São José, padroeiro da boa morte

Um manto de tristeza e de desamparo se estende sobre o inteiro planeta, especialmente, sobre o nosso país. Somos vítimas de um governo cujo chefe de Estado é dominado por uma inequívoca pulsão de morte que o torna insensível aos trezentos mil vitimados pelo Covid-19 e incapaz de palavras de solidariedade aos familiares e até aos auxiliares próximos falecidos. Parece que sofreu uma lobotomia, tornando-se indiferente à dor e à tragédia humana.

Hoje, dia 19 de março, se celebra no mundo cristão a festa de São José. Demorou cerca de 15 séculos para a Grande Instituição-Igreja (Papa, bispos e padres) conceder-lhe algum valor e sentido. Ela não sabia o que fazer com São José, pois ela é uma Igreja da palavra e ele não proferiu nenhuma. Guardou sempre silêncio e só teve sonhos. Como nos ensinam os psicanalistas, o sonho também é uma forma de comunicação, das dimensões do  profundo humano, dos arquétipos mais ancestrais onde se aninham os “Grandes Sonhos”(C.G.Jung), os medos, as preocupações e esperanças da humana existência.Só em 1870 foi proclamado Patrono da Igreja Universal, não pelo Papa Pio IX mas pela Congregação dos Ritos.

Na verdade, ele é mais  o patrono da Igreja-povo-de-Deus, dos humildes, dos anônimos, da “gente boa” e trabalhadora do que da Igreja-Grande-Instituição. São eles  que vivem, sem muita reflexão, os ideais de seu filho Jesus, de boa vontade,  de amor, de solidariedade e de reverência face ao mistério da vida e da morte. Eles deram o nome de José a homens e à mulheres (com por exemplo, Maria José), à cidades, à ruas, à instituições públicas e à escolas.

O Papa Francisco convocou os fiéis para, durante um ano, refletirem sobre a relevância da figura de São José, especialmente como pai numa sociedade sem pai ou do pai ausente.  Publicou uma Carta Apostólica “Patris corde” (coração de pai ou pai de coração) na qual em sete pontos delineia suas principais características:“um pai amável, pai de ternura, pai de obediência, pai de acolhida, pai de coragem criativa, pai trabalhador e pai na sombra”.

No atual contexto, cabe recordar uma devoção muito popular, a de São José, padroeiro da boa morte, já que a morte se alastra no mundo e no Brasil faz as maiores vítimas junto com os EUA.

As informações sobre a morte de São José se encontram apenas num evangelho apócrifo (não canônico) “A história de José, o carpinteiro” escrito entre o século IV e V no Egito (edição da Vozes de 1990). Trata de uma longa narração na qual Jesus conta aos apóstolos como era seu pai José e como morreu.

O apócrifo contextualiza sua vida e sua morte, testemunhando que, ao voltar exílio forçado no Egito, foi viver em Nazaré, onde “meu pai José, o ancião bendito, continuou exercendo a profissão de carpinteiro e, assim com o trabalho de suas mãos, pudemos nos manter; jamais se poderá dizer que comeu seu pão sem trabalhar” (capítulo IX). Narra ainda que “eu chamava a Maria de minha mãe e a José de meu pai; obedecia-lhes em tudo o que me ordenavam, sem me permitir replicar-lhes uma palavra; ao contrário, dedicava-lhes sempre grande carinho”(c. XI).

Mas chegou um momento, já em avançada idade, que adoeceu:”perdeu a vontade de comer e de beber; e sentiu vacilar a  habilidade no desempenho de seu ofício”(c.XV). Narra com pormenores que, deitado na cama, “ficou extremamente agitado” e começou a se lamentar proferindo  muitos ais (c.  XV e XVI). Ao ouvir tais ais Jesus “penetrou no aposento em que se encontrava e saudou-o: salve, José, meu querido pai, ancião bondoso e bendito”. Ao que José  retrucou:”Salve, mil vezes, querido filho! Ao ouvir tua voz, minha alma cobrou a sua tranquilidade (c.XVII).

