Solidariedade aos presidiários e seus familiares no Ceará

No Ceará  houve gravíssimos ataques a dezenas de cidades, além da capital Fortaleza,com prejuízos incalculáveis e pavor difundido na população, ataques estes praticados pelas facções criminosas a partir de dentro das prisões. O fato é de uma maldade espantosa, incontrolável apenas com as forças policiais do estado do Ceará. Foram convocadas as forças especiais nacionais e de vários estados para enfrentar esta calamidade, ainda em curso. No entanto, no afã de debelar esta verdadeira insurreição das facções criminosas, forças do estado e nacionais transferiram aprisionados de 70 instituições penais para outro lugar. Isso foi feito à custa do desrespeito dos direitos fundamentais humanos, deixando os familiares, as esposas, os filhos e outros desesperados por não saberem para onde foram levados nem em que endereço poderiam encontrá-los e visitá-los. Em razão disto, condenando peremptoriamente os ataques criminosos das facções, saimos em defesa dos direitos irrenunciáveis dos presidiários e de seus familiares. Um estado democrático de direito não pode usar meios que desrespeitam os direitos dos cidadãos, mesmo em situação prisional e em consideração das angústias e dos sofrimentos dos familiares. Muitas são as subscrições de pessoas de diferentes áreas, todas comprometidas com a dignidade humana, especialmente neste momento em que nossa democracia sob uma administração central discricionária e ameaçadora dos direitos dos trabalhadores, dos indígenas, dos quilombolas, dos negros e dos LGBTI são diretamente ameaçados. LBoff

                  SOLIDARIEDADE AOS PRESIDIÁRIOS E SEUS FAMILIARES NO CEARÁ

O Espírito do Senhor está sobre mim.

 Enviou-me para proclamar a libertação aos presos”

(Lc 4,18)

Com essa afirmação, Jesus explica a sua missão e interpela a todas as pessoas que querem segui-lo como discípulos e discípulas. Não podemos assistir passivamente ao que está acontecendo nas prisões brasileiras, como se isso nos fosse indiferente.

Qualquer pessoa que conhece a realidade sabe que o sistema prisional brasileiro está falido e desestruturado. Segundo dados oficiais, o Brasil tem a terceira maior população carcerária do mundo. Dos presos, mais da metade é constituída por jovens menores de 30 anos, em sua maioria pobres e negros e com baixo grau de instrução escolar. Quase a metade está em situação provisória, constituída de pessoas que ainda não foram julgadas ou nem sequer ouvidas e indiciadas.

Nesses dias, as autoridades penitenciárias do Ceará removeram abruptamente os presos de mais de 70 cadeias do interior do Estado e os levaram, sem que as famílias saibam exatamente para onde nem até quando irá durar essa transferência. Os que têm problema de saúde e tomam remédio controlado sequer puderam levar seus medicamentos. Ninguém sabe nada nem tem a quem apelar. Sem falar que os presídios do Estado já estavam superlotados antes dessas transferências. É uma situação que desrespeita os direitos humanos dos presos e de suas famílias que se sentem ainda mais divididas e abandonadas à própria sorte. E tudo isso com o silencio e cumplicidade da mídia e dos órgãos de justiça. Verdadeiro estado de exceção.

Diante disso, quem é cristão, além de lutar pacificamente pela justiça e pelo cumprimento dos direitos humanos, denuncia que toda essa estrutura social é iníqua e que essa política de segurança atenta contra os direitos humanos. Acreditamos na possibilidade de organizar a sociedade a partir de outras bases de convivência e de humanidade. Defendemos a Justiça restaurativa que, num trabalho educativo, possibilite a pessoa que errou reconstruir a própria vida, na medida do possível, reparar o mal que praticou e pedir perdão às vítimas dos seus atos. O Estado não pode ser refém do crime organizado, mas, em nome do combate ao crime organizado, não pode violar os direitos humanos dos presos e seus familiares sem se transformar num estado criminoso.

