Um “armagedon cibernético”? Washington Novaes

WASHINGTON NOVAES é um analista atento ao que de novo, surpreendente e perigoso pode estar sendo preparado na humanidade seja em termos de avanços que protegem a vida, seja de ameaças que podem nos destruir. Convoca-nos a pensar para além das atuais crises econômico-financeiras e até civilizacionais. Está em curso a nanotecnologia, nanorobots e uma eventual guerra cibernética de consequências inimagináveis para o futuro de inteiras nações e de nossos sistemas de comunicação. Ela é silenciosa mas está sendo aplicada em regiões de guerra como no Afeganistão, Iraque ou ameaçadas por guerra como o Irã e na Palestina. Seu artigo apareceu no Estado de São Paulo no dia 9 de setembro sob o título: “Sem milagres para a guerra cibernética. Dada a importância do tema, nos abalançamos em republicá-lo. Importa estarmos atentos a novidades nada róseas que nos podem ocorrer nos próximos tempos.  LBoff

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Seria prazeroso escrever sobre ipês rosas floridos prenunciando a primavera que chega em setembro. Ou sobre o comovente trabalho de músicos que criam orquestras de jovens em favelas. Mas que fazer ? Jornais estão povoados de notícias sobre ameaças de uma guerra cibernética que pode levar a uma catástrofe nuclear planetária. Sobre robôs que podem, por conta própria, disparar um míssil atômico. Sobre hackers capazes de  paralisar sistemas de transporte, de saúde, de comunicação, sistemas financeiros em escala planetária. Nesta mesma página o embaixador Rubens Barbosa já escreveu sobre o tema (20/6). O ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional, Kenneth Rogoff, também tratou (6/7) da vulnerabilidade da economia global a ataques cibernéticos, com terríveis conseqüências. Nestes tempos em que já estamos confrontados por tantos limites inultrapassáveis – crises de finitude de recursos naturais, crises da água, de terras, de alimentos etc. -, que se fará para enfrentar a ameaça de “armagedon cibernético” mencionada pelo professor da universidade canadense de Toronto, Don Tapscott (Folha de S. Paulo, 22/7) ?

Lembra o embaixador Rubens Barbosa o pensamento de Von Clausewitz, que já na primeira metade do século 19 escrevia que a guerra é a continuação da política por outros meios – tal como já começa a acontecer nos dias de hoje, com a cibernética e o uso de instrumentos eletrônicos cada vez mais sofisticados. Estados Unidos e Israel já os teriam utilizado para interferir no programa iraniano de enriquecimento de urânio, desativando cinco mil centrífugas. China e Estados Unidos trabalham com programas capazes de invadir sistemas sofisticados e desenvolvem comandos cibernéticos, programas de segurança nacional para informações, formatos de impedir a escalada de  ataques cibernéticos. Que pensa o Brasil em fazer nesse quadro ? Já o prof. Kenneth Rogoff pergunta que acontecerá com o uso de vírus cibernéticos comandados por anarquistas e terroristas, ou com catástrofes naturais geradas por interferências em programações, ou por satélites assim danificados paralisando redes elétricas, bancos de dados do sistema financeiro, indústrias de tecnologia. E medita: se governos desenvolvem vírus com esse poder destruidor, que se fará ? Confiar na sorte ?

O panorama é assombroso. A instituição Royal Pingdom, citada pelo The New York Times (ESTADO, 12/7), calculou para 2010 um número de 107 trilhões de mensagens  eletrônicas circulando pelo mundo,onde, no ano passado já havia 3,1 bilhões de contas de e-mails. Que acontecerá no mundo se a nova geração usuária desse meio tem mais de 50% de seus membros desempregados ? – pergunta Don Tapscott. Eugene Kaspersky, ex-funcionário do Ministério de Defesa da antiga URSS, hoje diretor da maior empresa de antivírus do mundo, propõe a criação de uma organização internacional de segurança cibernética, para impedir que prossiga a guerra na qual já estão envolvidos Estados Unidos, China, Grã-Bretanha, Índia, Alemanha, França, as duas Coréias e outros paises, que têm unidades de guerra cibernética, de criação de supervirus, naves de guerra não tripuladas e outras armas. Segundo ele, “estamos sentados em um barril de pólvora e serrando o galho que sustenta a internet” (Folha, 29/7). As hostilidades podem implicar perda de informações de forças armadas, perda de propriedade intelectual de empresas etc.

