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Uma ética do respeito ilimitado

10/01/2020

A produção de um programa humorístico pelo Grupo Porta dos Fundos que teria sugerido uma eventual relação homoafetiva de Jesus e as reações negativas de muitos e até  um atentado a bomba contra o local Porta dos Fundos, nos convidam a uma reflexão sobre o respeito. Este, o respeito, é um dos eixos básicos da ética de qualquer cultura e também necessário para a convivência pacífica das diferenças dentro de um Estado Democrático de Direito.

Para enriquecer a discussão que concerne também um Ministro STF que liberou o programa humorístico depois de ter sido proibido por outro juiz, convém propor as reflexões de um pensador que, mais do que ninguém, aprofundou a questão do respeito: Albert Schweitzer (1875-1965). Era oriundo da Alsácia, renomado exegeta bíblico e um reconhecido concertista de Bach.

Em consequência de seus estudos sobre a mensagem e a ética de Jesus, especialmente o Sermão da Montanha, que dava centralidade ao pobre e ao oprimido resolveu abandonar tudo, estudar medicina em 1913 e ir para a África como médico em Lambarene (Togo), exatamente para aquelas regiões que foram dominadas e exploradas furiosamente pelos colonizadores europeus.

Diz explicitamente, numa carta, que “o que precisamos não é enviar para lá missionários que queiram converter os africanos, mas pessoas que se disponham a fazer para os pobres o que deve ser feito, caso o Sermão da Montanha e as palavras de Jesus possuam algum valor. Se o Cristianismo não realizar isso, perdeu seu sentido. Depois de ter refletido muito, isso ficou claro para mim: minha vida não é nem a ciência nem a arte, mas tornar-me um simples ser humano que, no espírito de Jesus, faz alguma coisa, por pequena que seja”(A. Schweitzer, Wie wir überleben können, eine Ethik für die Zukunft 1994,25-26).

Em seu hospital no interior da floresta tropical, entre um atendimento e outro de doentes, tinha tempo para refletir sobre os destinos da cultura e da humanidade. Considerava a falta de uma ética humanitária como a crise maior da cultura moderna. Dedicou anos no estudo das questões éticas que ganharam corpo em vários livros, sendo o principal deles “O respeito diante da vida”(Ehrfurcht vor dem Leben).

Tudo em sua ética gira ao redor do respeito, da veneração, da compaixão, da responsabilidade e do cuidado para com todos os seres, especialmente, para com aqueles que mais sofrem.

Ponto de partida para Schweitzer é o dado proto-primário de nossa existência, a vontade de viver que se expressa:”Eu sou vida que quer viver no meio de vidas que querem também viver”(Wie wir überleben können,73). À “vontade de poder” (Wille zur Macht) de Nietszche, Schweitzer contrapõe a “vontade de viver” (Wille zum Leben). E continua :”A idéia-chave do bem consiste em conservar a vida, desenvolvê-la e elevá-la ao seu máximo valor; o mal consiste em destruir a vida, prejudicá-la e impedi-la de se desenvolver. Este é o princípio necessário, universal e absoluto da ética”(Ehrfurcht .52 e 73).

Para Schweitzer, as éticas vigentes são incompletas porque tratam apenas dos comportamentos dos seres humanos face a outros seres humanos e esquecem de incluir todas as formas de vida. O respeito que devemos à vida “engloba tudo o que significa amor, doação, compaixão, solidariedade e partilha”(op. cit. 53).

Numa palavra: “a ética é a responsabilidade ilimitada por tudo que existe e vive” (Wie wir überleben,52 e Was sollen wir tun, 29).

Como a nossa vida é vida com outras vidas, a ética do respeito deverá ser sempre um con-viver e um con-sofrer (miterleben und miterleiden) com os outros. Numa formulação suscinta afirma :”Tu deves viver convivendo e conservando a vida, este é o maior dos mandamentos na sua forma mais elementar”(Was sollen wir tun, 26).

Disso deriva comportamentos de grande compaixão e cuidado. Interpelando seus ouvintes numa homilia conclama:” Mantenha teus olhos abertos para não perderes a ocasião de ser um salvador. Não passe ao largo, inconsciente, do pequeno inseto que se debate na água e corre risco de se afogar. Tome um pauzinho e retire-o da água, enxuge-lhe as asinhas e experimente a maravilha de ter salvo uma vida e a felicidade de ter agido a cargo e em nome do Todo Poderoso. O verme que se perdeu na estrada dura e seca e que não consegue fazer o seu buraquinho, retire-o e coloque-o no meio da grama. ‘O que fizerdes a um desses mais pequenos foi a mim que o fizestes’. Esta palavra de Jesus não vale apenas para nós humanos mas também para as mais pequenas das criaturas”(Was sollen wir tun, 55).

A ética do respeito de Albert Schweitzer une inteligência emocional com a inteligência racional. Tudo o que impede o respeito de uns para com os outros, enfraquece a convivência social. Ninguém tem o direito de constranger o outro com a falta de respeito. Todas as liberdades possuem seu limite: manter sempre o respeito.

