O fim do princípio-Adão: o feminino é anterior ao masculino

                          Leonardo Boff       

   (Texto dedicado às bravas mulhres e meninas da comunidade ICL)

A vida já existe na terra, há 3,8  bilhões de anos. O antepassado comum de todos os viventes foi provavelmente um bactéria unicelular sem núcleo que se multiplicava espantosamente por divisão interna ou por clonagem. Na clonagem, se não houver controle sobre a bactéria, em três dias ela toma conta do planeta, tal é  sua vontade de vida e de auto-multiplicação. Mas sempre prevalece um equilíbrio que autolimita este processo, caso contrário teríamos graves desequilíbrios ecológicos a ponto de a vida se tornar impossível. Isso durou cerca de um bilhão de anos.

Em seguida, surgiu uma célula com membrana e dois núcleos, dentro dos quais se encontravam os cromossomos. Nela se identifica a origem do sexo. Quando ocorria a troca de núcleos entre duas células binucleadas, gerava-se um único núcleo com os cromosssomos em pares. Antes, as células se subdividiam por clonagem, agora se dá pela troca entre duas  diferentes com seus núcleos.. Revela-se assim a simbiose – composição de diferentes elementos – que junto com a seleção natural representa uma, não a única,, das forças  mais importantes da evolução.

O que muitos biólogos sustentam  – inclusive o astrofísico Stephen Hawking, em seu livro “O Universo numa Casca de Noz“(Mandarim, São Paulo 2001) – na evolução e no processo biogênico não há simplesmente o triunfo do mais adaptável como pretendia Darwin. Tal visão é ainda insuficiente, pois não toma em conta as interdependências existentes entre todos os seres, já no seu nível físico-químico,  bem antes do surgimento da vida. É essa interdependência, a cooperação de todos com todos que constitui a linha mestra do processo evolucionário.

A competição com a chance do mais adaptável triunfar só é possível no interior da interdependência e cooperação universal. O fraco também possui a sua chance e o seu lugar e graças à interdependência sobrevive. Este princípio originário da interdependência de todos com todos funda a sustentabilidade e explica a bio-diversidade e a pujança da vida.   

Christian de Duve, prêmio Nobel de medicina, chega a dizer em seu conhecido livro”Poeira vital: a vida como imperativo cósmico”, (Campus 1997) : “a vida, é como uma praga tão violenta que jamais se conseguiu exterminá-la” (p.368). Ocorreram na história da Terra quinze grandes dizimações de espécies vivas mas ela, a Terra viva, conseguiu sempre refazer a biodiversidade e ainda enriquecê-la.

Quando surgiu a sexualidade com a bi-polaridade masculino / feminino, veio junto a grande diversidade e a singularidade dos seres vivos. A troca do material genético se dá sempre sob um quociente quântico, isto é, sempre está vigente o princípio de indeterminação de Werner Heisenberg. Não se sabe jamais exatamente o que resulta  das conjunções e  que enriquecimentos ocorrem a partir  dos dois tipos de capital genético, do feminino e do masculino.

Tal fato tem consequências filosóficas: a vida é tecida mais de trocas, de cooperação e de simbiose do que da luta competitiva pela sobrevivência e pela concorrência  como no nível dos negócios de molde capitalista.

 Quando se alcança o nível consciente e livre, essa riqueza e essa troca,  passam da dimensão  da exterioridade biológica, para a interioridade subjetiva, vale dizer, para o projeto pessoal. A sexualidade pode se transformar em um propósito de vida, vivido a dois e  em liberdade, expresso pelo amor. Esta opção não é mais regida  pelo código genético que a biologia descreve. Aqui valem outros princípios ligados à inovação, à liberdade, à cooperação consciente, ao cuidado, ao amor sobre os quais se estruturam relações novas, criativas e livres também entre homem com homem ou mulher com mulher.

Retomando o fio da meada: nos dois primeiros bilhões  de anos, nos oceanos ou nos lagos, de onde irrompeu a vida, não existiam órgãos sexuais específicos. Existia uma existência feminina generalizada que no grande útero dos oceanos, lagos e rios, gerava vidas. Nesse sentido podemos dizer que o princípio feminino é primeiro e originário e não o masculino. Assim se invalida o mito bíblico e cultural da primazia de Adão (do masculino).

