Barões da imprensa no divã da psicanálise

               Edelberto Behs  06 Abril 2021: IHU

 Esse artigo é especialmente precioso,neste momento em que militares e outros grupos saudosistas celebram o que eles chamam de” movimento de 1964”, um eufemismo para ocultar a ditadura civil-militar que durou 21 anos.Elas  se caracterizou pela violência do Estado ditatorial com prisões, sequestros, torturas e assassinatos. Sempre em nome da Segurança Nacional (na verdade, segurança do Capital). A grande imprensa (O Globo, FSP, Estadão, Veja,IstoÉ e os principais canais de TV e outros) apoiou entusiasticamente o golpe. Edelberto Behs cita literalmente os editoriais Esta imprensa sempre foi o braço estendido da classe dominante, dos barões do Capital e dos descendentes da Casa Grande que o renomado sociólogo Jessé Souza chama de “A elite do atraso”(Estação Brasil,2020).Esteve presente em todos os golpes, especialmente, quando temia que os privilégios dos endinheirados, seus aliados, estavam sob ameaça por políticos de caris popular e com vontade de introduzir políticas sociais que beneficiassem os empobrecidos, a maioria da população. Não foi diferente nos dias atuais. Essa imprensa que só conhece um lado, parcial, anti-popular e, no fundo, anti-nacional, foi decisiva para a eleição de Jair Bolsonaro. Agora, com o passar do tempo, tenta fazer uma auto-crítica,seja de seu apoio ao golpe civil-militar, seja  da sustentação dada ao insano presidente, aliado do coronavírus, insensível à dizimação de mais de 300 mil compatriotas. Ocorre que não se corrigem. Não aprendem nada da história. Seu arrependimento não é sincero nem ético, porque continuam com as mesmas estratégias em favor dos privilegiados e dos que dominam as grandes maiorias, maltratadas e desprezada e contra qualquer mudança substancial na sociedade brasileira que inclua os milhões de maginalzados e estigmatizados. O arrependimento é sempre tardio e, no fundo, falso, num esforço de tirar sobre suas costas a cota de responsabilidade pela desgraça generalizada que adoece o nosso país.Vale ler este artigo que desmascara, com textos desta mesma imprensa viralatista, a posição que historicamente ela ssumiu, sempre do lado dos poderosos e contra os movimentos sociais por direitos, justiça e dignidade:.Lboff

“Em todos esses casos, o arrependimento veio tarde. Pesou e cortou na própria carne. A expectativa agora é saber em quais aventuras os barões vão se enfurnar em 2022, se as sessões de psicanálise terão que ser continuadas e ampliadas, ou se vão seguir as dicas mais elementares que constam em qualquer manual de redação, tipo ouvir todos os lados da questão, deixar o julgamento para a Justiça, praticar jornalismo investigativo, não divulgar factoides…”, escreve Edelberto Behs, jornalista, que atuou na Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil – IECLB de 1974 a 1993, como repórter e editor do Jornal Evangélico e depois como assessor de imprensa.

 Eis o artigo.

 Até mesmo o mais qualificado profissional da psicanálise certamente terá dificuldades para decifrar a alma dos barões da imprensa brasileira e seu comportamento nos últimos 70 anos.

Sempre na defesa de interesses de uma elite econômica, mandachuva, retrógrada, mas com discursos de modernidade, de defesa da democracia e “interpretando a vontade” do povo, a grande imprensa colocou o governo Vargas contra a parede, apoiou o golpe cívico-militar de 1964, elegeu o caçador de marajás, incentivou o impedimento da presidenta Dilma Rousseff foi um sustentáculo da Lava Jato, ajudou a colocar Lula na cadeia, defendeu a candidatura de Jair Messias Bolsonaro no segundo turno e … bem depois veio o arrependimento.

Em 70 anos não aprendeu nada sobre construção de uma nação mais justa e igualitária, de inserção autônoma no cenário político internacional, de políticas públicas que conferem saúde, segurança, educação qualificada para que a população possa bem se inserir no mercado de trabalho. A grande mídia parece estar sempre atenta para que o povo, que tanto ela diz defender, fique relegada a um gandula num campo de futebol.

O Globo, em editorial no dia 2 de abril de 1964, assinalava:

Salvos da comunização que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares que os protegeram de seus inimigos.

Este não foi um movimento partidário. Dele participaram todos os setores conscientes da vida política brasileira, pois a ninguém escapava o significado das manobras presidenciais.

E festejava depois:

– Ressurge a Democracia! Vive a Nação dias gloriosos. Porque souberam unir-se todos os patriotas, independentemente das vinculações políticas simpáticas ou opinião sobre problemas isolados, para salvar o que é de essencial: a democracia, a lei e a ordem.

