A regeneração da figura do pai e a violência na sociedade

 

É notória a crise da figura do pai na sociedade contemporânea. Por função parental, ele é o principal criador do limite para os filhos e filhas. Seu eclipse provocou um crescimento de violência entre os jovens nas escolas e na sociedade, que é exatamente a não consideração dos limites.

 

O enfraquecimento da figura do pai, desestabilizou a família. Os divórcios aumentaram de tal forma que surgiu uma verdadeira sociedade de famílias de divorciados. Não ocorreu apenas o eclipse do pai mas também a morte social do pai.

 

A ausência do pai é, por todos os títulos,  inaceitável. Ela desestrutura os filhos/filhas, tira o rumo da vida, debilita a vontade de assumir um projeto e ganhar autonomamente a própria vida.

 

Faz-se urgente um re-engendramento, sobre outras bases,  da figura do pai. Para isso antes de mais nada é de fundamental importância, fazer a distinção entre  os modelos de pai e o princípio antropológico do pai. Esta  distinção, descurada em tantos debates, até científicos, nos ajuda a evitar mal-entendidos e a resgatar o valor inalienável e permanente da figura do pai.

 

A tradição psicanalítica deixou claro que o pai  é responsável pela primeira e necessária ruptura da intimidade mãe-filho/filha e a introdução do filho/filha num outro continente, o transpessoal, dos irmãos/irmãs, dos avós, dos parentes e de outros da sociedade.

 

Na ordem  transpessoal e social, vige a ordem, a disciplina, o direito, o dever, a autoridade e os limites que devem valer entre um grupo e outro. Aqui as pessoas trabalham, se conflituam e realizam projetos de vida Em razão disso, os filhos/filhas devem mostrar segurança, ter coragem e disposição de fazer sacrifícios, seja para superar dificuldades, seja para alcançar algum objetivo.

 

Ora, o pai é o arquétipo e a personificação simbólica destas atitudes. É a ponte para o mundo transpessoal e social. A criança ou o jovem ao entrar nesse novo mundo, devem poder orientar-se por alguém. Se lhes faltar essa referência, se sentem inseguros, perdidos e sem capacidade de iniciativa.

 

É neste momento que se instaura um processo de fundamental importância para a jovem psiqué  com consequências para toda vida: o reconhecimento da autoridade e a aceitação do limite que se adquire através da figura do pai.

 

A criança vem da experiência da mãe, do aconchego, da satisfação dos seus desejos, do calor da intimidade onde tudo é seguro, numa espécie de paraíso original. Agora, tem que aprender algo de novo: que este novo mundo não prolonga simplesmente a mãe; nele, há conflitos e limites. É o pai que introduz a criança no reconhecimento desta dimensão. Com sua vida e exemplo, o pai surge como portador de autoridade, capaz de impor limites e de estabelecer deveres.

 

É singularidade do pai ensinar ao filho/filha o significado destes limites e o valor da autoridade, sem os quais eles não ingressam na sociedade sem  traumas. Nesta fase, o filho/filha se destacam da mãe, até não querendo mais lhe obedecer e se aproximam do pai: pede para ser amado por ele  e esperam dele orientações para a vida. É tarefa do pai explicar ajudar a superar a tensão com a mãe  e recuperar a harmonia com ela.

 

Operar esta verdadeira pedagogia é  desconfortável. Mas se o pai concreto não a assumir está prejudicando pesadamente seu filho/filha, talvez de forma permanente.

 

O que ocorre quando o pai está ausente na família ou há uma família apenas materna? Os filhos parecem mutilados, pois se mostram inseguros e se sentem incapazes de definir um projeto de vida. Têm enorme dificuldade de aceitar o princípio de autoridade e a existência de limites.

 

Uma coisa é este princípio antropológico do pai, uma estrutura permanente, fundamental no processo de individuação de cada pessoa. Esta função personalizadora não está condenada a desaparecer. Ela continua e continuará a ser internalizada pelos filhos e filhas, pela vida afora, como uma matriz na formação sadia da personalidade. Eles a reclamam.

 

Outra coisa são os modelos histórico-sociais que dão corpo ao princípio antropológico do pai. Eles são sempre cambiantes, diversos nos tempos históricos e nas diferentes culturas. Eles passam. 

 

Uma coisa, por exemplo,  é a forma do pai patriarcal do mundo rural com fortes traços machistas. Outra coisa ainda é o pai da cultura urbana e burguesa que se comporta mais como amigo que como pai e aí se dispensa de impor limites.

 

Todo este processo não é linear. É tenso e objetivamente difícil mas imprescindível. O pai e a mãe devem se coordenar, cada um na sua missão singular, para agirem corretamente. Devem saber que pode haver avanços e retrocessos; estes pertencem à condição humana concreta e são normais.

 

Importa também reconhecer que, por todas as partes, surgem figuras concretas de pais que com sucesso enfrentam as crises, vivem com dignidade, trabalham, cumprem seus deveres, mostram responsabilidade e determinação e desta forma cumprem a função arquetípica e simbólica para com os filhos/filhas. É uma função indispensável para que eles amadureçam e ingressem na vida sem traumas  até que se façam eles mesmos pais e mães de si mesmos. É a maturidade.

 

75 comentários sobre “A regeneração da figura do pai e a violência na sociedade

  1. muito lindo seu texto. de forma muito simples e clara vc retoma informações importantes para consideração do nome do pai. preocupa-me muito pais que abusam desse espaço que ocupam nas famílias e na constituição de um novo ser.

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  2. Depois de tomar conhecimento dessas considerações, fico mais convencido de que essa barbárie em que a sociedade tem se metido não é casual ou expressão de algo momentâneo, mas antes é uma construção perversa, ruim em todos os sentidos, simplesmente pelo desconhecimento e desvalidação do limite. O Brasil, que é a ‘nossa mãe gentil’, precisa urgentemente de ‘um pai-exemplo’; aliás, nós precisamos recuperar o nosso senso de limite. Todavia, ninguém dá o que nunca teve!

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  3. Excelente reflexão. E, com certeza, uma das causas ( entre tantas outras ) da violência que enfrentamos cotidianamente. Seguimos atrás de uma solução.

