São José (19 de março): disfuncional para uma Igreja de poder

Por mais de vinte tive a oportunidade e a paciência de pesquisar sobre a figura e a história de São José nas melhores bibliotecas do mundo especialmente naquela de Montreal do Canadá junto ao gigantesco santuário de São José, quase do tamanho do Vaticano. Ao lado, há uma biblioteca que no seu acervo se encontra quase tudo o que foi escrito pelo mundo afora e durante séculos sobre São José até os muitos cordéis do Ceará, pois São José é patrono daquele estado. Ali trabalhei por sucessivas vezes.
Disso resultou um livro de tamanho considerável – São José, a personificação do Pai – traduzido em várias linguas. Hoje daria um outro título já que o livro não se retringe a São José mas a propósito dele, discute também as questões contemporâneas da figura do pai e das várias formas de família,também a dos homosexuais, quase todas atualmente em crise. Chamaria: José, o pai de Jesus numa sociedade sem pai.
Nas minhas pesquisas, descobri na igrejinha de uma pequena vila, Saint François du Lac, perto de Quebec, uma figura que possivelmente não existe em nenhum outro lugar no mundo: o Pai celeste e José possuem o mesmo rosto e o mesmo formato de barba. O que me levou a sustentar a teoria teológica (teologúmenon se diz em teologia) de que São José é a personificação do Pai, como Jesus é a do Filho e Maria a do Espírito Santo. Com isso se afirma que a Família Divina do Pai, do Filho e do Espírito Sant ganha corpo na família humana de Jesus, Maria e José.
Mas não aprofundarei esta espinhosa questão que interessa apenas aos teólogos e a alguns cristãos. Restrinjo-me àquilo que todos podem assumir, independemente da fé que professem.
São José não é uma figura solar, mas lunar, uma figura de sombra. Não deixou nenhuma palavra, apenas teve sonhos que, com dificuldades, acatou e seguiu. Não sabemos nem quando nasceu nem quando morreu. Apenas que, corajoso, levou para casa uma menina misteriosamente grávida, Miriam, e assumiu o menino impondo-lhe o nome Jesus. Depois enfrentou com a família a perseguição de um monarca sanguinolento, Herodes, fugiu para o exílio no Egito e, na volta, se escondeu numa pequena vila ao norte da Palestina, em Nazaré, tão desconhecida que nunca é citada em todo o Primeiro (Velho) Testamento.
Introduziu o filho Jesus nas tradições religiosas de seu povo e lhe transmitiu a profissão de artesão-carpinteiro. Dele se diz que era um homem justo que na linguagem bíblica possui um sentido social: significa um homem corretíssimo, bem integrado na sociedade a ponto de ser feito uma referência viva para todos. Depois sumiu sem deixar sinal. Apenas os apócrifos (livros tardios não aceitos pela Igreja oficial) sabem muito de José mas de forma fantasiosa e, por vezes, hilariante. Ai se conta como educou o menino Jesus, chegando até a puxar-lhe a orelha por causa das peraltices que fazia, como faz aliás, toda criança sã. Até referem que, viúvo com seis filhos, casou com Maria aos 93 anos, ficou com ela por 18 anos e morreu com 111.
São José nunca teve centralidade na Igreja. Somente depois de 800 anos apareceram os primeiros sermões sobre ele. Apenas em 1870 foi proclamado patrono da Igreja Universal, não pelo próprio Papa Pio IX, mas por um decreto da Congregação dos Ritos. Em 1962 o Papa João XXIII inseriu seu nome no canon da missa, mas com resistência por parte dos Cardeais que se opunham duramente. E não sem razão. Para um Igreja que se organiza ao redor do poder sagrado, cheia de titulaturas, com símbolos e hábitos palacianos, São José é totalmente disfuncional. Ao contrário, seu silêncio, sua simplicidade, suas mãos calosas não se prestam a legitimar um estilo imperial, hierárquico e autoritário de Igreja institucional. Mas graças a Deus, este tipo de Igreja não é toda a Igreja, mas parte ínfima dela, pois existe a Igreja real, feita de fiéis, de comunidades que leva a vida cotidiana iluminada pela fé cristã mas sem preocupação de visibilidade social.
A invisibilidade de São José não é sem sentido. Funda e legitima uma espiritualidade bastante esquecida pelo tipo de cristianismo oficial e hierárquico. Neste são os papas, os bispos e os padres que ocupam a cena, falam e têm visibilidade. No outro, o da grande maioria dos cristãos, nossos pais, avós e parentes e outros conhecidos, anonimamente tomam a sério o evangelho e a inspirações da mensagem de Jesus. Vivem mais do que falam de suas convicções cristãs. São José por seu anonimato e silêncio se inseredentro destas grandes maiorias.
Então, mais que patrono da Igreja universal, ele comparece como o patrono da Igreja doméstica, dos irmãos e irmãs menores de Jesus. Ele é um representante da “gente boa”, da “gente humilde”, sepultados em seu dia-a-dia cinzento, ganhando a vida com muito trabalho e levando honradamente suas famílias pelos caminhos da honestidade. Orientam-se mais pelo sentimento profundo de Deus que por doutrinas teológicas sobre Deus. Para eles, como para José, Deus não é um problemas mas uma luz poderosa para dar sentido aos problemas.
Foi neste ambiente que Jesus cresceu. Sua relação com José a quem chamava de pai, deve ter sido tão íntima que serviu de base para Jesus sentir a Deus como “Paizinho querido”(Abba) e nos transmitir essa experiência libertadora.
Neste dia 19 de março lembramos esta figura tão singela e acolhedora de um pai-avô que deu o nome a milhões de pessoas, de instituições, de cidades e de ruas: São José.
Transcrevo uma fala de Jesus contida no evangelho apócrifo do século IV História de José, o carpinteiro (Vozes):”Quando fordes revestidos de minha força e receberdes o Sopro de meu Pai que é o Espírito Paráclito e quando fordes enviados a pregar a boa-nova, pregai também a respeito de meu querido pai José”. A Igreja-poder não cumpriu totalmente ainda este mandato. Eu fiz minha parte que outros a levem avante.