Kenneth Benedict, editora do “Bulletin of the Atomic Scientists”, diz na revista New Scientist(30/6) não ter dúvida de que os Estados Unidos “estavam por trás” do ciberataque ao Irã, com o objetivo de impedir o desenvolvimento de sistema de enriquecimento de urânio. Segundo ela, “estamos em uma nova era bélica, de fortes ligações com a corrida secreta para construir bombas atômicas”. O ataque ao Irã baseou-se no sistema de software Stuxnet desenvolvido pelos Estados Unidos e Israel. Ele continha “malwares” (códigos agressivos) que tinham como alvos sistemas específicos de controle industrial, do tipo que controla centrífugas utilizadas para enriquecer  urânio.

Faz lembrar o final da segunda guerra mundial, quando cientistas alertaram o governo norte-americano para as conseqüências dramáticas que teria atirar bombas nucleares sobre o Japão – inclusive uma corrida nuclear entre EUA e URSS –, diz Benedict. Mas outros cientistas e autoridades temiam que a Alemanha pudesse chegar antes ao domínio da tecnologia nuclear. Não vingou, assim, a tese de que a energia nuclear deveria ser colocada sob controle internacional, talvez mesmo na ONU, que estava sendo criada. A situação atual seria semelhante, por falta de controle internacional no campo cibernético. Para a editora, é “irônico que o primeiro uso conhecido da cibernética para a guerra seja exatamente para impedir a proliferação de armas nucleares: uma nova era de destruição em massa pode começar em um esforço para encerrar um capítulo da primeira era de destruição em massa”.

Se a política internacional não consegue avançar nesse terreno da cibernética e da respectiva guerra, que se fará ? Acreditar em milagres ? Na mesma edição da New Scientist, ao lado do texto de Kenneth Benedict – coincidência ou não -, o lider da Associação Racionalista Indiana, Sanal Edamarku, conta haver sido convidado para  desvendar um suposto milagre numa igreja, em Mumbai, onde água brotava de uma imagem e atraia multidões. Pesquisou até descobrir que se tratava de água das instalações sanitárias, canalizada por um sistema de drenagem, que passava sob a base da imagem, mas estava bloqueado. Por capilaridade, diz ele, a água infiltrou-se nas paredes adjacentes à estátua e, por um orifício corria para os pés da imagem.

É possível que haja milagres. Mas a política internacional terá de se desdobrar na nova guerra, que já está no nosso cotidiano.

Fonte o Estado de São Paulo 09/09/2012

6 comentários sobre “Um “armagedon cibernético”? Washington Novaes

  1. Nós, mais velhos e simples mortais só podemos dizer que, realmente, a guerra fria veio e nem por isso a humanidade acabou, pois prevaleceu o bom senso e o controle sobre as armas, sobre a tecnologia. Da mesma forma, agora, apesar de mais sofisticada, toda essa nova tecnologia ligada à guerra cibernética é também produto da mente humana e deve ser controlada pela mesma, não importa os fins. Se o homem, a humanidade perder o controle sobre si mesmo, estaremos mesmo perdidos, pois seria como se os futuros robôs pudessem dominar a Terra; a criatura criada dominando o seu criador. Mas, isto é pura ficção.
    Acredito que haja um certo alarmismo em tudo isto, até justificável como advertência, como ocorreu antes através do alerta dos cientistas ao final da segunda guerra, mas daí a achar que o homem perderá o controle sobre o que ele mesmo engendrou vai ainda uma distância.

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    • Caro Alexandre Visconti. Concordo em muito do que dizes, principalmente quanto aos traços de alarmismo baseados em ficção hollywoodiana. Mas preciso lembrá-lo de que a humanidade já perdeu o controle sobre si mesmo, enquanto na ânsia de controlar a Natureza.
      Não acredito na possibilidade de supercomputadores, androides ou ciborgues virem a dominar e escravizar a humanidade. No entanto, estou atento a possibilidade de que estes atores cibernéticos venham, infelizmente, a destruir a humanidade pela mão de quem está hoje no controle.
      Enfim, o que consigo ver, é que cerca de 1 bilhão de pessoas passa fome no mundo e, sob o pretexto de produzir alimentos, a humanidade permite que quem controla supercomputadores também manipule geneticamente a vida…