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  4. eu como sociólogo, atribu-o este momento indisciplinar dos jovens, de conhecimento vazio, onde eles imaginam ter um conhecimento que não é o que aparenta ser, e como na verdade não conhecem nada atropela a obediência, ensinamentos, etc do seus pais, para consigo.

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  5. É interessante ver o antagonismo entre esses dizeres do Leonardo frente ao esforço que o governo do PT e a mídia fazem para detonar instituições judaico-cristãs como o patriarcado e a instituição da família. …E não me venham com aquela história distorcida de que família é um termo abrangente e blablabla…

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  6. Sempre aplaudo e assino embaixo meu caro filósofo mas o tema hoje é muito difícil. As variáveis que interferem na tese provocada são muitas e relativamente recentes. As relações econômicas mudaram, e o pai provedor ficou confuso. O pai que precisa, conforme o autor diz acima “operar esta verdadeira pedagia”, e que era a “ponte para o mundo transpessoal e social” de fato está eclipsado. A violência entrou pela porta da sala e surpreendeu a família inclusive o pai. Tema de relevante importância e de difícil discussão. Sugiro e desejo mais abordagens sobre esta figura de muito valor – o pai. Ma Fatima Barreto Michels/Laguna/SC

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    • Concordo, Fátima. A figura do pai nos dias de hoje está enfraquecida por toda atual conjutura socio-econômica-cultural.

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    • Fátima Barreto
      Se vc me entendeu é mais inteligente que eu.
      Poderemos articular uma teoria, onde a figura do pai seja uma determinante, como nos fala LACAN (o nome do pai). E a determinante será Andrógina (totalidade masculina-feminina)
      Não estou reprimindo a homossexualidade, mas eclipsando.
      Também, amiga, ví que Sigmund Freud retirou muitas noções da libido sexual na “Kundalini” oriental. Trabalhemos, então com, Chacras-oriental.
      Quem deveria aprofundar esta teoria seria um Jean-Yves Leloup, excelente psicólogo (PhD).
      Bjs.
      odeciomendesrocha

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    • Concordo com você, Fátima. Ao menos em parte. O pai ideal é tudo isso. O pai real não é nem remotamente parecido. O nobre autor baseia-se em Freud, e Freud está ultrapassado. É moderno demais. Estamos numa outra era, que alguns chamam de pós-moderna, por oposição. Atualmente não há mais essa divisão estrita de tarefas. E nunca deveria ter havido. Mãe e pai podem fazer todas as coisas, exceto algumas poucas. As mulheres estiveram submetidas dentro de casa até há pouco. Hoje nao mais. Por isso não precisam mais esperar que o pai leve os filhos ao mundo. O que se tem visto atualmente é mães e pais que trabalham, que estão ‘antenados’ – graças, sim, às novas tecnologias da comunicação. Não vejo as pessoas “cada vez mais violentas”. Ao contrário. Foi justamente todos os milênios de repressão e opressão que nos trouxeram até aqui. A Humanidade nunca foi mais pacífica que atualmente, essa é que é a verdade. Antigamente sabia-se menos. Hoje, qualquer bandido se torna celebridade bem depressa. Antigamente não era necessário ir à rua para sofrer violência. Bastava ficar em casa mesmo. Então, caríssimo Leonardo Boff, todo o seu texto deve ser revisto. Então, cara Fátima, pai e mãe têm o mesmo grande valor. E não foi nos nossos tempos que a ‘violência entrou pela porta da sala”. Foi na Idade da Pedra. Estamos começando a nos desfazer dela, muito lentamente. Mas espero que não demore muito.

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  7. Leonardo Boff
    Hoje eu tiro o chapéu para você. Que lindo texto!!!
    O pensador atual tem obrigação de pensar na família como a célula mater social. Mas, amigo, o que teremos que pensar além de tudo que vc disse é sobre um novo Princípio de Realidade que teremos que re-inventar dentro de uma futura sociedade Andrógina (masculina-feminina).
    O futuro da sociedade não será Patriarcal, nem Matriarcal, será uma totalidade que contenha o masculino e o feminino na sua forma totalizante. É aí onde entra o Princípio de Realidade (para além do Princípio de Prazer), obra de Sigmund Freud escreveu em 1911.
    Uma cultura Andrógina não significa que estamos fazendo apologia à homossexualidade.
    Não, justamente pelo contrário, esta Cultura Andrógina recusará a homossexualidade. Porque o novo Princípio de Realidade ( o eu trabalho ), não passará pela tríade edípica do Patriarcado.
    A introdução da mulher no novo Princípio de Realidade, haverá um corte epistemológico e a nova Cultura não precisará da repressão masculina antiga. Não precisará matar o Pai nem copular com a mãe, conforme o Complexo de Édipo. Com dois polos de amor debaixo do mesmo teto, sem repressão cultural do Patriarcado, ficará a criança, ao entrar na Cultura Andrógina ilesa de traumas. Porque não haverá hegemonia das partes envolvidas.
    Ainda é muito cedo para formular esta Teoria.

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  8. Eu lendo esse texto, posso inteiramente me identificar.Criada sem Pai e Mãe em casa para ajudar no meu amadurecimento, passei por todas as dificuldades que você listou nesse texto, na verdade sempre tenho que passar por elas quando tenho que enfrentar um momento de conflito, parece que os conflitos se agravam pela falta de equilíbrio e firmeza, muita dúvida, insegurança e instabilidade.Mas o que ajuda, é a espiritualidade, e ver textos como o seu, que faz com que eu não perca a esperança.Grande abraço!

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  9. Percebo que vivemos um momento peculiar, diria mundial, em que os chamados limites vem sendo questionados. Não sei se é uma questão de evolução genética ou um afogamento no mar de informações que nos envolve. Difícil a tarefa de pai. Especificar, apontar direções, posturas, em meio a movimentos e questionamentos, muitos deles legítimos, especialmente com respeito ao que seria à figura de autoridade, é desafiador. Muitas distorções tem sido vividas. Saímos da reverência aos deuses e ainda não chegamos a clareza que reside e brota da alma humana. Penso que estamos numa fase de adolescência planetária saindo da infância onde é dito o que fazer, como, quando e com quem e estamos passando para a fase de responsabilizar-nos e descobrir a cada momento por nós mesmos independente de autoridades o que deve ser feito, como, quando e com quem. Um momento ainda confuso, mas promissor. Em suma orientar, ser “pai” neste momento é complexo, mais do que em qualquer outra época.