Por isso, dirigimo-nos às autoridades penitenciárias e ao próprio governo do Ceará, bem como às autoridades de Brasília pedindo que revejam sua postura autoritária e contrária às leis brasileiras e internacionais. Elas garantem aos presidiários o direito à assistência por advogados e a visita da família e dos que lhe são próximos, bem como o acompanhamento de organismos de direitos humanos e grupos religiosos. É isso que nessa conjuntura brasileira esperamos de um governo estadual, eleito em nome da Democracia e dos Direitos Humanos, bem como das autoridades de Brasília.

A paz e a segurança social nunca ocorrerão através de simples medidas repressivas. Como já afirmava o profeta Isaías: “A paz é fruto da justiça” (Is 32). Estamos convencidos de que quando aceitamos ser desumanos com as pessoas mais frágeis, os primeiros prejudicados somos nós mesmos. A dureza que usamos com os outros nos desumaniza e nos priva do melhor que existe dentro de nós mesmos.

Toda nossa solidariedade aos presidiários e seus familiares, bem como à pastoral carcerária, aos organismos de Direitos Humanos e aos grupos e pessoas que estão empenhados da defesa de seus direitos.

Subscrevem:

Francisco Aquino Júnior – Padre, teólogo, professor da Faculdade Católica de Fortaleza e da Universidade Católica de Pernambuco (Limoeiro do Norte – CE)

Afonso Murad – Irmão marista, teólogo, professor da FAJE: Faculdade Jesuita de Filosofia e Teologia (Belo Horizonte – MG)

Benedito Ferraro – Padre, teólogo, assessor da Pastoral Operária de Campinas e da articulação continental das Cebs (Campinas – SP)

Frei Betto – Frade dominicano e escritor, assessor de movimentos pastorais e sociais (São Paulo – SP)

Aurelina Cruz  Carias – Educadora e coordenadora do Museu Vivo do São Bento (Rio de Janeiro – RJ)

Celso Pinto Carias – Teólogo, assessor nacional das CEBs (Rio de Janeiro – RJ)

Cesar Kuzma – Teólogo, professor de teologia da PUC-Rio (Rio de Janeiro – RJ)

Chico Alencar – Deputado federal, professor de historia da UFRJ e escritor (Rio de Janeiro – RJ)

Edson Fernando de Almeida – Pastor emérito da Igreja Cristã de Ipanema, professor da UFJF (Juiz de Fora – MG)

Edward Guimarães – Professor e secretário  executivo do Observatório da Evangelização – PUC Minas (Belo Horizonte – MG)

Ivo Lesbaupin – Sociólogo, professor aposentado da UFRJ, coordenador do Iser Assessoria (Rio de Janeiro – RJ)

Maria Tereza Bustamante Teixeira – Médica sanitarista (Juiz de Fora – MG)

Faustino Teixeira – Professor no Programa de Pos-Graduação em Ciência da Religião da UFJF (Juiz de Fora – MG)

José Oscar Beozzo – Padre, teólogo, coordenador geral do CESEEP: Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular (São Paulo – SP)

Marcia Miranda – Centro de Defesa dos Direitos Humanos (Petrópolis – RJ)

Leonardo Boff – Teólogo, escritor, membro da Iniciativa Internacional da Carta da Terra (Petrópolis – RJ)

Lúcia Ribeiro – Socióloga, membro do Iser Assessoria (Rio de Janeiro – RJ)

Luiz  Alberto G. de Souza – Sociólogo e escritor (Rio de Janeiro – RJ)

Manfredo Araújo de Oliveira – Padre, filósofo, professor da UFC (Fortaleza – CE)

Maria Clara Bingemer – Teóloga, professora de Teologia da PUC-Rio (Rio de Janeiro – RJ)

Einardo Bingemer – Advogado, administrador de empresas, coordenador de três projetos de terceiro setor (Rio de Janeiro – RJ)