Só quando  os seres vivos deixaram o mar, lentamente foi surgindo o pênis, algo masculino, que tocando a célula fêmea passava a ela parte de seu DNA, onde estão os genes.

Com o aparecimento dos vertebrados, os répteis, há 370 milhões de anos, estes criaram o ovo amniótico cheio de nutrientes e consolidaram a vida em terra firme. Com o aparecimento dos mamíferos há cerca de 125 milhões de anos já surgiu uma sexualidade definida de macho e de fêmea. Aí emerge o cuidado, o amor e a proteção da cria. Há 70 milhões de anos compareceu o nosso ancestral humano que vivia na copa das árvores, nutrindo-se  de brotos e de flores. Com o desaparecimento dos dinossauros há 67 milhões de anos, ele pode ganhar o chão e se desenvolver chegando até aos dias de hoje.

Cabe detalhar melhor a complexidade implicada na  sexualidade.

O sexo genético-celular humano apresenta o seguinte quadro: a mulher se caracteriza por 22 pares de cromossomos somáticos mais dois cromossomos X (XX). O do homem possui também 22 pares, mas com apenas um cromossomo X e outro Y (XY). Daí se depreende que o sexo-base é feminino (XX) sendo que o masculino (XY) representa uma derivação dele por um único cromossomo (Y). Portanto, não há um sexo absoluto, apenas um dominante. Em cada um de nós, homens e mulheres, existe “um segundo sexo”.

Com referência ao sexo genital-gonodal importa reter que nas primeiras semanas, o embrião apresenta-se andrógino, vale dizer, possui ambas as possibilidades sexuais, feminina ou masculina. A partir da oitava semana, se um cromossomo masculino Y penetrar no óvulo feminino, mediante o hormônio androgênio a definição sexual será masculina. Se nada ocorrer, prevalece a base comum, feminina. Em termos do sexo genital-gonodal podemos dizer: o caminho feminino é primordial. A partir do feminino se dá a diferenciação, o que desautoriza o fantasioso “princípio-Adão”. A rota do masculino é uma modificação da matriz feminina, por causa da secreção do androgênio.

Existe ainda o sexo hormonal. Todas as glândulas sexuais no homem e na mulher são comandadas pela hipófise, sexualmente neutra e pelo hipotálamo que é sexuado. Estas glândulas secretam no homem e na mulher os dois hormônios: o andogênio (masculino) e o estrogênio (feminino). São responsáveis pelas características secundárias da sexualidade. A predominância de um ou de outro hormônio, produzirá uma configuração e um  comportamento com características femininas ou masculinas. Se no homem houver uma impregnação maior do estrogênio, terá alguns traços femininos; o mesmo se dá com a mulher com referência ao androgênio,aparecendo alguns traços masculinos.

Por fim, importa dizer que a sexualidade possui uma dimensão ontologica. Quer dizer, o ser humano não possui sexo. Ele é sexuado em todas as suas dimensões, corporais, mentais e espirituais. Antes da emergência da sexualidade, o mundo é dos mesmos e dos idênticos. Com a sexualidade emerge a diferenciação pela troca entre diferentes. São diferentes para poderem estabelecer laços de convivência e de interrelação.

Tal fato tem consequências antropológicas: a vida é tecida mais de trocas, de cooperação e de simbiose do que da luta competitiva pela sobrevivência.

É o que ocorre com a sexualidade humana: cada um, além da força instintiva que sente em si, sente também a necessidade racional-afetiva de canalizar e sublimar tal força. Quer  amar e ser amado, não por imposição mas por liberdade. A sexualidade desabrocha no amor, a força mais poderosa “que move o céu e as estrelas”(Dante) e também nossos corações. É a suprema realização que o ser humano pode almejar. Mas retenhamos: o feminino é anterior, ele surge primeiro e é básico. O masculino só veio muito mais tarde no processo da sexogênese. Mas ambos se encontram para compor a unidade diversificada da espécie humana, de mulher e de homem.

Leonardo Boff escreve para a revista LIBERTA (https:// www.revistaliberta.com.br); escreveu também com Rose-Marie Muraro: Feminino-masculino:uma nova consciência para o encontro das diferenças,Record RJ 2010 (https://www.leonardoboff.org).

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