O maior inimigo da ética do respeito é o embotamento da sensibilidade, a inconsciência do valor fundamental do respeito ilimitado. Incorporando o respeito, o ser humano alcança o mais alto grau  de sua humanidade.

Se não respeitarmos todo ser, acabamos não respeitando o ser mais complexo e misterioso da criação que é o ser humano, homem e mulher, particularmente o mais vulnerável, o pobre, o doente e o discriminado. Sem o respeito e a veneração perdemos também a memória do Sagrado e do Divino que perpassam o universo e que emergem, de algum modo, na consciência de cada um.

Leonardo Boff é teólogo, filósofo e escritor.

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12 Comentários leave one →
  1. Ricardo Fernandes Braz permalink
    10/01/2020 12:59

    Não entendi. Para mim o Porta dos Fundos não desrespeitou ninguém. E se texto não toca nesse assunto. O sagrado é a Liberdade, no mais, é repressão, fobia, insegurança. Crer num ente supremo é uma opção como qualquer outra escolha. Não está acima de nenhuma escolha. Então, não há nenhum desrespeito no humor do Porta dos Fundos. Penso que haja falta de certeza nas crenças, pois quem precisa impor, não tem respeito.

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    • 10/01/2020 23:51

      Ricardo, não se deve simplificar as coisas e colocá-las todas no mesmo patamar. O Sagrado é algo do profundo do ser humano, um sentimento que surge num Einstein quando contempla o mistério do universo. Cala, se extasia, se enche de respeita face à grandeur de um céu estrelado. As religiões nasceram do sentimento do Sagrado. E os que a vivem cultivam o repeito e a veneração. Em nome de que razão assumimos o direito de desrespeitar esse sentimento? Uma liberdade que não se auto-limita se transforma em opressão, isso já Locke e Kant o disseram. Há limites que não limitam, mas impõem respeito. Quando ultrapassados alguém é ferido.Lboff

      Curtido por 3 pessoas

  2. 10/01/2020 15:03

    O principio da sabedoria é o temor a Deus(…) A visão panorâmica do mundo, infelizmente, nos arremete ao estado de contaminação em que se encontra o respeito. Infelizmente, a liberdade de alguns ( que não são poucos) ultrapassa as fronteiras da liberdade dos outros. Difamar Jesus foi algo que muito bem fizeram seus inimigos, aos quais dissera Ele, quando alegaram serem filhos descendentes de Abrão, “se fosses filhos de Abrão, creriam em mim, pelas obras que faço. Como não creem mim, não tens por pai Abrão! Sois filhos do Diabo. Tens por pai ao Diabo!
    Parabéns pelo extraordinário artigo esclarecedor e didático.

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  3. Amaurih permalink
    10/01/2020 19:42

    Concluindo… Os humoristas não tiveram o menor respeito para com a figura histórica de Cristo, isso sem entrarmos na questão religiosa, entre o respeito e a fama, mesmo que negativa, alcançaram o que queriam, o sucesso a partir das citações do grupo nas mídias… As reações, por certo esperadas por eles, não vão impedir de continuarem a buscar o sucesso a qualquer custo, mesmo mexendo com outras e qualquer figuras históricas, quanto mais polêmico mais sucesso…

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  4. Thiago Otávio permalink
    10/01/2020 21:19

    Muito interessante essa questão dos respeito, a pouco tempo li seu livro ”Saber cuidar, Ética do humano” Acho que tem muito haver com isso. Respeito e cuidado, duas características básicas da condição humana, algo que deve ser valorzado e louvado. Tenho aprendido bastante contigo professor Boff, aguardo notícia de próximos eventos.

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  5. Marízia Costa Crmo Lippi permalink
    10/01/2020 22:23

    Confesso que estava necessitando desta colocação. O lançamento do Porta dos Fundos para mim foi extremamente chocante. O AUGE DO DESRESPEITO!

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  6. Alfredo dos Santos Jr. permalink
    10/01/2020 22:26

    Excelente post, Leonardo. Poderia, por favor, indicar uma obra de Schweitzer, que fale mais sobre esta concepção de ética? Obrigado.

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  7. Flávio Silva permalink
    11/01/2020 3:54

    Excelente reflexão Leonardo Boff. Pontual serena e reflexiva. Grato

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  8. Manoel Ribeiro Castro Sá permalink
    11/01/2020 7:48

    Perfeito. Deveríamos exercer uma ética da compaixão do compartilhamento e do humanismo na prática de nosso cotidiano, baseado em Cristo e nos mais AUTÊNTICOS franciscanos. Uma pequena consideração talvez ao verdadeiro entendimento da “vontade de poder” em Nietzsche.

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  9. TARCISO COELHO permalink
    11/01/2020 12:55

    Viva e deixe-me viver.

    “A ética é a responsabilidade ilimitada por tudo que existe e vive” (Wie wir überleben,52 e Was sollen wir tun, 29).

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  10. Marízia Costa Carmo Lippi permalink
    11/01/2020 23:41

    Ninguém nos Ama como Deus. Jesus deu Sua Vida para nos salvar! Amor com amor se paga!

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  11. LUIZ TARCISO COELHO BEZERRA permalink
    13/01/2020 7:27

    Quando a culpa não é de ninguém, todos são culpados.

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