.INFELIZMENTE GRANDE PARTE DESSA IGREJA SUPRA CITADA, TRANSFORMOU-SE NUM IMPÉRIO DE PODER DOS POTENTADOS.,NADA AFOVOR DA HUMILDADE NEM DOS COMPROMISSOS COM A TRANSFORMAÇÃO DA GRANDEZA DOS CÉUS AQUI NA TERRA.INFELIZMENTE, JOÃO CLAUDIO ME DEIXOU UMA IMPRESSÃO NADA ACALENTADORA.! MESMO ASSIM, CONTINUAREI LHE ADMIRANDO E PROCURANDO ENTENDER O SEU INFELIZ COMENTÁRIO..!
    vital farias.(Leia no Livro Indignação I,II e III de Autoria do vital farias a ser lançado)
    vitalfariascantador.blogspot.com

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    • Vital,
      Aconselho vivamente o livro de Hans Küng, seguramente, o maior teólogo católico vivo: A IGREJA TEM SALVAçAO? É da editora Paulus SP.
      Küng é um acadêmico e teólogo-historiador rigoroso e mostra como o “sistema romano” está assentado sobre falsos documentos forjados para reforçar a elite clerial romana como A Doação de Constantino e outros falsificações mal intencionadas. Um cristão crítico não pode passar por cima destas montagens a serviço da dominação relgiosa e acolher um poder ilegítimo, autoritário, a única monarquia absolutista ainda existente no mundo que é o Vaticano.
      bom proveito
      lboff

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