– Graças à decisão e ao heroísmo das Forças Armadas que, obedientes a seus chefes, demonstraram a falta de visão dos que tentavam destruir a hierarquia e a disciplina, o Brasil livrou-se do governo irresponsável, que insistia em arrastá-lo para rumos contrários à sua vocação e tradições.

Quais tradições? De aplicar golpes?

O Jornal do Brasil justificava, em editorial, no dia 1º de abril:

– Golpe? É crime só punível pela deposição pura e simples do Presidente. Atentar contra a Federação é crime de lesa-pátria. Aqui acusamos o Sr. João Goulart de crime de lesa-pátria. Jogou-nos na luta fratricida, desordem social e corrupção generalizada.

E arrematava:

– …A legalidade está conosco e não com o caudilho aliado dos comunistas.

Ou seja, não foi golpe!

A Folha de S. Paulo criticava, no dia 1º de abril, o discurso do presidente João Goulart proferido na Central do Brasil, no Rio, em 13 de março, anunciando reformas de base, seguindo um desejo “comunista”: 

– Mais forte, porém, do que esse anúncio de benefícios salariais foi a insistência nas reformas de base, a reforma que nem o presidente nem os seus assessores até agora deram conteúdo. Usou delas, como tem repetidamente feito, pura e simplesmente como aríete contra a Constituição, que ele deseja reformar a qualquer preço […] Não poderia faltar, é obvio, o condimento do ataque aos privilegiados […] todos aqueles brasileiros que lutam por situações democráticas e legais, pois estes é que são hoje os “privilegiados”, termo não à toa criado pelos filósofos comunistas que orientam as falas presidenciais […]

As Organizações Globo, ao lado de militares, golpistas e “pessoas de bem”, levou 50 anos para reconhecer que errou ao apoiar o golpe de 1964. A Folha não foi tão longe, pois, afinal, admitiu que o governo ditatorial então instalado foi apenas uma “ditabranda”. Editoriais dos grandes jornalões deixou evidente o apoio ao golpe cívico-militar. Cívico, justamente porque contou com a mão nem tão invisível do empresariado e bem tangível da imprensa.

O Correio da Manhã, do Rio, que saiu às ruas, dias 31 de março e 1º de abril, com dois editoriais impressos na capa do jornal, sob os títulos “Basta” e “Fora”, naquele texto pediu a saída do presidente João Goulart, e neste saudou a “revolução”. Dias depois não se sentia mais tão a vontade com os rumos do governo militar.

Os jornalões que em 1964 aplaudiram o golpe viram, com a introdução do Ato Institucional nº 5, em 1968, que tomaram o barco errado. O AI-5 estabelecia que a imprensa só podia divulgar a versão oficial sobre o combate ao terrorismo.

Depois veio a censura, com militares instalados em redações fazendo a leitura de notícias e reportagens, liberando sua publicação total, parcialmente, ou mandando-a para a lata do lixo. Os editores substituíam as matérias censuradas com a publicação de receitas de bolo, poemas, versos de Camões, versículos bíblicos, literatura de cordel, publicidade da própria casa… Para engrossar o caldo, em 1969 entrou em vigor a Lei de Segurança Nacional que botou em cana jornalistas que questionavam o governo.

Parecia que os barões da imprensa tinham aprendido a lição. Ledo engano. Empenharam-se para o Brasil eleger o caçador de marajás, uma lenda que não se sustentava ante a mais simples apuração do que ocorria em Alagoas, onde Fernando Collor de Mello foi governador. Depois, voltaram-se contra o seu candidato preferencial, quando ele foi guindado ao julgamento do Congresso por crimes contra a pátria.

Em 2002, não conseguiram impedir a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, mas infernizaram a vida do presidente, com questionamentos à política de cotas, à política econômica, aos investimentos para a Copa do Mundo.  O PT errou no governo, sim, erros que a mídia destacou. Mas não só: a imprensa acolheu vazamentos, acriticamente, contra Lula ex-presidente, desmandos da Lava-Jato, como o envolvimento do juiz de primeira instância Sérgio Moro na condução de ações da “República de Curitiba”, sob o comando do terrivelmente evangélico (criador de powerpoints) Deltan Dallagnol.

O Globo foi o canal preferencial dos vazamentos promovidos por Sérgio Moro, inclusive grampeando a presidência da República, sob Dilma Rousseff, e até mesmo o escritório de advocacia da defesa de Lula. A suspeição de Moro foi julgada há dias pelo Supremo Tribunal Federal, o que resultou na anulação das “provas” (inexistentes) contra o réu, acusado de ser dono de um tríplex e de receber benefícios de construtoras na reforma de um sítio em troca de negociatas na Petrobras.