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  10. “Show de bola, Leo”… Mostrou muito bem a recuperação dessa importante figura na construção da sociedade. Interessante que, quanto mais o mundo “se desenvolve” no progresso material, mas, tênue fica a figura masculina no obter alimento, proteger o território e dar segurança à fêmea e filhotes – há que se pensar no novo papel dos machos para que se mantenha essa identidade paterna insubstituível no amor e segurança da família e, por conseguinte, no legado à sociedade humana.

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  11. Prezado Leonardo,
    Muito bom o seu artigo. No sentido de ampliar a discussão, sugiro que veja, se é que não viu, o documentário brasileiro ” O Renascimento do Parto”, e acompanhe as demais discussões acerca da humanização do nascimento e aleitamento materno. Pois ao meu ver estão profundamente ligados tanto à questão da violência na sociedade quanto à questão da ecologia.
    Abraço
    Tatiana Feijó

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  12. Belo texto, Leonardo! Aproveito para relembrar que, no momento em que escrevo, 14/09/2012, temos o aniversário de um grande Pai espiritual de muitos brasileiros: dom Paulo Evaristo Arns. Deixo aqui um belíssimo poema de Dom Pedro Casaldáliga em homenagem a este Bom Pastor que completa 92 anos .

    14/09/2013 – 92 anos de Dom Paulo Evaristo Arns. Lindo poema de Dom Pedro Casaldáliga!!

    Camponesa raiz de Forquilhinha,
    Migrante arredondado em jeito brasileiro.
    Dom Paulo,
    Paulo irmão.
    Pastor da Babilônia
    do Lucro,
    do Protesto
    da Esperança.
    Sentinela da Noite prolongada,
    dez anos luta afora, velando a Fé no Dia,
    desvelando o Mistério, no desvelado sono.
    Temida mansidão em pé de guerra
    Cachimbo militante de outra Paz,
    Mecenas franciscano da Justiça,
    Mestre da oportuna interferência,
    Doutor também na História do futuro,
    Boca do Cone Sul emudecido,
    Abraço sem fronteiras de tantos exilados.
    Mediador da Oikumene convocada em Serviço.
    Largo o olhar e o coração aberto,
    a palavra segura e sinzelada,
    jornalista fiel da Boa-Nova:
    o tamanho preciso do Apóstolo Paulo.
    Torcedor corintiano das partidas do Povo.
    Pastor do Povo Novo, que congrega
    todos os Pobres das Periferias
    na livre, irreprimível caminhada.
    (Profeta rejeitado na Metrópole).
    O Homem invadiu todos o espaço
    da aberta catedral de tua vida…
    Dom Paulo, Paulo irmão,
    estamos ao teu lado!
    O Povo e Deus caminham
    rompendo, com teus passos.
    Sangue de muitos “Santos”
    lacra com garantia de Evangelho
    a opção de teu Cajado em jubileu.
    Muitos braços unidos
    Sustentam, com teu braço,
    a Cruz da Liberdade, conquistada, por palmos, dia a dia,
    o estandarte do Reino, que vem vindo
    sobre esta Pátria Grande do Continente Novo…
    Dom Paulo, Paulo irmão!
    (Dom Pedro Casaldáliga – poema extraído do livro “Dom Paulo Evaristo Arns – um homem amado e pereguido” de Evanize Sydow e Marilda Ferri – Vozes, 1999)

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  13. Por vezes a vida não se coloca desta maneira perfeccionista,mas mesmo assim vivemos,crescemos e alcançamos nossa maturidade. A vida não é perfeição,mas adaptação…criação de outros horizontes também plenos!

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  14. Texto excelente e singular, particularmente por lembrar que a valorização do pai passa pela própria coragem deste em assumir suas responsabilidades para que todos os outros possam assumir também seus papéis!

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  15. Frei Leonardo

    Historicamente, os pais de hoje são reflexos do exagerado autoritarismo do poder patriarcal, onde a figura do pai era extremamente poderosa e impunha medo e castigo aos filhos, tudo o que sofremos neste sentido, não quisemos para nossos filhos, eu sou de uma geração em que o respeito era imposto pela violência tanto física, como psicológica, a mudança de papéis hoje, a mulher teve que trabalhar, o desemprego, impos o matriarcalismo invertendo os papéis do provedor da família.a sociedade mudou profundamente.e suas bases, Foi imposta a liberdade, no grande sentido de ensinar o respeito com atitudes e dialogo, sem a violência imposta para o respeito.. As mães hoje fazem os dois papéis, como os pais também, não acho que seja culpa do divórcio, mas sim da sociedae que sofreu uma grande transformaçãodo acho que esta discussão sobre os limites é mais profunda, pois a própria escola também mudou, eu sou do tempo da palmatória, dos castigos sem limites nas escolas.A regenerção da figura do pai é consequência exclusiva do que foram nossos pais. Somos o que somos, pois nossa geração quis transformar a célula mãe da família, desde a queima dos soutiens na praça, a pilula até Woodstock. A fragilidade familiar surge desta “espiral da vida”. ( vou usar um termo emprestado) . Do patriarca ditador, da matriarca ditadora, da sociedade sem regras,, sem controle e desigual. Seremos nós os culpados? Concordo com a Fátima, uma discussão para reflexão. Uma sociedade onde tudo gera trauma…. onde a criança passou a ser o centro das atenções, onde vamos achar a solução?Voltar ao modelo antigo de educação? Eu sei apenas que não pertenço a este século ( frase emprestada também), consumista e totalmente tomado pela ganância, violência.Dexo dizer que já é de manhazinha e assei a noite inteira pensando sobre isso……Obrigada por mais esta reflexão…

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  16. Vejo aqui que o posicionamento hoje do Pai como chefe de familia se enfraqueceu, isso ocorreu por varios fatores, como a mulher querer sua propria independencia se igular ao homem, não que sou machista, mas a Biblia, escreve que o homem é o varão da casa e a mulher sua ajudadora, em nossa epoca a coisa se igualou ou mudou os lados, na Biblia tambem escreve que não podemos poupar a vara ao nossos filhos para que mais tarde não precisamos corrigi-los, hoje nossa lei nos proibe da educação e da correção.
    Temos que mudar isso, caso contrario a familia está perdendo seu rumo

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  17. Necessária e oportuna sua colocação, parabéns pela contribuição que traz aos conflitos familiares Um abraço.Isabel

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  18. Sempre gostei dos textos escritos por leonardo boff, porém, esse em particular é de um namorinho incrível com o conservadorismo…. existem famílias incríveis constituídas de muitas formas sem figura paterna, ou então com um pai que faz um papel diferente do relatado, transferir o limite ao pai é uma coisa muito sem nexo…. não gostei, achei muito conservador.