Maria Helena Arrochellas – Centro Alceu Amoroso Lima (Petrópolis – RJ)

Magali do Nascimento Cunha – Igreja metodista, jornalista (Rio de Janeiro – RJ)

Claudio Ribeiro – Pastor evangélico metodista (Rio de Janeiro – RJ)

Marcelo  Barros – Monge beneditino, assessor das Cebs e de movimentos sociais (Recife – PE)

Maria Tereza Sartório – Educadora popular, secretária do Movimento Nacional Fé e Política (Juiz de Fora – MG)

Pedro Ribeiro de Oliveira – Sociólogo, professor universitário aposentado, membro da coordenação do Movimento Nacional Fé e politica (Juiz de Fora – MG)

Rosemary Fernandes da Costa – Teóloga, professora da PUC-Rio (Rio de Janeiro – RJ)

Rosileny Schwantes – Psicóloga e professora de psicologia clinica da Uninove/SP (São Paulo – SP)

Sinivaldo S. Tavares – Teólogo, professor da FAJE (Belo Horizonte – MG)

Tereza Cavalcanti – Teóloga, professora de teologia da PUC-Rio, assessora das Cebs e cursos bíblicos (Rio de Janeiro – RJ)

Teófilo Cavalcanti – Economista (Rio de Janeiro – RJ)

Mathilde Cecchin – Militante de movimentos populares (Porto Alegre – RS)

Olinto Pegoraro – Filosofo e escritor (Rio de Janeiro – RJ)

Violaine de Santana – Tradutora (Genebra – Suíça)

Júlio de Santana – Teólogo metodista (Genebra – Suíça)

Luiz Carlos Susin – Teólogo, professor de teologia da PUC – Rio Grande do Sul, secretário geral do Fórum Mundial Teologia e Libertação (Porto Alegre – RS)

 

Il misterioso destino di ognuno di noi

Ognuno di noi ha l’età dell’universo, che ha 13,7 miliardi di anni. Eravamo tutti virtualmente insieme in questo puntino, più piccolo della testa di uno spillo, ma pieno di energia e materia. La grande esplosione avvenne e generò le enormi stelle rosse all’interno delle quali si formarono tutti gli elementi fisico-chimici che compongono l’universo e tutti gli esseri. Siamo figli e figlie delle stelle e della polvere cosmica. Siamo anche quella porzione della Terra vivente che è arrivata a sentire, a pensare, ad amare e a venerare. Secondo noi la Terra e l’universo sentono di formare un grande “Tutto”. E possiamo sviluppare la consapevolezza di questa appartenenza.

Qual è il nostro posto all’interno di questo “Tutto”? Più precisamente, nel processo di evoluzione? All’interno di Madre Terra? All’interno della storia umana? Non ci è ancora permesso saperlo. Forse questa sarà la grande rivelazione quando faremo il passaggio alchemico da questo lato della vita all’altro. Li, spero, tutto sarà chiaro e saremo sorpresi perché saremo tutti collegati, in modo ombelicale, formando l’immensa catena di esseri e il tessuto della vita. Cadremo, credo, nelle braccia di Dio-Padre-e-Madre di infinita misericordia per coloro che ne hanno bisogno a causa delle loro cattive azioni e in un eterno abbraccio amorevole per coloro che sono stati guidati dal bene e dall’amore. Dopo aver attraversato la clinica di Dio-misericordia, arriveranno anche gli altri.

Io, da bambino di pochi mesi, ero destinato a morire. Mia madre raccontava, e le mie zie ripetevano sempre, che avevo “la piccola scimmia”, un’espressione popolare per l’anemia grave. Tutto ciò che ingerivo, lo vomitavo. Tutti dicevano nel dialetto veneziano: “poareto, va morir”: “poverino, morirà”.