“Quanto tempo o Jornal Nacional gastaria se fosse Lula e não Moro que virasse sócio de uma empresa norte-americana que trabalha com a recuperação fiscal da Odebrecht, OAS, entre outras?” – perguntou Celeste Silveira do Portal Antropofagista. Como se trata do queridinho da Globo o envolvido no escândalo da Vaza-Jato, o baronato da casa se cala, sob o argumenta de que as informações obtidas pelo The Intercept Brasil, que “vazou a Lava-Jato” tinham sido passadas por hacker. Como se a Globo não tivesse recebido de Moro e vazado inclusive conversas telefônicas de Marisa e os filhos. Então o vazamento sequer foi questionado.

A imprensa tem, muitas vezes, o péssimo papel de julgar a pessoa ou entidade acusada antes de o processo tramitar em julgado. Ela se antecipa à Justiça, como ocorreu no emblemático caso da Escola Base, de São Paulo. Os donos da escola infantil, acusados de abuso sexual de crianças, foram linchados pela imprensa, com base numa entrevista concedida pelo delegado do caso, mas sem apresentar provas. Ficou claro, depois, que não ocorreu qualquer abuso. Mas a essas alturas a escola já fora fechada e a vida dos proprietários da escola destroçada.

No campo político, para não ficar restrito ao PT, em 1998, Eduardo Jorge Caldas Pereira, ex-secretário-geral da Presidência da República no governo Fernando Henrique Cardoso, passou a sofrer o que ele denominou de “linchamento da mídia”, acusado de desviar 169 milhões de reais das obras do Tribunal Regional do Trabalho, em São Paulo. O esquema teve outros envolvidos, e Eduardo Jorge foi absolvido pela Justiça, mas não deixou barato. Moveu processo contra Veja, Folha de S. Paulo, Correio Braziliense, O Globo, Estado de Minas e Jornal do Brasil. Recebeu indenização de todos os sete.

“Fiz isso para restaurar a minha honra, obter reparação e mostrar à imprensa que ela não pode noticiar dessa maneira”, disse para Geiza Martins, do Portal Consultor Jurídico. No geral, apontou, “a cobertura da mídia é sempre superficial, preconceituosa, apressada”. De todos os veículos processados, “a IstoÉ e a Folha de S. Paulo foram os mais escandalosos, os menos verazes, os que levaram mais longe a coisa”. A absolvição do acusado não mereceu manchete, “deram noticinha, escondida”, relatou.

Mesmo com todo esse histórico, a imprensa continua sua peregrinação acusatória de acordo com sabores políticos-ideológicos, não raro sem qualquer fundamento ou sustentação legal. Como interpretar o “super castigo” aplicado às pedaladas do governo da presidenta Dilma Rousseff? O que importava, e ainda interessa, é criar um clima antipetismo, assim que para muitos brasileiros e brasileiras o ex-presidente Lula é o maior ladrão da história do país. Provas?

O jornalista Reinaldo Azevedo, que mais bateu no PT nos 13 anos de governo, colunista do programa “O É da Coisa”, desafiou Moro, juízes do TRF4, e a quem quisesse, a apresentarem as provas que constam na peça condenatória contra Lula. Até agora ninguém se pronunciou. Se você tiver provas, leve-as até ele.

Por acaso alguma ONG, organização que trabalha com estatísticas, pesquisa histórica ou até mesmo a imprensa desenvolveu um “corruptomêtro” para concluir que o PT foi o partido que mais roubou no Brasil? Brasileiros têm memória curta. Durante a construção de Brasília, quantas denúncias apareceram de superfaturamento de obras?

Já estão mais do que esquecidos os casos Banestado, anos 90, Capemi, ocorrido durante o regime que dizem por aí “quando não existia corrupção”, Montepio da Família Militar, Coroa-Brastel, Ferrovia Norte-Sul.

Mesmo assim, os barões preferiram apoiar um capitão que saiu do Exército pela porta dos fundos, e agora procuram um psicanalista para purgar o seu apoio à eleição de Jair Messias Bolsonaro. Esse político, deputado do baixo clero, que não teve um projeto apresentado em 28 anos de legislatura que tivesse repercussão nacional. Ainda assim, foi o escolhido pela “grande” imprensa para conduzir a nação.

