A Sexualidade:caminho para a não-dualidade e a plena comunhão

Leonardo Boff

         Num artigo anterior mostramos como o feminino é a fonte-matriz do masculino.É o caminho ocidental que usa a antropologia e a psicologia.Mas com referência à mulher Freud  diz que ela é um ser inferior e Lacan que ela não existe porque não pode ser definida. Esqueçamos estes laivos de machismo cultural atávico. Vamos ao olhar oriental que é mais fecundo e menos preconceituoso.

         A visão oriental da sexualidade segue outro caminho,diverso daquele ocidental.Desenvolve uma antropologia extremamente refinada. Por exemplo para a tradição do Yoga e do Tao, a sexualidade não é vista como algo em si mesmo.Ela é integrada num todo maior. Com ela e através dela busca-se  alcançar a experiência de não-dualidade e propiciar uma união suprema entre os parceiros e o universo.

A antropologia yoga trabalha com a realidade na kundalini que se expressa pelos sete chacras (centros energéticos). Kundalini em sânscrito significa a energia da serpente cósmica:  é aquela energia universal, que enche o universo todo, representada pelo  dragão e pela serpente alada. Os cosmólogos modernos falam da Energia de Fundo ou O Abismo gerador de todos os seres.

A kundalini, qual serpente,  estaria enrolada dentro de cada um de nós, na parte inferior do corpo (no cocxis) com a cabeça erguida,pronta para fazer a sua trejetória. Na kundalini se concentra a energia vital da sexualidade.

 Uma vez despertada ela passa pelos muitos centros vitais, no sacro enrolada em si mesma na forma fogo; após o chacra dos órgãos genitais e reprodutivos; passa   ao  solar (umbigo) pelo qual nos entra a energia de todo o universo; daí vem o chacra do coração que propicia a experiência do amor e da empatia; o chacra do pulmão com o qual inspiramos e expiramos energia; depois emerge o chacra frontal,entre os dois olhos, chamado também de    terceiro olho que nos permite ver a terceira margem da realidade, portanto uma visão de totalidade e, finalmente, o chacra da glândula pineal, no alto da na cabeça, que nos concede uma experiência de totalidade e de comunhão com o Todo universal

Na nossa cultura, a kundalini, entretanto, ficou preferentemente fixada no chacra dos órgãos genitais, àquela excitação erótica que desperta os sentidos, ejacula  e  realiza a descarga e relaxa.Se ficar nisso, não passar pelos vários chacras perde uma experiência de totalidade plenificadora e do amor profundo,fruto de uma entrega.Afirma-se que o homem possui imensa dificuldade de uma entrega total pois trata-se de uma experiência de morte.Ele interrompe no meio. Ao não entregar-se, se priva da experiência mais completa. Em geral o homem se satisfaz,relaxa e dorme.A mulher se vira e chora frustrada porque não se fez o percurso pelos chacras, não sentiu o amor real,não se deu o alargamento da consciência, para chegar à superação da dualidade,pela qual ele e ela mergulham numa unidade profunda.Ela tem outro ritmo que deve ser conhecido pelo parceiro: saber esperar e ajudá-la pela carícia essencial a chegar ao seu climáx.Então relaxa.

Realizando esta compreensão mais integradora e holística, revela-se melhor o mistério que a sexualidade esconde, aquela dimensão ligada à reprodução da vida e, ao mesmo, tempo permite uma comunhão entre os dois com o todo que transcende a ambos.

         Outro é o caminho do Tantra seja no hinduismo ou no taoismo.Tandra em sânscrito possui muitas definições.A mais sigificativa é a urdidura como comos fios fazendo a unidade do tecido.Diriamos é o total entrosamente sexual do homem e da mulher,uma entrega sem freios, de forma que superam a dualidade homem-mulher e formam um todo. O homem se une tanto à mulher que se torna mulher e a mulher, homem.

         Normalmente se entende mal o Tantra como se fosse uma técnica de prolongamento da relação sexual.O sentido do Tantra é totalmente outro. Afirma a sexualidade que é inata e vulcânica. Mas ela não se basta a si mesma. Ela é o caminho daquilo que talvez seja o mais difícil para os humanos:a total entrega e uma radical experiência de sua bioenergia em seu fluir natural.

Em primeiro lugar exige-se um relaxamento completo sem visar  a um fim a ser alcançado. Em seguida. homem e mulher se relacionam sexualmente não buscando a ejaculação ou o climax. Ao contrário, supõe em ambos completo autocontrole da capacidade sexual.

Cada um,totalmente relaxado, esquecendo-se de  tudo e de todos, se concentra totalmente no outro ao fluir da energia sexual. Vai irrompendo lentamente tal unidade entre eles que se tornam um, vale dizer, superaram a tão ansiada não-dualidade. É um êxtase, a suprema realização humana. O abraço profundo pode durar horas e horas sem ejacular ou chegar ao climax. O resultado final é um radical relaxamennto e a experiência de uma unidade total entre ambos incluindo todas as coisas. Vive-se um arrebatamento que perdura vários dias, tal é a radicalidade desta uni-fic-ação (Cf.Bhagawan Shree Rajneesh, Tantra:sexo e espiritualidade,Agora,São Paulo 1977).

Como se depreende, a sexualidade,seja no Yoga,seja no Tantra possui seu lado instintivo e ao mesmo tempo,ao nível da consciência, torna-se um caminho da mais alta comunhão, alcançando a não-dualidade. Não sem razão que da sexualidade se origina o bem maior, a vida humana em suas várias expressões.Ela é natural e sagrada fonte de espiritualidade e experiência do Divino.

Leonardo Boff escreve para a revista do ICL LIBERTA(  (https:// www.revistaliberta.com.br); escreveu também com Lucia Ribeiro Masculino-Feminino,Record, 2007; com Rose-Marie Muraro, Feminino-Masculino:o encontro das diferenças, Record 2010 (htt://www.leonardoboff.org).

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