Mia madre, disperata e di nascosto da mio padre che non credeva nelle benedizioni, andò da una santona, la vecchia Campañola. Lei fece le sue preghiere e disse: “Fai un bagno con queste erbe; dopo aver fatto il pane nel forno, aspetta fino a che non è troppo caldo e metti il tuo bambino dentro”. Questo è ciò che ha fatto mia madre Regina. Con la pala per togliere il pane cotto mi ha messo dentro. Mi ha lasciato lì per un bel po’ di tempo.

Ecco che è accaduta una trasformazione. Mentre mi stava togliendo da dento il forno, iniziai a piangere, dissero, e a cercare il seno per succhiare il latte materno. Successivamente mia madre masticava i bocconcini più duri in bocca e me li dava. Ho iniziato a mangiare e a rafforzarmi. Sono sopravvissuto. Ed eccomi, ufficialmente vecchio, di 80 anni.

Ho attraversato diversi rischi che avrebbero potuto costarmi la vita: un aereo DC-10 in fiamme diretto a New York; un incidente d’auto contro un cavallo morto sulla strada che mi ha rotto dappertutto; un enorme chiodo che è caduto di fronte a me quando stavo studiando a Monaco e avrebbe potuto uccidermi se mi fosse caduto in testa; nelle Alpi, la caduta in una valle profonda ricoperta di neve e contadini bavaresi, vedendomi con l’abito scuro di francescano e che affondavo sempre di più, mi tirarono su con una corda. E altri.

Norberto Bobbio mi ha concesso il dottorato honoris causa in politica dall’Università di Torino. Comprese che la teologia della liberazione aveva dato un contributo importante nell’affermare la forza storica dei poveri. Non è sufficiente l’assistenzialismo classico o la semplice solidarietà, mantenendo i poveri sempre dipendenti, questo è insufficiente. Possono essere soggetti della loro liberazione quando hanno coscienza di sé e sono organizzati. Andiamo avanti per i poveri, insistiamo nel camminare con i poveri, essendo loro i protagonisti, e chi può e ha questo carisma, viva come i poveri, come molti hanno fatto, come il vecovo Dom Pedro Casaldáliga.

Ricordo che ho iniziato il mio discorso di ringraziamento per il titolo, concesso da questa figura straordinaria che fu Norberto Bobbio: “Vengo dalla pietra scheggiata, dal profondo della storia, quando avevamo a malapena i mezzi per sopravvivere. I miei nonni italiani e la mia famiglia esplorarono un’area disabitata ricoperta di pini, Concordia, ai confini del Stato di Santa Catarina. Dovevano combattere per sopravvivere. Molti sono morti per mancanza di dottori. Poi sono progredito nella scala dell’evoluzione: gli 11 fratelli hanno studiato, hanno fatto l’università, io ho potuto finire i miei studi in Germania. Ora sono qui in questa famosa università”. E su richiesta di Bobbio, ho riassunto gli scopi della Teologia della Liberazione, il cui perno centrale è l’opzione per i poveri, contro la povertà e per la giustizia sociale. Ho tenuto molti corsi in tutto il mondo, ho scritto molto, ho asciugato lacrime e ho mantenuto forte la speranza di militanti che erano frustrati dalle direzioni del nostro paese.

Qual sarà il mio destino? Non lo so. Ho preso come motto quello di mio padre, che lo viveva: “Chi non vive per servire, non serve per vivere”. A Dio l’ultima parola.

Leonardo Boff é teólogo, filósofo e ha scritto in occasione dei suoi 80 anni: “Reflexões de um velho teólogo e pensador” (Riflessioni di un vecchio teologo e pensator), Vozes 2019.

Traduzione di M. Gavito & S. Toppi.

2019: VOLO CIECO VERSO L’IGNOTO?

Gli ultimi anni sono stati tormentati nel nostro paese. E’ successo l’impeachment della Presidenta Dilma Rousseff, accuse serie di corruzione al suo successore, il Presidente Temer, operazione devastante del Lava-Jato con applicazione rigorosa del lawfare e la prigione di Lula il più grande leader popolare per un processo chiaramente senza parzialità e sprovvisto di prove materiali, criticate dai più famosi giuristi nazionali e internazionali.