No período da ditadura, o arrependimento apareceu depois de cinco anos de governo militar. Agora, com Bolsonaro, a “barrigada” foi sentida em dois anos de bolsonicadas. Notem o editorial da Folha de S. Paulo do dia 12 de dezembro de 2020:

– Passou de todos os limites a estupidez assassina do presidente Jair Bolsonaro diante da pandemia de coronavírus. É hora de deixar de lado a irresponsabilidade delinquente, de ao menos fingir capacidade e maturidade para liderar a nação de 212 milhões de habitantes num momento dramático da sua trajetória coletiva. Chega de molecagem com a vacina!

Em 2 de abril de 2021, o Estadão dizia em editorial:

– O Brasil chegou ao ponto em que é urgente deixar de dar ouvidos ao que diz o presidente da República. Jair Bolsonaro se tornou em si mesmo um ruído que desnorteia os brasileiros sobre como devem se comportar diante da pandemia de covid-19, que no momento mata mais de 3 mil pessoas por dia no País.

E mais adiante:

– Nem se deve perder tempo corrigindo as bobagens de Bolsonaro acerca do estado de sítio e do direito de ir e vir. O mais grave é a reiteração de declarações que prejudicam todo o trabalho de esclarecimento da população sobre os cuidados a serem tomados para evitar a covid-19.

Basta acompanhar por meia hora a programação de colunistas da GloboNews para ver a troca de chave das organizações Globo antes do pleito eleitoral para agora.
Jornais que preferiram Bolsonaro ao candidato do PT à presidência da República destacam em editoriais e reportagens o caos em que o Brasil está mergulhado no campo da Saúde, da Economia, do Meio Ambiente, da Educação, das Relações Exteriores. Em suas páginas pedem, não, apoiam, ou quiçá imploram, o afastamento de Bolsonaro da presidência da República.

Em todos esses casos, o arrependimento veio tarde. Pesou e cortou na própria carne. A expectativa agora é saber em quais aventuras os barões vão se enfurnar em 2022, se as sessões de psicanálise terão que ser continuadas e ampliadas, ou se vão seguir as dicas mais elementares que constam em qualquer manual de redação, tipo ouvir todos os lados da questão, deixar o julgamento para a Justiça, praticar jornalismo investigativo, não divulgar factoides

Enfermamos a la Tierra y la Tierra nos enferma

La irrupción del coronavirus en 2019 ha revelado la íntima conexión existente entre Tierra y humanidad. Según la nuevacosmologia (visión científica del universo) nosotros los humanos formamos una entidad única con la Tierra. Participamos de su salud y también de su enfermedad. 

Isaac Asimov, científico ruso, famoso por sus libros de divulgación científica, a petición de la revista New York Times (deldía 9 de octubre de 1982) con ocasión de la celebración de los 25 años del lanzamiento del Sputnik, que inauguró la era espacial, escribió un artículo sobre el legado de ese cuarto de siglo espacial. 

El primer legado, decía él, es la percepción de que en la perspectiva de las naves espaciales, la Tierra y la humanidad forman una única entidad, es decir, un único ser, complejo, diverso, contradictorio y dotado de gran dinamismo. 

El segundo legado es la irrupción de la conciencia planetaria: construir la Tierra y no simplemente las naciones es el gran proyecto y desafío humano. Tierra y humanidad tienen un destino común. Lo que pasa en una, pasa también en la otra. La Tierra enferma y al mismo tiempo enferma el ser humano; enferma el ser humano, enferma también la Tierra. Estamos unidos para el bien y para el mal.

En el momento actual, toda la Tierra y cada persona estamos siendo atacados por la Covid-19, especialmente Brasil, víctima de un jefe de estado insano que no se preocupa por la vida de su pueblo. Todos, de una forma u otra, nos sentimos enfermos física, psíquica y espiritualmente. 

¿Por qué hemos llegado a esto? La razón reside en la Covid-19. Es erróneo verla aisladamente sin su contexto. El contexto está en la forma como organizamos desde hace ya tres siglos nuestra sociedad: con pillaje ilimitado de los bienes y servicios de la Tierra para provecho y enriquecimiento humano. Este propósito ha llevado a ocupar el 83% del planeta, deforestando, contaminando el aire, el agua y los suelos. En palabras del pensador francés Michel Serres, promovemos una guerra total contra Gaia, atacándola en todos los frentes sin ninguna posibilidad de vencerla. La consecuencia ha sido la destrucción de los hábitats de miles de especies de virus. Para sobrevivir saltaron a otros animales y de estos a nosotros.