Ver meu livro a ser reeditado pela Vozes: São José, o pai de Jesus numa sociedade sem pai.

27 comentários sobre “São José (19 de março): disfuncional para uma Igreja de poder

  1. É realmente impressionante o COMO o senhor, Leonardo, se expressa bem. Mas da mesma forma vejo muito latente sua mágoa com a Igreja.
    Que pena. Um poder mal apontado.

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    • Ruben, desculpe discordar de suas observações.

      Quando Leonardo escreveu o livro “Igreja: Carisma e Poder”, ele ainda fazia parte dos quadros “oficiais” da ICAR. E mesmo assim, sempre foi muito crítico em relação ao que ocorria lá.

      Isso não é “mágoa”, é uma visão crítica. Tanto Leonardo, quanto eu, ou qualquer outra pessoa que ainda não esteja cegada pelo Poder Clerical, percebe que a ICAR não cumpre com sua finalidade institucional, que é pregar o evangelho. Ao contrário, prefere ficar numa posição passiva e defensora da “moral cristã” por ela desenvolvida. É criadora e desenvolvedora de pré-conceitos, no verdadeiro sentido da palavra. Pré-conceitos, pré-julgamentos e etc.

      Fecha os olhos para os Estados totalitários, mas abre os olhos para cuidar da camisinha e métodos contraceptivos. Fechou os olhos para o nazismo, mas se preocupou em ser contra o controle de natalidade. Fecha os olhos para pedofilia, mas se preocupa em pregar a proibição dos casais homoafetivos.

      Desculpe Ruben, isso não é mágoa, é a mais crua, nua e verdadeira realidade.

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      • Sr. Antonio, não costumo ficar em debates na net, quanto mais sendo desnecessário e pouco produtivo. Inda mais quando os opostos tem suas razões bem baseadas e sólidas.
        Poderia ser grosseiro, mas vou desta única vez responder por educação.

        Se a posição do sr. Leonardo a respeito da Igreja é ou era a mesma antes e hoje pouco importa, visto que ele não cumpriu os votos que LIVREMENTE fez. Preferiu seguir suas próprias idéias.
        Não quero, nesta resposta, entrar no mérito de sua saída da Igreja. Mas que há uma independência incoerente da parte dele, ah, isso há.
        O sr. Leonardo é um homem muito sagaz e capaz. Mas preferiu seguir seu caminho, e outros foram, e vão, atrás dele. E nisso há uma responsabilidade.
        Ele quis sua independência, e a teve.
        Um homem que deseja ser sacerdote permanece por pelo menos 7, 8 anos se preparando para sê-lo. Será que ele não percebeu que a Igreja é tão ruim, maléfica, omissa quanto afirma ser durante essa época?
        Ahh…como o sr. disse: parece que ainda estava cego nessa época, né?
        Mas um milagre sucedeu e ele começou a enxergar!!!

        Bem, sr. Antonio. Sua posição de homem que agora enxerga talvez lhe permita ver o que eu, na minha cegueira não consigo.
        Mas quer saber…prefiro continuar cego. Se é a mais PURA VERDADE … creio que seja total e completamente subjetiva.