Clamorosa è stata la campagna presidenziale segnata da utilizzazione massiccia dei media sociali con milioni di false notizie, bugie e calunnie da tutti i lati. In una orchestrazione ancora più marcata è stato eletto Bolsonaro un ex capitano dell’esercito dell’estrema destra fondamentalista religioso e esplicitamente omofobico. I suoi discorsi violenti se concretizzati metteranno a rischio la democrazia e il patto sociale disegnato a fatica dalla Costituzione del 1988. Mai si è visto nel nostro paese irrompere dell’odio della rabbia e delle parole di basso livello, in una parola, dalla dimensione oscura e perversa della cordialità brasiliana secondo Sergio Buarque de Holanda.

In uno stato di diritto democratico, una vittoria elettorale deve essere accettata da tutti, qualunque siano le critiche che dovessimo fare da posizioni politiche assunte.

Il candidato vincitore non ha proposto nessun progetto globale per il Brasile. Subito si è rivelato realmente sprovveduto per assumere la più alta responsabilità sul destino di un paese continentale e complesso come il nostro. Ha scaricato questo fardello passandolo ai suoi ministri molti dei quali sono militari. Alcuni civili rivelano un oscurantismo intellettuale evidente da causare spavento persino all’estero.

Tutto sembra indicare che siamo in un volo cieco verso l’incerto. Tutto può succedere.

Che posizione prendere? prima di tutto fare una opzione di compromesso e patriottica a favore del Brasile. Il Brasile è tutto, i partiti vincitori e vinti sono soltanto delle parti. Dobbiamo tutti costruire il tutto per tutti.

Davanti al Brasile abbiamo bisogno di dimenticare le querele del passato e guardare in avanti e molto lontano. Dobbiamo sentirci come pesci che risalgono il fiume. Anche se nuotiamo contro corrente, avanzeremo come loro per produrre vita. Come diceva J.F. Kennedy in un discorso inaugurale nel 1963 “nessuna sfida va al di là della capacità creatrice dell’essere umano”.

Per essere creatori è importante coltivare la speranza come principio che va oltre la virtù, nel senso che la prigioniera Dilma Rousseff ha dato :”in prigione si spera molto. Aspettare necessariamente significa avere speranza. Se tu perdi la speranza, ti prende la paura. Io ho imparato a sperare”. Per questo è diventata la persona resistente di cui noi diamo testimonianza.

Dobbiamo incorporare una speranza affettiva e effettiva di cui questo governo, con tutte le limitazioni che possiede e non sono poche, sappia del volo ceco e trovi la direzione della diminuzione dell’ingiustizia sociale (le famose diseguaglianze) mediante politiche utili al paese a partire da coloro che più hanno bisogno e che non possono difendere se stessi. Il dovere etico principale di un governo è garantire la vita dei cittadini, e doppo le finanze, il mercato, l’educazione, la cultura e la sicurezza, tutto a servizio della vita.

Una popolazione impoverita e malata mai imboccherà un cammino di sviluppo umano e sociale. In questo contesto è opportuno ricordare le parole del Libro dell’Ecclesiastico: “E’ assassino del prossimo colui che ruba i mezzi di sopravvivenza, sparge sangue chi priva il salariato del suo salario”, (34,26-27). Alcuni governi pretendono toccare i salari e altri diritti.

Caso che avvenga una lesione dei diritti fondamentali al regime democratico occorre la formazione di un fronte ampio interpartitico per resistere e obbligare a una variante nella direzione del giusto e corretto.

Come Teologo mi approprio per il 2019 dell’ideale di un collega pure Teologo laico, Edward Neves di Belo Horizonte: “coltivare le seguenti posizioni del Gesù Storico. (1) nutrirsi dell’intimità amorosa di Dio; (2) dedicarsi al sogno di Gesù, di un regno di amore e di giustizia; (3) Agire mosso da compassione, (4) mettersi al servizio della dignità di ogni persona specialmente degli esclusi (5) liberarsi dalla tentazione di avere il potere e del piacere per amare con più profondità e gratuità”.