La Covid-19 representa un contraataque de la Tierra contra la agresión sistemática montada contra ella. La Tierra enfermó y nos pasó su enfermedad mediante una gama de virus como el zika, la chicungunya, el ébola, la gripe aviaria y otros. Como formamos con la Tierra una unidad compleja, enfermamos con ella. Y si enfermamos nosotros, terminamos también por enfermarla. El coronavirus representa esta simbiosis siniestra y letal.

De modo general debemos entender que la reacción de la Tierra a nuestra violencia se muestra por la fiebre (calentamiento global), que no es una enfermedad, pero apunta a una enfermedad: el alto nivel de contaminación porgases de efecto invernadero que ella no consigue digerir y su incapacidad de continuar ofreciéndonos sus bienes yservicios naturales. El 22 de septiembre de 2019 se produjo la Sobrecarga de la Tierra, es decir, las reservas de bienes yservicios naturales, necesarios al sistema-vida, tocaron fondo. Entramos en números rojos, tenemos un cheque sin fondos. 

Para tener lo necesario y, peor, para mantener el consumo suntuoso y el desperdicio de los países ricos, debemos arrancarle a la fuerza sus “recursos” para atender la demanda de los consumistas. ¿Hasta cuándo aguantará la Tierra?

Sabemos que hay nueve fronteras planetarias que no se pueden sobrepasar sin amenazar la vida y nuestro proyecto civilizatorio. Cuatro de ellas ya las hemos traspasado. La consecuencia es que tenemos menos agua, menos nutrientes, menos cosechas, más desertificación, mayor erosión de la biodiversidad y de los demás elementos indispensables para la vida. Por tanto, nuestro tipo de relación es anti-vida y es la causa principal de la enfermedad de la Tierra que, a su vez, nos vuelve también enfermos. Por esta razón, casi todos nosotros, especialmente a causa del aislamiento social y de las medidas higiénicas, nos sentimos prostrados, desvitalizados, irritables, en una palabra, atrapados por una pesadilla que no sabemos cuándo va a acabar. La muerte de miles de seres queridos, sin poder acompañarlos y darles la última despedida con un luto imprescindible, nos abruman y ponen en jaque el sentido de la vida y el futuro de nuestraconvivencia en este planeta. 

Por otro lado, con un alto coste, estamos aprendiendo que lo que nos está salvando no son los mantras del capitalismo ydel neoliberalismo: el lucro, la competencia, el individualismo, la explotación ilimitada de la naturaleza, la exigencia de unEstado mínimo y la centralidad del mercado. Si hubiéramos seguido estos “valores”, casi todos seríamos víctimas. Lo que nos está salvando es el valor central de la vida, la solidaridad, la interpendencia de todos con todos, el cuidado de la naturaleza, un Estado bien pertrechado para atender las demandas sociales, especialmente las de los más necesitados, lacohesión de la sociedad por encima del mercado. 

Nos damos cuenta de que cuidando mejor todo, recuperando la vitalidad de los ecosistemas, mejorando nuestrosalimentos, orgánicos, descontaminando el aire, preservando las aguas, los bosques y las selvas nos sentimos mássaludables y con esto hacemos la Tierra también más saludable y revitalizada. 

Lo que la Covid-19 nos ha venido a mostrar de forma brutal es que ese equilibrio Tierra y humanidad se ha roto. Nos hemos vuelto demasiado voraces, arrancando a la Tierra lo que ella ya no nos puede dar. No respetamos los límites de unplaneta pequeño, con bienes y servicios limitados. Antes bien, nuestra cultura ha creado un proyecto irracional de crecimiento ilimitado como si los bienes y servicios de la Tierra fuesen también ilimitados. Esa es la ilusión que perdura encasi todas las mentes de los empresarios y de los jefes de Estado.

La Covid-19 nos hace recuperar nuestra verdadera humanidad, aunque sea ambigua por naturaleza. Ella está hecha de amor, de solidaridad, de empatía, de colaboración y de la dimensión humano-espiritual que da el debido valor a los bienes materiales sin absolutizarlos, pero da mucho más valor a los bienes intangibles como los que hemos citado. Los materiales los dejamos atrás, los humano-espirituales los llevamos más allá de la muerte, pues constituyen nuestra identidad definitiva. 

Cuanto más amigables sean nuestra relaciones con la naturaleza y más cooperativas entre nosotros, más se vitaliza la Tierra. Y la Tierra revitalizada nos hace también saludables. Nos curamos juntos y juntos celebramos nuestra convivencia terrenal. 

*Leonardo Boff, ecoteólogo y filósofo, ha escrito Opción Tierra: la solución de la Tierra no cae del cielo, Vozes 2009.