        Quanto à dor de cotovelo do sr. Leonardo…bem, posso dizer que enquanto mais leio Boff, mas constato tal dor.

        Passar muito bem, sr. Antonio.

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    • É o contrário. E a Igreja que tem mágoas do Leonardo Boff e não aceitou a diversidade de idéias, impondo seu modelo único. Guga

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      • Padre, apesar dessa sua pequena timidez em mostrar um pedacinho da verdade, mas avançado para uma igreja medieval, vossos pensamentos ja quase livre dos dógmas que tentam aprisionar almas e mentes ao medo, assusta muito a santa madre igreja.

        paz

        Geraldo Campos Guimarães

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  2. Puxa, que conteúdo mais rico em detalhes. Dá para compreender quando chegam a Jesus e dizem: Jesus estão te chamando tua mãe e teus irmãos. Em estudos bíblicos já ouvi cometários que os irmãos a quem de referem, poderiam ser filhos de São José.

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  3. Meio cético, ocorre-me: “São José, o pai de Jesus numa sociedade sem pai [e sem Jesus]”. Infelizmente.

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  4. ESTA IGREJA DOMÉSTICA NA QUAL O LEONARDO SE REFERE, VEJO A MINHA PRÓPRIA, APRENDIR MUITO COM A MINHA FAMÍLIA A RESPEITO DE SÃO JOSÉ, ELE É REALMENTE A FIGURA DO PAI DO CÉU NAS NOSSAS VIDAS… GOSTEI DO SEU COMENTÁRIO A RESPEITO DE JOSÉ PARA MIM NADA DE NOVO…

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  5. Prof. Leonardo Boff, apesar de quase sempre ler os seus textos, esta é a primeira vez que aqui escrevo. Isto porque de facto a figura de S. José sempre me causou estranhesa não ser revelada pela “Santa Igreja”.
    Nunca tinha refletido sobre a figura de José dessa forma. Outro dia, um teólogo, que agora não me lembra o nome, fazia uma bonita imagem de S. José, ele afirmou que José foi a primeira pessoa a pegar em Deus ao colo, ele foi a primeira pessoa que acarinhou Deus … e que no seu silêncio, compreensão e humanidade, se torna assim numa figura impar, mas incompreendida pela Igreja. Agora com a sua explicação, tornou-se mais facil para mim, compreender de onde surge tamanho afastamento dessa figura paternal.
    Muito obrigado prof. Leonardo Boff por este texto e claro, por todo o seu extraordinário trabalho … espero que continue a nos maravilhar com a sua reflexão!
    Um abraço em Cristo

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  6. “Não sabemos nem quando nasceu nem quando morreu. Apenas que, corajoso, levou para casa uma menina misteriosamente grávida, Miriam, e assumiu o menino impondo-lhe o nome Jesus.”

    E a igreja até os dias de hoje insiste na virgindade de Maria.

    Sutilezas teológicas que um dia as mentes mais evoluidas jogarão por terra.

    Na terra não existe excessão pra todos aqueles que desejarem vir a ensinar o amor, competirá com todos e estará sujeito a levar a bofetada dos ignorantes.

    paz a todos

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  7. Grupo Âmbito Penal – Criado especialmente para operadores do Direito, estudiosos em Direito Penal, com o objetivo de desenvolver discussões, compartilhar informações, livros, ideias, jurisprudências, notícias, decisões de tribunais, peças jurídicas, etc; um espaço colaborativo para ampla abordagem do Direito Penal.

    Venha fazer parte deste importante grupo de profissionais do Direito Penal, dentre eles, advogados, professores, estudiosos e intelectuais e receber diretamente em seu e-mail informações e conteúdos exclusivos.

    Inscreva-se: http://groups.google.com/group/ambito-penal/ ou envie um e-mail para: ambito-penal@googlegroups.com

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  8. Creio que a imagem que São José nos proporciona é do pai, um provedor de afeto, de orientação, de presença e que alimenta, no seu silêncio, de uma fome que temos de referências, de amor, não-julgamento, aceitação, proteção e cuidado com os seus. Neste sentido, é questionável o papel da Igreja que, como instituição, não tem tido este papel de orientar e criar tais referências.
    Parabéns pela vasta pesquisa e excelente reflexão!