A tutti faccio voti di un anno di felicità possibile nel nostro contesto concreto. Speranza al di là della speranza.

*Leonardo Boff è Teologo e Filosofo.

Traduzione di Romano Baraglia e Lidia Arato.

Igreja é ‘radicalmente contra’ o uso de armas, avisa o teólogo Altmeyer

Fernando Altmeyer  da PUC-SP é um dos teólogos leigos mais comprometidos com os meios populares. Possui excelente formação acadêmica daqui e da Europa. Foi assessor do Card. Dom Paulo Evaristo. Possui refinado humor e grande jovialidade mesmo no meio dos conflitos sociais que sempre apoia. Onde aparece, desanuvia o ambiente carregado. É bem articulado com os meios sociais e representa com racionalidade, auto-crítica e amorosidade os problemas internos da Igreja. Este entrevista revela bem seu caráter, sua transparência e leveza mesmo quando diz as verdades mais duras. Publicamos este artigo tirado de O Estado de São Paulo de 31/12/2018 para criar luz sobre o tema perigoso e polêmico do atual Presidente Bolsonaro, de entregar nas mãos das pessoas armas sempre mortíferas. Isso não pode ser. Num país que tem um dos números mais altos de assassinatos do mundo, em geral por armas de fogo: Lboff
 

FERNANDO ALTEMEYER JUNIOR. FOTO SILVANA GARZARO/ESTADÃO

A Igreja Católica repele as campanhas em favor das armas, trava uma batalha em favor dos refugiados, tem o dever de zelar pela pluralidade de opiniões e desempenha a função de arrancar os crucificados da cruz, proclama o teólogo Fernando Altemeyer Junior, chefe do Departamento de Ciência da Religião da PUC São Paulo. Mas algumas dessas missões, alerta o estudioso, não são nada fáceis, pois sopram “contra o vento neoliberal”.

Num País em que a posse e o porte de armas agitaram a disputa eleitoral e dividiram a sociedade – e com o novo presidente, que assume hoje, reforçando suas promessas a respeito, anteontem – Altemeyer avisa: “As igrejas são radicalmente contra o uso de armas. Isso é da Bíblia. ‘Armas deverão ser transformadas em enxadas’, já pregavam os profetas mais ou menos 700 anos antes de Cristo”. Nesta entrevista à repórter Paula Reverbel, o teólogo critica os que defendem o fascismo em nome do cristianismo: “Ser fascista é ficar do lado de Pôncio Pilatos”. A seguir, trechos da conversa.

O tema da Campanha da Fraternidade 2018 da CNBB, “superação da violência”, continua valendo em 2019?
Sim, vai continuar. É uma tradição de 50 anos de campanhas da fraternidade – que, paradoxalmente, nasceu justo em 1964. O ano que começa amanhã é uma continuidade, só que em chave positiva. O tema é “Fraternidade e Políticas Públicas” – os 40 dias da quaresma serão dedicados a pensar a mudança das atitudes negativas. O lema para 2019 é inspirado pelo profeta Isaías, capítulo 1, versículo 27: “Serás libertado pelo direito e pela justiça”. Então, teremos um tema de peso numa situação política cheia de incógnitas. É positivo, a CNBB está certíssima.

O ano que agora acaba foi marcado por atos de violência e polarização. Qual o papel da Igreja antes tais conflitos?
O de ficar do lado dos perdedores, sempre. Para o cristianismo, tudo passa por um lugar: a cruz. Só do lado do crucificado é que a Igreja pode estar. Obviamente, não para aplaudir a crucificação, porque isso seria patético e de mau gosto. Ela tem que ajudar a arrancar os crucificados da cruz. Cada geração tem de fazer tudo de novo. Quem está na cruz? Ah, jovens com HIV? Ah, indígenas? A situação do povo negro, as periferias – ali é o lugar da Igreja, fazendo seu papel de colaboradora de ressurreição.