Traducción de Mª José Gavito Milano

Lição do Covid-19: adoecemos Terra e a Terra nos adoece

 A intrusão do coronavírus em 2019 revelou a íntima conexão existente entre Terra e Humanidade. Consoante a nova cosmologia (visão científica do universo) nós humanos formamos uma entidade única com a Terra. Participamos de sua saúde e  também de sua doença.

Isaac Asimov, cientista russo, famoso por seus livros de divulgação científica, a pedido da revista New York Times, (do dia 9 de outubro de 1982) por ocasião da celebração dos 25 anos do lançamento do Sputinik que inaugurou a era espacial,escreveu um artigo sobre o legado deste quarto de século espacial.

 O primeiro legado, disse ele, é a percepção de que, na perspectiva das naves espaciais, a Terra e a humanidade formam uma única entidade, vale dizer, um único ser, complexo, diverso, contraditório e dotado de grande dinamismo.

 O segundo legado é a irrupção da consciência planetária: construir a  Terra e não simplesmente as nações é o grande projeto e desafio humano.. Terra e Humanidade possuem um destino comum. O que se passa num, se passa também no outro.  Adoece a Terra, adoece juntamente o ser humano; adoece o ser humano, adoece também a Terra. Estamos unidos pelo bem e pelo mal.

 No atual momento, a Terra inteira e cada pessoa estamos sendo atacados pelo Covid-19, especialmente o Brasil, vítima de um chefe de estado insano que não se preocupa com a vida de seu povo. Todos, de uma forma ou de outra, nos sentimos doentes física, psíquica e espiritualmente.

 Por    que chegamos a isso? A razão reside no Covid-19. É errôneo vê-lo isoladamente sem seu contexto. O contexto está na forma como organizamos já há três séculos nossa sociedade: na pilhagem ilimitada dos bens e serviços da Terra para proveito e enriquecimento humano. Este propósito levou a ocupar 83% do planeta, desflorestando,poluindo o ar, a água e os solos. Nas palavras do pensador francês Michel Serres, movemos uma guerra total contra Gaia,  atacando-a em todas as frentes sem nenhuma chance de vencê-la. A consequência foi a destruição dos habitas das milhares de espécies de vírus. Para sobreviver saltaram para outros animais e destes para nós.

 O Covid-19 representa um contra-ataque da Terra contra a sistemática agressão montada contra ela. A Terra adoeceu e repassou sua doença a nós mediante uma gama de vírus como o zika, a chicungunya, o ebola, a gripe aviária e outros. Como formamos uma complexa unidade com a Terra,  adoecemos junto com ela.E nós doentes, acabamos também por adoecê-la O coronavírus representa esta simbiose sinistra e letal.

 De modo geral devemos entender que a reação da Terra à nossa violência se  mostra pela febre (aquecimento global), que não é uma doença, mas aponta para uma doença: o alto nível de contaminação de gases de efeito estufa que ela não consegue digerir e sua incapacidade de continuar nos oferecer seus bens e serviços naturais. A partir de 22 de setembro de 2019 ocorreu a Sobrecarga da Terra, vale dizer, as reservas de bens e serviços naturais, necessários ao sistema-vida, chegaram ao fundo do poço. Entramos no vermelho e no xeque especial.

Para termos o necessário e, pior, para mantermos o consumo suntuário e o desperdício  dos países ricos, devemos arrancar à força seus “recursos” para atender as demanda dos consumistas. Até quando a Terra aguentará?

 Sabemos que há nove fronteiras planetárias que não podem ser rompidas sem ameaçar a vida e nosso projeto civilizatório. Quatro delas já foram rompidas A consequência é termos  menos água, menos nutrientes, menos safras, mais desertificação, maior erosão da biodiversidade  e os demais itens indispensáveis para a vida. Portanto, nosso tipo de relação é antivida e é a causa principal da doença da Terra que,por sua vez, nos torna também doentes. Por esta razão, quase todos nós,especialmente por causa do isolamento social e das medidas higiênicas, nos sentimos prostrados, desvitalizados, irritadiços,numa palavra,tomados por um pesadelo que não sabemos quando vai acabar.Os milhares de mortos de entes queridos, sem poder acompanhá-los e prestar-lhes a última despedida por um luto imprescindível nos acabrunham e põem em cheque o sentido da vida e o futuro de nossa convivência nesse planeta.

Por outro lado, a muito custo estamos aprendendo que o que nos está salvando  não são os mantras do capitalismo e do neoliberalismo: o lucro, a concorrência, o individualismo, a ilimitada exploração da natureza, a exigência de um Estado mínimo e a centralidade do mercado. Se  tivéssemos seguido estes “valores” seríamos quase todos vitimados. O que nos está salvando é o valor central da vida, a solidariedade, a inter-pendência de todos com todos, o cuidado da natureza, um Estado bem apetrechado para atender as demandas sociais, especialmente dos mais carentes, a coesão da sociedade acima do mercado.