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  19. O nazismo soube aproveitar e substituir este “lugar do pai”, que na época se encontrava enfraquecido, sem autoridade, e numa Alemanha sem autoestima.

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  20. Parabéns frei Leonardo Oportuna sua reflexão. A figura masculina na educação dos filhos é indispensável !!!!

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  21. Amei esse texto extremamente preciso na ambivalência de sentimentos da lei e do desejo presentes na tríade familiar.O pai é fundamental sem regulação de limites se consubstancia um ser humano desprovido do ser adulto, de gerenciamento seu próprio Pai e Mãe.O brilhante texto destaca Ser cuidador de si mesmo e mantenedor de suas relações socias.Parabéns Professor Leonardo Boff.

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  22. O sistema em que vivemos, influencia uma desagregação da família, os pais perdem terreno para internet, televisão, para o consumismo, e este próprio sistema cobra da família comportamento exemplar dos filhos, o mesmo acontece com os professores. A sociedade precisa repensar o valor da família e do professor, pois na minha humilde opinião são seguimentos da sociedade interligadas, ou seja uma depende da outra, sem no entanto, assumirem o papel um do outro.
    Leonardo Boff como sempre trazendo Deus para a vida.

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  23. Muito boa a reflexão, expondo de forma inconfundível o valor da figura do pai na família. No entanto, ressalto que que não menos importante é a figura da mãe neste contexto, contribuindo para garantir uma boa relação “pai/mãe”, que oferece um ao outro as condições necessárias e essenciais para que cada um desempenhe correta e concretamente o seu papel. Problemas nesse relacionamento desestabilizam a família e interferem de forma comprometedora na figura do pai perante filhos/filhas.

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  24. Discordo completamente opinião ao meu ver apenas numa visão patriarcal do mundo, a violência tá grande ? É só olhar para história pra ver q hj é tudo bem light ! O aumento da população humana na terra mostra q a violência é bem pequena comparada a outros tempos com certeza.

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  25. Esse tema é instigante no momento atual, momento de crise de identidades e valores. É preciso colocar pai e mãe nos seus lugares. Infelizmente as gerações de 60 e 70 se desvincularam dos seus papéis, abrindo totalmente a guarda. O resultado está aí. claro que as mudanças tinham que ocorrer como ocorreram, só que nós esquecemos que a continuidade da vida são os filhos. A cultura se expandiu mundialmente, a sociedade se abriu, a liberação sexual foi total,as novas formas de vida foram acontecendo, a mulher cresceu e a figura paterna encolheu e os filhos começaram a perderam o rumo a partir da década de 80 pra cá.
    A regeneração do nome-do-pai é essencial no século XXI como articulação de linguagem humanizada, afetiva mas determinada, firme. saber dizer não e sim sem ter medo dos filhos. Os filhos tomaram conta devido a fragilidade paterna. O não saber se comportar como pai ou como mãe, no caso da mulher. A figura paterna é a figura do mediador. É própria da estrutura masculina desde o seu primitivismo. Isso pode ser lido em antropologia com Levi-Strauss, em psicanálise com Freud Totem e tabu.
    O nome-do-pai, esse pai simbólico é necessário ao desmame inicial na vida da criança que precisa sair de seu puro e simples acoplamento com a figura materna. É aqui que o pai começa aparecer e dá a lei.. Em outras palavras; alto lá, estou aqui. A relação não é dual.

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  26. REFLEXÃO PERFEITA: Some-se a ela a pergunta: “A quem interessa o esvaziamento da figura paterna”, um olhar superficial, por exemplo nos desenhos animados e seriados, sejam Simpsons, Jetsons, Flintstones, familia dinossauro… revelara a matriz comum “Pais bobões destituidos de autoridade”… sigamos refletindo!

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  27. Tenho um trabalho ao qual dei o nome de “Os filhos da mãe”. É um manifesto para que se saiba da importância crescente do pai em todos os aspectos da vida de uma criança, principalmente após a infância, ou seja,, mais ou menos a partir dos 7 ou 8 anos de idade!

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  28. Texto sério, forte, e muito sábio. Se o Sr. Pai soubesse seu real valor e importância, jamais se abdicaria desta função.

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  29. Muito verdaddeiro o texto,concordo….mas a experiencia comprova que a Mae (com muita luta)
    Faz esse papel duplo e forma filhos, fortes,com limetes e prontos para irem a luta ,com carater,
    Honestidades,profissionais,prontos para formarem suas familias…

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  30. Meu pensamento aproxima-se do comentário feito por Fátima Barreto. Terminei o casamento logo após o 3°episódio de violência doméstica por ex-marido estrangeiro quando minha filha ainda era recém-nascida. Um pai que me parece que é um eterno homem adolescente que não quer ter vínculos afetivos e responsabilidades. Nunca mais entrou em contato e vice-versa.

    Então, viramos um matriarcado em casa, ou sou mãe e pai? Tem horas que sou mais mãe, tem horas que sou mais pai. Sou professora universitária, autora de livros no Brasil e exterior, compartilhando com minha filha as situações de constrangimento que as mulheres passam na vida pública e dificuldades de conciliar as várias jornadas. Então, pergunto, nas atuais configurações de família uniparental com autonomia financeira, alta escolaridade, com escolhas para ter um horário flexível de deslocamento casa-trabalho, é válida a tese apresentada em seu artigo A regeneração da figura do pai e a violência na sociedade?