Em 2015, a CNBB criticou o projeto em tramitação no Congresso que muda o Estatuto do Desarmamento. Como vê isso?
As igrejas são radicalmente contra todo uso de armas. Isso é da Bíblia. “As armas deverão ser transformadas em enxadas”, já pregavam os profetas mais ou menos 700 anos antes de Cristo. Jesus fala a Pedro: “Enfia tua espada na bainha, quem usar da espada morrerá pela espada”. O papa Francisco agora deixou claro que essa indústria de armas norte-americana que financia o (Donald) Trump – e agora a brasileira, que financia o (Jair) Bolsonaro – é anticristã. A Igreja não tem nada a dizer quanto às armas senão um gigantesco “não”. As armas geram morte, geram um lucro que é cheio de sangue, produzem mal-estar no Oriente Médio, estão massacrando o povo na Síria. Elas têm produzido em nosso País um verdadeiro genocídio. Nas periferias de São Paulo, 30 jovens são assassinados a cada fim de semana.

Há dois anos, o papa Francisco autorizou que todos os padres, não só os bispos, se tornassem aptos a perdoar médicos e pacientes que praticassem aborto. Qual sua avaliação desse gesto?
Essa é uma decisão do Francisco de universalizar um preceito que todo bispo já podia oferecer aos padres no passado. Então, não é inédita, mas é global. Tem a ideia chave do Francisco de não punir as mulheres depois de viver o drama da perda de um filho, normalmente por pressão do homem que não assume o papel de pai. Então, penalizar ainda mais – com uma sentença canônica e simbólica do inferno da excomunhão – parece demais para o papa Francisco. Ele tem como chave de todo o seu papado a ação da misericórdia.

O senhor é entusiástico a respeito do papa.
Apesar dos trambolhões que com os quais ele se depara – especialmente intraeclesiásticos, por causa da pedofilia e do controle da máquina do Estado do Vaticano –, ele tem sido exemplar. A nomeação dos cardeais – pessoas do mundo inteiro – tem uma dimensão pastoral mais próxima do povo. Em termos de solidariedade e ação junto às religiões, é genial. Tenho amigos que são sheiks islâmicos e dizem que esse é o papa dos islâmicos. E tenho também dois grandes amigos rabinos, aqui em São Paulo, que afirmam que Francisco é o não judeu mais querido do judaísmo. Então, como um homem conseguiu essa sintonia? Porque ele abriu os braços. Temos algo a fazer em comum na diferença, sem precisar fazer amálgama.

Qual o marco do trabalho dele?
A batalha em favor dos refugiados. Ele acabou de lançar um manifesto pró-ONU na questão dos imigrantes e está recebendo um bombardeio de críticas dos fascistas, da direita húngara, da direita austríaca, alemã, norte-americana. A convenção da ONU propõe a acolhida dos refugiados, que é uma questão de humanidade. Essa é talvez a coisa mais importante dele… mas é a mais difícil, porque ele está falando contra o vento neoliberal.

‘O PERÍODO INTOLERANTE
DA IGREJA SÓ LEVOU
AO DESASTRE’

O cardeal Sérgio da Rocha, arcebispo de Brasília, vê a corrupção como forma de violência que promove a miséria. Concorda?
E ela é, sem dúvida. Os corruptos são os que assaltam o Estado brasileiro e, ao assumir o encargo democrático de representação, enchem as bolsas com o dinheiro público. O dinheiro do hospital, do raios-x, da criança, da escola. Acho que Dom Sérgio acertou na mosca.