Não demorou muito e ocorreu o desenlace:”meu pai exalou sua  alma com um grande suspiro”(c.XXI). E conclui: “eu então, me atirei sobre o corpo de meu pai José; fechei seus olhos, cerrei sua boca e levantei-me para contemplá-lo”(c..XXIV). No momento em que é levado ao túmulo, comenta Jesus:”Veio-me à mente a recordação do dia em que me levou ao Egito e das grandes tribulações que suportou por mim. Não me contive e lancei-me sobre seu corpo e chorei longamente”(c.XXVII).

Por fim, Jesus terminando sua narrativa, faz um pedido aos apóstolos:”Quando fordes revestidos de minha força e receberdes o Sopro de meu Pai, isto é, do Espírito Paráclito e fordes enviados a pregar o evangelho, pregai também a respeito de meu querido pai José”(c.XXX).

Com esta pequena reflexão estamos cumprindo o mandato de Jesus. Oxalá São José acompanhe com sua força e carinho paterno os milhares que estão nas UTIs lutando por suas vidas, contra este terrível ataque que a Mãe Terra desferiu contra a humanidade, mandando-nos o Covid-19 como sinal:  não prolonguem o estilo de vida consumista e devastador dos bens e serviços limitados da natureza; assumam um novo modo sustentável de vida e estabeleçam um laço de amor e de respeito para com a natureza e para com todos os seus seres, nossos irmãos e irmãs, dentro da  Casa Comum, o planeta Terra, nossa grande e bondosa Mãe.

Leonardo Boff escreveu São José: o pai, o artesão e o educador, Vozes 2012.


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7 comentários sobre “São José, padroeiro da boa morte

  1. .Somos gratos ao amado Papa Francisco por ter decretado o ano de 2021, Ano de São José. Muito oportuno este artigo do Prof. L.Boff que realça São José como padroeiro da boa morte, em momento em que a humanidade sofre em grande número pela pandemia do Covid-19 e pela incompetência de responsáveis pelo bem estar da população. Deus fiel faz a parte que lhe compete, é preciso que nós humanos. tenhamos a maturidade e dignidade para fazermos a nossa contrapartida para o bem comum e da Casa Comum, em especial!

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  2. Estou consternada com toda essa passagem que a humanidade tem enfrentado e ao amor que devemos dispensar ao nosso planeta, perpassa pelo nosso maior dever, as indiferença que muitos apresentam é por puro egoísmo!!

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  3. Na ânsia desenfreada de evoluir, o homem aprisionou se a valores que talvez o levem a sua própria extinção.
    Inconcientes , contaminados e entorpecidos, até parecem robôs de si mesmos.
    A devastação do seu habitat natural que é o óleo que lubrufica suas juntas, o alimento que lhes dá o movimento para caminharem não sabem prá onde é o melhor disso.
    É preciso acordar, é preciso acabar com as injustiças de uma sociedade cada vez mais fria e desumana, muito parecida com este mundo que o homem construiu sobre esta terra que ainda lhe é fértil e que se preservada sempre lhes daria o sustento e lhe serviria de morada.
    É bom saber que mesmo com as grandes contradições do mundo contemporâneo nós questionamos os nossos valores mais profundos e evoluímos enfim…
    O homem deve ser consciente que sua evolução é razão única da sua existência e que de algum lugar deste universo alguém se preocupe em alerta lo para que volte seus olhos para um outro mundo que é seu mundo interior porque este talvez não lhe seja tão paciente quanto este aqui de fora…

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  4. Tendo feito o curso primário no Colégio Gratuito Santa Catarina, em Petrópolis, praticávamos a Liturgia Católica na Matriz do Sagrado Coração de Jesus, onde fiz a Primeira Comunhão, com os Franciscanos-OFM, os quais mantinham o Colégio São José onde meu irmão fez o primário. Neste período tivemos conhecimento da pessoa de São José, para nossa felicidade , por meio de cânticos: “José feliz esposo, da Virgem mãe de Deus , por teu amor poderoso ampara os filhos teus.Dentre os varões mais célebres, só tu foste escolhido p’ra guarda fidelíssimo do Redentor nascido!”

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