Damo-nos conta de que cuidando melhor de tudo, recuperando a vitalidade dos ecossistemas, melhorando nossos alimentos, orgânicos, despoluindo o ar, preservando as águas e as florestas nos sentimos mais saudáveis e com isso fazemos a Terra também mais saudável e revitalizada.

 O que o Covid-19 nos veio mostrar de uma forma brutal que esse equilíbrio Terra e Humanidade foi rompido. Tornamo-nos demasiadamente vorazes, arrancando da Terra  o que ela já não nos pode mais dar. Não respeitamos os limites de um planeta pequeno e com bens e serviços limitados. Antes, nossa cultura criou um projeto  irracional de crescimento ilimitado como se os bens e serviços da Terra também fossem ilimitados. Essa é a ilusão que perdura em quase todas as mentes dos empresários e chefes de Estado. Ai do país que anualmente não apresente um PIB maior.

  O Covid-19   nos faz recuperar nossa verdadeira humanidade, embora por natureza ambigua. Ela é feita de amor, de solidariedade, de empatia, de colaboração e da dimensão humano-espiritual que dá o devido valor aos bens materiais sem absolutizá-los, mas dá muito mais mais valor aos bens intangíveis como os acima citados. Os materiais os deixamos para trás, os humano-espirituais os levamos para além da morte,pois constituem nossa identidade definitiva.

 Quanto mais nossas relações para com a natureza forem amigáveis e entre nós  cooperativas, mais a Terra se vitaliza. A Terra revitalizada nos faz também saudáveis. Curamo-nos juntos e juntos celebramos a nossa convivência terrenal.

Leonardo Boff ecoteólogo, filoósofo e escrevu Opção Terra: a solução da Terra não cai do céu, Vozes 2009.

Hoje conta mais o banqueiro que o bom Padre Júlio Lancellotti

A cultura dominante, hoje mundializada, se estrutura ao redor da vontade de poder que se traduz por vontade de dominação da natureza, do outro, dos povos e dos mercados. Essa  lógica cria continuamente tensões, conflitos e guerras. E provocou a intrusão do Covid-19 que encontrou num presidente”um Trump dos grotões” que a considerou uma “gripezinha” e assim se dispensou de cuidar do povo, assistindo sem qualquer empatia à morte de mais de 240 mil vítimas, para escândalo nacional e internacional.

Dos 3.400 anos de história  da humanidade,  que podemos datar, diz-nos o historiador Georg Weber, 3.166 foram de guerra. Os restantes 234 não foram certamente de paz mas de preparação para outra guerra.

Praticamente em todos os países as festas nacionais, seus heróis e os monumentos das praças são ligados a feitos de guerra. Os meios de comunicação levam ao paroxismo a magnificação de todo tipo de violência, bem simbolizado no programa noturno de uma das televisões sob o título “Tela Quente”. E para vexame geral nosso presidente defende a tortura dos tempos da ditadura militar e exalta torturadores sanguinários.

Nos vários países, o militar, o banqueiro e o especulador valem mais do que o poeta, o filósofo e o santo. Conta mais o rico empresário da Fiesp do que o pobre homem de Deus, que cuida da população de rua e, só por isso, sempre ameaçado de morte: o padre Júlio Lancellotti. Nos processos de socialização formal e informal, a cultura da violência não cria mediações para uma cultura da paz, do diálogo e da fraternidade universal.

Esta situação faz suscitar sempre de novo a pergunta que, de forma dramática, Albert Einstein colocou a Sigmund Freud nos idos de 1932: é possível superar ou controlar a violência? Freud, realisticamente, responde: “É impossível aos homens controlar diretamente o instinto de morte (thánatos). Pode,entretanto, percorrer vias indiretas. Tudo o que faz surguir laços emotivos entre os seres humanos age contra a guerra. Tudo o que civiliza, trabalha contra a guerra”. Mas conclui com uma forma resignada: “esfaimados pensamos no moinho que tão lentamente mói que poderemos morrer de fome antes de receber a farinha”( Obras completas III:3, 215).

Sem detalhar a questão, diríamos que por detrás da violência funcionam fortes estruturas que rompem os possíveis laços de fraternidade. Se não as controlarmos, se torna verdade o que Thomas Hobbes sustenta em seu Levitã (1561): o ser humano é lobo para o outro ser humano.