O senhor já criticou a Igreja Católica por ela até hoje não considerar a obra de Freud.
E pensar que em 2019 faz 80 anos que faleceu Freud. Já estava na hora de ouvir o Sigmund… É fundamental que a gente possa penetrar na psique humana e incluir no debate das igrejas, com lucidez, a questão da sexualidade. Ela não é um pecado. É uma possibilidade erótica de viver bem. Claro que ela pode ser pornográfica, pode ser tanatológica, levar à morte, isso Freud também demonstra. Se a gente pudesse debater isso de forma mais aberta com as juventudes, com as famílias, nós seríamos mais maduros, mais íntegros, mais felizes. Ao manter essa questão em um quarto escuro, a gente fica recalcado. Esse recalque nos está fazendo mal. Afinal, o que é o Natal? É o dia em que celebramos que Deus se fez corpo humano. O corpo de uma criança, um corpo sexuado, com memória, com desejo. Não caiu a ficha, nem de Freud, nem de (Carl) Jung, nem de (Alfred) Adler, nem dos grandes psicanalistas. A Igreja teria tudo pra fazer isso, Jesus viveu sua sexualidade de forma bela, Maria viveu sua sexualidade de forma completa.

O senhor já ressaltou que, embora se ensine que o cristianismo não se coaduna com o comunismo, também não se coaduna com o fascismo. Pode detalhar?
Sim, porque ele ainda é mais radicalmente inumano do que o regime soviético comunista, que perseguiu duramente a Igreja. Mas, o que é esta oposição? É que o fascismo nega a dignidade humana, assim, como o comunismo nega a liberdade humana. De fato, a Igreja é anticomunista. Mas o pensamento católico é também anticapitalista. O problema é que uma parte dos que estão defendendo o fascismo na Europa e no Brasil se dizem cristãos. É um paradoxo. Acham que ser fascista é ser cristão. Ser fascista é ficar do lado de Pôncio Pilatos, é anticristão total.

Acredita que o papa Francisco está atuando bem na questão da pedofilia na Igreja?
Na situação chilena, que foi a mais próxima e evidente, a destituição de inúmeros bispos – e até o pedido de demissão coletivo – foi um gesto inédito na Igreja. Francisco tirou do estado clerical uma série de padres famosos que eram os maiores criminosos. E chamou todos os presidentes das conferências de bispos – são 120 – para tratar, em fevereiro, de uma ação conjunta contra a pedofilia. Esse é um gesto forte, inédito, porque é uma ação preventiva de todos os episcopados. Acho que ele está agindo com força. Mas falta muito por fazer. A questão é muito profunda e ela atingiu, por exemplo, na Austrália, 30% do clero.

Como que o senhor vê a destruição dos terreiros de umbanda nos últimos anos?
Como um absurdo. Tem um belo texto de um dos maiores biblistas brasileiros, Carlos Mesters. É um conto que diz que um dia Jesus resolveu visitar um terreiro. Gostou tanto que falou: “Acho que não vou sair mais daqui não, o povo aqui é tão bonito, dança tão bem.” Se as pessoas compreendessem a beleza do candomblé, a força da umbanda, nunca os destruiriam. Fariam alianças, pactos, soma. É religião de paz, de festa, de cuidado. É uma coisa dramática que católicos mal orientados ataquem os terreiros. Felizmente há gente como a pastora Lusmarina (Campos), que organizou uma coleta na Igreja Luterana pra recompor um terreiro que tinha sido destruído no Rio.

Com políticos falando de fé, acha que a laicidade do Estado está em xeque?
Certamente. O Estado se mostra laico quando mantém a defesa de todas as religiões. Se alguém se apropria do Estado e diz que a sua religião vai governar – a ministra (Damares Alves) acabou de falar isso –, é uma escolha infeliz, porque o País é plural. Temos dezenas de identidades religiosas. Essas declarações são intolerantes, caem no exclusivismo. Essa fase na Igreja Católica só levou ao desastre. A frase em latim é extra ecclesiam nulla salus – “fora da Igreja não há salvação”. Em nome disso se fez guerra santa, que não tinha nada de santa, se fez inquisição, barbárie. A História nos mostrou que é um mau caminho.