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  9. Meu querido Leonardo com todo meu respeito e admiração sabe que posso chama-lo assim, seu Artigo sobre São Jose é esclarecedor sem magoa latente não consigo vê-la. Pelo contrário o Sr nos trás a luz da verdade dedica-se a pesquisa para que conheçamos os pastidores da Igreja, se O Vaticano nos acha simplório para tal. Lastimo que a maioria das pessoas se perca sem o “PODER” condicionarão a aceitar tudo sem questionar, e quando alguém tem a coragem e conhecimento no melhor sentido. Elas sentem-se desnorteadas e é, mas fácil criticar que investigar o escamoteamento da luz dos fatos. Muito obrigada por apresentar o pai de JESUS e pai de toda cristandade através da ótica da Teologia da Libertação.

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  10. Incrível e bela visão meu caro Prof. Leonatdo Boff. Uma visão e um sentimento de um Deus presente na vida e na história de seu povo.Muito lhe agradeço por ampliar meu olhar e o meu amor para com S José, padroeiro do meu estimado estado. Fraterno abraço. Paz e bem

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  11. São José era humilde e obediente. Soube aceitar a vontade de Deus. Por isso hoje é grande na Igreja. Boff continua orgulhoso. Quem sabe um dia aprenda com S. José.

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    • Segio,seria bom vc ler o livro. São José nunca foi grande na Igreja. O primeiro sermão feito sobre ele é do ano 800.Não foi um Papa que o proclamou “Patrono da Igreja” mas um dicastério da Curia Romana. Até hoje os Papas,Cardeais e Bispos não sabem o que fazer com ele porque eles fazem e vivem tudo o que S.José não viveu, nem viveria. Ele estava próximo do presépio junto com os animais e longe dos palácios onde vivem ainda hoje os altos funcionários do Vaticano.
      Antes de me acusar vc faria bem em informar-se melhor.Seu juizo seguramente seria outro.

      Lboff

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  12. Mesmo tendo sido um dicastério da Igreja a proclamar São José Patrono da Igreja Universal, e não o Sumo Pontífice, percebo a ação do Espírito Santo a apontar, naquele momento histórico, a importância do pai adotivo de Jesus para todos nós. O Espírito Santo vai conduzindo a Igreja de Cristo à verdade plena (Jo 16, 13). Eu tenho muita fé nisso e acredito que o Papa, os bispos e os padres são os pastores que tomam conta do rebanho do Senhor. Mesmo que um ou outro faça algo que não devia, sabemos que há muitos outros que trabalham com amor e dedicação para que o Evangelho de Cristo seja anunciado e o mundo seja transformado pelo amor com que Deus nos amou. Cada um prestará contas de sua vida a Deus sobre como desempenhou sua tarefa. É consolador saber que não estamos sozinhos na missão (Mt 28, 20b). São José, rogai por nós!

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  13. Ganhei de presente, no dia dos pais, o seu livro sobre São José. Só comecei a ler hoje, pensando que ia ser uma leitura “light”, rápida e tranquila. Porém, qualquer um que já leu algum livro de Leonardo Boff ou pelo menos um artigo dele, já deveria saber que ele nunca é raso nem superficial. Ele sempre vai fundo em tudo o que diz. Logo no começo, ele já me surpreende dizendo qual tese pretende defender no livro: que a Trindade sempre se manifesta em conjunto, que o Filho se manifesta em Jesus, que o Espírito Santo se manifesta em Maria e que o Pai não ficaria de fora. São José é a personificação do Pai. Polêmica e reflexão profunda. Leonardo Boff nunca foge da sua missão de dizer o que precisa ser dito, de iniciar as discussões que outros não se atreveram a iniciar. Magnífico.

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  14. Amo ser devota de São José. Já li seu livro, me emocionei . Preciso reler na nova edição, Ele aparece em meus sonhos dando liberdade dos nossos irmãos sírios, libaneses, judeus,Indus e a outros irmãos pelo mundo, que não discerni ainda, de armarem suas tendas na Igreja São José – de Belo Horizonte, onde costumo meditar. Esta Igreja belíssima, parecendo palacete, abriga a todos que andam pelo centro de Belo Horizonte e que precisam apoiar a cabeça, tirar um cochilo, descansar, chorar, usar seus banheiros. Sei que é o mínimo que uma Igreja daquele porte pode oferecer, mas acontece e é louvável. Obrigada. Maria Ilídia – Psicóloga Junguiana e grande admiradora de sua pessoa.

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    • Maraia Ilídia, obrigado por seu reconhecimento da importância de São José, do qual sou devoto e dediquei 20 anos de pesquisa sobre ele. Que ele sempre a acompanhe,ele que foi cuidador das duas pessoas mais santas e importantes que passaram por este mundo, Jesus e Maria. Saudações lboff

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