 A primeira estrutura é o caos sempre presente no processo cosmogênico e antropogênico. Somos todos filhos e filhas do caos primordial, daquela  imensa explosão silenciosa, o big bang que ocorreu há 13,7 bilhões de anos. A expansão e a evolução do universo constituem  uma forma de criar ordem (cosmos) neste caos e não permitir que seja só caótico mas que seja também generativo. Ele gera novos corpos celestes, galáxias, estrelas e buracos negros. Mesmo assim o caos  e o cosmos (novas ordens) sempre acompanham  evolução do universo. Ele atua também no ser humano, fazendo que seja simultaneamente amoroso e violento, luz e sombra.

Essa estrutura de caos produziu cerca de cinco grandes dizimações em massa de seres vivos, ocorridas há milhões de anos. Na última, há cerca de 67 milhões de anos,  pereceram todos os dinossauros. Possivelmente a própria  inteligência também nos foi dada para limitar  a ação destrutiva do caos e potencializarmos sua ação generativa de novas ordens.

Em segundo lugar, somos herdeiros da cultura patriarcal que instaurou,há mais de dez séculos, a dominação do homem sobre a mulher e criou as instituições assentadas sobre o uso legítimo da violência pelo Estado, mas presente no  exército, na guerra, nas classes, no projeto da tecno-ciência posto a serviço  dos processos de produção que implicam uma  sistemática depredação da natureza e uma desumana injustiça social.

Em terceiro lugar, essa cultura patriarcal usou da repressão, do medo, do terror e da guerra como forma de resolução dos conflitos. Sobre esta vasta base se formou a cultura do capital, explorando a força do trabalho humano e devastando a natureza. Seu objetivo é o lucro e não a vida,  sua lógica é a competição e não a cooperação,o individualismo e não a interdependência entre todos. Sua dinâmica excludente origina desigualdades, injustiças, violências que ceifam milhares e até milhões de vidas humanas. A intrusão do Covid-19 impôs a todos uma pausa nessa voracidade pois tudo teve que parar, a produção e a circulação dos seres humanos, sujeitos ao confinamento social. Limou os dentes do lobo mas não lhe tirou a ferocidade. Os especuladores acumulassem fortunas fantásticas agravando a desigualdade social.

Todas estas forças se articulam estruturalmente para consolidar a cultura da dominação e da violência, atitudes contrárias a qualquer tipo de fraternidade. Elas nos desumanizam a todos, fazendo-nos no dizer da encíclica do Papa Francisco Fratelli tutti, não mais irmãos e irmãs mas apenas sócios ao redor de interesses pessoais ou corporativos (cf.n.12;101). Não basta sermos a favor da paz. Temos que ser contra a guerra e no Brasil denunciar a ausência de um projeto oficial para deter o Covid-19, tornando o seu principal responsável, o chefe da nação “um gendarme da burguesia”, que não cuida das vidas de seu povo e não mostra empatia para com as famílias e pessoas que perderam entes queridos, como se tivesse feito uma lobotomia.

 À essa cultura da violência há que se opor a cultura da paz. Ao mundo dos sócios temos que fazer valer o mundo dos irmãos e das irmãs. Esta é proposta inovadora,um verdadeiro novo  paradigma civilizacional do Papa Francisco na encíclica Fratelli tutti: um modo de habitar a Casa Comum, como frater irmão e irmã, na qual vigora uma fraternidade sem fronteiras entre os humanos e também com os demais seres da natureza da qual é parte, em contraposição ao paradigma da modernidade  assentado sobre  o dominus, o ser humano como senhor e dono da natureza e não parte dela.

Tal proposta é imperativa, porque as forças de destruição já por séculos romperam o contrato natural com a Terra e a natureza e  estão ameaçando, por todas as partes, quebrar o contrato social mínimo pela ascensão da direita e da extrema direita que não respeita as leis e a Constituição criando um Estado pós-democrático e sem lei (R.R. Casara).  É imperativa esta proposta papal porque  o potencial destrutivo, em termos de armas de destruição em massa já montado, mais o aquecimento global podem ameaçar toda a biosfera e impossibilitar a continuidade do projeto humano. Ou limitamos a violência e fazemos prevalecer o projeto da fraternidade universal, do amor social e da  paz perene, como o proclama de forma entre angustiada e esperançada o atual Pontífice, ou conheceremos, no limite, um caminho sem retorno.A decisão cabe à nossa geração.

Leonardo Boff é teólogo e retraduziu do latim medieval a Imitação de Cristo com um acréscimo sobre o Seguimento de Jesus, Vozes 2018.