    Aqui em casa, vivemos um ambiente ao mesmo tempo democrático, filosófico, idealista e pragmático, em que desde pequena minha filha tinha liberdade e limites, com firmeza e convencimento a partir de alta argumentação. Descontruímos doutrinações na mídia, percebemos a opressão da pressa sobre a vida comunitária e familiar e rompemos ciclos de eterno descarte de coisas e relações, valorizamos princípios de solidariedade e prática do cuidado. Também temos uma família de cães cujo ‘pai’ já faleceu, mas geraram cinco filhotes que doamos, mas ficamos com um na casa de minha irmã.

    Querido Leonardo Boff, peço que faça uma reflexão sobre famílias uniparentais em que há condições de escolaridade e renda que permitem sobrevivência econômica da família independente de pensão alimentícia.

    Um fraterno abraço, longo e tranquilo.
    Patricia

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    • Com todo o respeito aos desígnios e lutas da Patrícia, espero entretanto que Leonardo não siga esse conselho, pois “famílias uniparentais em que há condições de escolaridade e renda que permitem sobrevivência econômica da família independente de pensão alimentícia” interessarão certamente a uma parcela ínfima da sociedade, que pode prescindir muito bem das reflexões de Boff para continuar a vida.
      Mais útil seria se Boff refletisse sobre famílias uniparentais em que não há condições de escolaridade e renda que permitam sobrevivência econômica da família independente de pensão alimentícia (até porque ela nunca viria), e mesmo assim sobrevivem.
      Se é que já não foi pensando nelas que este texto foi feito.

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  31. Realmente acredito que a figura de um pai é extremamente importante para a formação de uma criança, mas o que dizer quando a autoridade desse pai ultrapassa os sentidos do outro ser. Quando um pai se acha na autoridade de explorar o corpo de um filho. Acredito que o ser “pai ou mãe” devem ser repensado por muitos de nós.
    Devemos sim passar o conceito de limites aos filhos, mas principalmente, não podemos ultrapassar o limite de cada ser.

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  32. graças ao feminismo que diz que o exemplo masculino não é necessário e que os homens não sabem criar filhos…

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  33. Bom texto. Mostra-nos uma valiosa interpretação da psicanálise… Porém, hoje, não vejo com tanta clareza esses “pacotes” de responsabilidades do pai e da mãe. Ou, nas palavras do texto, “missões singulares” de um e de outro. Penso que ambos têm responsabilidades sim, porém, não estáticas, não pré-definidas – ou não pré-definíveis. Isso porque eu acho que, nos dias atuais, nada está absolutamente claro, em virtude da enorme quantidade de variáveis que incidem na formação do indivíduo, e da inexorável reestruturação familiar e social, onde o tempo anuncia as mudanças e as mudanças anunciam os novos tempos.

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  34. São palavras, que requerem silêncio de sabedoria e compreensão de sermos e querermos ser, não o modelo mas o caminho inicial para com nossas sementes…

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  35. O excelente artigo de LB é um convite a reflexão; em todos os sentidos – seja da Psicanálise, antropologia, sociologia e da psicologia, em especial a psicologia analítica em relação aos arquétipos e os complexos paterno e materno. A praxis nossa de cada dia é aqui exaltada e levada muito a sério para o bom entendimento e coragem de seguir em frente, atendendo ao chamado, ao desafio, de sermos humanos, verdadeiramente humanos…. Difícil é aceitar comentários que me parece mais uma fuga a esta triste realidade apresentada; uma fuga travestida de arroubos de conhecimento, ou mesmo de jargões como o de taxar o texto de conservador, e… para piorar a situação alguns que chegam a audácia de dizer que Freud está ultrapassado. Em se tratando de cultura, nada é ultrapassado, “relembrar é preciso” para que se viva, pense e viva…. Quem se pauta apenas pela filosofia daquilo que se vê ou estuda(?) hoje, pode nunca deixar marcas, e, portanto, nunca poderá ser revisto tais pensamentos, nunca poderá ser “ultrapassado”, pois nem mesmo existiu um dia. Termino dizendo que: bom é lermos (como na maioria dos comentários de outros colegas) posição de pessoas que sugerem mais sobre o assunto, pedem mais para conhecer mais, e, principalmente dão sua contribuição pessoal e teórica sobre o fato – e não apenas criticam sem conhecimento.

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  36. É interessante observar que a figura paterna é intrínseca ao modelo de desenvolvimento humano enquanto espécie, ou seja, por “solução” adotada para a perpetuação da espécie adotou-se o desenvolvimento físico lento do filhote humano para permitir o aprimoramento do cérebro, tanto na sua função mental quanto física, e o consequente aumento do universo cognitivo. Isto requer a necessidade, inexistente em outras espécies, de um provimento completo para sobrevivência deste filhote, e isto só é conseguido com a dedicação de um parceiro por longo período. Tanto é assim, que a fêmea desenvolveu capacidade sexual mesmo fora do período fértil para garantir e estimular a presença de um macho provedor e protetor.

    É simples, a partir daí surgem famílias, grupos maiores e, finalmente, sociedades complexas. Tudo porque adotou-se a solução PAI para a espécie.

    Talvez, no atual momento evolucionário, o ser humano possa abrir mão desta figura para garantir a sobrevivência física, mas, como disse o Leonardo Boff, será que para a sobrevivência social ele já pode ser descartado? Acho que não.

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  37. Honestamente, fiquei meio chocada com o que o autor defende. A argumentação dele não só vai no sentido de um retrocesso imenso a tudo o que vem sendo conquistado às duras penas em relação às lutas pela igualdade de gênero e pelos direitos LGBT, quanto deslegitima milhões de famílias que não são formadas de acordo com o núcleo pai, mãe e filhos. O texto se encaixa perfeitamente ao que prega a onda conservadora felicianista e bolsonarista, além de ser bastante machista. As mulheres podem dar conta perfeitamente dos papéis de pai e mãe, e a verdade é que sempre deram, né? E, pra piorar, o autor se equivoca muito nos conceitos, como nesta parte: “o princípio antropológico do pai, uma estrutura permanente, fundamental no processo de individuação de cada pessoa.” Isso não existe na Antropologia, e nem poderia existir, já que os conceitos antropológicos de família e parentesco são mutávies e dinâmicos e só podem ser trabalhados levando em conta a imensa diversidade de contextos sociais em que se inserem. Enfim, achei as ideias dele bem retrógradas, teoricamente equivocadas e nocivas, na medida em que reforçam e reproduzem uma visão hegemônica de família que exclui muitas outras que já existem e lutam por legitimidade.