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    • Os robôs jamais dominarão os homens – seus criadores.
      Já debatí com um cientista especialista em Inteligência Artificial (IA).
      O meu contra-ataque foi dizê-lo que os robôs não tem insight, sua inteligência é programada pelo ser humano.
      Coloquei seu debate em xeque, quando lhe falei que a inteligência humana é fruto da interatividade histórica entre os indivíduos, fruto de evolução histórica.
      Hoje os pesquisadores da IA, não pesquisam mais na cabeça de um só robô. A pesquisa gira em torno de uma comunidade de robôs. Nano-robos são reunidos em grupos para que haja interatividade entre eles, para que evolua sua inteligência a partir de insights coletivos
      de uma determinada coletividade robótica.
      Não adianta colocarmos todo o nosso conhecimento histórico na cabeça de um nano-robô, se este conhecimento não evoluir.
      odeciomendesrocha philosopher

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  2. Acima, o que eu quis dizer mesmo foi: “nós, mais velhos e simples breve mortais”.
    Mas, o que gostaria de acrescentar é o outro lado da internet, que permite a guerra cibernética. Este é o lado maravilhoso, que permite hoje também que escrevamos uns para os outros em alguns minutos e que os outros recebam as mensagens em segundos. Que permite que nós velhos não nos sintamos tão sós, pois temos amigos e amigas no mundo todo e na hora que quisermos, nos e-mails, nos fecebooks, nos twiters e em tantas outras ferramentas, fora as que ainda vão inventar. Que faz com que as notícias, as novidades cheguem até nós quase que de imediato, fazendo com que os jornais pareçam carroças do século passado e os livros, talvez, cadillacs dos anos cinquenta. Enfim, que nos permite ficarmos seres participativos na ponta dos dedos em todas as áreas, em todos os setores e durante toda uma vida, como faço aqui agora. Que permite que um cego, surdo ou mudo participe também ativamente ou até, que um paralítico total escreva seus livros maravilhosos, como ocorre com o grande cientista Stephen Hawkins.
    Enfim, o que quero dizer é que tudo na vida tem o seu lado positivo e negativo e temos que viver nesse equilíbrio de forças, mesmo porque, como diria Deus se nos falasse: meu universo material não é perfeito, posto que é materia, mas é perfeitamente equilibrado; portanto, busquem sempre o equilíbrio em tudo, pois a perfeição possível está no equilíbrio.

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  3. Armagedon Cibernético ?
    Isto daria um livro de ficção científica.
    95% dos analistas vêem com pessimismo a nova revolução eletrônica em curso. Esta nova revolução é positiva para o mundo tanto quanto o foi a revolução agrária. Quando desempregou milhões de trabalhadores e desaguou numa evolução mundial sem precedentes até hoje. O problema que a revolução dos “chips”, colocou o mundo pelo avesso, mas numa posição otimista.
    Esta revolução informatizada da qual estamos a falar, detonou o trabalho abstrato como valor, atingindo o mundo econômico, deixando ao valor zero. Todas as categorias fundantes foram atingidas em cheio, devastando um sistema monolítico de 500 anos de existência – de l500 para cá.
    Muitos pensadores subestimam esta nova revolução. Faltam-lhe fôlego e clarividência para analisar este novo momento que saltará para uma nova civilização mais avançada que a atual.
    São míopes e não enxergam que com o mundo econômico sem valor, não haverá “Armagedon” nenhum. A produção não terá nenhum valor, a mais-valia não existirá mais e o trabalho abstrato acabando, não teremos mais concentração de riqueza material.
    Estamos caminhando para uma Democracia criativa, onde o fetiche não reinará jamais; onde as instituições não terá mais nenhuma autonomia. Porque é com a autonomia que se gesta o fetiche. Não queremos mais instituições que se autonomize. Ela será sempre no devir eterno da criatividade dos cidadãos.
    Esta revolução eletrônica que teve suas raizes na Cibernética de Norbert Wiener, por volta de 1940 e sua sua extensiva informatização do mundo.
    Começaremos com uma nova Política, uma nova Economia e uma nova Filosofia nestes próximos anos.
    odeciomendesrocha philosopher

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