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    • Lira
      O que lhe falta é conhecer um pouco melhor a literatura psicanalítica que estudou a fundo a figura do pai, como C.G.Jung e especialmente R. Winnicot. Vc socializa demasiado a questão sem se dar conta de que se trata de subjetividades que devem ser compreendidas com as categorias adequadas. Negar que a figura do pai seja um arquétipo é desconhecer uma pesquisa que já tem mais de 80 anos. Não sou novato nestas questões. Escrevi bastante sobre elas com vasta documentação internacional. Mas parece que estas questões não cabem na sua grelha teórica.
      lboff

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      • Obrigada pela resposta. É verdade que não possuo grandes conhecimentos em teorias psicanalíticas mas não acredito na separação de perspectivas teóricas em caixinhas isoladas, ainda mais se tratanto de ciências humanas. Talvez você possa clarear um pouco os pontos que levantei e esses outros: Quais seriam as categorias adequadas? Penso que a produção de subjitividades só existe articuladamente aos processos de socialização pelos quais os sujeitos passam ao longo de sua existência. Como poderíamos considerar a produção de subjetividades isolando-a de seus contextos sociais e culturais? Um ser isolado socialmente é capaz de produzir subjetividades mas, uma vez que não somos seres isolados, esse processo é inevitavelmente social, não? Em momento algum no meu comentário neguei a figura do pai enqanto arquétipo. Só acho que aprisionar as experiências e expressões dos sujeitos em arquétipos não é bem o que propõem as teorias psicanalíticas. Considerar os arquétipos não seria uma maneira para se buscar entender as meneiras pelas quais atribuimos significados ao nosso mundo e experienciamos nossas relações? Neste sentido, penso que os arquétipos não são universais e estáticos, nem em sua genealogia e nem nas maneiras que se expressam e são interpretados em diferentes tempos e espaços, embora eles sejam fundamentais enquanto ferramentas de reflexão. Ou seja, uma coisa é propor uma reflexão sobre os papeis simbolicamente atribuídos em nossa sociedade às figuras do pai e da mãe. Outra coisa é dizer que a figura paterna é necessariamente uma figura masculina que complementa à figura materna feminina, resultando numa espécie de síntese de duas identidades de gênero no processo educacional – o homem enquanto autoridade que mostra os limites e que apresenta o espaço público e hostil aos filhos, e a mulher enquanto figura que cuida do campo da domesticidade, da intimidade e das emoções. Você não acha que essa essencialização das identidades de gênero é um pouco limitadoras para pensarmos num conceito tão amplo que é o de família? Onde então encanxaríamos todas as outras configurações familiares existentes hoje em dia? Teríamos então de continuar deslegitimando as famílias monoparentais e homoparentais? Desculpa a enxurrada de indagações, mas gostaria, se possível, que você me clareasse nestes aspectos – tanto os aspectos teóricos e metodológicos da análise que você propõe e que pontuei mais no início deste longo comentário, quanto as questões mais direcionadas à empiria, colocadas no final do mesmo. Obrigada. Lira

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      • Lira,
        em vez de fazer longas divagações mando-lhe um artigo que escrevi há tempo sobre a Eclipse da figura do pai

        A complexa divisão social do trabalho, a participação das mulheres na vida pública e sua dura crítica ao patriarcalismo e ao machismo vigente, trouxeram uma crise à figura do pai. De certa forma surgiu uma sociedade sem pai ou do pai ausente.

        O eclipse da figura do pai, entretanto, desestabilizou a família tradicional. O aumento dos divórcios, importa reconhecer, acarretou consequências, por vezes, dramáticas. Estatísticas oficiais recentes nos EUA referem que 90% dos filhos fugidos de casa ou sem moradia fixa eram de famílias sem pai. 70% da criminalidade juvenil provinha de famílias onde o pai era ausente. 85% dos jovens em prisões cresceram em famílias sem pai. 63% de jovens suicidas tinham pais ausentes.

        A falta da figura do pai desestrutura os filhos/filhas, tira-lhes o rumo da vida e debilita-lhes a vontade de assumir um projeto consistente de vida. Precisamos trazer de volta o pai.
        Para resgatar a relevância da figura do pai, se faz importante distinguir entre os modelos de pai e o princípio antropológico do pai. Os modelos variam consoante os tempos e as culturas: o pai patriarcal, tirânico, participante, companheiro, amigo. O princípio antropológico do pai constitui estrutura permanente, imprescindível para o complexo processo de individuação humana. Em todos os modelos, age o princípio antropológico do pai, mas sem se exaurir em nenhum deles. A crise dos modelos libera o princípio paterno.

        A tradição psicanalítica tirou a limpo a importância insubstituivel do princípio antropológico do pai. A figura do pai é responsável pela primeira e necessária ruptura da intimidade mãe-filho/a e pela introdução do filho/a no mundo transpessoal, dos irmãos/irmãs, dos parentes e da sociedade.
        Nesse outro mundo, vige ordem, disciplina, autoridade e limites. As pessoas têm que trabalhar, realizar projetos e inventar o novo. Em razão disso, devem ter coragem, mostrar segurança e disposição para fazer sacrifícios.

        Ora, o pai é a personificação simbólica destas atitudes. É a ponte para o mundo transpessoal e social. Nessa travessia, a criança se orienta pelo pai-herói arquetípico que sabe, pode e faz. Se lhe faltar essa referência, ela se sente insegura, perdida e sem iniciativa. Pertence à figura do pai fazer compreender a diferença entre o mundo da família e o mundo social. Não há só aconhego, mas também trabalho, não só bondade mas também conflito, não apenas ganhos mas também perdas. Se os programas de entretenimento da televisão exacerbam o desejo, fazendo crer que só o céu é o limite, cabe ao pai mostrar que em tudo há limite, que todos somos incompletos e mortais. Operar esta verdadeira pedagogia desconfortável mas vital é atender ao chamado do princípio antropológico do pai, sem o que ele está prejudicando seu filho/filha, talvez de forma permanente.

        A partir de uma figura de pai bem realizada, a criança pode elaborar uma imagem benfazeja de Deus-Pai. A despeito das dificuldades, nunca faltam figuras concretas de pais que conhecemos, que se imunizaram da impregnação patriarcal e dentro da complexa sociedade moderna, vivem dignamente, trabalham duro, cumprem seus deveres de pais, mostram responsabilidade e determinação. Desta forma cumprem a função arquetípica e simbólica para com os filhos/as, função indispensável para que eles amadureçam o seu eu e, sem perplexidades e traumatismos, ingressem na vida autônoma, até serem pais e mães de si mesmos.

        E lhe acrecent outro sobre a Volta da figura do pai. Veja que não falo do pai empírico, das da figura (que pode ser um tio, uma pessoa amiga e de confiança). Essa digura, como Freud mostrou clramente, é internalizada na pessoa e de lá nunca sai, pois é um ponto de referência permanente.

        A volta do Pai

        A complexa divisão social do trabalho, a participação das mulheres na vida pública e sua dura crítica ao patriarcalismo e ao machismo vigente, trouxeram uma crise à figura do pai. De certa forma surgiu uma sociedade sem pai ou do pai ausente.
        O eclipse da figura do pai, entretanto, desestabilizou a família tradicional. O aumento dos divórcios, importa reconhecer, acarretou consequências, por vezes, dramáticas. Estatísticas oficiais recentes nos EUA referem que 90% dos filhos fugidos de casa ou sem moradia fixa eram de famílias sem pai. 70% da criminalidade juvenil provinha de famílias onde o pai era ausente. 85% dos jovens em prisões cresceram em famílias sem pai. 63% de jovens suicidas tinham pais ausentes.
        A falta da figura do pai desestrutura o desenvolvimento natural dos filhos/filhas, tira-lhes o rumo da vida e debilita-lhes a vontade de assumir um projeto consistente de vida.
        A tradição psicanalítica tirou a limpo a importância insubstituivel do princípio antropológico do pai. A figura do pai é responsável pela primeira e necessária ruptura da intimidade mãe-filho/a e pela introdução do filho/a no mundo transpessoal, dos irmãos/irmãs, dos parentes e da sociedade.
        Nesse outro mundo, vige ordem, disciplina, autoridade e limites. As pessoas têm que trabalhar, realizar projetos e inventar o novo. Em razão disso, devem ter coragem, mostrar segurança e disposição para fazer sacrifícios. A figura do pai encarna todas estas atitudes fundamentais. Sem uma figura de pai bem definida, o processo de individuação das crianças fica enormente prejudicado. Por isso é preciso trazer o pai de volta.
        Já há séculos Telêmaco, filho de Ulisses, na Odisséia de Homero testemunhava: ”Se aquilo que os mortais mais desejam, pudesse ser conseguido num abrir e fechar de olhos, a primeira coisa que eu quereria, seria a volta do pai”. Curiosamente esta volta é augurada pelo Cristianismo, numa página memorável do evangelho de São Lucas ao falar da volta do pai ao filho pródrigo.
        Para compreender esta volta do pai, importa situar a parábola no contexto da prática e da proposta de Jesus. É um dado historicamente assegurado que Jesus circulava entre pessoas de má companhia e que comia com elas. O que era considerado, para os critérios do tempo, um sinal de amizade. Naturalmente provocava escândalo entre as pessoas piedosas que passavam a criticá-lo. Por isso o chamam de comilão e de beberrão.
        Por que Jesus assumia um comportamento assim ambiguo? Responder a isso é identificar sua experiência espiritual e sua forma de entender Deus. Jesus experimenta um Deus que é Pai de infinita bondade e que, por isso, assume características de mãe: acolhe a todos, a bons e a maus e revela uma misericórdia ilimitada. A forma como Jesus expressa a misericórdia de Deus é ser ele mesmo misericordioso, coerente com o que aconselhava aos outros: “sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso”. Em razão disso, se misturava às pessoas de má fama para que, em contacto com ele, pudessem sentir a misericórdia divina.
        Para facilitar a compreensão dos piedosos que se escandalizavam, narra três parábolas: a da moeda perdida, a da ovelha desgarrada e a mais conhecida de todas, a do filho pródigo. Cada parábola termina com estas palavras consoladoras: ”alegrai-vos comigo porque encontrei a ovelha desgarrada, a moeda perdida e porque este meu filho estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi encontrado”.
        Precisamos ser duros de coração e faltos de espiritualidade para não apreciarmos essa experiência de Deus como Pai de misericórdia. Há conteúdos no cristianismo como este que, independentemente de termos ou não fé, possuem relevância humanística indiscutível. Mais que sermos religiosos convidam-nos a sermos mais humanos para com os que erram. Assim é com a dimensão de misericórdia e de compaixão da prática de Jesus, nisso nada diferente de Buda.
        Como o amor é incodicional, incondicional é também a misericórdia. Nisso a parábola do filho pródigo é explícita. A novidade não reside no fato de o filho voltar ao pai, depois de haver esbanjado tudo e se encher de remorsos e de saudades. A novidade reside no fato de o pai voltar ao filho: ao vê-lo na curva da estrada, o pai corre-lhe ao encontro, lança-se ao pescoço e cobre-o de beijos. Não lhe cobra nada. Ao contrário, prepara-lhe uma festa.
        Com isso Jesus quis deixar claro: Deus é um Pai materno ou uma Mãe paterna que sempre volta para os filhos e filhas, por malévolos que sejam, porque nunca lhe saem do coração.
        As Igrejas, diferentes de Jesus, raramente se voltam para as pessoas para que façam uma experiência de misericórdia. Antes, continuam a aterrorizar a consciências com as chamas do inferno. Escolhem o caminho mais cômodo, o do moralismo, reforçando o medo que mantém cativa a liberdade e torna triste a vida.
        Jesus mesmo denuncia essa atitude, presente no filho bom que ficou em casa, à sombra do pai. Ele se nega a voltar para o irmão. Quer a observância da norma e a aplicação do castigo. Esse filho bom é o único a ser criticado por Jesus. Para Jesus não basta sermos bons. Importa sempre voltar para o outro e mostrar amor e misericórdia.
        Pai e filho voltam um ao outro: fecha-se o círculo e surge então a irradiação da humanidade.

        Desculpe o comprimento das reflexões.Artigos publicados no JB online e no meu blog.
        um abraço
        lboff

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  38. Desculpa mas, em primeiro lugar, você não respondeu nenhuma das minhas perguntas (sobre as categorias adequadas, sobre o lugar metodológico do arquétipo e da produção das subjetividades na sua análise, sobre a essencialização das identidades de gênero e, o mais importante, sobre como ficam as famílias monoparentais, homoparentais ou outras que não se encaixam no modelo nuclear hegemônico). Em segundo lugar, devo dizer que estatísticas servem muito bem para o jornalismo. Mas, para as ciências humanas, as estatísticas só servem se forem problematizadas, coisa que não vi no texto que vc postou acima. Vamos pegar um exemplo meramente ilustrativo: “dados oficiais dos EUA apontam para um maior índice de violência no país entre comunidades imigrantes islâmicas.” O que a mídia faz com esses dados? Os joga no jornal para mostrar como os muçulmanos são problemáticos para a sociedade americana (e a sociedade é que se vire para lidar com os preconceitos e tensões que esse tipo de “informação” produz). Por sua vez, o que as ciências sociais fazem com esses dados? Aprofundam a abordagem sobre essas comunidades e apontam quais são as conjunturas múltiplas que se intersectam desencadeando situações de violência e opressão. Acredito que a psicanálise, ao fazer uso de dados estatísticos, o faz de maneira a problematizá-los e não tomando-os como verdades absolutas que supostamente explicam determinadas situações complexas, tais como são as relações parentais, não é?
    Finalmente, em terceiro lugar, não acredito que estamos a discutir sobre a mesma coisa. Eu estava realmente interessada em discutir ciência, seja ela articulada à psicanálise, à sociologia, antropologia, história… As suas crenças definitivamente não me interessam e não acrescentam nada para o debate que eu tentava propor. Afinal, você não estava a falar sobre literatura psicanalítica? Até onde eu sei, a bíblia não entra nesta literatura. E a menos que o mundo inteiro seja católico e siga a bíblia, nem forçando muito, ela serviria como fonte neste caso.
    E, então, acabamos por voltar à estaca zero. Estacionamos novamente naquele ponto em que as ideologias dominantes e conservadoras evocam valores religiosos e desqualificam trabalhos acadêmicos e lutas sociais pela garantia de direitos e liberdades individuais. Felizmente, há muita gente comprometida em refletir, num âmbito laico, sobre a existência de múltiplas possibilidades de se preceber e vivenciar o mundo para além do que está escrito na bíblia e para além de conservadorismos excludentes.
    E por aqui encerro minha participação neste debate. Vale deixar claro que não é a minha intenção desrespeitar a sua fé. Só acredito que, como já disse antes, defender a figura do pai, nos termos heteronormativos que vc propõe, enquanto fundamental no processo educativo, só reforça e reproduz uma visão hegemônica de família que exclui muitas outras que já existem e lutam por legitimidade. Ou seja, essa é uma questão política importantíssima para a realidade em que vivemos e, vista pelos olhos da fé, ela segue sendo excludente.

    Obrigada mais uma vez.
    Lira

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    • Lira,
      Marx tinha toda a razão: a ignorância não ajuda a ninguem. Seu horizonte é muito estreito, ficou com o paradigma cientifico do seculo XIX. É cientifista quando as ciências hoje trabalham o complexo e não o reduzem ao simples e ao linear e dialogando com os vários tipos de saberes, pois cada um abre janelas sobre o real. Se quiser aprofundar em termos cientificos e epistemológicos estes problemas, aconselho ler o livro que eu junto com um cosmologo norte-americano Mark Hathaway escrevemos: “O Tao da Libertação:explorando a ecologia da transformação”. F.Capra, velho amigo e interlocutor, ao ler o manuscrito quis fazer e fez um belo prefácio. O livro ganhou nos USA a medalha de ouro em Nova Ciência e Cosmologia em 2010. O livro é acessível na Editora Vozes 2012.Porque não aceita argumentos que venham da religião (e da ética?), rejeita com facilidade os conhecimentos que venham de outra área que não seja a sua. Hoje há a aliança dos saberes.Leia o livro do Nobel de Quimica Ilya Prigogine de quem ouvi palestras em Bruxelas, A Nova Aliança, UNB 2000.Terá muito que aprender de sua visão.
      Fique em paz
      lboff

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      • Confesso que agora eu achei graça! Sintetizando: primeiro você me diz que eu deveria conhecer melhor as teorias psicanalíticas e que eu estava socializando demasiado. E então eu levanto questões de cunho antropológico, sociológico e político e tento articulá-las com a psicanálise pedindo, para isso, a sua opinião enquanto autoridade no assunto (já que você se apresentou como tal). O que eu recebo de volta é um artigo que usa dados estatísticos (sem fonte) e passagens da bíblia. Daí eu digo que as crenças religiosas não sustentam o debate, visto que estamos a falar de relações familiares num mundo que não é interiamente católico ou cristão. Ou seja, eu queria debater a questão num âmbito mais laico e abrangente. E então você cita Marx pra falar que sou ignorante e que minha visão é estreita! Uma dúvida: era mesmo do Karl Marx que vc estava falando? Aquele que defendeu que a igreja católica e a bíblia eram instrumentos eficientes de alienação e manipulação social? A conversa realmente ficou um bocado esquizofrênica depois disso… Marx deve ter se revirado no caixão!

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  39. Excelente comentário do excelentíssimo Frei Leonardo Boff. Trabalho na Escola de Pais do Brasil e sempre citamos seus artigos. Aprendo sempre com ele. É um grande pensador e formador de “gente” no Brasil. Meus parabéns!

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